{"id":15273,"date":"2018-08-18T15:12:00","date_gmt":"2018-08-18T15:12:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.centronocaminhodaluz.com.br\/index.php\/artigo15273\/"},"modified":"2018-08-18T15:41:36","modified_gmt":"2018-08-18T18:41:36","slug":"artigo15273","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.centronocaminhodaluz.com.br\/index.php\/artigo15273\/","title":{"rendered":"Livro C\u00e9u e o Inferno &#8211;  Primeira Parte &#8211; CAP\u00cdTULO IV O INFERNO &#8211; Allan Kardec"},"content":{"rendered":"<p>Intui\u00e7\u00e3o das Penas Futuras<\/p>\n<p>1 \u2014 Em todos os tempos o homem acreditou, por intui\u00e7\u00e3o, que a vida futura devia ser feliz ou infeliz segundo o bem ou o mal que se tivesse feito neste mundo.<br \/> Mas a id\u00e9ia que ele fez a respeito estava em rela\u00e7\u00e3o com o desenvolvimento do seu senso moral e com as no\u00e7\u00f5es mais ou menos justas que possuia do bem e do mal.<br \/> As penas e as recompensas s\u00e3o reflexos dos instintos que nele predominavam.<\/p>\n<p>Foi assim que os povos guerreiros colocaram as suas supremas felicidades nas honrarias tributadas \u00e0 bravura; os povos ca\u00e7adores na abund\u00e2ncia da ca\u00e7a; os povos sensuais nos prazeres da voluptuosidade.<br \/> Enquanto dominado pela mat\u00e9ria o homem s\u00f3 pode comprender imperfeitamente a espiritualidade.<br \/> Foi por isso que ele fez das penas e dos gozos futuros um quadro mais material do que espiritual.<br \/> Imaginou que se deve beber e comer no outro mundo, mas de maneira melhor do que na Terra e servindo-se de coisas melhores.<\/p>\n<p>Mais tarde vamos encontrar nas cren\u00e7as sobre o futuro uma mistura de espiritualidade e materialidade.<br \/> \u00c9 assim que ao lado da bem-aventuran\u00e7a contemplativa ele coloca um inferno de torturas f\u00edsicas.<\/p>\n<p>2 \u2014 N\u00e3o podendo conceber se n\u00e3o o que via, o homem primitivo decalcou naturalmente o seu futuro da vida presente.<br \/> Para compreender coisas diferentes das que tinha sob os olhos faltava-lhe o desenvolvimento intelectual que s\u00f3 devia realizar-se com o tempo.<br \/> Da mesma maneira, o quadro que comp\u00f4s dos castigos da vida futura \u00e9 o reflexo das maldades humanas, mas em maior propor\u00e7\u00e3o.<br \/> Reuniu todas as torturas, todos os supl\u00edcios, todas as afli\u00e7\u00f5es que encontrou na Terra.<br \/> \u00c9 assim que nas regi\u00f5es de clima quente imaginou um inferno de fogo e nas regi\u00f5es boreais um inferno de gelo.<br \/> N\u00e3o estando ainda desenvolvido o sentido que mais tarde lhe permitiria compreender o mundo espiritual, ele s\u00f3 podia conceber penalidades materiais.<br \/> Eis porque, com algumas pequenas diferen\u00e7as formais, o inferno \u00e9 semelhante em todas as religi\u00f5es.<\/p>\n<p>Cap\u00edtulo IV<\/p>\n<p>O Inferno Crist\u00e3o Imita o Pag\u00e3o<\/p>\n<p>3 \u2014 O inferno dos pag\u00e3os, descrito e dramatizado pelos poetas, \u00e9 o modelo mais grandioso do g\u00eanero e se perpetuou, projetando-se como o dos crist\u00e3os, que teve tamb\u00e9m os seus poetas.<br \/> Comparando-os podemos encontrar, salvo os nomes e algumas varia\u00e7\u00f5es de detalhes, numerosas analogias entre eles.<br \/> Num e noutro o fogo material \u00e9 o elemento b\u00e1sico das torturas porque simboliza os mais cru\u00e9is sofrimentos.<br \/> Mas, coisa estranha, os crist\u00e3os conseguiram, em diversos sentidos, exagerar o inferno dos pag\u00e3os.<br \/> Se estes \u00faltimos tinham no seu o tonel das Donaides, a roda de \u00cdxion, o rochedo de S\u00edsifo, esses eram supl\u00edcios individuais.<br \/> O inferno crist\u00e3o tem por toda parte caldeiras ferventes, cujas tampas os anjos erguem para verem as contor\u00e7\u00f5es dos condenados.<br \/> Deus ouve sem piedade os gemidos desses \u00faltimos pela eternidade.<br \/> Jamais os pag\u00e3os figuraram aos habitantes dos Campos El\u00edsios inspecionando os supl\u00edcios do T\u00e1rtaro.<\/p>\n<p>4 \u2014 \u00c0 semelhan\u00e7a dos pag\u00e3os, os crist\u00e3os t\u00eam o seu rei dos infernos que \u00e9 Satan\u00e1s, com a diferen\u00e7a de que Plut\u00e3o se limitava a governar o imp\u00e9rio sombrio que havia recebido, mas sem praticar maldades.<br \/> Ele retinha nesse imp\u00e9rio os que haviam praticado o mal, porque essa era a sua miss\u00e3o, mas n\u00e3o procurava induzir os homens ao mal pelo prazer de os submeter ao sofrimento.<br \/> Satan\u00e1s entretanto recruta as suas v\u00edtimas por toda parte e se alegra de faz\u00ea-las atormentar por legi\u00f5es de dem\u00f4nios armados de tridentes para revolv\u00ea-los nas chamas.<br \/> Tem-se mesmo discutido seriamente sobre a natureza desse fogo que queima sem cessar os condenados, sem jamais os consumir, chegando-se a perguntar se seria um fogo de betume.<br \/> O inferno crist\u00e3o n\u00e3o permite, pois, que o inferno pag\u00e3o o exceda em nada.<\/p>\n<p>5 \u2014 As mesmas raz\u00f5es que fizeram os antigos localizar a morada da felicidade, determinaram tamb\u00e9m que se localizasse a dos supl\u00edcios.<br \/> Tendo localizado a primeira nas regi\u00f5es superiores, era natural que colocassem a segunda nos inferiores, no centro da Terra, para o qual, segundo se acredita, certas cavernas sombrias e de aspecto assustador serviam de entrada.<\/p>\n<p>Foi assim tamb\u00e9m que os crist\u00e3os, durante longo tempo localizaram o lugar dos condenados.<br \/> Notemos ainda a esse respeito, outra analogia.<\/p>\n<p>O inferno dos pag\u00e3os tinha de um lado os Campos El\u00edsios e de outro o T\u00e1rtaro.<br \/> O Olimpo, morada dos deuses, dos homens divinizados, ficava nas regi\u00f5es superiores.<br \/> Segundo a letra do Evangelho, Jesus desceu aos infernos, ou seja, nos lugares baixos para tirar dali as almas dos justos que esperavam a sua vinda.<br \/> Os infernos n\u00e3o eram, portanto, apenas um lugar de supl\u00edcio.<br \/> \u00c0 semelhan\u00e7a do que acontecia entre os pag\u00e3os eles estavam tamb\u00e9m nas regi\u00f5es inferiores.<br \/> Assim como o Olimpo, a morada dos anjos e dos santos estava nas regi\u00f5es elevadas, colocada para l\u00e1 do c\u00e9u das estrelas, que se considerava limitado.<\/p>\n<p>6 \u2014 Essa mistura das id\u00e9ias pag\u00e3s com as crist\u00e3s nada tem que nos deva surpreender.<br \/> Jesus n\u00e3o podia destruir de repente as cren\u00e7as enraizadas.<br \/> Os homens n\u00e3o dispunham dos conhecimentos necess\u00e1rios para conceber o espa\u00e7o como infinito e povoado de mundos em n\u00famero infinito.<br \/> A Terra era para eles o centro do universo.<br \/> N\u00e3o conheciam a sua forma nem a sua estrutura interior.<br \/> Tudo lhes parecia limitado segundo a sua compreens\u00e3o: as no\u00e7\u00f5es referentes ao futuro n\u00e3o poderiam exceder os limites dos seus conhecimentos.<\/p>\n<p>Jesus se encontrava, pois, na impossibilidade de inici\u00e1-los no verdadeiro conhecimento da realidade.