{"id":15433,"date":"2018-10-20T08:12:00","date_gmt":"2018-10-20T08:12:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.centronocaminhodaluz.com.br\/index.php\/artigo15433\/"},"modified":"2018-10-20T08:28:45","modified_gmt":"2018-10-20T11:28:45","slug":"artigo15433","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.centronocaminhodaluz.com.br\/index.php\/artigo15433\/","title":{"rendered":"Livro C\u00e9u e o Inferno &#8211;  Segunda Parte &#8211; Cap\u00edtulo II  Esp\u00edritos Felizes &#8211; Allan Kardec"},"content":{"rendered":"<p>Sr.<br \/> Sanson<\/p>\n<p>O Sr.<br \/> Sanson, antigo membro da Sociedade Esp\u00edrita de Paris, morreu a 21 de abril de 1862, ap\u00f3s um ano de cru\u00e9is padecimentos.<br \/> Prevendo o seu fim ele havia dirigido ao presidente da sociedade uma carta contendo a seguinte passagem:<\/p>\n<p>No caso de uma s\u00fabita separa\u00e7\u00e3o de minha alma e meu corpo, venho lembrar-vos uma solicita\u00e7\u00e3o que j\u00e1 vos fiz h\u00e1 cerca de um ano.<br \/> \u00c9 a de evocar o meu Esp\u00edrito o mais rapidamente poss\u00edvel e sempre que julgardes conveniente, a fim de que, membro bastante in\u00fatil da nossa sociedade durante a minha perman\u00eancia na Terra, eu possa servir para alguma coisa al\u00e9m do t\u00famulo, proporcionando-vos os meios de estudar fase por fase, atrav\u00e9s das evoca\u00e7\u00f5es, as diversas circunst\u00e2ncias decorrentes do que o vulgo chama de morte, mas que para n\u00f3s, esp\u00edritas, \u00e9 apenas uma transforma\u00e7\u00e3o, segundo os des\u00edgnios impenetr\u00e1veis de Deus, mas sempre \u00fatil ao fim que ele se prop\u00f4s.<\/p>\n<p>Al\u00e9m desta autoriza\u00e7\u00e3o e pedido para me dardes a honra dessa esp\u00e9cie de aut\u00f3psia espiritual, que o meu t\u00e3o reduzido adiantamento espiritual tornar\u00e1 talvez est\u00e9ril, caso em que a vossa prud\u00eancia vos levar\u00e1 naturalmente a n\u00e3o ir muito al\u00e9m de um certo n\u00famero de experi\u00eancias, ouso vos pedir pessoalmente, bem como a todos os meus colegas, suplicarem ao Todo-Poderoso permitir aos bons Esp\u00edritos que me assistam com os seus conselhos benevolentes.<br \/> Em particular a S\u00e3o Lu\u00eds, nosso presidente espiritual, no sentido de me guiar na escolha e na \u00e9poca de uma reencarna\u00e7\u00e3o.<br \/> Porque desde o presente isso me preocupa muito.<br \/> Temo enganar-me quanto \u00e0s minhas for\u00e7as espirituais, pedindo a Deus demasiado cedo e presun\u00e7osamente uma vida corporal na qual n\u00e3o pudesse justificar a bondade divina, ou que, em lugar de servir ao meu adiantamento prolongasse a minha perman\u00eancia na Terra ou algures, caso eu viesse a fracassar.<\/p>\n<p>Para atender ao seu desejo de ser evocado o mais cedo poss\u00edvel, ap\u00f3s o seu passamento dirigimo-nos \u00e0 c\u00e2mara mortu\u00e1ria com alguns membros da sociedade e, na presen\u00e7a do corpo, deu-se a comunica\u00e7\u00e3o seguinte, uma hora antes do enterro.<\/p>\n<p>T\u00ednhamos com isso um duplo objetivo: o de cumprir a sua \u00faltima vontade e o de observar mais uma vez a situa\u00e7\u00e3o da alma num instante assim t\u00e3o pr\u00f3ximo da morte.<br \/> E isso com um homem eminentemente inteligente, esclarecido e profundamente convicto dos princ\u00edpios esp\u00edritas.<br \/> Interessava-nos verificar a influ\u00eancia dessas convic\u00e7\u00f5es sobre a situa\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito, colhendo para isso as suas primeiras impress\u00f5es.<\/p>\n<p>Nossa expectativa n\u00e3o foi frustrada.<br \/> O Sr.<br \/> Sanson relatou com perfeita lucidez o instante da transi\u00e7\u00e3o.<br \/> Ele havia assistido \u00e0 sua pr\u00f3pria morte, vendo-se tamb\u00e9m renascer, circunst\u00e2ncia pouco comum e que se deve \u00e0 eleva\u00e7\u00e3o do seu Esp\u00edrito.<\/p>\n<p>I (C\u00e2mara mortu\u00e1ria, 23 de Abril de 1862.<br \/>)<\/p>\n<p>1.<br \/> Evoca\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>\u2014 Atendo ao vosso chamado para cumprir a minha promessa.<\/p>\n<p>2.<br \/> Meu caro Sr.<br \/> Sanson, cumprimos um dever e sentimos prazer ao vos evocar o mais cedo poss\u00edvel ap\u00f3s a vossa morte, como era do vosso desejo.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 uma gra\u00e7a especial de Deus que permite ao meu Esp\u00edrito poder comunicar-se.<br \/> Agrade\u00e7o a vossa boa vontade, mas estou fraco e tremo.<\/p>\n<p>3.<br \/> Sofrestes tanto que podemos, segundo penso, perguntar como estais agora.<br \/> Sent\u00eds ainda as vossas dores? O que sent\u00eds ao comparar a vossa situa\u00e7\u00e3o presente com a de h\u00e1 dois dias?<\/p>\n<p>\u2014 Minha situa\u00e7\u00e3o \u00e9 bem feliz, pois nada sinto de minhas antigas dores.<br \/> Estou recuperado e renovado, como costumais dizer.<br \/> A transi\u00e7\u00e3o da vida terrena para a vida espiritual devia me tornar tudo incompreens\u00edvel, de in\u00edcio, pois \u00e0s vezes permanecemos muitos dias sem recobrar a lucidez.<br \/> Mas, antes de morrer fiz uma prece a Deus pedindo-lhe que me permitisse falar aos que quero bem.<br \/> E Deus me ouviu.<\/p>\n<p>4 .<br \/> Quanto tempo levastes para recobrar a lucidez mental?<\/p>\n<p>\u2014 Oito horas.<br \/> Deus, repito, me havia dado uma prova da sua bondade.<br \/> Julgou-me bastante digno e jamais poderei agradecer-lhe como devo.<\/p>\n<p>5.<br \/> Estais bem certo de n\u00e3o pertencer mais ao nosso mundo? Como o constatastes?<\/p>\n<p>\u2014 Oh! Claro que n\u00e3o sou mais do vosso mundo.<br \/> Mas estarei sempre perto de v\u00f3s para vos proteger e vos sustentar na prega\u00e7\u00e3o da caridade e da abnega\u00e7\u00e3o que orientaram a minha vida.<br \/> Al\u00e9m disso ensinarei a verdadeira f\u00e9, a f\u00e9 esp\u00edrita que deve elevar a cren\u00e7a do justo e do bom.<br \/> Sinto-me forte, bastante forte.<br \/> Numa palavra, estou transformado.<br \/> N\u00e3o reconhecereis mais o velho inseguro que devia afastar-se de tudo, abandonando qualquer prazer e alegria.<br \/> Sou Esp\u00edrito.<br \/> Minha p\u00e1tria \u00e9 o espa\u00e7o e o meu futuro \u00e9 Deus que irradia pela imensidade.<br \/> Queria muito falar aos meus filhos para lhes ensinar o que eles sempre mostraram m\u00e1 vontade de acreditar.<\/p>\n<p>6.<br \/> Que efeito vos produz a vis\u00e3o do vosso corpo aqui ao lado?<\/p>\n<p>\u2014 Meu corpo, pobre e m\u00edsero despojo, tem de voltar \u00e0 poeira, mas guardo comigo a boa lembran\u00e7a de todos os que me estimaram quando encarnado.<br \/> Olho esta pobre carne deformada que foi habita\u00e7\u00e3o do meu Esp\u00edrito e a prova de tantos anos! Obrigado, meu pobre corpo! Purificaste o meu Esp\u00edrito.<br \/> O sofrimento dez vezes santo proporcionou-me boa recompensa, pois encontro t\u00e3o depressa a possibilidade de falar-vos.<\/p>\n<p>7.<br \/> Conservastes as vossas id\u00e9ias at\u00e9 o \u00faltimo instante?<\/p>\n<p>\u2014 Sim, meu Esp\u00edrito conservou as suas faculdades.<br \/> Perdi a vis\u00e3o, mas pressentia.<br \/> Toda a minha vida se desenrolou na minha mem\u00f3ria e a minha \u00faltima lembran\u00e7a, meu derradeiro pedido foi o de poder falar convosco, como o fa\u00e7o.<br \/> Depois pedi a Deus para vos proteger, a fim de que o sonho da minha vida se realizasse.<\/p>\n<p>8.<br \/> Tivestes consci\u00eancia do momento em que o vosso corpo dava o \u00faltimo suspiro? O que se passou convosco nesse momento? Que sensa\u00e7\u00f5es experimentastes?<\/p>\n<p>\u2014 A vida se extingue e a vista, ou antes a vista do Esp\u00edrito se apaga.<br \/> Encontra-se o v\u00e1cuo, o desconhecido, e levado por n\u00e3o sei que sortil\u00e9gio a gente se encontra num mundo onde tudo \u00e9 alegria e grandeza.<br \/> Eu n\u00e3o sentia mais, n\u00e3o dava mais conta de mim mesmo, e n\u00e3o obstante uma inef\u00e1vel felicidade me envolvia, n\u00e3o sentia mais o aguilh\u00e3o da dor.<\/p>\n<p>9.<br \/> Tendes ci\u00eancia.<br \/>.<br \/>.<br \/> (do que me propus a ler no vosso t\u00famulo?)<\/p>\n<p>Pronunciadas apenas as primeiras palavras, o Esp\u00edrito respondeu, antes que eu acabasse a leitura.<br \/> Respondeu tamb\u00e9m, sem que nada lhe perguntassem, ao que discutiam os assistentes sobre a conveni\u00eancia de se ler a sua comunica\u00e7\u00e3o no cemit\u00e9rio, em virtude da presen\u00e7a de pessoas que poderiam ou n\u00e3o participar das suas opini\u00f5es.<\/p>\n<p>\u2014 Oh, meu amigo, eu o sei, pois j\u00e1 estive ontem convosco, como j\u00e1 estive hoje.<br \/> Minha satisfa\u00e7\u00e3o \u00e9 muito grande! Obrigado, obrigado! Falai, para que possam me compreender e vos apreciar.<br \/> Nada temais, pois todos respeitam a morte.<br \/> Falai, pois, para que os incr\u00e9dulos adquiram a f\u00e9.<br \/> Adeus.<br \/> Falai, coragem, confian\u00e7a, que possam os meus filhos converter-se a uma cren\u00e7a t\u00e3o honrosa!<\/p>\n<p>J.<br \/> Sanson<\/p>\n<p>Durante a cerim\u00f4nia do cemit\u00e9rio ele ditou as seguintes palavras:<\/p>\n<p>Que a morte n\u00e3o mais vos atemorize, meus amigos.<br \/> Ela \u00e9 para v\u00f3s apenas uma etapa, se tiverdes sabido viver bem.<br \/> \u00c9 uma felicidade, se a tiverdes merecido dignamente, cumprindo bem as vossas provas.<br \/> Repito-vos: Coragem e boa vontade! N\u00e3o deis mais do que um med\u00edocre valor aos bens terrenos e sereis recompensados.<br \/> N\u00e3o se pode gozar muito, sem roubar o bem estar dos outros, praticando moralmente um imenso mal.<br \/> Que a terra me seja leve!<\/p>\n<p>II<\/p>\n<p>(Sociedade Esp\u00edrita de Paris, 25 de Abril de 1862.<br \/>)<\/p>\n<p>1.<br \/> Evoca\u00e7\u00e3o.<br \/> \u2014 Meus amigos, estou perto de v\u00f3s.<\/p>\n<p>2.<br \/> Ficamos felizes com a conversa que mantivemos convosco no dia do vosso enterro.<br \/> E desde de que o aceiteis, seremos felizes de completar o assunto para nossa instru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Estou ao vosso dispor, contente porque pensais em mim.<\/p>\n<p>3.<br \/> Tudo o que nos puder esclarecer sobre as condi\u00e7\u00f5es do mundo invis\u00edvel, fazendo-nos compreend\u00ea-lo, representa elevado ensinamento, pois \u00e9 a falsa id\u00e9ia que se tem a seu respeito que leva freq\u00fcentemente \u00e0 incredulidade.<br \/> N\u00e3o vos admireis, pois, com as perguntas que vos fizermos.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o me admirarei e espero as vossas perguntas.<\/p>\n<p>4.<br \/> Descrevestes com bastante clareza a passagem da vida para a morte.<br \/> Dissestes que no momento em que o corpo exala o \u00faltimo suspiro a vida se extingue e a vista do Esp\u00edrito se apaga.<br \/> Esse momento \u00e9 seguido de uma sensa\u00e7\u00e3o penosa e dolorosa?(49)<\/p>\n<p>\u2014 Sem d\u00favida, porque a vida \u00e9 uma seq\u00fc\u00eancia incessante de dores e a morte \u00e9 o complemento de todas essas dores.<br \/> \u00c9 por isso que se verifica uma ruptura violenta como se o Esp\u00edrito tivesse de fazer um esfor\u00e7o sobrehumano para escapar do seu envolt\u00f3rio.<br \/> \u00c9 esse esfor\u00e7o que absorve todo o nosso ser, n\u00e3o lhe permitindo compreender a transforma\u00e7\u00e3o porque passa.<\/p>\n<p>Essa n\u00e3o \u00e9 a regra geral.<br \/> A experi\u00eancia mostra que muitos Esp\u00edritos perdem a consci\u00eancia antes de expirar, mas que entre os que chegaram a um certo grau de espiritualiza\u00e7\u00e3o a separa\u00e7\u00e3o se realiza sem esfor\u00e7os.<\/p>\n<p>5.<br \/> Sabeis se h\u00e1 Esp\u00edritos que sofrem mais nesse momento? Ele \u00e9 mais penoso, por exemplo, para o materialista, para aquele que cr\u00ea que tudo ent\u00e3o se acaba para ele?<\/p>\n<p>\u2014 Isso \u00e9 certo, porque o Esp\u00edrito preparado j\u00e1 superou os sofrimentos anteriores, ou melhor, habituou-se a sofrer e a serenidade com que aguarda a morte o livra de sofrer duplamente, mesmo porque ele sabe o que o aguarda.<br \/> O sofrimento moral \u00e9 o mais doloroso e a sua aus\u00eancia no instante da morte representa grande al\u00edvio.<br \/> Aquele que n\u00e3o cr\u00ea se parece ao condenado \u00e0 pena capital, que no seu pensamento v\u00ea a l\u00e2mina e ao mesmo tempo o desconhecido.<br \/> H\u00e1 uma semelhan\u00e7a entre essa morte e a do ateu.<\/p>\n<p>6.<br \/> H\u00e1 materialistas bastante endurecidos para acreditarem seriamente, nesse momento supremo, que v\u00e3o ser reduzidos a nada?<\/p>\n<p>\u2014 Sem d\u00favida, h\u00e1 os que cr\u00eaem nisso at\u00e9 a \u00faltima hora.<br \/> Mas no momento da separa\u00e7\u00e3o o Esp\u00edrito sofre um retorno \u00e0s profundezas de si mesmo, a d\u00favida ent\u00e3o o envolve e o tortura, levando-o a se perguntar no que ir\u00e1 se transformar.<br \/> Ele quer compreender alguma coisa e n\u00e3o consegue.<br \/> A separa\u00e7\u00e3o nunca se faz sem essa impress\u00e3o.<\/p>\n<p>(49)  A vista do esp\u00edrito se apaga .<br \/> Este dado \u00e9 importante porque se relaciona com o problema da percep\u00e7\u00e3o espiritual.<br \/> O Esp\u00edrito n\u00e3o percebe por \u00f3rg\u00e3os especiais, mas por todo o seu corpo.<br \/> A transfer\u00eancia da vis\u00e3o, de um campo espec\u00edfico para o geral, requer algum tempo de adapta\u00e7\u00e3o.<br \/> Veja-se, no O Livro dos Esp\u00edritos, o cap\u00edtulo Ensaio te\u00f3rico sobre as sensa\u00e7\u00f5es nos esp\u00edritos.<br \/> (N.<br \/> do T.<br \/>)<\/p>\n<p>Um Esp\u00edrito nos deu, em outra ocasi\u00e3o, o quadro seguinte do fim do incr\u00e9dulo:<\/p>\n<p>O incr\u00e9dulo endurecido experimenta nos seus \u00faltimos momentos as ang\u00fastias desses terr\u00edveis pesadelos em que nos vemos \u00e0 beira de um precip\u00edcio, prestes a cair no abismo, fazendo in\u00fateis esfor\u00e7os para escapar, sem conseguir recuar.