Livro O que é o Espiritismo – Capítulo I – PRIMEIRO DIÁLOGO: O CRÍTICO – Allan Kardec

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PRIMEIRO DIÁLOGO: O CRÍTICO

Visitante— Digo-lhe, senhor, que minha razão se recusa a admitir a realidade dos fenómenos extraordinários atribuídos aos Espíritos que, estou persuadido, existem apenas na imaginação.
Entretanto, temos que nos inclinar ante à evidência; e isso eu faria se tivesse provas incontestáveis.
Venho, pois, solicitar de sua bondade a permissão para assistir, não desejando tornar-me indiscreto, pelo menos a uma ou duas experiências que me convencessem, se isso for possível.

Allan Kardec.
— Caro senhor: se a sua razão se recusa a admitir o que nós consideramos fatos irrecusáveis, é que o senhor considera a sua razão superior à de todas as outras pessoas que não participam de suas opiniões.
Não duvido absolutamente de seus méritos e nem tenho a pretensão de alçar minha inteligência acima da sua.
Admita, pois, que eu esteja errado, pois é a razão quem lhe fala, e paremos por aqui.

V.
— Entretanto, se o senhor chegasse a convencer-me, a mim que sou conhecido como um antagonista de suas ideias, isso constituiria um milagre favorabilíssimo à sua causa.

A.
K.
— Lamento-o; mas não possuo o dom de fazer milagres.
O senhor pensa que uma ou duas sessões serão suficientes para o convencer? Isso seria, efetivamente, um verdadeiro prodígio.
Foi-me preciso mais de um ano de trabalhos para me convencer a mim mesmo, o que pode provar que, se hoje creio, a isso não cheguei levianamente.
Ademais, não organizo sessões; e, ao que parece, o senhor se engana quanto ao objetivo de nossas reuniões, de vez que não fazemos experiências tendo em vista satisfazer à curiosidade de quem quer que seja.

V.
— Quer dizer, então, que não se importa de fazer prosélitos?

A.
K.
— Por que, pois, desejaria eu fazer do senhor um prosélito, quando o senhor mesmo não deseja sê-lo? Não forço quaisquer convicções.
Quando encontro pessoas sinceramente desejosas de se instruírem e que me dão o prazer de solicitar esclarecimentos, torna-se-me uma satisfação e um dever responder-lhes nos limites de meus conhecimentos.
Quanto aos antagonistas, porém, que como o senhor têm convicções arraigadas, não dou um passo para os desviar, mesmo porque o número dos que encontro bem preparados é considerável; e isso me dispensa de perder tempo com os que não o estão.
A convicção virá, cedo ou tarde, pela força mesma das coisas; e os mais incrédulos serão arrastados pela correnteza.
Neste momento, uns partidários a mais ou a menos não pesam na balança.
Eis porque jamais serei visto preocupado em atrair às nossas ideias aqueles que têm tão boas razões, quanto o senhor, para se distanciarem delas.

V.
— Há, não obstante, mais interesse em me convencer do que o senhor imagina.
Permita que eu me explique com franqueza e prometa não se ofender com minhas palavras.
Eis as minhas ideias sobre a coisa em si, e não sobre a quem me dirijo.
É óbvio que posso respeitar a pessoa sem participar das suas opiniões.

A.
K.
— O Espiritismo ensinou-me a dar pouco valor às mesquinhas suscetibilidades do amor próprio, a não me ofender com palavras.
Se as suas ultrapassarem os limites da urbanidade e das conveniências, concluirei, apenas, que o senhor é um homem mal educado: só isso.
Quanto a mim, prefiro deixar nas pessoas os seus defeitos, a partilhar deles.
Observe, só por isso, que o Espiritismo, afinal de contas, serve para alguma coisa.
Repito-lhe, senhor: não tenho absolutamente a pretensão de o fazer participar de minhas opiniões.
Respeito a sua, se for sincera, assim como desejo que respeitem a minha.
Mas, considerando o Espiritismo um sonho absurdo, naturalmente, ao se encaminhar para minha casa, o senhor dizia de si para si: Vamos ver esse louco! Confesse-o francamente: não me zangarei por isso.
Todos os espíritas são loucos; isso é coisa convencional.
Pois muito bem! O senhor considera tudo isso como uma doença mental e eu sinto um certo escrúpulo, confirmando seu juízo, e me espanto de que, com tal pensamento, tivesse vindo adquirir uma convicção que o incluiria no número dos loucos.
Estando persuadido, de antemão, da impossibilidade de ser convencido, o senhor deu um passo inútil, pois só tem por finalidade satisfazer uma curiosidade.
Sejamos breves, pois; eu lhe peço.
Não tenho tempo a perder em conversas sem objetivo.

