ASTÚCIA E CRIATIVIDADE – Livro – Amor Imbativel Amor 5/5 (1)

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O instinto, por não possuir a faculdade de pen­sar, adquire e exterioriza a astúcia, que é um meca­nismo, através do qual consegue o que persegue.
Habilidade, perseverança, artimanhas fazem par­te dessa manifestação que tipifica diversos animais dentre os quais alguns seres humanos.
A criatividade se deriva da faculdade de pensar, que se renova sem cessar.
Considerava J. Paul Sartre que o homem se reinventa, que está sempre engendrando idéias, meios e formas para ser novo, para estar novo.
Naturalmente, o homem criativo é capaz de rein­ventar-se, de sair da rotina, de buscar novos desafi­os e entregar-se a contínuos anelos de evolução.
As artimanhas do instinto preservam a vida do animal, quando se mimetiza a fim de livrar-se dos predadores, seus inimigos naturais que, não fosse esse valioso recurso da natureza, exterminariam as espécies de que se nutre e, graças às quais, sobrevi­ve.
Quando esse instinto não se encontra iluminado pela consciência desperta, lúcida, e direciona o ser, surge-lhe a astúcia em detrimento da inteligência, tornando-o adaptável em quaisquer situações, pusi­lânime, aderindo e vinculando-se a pessoas e cir­cunstâncias, sem a sua identidade pessoal nem as específicas características psicológicas. Mente, enga­na, trai, considerando-se inteligente e subestimando a inteligência dos demais. Porque age, direcionado pelo instinto, inventa, sem criatividade, escusas, esclarecimentos, projetando sempre a sombra, até ser desmascarado ou relegado a plano secundário, con­siderado pernicioso ao meio social.
A criatividade inspira à busca do real, embora no campo imaginário, conduzindo o ser psicológico à aquisição de recursos que o emulam ao desenvol­vimento das potencialidades nele jacentes. Quando bem direcionada, supera a fantasia, que se lhe pode antecipar, penetrando no âmago das coisas e ocor­rências com que compõe novos cenários e estabelece produtivos objetivos.
O ser criativo sai das situações menos felizes sem amarguras ou seqüelas dos insucessos e desgos­tos experimentados, convertendo-os em lições de vida mediante as quais progride em tranqüilidade.
Somente a criatividade pode manter as pessoas que experimentam superlativas dores e excruciantes abandonos, perseguições e impiedades.
Quando despidas de tudo — haveres, família, ami­gos, títulos — não são despojadas de si mesmas, com as quais contam, reconstruindo a autoconfiança e pro­jetando-se no futuro.
O astuto busca enganar, enganando-se.
Inseguro, tenta a lisonja, o enredo falso e se ema­ranha na tecedura da rede de ilusões.
O criativo, quando sofre o presente, recupera mentalmente o passado, revivendo-o, recompondo as cenas e programando o futuro. Se, por acaso, o seu foi um passado menos feliz, repara-o, reexami­na-o e tenta descobrir-lhe os pontos vulneráveis do comportamento que lhe brindou as conseqüências perturbadoras. Ao delinear o futuro reforça a cora­gem e a vigilância, trabalhando-se para os enfrenta­mentos, sempre de maneira nobre, a fim de não perder o respeito nem a dignidade para consigo mesmo.
A astúcia não resiste à análise inteligente por falta de suporte real, basilar, para as suas propostas. Quem a cultiva, permanece infantil, mente à mãe castradora ou superprotetora, ao pai dominador ou negligente, escondendo agora a realidade como fa­zia na infância, por medo ou para estar nas graças, porém em permanente conflito que muda apenas de apresentação.
Essa couraça do medo que comprime e libera os mecanismos de fuga da realidade e do dever, deve ser removida pela energia da razão, em exame cui­dadoso quanto aos resultados da conduta, elegendo aquela que não produza danos mais tarde, apesar dos riscos e desagrados do momento.
A criatividade dá sentido à existência, que não estaciona ante o já conseguido, demonstrando a ex­celência de tudo quanto falta para ser alcançado.
Liberta do encarceramento elaborado pelo ego, rompendo o círculo da comodidade e impulsionan­do a novas experiências.
A mente criativa é atuante e renovadora, propi­ciando beleza ao ser, que se faz solidário no grupo social, participante dos interesses gerais, aos quais se afeiçoa, enquanto vive as próprias expectativas elaboradas pelo pensamento idealista.
A mente astuta, anestesiada pela ilusão, nega-se à aceitação da realidade por temor de ver desmoro­nar o seu castelo de sonhos, e ter que se enfrentar despida das mentiras e quejandos. Momento porém, chega, no qual se rompe essa couraça constritora — o sofrimento, o amor, o conhecimento, a alegria legíti­ma afloram — e surge, num parto feliz, a criatividade enriquecedora, equilibrada e tranqüila, proporcionan­do saúde psicológica.

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