<br \/> Mas, de outro lado, n\u00e3o querendo sancionar com a sua autoridade os preju\u00edzos dominantes, preferiu abster-se, deixando ao tempo o trabalho de retificar as id\u00e9ias err\u00f4neas.<br \/> Limitou-se a falar vagamente da vida de bem-aventuran\u00e7a e dos castigos que esperavam os culpados.<br \/> Mas em parte alguma, nos seus ensinos, encontra-se o quadro dos supl\u00edcios corporais que os crist\u00e3os transformaram em artigo de f\u00e9.<\/p>\n<p>Eis como a id\u00e9ia do inferno pag\u00e3o perpetuou-se at\u00e9 os nossos dias.<br \/> Era necess\u00e1ria a difus\u00e3o dos conhecimentos nos tempos modernos e o desenvolvimento geral da intelig\u00eancia humana para lhe dar a justa medida.<br \/> Mas como nada de positivo pode ser colocado em lugar dessas velhas concep\u00e7\u00f5es, ao longo per\u00edodo dominado por uma cren\u00e7a cega sucedeu, como fase de transi\u00e7\u00e3o, o per\u00edodo da incredulidade ao qual a nova revela\u00e7\u00e3o vem p\u00f4r um fim.<br \/> Era necess\u00e1rio demolir para depois reconstruir, porque \u00e9 mais f\u00e1cil fazer aceitar as id\u00e9ias justas pelos que em nada acreditam, em virtude de sentirem que apesar disso alguma coisa lhes falta, do que aos que j\u00e1 possuem uma f\u00e9 robusta, embora absurda.<\/p>\n<p>7 \u2014 Pela localiza\u00e7\u00e3o do c\u00e9u e do inferno as seitas crist\u00e3s foram levadas a admitir que s\u00f3 existiam para as almas duas situa\u00e7\u00f5es extremas: a perfeita felicidade e o sofrimento absoluto.<br \/> O purgat\u00f3rio \u00e9 apenas uma posi\u00e7\u00e3o intermedi\u00e1ria e passageira, da qual elas passam sem transi\u00e7\u00e3o para a regi\u00e3o dos bem-aventurados.<br \/> Nem poderia ser de outra maneira, dada a cren\u00e7a no destino definitivo da alma ap\u00f3s a morte.<br \/> Havendo apenas duas regi\u00f5es, a dos eleitos e a dos condenados, n\u00e3o se pode admitir variedade de graus em cada uma delas sem aceitar a possibilidade de as franquear, o que levaria como conseq\u00fc\u00eancia ao progresso.<br \/> Ora, se houvesse progresso n\u00e3o haveria sorte definitiva.<br \/> Havendo sorte definitiva n\u00e3o h\u00e1 progresso.<br \/> Jesus resolveu a quest\u00e3o quando disse:  H\u00e1 muitas moradas na casa de meu Pai .<\/p>\n<p>Os Limbos<\/p>\n<p>8 \u2014 \u00c9 verdade que a Igreja admite para certos casos particulares uma situa\u00e7\u00e3o especial.<br \/> As crian\u00e7as mortas em tenra idade, n\u00e3o tendo praticado o mal, n\u00e3o podem ser condenadas ao fogo eterno.<br \/> De outro lado, n\u00e3o tendo praticado o bem, n\u00e3o possuem nenhum direito \u00e0 felicidade suprema.<br \/> S\u00e3o ent\u00e3o, diz ela, enviadas aos limbos, situa\u00e7\u00e3o mista e jamais definida, na qual, embora n\u00e3o sofrendo n\u00e3o gozam tamb\u00e9m da felicidade perfeita.<br \/> Mas desde que a sua sorte j\u00e1 est\u00e1 irrevogavelmente fixada, elas est\u00e3o privadas da felicidade por toda a eternidade.<\/p>\n<p>Essa priva\u00e7\u00e3o, desde que n\u00e3o dependeu delas, equivale a um supl\u00edcio eterno imerecido.<br \/> Acontece o mesmo com o selvagem, que n\u00e3o tendo recebido a gra\u00e7a do batismo e as luzes da religi\u00e3o, pecam por ignor\u00e2ncia, abandonando-se aos instintos naturais e n\u00e3o podem ter culpa nem m\u00e9rito como os que agem em conhecimento de causa.<\/p>\n<p>A simples l\u00f3gica repele semelhante doutrina em nome da justi\u00e7a de Deus.<br \/> Porque esta justi\u00e7a encontra-se toda nestas palavras do Cristo:  A cada qual segundo suas obras .<br \/> Mas \u00e9 necess\u00e1rio entender por isso as boas ou m\u00e1s obras que se praticam livremente, voluntariamente, pois s\u00e3o as \u00fanicas que acarretam responsabilidade.<br \/> N\u00e3o \u00e9 esse o caso da crian\u00e7a, nem do selvagem ou qualquer outro cujo esclarecimento n\u00e3o tenha dependido da sua pr\u00f3pria vontade.<\/p>\n<p>Quadro do Inferno Pag\u00e3o<\/p>\n<p>9 \u2014 S\u00f3 conhecemos o inferno pag\u00e3o atrav\u00e9s das composi\u00e7\u00f5es dos poetas.<br \/> Homero e Virg\u00edlio nos deram a defini\u00e7\u00e3o mais completa, mas devemos considerar as exig\u00eancias formais da poesia nessas descri\u00e7\u00f5es.<br \/> A de Fenelon no Tel\u00eamaco, embora origin\u00e1ria da mesma fonte quanto \u00e0s cren\u00e7as fundamentais, tem a simplicidade mais precisa da prosa.<br \/> Descreve o aspecto l\u00fagubre dos v\u00e1rios lugares e procura ressaltar sobretudo o g\u00eanero dos sofrimentos a que s\u00e3o submetidos os culpados, estendendo-se bastante sobre o destino dos maus reis, isso em virtude da instru\u00e7\u00e3o que dava ao seu aluno real.<\/p>\n<p>Por mais popular que seja a sua obra, muitas pessoas n\u00e3o ter\u00e3o de mem\u00f3ria essa descri\u00e7\u00e3o ou n\u00e3o puderam refletir bastante sobre ela para fazer uma compara\u00e7\u00e3o.<br \/> Eis porque julgamos \u00fatil reproduzir os trechos que apresentam rela\u00e7\u00e3o mais direta com o nosso assunto, ou seja, aqueles que se referem especialmente \u00e0s penas individuais.<\/p>\n<p>10 \u2014 Entrando, Tel\u00eamaco ouve outros gemidos de uma sombra que n\u00e3o encontrava consola\u00e7\u00e3o.<br \/> \u2014 Qual \u00e9, diz ele, \u2014 a vossa desgra\u00e7a? O que fostes na Terra? \u2014 Eu era, \u2014 respondeu-lhe a sombra, \u2014 Nabofarzan, rei da soberba Babil\u00f4nia, e todos os povos do Oriente tremiam ao simples som do meu nome.<br \/> Fiz-me adorar pelos babil\u00f4nios no templo de m\u00e1rmore onde estava representado por uma est\u00e1tua de ouro, diante da qual eram queimados dia e noite os mais preciosos perfumes da Eti\u00f3pia.<br \/> Ningu\u00e9m jamais ousou me contradizer sem ter sido imediatamente punido.<br \/> Eu inventava cada dia novos prazeres para tornar minha vida mais deliciosa.<br \/> Era ent\u00e3o jovem e robusto.<br \/> Mas, oh, desgra\u00e7a, embora muito ainda me restasse para gozar sobre o trono, uma mulher que amei e que n\u00e3o me amava me fez logo sentir que eu n\u00e3o era um deus: envenenou-me e hoje nada mais sou.<br \/> Puseram pomposamente as minhas cinzas numa urna de ouro.<br \/> Choraram, arrancando os cabelos ao redor.<br \/> Ela amea\u00e7ou atirar-se nas chamas em que me incineravam, para morrer comigo e ainda hoje vai chorar aos p\u00e9s do soberbo t\u00famulo a que lan\u00e7aram as minhas cinzas.<br \/> Mas ningu\u00e9m me lamenta e minha mem\u00f3ria causa horror mesmo na minha fam\u00edlia, enquanto sofro aqui em baixo horr\u00edveis tratamentos.<\/p>\n<p>Tel\u00eamaco, emocionado com o drama, lhe diz: Foste verdadeiramente feliz durante o vosso reinado, sent\u00edeis essa doce paz sem a qual o cora\u00e7\u00e3o permanece sempre opresso e abatido em meio das del\u00edcias? \u2014 N\u00e3o \u2014 respondeu o babil\u00f4nio \u2014 nem mesmo compreendo o que quereis dizer.<br \/> Os s\u00e1bios louvam essa paz como o \u00fanico bem, mas de minha parte jamais a senti.<br \/> Meu cora\u00e7\u00e3o estava incessantemente agitado por novos desejos, por temores e esperan\u00e7as.<br \/> Eu procurava esquecer-me de mim na confus\u00e3o das minhas paix\u00f5es.