V.
— Podemos nos iludir e nos enganar, sem que por isso sejamos loucos!

A.
K.
— Fale sem rodeios.
O senhor insinua, como tantos outros, que isto é uma novidade de curta duração.
Mas é preciso convir que uma novidade, que em alguns anos fez milhões de prosélitos em todos os países, que conta, entre seus adeptos, sábios de toda ordem, que se difunde de preferência entre as classes cultas, é uma singular mania digna de ser examinada.

V.
— Tenho minhas ideias a respeito, é certo; mas não são tão firmes que não possam ser sacrificadas à evidência.
Disse-lhe que o senhor teria um certo interesse em convencer-me.
Confesso que tenho em vista publicar um livro no qual me proponho demonstrar, ex professo, aquilo que considero um erro.
Como esse livro deverá ter grande alcance e, ao que suponho, abrir uma brecha no Espiritismo, não o publicaria se chegasse a ser convencido.

A.
K.
— Eu me sentiria desolado, senhor, se o privasse dos benefícios de um livro que deve ter tamanha transcendência.
Aliás, não tenho interesse em sustar-lhe a publicação.
Muito pelo contrário, auguro-lhe uma grande popularidade, principalmente porque o mesmo nos servirá de prospecto e de anúncio.
O que é atacado, via de regra, desperta a atenção.
Inúmeras pessoas desejam conhecer os prós e os contras e a crítica as leva a conhecer, por si mesmas, coisas que não supunham existissem na questão.
É assim que, muitas vezes, e sem querer, faz-se reclame do que se tinha em mente combater.
A questão dos Espíritos é, por outro lado, cheia de palpitantes interesses; aguça a curiosidade a tal ponto, que basta chamar a atenção, para provocar o desejo de aprofundá-la (Nos tempos que se seguiram a este diálogo, escrito em 1859, a experiência demonstrou de sobejo a justeza da afirmativa).

V.
— Dessa maneira a crítica, na sua opinião, é inútil.
A opinião pública não vale nada?

A.
K.
— Não considero a crítica como expressão da opinião pública, mas como opinião pessoal, passível de engano.
Consulte a história e observe quantas obras primas sofreram críticas, quando de seu lançamento; entretanto, não deixaram de ser autênticas obras primas.
Se uma coisa for má, todos os elogios possíveis não chegarão a torná-la boa.
Se o Espiritismo é um erro, destruir-se-á por si mesmo; se é uma verdade, todas as diatribes imagináveis não o transformarão em mentira.
Seu livro será uma apreciação pessoal, o seu ponto de vista: — a verdadeira opinião pública decidirá se é exato.
Para isso desejarão ver a coisa em si.
E se mais tarde reconhecerem que ouve engano da sua parte, seu livro tornar-se-á tão ridículo, quanto os outros que foram publicados, não há muito tempo, contra a teoria da circulação do sangue, da vacina, etc.

Eu me esquecia, entretanto, de que o senhor vai tratar a questão ex professo, o que equivale a dizer que a estudou sob todos os aspectos; que já viu tudo o que se pode ver; leu tudo o que foi escrito sobre a matéria; analisou e comparou as diferentes opiniões; que esteve nas mais favoráveis condições de observação própria; que dedicou ao assunto suas vigílias durante anos inteiros; numa palavra: que não negligenciou absolutamente nada para chegar à constatação da verdade.
Sou levado a acreditar que tal se tenha dado porque o senhor é um homem sensato, e, também, porque só os que passaram por tudo isso têm direito de dizer que falam com conhecimento de causa.