<br \/> Nesses momentos queremos agarrar a alguma coisa, encontrar um ponto de apoio, mas nos sentimos deslizar.<br \/> Queremos gritar e n\u00e3o podemos articular palavras.<br \/> \u00c9 assim que vemos o moribundo se contorcer, crispar as m\u00e3os e emitir sons angustiados, sinais certos do pesadelo em que se encontra.<br \/> No pesadelo comum o despertar nos livra do desespero e ficamos felizes ao constatar que tudo foi apenas um sonho.<br \/> Mas o pesadelo da morte se prolonga, \u00e0s vezes por longo tempo, at\u00e9 mesmo por anos, e o que torna a sensa\u00e7\u00e3o ainda mais penosa para o Esp\u00edrito s\u00e3o as trevas em que ele \u00e0s vezes se v\u00ea mergulhado.<\/p>\n<p>7.<br \/> Dissestes que no momento de morrer perdestes a vista, mas que pod\u00edeis pressentir.<br \/> Compreende-se que n\u00e3o t\u00ednheis a vis\u00e3o corporal, mas antes que essa vis\u00e3o se apagasse j\u00e1 entrev\u00edeis a claridade do mundo espiritual?<\/p>\n<p>\u2014 Foi o que eu disse anteriormente: o instante da morte torna o Esp\u00edrito clarividente.<br \/> Os olhos deixam de ver, mas o Esp\u00edrito, que possui vis\u00e3o mais profunda, descobre instantaneamente um mundo desconhecido, e a verdade que assim lhe aparece subitamente lhe confere, embora por momentos, uma grande alegria ou uma tristeza inexplic\u00e1vel segundo o estado da sua consci\u00eancia e a lembran\u00e7a da sua vida passada.<\/p>\n<p>Trata-se do instante anterior \u00e0quele em que o Esp\u00edrito perde a consci\u00eancia.<br \/> Isso explica o emprego da express\u00e3o por momentos, pois as mesmas impress\u00f5es agrad\u00e1veis ou penosas prosseguem ap\u00f3s o despertar.<\/p>\n<p>8.<br \/> Quereis dizer o que, no momento em que os vossos olhos se reabriram para a luz, vos emocionou entre tudo o que vistes? Quereis descrever-nos, se poss\u00edvel, o aspecto das coisas que ent\u00e3o se apresentaram a v\u00f3s?<\/p>\n<p>\u2014 Quando pude voltar a mim e ver o que havia diante dos meus olhos, estava como ofuscado e n\u00e3o percebi bem as coisas porque a lucidez n\u00e3o se restabelece instantaneamente.<br \/> Mas Deus, que me deu uma profunda prova da sua bondade, permitiu que eu logo recobrasse as minhas faculdades.<br \/> Vi-me cercado de numerosos e fi\u00e9is amigos.<br \/> Todos os Esp\u00edritos protetores que nos assistem me cercaram sorridentes.<br \/> Uma felicidade sem par os animava e eu mesmo, forte e bem disposto, senti que podia transportar-me sem dificuldades atrav\u00e9s do espa\u00e7o.<br \/> O que ent\u00e3o vi, n\u00e3o h\u00e1 palavras para que eu possa explic\u00e1-las nas l\u00ednguas humanas.<\/p>\n<p>Voltarei para vos falar mais amplamente de todas as minhas venturas, sem entretanto ultrapassar o limite estabelecido por Deus.<br \/> Sabei que a felicidade, como a entendeis, \u00e9 apenas uma fic\u00e7\u00e3o.<br \/> Vivei prudentemente, santamente, no esp\u00edrito de caridade e amor e estareis preparados para as sensa\u00e7\u00f5es que os vossos maiores poetas n\u00e3o poderiam cantar.<\/p>\n<p>Os contos de fadas est\u00e3o sem d\u00favida cheios de coisas absurdas.<br \/> Mas n\u00e3o seriam eles, em alguns pontos, a pintura do que se passa no mundo dos Esp\u00edritos? O relato do Sr.<br \/> Sanson n\u00e3o se assemelha a de um homem que, tendo dormido numa cabana pobre e obscura, de repente acordasse num espl\u00eandido pal\u00e1cio, em meio de uma corte brilhante?<\/p>\n<p>III<\/p>\n<p>9.<br \/> Sob que aspecto os Esp\u00edritos se vos apresentaram? Sob o da forma humana?<\/p>\n<p>\u2014 Sim, meu caro amigo, os Esp\u00edritos nos haviam ensinado, a\u00ed na Terra, que eles conservam no outro mundo a forma transit\u00f3ria que tinham nesse.<br \/> E essa \u00e9 a verdade.<br \/> Mas que diferen\u00e7a entre a m\u00e1quina informe que se arrasta penosamente ao peso das provas e a fluidez maravilhosa dos corpos dos Esp\u00edritos! A fealdade n\u00e3o existe mais, porque os tra\u00e7os perderam a dureza de express\u00e3o que caracteriza a ra\u00e7a humana.<br \/> Deus aben\u00e7oou todos esses corpos graciosos que se movem com todos os encantos da forma.<br \/> A linguagem tem entona\u00e7\u00f5es intraduz\u00edveis para v\u00f3s e o olhar possui o mist\u00e9rio das estrelas.<br \/> Procurai ver, pelo pensamento, o que Deus poderia fazer em sua onipot\u00eancia, como o arquiteto dos arquitetos, e tereis feito uma fr\u00e1gil id\u00e9ia da forma dos Esp\u00edritos.<\/p>\n<p>10.<br \/> Como v\u00eades a v\u00f3s mesmo? Reconhecei-vos dotado de uma forma limitada, circunscrita, embora flu\u00eddica? Possuis uma cabe\u00e7a, um tronco, bra\u00e7os e pernas?<\/p>\n<p>\u2014 O Esp\u00edrito, tendo conservado a forma humana, mas divinizada, idealizada, tem sem d\u00favida todos os membros de que falais.<br \/> Sinto perfeitamente as pernas e os dedos, pois podemos, por nossa vontade, aparecer-vos e apertar-vos as m\u00e3os.<br \/> Estou pr\u00f3ximo a v\u00f3s todos e apertei as vossas m\u00e3os amigas, sem que o percebesseis.<br \/> Nossa fluidez nos permite estar em qualquer lugar sem ocupar espa\u00e7o e sem provocar nenhuma sensa\u00e7\u00e3o nas pessoas, se for esse o nosso desejo.<br \/> Neste momento tendes as m\u00e3os cruzadas e tenho as minhas nas vossas.<br \/> Digo-vos: eu vos amo, mas o meu corpo n\u00e3o toma espa\u00e7o, a luz o atravessa sem torn\u00e1-lo vis\u00edvel.<br \/> E o que chamar\u00edeis um milagre, se ele fosse vis\u00edvel, \u00e9 para os Esp\u00edritos a continuidade de um fato comum de todos os instantes.<\/p>\n<p>A vis\u00e3o dos Esp\u00edritos n\u00e3o pode ser comparada com a vis\u00e3o humana, da mesma maneira que os seus corpos n\u00e3o t\u00eam semelhan\u00e7a real, pois tudo se modifica no conjunto e na ess\u00eancia.<br \/> O Esp\u00edrito, repito, tem uma perspic\u00e1cia divina que a tudo atinge, podendo mesmo adivinhar o vosso pensamento.<br \/> Por outro lado, pode tomar a forma que melhor lhe convenha para despertar as vossas lembran\u00e7as.<br \/> Mas, neste ponto, o Esp\u00edrito superior que terminou as suas provas prefere a forma da exist\u00eancia que pode faz\u00ea-lo aproximar-se de Deus.<\/p>\n<p>11.<br \/> Os Esp\u00edritos n\u00e3o t\u00eam sexo.<br \/> Entretanto, como ainda h\u00e1 poucos dias \u00e9reis um homem, tendes neste novo estado uma natureza mais masculina do que feminina? Acontece o mesmo com um Esp\u00edrito que tivesse deixado o seu corpo h\u00e1 muito tempo?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o temos de possuir natureza masculina ou feminina: os Esp\u00edritos n\u00e3o se reproduzem.<br \/> Deus os criou pela sua vontade, e se, nos seus maravilhosos des\u00edgnios quis que os Esp\u00edritos se reencarnem na Terra, teve de acrescentar para isso a reprodu\u00e7\u00e3o das esp\u00e9cies por meio das condi\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias do macho e da f\u00eamea.<br \/> Mas v\u00f3s o sentis, sem necessidade de nenhuma explica\u00e7\u00e3o \u2014 os Esp\u00edritos n\u00e3o podem ter sexo.<\/p>\n<p>Sempre tem sido afirmado que os Esp\u00edritos n\u00e3o t\u00eam sexo, pois este s\u00f3 \u00e9 necess\u00e1rio para a reprodu\u00e7\u00e3o dos corpos.<br \/> Como os Esp\u00edritos n\u00e3o se reproduzem, o sexo para eles seria in\u00fatil.<br \/> Nossa pergunta n\u00e3o tinha por fim obter a confirma\u00e7\u00e3o desse fato.<br \/> Mas, em virtude da morte recente do Sr.<br \/> Sanson, quisemos saber se ele ainda conservava, nesse sentido, uma impress\u00e3o da sua condi\u00e7\u00e3o terrena.<br \/> Os Esp\u00edritos purificados compreendem perfeitamente a sua nova natureza, mas entre os Esp\u00edritos inferiores, n\u00e3o espiritualizados, h\u00e1 muitos que ainda se acreditam na mesma condi\u00e7\u00e3o terrena, conservando as suas antigas paix\u00f5es e os seus desejos.<br \/> Alguns ainda consideram como homens ou mulheres e \u00e9 por isso que dizem que os Esp\u00edritos t\u00eam sexo.<br \/> \u00c9 assim que certas contradi\u00e7\u00f5es decorrem do estado mais ou menos adiantado dos Esp\u00edritos que se comunicam.<br \/> O erro n\u00e3o prov\u00e9m dos Esp\u00edritos, mas daqueles que os interrogam sem se darem ao trabalho de aprofundar as quest\u00f5es.<\/p>\n<p>12.<br \/> Que aspecto vos apresenta a nossa sess\u00e3o? Para a vossa nova vis\u00e3o tem o mesmo aspecto do tempo em que est\u00e1veis entre n\u00f3s? As pessoas mostram-se com a mesma apar\u00eancia? Tudo \u00e9 claro e n\u00edtido como antes?<\/p>\n<p>\u2014 Bem mais claro, pois eu posso ler no pensamento de v\u00f3s todos e sou muito feliz, gra\u00e7as, com a boa sensa\u00e7\u00e3o que me causa a boa vontade de todos os Esp\u00edritos aqui reunidos.<br \/> Desejo que essa mesma harmonia possa existir n\u00e3o apenas em Paris, na reuni\u00e3o de todos os grupos, mas em toda a Fran\u00e7a, onde os grupos s\u00e3o desunidos e se invejam, instigados por Esp\u00edritos perturbadores que se divertem com a desordem, quando o Espiritismo deve ser o esquecimento completo e absoluto do eu.<\/p>\n<p>13.<br \/> Dissestes que podeis ler no nosso pensamento.<br \/> Podereis nos explicar como se opera essa transmiss\u00e3o de pensamento?<\/p>\n<p>\u2014 Isso n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil.<br \/> Para vos explicar esse estranho prod\u00edgio da vis\u00e3o dos Esp\u00edritos seria necess\u00e1rio lan\u00e7ar m\u00e3o de todo um arsenal de elementos novos, para o que ter\u00edeis de conhecer tudo o que conhecemos, o que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, pois as vossas faculdades est\u00e3o limitadas pela mat\u00e9ria.<\/p>\n<p>Paci\u00eancia! Tornai-vos bons e conseguireis isso.<br \/> Tendes atualmente apenas o que Deus vos concedeu, mas com a possibilidade de progresso cont\u00ednuo.<br \/> Mais tarde sereis como n\u00f3s.<br \/> Tratai de morrer bem para saberdes muito.<\/p>\n<p>A curiosidade que estimula a atividade pensante do homem vos acompanha certamente at\u00e9 a morte, reservando-vos para ent\u00e3o a satisfa\u00e7\u00e3o de todas as vossas curiosidades passadas, presentes e futuras.<\/p>\n<p>Nessa expectativa eu vos direi, para responder mal ou bem a vossa pergunta: o ar que vos envolve, impalp\u00e1vel como n\u00f3s, os Esp\u00edritos, est\u00e1 marcado pelos vossos pensamentos; o vosso pr\u00f3prio hausto \u00e9, por assim dizer, a p\u00e1gina escrita dos vossos pensamentos.<br \/> Essas p\u00e1ginas s\u00e3o lidas e comentadas por Esp\u00edritos que constantemente se acercam de v\u00f3s.<br \/> S\u00e3o eles os mensageiros de uma telegrafia divina a que nada escapa.<br \/>(50)<\/p>\n<p>A Morte do Justo<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a primeira comunica\u00e7\u00e3o do Sr.<br \/> Sanson, dada na Sociedade de Paris, um Esp\u00edrito transmitiu, sob o t\u00edtulo acima, a comunica\u00e7\u00e3o seguinte:<\/p>\n<p>A morte do homem de que vos ocupais neste momento foi a do justo, quer dizer, uma morte calma e cheia de esperan\u00e7a.<br \/> Como o dia sucede naturalmente \u00e0 aurora, a vida Esp\u00edrita sucedeu para ele \u00e0 vida terrena, sem abalo, sem ruptura, e o seu \u00faltimo suspiro foi exalado num verdadeiro hino de reconhecimento e de amor.<br \/> Como s\u00e3o poucos os que fazem assim essa dif\u00edcil passagem! Como s\u00e3o poucos os que ap\u00f3s as ilus\u00f5es e os desesperos da vida percebem o ritmo harmonioso das esferas! Assim como o homem saud\u00e1vel, quando mutilado, sofre ainda a sensa\u00e7\u00e3o dos membros perdidos, a alma do homem que morre sem f\u00e9 e sem esperan\u00e7a se sente dilacerada e aflita ao escapar do corpo, lan\u00e7ando-se no espa\u00e7o inconsciente de si mesma.<\/p>\n<p>Orai por essas almas perturbadas, orai por todos os que sofrem.<br \/> A caridade n\u00e3o se restringe \u00e0 humanidade vis\u00edvel: socorre e consola tamb\u00e9m os seres que povoam o espa\u00e7o.<br \/> Tivestes a prova disso pela s\u00fabita convers\u00e3o do Esp\u00edrito tocado pelas preces esp\u00edritas que fizestes no t\u00famulo desse homem de bem que deveis interrogar, pois deseja vos fazer progredir no caminho reto.<\/p>\n<p>O amor n\u00e3o tem limites.<br \/> Expande-se no espa\u00e7o dando e recebendo ao mesmo tempo as suas divinas consola\u00e7\u00f5es.<br \/> O mar se estende numa perspectiva infinita.<br \/> Seu limite no horizonte parece confundir-se com o c\u00e9u e o Esp\u00edrito se deslumbra com o magn\u00edfico espet\u00e1culo dessas duas imensidades.<br \/> Assim o amor, mais profundo do que o mar e infinito como o espa\u00e7o, deve ligar-vos a todos, homens e Esp\u00edritos, na mesma comunh\u00e3o da caridade, realizando a admir\u00e1vel fus\u00e3o do ef\u00eamero com o eterno.<\/p>\n<p>Georges.<\/p>\n<p>Sr.<br \/> Jobard<\/p>\n<p>(Diretor do Museu da Ind\u00fastria de Bruxelas, nascido em Baissey, Alto Marne, e falecido em Bruxelas de um ataque de apoplexia fulminante a 27 de Outubro de 1861, com a idade de 69 anos.<br \/>)<\/p>\n<p>O Sr.<br \/> Jobard era presidente honor\u00e1rio da Sociedade Esp\u00edrita de Paris.<br \/> Pens\u00e1vamos em evoc\u00e1-lo na sess\u00e3o de 8 de novembro, quando ele nos antecipou dando espontaneamente a seguinte comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Eis-me aqui, eu que querieis evocar e que desejei manifestar-me antes por este m\u00e9dium, ao qual inutilmente solicitei esse favor at\u00e9 agora.<\/p>\n<p>Desejo contar-vos primeiramente as minhas impress\u00f5es do momento da liberta\u00e7\u00e3o de minha alma.<br \/> Senti uma como\u00e7\u00e3o inexprim\u00edvel.