19 O INTELECTUAL – DIÁLOGO COM AS SOMBRAS HERMÍNIO C. MIRANDA

19 O INTELECTUAL – DIÁLOGO COM AS SOMBRAS HERMÍNIO C. MIRANDA

Nem sempre é materialista.
A escala cromática aqui é ampla e variada.
Encontramo-los de todos os feitios, variedades e tendências.
Há-os descrentes, indiferentes, materialistas, espiritualistas, religiosos ou não.
Foram escritores, sacerdotes, artistas, poetas, médicos, advogados, nobres, ricos, pobres.
Quase sempre se deixaram dominar por invencível vaidade, fracassando na provação da inteligência.

No binômio cérebro/coração, no qual o homem deve buscar equilíbrio, deixaram disparar na frente um dos componentes, em sacrifício do outro.
Brilhantes, demoram-se na doce e venenosa contemplação narcisista da própria inteligência, fascinados pelos seus mecanismos, sua engenhosidade e os belos pensamentos que produzem.
Julgam-se geniais — e muitas vezes o são mesmo.
São bons argumentadores e, quando movidos para objetivos bem definidos, tornam-se verdadeiramente difíceis de serem despertados, pois se acham solidamente convencidos do poder e da força das suas próprias fantasias, suas doutrinas, seus sofismas e suas auto-justificações.

Vemo-los, às vezes, na condição de ex-sacerdotes também, como exímios criadores de tais sofismas.
Estudaram profundamente os Evangelhos e a teologia ortodoxa.
Leram os seus filósofos, escreveram tratados, pregaram sermões belíssimos, do ponto de vista literário, e tanto consolidaram suas construções, que acabaram acreditando nelas.
São estes que constituem o diálogo mais difícil para o doutrinador.
Não se exaltam, nem dão murros.
Parecem, mesmo, suaves e tranqüilos.
Têm respostas prontas e engenhosas para tudo, fazem perguntas bem formuladas, procurando confundir, para desarvorar o interlocutor.

Ao cabo de algum tempo de observação atenta, descobrimos que o intelectualismo é como qualquer outra forma de fuga; é também um esconderijo, para o Espírito que reluta em enfrentar uma realidade dolorosa.

Se conseguirmos restabelecer o vínculo, que sempre deverá existir, entre cabeça e coração, estaremos a caminho de ajudá-lo.
Narrarei um caso prático, para ilustrar o que desejo dizer com isso.

O companheiro apresentou-se irônico, aparentemente muito seguro de si.
É culto, inteligente, bom sofista, versado em filosofia, em teologia e até mesmo nos textos evangélicos, que cita com a maior facilidade e propriedade.
Conversamos longamente, e ele não perde oportunidade de ridicularizar-me, ante minha pobreza intelectual e cultural.
Num momento de incontida irritação, chama-me de débil mental e idiota, mas logo se contém, ao ser chamado àatenção por um companheiro desencarnado de mais elevada hierarquia, como depois verificamos.

Mesmo com a voz pausada, deixa escapar suas terríveis ameaças, dizendo que nosso barco vai virar e seremos empurrados para o fundo, com barco e tudo.

— Dessa vez — diz ele — não vai ser fácil.
Você vai cair do galho, macaco!

Segundo diz, há muito me segue e tem vontade de dizer algumas verdades na minha cara, porque ainda tenho muito do homem velho, com o que concordo plenamente.
Não sabe por que não as diz, pois está certo de que, se isso acontecesse, naquela mesma noite o grupo estaria liquidado.
(Está, certamente, sentindo os controles do médium.
) Fala do cerco que me vem fazendo, até mesmo nas minhas atividades profissionais, e refere episódios verídicos, para demonstrar sua familiaridade com o que diz respeito à minha vida particular.
Conclui dizendo que, há tempos, quase conseguiram derrubar-me.
(Há sempre um quase, na bondade infinita de Deus, quando nos empenhamos na tarefa abençoada de servir.
)

Ao cabo de longa conversa, despede-se, algo sonolento, mas firme nas suas convicções.
Oro por ele durante toda a semana e, na reunião seguinte, ele volta.