Que pensaria de um homem que se erigisse em crítico de obra literária, sem conhecer literatura; de um quadro, sem ter estudado pintura? É princípio elementar de lógica que o crítico deve conhecer, não superficialmente, mas a fundo, aquilo que comenta.
De outra maneira, sua opinião se torna destituída de valor.
Para combater um cálculo, é preciso opor-se-lhe outro cálculo; mas para isso é preciso saber calcular.
O crítico não pode limitar-se a dizer que determinada coisa é boa ou má.
É mister que justifique sua opinião por uma demonstração clara e categórica, baseada nos próprios princípios da arte ou da ciência.
E como poderá fazê-lo se ignorar esses princípios? Poderia o senhor apreciar as qualidades e os defeitos de uma máquina, se não sabe mecânica? Não! Pois muito bem! Sua opinião sobre o Espiritismo, desde que o senhor o desconhecesse, não teria maior valor que a opinião emitida sobre a máquina.
Seria a cada instante apanhado em flagrante delito de ignorância, pois os que estudaram a matéria veriam imediatamente que o senhor estava alheio à questão e daí concluíram que o senhor não tem responsabilidade, ou que age de má fé.
Num e outro caso estaria exposto a receber desmentidos pouco lisongeiros ao seu amor próprio.

V, — Precisamente para evitar esse risco vim pedir-lhe que me permita assistir a algumas experiências.

A.
K.
— E o senhor pensa que só isso basta para falar ex professo do Espiritismo? Como poderia compreender essas experiências, julgá-las à luz da razão, se não estudou os princípios que lhes servem de base? Como poderia apreciar o resultado satisfatório de ensaios metalúrgicos, por exemplo, se não conhecesse a metalurgia a fundo? Permita-me dizer-lhe, senhor, que seu projeto é absolutamente idêntico ao de quem, ignorando Matemática e Astronomia, se dirigisse a um desses chefes de observatório, dizendo: Senhor, desejo escrever um livro sobre Astronomia, provando que o vosso sistema é falso.
Como, porém, ignoro os rudimentos dessa ciência, deixai que por uma ou duas vezes eu olhe através dos vossos telescópios; isso me bastará para ficar sabendo tanto quanto vós .

Apenas por extensão, a palavra crítica pode ser considerada sinónimo de censura.
Em sua acepção própria e segundo a etimologia, o termo crítica significa julgar, apreciar.
A crítica pode, pois, ser aprobativa ou desaprobativa.
Fazer a crítica de um livro não é necessariamente condená-lo.
Aquele que empreende essa tarefa não deve fazê-lo com ideias preconcebidas.
Se, porém, antes de abrir o livro, já o condena mentalmente, o exame feito não pode ser considerado imparcial.

Em semelhante caso enquadram-se em maioria as pessoas que falam do Espiritismo.
Só pelo nome formam uma opinião, e procedem como o juiz que proferisse uma sentença sem se dar ao trabalho de examinar os autos do processo.
Disso tem resultado que o julgamento descamba para a farsa e, em vez de persuadir, provoca riso.
Quanto aos que levaram o estudo da questão a sério, em sua maioria mudaram de opinião; e mais de um adversário tornou-se partidário, ao constatar que se tratava de coisa inteiramente diversa do que julgava.

V.
— O senhor fala do exame de livros, em geral.
Acredita que seja materialmente possível a um jornalista, ler e estudar todos os que lhe passam pelas mãos, sobretudo quando tratam de teorias novas, que demandariam de sua parte uma verificação aprofundada? Equivaleria a exigir de um impressor que lesse todas as obras saídas de seus prelos.

A.
K.
— A tão criterioso raciocínio não tenho mais nada a responder senão que, quando não se tem tempo para fazer uma coisa conscienciosamente, é melhor não se meter com ela.
É preferível fazer-se uma só boa, do que dez más.

V.
— Não pense, entretanto, que minha opinião seja fruto de leviandade.
Vi mesas girarem, ouvi pancadas, observei pessoas que escreviam, conforme asseguravam, sob influência dos Espíritos.
Mas estou convencido de que havia charlatanismo nisso tudo.

A.
K.
— E quanto o senhor pagou para apreciar tudo isso?

V.
— Coisa nenhuma, naturalmente.

A.
K.
— Eis aqui, então, charlatães de uma espécie singular e que reabilitarão este nome.
Até o presente não se tinha visto ainda charlatães desinteressados.
Se um certo pândego de mau gosto divertiu-se certa feita e ocasionalmente, com essas manifestações, seguir-se-á daí, forçosamente, que todas as outras pessoas sejam embusteiras? Ademais, a troco de quê tornar-se-iam cúmplices de uma mistificação? Para divertir a sociedade, dirá o senhor.
Admito que uma vez se preste alguém a um brinquedo.
Mas se uma brincadeira se prolonga por meses e anos é que, penso eu, o mistificador está sendo mistificado.
É concebível que, pelo simples prazer de fazer os outros acreditarem numa coisa que sabe ser falsa, se imobilize uma pessoa horas inteiras, sobre uma mesa? O prazer não pagaria o trabalho.