<br \/> Revi subitamente o meu nascimento, a minha juventude, o meu envelhecimento: toda a minha vida se apresentou nitidamente na minha mem\u00f3ria.<br \/> Eu sentia, entretanto, o desejo de me encontrar nas regi\u00f5es reveladas pela nossa querida doutrina.<br \/> Depois, toda essa agita\u00e7\u00e3o se apaziguou.<br \/> Sentia-me livre enquanto o meu corpo permanecia inerte.<\/p>\n<p>Ah! Meus caros amigos, que alegria livrar-se do peso do corpo! Que embriaguez na amplid\u00e3o do espa\u00e7o.<br \/> Mas n\u00e3o acrediteis que eu me tornasse de s\u00fabito um eleito do Senhor.<br \/> N\u00e3o, estou entre os Esp\u00edritos que, tendo assimilado pouco, t\u00eam ainda muito que aprender.<br \/> N\u00e3o me demorei a lembrar-me de v\u00f3s, meus irm\u00e3os no ex\u00edlio, e vos asseguro toda a minha simpatia, vos envolvo nos meus melhores votos.<\/p>\n<p>Quereis saber quais os Esp\u00edritos que me receberam? Quais foram as minhas impress\u00f5es? Meus amigos eram todos aqueles que n\u00f3s evocamos, todos os irm\u00e3os que participaram dos nossos trabalhos.<br \/> Vi o esplendor mas n\u00e3o o posso descrever.<br \/> Dediquei-me ao trabalho de discernir o que havia de verdadeiro nas comunica\u00e7\u00f5es, pronto a rejeitar todas as asser\u00e7\u00f5es err\u00f4neas, pronto a ser no outro mundo o mesmo cavaleiro da verdade que havia sido no vosso.<\/p>\n<p>Jobard.<\/p>\n<p>1.<br \/> Quando vivo, nos recomendastes para vos evocar quando houvesseis deixado a Terra.<br \/> Fazemo-lo, n\u00e3o s\u00f3 para atender ao vosso desejo, mas sobretudo para vos renovar o testemunho de nossa viva e sincera simpatia e tamb\u00e9m interessados na nossa instru\u00e7\u00e3o, porque v\u00f3s, melhor do que ningu\u00e9m, estais em condi\u00e7\u00f5es de nos dar informa\u00e7\u00f5es precisas sobre o mundo em que agora vos encontrais.<br \/> Ser\u00edamos felizes se quis\u00e9sseis responder \u00e0s nossas perguntas.<\/p>\n<p>\u2014 Neste momento o que mais importa \u00e9 a vossa instru\u00e7\u00e3o.<br \/> Quanto \u00e0 vossa simpatia, eu a vejo e j\u00e1 n\u00e3o a percebo somente pela impress\u00e3o dos ouvidos, o que representa para mim um grande progresso.<\/p>\n<p>2.<br \/> Para firmar os nossos prop\u00f3sitos e n\u00e3o falar vagamente, perguntaremos primeiro em que lugar estais aqui e como vos ver\u00edamos caso o pud\u00e9ssemos fazer.<\/p>\n<p>\u2014 Estou perto do m\u00e9dium.<br \/> V\u00f3s me ver\u00edeis com a apar\u00eancia do Jobard que sentava \u00e0 vossa mesa, pois os vossos olhos mortais, ainda vendados, s\u00f3 podem ver os Esp\u00edritos sob a apar\u00eancia mortal.<br \/>(51)<\/p>\n<p>(50) Todo este item 13 \u00e9 uma verdadeira aula sobre telepatia, que os atuais parapsic\u00f3logos deviam ler.<br \/> Toda a dificuldade encontrada pela Parapsicologia, na tentativa de controlar o processo telep\u00e1tico de maneira a poder utiliz\u00e1-Io na vida pr\u00e1tica, se resume nisso que o Sr.<br \/> Sanson revelou, ou seja: a telepatia depende da capacidade de liberta\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito, da maior ou menor facilidade com que ele se desprende do corpo.<br \/> A frase: Tratai de morrer bem para saberdes muito encerra uma filosofia de vida e uma explica\u00e7\u00e3o cient\u00edfica da chamada vis\u00e3o paranormal.<br \/> A faculdade da vis\u00e3o \u00e9 do esp\u00edrito o n\u00e3o do corpo.<br \/> Uma vida espiritualizada liberta o esp\u00edrito das limita\u00e7\u00f5es da mat\u00e9ria e conseq\u00fcentemente amplia a vis\u00e3o espiritual do homem, que cientificamente se conhece hoje como vis\u00e3o mental.<br \/> Quando a morte chega, o esp\u00edrito, j\u00e1 semi-liberto em vida, n\u00e3o encontra dificuldade no uso natural de suas faculdades normais.<br \/> Por outro lado, os pensamentos s\u00e3o formas energ\u00e9ticas, segundo a pr\u00f3pria Parapsicologia hoje admite, explicando-se portanto que se apresentem  escritos  ou  impressos  no elemento flu\u00eddico ou mais sutil da atmosfera e conseq\u00fcentemente do pr\u00f3prio hausto humano, que fisicamente serve para a articula\u00e7\u00e3o das palavras, traduzindo e transmitindo pensamentos no plano material.<br \/> (N.<br \/> do T.<br \/>)<\/p>\n<p>(51) O grifo \u00e9 nosso.<br \/> \u2014 Essa explica\u00e7\u00e3o de Jobard, t\u00e3o simples, \u00e9 de grande import\u00e2ncia, implicando problemas relacionados com o nosso condicionamento aos sentidos org\u00e2nicos e \u00e0s apar\u00eancias do mundo f\u00edsico, bem como referentes \u00e0s quest\u00f5es de  padroniza\u00e7\u00e3o de mem\u00f3ria , hoje pesquisados pela Parapsicologia.<br \/> Tamb\u00e9m o problema de  condicionamento \u00e0 cren\u00e7a , levantado por Richet e atualmente em foco no meio parapsicol\u00f3gico, relaciona-se com essa refer\u00eancia de Jobard.<br \/> A quest\u00e3o de natureza do Esp\u00edrito e da sua constitui\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica \u00e9 levantada por Jobard de maneira clara.<br \/> O perisp\u00edrito \u00e9 semelhante ao corpo f\u00edsico, mas n\u00e3o \u00e9 id\u00eantico a ele em tudo.<br \/> A forma mortal \u00e9 uma e a imortal \u00e9 outra.<br \/> (N.<br \/> do T.<br \/>)<\/p>\n<p>3.<br \/> Terieis a possibilidade de vos fazer vis\u00edvel para n\u00f3s, e se n\u00e3o a tendes, o que \u00e9 que se op\u00f5e a isso?<\/p>\n<p>\u2014 A condi\u00e7\u00e3o que vos \u00e9 pr\u00f3pria.<br \/> Um m\u00e9dium vidente me veria, os outros n\u00e3o.<\/p>\n<p>4.<br \/> Esse lugar era o mesmo que ocup\u00e1veis quando vivo, assistindo as nossas sess\u00f5es, e que n\u00f3s sempre reserv\u00e1vamos.<br \/> Assim, os que ent\u00e3o vos viam devem imaginar-vos e ver-vos da mesma maneira.<br \/> Se n\u00e3o tendes agora o corpo material, tendes o corpo flu\u00eddico que possui a mesma forma daquele.<br \/> Se n\u00e3o vos vemos com os olhos do corpo, vemos com os olhos do pensamento.<br \/> Se n\u00e3o podeis falar-nos de viva voz, podeis faz\u00ea-lo pela escrita com a ajuda do m\u00e9dium.<br \/> Nossas rela\u00e7\u00f5es n\u00e3o est\u00e3o, portanto, absolutamente interrompidas por causa da morte, e podemos conversar convosco t\u00e3o f\u00e1cil e perfeitamente como outrora.<br \/> \u00c9 realmente assim que se passam as coisas?<\/p>\n<p>\u2014 Sim, e o sabeis desde muito tempo.<br \/> Ocuparei este lugar freq\u00fcentemente e mesmo que n\u00e3o o percebais, porque o meu Esp\u00edrito habitar\u00e1 entre v\u00f3s.<\/p>\n<p>Chamamos a aten\u00e7\u00e3o para esta \u00faltima frase: Meu Esp\u00edrito habitar\u00e1 entre v\u00f3s.<br \/> Na circunst\u00e2ncia em causa ela n\u00e3o constitui uma figura, mas corresponde \u00e0 realidade.<br \/> Pelo conhecimento que o Espiritismo nos d\u00e1 sobre a natureza dos Esp\u00edritos, sabemos que um Esp\u00edrito pode estar entre n\u00f3s, n\u00e3o s\u00f3 pelo pensamento, mas em pessoa, gra\u00e7as ao seu corpo et\u00e9reo que lhe d\u00e1 a necess\u00e1ria distin\u00e7\u00e3o individual.<br \/> Um Esp\u00edrito pode pois habitar entre n\u00f3s depois da morte, como quando estava na vida corp\u00f3rea, e ainda com mais facilidade, desde que pode faz\u00ea-lo quando quiser.<br \/> Temos assim uma multid\u00e3o de companheiros invis\u00edveis, uns indiferentes e outros ligados a n\u00f3s pela afei\u00e7\u00e3o.<br \/> \u00c9 sobretudo a estes \u00faltimos que se aplicam as palavras: eles habitam entre n\u00f3s, que podemos traduzir assim: eles nos assistem, nos inspiram e nos protegem.<\/p>\n<p>5.<br \/> N\u00e3o faz muito tempo que vinheis sentar nesse mesmo lugar com o vosso corpo.<br \/> As condi\u00e7\u00f5es atuais em que fazeis o mesmo n\u00e3o vos parecem estranhas? Que efeitos essa modifica\u00e7\u00e3o produziu em v\u00f3s?<\/p>\n<p>\u2014 Essas condi\u00e7\u00f5es atuais n\u00e3o me parecem estranhas, porque, desencarnado, o meu Esp\u00edrito goza de uma lucidez que lhe permite compreender todas as quest\u00f5es referentes ao assunto.<\/p>\n<p>6.<br \/> Lembrai-vos de haver estado nessas mesmas condi\u00e7\u00f5es antes da vossa \u00faltima exist\u00eancia e percebeis agora qualquer modifica\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2014 Lembro-me das exist\u00eancias anteriores e vejo que melhorei.<br \/> Agora eu vejo e compreendo em toda a extens\u00e3o o que estou vendo.<br \/> Quando de minhas encarna\u00e7\u00f5es anteriores, Esp\u00edrito perturbado, eu s\u00f3 me apercebia de cada exist\u00eancia terrena que havia deixado.<br \/>(52)<\/p>\n<p>7.<br \/> Lembrai-vos da vossa pen\u00faltima exist\u00eancia, a que precedeu a do Sr.<br \/> Jobard?<\/p>\n<p>\u2014 Na minha pen\u00faltima exist\u00eancia eu era um mec\u00e2nico atormentado pela mis\u00e9ria e pelo desejo de aperfei\u00e7oar o meu of\u00edcio.<br \/> Como Jobard realizei os sonhos desse pobre oper\u00e1rio.<br \/> Agora louvo a Deus cuja infinita bondade fez germinar a pequenina semente que havia depositado em meu c\u00e9rebro.<\/p>\n<p>8.<br \/> J\u00e1 vos comunicastes em outro lugar?<\/p>\n<p>\u2014 At\u00e9 agora pouco me comuniquei.<br \/> Em muitos lugares um Esp\u00edrito tem se servido de meu nome.<br \/> Algumas vezes eu estava perto dele sem poder comunicar-me diretamente.<br \/> Minha morte \u00e9 t\u00e3o recente que ainda sofro algumas influ\u00eancias terrenas.<br \/> \u00c9 necess\u00e1rio haver uma perfeita simpatia para que eu possa exprimir o meu pensamento.<br \/> Dentro em breve poderei agir indistintamente no tocante aos m\u00e9diuns.<br \/> Por enquanto, ainda n\u00e3o o posso.<br \/> Quando um homem um tanto conhecido morre, \u00e9 sempre chamado de todos os lados.<br \/> Ent\u00e3o, muitos Esp\u00edritos se apressam a imitar a sua individualidade.<br \/> Foi o que aconteceu comigo em muitas circunst\u00e2ncias.<br \/> Asseguro-vos que assim t\u00e3o pr\u00f3ximo da liberta\u00e7\u00e3o poucos Esp\u00edritos podem comunicar-se, mesmo atrav\u00e9s de um m\u00e9dium de sua prefer\u00eancia.<\/p>\n<p>9.<br \/> Vedes os Esp\u00edritos que aqui se encontram conosco?<\/p>\n<p>\u2014 Vejo sobretudo L\u00e1zaro e Erasto.<br \/> Depois, mais distanciados, o Esp\u00edrito de Verdade que paira no espa\u00e7o.<br \/> Depois, ainda, uma multid\u00e3o de Esp\u00edritos amigos que vos cercam, prestimosos e benevolentes.<br \/> Sois felizes, amigos, porque boas influ\u00eancias vos livram das calamidades do erro.<\/p>\n<p>10.<br \/> Em vida particip\u00e1veis da opini\u00e3o que nos foi transmitida de que a Terra se formou pela incrusta\u00e7\u00e3o de quatro planetas que teriam sido soldados num s\u00f3.<br \/> Sois ainda da mesma opini\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2014 Isso \u00e9 errado.<br \/> As novas descobertas geol\u00f3gicas revelam os per\u00edodos de convuls\u00e3o da Terra e a sua forma\u00e7\u00e3o progressiva.<br \/> A Terra, como os outros planetas, teve o seu pr\u00f3prio desenvolvimento.<br \/> Deus n\u00e3o precisou lan\u00e7ar m\u00e3o desse recurso violento, dessa grande desordem que seria a agrega\u00e7\u00e3o de planetas.<br \/> A \u00e1gua e o fogo s\u00e3o os \u00fanicos elementos org\u00e2nicos da Terra.<\/p>\n<p>11.<br \/> Acredit\u00e1veis tamb\u00e9m que os homens podiam cair em catalepsia durante um tempo ilimitado e que a esp\u00e9cie humana foi trazida dessa maneira para a Terra.<\/p>\n<p>\u2014 Ilus\u00e3o da minha imagina\u00e7\u00e3o, que ultrapassava sempre o objetivo.<br \/> A catalepsia pode ser longa, mas n\u00e3o indeterminada.<br \/> Tradi\u00e7\u00f5es, lendas exageradas pela imagina\u00e7\u00e3o oriental! Meus amigos, j\u00e1 sofri bastante ao lembrar as ilus\u00f5es que o meu Esp\u00edrito alimentou: n\u00e3o vos enganeis.<br \/> Eu havia estudado muito e posso vos dizer que a minha intelig\u00eancia, apta a observar t\u00e3o vastos e diversos estudos, havia trazido, entretanto, da minha \u00faltima encarna\u00e7\u00e3o o amor pelo maravilhoso e pelo imaginoso, que hauriu no contato com a imagina\u00e7\u00e3o popular.<\/p>\n<p>(52) A evolu\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito aumenta a sua capacidade de ver o passado, sem que isso o prejudique diante dos erros cometidos.<br \/> \u00c9 o que o Sr.<br \/> Jobard explica nesta passagem, ao escrever: Lors de mes pr\u00e9cedentes incarnations, Esprit troubl\u00e9, je ne m apercevais des lacunes terrestres.<br \/> Alguns tradutores n\u00e3o perceberam bem o sentido desta frase e conseq\u00fcentemente de todo o texto do n\u00ba 7.<br \/> As lacunas terrestres s\u00e3o as exist\u00eancias materiais na vida passada do Esp\u00edrito.<br \/> O Esp\u00edrito inferior s\u00f3 v\u00ea as suas lacunas, ou seja, depois de cada encarna\u00e7\u00e3o s\u00f3 se apercebe do que nela foi, n\u00e3o tendo conhecimento do seu passado espiritual.<br \/> (N.<br \/> do T.<br \/>)<\/p>\n<p>Estou agora pouco ocupado com as quest\u00f5es puramente intelectuais, no sentido em que as considerais.<br \/> Como o poderia fazer, ofuscado, arrebatado como me encontro pelo maravilhoso espet\u00e1culo que me envolve? Somente a atra\u00e7\u00e3o do Espiritismo, mais poderosa do que v\u00f3s, homens, podeis conceber, pode fazer o meu Esp\u00edrito voltar para esta Terra que deixei, n\u00e3o com alegria, pois isso seria uma impiedade, mas com a profunda gratid\u00e3o da liberta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando da abertura da subscri\u00e7\u00e3o, pela Sociedade, em favor dos oper\u00e1rios de Lyon, em Fevereiro de 1862, um associado assinou 50 francos, sendo 25 em seu nome e 25 em nome do Sr.<br \/> Jobard.<\/p>\n<p>A respeito disso, este \u00faltimo deu a seguinte comunica\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>Estou orgulhoso e reconhecido por n\u00e3o ter sido olvidado entre os meus irm\u00e3os Esp\u00edritas.