<br \/> Cuidava de entreter essa embriaguez para que n\u00e3o cessasse, pois o menor intervalo de racioc\u00ednio normal me teria sido demasiado amargo.<br \/> Eis a paz que desfrutei.<br \/> Qualquer outra me parece uma f\u00e1bula ou um sonho.<br \/> Eis os bens que lamento.<\/p>\n<p>Assim falando, o babil\u00f4nio chorava como um homem pusil\u00e2nime que se deixou debilitar pelas comodidades, n\u00e3o se tendo jamais acostumado a suportar a desgra\u00e7a.<br \/> Tinha ao seu lado alguns escravos que fizeram morrer nas honras dos seus funerais.<br \/> Merc\u00fario os havia entregue a Caronte com o seu rei, dando-lhes um poder absoluto sobre esse rei que haviam servido na Terra.<\/p>\n<p>Essas sombras de escravos n\u00e3o temiam mais a sombra de Nabofarzan, mas a mantinham acorrentada e a submetiam \u00e0s mais cru\u00e9is humilha\u00e7\u00f5es.<br \/> Uma lhe dizia: \u2014 N\u00f3s tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9ramos homens, tanto como tu?<\/p>\n<p>Como pudeste ser t\u00e3o insensato para te considerar como um deus, n\u00e3o te lembrando que pertencias \u00e0 mesma ra\u00e7a dos homens? \u2014 Uma outra o insultava dizendo: \u2014 Tinhas raz\u00e3o de n\u00e3o querer que te considerassem como um homem, porque eras um monstro sem humanidade.<br \/> \u2014 Outra lhe falava assim: \u2014 Muito bem! Onde est\u00e3o agora os teus aduladores? N\u00e3o tens mais nada a dar, infeliz! E n\u00e3o podes mais fazer nenhum mal; eis que te tornaste escravo dos teus pr\u00f3prios escravos; os deuses demoram a fazer justi\u00e7a, mas por fim a fazem.<\/p>\n<p>A essas duras palavras Nabofarzan se atirava com o rosto na terra, arrancando os cabelos numa explos\u00e3o de raiva e desespero.<br \/> Mas Caronte dizia aos escravos: \u2014 Puxai-o pela corrente, erguei-o mesmo que ele n\u00e3o queira, pois ele n\u00e3o ter\u00e1 nem mesmo a consola\u00e7\u00e3o de ocultar a pr\u00f3pria vergonha.<br \/> \u00c9 necess\u00e1rio que todas as sombras do Estinge o testemunhem para justificar os deuses, que t\u00e3o longamente suportaram o reinado desse \u00edmpio na Terra.<\/p>\n<p>Logo ele percebeu, bem pr\u00f3ximo dele, o T\u00e1rtaro negro.<br \/> Subia deste uma fuma\u00e7a escura e espessa, cujo odor empestado causaria a morte se ela se expandisse pela regi\u00e3o dos vivos.<br \/> Essa fuma\u00e7a cobria um rio de fogo com turbilh\u00f5es de chamas, e o seu ru\u00eddo, semelhante ao das mais impetuosas correntes, quando se lan\u00e7am dos mais altos rochedos ao fundo dos abismos, fazia que n\u00e3o se pudesse ouvir com clareza nesses tristes lugares.<\/p>\n<p>Tel\u00eamaco, secretamente influenciado por Minerva, entrou sem temor nesse b\u00e1ratro.<br \/> Percebeu de in\u00edcio um grande n\u00famero de homens que haviam vivido nas mais baixas condi\u00e7\u00f5es e que eram punidos por haverem buscado as riquezas por meio de fraudes, de trai\u00e7\u00f5es e de crueldades.<br \/> Notou ali muitos \u00edmpios e hip\u00f3critas que fingindo amar a religi\u00e3o, dela se haviam servido como um bom pretexto para satisfazer as suas ambi\u00e7\u00f5es, aproveitando-se da credulidade alheia.<br \/> Esses homens que haviam abusado da pr\u00f3pria virtude, embora sendo ela o mais valioso dom dos deuses, eram punidos como os piores entre os celerados.<\/p>\n<p>Os filhos que haviam matado pais e m\u00e3es, as esposas que haviam manchado suas m\u00e3os no sangue dos pr\u00f3prios maridos, os traidores que haviam entregue a p\u00e1tria violando todos os juramentos sofriam penas menos cru\u00e9is do que esses hip\u00f3critas.<br \/> Os tr\u00eas ju\u00edzes dos infernos assim determinaram, e eis as suas raz\u00f5es: esses hip\u00f3critas, n\u00e3o se contentando de ser maus como os demais \u00edmpios, querem ainda passar por bons e fazem por sua falsa virtude que os homens n\u00e3o mais queiram acreditar na virtude verdadeira.<br \/> Os deuses, dos quais eles se serviram, tornando-os desprez\u00edveis para os homens, sentem prazer ao empregar todo o seu poder para vingar-se dos seus insultos.<\/p>\n<p>Ao lado desses estavam outros homens que o vulgo n\u00e3o considera culpados, mas que a vingan\u00e7a divina persegue impiedosamente.<br \/> S\u00e3o os ingratos, os mentirosos, os vaidosos que se louvaram no v\u00edcio, os cr\u00edticos maliciosos que n\u00e3o temeram manchar a mais pura virtude.<br \/> Por fim, os que julgaram temerariamente sem conhecer as coisas a fundo, com isso prejudicando a reputa\u00e7\u00e3o dos inocentes.<\/p>\n<p>Vendo os tr\u00eas ju\u00edzes que estavam sentados e condenavam um homem, Tel\u00eamaco ousou perguntar-lhes quais eram os crimes do mesmo.<br \/> No mesmo instante o condenado, tomando a palavra, exclamou: \u2014 Nunca fiz nenhum mal, sempre tive o maior prazer em fazer o bem, fui magn\u00e2nimo, liberal, justo e compassivo.<br \/> Do que me podem acusar? \u2014 Ent\u00e3o Minos lhe disse: N\u00e3o se te reprova nada em rela\u00e7\u00e3o aos homens, mas n\u00e3o devias menos aos homens do que aos deuses? Qual, \u00e9, pois, essa justi\u00e7a de que te vanglorias? N\u00e3o faltaste com nenhum dever no tocante aos homens, que nada s\u00e3o.<br \/> Foste virtuoso, mas referiste toda a tua virtude a ti mesmo e n\u00e3o aos deuses, que a concederam a ti, porque querias gozar os frutos da tua pr\u00f3pria virtude, vangloriando-te em ti mesmo: foste a tua pr\u00f3pria divindade.<br \/> Mas os deuses, que tudo fizeram unicamente por si mesmos n\u00e3o podem renunciar aos seus direitos.<br \/> Tu os esquecestes, eles te esqueceram.<br \/> Eles te entregaram a ti mesmo, desde que preferiste ser de ti mesmo e n\u00e3o deles.<br \/> Procura, pois, agora, se puderes, o teu consolo em teu pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o.<br \/> Est\u00e1s agora, para sempre, separado dos homens aos quais querias agradar.<br \/> Est\u00e1s s\u00f3s diante de ti, que eras o teu \u00eddolo.<br \/> Compreende que n\u00e3o existe verdadeira virtude sem o respeito e o amor aos deuses, aos quais tudo deves.<br \/> Tua falsa virtude, que por muito tempo ofuscou os homens f\u00e1ceis de enganar, vai ser confundida.<br \/> Os homens, considerando os v\u00edcios e as virtudes somente pelo que os toca ou os agrada, s\u00e3o cegos para o verdadeiro bem e o verdadeiro mal.<br \/> Mas aqui uma luz divina inverte todos os julgamentos superficiais.<br \/> Freq\u00fcentemente \u00e9 condenado aquilo que eles admiram e justificavam o que eles condenam.<\/p>\n<p>A essas palavras, o fil\u00f3sofo, como ferido por um raio n\u00e3o podia conter-se.<br \/> A satisfa\u00e7\u00e3o que havia tido outrora ao apreciar a sua pr\u00f3pria modera\u00e7\u00e3o, a sua coragem e as suas tend\u00eancias generosas transformou-se em desespero.<br \/> A vis\u00e3o do seu pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o, inimigo dos deuses, tornou-se um supl\u00edcio.<br \/> Ele se via a si mesmo e n\u00e3o podia deixar de faz\u00ea-lo.<br \/> Via a vaidade das aprecia\u00e7\u00f5es dos homens, aos quais ele quis sempre agradar em todas as suas a\u00e7\u00f5es.