Tuas mãos cabiam dentro das minhas – Redação do Momento Espírita 3/5 (3)

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Quando tuas mãos ainda cabiam dentro das minhas e num abraço eu te fazia como que desaparecer, a ventania passava veloz e enfurecida, e feito árvore de raiz profunda, nada nos fazia mover.

Quando teus sonhos ainda cabiam dentro dos meus e uma dúzia e meia eram os habitantes da Terra, nem um dia sequer de sorriso se perdeu e de meu rosto sempre tiveste a expressão mais sincera.

Quando teus deuses do Olimpo eram apenas dois, socorrendo-te e atendendo-te na velocidade do pensar, percebi que servir me fez feliz, pois a entrega me deu sentido. Viver é se entregar.

Quando tua mente ainda era casa de brinquedo, que eu conhecia cômodo a cômodo, do teto ao chão;

quando ainda tua morada não possuía sequer um segredo, e o teu respirar, no colo, era letra da minha canção;

quando tua voz no mundo ainda era a minha, eu me desafiava tentando te entender.

Perdi-me de mim e encontrei a linha; teci no teu linho e aceitei te ensinar a tecer.

Quando teu ir e vir dependia do meu e ainda te levava para onde meu coração queria, já aceitava o futuro meu, o futuro teu, o dia em que esse meu amor, sem pesar, te libertaria.

* * *

Estudos mostram que até em torno dos seis meses, os bebês se percebem como extensão das mães, isto é, não se veem ainda como um outro ser.

As mães, por sua vez, pela intensa ligação que têm com os filhos, desde a vida intra-uterina, acabam tendo a impressão de que os filhos são como que partes de si mesmas.

Os filhos crescem. Enxergam-se como individualidades. Pensam por si só. Têm vontade própria e tornam-se independentes em quase tudo.

Por outro lado, muitos corações de mãe e de pai ainda permanecem com aquela impressão singela de que continuam sendo seus bebês. Como se uma parte de seu amor tivesse ficado mergulhado no passado…

Tornam-se nostálgicos, voltam a olhar os álbuns de fotografias para tentar entender quando foi que cresceram, quando foi que mudaram tanto e não conseguem encontrar…

Tudo isso é saudável quando serve para reforçar os laços, quando torna os vínculos cada vez mais fortes e perenes, impossíveis de serem afetados por qualquer dificuldade encontrada pelo caminho.

Os pais devem apenas ter atenção quando esses sentimentos descambam para as esferas da superproteção, do excessivo cuidado que sempre trazem prejuízo para todos na família.

Há o tempo de carregar no colo, de atender as vontades, de seguir as escolhas dos pais.

Depois há o tempo de caminhar ao lado, atender uma ou outra vontade e lhes dar a chance de fazer algumas escolhas.

E, por fim, o tempo de observar sua nova caminhada à distância, de permitir que eles mesmos satisfaçam suas vontades, aceitando as consequências de todas suas decisões e escolhas.

Não se trata de um abandono, mas é o momento em que os pais deixam de ser servos – e não há nada depreciativo nesta palavra – e passam a ser anjos de guarda.

Os anjos guardiões estão sempre presentes, atuam prontamente em toda necessidade, porém, não interferem no livre-arbítrio das criaturas. Aconselham, advertem, consolam. A decisão final é sempre do protegido.

Redação do Momento Espírita, com base no

poema Tuas mãos cabiam dentro das minhas,

de Andrey Cechelero.

Em 19.9.2017.

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