<br \/> Agrade\u00e7o ao cora\u00e7\u00e3o generoso que fez a oferenda que eu teria feito se ainda estivesse no vosso mundo.<br \/> Naquele em que agora me encontro, n\u00e3o temos necessidade de dinheiro.<br \/> Eu teria, pois, de recorrer \u00e0 bolsa da amizade para demonstrar materialmente que havia sido tocado pelo infort\u00fanio dos meus irm\u00e3os de Lyon.<br \/> Bravos trabalhadores, que ardentemente cultivais a vinha do Senhor, como deveis estar certos de que a caridade n\u00e3o \u00e9 uma palavra v\u00e3, pois todos, pequenos e grandes vos demonstram simpatia e amor fraterno.<br \/> Estais na ampla via humanit\u00e1ria do progresso.<br \/> Que Deus possa vos conservar nela, e que possais ser mais felizes.<br \/> Os Esp\u00edritos amigos vos sustentaram e triunfareis.<\/p>\n<p>Come\u00e7o agora a viver espiritualmente, mais tranq\u00fcilo e menos perturbado pelas evoca\u00e7\u00f5es que de todos os lados choviam sobre mim.<br \/> A moda impera at\u00e9 mesmo entre os Esp\u00edritos.<br \/> Quando a moda Jobard for substitu\u00edda por outra e eu tiver ca\u00eddo no esquecimento humano, pedirei ent\u00e3o aos meus verdadeiros amigos, pelos quais entendo os que n\u00e3o se esquecem da nossa conviv\u00eancia, eu lhes pedirei que me evoquem.<br \/> Apuraremos ent\u00e3o os problemas tratados muito superficialmente, e o vosso Jobard, completamente transfigurado, poder\u00e1 vos ser \u00fatil, o que ele deseja de todo o cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Jobard.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s os primeiros tempos, consagrados a tranq\u00fcilizar os seus amigos, o Sr.<br \/> Jobard tomou lugar entre os Esp\u00edritos que trabalham ativamente pela renova\u00e7\u00e3o social, enquanto espera o seu pr\u00f3ximo retorno entre os vivos para mais diretamente agir nesse sentido.<br \/> Desde ent\u00e3o, tem dado freq\u00fcentemente \u00e0 Sociedade de Paris, da qual continua a ser membro, comunica\u00e7\u00f5es de superioridade incontest\u00e1vel, sem se afastar da originalidade e do bom humor espiritual que constitu\u00edam o fundo do seu car\u00e1ter e nos permitem reconhec\u00ea-lo antes mesmo da sua assinatura.<\/p>\n<p>Samuel Philippe<\/p>\n<p>Samuel Philippe era um homem de bem em toda a acep\u00e7\u00e3o do termo.<br \/> Ningu\u00e9m se lembraria de t\u00ea-lo visto cometer uma a\u00e7\u00e3o m\u00e1 nem de ter feito voluntariamente qualquer coisa errada.<br \/> De um devotamento sem limites para com os seus amigos, todos estavam sempre certos de o encontrar \u00e0s ordens quando dele precisassem, mesmo em preju\u00edzo dos seus interesses particulares.<br \/> Trabalhos, fadigas, sacrif\u00edcios, nada lhe custavam para ser \u00fatil e ele os fazia naturalmente, sem ostenta\u00e7\u00e3o, admirando-se de lhe atribu\u00edrem algum m\u00e9rito por isso.<\/p>\n<p>Jamais quis mal aos que o tivessem prejudicado e procurava obsequi\u00e1-los com tanto pr\u00e9stimo como se lhe tivessem feito o bem.<\/p>\n<p>Quando sofria com os ingratos costumava dizer:  N\u00e3o \u00e9 a mim que se deve lamentar, mas a eles.<br \/>  Embora muito inteligente e naturalmente dotado de muito esp\u00edrito, sua vida, muito laboriosa, foi obscura e cheia de rudes provas.<\/p>\n<p>Era uma dessas naturezas de elite que florescem na sombra, que o mundo n\u00e3o conhece e cuja luz n\u00e3o se expande sobre a Terra.<br \/> Havia adquirido, pelo conhecimento do Espiritismo, uma ardente f\u00e9 na vida futura e uma grande resigna\u00e7\u00e3o perante os males da vida terrena.<br \/> Morreu em Dezembro de 1862, com a idade de 50 anos, ap\u00f3s uma dolorosa mol\u00e9stia, sendo sinceramente chorado pela fam\u00edlia e pelos amigos.<br \/> Foi evocado muitos meses ap\u00f3s a morte.<\/p>\n<p>P.<br \/> Lembrai-vos com clareza de vossos \u00faltimos instantes na Terra?<\/p>\n<p>\u2014 Perfeitamente.<br \/> Essa lembran\u00e7a me veio pouco a pouco, porque no momento as minhas id\u00e9ias ainda estavam confusas.<\/p>\n<p>P.<br \/> Quereis descrever-nos, para nossa instru\u00e7\u00e3o e pelo interesse que nos desperta a vossa vida exemplar, como se verificou a vossa passagem da vida corp\u00f3rea para a vida espiritual, bem como a situa\u00e7\u00e3o em que vos encontrais no mundo dos Esp\u00edritos?<\/p>\n<p>\u2014 De boa vontade.<br \/> Este relato n\u00e3o ser\u00e1 \u00fatil somente para v\u00f3s, mas tamb\u00e9m para mim.<br \/> Voltando os meus pensamentos para a Terra, a compara\u00e7\u00e3o me permitir\u00e1 apreciar ainda mais a bondade do Criador.<\/p>\n<p>Sabeis de quantas tribula\u00e7\u00f5es foi cheia a minha vida.<br \/> Mas jamais me faltou a coragem na adversidade, gra\u00e7as a Deus, e hoje me felicito por isso.<br \/> Quanto eu teria perdido se houvesse fraquejado! S\u00f3 ao pensar nisso senti-me desfalecer, vendo que meus sofrimentos teriam ficado sem proveito e deveria recome\u00e7ar.<br \/> Oh! Meus amigos, pudesseis compenetrar-vos bem desta verdade: ela interessa \u00e0 vossa felicidade futura.<br \/> N\u00e3o, certamente n\u00e3o \u00e9 pagar muito caro por essa felicidade com alguns anos de sofrimento.<br \/> Se soub\u00e9sseis como s\u00e3o poucos alguns anos em face do infinito!<\/p>\n<p>Se minha \u00faltima exist\u00eancia teve qualquer m\u00e9rito aos vossos olhos, na verdade n\u00e3o poder\u00edeis dizer o mesmo daquelas que a precederam.<br \/> Somente por grande esfor\u00e7o sobre mim mesmo consegui tornar-me no que sou agora.<br \/> Para fazer desaparecerem os \u00faltimos tra\u00e7os de minhas faltas anteriores, era-me ainda necess\u00e1rio sofrer essas derradeiras provas que voluntariamente aceitei.<br \/> Tirei da pr\u00f3pria firmeza das minhas decis\u00f5es a for\u00e7a para suport\u00e1-las sem lamentar.<br \/> Hoje as bendigo, a todas essas provas.<br \/> Gra\u00e7as a elas rompi minhas liga\u00e7\u00f5es com o passado que se tornou para mim apenas uma lembran\u00e7a.<br \/> Posso agora contemplar com leg\u00edtima satisfa\u00e7\u00e3o o caminho percorrido.<\/p>\n<p>Oh, v\u00f3s que me fizestes sofrer na Terra, que fostes duros e maldosos para comigo, que me humilhastes e me cobristes de amargura, cuja m\u00e1-f\u00e9 freq\u00fcentemente me levou \u00e0s mais \u00e1speras priva\u00e7\u00f5es, eu n\u00e3o s\u00f3 vos perd\u00f4o, mas vos agrade\u00e7o! Querendo fazer-me o mal, n\u00e3o suspeit\u00e1veis que na verdade me faz\u00edeis o bem.<br \/> Dessa maneira, \u00e9 a v\u00f3s que devo em grande parte a felicidade que hoje desfruto, porque me proporcionastes a ocasi\u00e3o de perdoar, retribuindo o mal com o bem.<br \/> Deus vos p\u00f4s no meu caminho para provar a minha paci\u00eancia e me exercitar na pr\u00e1tica da caridade mais dif\u00edcil: a de amar aos nossos inimigos.<\/p>\n<p>N\u00e3o nos impacienteis com essa digress\u00e3o.<br \/> Chegarei ao que me pedistes.<\/p>\n<p>Embora tivesse sofrido cruelmente com a minha doen\u00e7a final, n\u00e3o passei pela agonia.<br \/> A morte foi para mim como um sono, como um sono tranq\u00fcilo.<br \/> N\u00e3o tendo preocupa\u00e7\u00f5es com o futuro, n\u00e3o me apeguei \u00e0 vida.<br \/> N\u00e3o tive, por conseguinte, de me debater nos \u00faltimos instantes.<br \/> A separa\u00e7\u00e3o se operou sem esfor\u00e7os, sem dor e sem que eu houvesse sequer me apercebido.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei quanto durou este \u00faltimo sono, mas foi breve.<br \/> O despertar foi t\u00e3o calmo que contrastava com a minha situa\u00e7\u00e3o anterior.<br \/> Eu n\u00e3o sentia mais dores e me regozijava com isso.<br \/> Desejava levantar-me, andar, mas uma esp\u00e9cie de suave entorpecimento, que nada tinha de desagrad\u00e1vel, que tinha mesmo um certo encanto, me retinha e eu me entregava a um certo deleite sem ter consci\u00eancia da minha situa\u00e7\u00e3o e sem duvidar que j\u00e1 havia deixado a Terra.<\/p>\n<p>Tudo o que me cercava me aparecia como num sonho.<br \/> Vi minha mulher e alguns amigos ajoelhados e chorando no meu quarto e disse para mim mesmo que sem d\u00favida me consideravam morto.<br \/> Quis desengan\u00e1-los, mas n\u00e3o consegui articular nenhuma palavra, donde conclu\u00ed que devia estar sonhando.<br \/> O que me confirmou nessa id\u00e9ia foi ver-me cercado de muitas criaturas amadas que haviam morrido h\u00e1 muito tempo e de outras que eu n\u00e3o reconhecia imediatamente, mas que pareciam velar por mim, esperando o meu despertar.<\/p>\n<p>Esse estado era entretecido de instantes de lucidez e de sonol\u00eancia, durante os quais eu recobrava e perdia alternadamente a consci\u00eancia do meu eu.<br \/> Pouco a pouco minhas id\u00e9ias foram adquirindo mais clareza.<br \/> A luz que eu s\u00f3 entrevia atrav\u00e9s de um nevoeiro se fez mais brilhante.<br \/> Ent\u00e3o, comecei a reconhecer o meu estado e compreendi que j\u00e1 n\u00e3o pertencia mais ao mundo terreno.<br \/> Se eu n\u00e3o tivesse conhecido o Espiritismo, a ilus\u00e3o se teria sem d\u00favida prolongado, por muito tempo.<\/p>\n<p>Meus despojos mortais n\u00e3o haviam sido ainda enterrados, mas eu os considerava com piedade e me sentia feliz de haver me desembara\u00e7ado deles.<br \/> Era muito feliz de estar livre! Eu respirava com a facilidade de quem sai de uma atmosfera asfixiante.<br \/> Uma invis\u00edvel sensa\u00e7\u00e3o de felicidade impregnava todo o meu ser.<br \/> A presen\u00e7a das criaturas que eu amava me enchia de alegria e eu n\u00e3o estava surpreso de v\u00ea-Ias.<br \/> Isso me parecia muito natural, mas eu tinha a impress\u00e3o de as rever ap\u00f3s uma longa viagem.<br \/> Uma coisa me surpreendeu a princ\u00edpio, o fato de nos compreendermos sem dizer palavra.<br \/> Nossos pensamentos se transmitiam pelo simples olhar e como por uma esp\u00e9cie de penetra\u00e7\u00e3o flu\u00eddica.<\/p>\n<p>Entretanto, eu ainda n\u00e3o estava completamente desligado das id\u00e9ias terrenas.<br \/> A lembran\u00e7a do que eu havia sofrido me voltava de quando em quando \u00e0 mem\u00f3ria, como para me fazer melhor apreciar a nova situa\u00e7\u00e3o.<br \/> Eu havia sofrido fisicamente, mas sobretudo moralmente.<br \/> Havia sido alvo da malevol\u00eancia, suportando essas mil perplexidades talvez mais penosas do que as desgra\u00e7as positivas, porque nos mant\u00eam numa constante ansiedade.<br \/> Essa sensa\u00e7\u00e3o n\u00e3o se havia apagado inteiramente e \u00e0s vezes eu me perguntava se j\u00e1 estava realmente de sembara\u00e7ado.<br \/> Parecia-me ouvir ainda algumas vozes desagrad\u00e1veis.<br \/> Preocupava-me com as dificuldades que elas me haviam produzido tantas vezes e tremia sem querer.<br \/> Eu me tateava, por assim dizer, para me assegurar de que n\u00e3o era o joguete de um sonho.<br \/> E quando a certeza de que tudo isso havia acabado, me pareceu que me haviam aliviado de um peso enorme.<\/p>\n<p>\u00c9 bem verdade, dizia-me, que estou enfim liberto de todas essas preocupa\u00e7\u00f5es que fazem o tormento da vida, e rendo gra\u00e7as a Deus por esse fato.<br \/> Era como um pobre que houvesse recebido de repente uma grande fortuna e que durante algum tempo duvida da realidade, sentindo ainda preocupa\u00e7\u00f5es pelas suas necessidades.<br \/> Oh! Se os homens compreendessem a vida futura, quanta for\u00e7a, quanta coragem essa compreens\u00e3o lhes daria nas adversidades! O que n\u00e3o fariam, durante sua exist\u00eancia na Terra, para se garantirem a felicidade que Deus reserva aos filhos que s\u00e3o d\u00f3ceis \u00e0s suas leis! Veriam ent\u00e3o como s\u00e3o insignificantes os prazeres que invejam nessa vida, em face daqueles que desprezam!<\/p>\n<p>P.<br \/> Esse mundo, t\u00e3o novo para v\u00f3s e perante o qual o nosso nada vale, e os numerosos amigos que reencontrastes vos fizeram esquecer a fam\u00edlia e os amigos que deixastes na Terra?<\/p>\n<p>\u2014 Se os houvesse esquecido eu seria indigno da felicidade que desfruto.<br \/> Deus n\u00e3o recompensa o ego\u00edsmo.<br \/> Ele o pune.<br \/> O mundo em que me encontro pode me levar a desdenhar a Terra, mas n\u00e3o os Esp\u00edritos que nela vivem encarnados.<br \/> Somente entre os homens \u00e9 que vemos a prosperidade levar ao esquecimento dos companheiros de infort\u00fanio.<br \/> Quero sempre rever os meus, sinto-me feliz com a saudade que eles sentem de mim, seu pensamento me atrai para eles.<br \/> Assisto \u00e0s suas conversas, gozo com as suas alegrias, suas preocupa\u00e7\u00f5es me entristecem, mas n\u00e3o se trata dessa tristeza cheia de ansiedade que sofremos na vida humana, porque compreendo que as suas dificuldades s\u00e3o passageiras e t\u00eam por fim lev\u00e1-los ao bem.<\/p>\n<p>Sinto-me feliz de pensar que um dia eles tamb\u00e9m vir\u00e3o para este plano feliz em que a dor \u00e9 desconhecida.<br \/> Empenho-me em ajud\u00e1-los a se tornarem dignos disso.<br \/> Esfor\u00e7o-me para lhes sugerir bons pensamentos e sobretudo a resigna\u00e7\u00e3o que eu mesmo tive perante a vontade de Deus.<br \/> Minha maior tristeza \u00e9 v\u00ea-los retardar esse momento por sua falta de coragem, por suas lamenta\u00e7\u00f5es, sua d\u00favida sobre o futuro, ou por qualquer a\u00e7\u00e3o repreens\u00edvel.<\/p>\n<p>Trato ent\u00e3o de os afastar do mau caminho.<br \/> Se o conseguir, isso \u00e9 para mim uma grande felicidade e todos n\u00f3s aqui nos regozijamos.<br \/> Se eu fracasso, digo a mim mesmo com tristeza: ainda uma vez retardaram o seu momento feliz.<br \/> Mas me consolo pensando que nem tudo est\u00e1 perdido de maneira irremedi\u00e1vel.<\/p>\n<p>Van Durst<\/p>\n<p>Pouco tempo ap\u00f3s a sua morte um m\u00e9dium perguntou ao seu guia Espiritual se poderia evoc\u00e1-lo e lhe foi respondido:<\/p>\n<p>\u2014 Esse Esp\u00edrito sai lentamente da sua perturba\u00e7\u00e3o.