Antes de concluir pela fraude, é preciso, de início, perguntar-se a si mesmo que interesse pode haver na trapaça.
Ora, o senhor concordará que existem posições sociais que excluem toda suposição de embuste; pessoas cujo caráter, por si só, constitui garantia de probidade.

Coisa diversa seria se se tratasse de uma especulação, pois a ganância é má conselheira.
Admitindo-se, porém, que neste último caso uma manobra fraudulenta seja positivamente constatada, o fato nada prova contra a realidade do princípio.
Basta levar-se em conta que tudo é passível de abuso.
Porque se vendem vinhos falsificados, não se pode concluir que não exista vinho verdadeiro.
O Espiritismo não é mais responsável pêlos atos daqueles que abusam de seu nome, explorando-o, do que a ciência médica o é pêlos atos dos charlatães que impingem drogas, ou a religião pêlos atos dos sacerdotes que abusam de seu ministério.

O Espiritismo, por ser coisa recente, e por sua própria natureza, presta-se aos abusos.
Ele, porém, forneceu os meios de os reconhecer, deixando claramente definido o seu verdadeiro caráter, negando toda solidariedade aos que o exploram ou o desviam do seu objetivo exclusivamente moral, para o transformar em ofício, em instrumento de adivinhação ou de fúteis investigadores.

Uma vez que o próprio Espiritismo traça os limites em que se fecha, define o que prescreve e o que não prescreve, o que pode fazer e o que não pode fazer, o que está ou não está em suas atribuições, o que aceita e o que repudia, errados estão os que não se dão ao trabalho de estudá-lo e o julgam pelas aparências, pois, topando saltimbancos disfarçados em espíritas, para atraírem os transeuntes, dirão gravemente: Eis o que é o Espiritismo .

Afinal de contas, sobre quem recai o ridículo? Não é sobre o saltimbanco, que está no seu ofício, nem sobre o Espiritismo, cuja doutrina teórica desmente semelhantes asserções, mas exatamente sobre os críticos pretensiosos, que falam daquilo que não sabem ou que, sabendo, adulteram a verdade.
Os que atribuem ao Espiritismo o que é contrário à sua própria essência, ou o fazem por ignorância ou intencionalmente.
No primeiro caso existe leviandade; no segundo existe má fé.
Neste último caso agem como certos historiadores que adulteram os fatos históricos no interesse de um partido político ou de uma opinião.
Com o emprego de semelhantes meios, amiúde o partido se desacredita e não atinge o seu objetivo.

Note bem, senhor, que eu não pretendo que a crítica deva, necessariamente aprovar nossas ideias, mesmo depois de as ter estudado.
Não nos revoltamos absolutamente contar os que não pensam como nós.
Aquilo que se nos torna evidente pode não se afigurar tal a outras pessoas.
Cada um julga as coisas do seu ponto de vista; do fato mais positivo nem todos deduzem idênticas consequências.
Se, por exemplo, um pintor põe no seu quadro um cavalo branco, alguém poderá dizer que produz um mau efeito e que um cavalo preto ficaria muito melhor.
Seria erro, entretanto, dizer que, sendo preto, o cavalo é branco.
É o que faz a maior parte dos nossos adversários.

Em suma, cada qual é perfeitamente livre de aprovar ou desaprovar os princípios do Espiritismo, de deduzir deles as consequências boas ou más que lhe aprouverem.
Mas a consciência impõe um dever a todo crítico honesto: o dever de não dizer o contrário daquilo que realmente é.
Ora, para isso, a primeira condição é calar sobre o que ignora.

V.
— Eu lhe peço para voltarmos às suas mesas que se movem e falam.
Não poderia acontecer que fossem preparadas de antemão?

A.
K.
— É sempre a questão de boa fé, à qual já dei resposta.
Quando um embuste for averiguado, eu o chamarei para seu exame.
Se encontrar fatos constatados, de fraude, de charlatanismo, de exploração ou de abuso de confiança, entregarei os culpados ao seu açoite, declarando-lhes antes que não lhes tomarei a defesa, pois o Espiritismo verdadeiro será o primeiro a repudiá-los, porque acusar os abusos é ajudar a evitá-los e prestar um serviço à doutrina.
Mas generalizar semelhantes acusações, lançar sobre um certo número de pessoas respeitáveis a pecha que merecem determinados indivíduos isolados é um abuso e, de certo modo, uma calúnia.