<br \/> Havia uma revolu\u00e7\u00e3o geral em tudo o que se encontrava no seu \u00edntimo, como se algu\u00e9m revirasse todas as suas entranhas.<br \/> Ele n\u00e3o era mais o mesmo.<br \/> Seu cora\u00e7\u00e3o negava-lhe todo o apoio.<br \/> Sua consci\u00eancia, cujo julgamento lhe havia sido t\u00e3o favor\u00e1vel, voltou-se contra ele reprovando amargamente o desvirtuamento e o engano de todas as suas virtudes, que n\u00e3o tiveram o culto da divindade por princ\u00edpio e por fim.<br \/> Estava perturbado, consternado, cheio de vergonha, de remorsos e de desespero.<br \/> As f\u00farias n\u00e3o o atormentavam porque era bastante entreg\u00e1-lo a si mesmo, pois o seu pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o vingava suficientemente os deuses desprezados.<br \/> Procurou os lugares mais sombrios para se ocultar dos outros mortos, j\u00e1 que n\u00e3o podia ocultar-se a si mesmo.<br \/> Procurou as trevas e n\u00e3o pode encontr\u00e1-las, pois uma luz importuna o seguia por toda parte, os raios penetrantes da verdade vingam sem cessar a verdade que ele negligenciou ao inv\u00e9s de seguir.<\/p>\n<p>Tudo o que ele amava se tornava odioso, como sendo a pr\u00f3pria fonte de seus males, que n\u00e3o mais poderiam acabar.<br \/> Disse a si mesmo: Oh insensato! Ent\u00e3o n\u00e3o conheci os deuses, nem os homens e nem a mim mesmo! N\u00e3o, nada conheci, desde que nunca amei a \u00fanica verdade e o verdadeiro bem.<br \/> Todos os meus passos foram extraviados.<br \/> Minha sabedoria n\u00e3o era mais que loucura.<br \/> Minha virtude, um orgulho \u00edmpio e cego.<br \/> Fui o meu pr\u00f3prio \u00eddolo.<\/p>\n<p>Por fim Tel\u00eamaco viu os reis condenados por terem abusado do poder.<br \/> De um lado uma F\u00faria vingadora lhes mostrava um espelho em que viam a monstruosidade dos seus pr\u00f3prios v\u00edcios.<br \/> Viam e n\u00e3o podiam deixar de ver sua grosseira vaidade e sua avidez dos mais rid\u00edculos louvores; sua dureza para com os homens, que tinham o dever de fazer felizes; sua insensibilidade para a virtude; seu temor de ouvir a verdade; sua inclina\u00e7\u00e3o para as criaturas pusil\u00e2nimes e bajuladoras; sua irresponsabilidade; sua indol\u00eancia; sua desconfian\u00e7a excessiva; seu fausto e demasiada magnific\u00eancia baseadas nas ru\u00ednas dos povos; sua ambi\u00e7\u00e3o que os levava a conquistar o m\u00ednimo de vangl\u00f3ria com o sangue dos cidad\u00e3os; enfim, sua crueldade de procurar cada dia novas emo\u00e7\u00f5es por entre as l\u00e1grimas e o desespero de tantos infelizes.<br \/> Eles se viam nesse espelho permanentemente.<br \/> Viam-se mais horr\u00edveis e mais monstruosos do que a Quimera vencida por Belerofonte ou a Hidra de Lerna abatida por H\u00e9rcules, ou mesmo C\u00e9rbero vomitando por suas tr\u00eas g\u00fcelas escancaradas um sangue negro e venenoso capaz de empestar toda a ra\u00e7a dos mortais que vivem na Terra.<\/p>\n<p>De outro lado e ao mesmo tempo outra F\u00faria lhes repetia de maneira insultuosa todos os louvores que os aduladores lhes fizeram em vida e mostravam-lhes outro espelho, no qual eles se viam tais como os aduladores os haviam pintado.<br \/> A contradi\u00e7\u00e3o desses dois quadros t\u00e3o opostos constitu\u00eda um supl\u00edcio para a sua vaidade.<br \/> Notava-se que os piores entre esses reis eram os que haviam recebido as homenagens mais magnificentes durante a vida, porque os maus s\u00e3o mais temidos que os bons e exigem sem pudor as mentirosas rever\u00eancias dos poetas e dos oradores do seu tempo.<\/p>\n<p>Ouviam-se os seus gemidos na profundeza das trevas, onde eles n\u00e3o podiam perceber outra coisa al\u00e9m dos insultos e das ironias que deviam sofrer.<br \/> Nada tinham ao seu redor que n\u00e3o os repelisse e contradissesse confundindo-os, enquanto na terra se aproveitavam da vida dos homens, supondo que todos existiam somente para os servir.<br \/> No T\u00e1rtaro eles s\u00e3o entregues aos caprichos de alguns escravos que os submetem por sua vez a uma servid\u00e3o cruel.<br \/> T\u00eam de servir sofrendo e n\u00e3o lhes resta nenhuma esperan\u00e7a de poder abrandar jamais o seu cativeiro.<br \/> Ficam sujeitos aos golpes desses escravos, transformados em seus tiranos impiedosos, como uma forja sobre os golpes dos martelos dos C\u00edclopes, quando Vulcano os apresa no trabalho dentro das ardentes fornalhas do monte Etna.<\/p>\n<p>Tel\u00eamaco viu ent\u00e3o semblantes, p\u00e1lidos, consternados e hediondos.<br \/> \u00c9 que uma tristeza negra corr\u00f3i esses criminosos.<br \/> Eles t\u00eam horror de si mesmos e n\u00e3o podem livrar-se desse horror como se ele pertencesse \u00e0 sua pr\u00f3pria natureza.<br \/> N\u00e3o necessitam assim, de outro castigo para as suas faltas do que as suas pr\u00f3prias faltas que v\u00eaem sem cessar em toda a sua enormidade, apresentando-se a eles como horr\u00edveis espectros que os perseguem.<br \/> Para se livrarem disso buscam uma outra morte mais poderosa que aquela que os separou dos seus corpos.<\/p>\n<p>No desespero em que se encontram, esses reis clamam pelo socorro de uma morte que pudesse extinguir neles todo o sentimento e toda a consci\u00eancia.<br \/> Pedem aos abismos que os traguem para escaparem aos raios vingadores da verdade que os perseguem, mas est\u00e3o condenados \u00e0 vingan\u00e7a que se distila sobre eles gota a gota e que jamais cessar\u00e1.<br \/> A verdade que eles temiam ver \u00e9 agora o seu supl\u00edcio.<br \/> Eles a v\u00eaem e s\u00f3 t\u00eam olhos para v\u00ea-Ia erguendo-se contra eles.<br \/> Essa vis\u00e3o os trespassa, os destr\u00f3i, os arranca de si mesmos.<br \/> \u00c9 como um raio que sem nada destruir ao redor penetra at\u00e9 o mais fundo das suas entranhas.<\/p>\n<p>Entre essas coisas que lhe faziam eri\u00e7ar os cabelos, Tel\u00eamaco viu muitos antigos reis da L\u00eddia que eram punidos por terem preferido os deleites de uma vida folgaz\u00e3 ao trabalho para melhoria dos povos, que deve ser insepar\u00e1vel da realeza.<\/p>\n<p>Os reis reprovavam uns aos outros a sua pr\u00f3pria cegueira.<br \/> Um dizia a outro que tinha sido seu filho: \u2014 N\u00e3o te recomendei freq\u00fcentemente, durante a minha velhice e antes de morrer, que reparasses os males que pratiquei na minha neglig\u00eancia? \u2014 Ah, infeliz pai! \u2014 dizia o filho, \u2014 foste tu que me perdeste.<br \/> Foi o vosso exemplo que me sugeriu o fausto, o orgulho, a voluptuosidade e a dureza de cora\u00e7\u00e3o para com os homens! Vendo-te reinar com tanta displic\u00eancia e cercado de covardes aduladores, habituei-me ao gosto da lisonja e dos prazeres.<br \/> Acreditei que o resto dos homens eram para os reis o que s\u00e3o os cavalos e outros animais de carga para a humanidade em geral, ou seja, esses animais aos quais n\u00e3o se d\u00e1 import\u00e2ncia, querendo apenas que prestem servi\u00e7os e proporcionem comodidades.<br \/> Acreditei nisso, e foste tu que me fizeste acreditar.