<br \/> Ele poderia atender desde j\u00e1, mas a sua comunica\u00e7\u00e3o lhe custaria muito.<br \/> Pe\u00e7o-vos esperar ainda quatro dias e ele vos responder\u00e1.<br \/> Daqui at\u00e9 l\u00e1 ele ficar\u00e1 sabendo das vossas boas inten\u00e7\u00f5es a seu respeito e vos atender\u00e1 reconhecido e como bom amigo.<\/p>\n<p>Quatro dias mais tarde o Esp\u00edrito ditou o seguinte:<\/p>\n<p>Meu amigo, minha vida pesou muito pouco na balan\u00e7a da eternidade.<br \/> Apesar disso, estou bem longe de ser infeliz.<br \/> Estou na condi\u00e7\u00e3o humilde, mas relativamente feliz daquele que praticou poucos males, sem, entretanto, visar \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o.<br \/> Se h\u00e1 criaturas felizes numa regi\u00e3o inferior, pois bem: eu sou uma delas.<br \/> Lamento apenas uma coisa, que \u00e9 n\u00e3o ter conhecido o que hoje sabeis, porque minha perturba\u00e7\u00e3o teria sido mais r\u00e1pida e menos penosa.<\/p>\n<p>Com efeito, ela foi grande.<br \/> Viver e n\u00e3o viver, ver o corpo e sentir-se fortemente ligado a ele, sem poder utiliz\u00e1-lo.<br \/> Ver aqueles que amamos e sentir apagar-se o pensamento que nos ligava.<br \/> Isso \u00e9 terr\u00edvel! Oh, que momento cruel! Que momento \u00e9 esse, quando o aturdimento vos toma em suas garras e vos estrangula! E logo a seguir, as trevas.<br \/> Sentir, e um momento depois estar aniquilado.<\/p>\n<p>Querer ter a consci\u00eancia de si mesmo, e n\u00e3o conseguir recobr\u00e1-la.<br \/> N\u00e3o se \u00e9 mais, e entretanto se sente que \u00e9.<br \/> Estamos numa perturba\u00e7\u00e3o profunda.<br \/> E depois, transcorrido um tempo inavali\u00e1vel, tempo de ang\u00fastias sufocadas, porque n\u00e3o temos a possibilidade de as compreender, ap\u00f3s esse tempo que parece intermin\u00e1vel, renascer lentamente para a nova exist\u00eancia, acordar num mundo novo!<\/p>\n<p>Nada de corpo material, nada de vida terrena: a vida imortal! Nada de homens carnais, mas formas leves de Esp\u00edritos que deslizam de todos os lados, circulando ao vosso redor sem que os possais ver a todos, porque \u00e9 no infinito que eles flutuam! Ter o espa\u00e7o diante de n\u00f3s e poder percorr\u00ea-lo \u00e0 vontade.<br \/> Comunicarmos pelo pensamento com tudo o que nos cerca.<br \/> Amigo, que vida inteiramente nova! Que vida brilhante! Que vida de venturas! Salve, oh! Salve eternidade que me acolheste em teu seio! Adeus, oh! Terra que me retinhas por tanto tempo afastado da minha verdadeira natureza espiritual! N\u00e3o, eu nada mais quereria de ti, porque \u00e9s a terra do ex\u00edlio e a maior das tuas felicidades nada \u00e9 mais para mim!<\/p>\n<p>Mas se eu soubesse o que sabeis, quanto mais f\u00e1cil me seria esta inicia\u00e7\u00e3o na outra vida, e quanto mais agrad\u00e1vel! Eu j\u00e1 saberia antes de morrer o que tive de aprender mais tarde, no momento da separa\u00e7\u00e3o, e minha alma ent\u00e3o se libertaria mais facilmente.<br \/> Estais no caminho, mas jamais, por mais que puderdes fazer, jamais tereis feito muito! Dizei isso ao meu filho, mas dizei-o tantas vezes que ele creia e se esclare\u00e7a, porque ent\u00e3o ao chegar aqui n\u00e3o ficaremos separados.<\/p>\n<p>Adeus a todos v\u00f3s, meus amigos, adeus.<br \/> Eu vos espero e durante o tempo em que permanecerdes na Terra virei sempre me instruir junto a v\u00f3s, porque ainda n\u00e3o sei tanto como sabeis.<br \/> Mas aprenderei logo, pois aqui n\u00e3o tenho mais as dificuldades que a\u00ed me embara\u00e7avam e a velhice que me diminu\u00eda as for\u00e7as.<br \/> Aqui se vive amplamente e se avan\u00e7a porque os horizontes se alargam t\u00e3o belos aos nossos olhos que nos sentimos ansiosos de franque\u00e1-los.<br \/> Adeus, eu vos deixo, adeus.<\/p>\n<p>Van Durst.<\/p>\n<p>Sixdeniers<\/p>\n<p>(Homem de bem, morto por acidente e conhecido do m\u00e9dium quando vivo.<br \/>) \u2014 (Bordeaux, 11 de fevereiro de 1861.<br \/>)<\/p>\n<p>P.<br \/> Poderias dar-me alguns detalhes da tua morte?<\/p>\n<p>\u2014 Depois do afogamento, sim.<\/p>\n<p>P.<br \/> Porque depois?<\/p>\n<p>\u2014 Porque j\u00e1 os conheces.<br \/> (O m\u00e9dium realmente conhecia os detalhes do afogamento.<br \/>)<\/p>\n<p>P.<br \/> Queres ent\u00e3o descrever as vossas sensa\u00e7\u00f5es ap\u00f3s a morte?<\/p>\n<p>\u2014 Permaneci muito tempo sem dar conta de mim mesmo, mas com a gra\u00e7a de Deus e a ajuda dos que me cercavam, quando a luz se fez fiquei deslumbrado.<br \/> Podes esperar: encontrar\u00e1s sempre mais do que pensavas.<br \/> Nada de material.<br \/> Tudo toca os sentidos ocultos.<br \/> Trata-se do que n\u00e3o podemos tocar nem com os olhos nem com as m\u00e3os.<br \/> Compreendes-me? \u00c9 uma surpresa espiritual que ultrapassa o teu entendimento, pois n\u00e3o h\u00e1 palavras para explic\u00e1-la.<br \/> S\u00f3 podemos senti-Ia atrav\u00e9s da alma.<\/p>\n<p>Meu acordar foi bastante feliz.<br \/> A vida \u00e9 um desses sonhos que, malgrado a id\u00e9ia grotesca ligada a essa palavra, s\u00f3 posso qualificar como pesadelo horr\u00edvel.<br \/> Imagina que foste encerrado numa pris\u00e3o infecta, que teu corpo est\u00e1 sendo devorado pelos vermes que penetram at\u00e9 a medula dos ossos ou que te suspenderam sobre uma fornalha em chamas.<br \/> Imagina ainda que a tua boca ressecada n\u00e3o tem sequer para refresc\u00e1-la a pureza do ar, que teu Esp\u00edrito horrorizado s\u00f3 v\u00ea ao seu redor monstros que amea\u00e7am devorar-te.<br \/> Imagina, por fim, tudo quanto um sonho assim fant\u00e1stico pode produzir de mais hediondo, de mais horr\u00edvel, e transporta-te subitamente a um \u00e9den delicioso.<br \/> Acorda, ent\u00e3o, cercado por todos os seres queridos que choravas.<br \/> V\u00ea ao teu redor os rostos adorados que te sorriem felizes.<br \/> Respira os mais suaves perfumes, refresca tua ressecada garganta na fonte da \u00e1gua pura.<br \/> Sente o teu corpo elevado no espa\u00e7o infinito que o acolhe e embala como faz a brisa com uma p\u00e9tala arrancada da \u00e1rvore.<br \/> Sente-te envolvido pelo amor de Deus como a crian\u00e7a que ao nascer \u00e9 envolvida pelo amor da m\u00e3e, \u2014 e n\u00e3o ter\u00e1s mais do que uma id\u00e9ia imperfeita da transi\u00e7\u00e3o da morte.<\/p>\n<p>Quis explicar-te a felicidade da vida que espera o homem ap\u00f3s a morte do corpo, mas n\u00e3o consegui faz\u00ea-lo.<br \/> Podes explicar o infinito a quem tem os olhos fechados para a luz e jamais pode sair do c\u00edrculo estreito em que vive fechado? Para explicar-te a felicidade eterna direi apenas: ama! Porque s\u00f3 o amor nos pode fazer pressenti-Ia.<br \/> E quem diz amor, diz aus\u00eancia do ego\u00edsmo.<\/p>\n<p>P.<br \/> A tua situa\u00e7\u00e3o foi feliz desde o princ\u00edpio no mundo dos Esp\u00edritos?<\/p>\n<p>N\u00e3o.<br \/> Eu tinha de pagar a d\u00edvida do homem.<br \/> Meu cora\u00e7\u00e3o n\u00e3o me havia feito pressentir o futuro do Esp\u00edrito, e al\u00e9m disso eu n\u00e3o possu\u00eda a f\u00e9.<br \/> Tive de expiar a minha indiferen\u00e7a para com o Criador, mas a sua miseric\u00f3rdia levou em conta o pouco de bem que eu havia podido fazer, das dores que eu havia suportado com resigna\u00e7\u00e3o apesar do meu sofrimento.<br \/> E a sua justi\u00e7a, que \u00e9 pesada numa balan\u00e7a que os homens jamais compreender\u00e3o, pesou o bem para mim com tanta bondade e amor que o mal prontamente desapareceu.<\/p>\n<p>P.<br \/> Podes me dar not\u00edcias da tua filha? (Morta quatro ou cinco anos antes do pai.<br \/>)<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 em miss\u00e3o na Terra.<\/p>\n<p>P.<br \/> Ela se sente feliz como encarnada? Posso fazer-te uma pergunta indiscreta?<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1 o sei.<br \/> N\u00e3o v\u00eas o teu pensamento colocado diante dos meus olhos como num quadro? N\u00e3o, como encarnada ela n\u00e3o \u00e9 feliz.<br \/> Pelo contr\u00e1rio, todas as mis\u00e9rias da vida terrena devem esper\u00e1-la.<br \/> Mas ela dever\u00e1 pregar pelo exemplo essas grandes virtudes que se traduzem entre v\u00f3s por grandes palavras.<br \/> Eu a ajudarei, porque devo velar por ela.<br \/> Mas ela n\u00e3o ter\u00e1 grande dificuldade para vencer os obst\u00e1culos.<br \/> N\u00e3o est\u00e1 em expia\u00e7\u00e3o, mas em miss\u00e3o.<br \/> Tranq\u00fciliza-te, pois, quanto a ela.<br \/> E obrigado pela tua lembran\u00e7a.<\/p>\n<p>Nesse momento, o m\u00e9dium sentiu dificuldade para escrever e disse:<\/p>\n<p>P.<br \/> Se \u00e9 um Esp\u00edrito sofredor que me embara\u00e7a, eu lhe pe\u00e7o que assine o seu nome.<\/p>\n<p>\u2014 Uma infeliz.<\/p>\n<p>P.<br \/> N\u00e3o queres dizer o teu nome?<\/p>\n<p>\u2014 Val\u00e9ria.<\/p>\n<p>P.<br \/> Queres dizer o que provocou o teu castigo?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o.<\/p>\n<p>P.<br \/> N\u00e3o te arrependes das tuas faltas?<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1s vendo.<\/p>\n<p>P.<br \/> Quem te trouxe aqui?<\/p>\n<p>\u2014 Sixdeniers.<\/p>\n<p>P.<br \/> Com que fim?<\/p>\n<p>\u2014 Para que me ajudes.<\/p>\n<p>P.<br \/> Foste tu que me impediste de escrever h\u00e1 pouco?<\/p>\n<p>\u2014 Ele me p\u00f4s em seu lugar.<\/p>\n<p>P.<br \/> Que rela\u00e7\u00e3o h\u00e1 entre v\u00f3s?<\/p>\n<p>\u2014 Ele me conduz.<\/p>\n<p>P.<br \/> Pergunte a ele se quer acompanhar-nos na prece?<\/p>\n<p>\u2014 (Ap\u00f3s a prece, Sixdeniers volta a escrever.<br \/>) Agrade\u00e7o por ela.<br \/> Compreendeste.<br \/> N\u00e3o te esquecerei.<br \/> Pense nela.<\/p>\n<p>P.<br \/> (\u00c0 Sixdeniers.<br \/>) Como Esp\u00edrito, tens muitos Esp\u00edritos sofredores para guiar?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o.<br \/> Mas t\u00e3o logo conseguimos reconduzir um deles ao bem, nos incumbimos de outro, sem entretanto abandonar os primeiros.<\/p>\n<p>P.<br \/> Como podes atender a uma vigil\u00e2ncia que deve se multiplicar pelo infinito atrav\u00e9s dos s\u00e9culos?<\/p>\n<p>\u2014 Compreende que os que reconduzimos ao bem se purificam e progridem.<br \/> Assim, n\u00e3o nos d\u00e3o mais trabalho.<br \/> Ao mesmo tempo n\u00f3s tamb\u00e9m nos elevamos, e ao faz\u00ea-lo as nossas faculdades se desenvolvem e o nosso poder se amplia na propor\u00e7\u00e3o da nossa pureza.<\/p>\n<p>Observa\u00e7\u00e3o: Os Esp\u00edritos inferiores s\u00e3o portanto assistidos por Esp\u00edritos bons, incumbidos da miss\u00e3o de orient\u00e1-los.<br \/> Essa tarefa n\u00e3o pertence exclusivamente aos encarnados, mas estes devem contribuir para a sua execu\u00e7\u00e3o, porque isso os ajuda a progredir.<br \/> Quando um Esp\u00edrito inferior interfere numa boa comunica\u00e7\u00e3o, como no caso presente, n\u00e3o o faz certamente, sempre, de boa inten\u00e7\u00e3o.<br \/> Mas os Esp\u00edritos bons o permitem, seja para experimentar os encarnados, seja para que estes o ajudem a se melhorar.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que a sua persist\u00eancia pode degenerar em obsess\u00e3o, mas quanto mais tenaz ela for, maior \u00e9 a prova da sua grande necessidade de assist\u00eancia.<br \/> \u00c9 um erro repelir o Esp\u00edrito.<br \/> \u00c9 necess\u00e1rio encar\u00e1-lo como um pobre que vem nos pedir esmola e considerar que \u00e9 um Esp\u00edrito infeliz mandado pelos Esp\u00edritos bons, que o enviam para o esclarecermos.<br \/> Se o conseguirmos, teremos a alegria de haver encaminhado uma alma ao bem, abreviando os seus sofrimentos.<\/p>\n<p>Essa tarefa \u00e9 freq\u00fcentemente penosa.<br \/> Seria, sem d\u00favida, mais agrad\u00e1vel receber sempre boas comunica\u00e7\u00f5es e conversar apenas com os Esp\u00edritos de nossa prefer\u00eancia.<br \/> Mas n\u00e3o \u00e9 buscando somente a nossa satisfa\u00e7\u00e3o e rejeitando as ocasi\u00f5es que nos oferecem de praticar o bem que merecemos a prote\u00e7\u00e3o dos Esp\u00edritos bons.<\/p>\n<p>O Doutor Demeure<\/p>\n<p>Demeure era um m\u00e9dico homeopata muito considerado em Albi.<br \/> O seu car\u00e1ter e o seu saber lhe haviam conquistado a estima e a venera\u00e7\u00e3o dos seus concidad\u00e3os.<br \/> Sua bondade e sua caridade eram inesgot\u00e1veis.<br \/> Malgrado sua avan\u00e7ada idade, n\u00e3o sentia fadiga quando se tratava de dispensar os seus cuidados a pobres doentes.<\/p>\n<p>O pagamento de suas visitas era o que menos lhe importava.<br \/> Ele se considerava menos incomodado pelos infelizes do que pelos clientes que sabia poderem pag\u00e1-lo.<br \/> E isso porque, dizia ele, estes \u00faltimos podiam sempre, na falta dele, procurar outro m\u00e9dico.<\/p>\n<p>Aos infelizes ele n\u00e3o somente dava receitas e rem\u00e9dios sem cobrar, mas freq\u00fcentemente acrescentava o necess\u00e1rio para suprir \u00e0s suas necessidades materiais, o que \u00e0s vezes \u00e9 o mais eficaz dos medicamentos.<br \/> Podemos dizer que era o Cura D Ars da Medicina.<br \/>(53)<\/p>\n<p>Demeure havia abra\u00e7ado com ardor a doutrina esp\u00edrita, na qual encontrara a chave dos mais graves problemas que havia inutilmente procurado na ci\u00eancia e na filosofia.<br \/> Seu Esp\u00edrito profundo e investigador compreendeu imediatamente todo o alcance da doutrina de que se tornou um dos mais zelosos propagadores.<br \/> Rela\u00e7\u00f5es da mais viva e m\u00fatua simpatia estabeleceram-se entre n\u00f3s por meio da correspond\u00eancia.<\/p>\n<p>Soubemos da sua morte a 30 de janeiro.<br \/> Nosso primeiro pensamento foi o de obtermos uma conversa\u00e7\u00e3o com ele.<br \/> Eis a comunica\u00e7\u00e3o que nos deu no mesmo dia:<\/p>\n<p>Eis-me aqui.