Admitindo, como o senhor supõe, que as mesas estivessem preparadas, fora preciso um mecanismo assaz engenhoso para executar movimentos e ruidos tão variados.
Como, então não se conhece ainda o nome do hábil artífice que os confecciona?

Ele deveria, entretanto, desfrutar de uma grande celebridade, visto que seus aparelhos estão espalhados pelas cinco partes do mundo.
É preciso também convir que o processo é terrivelmente engenhoso, uma vez que pode adaptar-se à primeira mesa que se tenha à mão, sem que fiquem quaisquer traços exteriores.
Por que será que, desde Tertuliano, que já andava às voltas com as mesas girantes e falantes, até a atualidade, jamais alguém conseguiu vê-lo ou descrevê-lo?

V.
— Nisso o senhor se engana.
Um célebre cirurgião constatou que certas pessoas podem, pela contração de um músculo da perna, produzir um ruído semelhante ao que se atribui à mesa.
Daí ele conclui que os médiuns divertem-se à custa da credulidade.

A.
K.
— Então, se é um estalido do músculo não é a mesa que está preparada.
Se cada um explica esse pretenso embuste à sua maneira, isso constitui a prova mais evidente de que desconhecem a verdadeira causa.

Respeito a competência desse eminente facultativo, mas a aplicação, às mesas falantes, do fato assinalado por ele, apresenta-se-me com certas dificuldades.
Primeiramente, acho singular que essa faculdade, até o presente excepcional e observada como um caso patológico, tenha-se tornado subitamente tão comum.
Depois, é preciso ter-se uma renitente vontade de mistificar, para ficar castanho-lando um músculo durante duas ou três horas seguidas, sem que isso resulte dor e cansaço.
Afora isso, não posso compreender como é que o referido músculo entra em contato com portas e paredes, nas quais se fazem ouvir os golpes.
Minha quarta razão, finalmente, é que é necessário emprestar a esse músculo uma propriedade maravilhosa, qual a de pôr em movimento uma mesa pesada, suspendê-la, abri-la, fechá-la, mante-la no ar sem ponto de apoio e, por fim, despedaçá-la deixando-a cair.
Certamente ninguém desconfiava que esse músculo possuísse tanta força.
(Revue Spirite, Junho de 1859, pág.
141: Lê muscle craqueur).

O célebre cirurgião de que o senhor fala terá estudado o fenómeno da tiptologia naqueles que o produzem? Não! Observou um efeito fisiológico anormal em certos indivíduos que jamais se ocuparam com as mesas girantes, efeito esse que tem certa analogia com os ruídos nelas produzidos e, sern maior exame, concluiu, com toda a autoridade da sua ciência, que todas as pessoas que fazem as mesas falar devem ter a propriedade de fazer estalar o músculo curto-perônio e que não passam de embusteiros, quer sejam príncipes quer operários; quer recebam pagamento, quer não o recebam.
Terá entretanto, ao menos, estudado o fenómeno da tiptologia em todas as suas fases? Terá verificado se, com o auxílio do estalido muscular, é possível produzir todos os efeitos tiptológicos? Não, é lógico; pois de outro modo ter-se-ia convencido da insuficiência do processo.
Mas isso não o impediu de apresentar, de proclamar sua descoberta em pleno Instituto.
Para um homem de ciência não será um julgamento demasiado apressado? E quem ainda pensa assim, hoje em dia? Confesso que se tivesse de sofrer uma intervenção cirúrgica, hesitaria bastante em confiar nesse especialista, temeroso de que diagnosticasse o meu caso com tão minguada perspicácia.

Já que esse juízo parece ser uma das autoridades sobre as quais o senhor se apoia para abrir uma brecha no Espiritismo, fico inteirado da força dos outros argumentos que apresentará, caso não os tenha buscado em fontes mais autorizadas.

V.
— O senhor não negará, entretanto, que as mesas girantes já saíram de moda.
Durante certo tempo fizeram furor: hoje delas ninguém se ocupa.
Por que, se se trata de coisa tão séria?