<br \/> Hoje estou sofrendo todos estes males por te haver imitado.<br \/> \u2014 A essas recrimina\u00e7\u00f5es juntavam as mais horr\u00edveis maldi\u00e7\u00f5es e pareciam prestes a se entredevorarem de raiva.<\/p>\n<p>Ao redor dos reis volteavam ainda, como morcegos noturnos, as mais cru\u00e9is suspeitas, os falsos receios, as desconfian\u00e7as que s\u00e3o as vingan\u00e7as dos povos contra a maldade de seus reis, sua insaci\u00e1vel fome de riquezas, a falsidade de sua gl\u00f3ria sempre baseada na tirania e a covarde displic\u00eancia que aumenta os males do povo sem lhes proporcionar jamais a compensa\u00e7\u00e3o das necessidades satisfeitas.<\/p>\n<p>Viam-se muitos desses reis severamente punidos, n\u00e3o pelos males que haviam praticado, mas por terem negligenciado o bem que deviam fazer.<br \/> Todos os crimes dos povos, que decorrem da neglig\u00eancia na observa\u00e7\u00e3o das leis, eram imputados aos reis que deviam ter como seu minist\u00e9rio fazer que as leis reinassem.<br \/> Todas as desordens provenientes dos excessos de fausto, do luxo e de todos os demais abusos que lan\u00e7am os homens na viol\u00eancia e na tenta\u00e7\u00e3o de desprezar as leis para se enriquecerem, eram tamb\u00e9m imputadas aos reis.<br \/> Eram tratados sobretudo com rigor os que em lugar de serem bons e vigilantes pastores dos povos s\u00f3 haviam pensado em devorar o rebanho como lobos insaci\u00e1veis.<\/p>\n<p>Mas o que mais consternava Tel\u00eamaco era ver, nesse abismo de trevas e maldades, grande n\u00famero de reis que haviam passado pela Terra como soberanos muito bons e estavam condenados \u00e0s penas do T\u00e1rtaro por se terem deixado governar por homens maus e hip\u00f3critas.<br \/> Esses eram punidos pelos males que haviam permitido que fossem feitos sob a sua autoridade.<br \/> De resto, a maioria desses reis n\u00e3o haviam sido bons nem maus, tamanha era a sua fraqueza.<br \/> Jamais haviam receado conhecer a verdade, pois n\u00e3o possu\u00edam o gosto da virtude e nunca sentiram o prazer de praticar o bem.<\/p>\n<p>Quadro do inferno crist\u00e3o<\/p>\n<p>11 \u2014 Resumimos nas cita\u00e7\u00f5es seguintes a opini\u00e3o dos te\u00f3logos sobre o inferno.<br \/> Essa descri\u00e7\u00e3o, tendo sido tirada dos pr\u00f3prios autores sacros e da vida dos santos, pode ser considerada, tanto melhor, como a express\u00e3o da f\u00e9 ortodoxa nesse assunto, quanto \u00e9 a todo instante reproduzido, com algumas pequenas variantes, nos serm\u00f5es e nas instru\u00e7\u00f5es pastorais.<\/p>\n<p>12 \u2014 Os dem\u00f4nios s\u00e3o esp\u00edritos puros, pois os condenados presentemente no inferno podem tamb\u00e9m ser considerados como esp\u00edritos puros, desde que somente a sua alma desceu at\u00e9 l\u00e1 e os seus restos mortais, devolvidos \u00e0 Terra, se transformam incessantemente em relva, plantas, frutos, minerais ou l\u00edquidos, passando inconscientemente pelas metamorfoses da mat\u00e9ria.<br \/> Mas os condenados, como os santos, devem ressuscitar no \u00faltimo dia e retomar, para n\u00e3o mais os perder, corpos carnais, os mesmos corpos com que foram conhecidos quando vivos.<br \/> O que distinguir\u00e1 uns dos outros \u00e9 que os eleitos ressuscitar\u00e3o em corpos purificados e radiosos, enquanto os condenados em corpos imundos e deformados pelo pecado.<\/p>\n<p>Assim, n\u00e3o haver\u00e1 mais no inferno somente Esp\u00edritos puros, mas homens semelhantes a n\u00f3s.<br \/> O inferno \u00e9, portanto, uma regi\u00e3o f\u00edsica, geogr\u00e1fica, material, desde que ser\u00e1 povoado por criaturas terrenas com p\u00e9s, m\u00e3os, boca, l\u00edngua, dentes, orelhas, olhos semelhantes aos nossos, com sangue nas veias e nervos sens\u00edveis \u00e0 dor.<\/p>\n<p>Onde est\u00e1 situado o inferno? Alguns doutores o colocaram nas pr\u00f3prias entranhas da Terra.<br \/> Outros, em n\u00e3o sabemos que planeta.<br \/> A quest\u00e3o n\u00e3o foi resolvida por nenhum conc\u00edlio.<br \/> Ficamos, nesse caso, reduzido \u00e0s conjeturas.<br \/> A \u00fanica coisa que se afirma \u00e9 que o inferno, onde quer que esteja situado, \u00e9 um mundo constitu\u00eddo de elementos materiais, mas um mundo sem sol, sem lua, sem estrelas, mais triste, mais in\u00f3spito, mais desprovido de todo princ\u00edpio e toda apar\u00eancia de bem, como n\u00e3o acontece mesmo nas regi\u00f5es mais inabit\u00e1veis deste mundo em que pecamos.<\/p>\n<p>Os te\u00f3logos mais s\u00e9rios n\u00e3o se atrevem a figurar, como faziam os Eg\u00edpcios, os Indianos e os Gregos, todos os horrores desta regi\u00e3o.<br \/> Limitam-se a nos indicar, como uma amostra, o pouco que as Escrituras revelam: o lago de fogo e enxofre do Apocalipse e os vermes de Isa\u00edas, esses vermes que devoram eternamente os cad\u00e1veres do Tofel e os dem\u00f4nios atormentando os homens que conseguiram levar \u00e0 perdi\u00e7\u00e3o, e os homens chorando e rangendo os dentes, segundo a express\u00e3o dos Evangelistas.<\/p>\n<p>Santo Agostinho n\u00e3o concorda que essas penas f\u00edsicas sejam simples imagens das penas morais.<br \/> Ele v\u00ea num lago realmente de enxofre, vermes e serpentes verdadeiras apegando-se a todas as partes dos corpos dos condenados e juntando as suas mordidas \u00e0s queimaduras do fogo.<br \/> Ele pretende segundo um vers\u00edculo de S\u00e3o Marcos que esse fogo estranho, embora material como o nosso, agindo sobre corpos materiais os conservar\u00e1 como o sal conserva a carne de animais sacrificados.<br \/> Mas os condenados sentir\u00e3o esse fogo que queima sem destruir e que penetrar\u00e1 sob a sua pele.<br \/> Eles ficar\u00e3o encharcados e saturados em todos os seus membros, na medula dos ossos e na pupila dos olhos, bem como nas fibras mais ocultas e mais sens\u00edveis do ser.<br \/> A cratera de um vulc\u00e3o, se nela pudessem atirar-se, seria para eles um lugar de refrig\u00e9rio e descanso.<\/p>\n<p>Assim falam, com toda seguran\u00e7a, os te\u00f3logos mais t\u00edmidos, mais discretos e reservados.<br \/> N\u00e3o negam, ali\u00e1s, a exist\u00eancia no inferno de outros supl\u00edcios corporais.<br \/> Dizem apenas que n\u00e3o possuem conhecimentos suficientes para deles falar de maneira positiva, pelo menos como podem fazer sobre o horr\u00edvel supl\u00edcio do fogo e dos vermes.<br \/> Mas h\u00e1 te\u00f3logos mais espertos ou mais esclarecidos que descrevem o inferno com mais detalhes, mais variados e mais precisos.<br \/> Embora n\u00e3o saibam em que lugar do espa\u00e7o est\u00e1 situado o inferno, h\u00e1 santos que o viram.<br \/> N\u00e3o foram at\u00e9 l\u00e1 com a lira nas m\u00e3os como Orfeu, ou de espada em punho como Ulisses, mas transportados em esp\u00edrito.<br \/> Santa Teresa pertence a esse n\u00famero.<\/p>\n<p>Tem-se a impress\u00e3o, pelo relato da santa, que h\u00e1 cidades no inferno.<br \/> Ela viu ali, pelo menos, uma esp\u00e9cie de rua comprida e estreita, como tantas que existem nas velhas cidades.