Não está mais tão irônico e seguro de si, como da primeira vez.
Perdeu a aparente serenidade, revelando-se profundamente irritado, furioso mesmo, ameaçador, agressivo, impaciente.
Deve ser por causa da perda do valoroso companheiro que na semana anterior o advertira, quando me chamou de débil mental e que, com a graça de Deus, conseguimos despertar.

Declara-se um líder, e que, se eu tivesse visão espiritual, veria que todos os seus companheiros estão ali, atrás dele, como um bloco.
Estão prontos e dispostos a desencadear a luta.
As ameaças são terríveis, mas sinto-o mais desesperado do que rancoroso.
Diz que transpusemos todas as barreiras e que é preciso um basta final.

Enquanto conversamos, outro médium do grupo avisa-me que ouve bimbalhar de sinos e, em seguida, sons de órgão.
Ele também ouve, mas recusa-se a reconhecer a situação, que, obviamente, teme, e insiste em retomar o debate filosófico-religioso.
É a fuga desesperada ante toda e qualquer aproximação da emoção, que não seja o frio jogo de palavras a que está habituado e que o anestesia espiritualmente.

De vez em quando, dirige-se, irritado, a alguém invisível, que lhe cita trechos evangélicos.
Em uma dessas, diz, nervoso:

— Eu sei.
4:19, Primeira aos Coríntios.
(1)

Segundo me diz o outro médium, a música prossegue a vibrar dentro dele.
A essa altura, ele começa a apalpar o seu médium: a face, os olhos e o corpo, demorando-se nas mãos.
Começa sutilmente a crise.
Ele conclui, em voz alta, que são mãos de um organista (que o médium foi, realmente, em antiga encarnação, na Alemanha).
Pouco depois, ainda irritado, ante minha evidente falta de acuidade, diz-me que é cego! E mesmo assim domina, é um líder!, informa, satisfeito consigo mesmo.
Sinto por ele uma compaixão infinita e me dirijo a ele com ternura, como se a pedir-lha que me perdoe por não ter notado isso antes.
Pergunto se permite que tentemos curá-lo, e ele recusa energicamente.

A essa altura, não consegue mais evitar que a música domine todo o seu ser.
Fala sobre acordes que lhe causam verdadeiros choques.
A crise aprofunda-se e ele ouve agora, irresistivelmente, a música sublime de um organista incomparável.
Tenta desesperadamente fugir dela, tapa os ouvidos, bate com os cotovelos na mesa, cantarola uma canção, e diz a si mesmo:

— Reaja, frouxo!

Mas a torrente daquela música divina, que ele tem o privilégio de ouvir, arrasta-o irresistivelmente.
Segundo me informam

(1) “Mas, Irei logo onde estais, se for da vontade do Senhor; o então, conhecerei, não a palavra desses orgulhosos, mas o seu poder.

do mundo espiritual, ele costumava ouvir os recitais sempre do mesmo lugar, na terceira fila à direita.
Digo-lhe isso, enquanto ele parece também reconhecer, daquele tempo, o seu médium atual.

Por fim, graças a Deus, a emoção daquela música inesquecível domina-o inapelavelmente.
Está arrasado e murmura:

— Ele é um monstro.
.
.
Tudo nele é grande.
.


Refere-se, por certo, ao organista que, do invisível, toca para ele neste momento.
Logo a seguir, começa a chorar, vencida pela emoção que há tanto sufocou em seu coração generoso.
A música que ele amava, e compreendia como poucos, foi o instrumento sutil que a misericórdia divina utilizou para restabelecer o perdido contacto entre coração e mente, que andavam divorciados.

Trato-o com infinito carinho e amor fraterno, e quando lhe peço perdão pela dor que lhe causamos naquela crise necessária, ele retruca, entre irritado e confuso:

— Não peça perdão, seu tolo!

Em seguida parte, ainda em pranto e com a visão recuperada.

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