<br \/> Prometi a mim mesmo, quando vivo, que ao morrer viria, se me fosse poss\u00edvel, apertar a m\u00e3o do meu querido mestre e amigo, o Sr.<br \/> Allan Kardec.<\/p>\n<p>A morte deixou a minha alma nesse pesado sono que chamamos letargia, mas o meu pensamento velava.<br \/> Sacudi esse torpor funesto que prolonga a perturba\u00e7\u00e3o de ap\u00f3s morte e me despertei, fazendo de um salto a travessia.<\/p>\n<p>(53) Jean Baptiste Marie Vianney (1786-1859) foi cura em Ars durante 41 anos, tornando-se famoso pelas suas curas medi\u00fanicas e seu cuidado com os pobres.<br \/> Canonizado pela Igreja em 1931.<br \/> Ver sua comunica\u00e7\u00e3o no cap.<br \/> VIII de O Evangelho Segundo o Espiritismo.<br \/> (N.<br \/> do T.<br \/>)<\/p>\n<p>Como sou feliz! N\u00e3o estou mais enfermo nem velho.<br \/> Meu corpo era apenas uma vestimenta necess\u00e1ria.<br \/> Sou jovem e belo, dessa eterna beleza juvenil dos Esp\u00edritos, em que as rugas jamais assinalam o rosto e os cabelos n\u00e3o embranquecem com o passar do tempo.<br \/> Estou leve como o p\u00e1ssaro que atravessa em r\u00e1pido v\u00f4o o horizonte de vosso c\u00e9u nebuloso.<br \/> E admiro, contemplo, bendigo e me inclino, \u00e1tomo que sou, ante a grandeza, a sabedoria e a ci\u00eancia de nosso Criador, ante as maravilhas que me cercam.<\/p>\n<p>Estou feliz, estou na gl\u00f3ria! Oh! Quem poder\u00e1 jamais traduzir as espl\u00eandidas belezas da terra dos eleitos! Os c\u00e9us, os mundos, os s\u00f3is e seu papel no grande concurso da harmonia universal? Pois bem, eu tentarei, oh! Meu mestre; vou fazer o estudo e virei depositar aos vossos p\u00e9s a homenagem dos meus trabalhos de Esp\u00edrito, que desde j\u00e1 vos dedico.<br \/> At\u00e9 breve.<\/p>\n<p>Demeure.<\/p>\n<p>As duas comunica\u00e7\u00f5es seguintes, dadas a 1 e 2 de fevereiro, s\u00e3o relativas a doen\u00e7as que nos haviam ent\u00e3o acometido.<br \/> Embora sejam pessoais, reproduzimo-las porque elas provam que o Sr.<br \/> Demeure continua t\u00e3o bom como Esp\u00edrito quanto o era como homem.<\/p>\n<p>Meu bom amigo, tenha confian\u00e7a em n\u00f3s e bastante coragem.<br \/> Essa crise, embora fatigante e dolorosa, n\u00e3o ser\u00e1 longa.<br \/> Com os tratamentos prescritos poder\u00e1s logo, segundo desejas, completar a obra que \u00e9 o principal objetivo da tua exist\u00eancia.<br \/> Sou eu quem estou sempre aqui, ao teu lado, com o Esp\u00edrito da Verdade, que me permite falar em seu nome, como o \u00faltimo dos teus amigos que chegou ao mundo dos Esp\u00edritos.<br \/> Eles me fazem as honras da recep\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Caro mestre, como sou feliz de haver morrido a tempo de estar com eles neste momento! Se eu tivesse morrido mais cedo, talvez tivesse podido evitar essa crise que n\u00e3o previa.<br \/> Era t\u00e3o recente a minha desencarna\u00e7\u00e3o que n\u00e3o pude ocupar-me de outras coisas al\u00e9m do problema espiritual.<br \/> Mas agora velarei por ti, caro mestre.<br \/> Sou o teu irm\u00e3o e amigo que se sente feliz de ser Esp\u00edrito para estar ao teu lado cuidando da tua doen\u00e7a.<br \/> Conheces o prov\u00e9rbio: ajuda-te e o c\u00e9u te ajudar\u00e1.<br \/> Ajuda, pois, os bons Esp\u00edritos nos seus cuidados contigo, seguindo rigorosamente as suas prescri\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Est\u00e1 muito quente aqui.<br \/> Esse carv\u00e3o \u00e9 fatigante.<br \/> Enquanto est\u00e1s doente, n\u00e3o acendas mais o carv\u00e3o.<br \/> Ele aumenta a tua opress\u00e3o.<br \/> Os gazes que desprende s\u00e3o delet\u00e9rios.<\/p>\n<p>Teu amigo Demeure.<\/p>\n<p>Sou eu, Demeure, o amigo do Sr.<br \/> Kardec.<br \/> Venho dizer-lhe que estava junto dele quando lhe sobreveio o acidente que poderia ter sido funesto sem a interven\u00e7\u00e3o eficaz para a qual tive a felicidade de contribuir.<br \/> Segundo as minhas observa\u00e7\u00f5es e as informa\u00e7\u00f5es colhidas em boa fonte, parece-me que, quanto mais cedo se der a sua desencarna\u00e7\u00e3o, mais cedo poder\u00e1 se dar tamb\u00e9m a reencarna\u00e7\u00e3o que lhe permitir\u00e1 acabar a sua obra.<\/p>\n<p>Entretanto, \u00e9 necess\u00e1rio que ele d\u00ea, antes de partir, a derradeira m\u00e3o nas obras que devem completar a teoria doutrin\u00e1ria de que foi iniciador.<br \/> E ser\u00e1 culp\u00e1vel de suic\u00eddio se contribuir, por excesso de trabalho, para o aniquilamento do seu organismo que o amea\u00e7a de uma partida s\u00fabita para o nosso mundo.<br \/> N\u00e3o se deve temer dizer-lhe toda a verdade, para que tome as suas provid\u00eancias e siga \u00e0 risca as nossas prescri\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Demeure.<\/p>\n<p>A seguinte comunica\u00e7\u00e3o foi obtida em Montalban, a 26 de janeiro, no dia seguinte ao da sua morte, no c\u00edrculo dos amigos Esp\u00edritas que ele possu\u00eda nessa cidade:<\/p>\n<p> Ant\u00f4nio Demeure.<br \/> Eu n\u00e3o estou morto para v\u00f3s, meus bons amigos, mas somente para aqueles que n\u00e3o conhecem, como v\u00f3s, esta santa doutrina que re\u00fane os que se amaram na Terra, tendo os mesmos pensamentos e os mesmos sentimentos de amor e caridade.<\/p>\n<p>Estou feliz, mais feliz do que podeis supor, porque gozo de uma lucidez rara entre os Esp\u00edritos t\u00e3o recentemente libertos da mat\u00e9ria.<br \/> Tende coragem, meus bons amigos.<br \/> Estarei sempre junto a v\u00f3s e n\u00e3o deixarei de vos instruir sobre tantas coisas que ignoramos quando estamos ligados \u00e0 nossa pobre mat\u00e9ria, que nos oculta tantas magnific\u00eancias e impede tantas alegrias.<br \/> Pedi pelos que est\u00e3o privados dessa felicidade, pois n\u00e3o sabem o mal que fazem a si mesmos.<\/p>\n<p>N\u00e3o me demorarei hoje por mais tempo, mas quero dizer-vos que n\u00e3o me sinto inteiramente estranho a este mundo dos invis\u00edveis, pois me parece que sempre o habitei.<br \/> Sou feliz, porque vejo daqui os meus amigos e posso comunicar-me com eles sempre que o desejar.<\/p>\n<p>N\u00e3o choreis, meus amigos.<br \/> Isso me faria lamentar de vos haver conhecido.<br \/> Deixai passar o tempo e Deus vos trar\u00e1 a este plano onde todos nos devemos reunir.<br \/> Boa noite.<br \/> Que Deus vos console.<br \/> Eu estou convosco.<\/p>\n<p>Demeure.<\/p>\n<p>Outra carta de Montalban cont\u00e9m o relato seguinte:<\/p>\n<p>Hav\u00edamos ocultado \u00e0 senhora G.<br \/>, m\u00e9dium vidente e son\u00e2mbula muito l\u00facida, a morte do senhor Demeure, para poupar a sua extrema sensibilidade.<br \/> O bom doutor, compreendendo sem d\u00favida as nossas inten\u00e7\u00f5es, evitara de se manifestar a ela.<\/p>\n<p>A 10 de fevereiro \u00faltimo est\u00e1vamos reunidos a convite dos nossos guias que diziam querer aliviar a senhora G.<br \/> de uma luxa\u00e7\u00e3o que a fazia sofrer cruelmente desde a v\u00e9spera.<br \/> Nada hav\u00edamos percebido e est\u00e1vamos longe de pensar na surpresa que eles nos reservavam.<br \/> Logo que essa senhora entrou em sonambulismo, come\u00e7ou a soltar gritos lancinantes, mostrando o pr\u00f3prio p\u00e9.<\/p>\n<p>Eis o que se passava:<\/p>\n<p>A senhora G.<br \/> via um Esp\u00edrito curvado para a sua perna, e cujo rosto permanecia oculto, fazendo fric\u00e7\u00f5es e massagens, e de vez em quando produzindo uma tra\u00e7\u00e3o longitudinal, absolutamente como o faria qualquer m\u00e9dico.<br \/> Essa opera\u00e7\u00e3o era t\u00e3o dolorosa que a paciente vociferava e gesticulava desordenadamente.<br \/> Mas isso passou logo.<br \/> Dentro de dez minutos toda a luxa\u00e7\u00e3o havia desaparecido, como a sua inflama\u00e7\u00e3o e o p\u00e9 haviam voltado \u00e0 apar\u00eancia normal.<br \/> A senhora G.<br \/> estava curada.<\/p>\n<p>Entretanto o Esp\u00edrito continuava desconhecido da m\u00e9dium e insistia em n\u00e3o lhe mostrar o rosto.<br \/> Tinha mesmo o ar de querer fugir, quando a nossa doente, que alguns minutos antes n\u00e3o podia dar um passo, se lan\u00e7ou de um salto no meio do quarto para apertar a m\u00e3o do seu m\u00e9dico espiritual.<br \/> Ainda dessa vez o Esp\u00edrito desviava o rosto deixando apenas a sua m\u00e3o nas m\u00e3os da m\u00e9dium.<br \/> Nesse momento a senhora G.<br \/> deu um grito e caiu desfalecida no soalho.<br \/> Acabara de reconhecer o doutor Demeure no Esp\u00edrito curador.<\/p>\n<p>Durante a s\u00edncope ela recebia os cuidados atenciosos de muitos Esp\u00edritos simp\u00e1ticos.<br \/> Voltando, por fim, \u00e0 lucidez sonamb\u00falica conversou com os Esp\u00edritos, trocando com eles calorosos apertos de m\u00e3o, notadamente com o Esp\u00edrito do m\u00e9dico, que respondia \u00e0s suas provas de afei\u00e7\u00e3o envolvendo-a em fluidos reparadores.<\/p>\n<p>Esta cena n\u00e3o \u00e9 surpreendente e dram\u00e1tica, dando-nos a impress\u00e3o de ver todos os personagens desempenhando o seu papel na pr\u00f3pria vida humana? N\u00e3o constitui mais uma prova, entre tantas, de que os Esp\u00edritos s\u00e3o seres bastante reais, dotados de corpos e agindo como se estivessem na Terra? Ficamos felizes de reencontrar o nosso amigo espiritualizado, com seu excelente cora\u00e7\u00e3o e sua mesma delicada solicitude.<br \/> Ele havia sido, durante a vida, o m\u00e9dico da m\u00e9dium.<br \/> Conhecia sua extrema sensibilidade e a havia tratado como sua pr\u00f3pria filha.<br \/> Essa prova de identidade concedida aos que o Esp\u00edrito amava n\u00e3o \u00e9 surpreendente e ao mesmo tempo suficiente para nos fazer encarar a vida futura sob o seu aspecto mais consolador?<\/p>\n<p>Observa\u00e7\u00e3o: A situa\u00e7\u00e3o do doutor Demeure, como Esp\u00edrito, \u00e9 exatamente a que pod\u00edamos prever pela sua vida t\u00e3o digna e utilmente empregada.<br \/> Mas outro fato, n\u00e3o menos instrutivo, ressalta dessas comunica\u00e7\u00f5es.<br \/> \u00c9 a atividade que ele desenvolve quase imediatamente ap\u00f3s a sua morte, para ser \u00fatil.<br \/> Por sua elevada intelig\u00eancia e suas qualidades morais ele pertence \u00e0 ordem dos Esp\u00edritos mais adiantados.<br \/> Ele \u00e9 feliz, mas a sua felicidade n\u00e3o se faz de ina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Alguns dias antes ele cuidava dos doentes como m\u00e9dico.<br \/> Apenas libertado, apressa-se em cuidar deles como Esp\u00edrito.<br \/> Que adianta, ent\u00e3o, ir para o outro mundo, dir\u00e3o algumas pessoas, se ali n\u00e3o se pode repousar? A isso tamb\u00e9m lhes perguntaremos, primeiro, se o fato de n\u00e3o termos mais preocupa\u00e7\u00f5es, nem necessidades, nem estarmos sujeitos \u00e0s enfermidades da vida humana, de nos tornarmos livres e podermos, sem cansa\u00e7o, percorrer o espa\u00e7o com a rapidez do pensamento, indo ver os nossos amigos a qualquer momento e a qualquer dist\u00e2ncia em que eles se encontrem, se tudo isso nada representa? Depois acrescentaremos: quando estiverdes no outro mundo nada vos for\u00e7ar\u00e1 a fazer o que quer que seja; sereis perfeitamente livres de permanecer numa ociosidade beat\u00edfica quanto quiserdes; mas logo vos cansareis desse repouso ego\u00edsta e sereis os primeiros a pedir alguma ocupa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o vos ser\u00e1 respondido: se vos enjoais de nada fazer, procurai por v\u00f3s mesmos fazer alguma coisa.<br \/> As ocasi\u00f5es de ser \u00fatil n\u00e3o faltam no mundo dos Esp\u00edritos, como n\u00e3o faltam entre os homens.<br \/> \u00c9 assim que a atividade espiritual n\u00e3o representa um constrangimento, mas uma necessidade, uma satisfa\u00e7\u00e3o para os Esp\u00edritos que procuram as ocupa\u00e7\u00f5es segundo os seus gostos e as suas aptid\u00f5es, preferindo aquelas que podem ajud\u00e1-los mais no seu desenvolvimento.<\/p>\n<p>A Vi\u00fava Foulon<\/p>\n<p>A senhora Foulon, morta em Antibes a 3 de fevereiro de 1865, morou durante muito tempo no Havre, onde conquistou reputa\u00e7\u00e3o como miniaturista habilidosa.<br \/> Seu talento not\u00e1vel serviu-lhe de in\u00edcio, apenas como uma distra\u00e7\u00e3o de amador.<br \/> Mais tarde, por\u00e9m, quando chegaram os maus dias, ela soube aproveit\u00e1-lo como precioso recurso.<br \/> O que a tornava sobretudo amada e estimada, o que torna a sua mem\u00f3ria bastante cara a todos que a conheceram, \u00e9 a amenidade do car\u00e1ter, s\u00e3o as suas qualidades pessoais, que s\u00f3 os que a conheciam na intimidade puderam apreciar em toda a amplitude.<br \/> Porque, como todos os que possuem o sentimento inato do bem, ela n\u00e3o alardeava as suas qualidades e talvez nem mesmo as percebesse.<\/p>\n<p>Se houve algu\u00e9m que n\u00e3o se deixou dominar pelo ego\u00edsmo, foi sem d\u00favida ela.<br \/> Jamais, talvez, o sentimento da abnega\u00e7\u00e3o pessoal foi levado t\u00e3o longe.<br \/> Estava sempre pronta a sacrificar o seu repouso, a sua sa\u00fade, os seus interesses por aqueles a quem podia servir.<br \/> Sua vida foi uma longa seq\u00fc\u00eancia de atos de abnega\u00e7\u00e3o, assim como, desde a juventude foi marcada por provas rudes e cru\u00e9is, diante das quais a sua coragem, a sua resigna\u00e7\u00e3o e a sua perseveran\u00e7a jamais fraquejavam.<br \/> Mas, por desgra\u00e7a a sua vista, cansada por um trabalho minucioso, extinguia-se de dia para dia.<br \/> Dentro de pouco tempo a cegueira, j\u00e1 bastante avan\u00e7ada, completou-se.<\/p>\n<p>Quando a senhora Foulon tomou conhecimento da doutrina esp\u00edrita, esta lhe pareceu como um raio de luz.<br \/> Pareceu-lhe que um v\u00e9u se levantava deixando-lhe ver alguma coisa que n\u00e3o lhe era estranha, mas da qual tinha apenas uma vaga intui\u00e7\u00e3o.