<br \/> Entrou na rua, andando com horror sobre um terreno pantanoso e f\u00e9tido, cheio de r\u00e9pteis monstruosos, mas teve a sua marcha sustada por um muro que fechava a sa\u00edda.<br \/> Nesse muro havia um nicho ao qual Teresa se recolheu, sem saber como isso aconteceu.<br \/> Era, diz ela o lugar que lhe estava destinado se abusasse, durante a vida, das gra\u00e7as que Deus lhe concedia em sua cela de \u00c1vila.<br \/> Logo que foi introduzida, com espantosa facilidade, nesse nicho de pedra, viu que n\u00e3o podia sentar-se nem deitar-se, e nem mesmo se manter de p\u00e9.<br \/> Menos ainda poderia sair dali.<br \/> Esse horr\u00edvel mundo come\u00e7ou a fechar-se sobre ela, envolvendo-a, prendendo-a como se as faces do nicho fossem animadas.<br \/> Parecia-lhe que a asfixiavam, estrangulavam e ao mesmo tempo que a esfolavam viva e a retalhavam em fatias.<br \/> Sentia-se queimar e experimentava simultaneamente todas as formas de ang\u00fastia.<br \/> Nenhuma esperan\u00e7a de socorro.<br \/> Tudo ao seu redor era trevas, mas atrav\u00e9s dessas trevas ela ainda percebia, com assombro, a horrorosa rua em que estava alojada, com toda a sua imund\u00edcie, o que tamb\u00e9m lhe era intoler\u00e1vel como o aperto da sua pris\u00e3o.<\/p>\n<p>Esse, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida apenas um cantinho do inferno.<br \/> Outros viajores espirituais foram mais favorecidos.<br \/> Viram no inferno grandes cidades inteiramente incendiadas: Babil\u00f4nia e N\u00ednive, a pr\u00f3pria Roma com seus pal\u00e1cios e seus templos abrasados e todos os habitantes acorrentados.<br \/> Os traficantes presos aos seus balc\u00f5es, os padres reunidos com as cortes\u00e3s nos sal\u00f5es de festas, urrando nas suas cadeiras das quais n\u00e3o podiam Ievantar-se e levando aos l\u00e1bios para matar a sede, ta\u00e7as de que sa\u00edam chamas.<br \/> Criados de joelhos em cloacas ferventes, de bra\u00e7os estendidos ante pr\u00edncipes de cujas m\u00e3os escorria sobre eles, em forma de lavas devoradoras, ouro derretido.<br \/> Outros viram no inferno plan\u00edcies ilimitadas, onde camponeses famintos, nada colhendo das suas est\u00e9reis planta\u00e7\u00f5es nessas plan\u00edcies regadas pelos seus suores fumegantes, e como nada podiam encontrar, se entredevoravam.<br \/> Depois, t\u00e3o numerosos como antes, magros e famintos da mesma maneira, eles se dispersavam em bandos no horizonte procurando inutilmente um lugar de terras mais felizes, e sendo imediatamente substitu\u00eddos, nos campos que abandonavam, por outras col\u00f4nias errantes de condenados.<br \/> H\u00e1 os que viram no inferno montanhas cercadas de precip\u00edcios, e florestas solu\u00e7antes, de po\u00e7os sem \u00e1gua, de fontes de l\u00e1grimas, de rios de sangue, de turbilh\u00f5es de neve em desertos de gelo, de barcos cheios de desesperados vagando sobre mares sem praias.<br \/> Viram-se, enfim, todas as coisas que os pag\u00e3os haviam visto: um reflexo tenebroso da terra, uma proje\u00e7\u00e3o desmesuradamente aumentada das suas mis\u00e9rias, dos seus sofrimentos naturais eternizados, e at\u00e9 calabou\u00e7os, forcas e outros instrumentos de tortura criados por n\u00f3s mesmos.<\/p>\n<p>Existem l\u00e1, com efeito, dem\u00f4nios que para atormentarem os homens nos seus corpos, tamb\u00e9m se revestem de corpos.<br \/> Esses corpos t\u00eam asas de morcegos, chifres, pele coberta de escamas, patas com garras e dentes agu\u00e7ados.<br \/> S\u00e3o mostrados armados de espadas, de tenazes, de pin\u00e7as, de serras em fogo, de grelhas, de garfos, de foles, de martelos ardentes e trabalhando pela eternidade na carne dos condenados como a\u00e7ougueiros e cozinheiros.<br \/> \u00c0s vezes, transformados em le\u00f5es ou em enormes serpentes, arrastam suas v\u00edtimas para cavernas solit\u00e1rias.<br \/> Alguns se transformam em corvos para arrancar os olhos a certos culpados, e outros em drag\u00f5es voadores para os carregar no seu dorso, aterrorizados e sangrentos, atrav\u00e9s de tenebrosos espa\u00e7os e os lan\u00e7ar num lago de enxofre.<br \/> Ali, h\u00e1 nuvens de gafanhotos, de escorpi\u00f5es gigantescos cuja vista produz calafrios e cujo odor provoca n\u00e1useas, que o simples tocar com os dedos produz convuls\u00f5es.<br \/> L\u00e1, monstros de muitas cabe\u00e7as abrem para todos os lados g\u00fcelas vorazes, sacudindo as disformes cabe\u00e7as de crinas de serpentes, esmagam os condenados em suas mand\u00edbulas sangrentas e os vomitam mastigados, mas vivos porque eles s\u00e3o imortais.<\/p>\n<p>Esses dem\u00f4nios em forma humana, que lembram t\u00e3o claramente os deuses do Amenti e do T\u00e1rtaro, os \u00eddolos adorados pelos Fen\u00edcios e pelos Moabitas e outros povos pag\u00e3os ao redor da Jud\u00e9ia, esses dem\u00f4nios n\u00e3o agem ao acaso: todos t\u00eam a sua fun\u00e7\u00e3o e o seu objetivo.<br \/> O mal que fazem no inferno est\u00e1 em rela\u00e7\u00e3o com o mal que inspiraram e levaram aos homens a praticar na Terra.<\/p>\n<p>Os condenados s\u00e3o punidos em todos os seus sentidos e em todos os seus \u00f3rg\u00e3os, porque ofenderam a Deus atrav\u00e9s desses sentidos e desses \u00f3rg\u00e3os.<br \/> S\u00e3o punidos da seguinte maneira: os gulosos pelos dem\u00f4nios da gulodice, os pregui\u00e7osos pelos dem\u00f4nios da pregui\u00e7a, os sensuais pelos dem\u00f4nios da sensualidade e assim por diante, segundo a variedade dos pecados.<br \/> Sentir\u00e3o frio ao se queimarem e calor ao se enregelarem.<br \/> Desejar\u00e3o ao mesmo tempo o repouso e o movimento.<br \/> E sempre famintos, sempre sedentos, mais fatigados que os escravos no fim da jornada, mais doentes do que agonizantes, mais maltratados e cobertos de chagas do que os m\u00e1rtires.<br \/> E tudo isso sem que nunca se acabe.<\/p>\n<p>Nenhum dem\u00f4nio se recusa nem se recusar\u00e1 jamais a executar a sua espantosa tarefa.<br \/> S\u00e3o todos, nesse sentido, bem disciplinados e fi\u00e9is no cumprimento das ordens de vingan\u00e7a que recebem.<br \/> Sem isso, no que se tornaria o inferno? Os pacientes ficariam em descanso se os carrascos andassem a discutir ou a se enfadarem.<br \/> Mas nada de repouso para os primeiros, nem de discuss\u00f5es para os segundos.<br \/> Por piores que sejam e por maior que seja o seu n\u00famero, os dem\u00f4nios se estendem de um extremo ao outro do abismo e jamais se viu sobre a Terra uma organiza\u00e7\u00e3o de s\u00faditos mais d\u00f3ceis aos seus pr\u00edncipes, de ex\u00e9rcitos mais obedientes aos seus comandantes, de ordens mon\u00e1sticas mais humildemente submissa aos seus superiores.<br \/>(18)<\/p>\n<p>(18) Esses mesmos dem\u00f4nios, rebeldes a Deus no tocante ao bem, s\u00e3o de exemplar docilidade para a pr\u00e1tica do mal.<br \/> Nenhum deles se recusa ou se mostra de m\u00e1 vontade atrav\u00e9s de toda a eternidade.<br \/> Que estranha metamorfose operou-se neles, que haviam sido criados puros e perfeitos como os anjos! \u00c9 realmente estranho v\u00ea-los dar exemplos de perfeito entendimento, de plena harmonia, de inalter\u00e1vel conc\u00f3rdia, quando os homens n\u00e3o sabem viver em paz e se estra\u00e7alham na Terra.