A.
K.
— Porque as mesas girantes foram o ponto de partida de uma coisa mais séria ainda.
Delas saiu toda uma ciência, toda uma doutrina filosófica, do maior interesse para os pensadores.
Quando estes esgotaram a fonte de observações das mesas em movimento, delas não se ocuparam mais.
Para as pessoas fúteis, que não se importam em aprofundar as coisas, o fenómeno era um passatempo, um divertimento que abandonaram quando se aborreceram dele.
Essas pessoas são um ponto morto na ciência.
O período de curiosidade teve o seu tempo.
Sucede-o o da observação.
O Espiritismo passou então ao domínio de indivíduos criteriosos, que nele não encontraram motivo de divertimento, mas de instrução.
Também essas pessoas, que o consideram coisa séria, não se prestam a quaisquer experiências visando satisfazer à curiosidade e, menos ainda, destinadas à observação de pessoas movidas por intenções hostis.
Como eles próprios não se divertem, não procuram divertir os outros.
Eu pertenço a esse número.

V.
— Entretanto, só a experiência pode convencer mesmo aqueles que de começo eram movidos pela curiosidade.
Se o senhor trabalha exclusivamente em presença de pessoas convictas, permita que lhe diga que faz prédica a convertidos.

A.
K.
— Uma coisa é estar convencido e outra estar disposto a ser convencido.
A estes últimos é que me dedico e não aos que julgam rebaixar sua capacidade de raciocínio, vindo escutar o que classificam de fantasias.
Com estes não me preocupo, absolutamente.
Quanto aos que dizem ter o mais sincero desejo de se esclarecerem, a melhor maneira que têm de o provar é demonstrar perseverança.
Reconhecemo-los, não pelo desejo de assistir a uma ou duas sessões, mas pelo desejo sincero de trabalhar.

A convicção só se adquire com o tempo, através de uma série de observações feitas com zelo todo especial.
Os fenómenos espíritas diferem essencialmente dos que se nos apresentam nas ciências exatas: não se produzem à vontade do experimentador.
É preciso colhê-los quando se apresentam.
Só observando muito e longamente, se descobre a infinidade de provas que escapam à primeira vista, principalmente quando não se está familiarizado com as condições em que se podem dar, e se as sondarmos com espírito de prevenção.
Para o observador agudo e constante, as provas abundam: uma palavra, um fato aparentemente sem significação podem constituir um raio de luz, uma confirmação.
Para o observador superficial ou adventício, para o que é movido por simples curiosidade, nada seria.
Eis porque não me presto às experiências cujo resultado não pode ser assegurado.

V.
— Mas, enfim, tudo quer um princípio.
Que pode fazer o estreante que não sabe nada, que não viu coisa nenhuma e que deseja esclarecer-se, se o senhor lhe nega os meios?

A.
K.
— Faço uma distinção considerável entre o incrédulo por ignorância e o incrédulo sistemático.
Quando vejo disposições favoráveis em alguém, nada me custa esclarecê-lo.
Pessoas há, entretanto, em quem o desejo de instruir-se é apenas uma falsa aparência.
Com esses, a gente perde tempo porque, se não encontrarem imediatamente aquilo que parecem procurar, e que, muito provavelmente, os aborreceria se encontrassem, o pouco que vêem é sempre insuficiente para lhes destruir as prevenções.
Julgam mal o que viram e aí encontram motivos para caçoadas.
Donde se conclui que é um contra-senso fornecer esses motivos.
Direi ao que tiver o desejo de instruir-se: Não se pode fazer um curso de Espiritismo experimental como se faz um curso de Física ou de Química, pois a ninguém é dado provocar os fenómenos à vontade.
Além disso, as inteligências que são os seus agentes muitas vezes frustram nossas previsões.
Os que, acidentalmente, poderá ver, não apresentam continuidade nem a necessária ligação, e seriam pouco inteligíveis para o senhor.
Instrua-se primeiro pela teoria.
Leia as obras que tratam dessa ciência e medite.
Nelas encontrará os princípios fundamentais, a descrição de todos os fenómenos.
O senhor compreenderá sua possibilidade pela explicação dada e pela descrição de inumeráveis fenómenos espontâneos de que, muito possivelmente, mais de uma vez foi testemunha involuntária, e que lhe retornarão à memória.
Irá assim se inteirando de todas as dificuldades que ocasionalmente se lhe podem apresentar e adquirirá uma convicção moral preliminar.
Então, quando se lhe apresentarem as circunstâncias de ver ou de operar por si mesmo, saberá agir, qualquer que seja a ordem em que os fatos se apresentem, visto já nada mais lhe ser estranho .

Senhores: eis o que aconselho a todo aquele que desejar instruir-se; e, pela resposta, fácil me é conhecer se o move alguma coisa mais que simples curiosidade.

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