<br \/> Estudou-a com ardor, mas ao mesmo tempo com essa lucidez de esp\u00edrito e essa justeza de aprecia\u00e7\u00e3o que eram pr\u00f3prias da sua elevada intelig\u00eancia.<br \/> Seria preciso conhecer todas as perplexidades da sua vida, perplexidades que nunca se referiam a ela mesma, mas aos seres que amava, para se compreender quanto de consola\u00e7\u00f5es encontrou nessa revela\u00e7\u00e3o sublime que lhe dava uma f\u00e9 inabal\u00e1vel no futuro e lhe demonstrava o vazio das coisas terrenas.<\/p>\n<p>Sua morte foi digna da sua vida.<br \/> Ela sentiu a sua aproxima\u00e7\u00e3o sem nenhuma apreens\u00e3o penosa.<br \/> Para ela, era a liberta\u00e7\u00e3o dos liames terrenos que devia abrir-lhe a via espiritual e bem-aventurada com a qual se havia identificado pelo estudo do Espiritismo.<br \/> Morreu em paz, porque tinha a consci\u00eancia de haver cumprido a miss\u00e3o que aceitara ao vir para a Terra, de haver escrupulosamente cumprido os seus deveres de esposa e m\u00e3e de fam\u00edlia.<br \/> E tamb\u00e9m porque ela havia, durante a sua vida, afastado todo ressentimento contra os que a ofenderam, os que lhe haviam pago com a ingratid\u00e3o.<br \/> Pagou sempre o mal com o bem e deixou a vida perdoando a todos para se entregar, ela mesma, \u00e0 bondade e \u00e0 justi\u00e7a de Deus.<\/p>\n<p>Morreu, enfim, com a serenidade de uma consci\u00eancia pura e a certeza de que estaria menos separada dos seus filhos do que durante a vida corp\u00f3rea, desde que poderia dali por diante estar com eles em Esp\u00edrito, onde quer que se encontrassem, para os ajudar com os seus conselhos e os cobrir com a sua prote\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Desde que tivemos conhecimento da morte da Senhora Foulon, nosso primeiro desejo foi o de conversar com ela.<br \/> As rela\u00e7\u00f5es de amizade e de simpatia que a doutrina esp\u00edrita fizera nascer entre n\u00f3s explicam algumas de suas express\u00f5es e a familiaridade de sua linguagem.<\/p>\n<p>I<\/p>\n<p>(Paris, 6 de fevereiro de 1865, tr\u00eas dias ap\u00f3s a sua morte)<\/p>\n<p>Eu estava segura de que ias me evocar logo ap\u00f3s a minha liberta\u00e7\u00e3o e estava pronta a atender, porque n\u00e3o passei pela perturba\u00e7\u00e3o.<br \/> Somente os que se atemorizam e s\u00e3o envolvidos pelas espessas trevas do medo \u00e9 que se perturbam.<\/p>\n<p>Pois bem, meu amigo, agora estou feliz.<br \/> Estes pobres olhos que se haviam enfraquecido e s\u00f3 guardavam a lembran\u00e7a das vis\u00f5es que haviam colorido a minha juventude com suas luminosidades, reabriram-se aqui e reencontraram os espl\u00eandidos horizontes que alguns dos vossos grandes artistas idealizam em suas vagas reprodu\u00e7\u00f5es, mas cuja realidade majestosa, severa e n\u00e3o obstante cheia de encantos, constitui a mais positiva realidade.<\/p>\n<p>H\u00e1 apenas tr\u00eas dias que morri e sinto que sou um artista.<br \/> Minhas aspira\u00e7\u00f5es no tocante ao ideal da beleza na arte eram intui\u00e7\u00f5es de faculdades adquiridas e exercidas em outras exist\u00eancias, tendo-se desenvolvido na \u00faltima.<\/p>\n<p>Mas o que devo fazer para reproduzir numa obra-prima, digna da grandeza que me toca o esp\u00edrito, o cen\u00e1rio que encontramos na regi\u00e3o da luz? Pinc\u00e9is, pinc\u00e9is, e eu provarei ao mundo que a arte esp\u00edrita \u00e9 o coroamento da arte pag\u00e3, da arte crist\u00e3 que agora est\u00e1 em perigo, e que s\u00f3 ao Espiritismo est\u00e1 reservada a gl\u00f3ria de faz\u00ea-la reviver em todo o seu esplendor sobre o vosso mundo em crise.<\/p>\n<p>Basta para o artista.<br \/> Chegou a vez da amiga.<\/p>\n<p>Por que, a boa amiga (senhora Allan Kardec) incomodar-se assim com a minha morte? Sobretudo conhecendo como conheces as decep\u00e7\u00f5es e as amarguras da minha vida, devias ao contr\u00e1rio alegrar-te de ver que agora j\u00e1 n\u00e3o tenho mais de beber na ta\u00e7a amarga das dores terrestres, que esvaziei at\u00e9 o fim.<br \/> Podes crer que os mortos s\u00e3o mais felizes que os vivos e chor\u00e1-los seria duvidar da verdade do Espiritismo.<br \/> Ter\u00e1s de me rever, podes estar segura.<br \/> Parti primeiro porque a minha tarefa nesse mundo j\u00e1 estava terminada.<br \/> Cada um tem a sua e deve realiz\u00e1-la na Terra.<br \/> Quando acabares a tua, vir\u00e1s descansar um pouco junto a mim para depois recome\u00e7ar, se necess\u00e1rio, considerando-se que n\u00e3o \u00e9 natural permanecer sem fazer nada.<\/p>\n<p>Cada qual tem as suas tend\u00eancias e as segue.<br \/> Essa \u00e9 uma lei suprema, que prova o poder do livre-arb\u00edtrio.<br \/> Mas tamb\u00e9m, minha boa amiga, todos temos necessidade de indulg\u00eancia e caridade rec\u00edprocas, seja no mundo vis\u00edvel ou no mundo invis\u00edvel.<br \/> Com essa divisa, tudo ir\u00e1 bem.<\/p>\n<p>N\u00e3o ir\u00e1s me dizer que chega.<br \/> Sabes que \u00e9 a primeira vez que converso t\u00e3o longamente? Assim vou deixar-te.<br \/> Chegou a vez do meu excelente amigo senhor Kardec.<\/p>\n<p>Quero agradecer-lhe as afetuosas palavras que dirigiu \u00e0 amiga que o antecipou na tumba, pois dev\u00edamos partir juntos para o mundo onde agora me encontro, meu bom amigo! (Alus\u00e3o \u00e0 doen\u00e7a de Kardec de que falou o doutor Demeure.<br \/>) Que diria ent\u00e3o a companheira querida dos vossos dias, se os bons Esp\u00edritos n\u00e3o o tivessem socorrido em tempo? Ent\u00e3o, sim, ela teria chorado e clamado, o que se compreende.<br \/> Mas agora \u00e9 preciso que ela vele por ti, evitando que te exponhas de novo ao perigo antes de haver terminado o trabalho de inicia\u00e7\u00e3o esp\u00edrita.<br \/> Sem isso corres o perigo de chegar muito cedo entre n\u00f3s e assim n\u00e3o ver, como Mois\u00e9s, a Terra Prometida sen\u00e3o \u00e0 dist\u00e2ncia.<br \/> P\u00f5e-te, pois, em guarda; \u00e9 uma amiga que te previne.<\/p>\n<p>Agora me vou.<br \/> Volto para junto de meus queridos filhos.<br \/> Depois irei ver, para l\u00e1 dos mares, se a minha ovelha viajora chegou enfim ao porto ou est\u00e1 a merc\u00ea da tempestade.<br \/> (Uma de suas filhas morava na Am\u00e9rica.<br \/>) Que os bons Esp\u00edritos a protejam.<br \/> Vou reunir-me a eles para isso.<br \/> Voltarei a conversar convosco, porque sou uma infatig\u00e1vel conversadora, como certamente vos lembrais.<br \/> At\u00e9 a vista, meus bons e caros amigos.<br \/> At\u00e9 logo.<\/p>\n<p>Vi\u00fava Foulon.<\/p>\n<p>II<\/p>\n<p>(8 de fevereiro de 1865.<br \/>)<\/p>\n<p>P.<br \/> Cara senhora Foulon, fiquei muito contente com a comunica\u00e7\u00e3o que me deste outro dia e com a promessa de continuar a conversar conosco.<\/p>\n<p>Eu te reconheci perfeitamente na comunica\u00e7\u00e3o.<br \/> Falaste de coisas que o m\u00e9dium n\u00e3o sabia e s\u00f3 podiam vir de ti mesma.<br \/> Al\u00e9m disso, a tua linguagem afetuosa para conosco era bem aquela da tua alma amorosa.<br \/> Mas havia nas tuas palavras uma seguran\u00e7a, um equil\u00edbrio, uma firmeza que eu n\u00e3o percebera durante tua vida.<br \/> Sabes que me permiti, a esse respeito, advertir-te em algumas ocasi\u00f5es.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 verdade.<br \/> Mas desde que me vi gravemente enferma recuperei o equil\u00edbrio espiritual que havia perdido com os desgostos e as vicissitudes que \u00e0s vezes me tornavam insegura na vida.<br \/> Eu me disse a mim mesma: Tu \u00e9s Esp\u00edrito; esquece a Terra; prepara-te para a transforma\u00e7\u00e3o do teu ser; v\u00ea, pelo pensamento, a senda luminosa que tua alma deve seguir ao deixar o corpo e que a conduzir\u00e1, liberta e feliz, \u00e0s esferas celestes onde deves viver de agora em diante.<\/p>\n<p>Dir\u00e1s que fui um tanto presun\u00e7osa, contando com a felicidade perfeita ao deixar a Terra, mas tanto eu havia sofrido que j\u00e1 devia ter expiado as minhas faltas dessa exist\u00eancia e das anteriores.<br \/> Essa intui\u00e7\u00e3o n\u00e3o me enganara.<br \/> Foi ela que me deu a coragem, a calma e a firmeza dos \u00faltimos instantes.<br \/> Essa firmeza aumentou naturalmente quando, ap\u00f3s a minha liberta\u00e7\u00e3o, vi que as minhas esperan\u00e7as estavam realizadas.<\/p>\n<p>P.<br \/> Queres agora nos descrever a vossa passagem, o vosso despertar e as vossas primeiras impress\u00f5es?<\/p>\n<p>\u2014 Eu sofri, mas o meu Esp\u00edrito foi mais forte que o sofrimento material do despreendimento.<br \/> Ap\u00f3s o \u00faltimo suspiro, passei por uma esp\u00e9cie de s\u00edncope perdendo a consci\u00eancia, nada percebendo, numa vaga sonol\u00eancia que n\u00e3o era o sono do corpo nem o despertar da alma.<\/p>\n<p>Durante longo tempo permaneci assim.<br \/> Depois, como se sa\u00edsse de um longo desfalecimento, fui me despertando pouco a pouco em meio de irm\u00e3os que n\u00e3o conhecia.<br \/> Eles me prodigalizavam os seus cuidados e as aten\u00e7\u00f5es.<br \/> Mostraram-me um ponto no espa\u00e7o que se assemelhava a uma estrela brilhante e disseram:  \u00c9 para l\u00e1 que vais conosco, pois n\u00e3o pertences mais \u00e0 Terra.<br \/>  Ent\u00e3o eu me lembrei.<br \/> Amparada por eles, como um grupo gracioso que se lan\u00e7a em dire\u00e7\u00e3o \u00e0s esferas desconhecidas, mas com a certeza de l\u00e1 encontrar a felicidade, subimos, subimos enquanto a estrela crescia \u00e0 nossa frente.<\/p>\n<p>Era um mundo feliz, um mundo superior em que a vossa boa amiga vai por fim encontrar o repouso.<br \/> Quero dizer o repouso em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s fadigas corporais que sofri e \u00e0s vicissitudes da vida terrena, mas n\u00e3o \u00e0 indol\u00eancia do Esp\u00edrito, porque a atividade espiritual \u00e9 o fluir de uma aventura.<\/p>\n<p>P.<br \/> Ent\u00e3o deixaste definitivamente a Terra?<\/p>\n<p>\u2014 Deixo a\u00ed muitos seres queridos para poder abandon\u00e1-la em definitivo.<br \/> Voltarei a ela em Esp\u00edrito, pois tenho uma miss\u00e3o a cumprir junto de meus filhos.<br \/> Sabes muito bem que nenhum obst\u00e1culo se op\u00f5e \u00e0 visita dos Esp\u00edritos dos mundos superiores \u00e0 Terra.<\/p>\n<p>P.<br \/> A tua posi\u00e7\u00e3o atual n\u00e3o parece enfraquecer as tuas rela\u00e7\u00f5es com os que deixastes neste mundo?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, meu amigo, o amor aproxima as almas.<br \/> Creia-me, pode-se estar, na Terra, mais pr\u00f3ximo dos que atingiram a perfei\u00e7\u00e3o do que daqueles que a inferioridade e ego\u00edsmo fazem turbilhonar em torno da esfera terrestre.<br \/> A caridade e o amor s\u00e3o dois motivos de poderosa atra\u00e7\u00e3o.<br \/> Formam o liame que mant\u00e9m a uni\u00e3o das almas, fazendo-a continuar independentemente das dist\u00e2ncias e dos lugares.<br \/> S\u00f3 h\u00e1 dist\u00e2ncia para os corpos materiais, pois ela n\u00e3o existe para os Esp\u00edritos.<\/p>\n<p>P.<br \/> Que id\u00e9ia fazes agora dos meus trabalhos referentes ao Espiritismo?<\/p>\n<p>\u2014 Vejo que est\u00e1s encarregado do problema das almas e que o fardo \u00e9 dif\u00edcil de carregar, mas vejo o alvo e sei que o atingir\u00e1s.<br \/> Eu te ajudarei no que puder com os meus conselhos espirituais para que possas vencer todas as dificuldades sugerindo-vos certas medidas apropriadas a ativar, durante a tua vida, o movimento renovador do Espiritismo.<br \/> Teu amigo Demeure, unido ao Esp\u00edrito da Verdade, te prestar\u00e1 maior concurso ainda.<br \/> Ele \u00e9 mais s\u00e1bio e mais prudente do que eu.<br \/> Mas como sei que a assist\u00eancia dos bons Esp\u00edritos te fortalece e sustenta na luta, podes crer que o meu concurso n\u00e3o te faltar\u00e1 por toda a parte e sempre.<\/p>\n<p>P.<br \/> De algumas das tuas palavras pode-se deduzir que n\u00e3o dar\u00e1s uma colabora\u00e7\u00e3o pessoal bastante ativa \u00e0 obra do Espiritismo.<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1s enganado.<br \/> \u00c9 que vejo tantos outros Esp\u00edritos mais capazes do que eu de tratar desta importante quest\u00e3o, que um sentimento de invenc\u00edvel timidez me impede no momento de responder-te como desejas.<br \/> Mas isso talvez aconte\u00e7a.<br \/> Terei mais coragem e aud\u00e1cia, quando melhor conhecer esses Esp\u00edritos.<br \/> H\u00e1 apenas quatro dias que morri.<br \/> Estou ainda sob o fasc\u00ednio e o deslumbramento de tudo o que me cerca.<br \/> Meu amigo, n\u00e3o compreendes? N\u00e3o sou capaz de exprimir as sensa\u00e7\u00f5es novas que experimento.<br \/> Tenho de esfor\u00e7ar-me para vencer a fascina\u00e7\u00e3o que exercem sobre mim as maravilhas que admiro.<br \/> S\u00f3 posso bem dizer e adorar a Deus nas suas obras.<br \/> Mas isso passar\u00e1.<br \/> Os Esp\u00edritos me asseguram que logo estarei acostumada a todas essas magnific\u00eancias e ent\u00e3o poderei, com minha lucidez espiritual, tratar de todas as quest\u00f5es relativas \u00e0 renova\u00e7\u00e3o terrestre.<br \/> Depois, al\u00e9m de tudo isso, lembra-te de que tenho, sobretudo, neste momento, uma fam\u00edlia a consolar.<\/p>\n<p>Adeus e at\u00e9 logo.<br \/> A boa amiga que te ama e te amar\u00e1 sempre, meu mestre, pois te deve a \u00fanica consola\u00e7\u00e3o dur\u00e1vel e verdadeira que experimentou na Terra.<\/p>\n<p>Vi\u00fava Foulon.<\/p>\n<p>(Esta comunica\u00e7\u00e3o foi dada aos seus filhos, a 9 de fevereiro.<br \/>)<\/p>\n<p>Meus filhos, meus queridos.<br \/> Deus me tirou de junto de v\u00f3s, mas a recompensa que me concedeu \u00e9 muito grande em compara\u00e7\u00e3o com o pouco que fiz na Terra.