<br \/> Vendo o requinte dos castigos reservados aos condenados e comparando a sua situa\u00e7\u00e3o com a dos dem\u00f4nios, pergunta-se quais s\u00e3o os mais dignos de l\u00e1stima: Os algozes ou as v\u00edtimas?(N.<br \/> de Kardec)<\/p>\n<p>Quase nada se conhece dos dem\u00f4nios que formam a popula\u00e7\u00e3o do inferno, esses esp\u00edritos vis que constituem as legi\u00f5es de vampiros e sapos, de escorpi\u00f5es, de corvos, de hidras, de salamandras e outros animais sem nomes da fauna das regi\u00f5es infernais.<br \/> Mas se conhecem e sabem-se de muitos dos pr\u00edncipes que comandam essas regi\u00f5es, entre outros Belfegor, o dem\u00f4nio dos desejos impuros ou o senhor das moscas que produzem a corrup\u00e7\u00e3o; Mamum, o dem\u00f4nio da avareza; Moloque, Belial, Balgad e Astarote e muitos outros.<br \/> E acima deles o seu chefe universal, o sombrio arcanjo que tinha no c\u00e9u o nome de L\u00facifer e que tem no inferno o nome de Satan\u00e1s.<\/p>\n<p>Eis em resumo a id\u00e9ia que nos d\u00e3o do inferno considerado em sua natureza f\u00edsica e quanto \u00e0s penas f\u00edsicas que nele existem.<br \/> Consultai os Pais da Igreja e os antigos Doutores.<br \/> Interrogai as legendas piedosas.<br \/> Olhai as esculturas e as pinturas das nossas igrejas.<br \/> Ouvi com aten\u00e7\u00e3o o que dizem nos nossos p\u00falpitos e aprendereis ainda mais.<\/p>\n<p>13 \u2014 O autor acrescenta a essas descri\u00e7\u00f5es as reflex\u00f5es seguintes, cujo alcance todos compreender\u00e3o:<\/p>\n<p>A ressurrei\u00e7\u00e3o dos corpos \u00e9 um milagre, mas Deus faz ainda outro milagre ao dar a esses corpos mortais, j\u00e1 usados nas passageiras provas da vida e j\u00e1 uma vez aniquilados, a virtude de subsistir, sem se dissolverem, numa fornalha em que at\u00e9 os metais se evaporariam.<br \/> Que se diga que a alma \u00e9 o seu pr\u00f3prio carrasco, que Deus n\u00e3o a castiga, mas apenas a abandona no estado de infelicidade que ela mesma escolheu, isso a rigor se pode compreender, embora o eterno abandono de um ser extraviado e sofredor pare\u00e7a pouco de acordo com a bondade do Criador.<br \/> Mas o que se diz da alma e das penas espirituais, n\u00e3o se pode dizer de maneira alguma dos corpos e das penas corporais.<br \/> Para perpetuar essas penas corporais n\u00e3o \u00e9 suficiente que Deus afaste a sua m\u00e3o, mas \u00e9 necess\u00e1rio, pelo contr\u00e1rio, que ele a mostre, que intervenha, que haja, sem o que os corpos sucumbiriam.<\/p>\n<p>Os te\u00f3logos sup\u00f5em ent\u00e3o que Deus opera, com efeito, ap\u00f3s a ressurrei\u00e7\u00e3o, esse segundo milagre de que falamos.<br \/> Primeiro, ele retira do sepulcro, que os havia devorado, os nossos corpos de argila \u00e9 os retira tal como foram enterrados, com suas antigas enfermidades e as deforma\u00e7\u00f5es produzidas pela idade, pela doen\u00e7a e pelos v\u00edcios.<br \/> Ele nos devolve a esse estado: decr\u00e9pitos, gulosos, gotosos, cheios de necessidades, sens\u00edveis a uma picada de insetos, cobertos pelas feridas que a vida e a morte nos impuseram, e \u00e9 esse o primeiro milagre.<br \/> Depois, nesses corpos miser\u00e1veis, prestes a voltarem \u00e0 poeira de que sa\u00edram, ele insufla uma propriedade que eles nunca possu\u00edram, dando-lhes a imortalidade, esse mesmo dom que na sua c\u00f3lera, ou antes na sua miseric\u00f3rdia, ele havia retirado \u00e0 Ad\u00e3o ao expuls\u00e1-lo do \u00c9den, e eis o segundo milagre.<br \/> Quando Ad\u00e3o era imortal, e portanto invulner\u00e1vel, deixou de o ser, tornando-se mortal: a morte seguiu-se imediatamente \u00e0 dor.<\/p>\n<p>A ressurrei\u00e7\u00e3o n\u00e3o nos devolve, pois, nem \u00e0s condi\u00e7\u00f5es f\u00edsicas do homem inocente nem \u00e0s condi\u00e7\u00f5es f\u00edsicas do homem culpado.<br \/> \u00c9 uma ressurrei\u00e7\u00e3o apenas das nossas mis\u00e9rias, mas com a sobrecarga de novas mis\u00e9rias, infinitamente mais horr\u00edveis.<br \/> \u00c9 em parte, uma verdadeira cria\u00e7\u00e3o e a mais maliciosa que a imagina\u00e7\u00e3o j\u00e1 se atreveu a conceber.<br \/> Deus reconsidera, e para acrescentar aos tormentos espirituais dos pecadores os tormentos carnais que devem durar para sempre, muda imediatamente, por um efeito do seu poder, as leis e as propriedades por ele mesmo estabelecidas, desde o come\u00e7o, para os organismos materiais.<br \/> Ressuscita as carnes doentes e corrompidas, e reunindo por um n\u00f3 indestrut\u00edvel esses elementos que tendem por si mesmos a separar-se, os mant\u00e9m e perpetua contra a ordem natural, nessa podrid\u00e3o viva, e a lan\u00e7a no fogo, n\u00e3o para a purificar, mas para a conservar tal qual \u00e9, sens\u00edvel, sofredora, sempre queimando, horr\u00edvel, exatamente como quer que ela se mantenha imortal.<\/p>\n<p>Por esse milagre se transforma Deus num dos carrascos do inferno, pois se os condenados s\u00f3 podem atribuir a si mesmos os seus males espirituais, n\u00e3o podem fazer o mesmo com os outros, s\u00f3 atribu\u00edveis a Deus.<br \/> Era aparentemente muito pouco abandon\u00e1-los depois da morte \u00e0 tristeza, ao arrependimento e a todas as ang\u00fastias de uma alma que sente haver perdido o bem supremo.<br \/> Deus, segundo os te\u00f3logos, ir\u00e1 busc\u00e1-las nessa noite no fundo desse abismo, trazendo-as por um momento \u00e0 luz, n\u00e3o para as consolar, mas para as revestir de um corpo horrendo, queimante, imperec\u00edvel, mais empestado que a t\u00fanica de Janira, e s\u00f3 ent\u00e3o as abandona para sempre.<\/p>\n<p>Mas a verdade \u00e9 que n\u00e3o as abandonar\u00e1, pois que o inferno subsiste, como a terra e o c\u00e9u, por um ato permanente da sua vontade sempre ativa e tudo se desvaneceria se ele cessasse de os sustentar.<br \/> Ele manter\u00e1, portanto, sem cessar, sua m\u00e3o sobre os condenados para impedir que o fogo se extinga e seus corpos se dissolvam, querendo que esses infelizes imortais contribuam com o seu perene supl\u00edcio para a edifica\u00e7\u00e3o dos eleitos.<\/p>\n<p>14 \u2014 Dissemos com raz\u00e3o que o inferno dos crist\u00e3os havia superado o dos pag\u00e3os.<br \/> No T\u00e1rtaro, com efeito, viam-se os culpados serem torturados pelos remorsos, sempre em face dos seus crimes e das suas v\u00edtimas, acabrunhados por aqueles mesmos que eles haviam prejudicado em vida.<br \/> Viam-se os culpados fugindo \u00e0 luz e procurando em v\u00e3o escapar aos olhos que os perseguiam.<br \/> O orgulho era ali abatido e humilhado.<br \/> Todos carregavam os estigmas do seu passado, todos eram punidos pelas suas pr\u00f3prias faltas, a tal ponto que, para alguns, era bastante entreg\u00e1-los a si mesmos, sendo in\u00fatil acrescentar-lhes outros castigos.<br \/> Al\u00e9m disso eles eram sombras, quer dizer: almas com seus corpos flu\u00eddicos, imagens da sua exist\u00eancia terrena.<br \/> N\u00e3o se viam os homens retomarem seus corpos carnais para sofrerem materialmente, nem o fogo penetrar-lhes sob a pele e os saturar at\u00e9 a medula dos ossos, nem o requinte e o refinamento dos supl\u00edcios que constituem a base do inferno crist\u00e3o.<br \/> Havia ju\u00edzes inflex\u00edveis, mas justos, que proporcionavam a pena na medida da falta, enquanto no imp\u00e9rio de Satan\u00e1s todos se confundem nas mesmas torturas e tudo se funda na materialidade, de maneira que a pr\u00f3pria equidade n\u00e3o existe.<\/p>\n<p>H\u00e1 hoje, sem d\u00favida, na pr\u00f3pria Igreja, muitos homens de bom senso que n\u00e3o mais admitem essas coisas ao p\u00e9 da letra e as consideram como simples alegorias das quais \u00e9 necess\u00e1rio apreender o sentido.<br \/> Mas essa opini\u00e3o \u00e9 apenas individual e n\u00e3o constitue lei.<br \/> A cren\u00e7a no inferno material, com todas as suas conseq\u00fc\u00eancias, ainda permanece como artigo de f\u00e9.<\/p>\n<p>15 \u2014 Pergunta-se como os homens puderam ver essas coisas em estado de \u00eaxtase, se elas n\u00e3o existem.<br \/> N\u00e3o \u00e9 este o lugar de explicar a fonte dessas imagens fant\u00e1sticas, que as vezes se produzem com a apar\u00eancia de realidade.<br \/> Diremos somente que devemos ver nisso uma prova do princ\u00edpio de que o \u00eaxtase \u00e9 a menos segura de todas as formas de revela\u00e7\u00e3o, porque esse estado de superexcita\u00e7\u00e3o nem sempre resulta de um desprendimento completo da alma, como se poderia crer, e nele encontramos muito freq\u00fcentemente o reflexo das preocupa\u00e7\u00f5es do estado de vig\u00edlia.<br \/> As id\u00e9ias de que a mente se nutre e que o c\u00e9rebro, ou melhor o inv\u00f3lucro perispiritual correspondente ao c\u00e9rebro, conserva, se reproduzem e amplificam como numa miragem, sob as formas vaporosas que se desenvolvem e se misturam, compondo esse conjuntos estranhos.<\/p>\n<p>Os ext\u00e1ticos de todos os cultos sempre viram as coisas em rela\u00e7\u00e3o com a f\u00e9 a que se apegam.<br \/> N\u00e3o \u00e9 pois de surpreender que os que, como Santa Teresa se acham fortemente convencidos das id\u00e9ias do inferno, segundo as apresentam as descri\u00e7\u00f5es verbais ou escritas e as pinturas, tenham vis\u00f5es que nada mais s\u00e3o, propriamente falando, do que a reprodu\u00e7\u00e3o dessas id\u00e9ias, produzindo o efeito de um pesadelo.<br \/> Um pag\u00e3o cheio de f\u00e9 teria visto o T\u00e1rtaro e as F\u00farias, como teria visto no Olimpo o pr\u00f3prio J\u00fapiter tendo um raio na m\u00e3o.<br \/>(19)<\/p>\n<p>(19) Kardec antecipa, nesta maravilhosa explica\u00e7\u00e3o, a teoria do condicionalismo \u00e0 cren\u00e7a que Charles Richet formularia mais tarde na Metaps\u00edquica e hoje revivida na Parapsicologia.<br \/> Como se v\u00ea, as chamadas novidades parapsicol\u00f3gicas nada mais fazem do que confirmar teses esp\u00edritas de h\u00e1 mais de um s\u00e9culo, e \u00e0s vezes de maneira incoerente, contrastando com a explica\u00e7\u00e3o esp\u00edrita, que \u00e9 sempre clara e precisa.<br \/> Veja-se este assunto no livro En los limites de la Psicologia, do prof.<br \/> Ricardo Musso, Buenos Aires, 1960, no Tratado de Metaps\u00edquica, de Richet, e em Parapsicologia Hoje e Amanh\u00e3, de J.<br \/> Herculano Pires.<br \/> (N.<br \/> do T.<br \/>)<\/p>\n<div class=\"pvc_clear\"><\/div>\n<p id=\"pvc_stats_15273\" class=\"pvc_stats all  \" data-element-id=\"15273\" style=\"\"><i class=\"pvc-stats-icon medium\" aria-hidden=\"true\"><svg aria-hidden=\"true\" focusable=\"false\" data-prefix=\"far\" data-icon=\"chart-bar\" role=\"img\" xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" viewBox=\"0 0 512 512\" class=\"svg-inline--fa fa-chart-bar fa-w-16 fa-2x\"><path fill=\"currentColor\" d=\"M396.8 352h22.4c6.4 0 12.8-6.4 12.8-12.8V108.8c0-6.4-6.4-12.8-12.8-12.8h-22.4c-6.4 0-12.8 6.4-12.8 12.8v230.4c0 6.4 6.4 12.8 12.8 12.8zm-192 0h22.4c6.4 0 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Mas a id\u00e9ia que ele fez a respeito estava em rela\u00e7\u00e3o com o desenvolvimento do seu senso moral e&hellip; <br \/> <a class=\"read-more\" href=\"https:\/\/www.centronocaminhodaluz.com.br\/index.php\/artigo15273\/\">Leia mais<\/a><\/p>\n<div class=\"pvc_clear\"><\/div>\n<p id=\"pvc_stats_15273\" class=\"pvc_stats all  \" data-element-id=\"15273\" style=\"\"><i class=\"pvc-stats-icon medium\" aria-hidden=\"true\"><svg aria-hidden=\"true\" focusable=\"false\" data-prefix=\"far\" data-icon=\"chart-bar\" role=\"img\" xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" viewBox=\"0 0 512 512\" class=\"svg-inline--fa fa-chart-bar fa-w-16 fa-2x\"><path fill=\"currentColor\" d=\"M396.8 352h22.4c6.4 0 12.8-6.4 12.8-12.8V108.8c0-6.4-6.4-12.8-12.8-12.8h-22.4c-6.4 0-12.8 6.4-12.8 12.8v230.4c0 6.4 6.4 12.8 12.8 12.8zm-192 0h22.4c6.4 0 12.8-6.4 12.8-12.8V140.8c0-6.4-6.4-12.8-12.8-12.8h-22.4c-6.4 0-12.8 6.4-12.8 12.8v198.4c0 6.4 6.4 12.8 12.8 12.8zm96 0h22.4c6.4 0 12.8-6.4 12.8-12.8V204.8c0-6.4-6.4-12.8-12.8-12.8h-22.4c-6.4 0-12.8 6.4-12.8 12.8v134.4c0 6.4 6.4 12.8 12.8 12.8zM496 400H48V80c0-8.84-7.16-16-16-16H16C7.16 64 0 71.16 0 80v336c0 17.67 14.33 32 32 32h464c8.84 0 16-7.16 16-16v-16c0-8.84-7.16-16-16-16zm-387.2-48h22.4c6.4 0 12.8-6.4 12.8-12.8v-70.4c0-6.4-6.4-12.8-12.8-12.8h-22.4c-6.4 0-12.8 6.4-12.8 12.8v70.4c0 6.4 6.4 12.8 12.8 12.8z\" class=\"\"><\/path><\/svg><\/i> <img decoding=\"async\" width=\"16\" height=\"16\" alt=\"Loading\" data-src=\"https:\/\/www.centronocaminhodaluz.com.br\/wp-content\/plugins\/page-views-count\/ajax-loader-2x.gif\" border=0 src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" class=\"lazyload\" style=\"--smush-placeholder-width: 16px; --smush-placeholder-aspect-ratio: 16\/16;\" \/><\/p>\n<div class=\"pvc_clear\"><\/div>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[16],"tags":[],"class_list":["post-15273","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-mensagens-diversas"],"a3_pvc":{"activated":true,"total_views":4087,"today_views":0},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.centronocaminhodaluz.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15273","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.centronocaminhodaluz.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.centronocaminhodaluz.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.centronocaminhodaluz.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.centronocaminhodaluz.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=15273"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.centronocaminhodaluz.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15273\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.centronocaminhodaluz.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=15273"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.centronocaminhodaluz.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=15273"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.centronocaminhodaluz.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=15273"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}