<br \/> Tende resigna\u00e7\u00e3o, meus bons filhos, ante os des\u00edgnios do Alt\u00edssimo.<br \/> Tirai de tudo quanto ele vos permitiu receberdes a for\u00e7a de suportar as provas da vida.<br \/> Mantende sempre firme no vosso cora\u00e7\u00e3o essa cren\u00e7a que tanto me facilitou a passagem da vida terrena para a vida que nos espera ao sair desse mundo inferior.<\/p>\n<p>Deus me amparou, ap\u00f3s a morte, em sua inesgot\u00e1vel bondade, como havia feito quando me encontrava na Terra.<br \/> Agradecei-lhe todos os benef\u00edcios que vos tem concedido.<br \/> Bendizei-o, meus filhos, bendizei-o sempre, a todos os instantes.<br \/> Nunca percais de vista o vosso alvo, nem a rota que deveis seguir.<br \/> Pensai no emprego que tendes dado ao tempo que Deus vos concede na Terra.<br \/> Sereis felizes, meus queridos, felicitando-vos uns aos outros, se permanecerdes unidos.<br \/> Sereis felizes com os vossos filhos, se os educardes no bom caminho, naquele que Deus permitiu vos fosse revelado.<\/p>\n<p>Oh! Se n\u00e3o podeis me ver, sabei entretanto que o la\u00e7o que nos ligava nesse mundo n\u00e3o se rompeu com a morte do corpo, porque n\u00e3o era o inv\u00f3lucro que nos ligava, mas o Esp\u00edrito.<br \/> \u00c9 por isso, meus queridos, que eu poderei, gra\u00e7as \u00e0 bondade do Todo-Poderoso, guiar-vos ainda e encorajar-vos na vossa marcha, para nos juntarmos mais tarde.<\/p>\n<p>Avante, meus filhos, cultivai com o mesmo amor essa cren\u00e7a sublime.<br \/> Bons dias vos est\u00e3o reservados, a v\u00f3s que credes.<br \/> J\u00e1 vos disseram isso, mas eu n\u00e3o devia ver esses dias na Terra.<br \/> \u00c9 de mais alto que apreciarei esses tempos felizes prometidos pelo Deus bom, justo e misericordioso.<\/p>\n<p>N\u00e3o chorai, meus filhos.<br \/> Que estas comunica\u00e7\u00f5es fortale\u00e7am a vossa f\u00e9, o vosso amor a Deus, que tantos dons vos concedeu, que tantas vezes enviou o socorro da f\u00e9 \u00e0 vossa m\u00e3e.<br \/> Orai sempre: a prece fortalece.<br \/> Segui as instru\u00e7\u00f5es que t\u00e3o ardentemente eu segui na vida que Deus nos concedeu.<\/p>\n<p>Voltarei at\u00e9 v\u00f3s, meus filhos, mas agora preciso amparar a minha pobre filha, que tanto ainda necessita de mim.<br \/> Adeus, at\u00e9 breve.<br \/> Crede na bondade do Todo-Poderoso.<br \/> Eu pe\u00e7o por v\u00f3s.<\/p>\n<p>At\u00e9 a vista.<\/p>\n<p>Vi\u00fava Foulon.<\/p>\n<p>Observa\u00e7\u00e3o: Qualquer pessoa s\u00e9ria e esclarecida facilmente ver\u00e1 os ensinos que ressaltam dessas comunica\u00e7\u00f5es, mas n\u00e3o obstante chamaremos a aten\u00e7\u00e3o sobre dois pontos.<br \/> O primeiro, \u00e9 o fato do que este exemplo nos mostra a possibilidade de n\u00e3o voltarmos \u00e0 encarna\u00e7\u00e3o terrena, passando deste mundo para outro superior, sem por isso ficarmos separados das criaturas queridas que aqui deixamos.<br \/> Os que, pois, temem a reencarna\u00e7\u00e3o por causa das dificuldades da vida, podem afastar esse temor empenhando-se em trabalhar para se melhorarem.<br \/> \u00c9 como aquele que n\u00e3o quer vegetar nas posi\u00e7\u00f5es inferiores, devendo instruir-se e trabalhar para alcan\u00e7ar situa\u00e7\u00f5es melhores.<\/p>\n<p>O segundo ponto \u00e9 a confirma\u00e7\u00e3o do princ\u00edpio de que ap\u00f3s a morte estamos menos separados dos entes queridos, do que durante a vida.<br \/> A senhora Foulon, retida pela idade e a enfermidade numa cidadezinha do sul, s\u00f3 tinha ao seu lado uma parte da sua fam\u00edlia.<br \/> A maioria de seus filhos e de seus amigos estavam longe, dispersos, de maneira que os obst\u00e1culos materiais se opunham a que ela pudesse v\u00ea-los com a freq\u00fc\u00eancia que desejasse.<br \/> As grandes dist\u00e2ncias tornavam rara e dif\u00edcil a pr\u00f3pria correspond\u00eancia com alguns deles.<\/p>\n<p>Mal se desembara\u00e7ou do seu corpo e eis que, ligeira, corre para junto de cada um, vencendo as dist\u00e2ncias sem fadiga, com a rapidez do rel\u00e2mpago.<br \/> Pode ent\u00e3o v\u00ea-los, assiste \u00e0s suas reuni\u00f5es \u00edntimas, envolve-os na sua prote\u00e7\u00e3o, e pode, atrav\u00e9s da mediunidade, conversar com eles a todo instante como se estivesse viva.<br \/> E dizer que a esta consoladora id\u00e9ia, h\u00e1 gente que prefere a de uma separa\u00e7\u00e3o indefinida!<\/p>\n<p>Um M\u00e9dico Russo<\/p>\n<p>O senhor P.<br \/> era um m\u00e9dico de Moscou, t\u00e3o distinto pelas suas eminentes qualidades morais quanto pelo saber.<br \/> A pessoa que o evocou s\u00f3 o conhecia pela reputa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o tendo tido rela\u00e7\u00f5es diretas com ele.<br \/> A comunica\u00e7\u00e3o original foi dada na l\u00edngua russa.<\/p>\n<p>P.<br \/> (Ap\u00f3s a evoca\u00e7\u00e3o.<br \/>) Est\u00e1s aqui?<\/p>\n<p>\u2014 Sim.<br \/> No dia da minha morte insisti em apresentar-me mas resisti a todas as minhas tentativas de fazer-te escrever.<br \/> Ouvi as palavras que dizias a meu respeito.<br \/> Isso me fez conhecer-te e tive ent\u00e3o o desejo de conversar contigo e poder servir-te.<\/p>\n<p>P.<br \/> Porque, tendo sido t\u00e3o bom, sofreste tanto?<\/p>\n<p>\u2014 Isso foi uma gra\u00e7a do Senhor que desejava me fazer sentir dessa maneira, o valor da minha liberta\u00e7\u00e3o e fazer-me avan\u00e7ar o mais poss\u00edvel neste mundo.<\/p>\n<p>P.<br \/> A id\u00e9ia de morrer te aterrorizou?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, eu tinha muita f\u00e9 em Deus para isso.<\/p>\n<p>P.<br \/> A separa\u00e7\u00e3o foi dolorosa?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o.<br \/> O que chamam de \u00faltimo momento n\u00e3o \u00e9 nada.<br \/> Senti apenas um estremecimento muito r\u00e1pido e logo ap\u00f3s j\u00e1 me encontrava muito feliz de haver me desembara\u00e7ado da minha miser\u00e1vel carca\u00e7a.<\/p>\n<p>P.<br \/> O que aconteceu ent\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2014 Tive a ventura de ver que numerosos amigos vinham ao meu encontro desejando-me as boas vindas, principalmente aqueles que eu tivera a satisfa\u00e7\u00e3o de ajudar.<\/p>\n<p>P.<br \/> Em que regi\u00e3o est\u00e1s? Em algum planeta?<\/p>\n<p>\u2014 Ao redor dos planetas h\u00e1 o que chamas espa\u00e7o.<br \/> \u00c9 a\u00ed que me encontro.<br \/> Mas quantas gradua\u00e7\u00f5es existem nesta imensidade, das quais o homem n\u00e3o pode fazer id\u00e9ia! Quantos degraus existem nesta escada de Jac\u00f3 que vai da terra ao c\u00e9u, ou seja, do aviltamento da encarna\u00e7\u00e3o num mundo inferior como o vosso at\u00e9 a depura\u00e7\u00e3o completa da alma! Aqui, onde me encontro, n\u00e3o se chega sen\u00e3o depois de muitas provas, o que vale dizer de muitas encarna\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>P.<br \/> Ent\u00e3o, deves ter tido muitas exist\u00eancias?<\/p>\n<p>\u2014 Como poderia ser de outra maneira? N\u00e3o h\u00e1 exce\u00e7\u00f5es na ordem imut\u00e1vel estabelecida por Deus.<br \/> A recompensa s\u00f3 pode ser dada ap\u00f3s a vit\u00f3ria na luta.<br \/> E quando a recompensa \u00e9 grande, necessariamente a luta tamb\u00e9m o foi.<br \/> Mas a vida humana \u00e9 t\u00e3o curta que a luta s\u00f3 se realiza de fato atrav\u00e9s de intervalos, e esses intervalos s\u00e3o as diferentes exist\u00eancias sucessivas.<br \/> Ora, desde que estou num degrau elevado \u00e9 certo que atingi essa felicidade por uma sucess\u00e3o de combates, nos quais Deus me permitiu a vit\u00f3ria algumas vezes.<\/p>\n<p>P.<br \/> Em que consiste a tua felicidade?<\/p>\n<p>\u2014 Isso \u00e9 mais dif\u00edcil de te dar a compreender.<br \/> A felicidade que sinto \u00e9 um contentamento extremo de mim mesmo.<br \/> N\u00e3o pelos meus m\u00e9ritos, o que seria orgulho, e o orgulho \u00e9 a marca dos Esp\u00edritos r\u00e9probos, mas um contentamento, por assim dizer, imerso no amor de Deus, no reconhecimento da sua infinita bondade.<br \/> \u00c9 a alegria profunda de ver o bom e o bem, de poder dizer: talvez eu tenha contribu\u00eddo para o melhoramento de algumas criaturas que se elevaram ao Senhor.<br \/> A gente se sente como que identificada com a felicidade.<br \/> \u00c9 uma esp\u00e9cie de fus\u00e3o do Esp\u00edrito com a bondade Divina.<br \/> Tem-se o dom de ver os Esp\u00edritos mais puros, de compreend\u00ea-los em suas miss\u00f5es, sabendo que tamb\u00e9m se chegar\u00e1 l\u00e1.<br \/> Pode-se entrever, no infinito incomensur\u00e1vel, as regi\u00f5es resplandescentes do fogo divino, chegando-se mesmo a ofuscar-se ao contempl\u00e1-las atrav\u00e9s do v\u00e9u que ainda as envolve.<\/p>\n<p>Mas, que digo? Compreendes as minhas palavras? Esse fogo de que falo, pensas que seja, por exemplo, semelhante ao sol? N\u00e3o, n\u00e3o.<br \/> \u00c9 alguma coisa indiz\u00edvel para o homem, pois as palavras s\u00f3 exprimem os objetos, as coisas f\u00edsicas ou metaf\u00edsicas de que se tem conhecimento pela mem\u00f3ria ou pela intui\u00e7\u00e3o da alma, enquanto n\u00e3o podendo ter nenhuma mem\u00f3ria do desconhecido absoluto, n\u00e3o se disp\u00f5e de termos que possam dar essa compreens\u00e3o.<br \/> Mas fica sabendo que \u00e9 j\u00e1 uma felicidade imensa pensar que se pode subir infinitamente.<\/p>\n<p>P.<br \/> Tiveste a bondade de dizer que me queres ser \u00fatil.<br \/> Em que, pergunto?<\/p>\n<p>\u2014 Posso ajudar-te nos momentos de des\u00e2nimo, amparar-te nas fraquezas, consolar-te nas ang\u00fastias.<br \/> Se a tua f\u00e9 for abalada por alguma perturba\u00e7\u00e3o e te sentires vacilante, chama-me, chama-me.<br \/> Deus me dar\u00e1 as palavras necess\u00e1rias para lembr\u00e1-lo a ti e reconduzir-te a ele.<br \/> Se te sentires prestes a sucumbir sob o peso das tend\u00eancias de que tu mesmo te reconheces culpado, chama-me.<br \/> Eu te ajudarei a carregar a tua cruz, como Jesus foi ajudado a carregar a dele, aquela em que devia t\u00e3o altamente nos proclamar a verdade, a caridade.<br \/> Se fracassares ao peso das amarguras, se o desespero te dominar, chama-me.<br \/> Eu virei tirar-te desse abismo falando-te de Esp\u00edrito a Esp\u00edrito, lembrando-te o cumprimento dos deveres que te competem, n\u00e3o em virtude de considera\u00e7\u00f5es sociais e materiais, mas pelo amor que sentir\u00e1s em mim, amor que Deus dispensou ao meu ser para que o transmita aos que ele pode salvar.<\/p>\n<p>Tens, sem d\u00favida, amigos na Terra.<br \/> Eles partilham talvez das tuas dores e talvez j\u00e1 te socorreram.<br \/> Nas afli\u00e7\u00f5es vais procur\u00e1-los, levar-lhes os teus lamentos e as tuas l\u00e1grimas, e eles te d\u00e3o em troca essa prova de afei\u00e7\u00e3o que s\u00e3o os seus conselhos, o seu apoio, as suas aten\u00e7\u00f5es.<br \/> Pois bem, n\u00e3o pensas que um amigo daqui seja tamb\u00e9m um bom achado? N\u00e3o \u00e9 consolador poder dizer: quando eu morrer, os meus amigos da Terra estar\u00e3o \u00e0 minha cabeceira orando por mim e chorando sobre mim, mas os meus amigos do espa\u00e7o estar\u00e3o no limiar da nova vida e vir\u00e3o sorridentes ao meu encontro para me conduzirem ao lugar que eu tiver merecido pelas minhas virtudes?<\/p>\n<p>P.<br \/> Porque mereci a prote\u00e7\u00e3o que me queres dar?<\/p>\n<p>\u2014 Eis porque me liguei a ti desde o dia da minha morte.<br \/> Eu te vi como esp\u00edrita, bom m\u00e9dium e adepto sincero.<br \/> Entre os que deixei nesse mundo n\u00e3o vi ningu\u00e9m em melhores condi\u00e7\u00f5es.<br \/> Ent\u00e3o resolvi contribuir para o teu progresso, sem d\u00favida no teu interesse, mas ainda mais no interesse de todos os que chamaste para os encaminhar \u00e0 verdade.<br \/> V\u00eas que Deus te ama bastante para fazer-te mission\u00e1rio.<br \/> Todos, ao teu redor, pouco a pouco v\u00e3o partilhando das tuas cren\u00e7as.<br \/> Os mais rebeldes n\u00e3o deixam de te ouvir e um dia ver\u00e1s que te aceitam.<br \/> N\u00e3o os abandones.<br \/> Prossiga sempre, malgrado as pedras do caminho.<br \/> Toma-me como bord\u00e3o na tua fraqueza.<\/p>\n<p>P.<br \/> N\u00e3o me considero digno de t\u00e3o grande favor.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida que est\u00e1s longe da perfei\u00e7\u00e3o.<br \/> Mas o teu ardor na difus\u00e3o das boas doutrinas, no alento \u00e0 f\u00e9 dos que te ouvem, na prega\u00e7\u00e3o da caridade, da bondade, da benevol\u00eancia, mesmo quando procedem mal contigo, tua resist\u00eancia aos impulsos da c\u00f3lera que facilmente podias satisfazer, contra os que te aborrecem ou menosprezam as tuas inten\u00e7\u00f5es, tudo isso felizmente serve de contrapeso ao que ainda possuis de mau, \u00e9 um poderoso contrapeso, como o perd\u00e3o.<\/p>\n<p>Deus te cobre com as suas gra\u00e7as atrav\u00e9s da faculdade que te deu e que cabe a ti desenvolver pelos teus esfor\u00e7os a fim de trabalhar eficazmente para a salva\u00e7\u00e3o do pr\u00f3ximo.<br \/> Deixo-te, mas conta comigo.<br \/> Trata de moderar os teus caprichos terrenos e de viver mais freq\u00fcentemente com os teus amigos deste lado.<\/p>\n<p>P.<br \/> Bernardin<\/p>\n<p>(Bordeaux, abril de 1862.<br \/>)<\/p>\n<p>Sou um Esp\u00edrito esquecido h\u00e1 muitos s\u00e9culos.<br \/> Vivi na Terra em mis\u00e9ria e opr\u00f3brio.<br \/> Trabalhei sem descanso para dar cada dia \u00e0 minha fam\u00edlia um peda\u00e7o de p\u00e3o insuficiente.<br \/> Mas eu amava o verdadeiro Mestre, e quando aquele que me sobrecarregava na Terra fazia aumentar o meu fardo de dores, eu dizia: meu Deus, dai-me a for\u00e7a para suportar esse peso sem me lamentar.<\/p>\n<p>Eu estava em expia\u00e7\u00e3o, meus amigos, mas ao sair dessa rude prova o Senhor me recebeu na sua paz e o meu desejo mais caro \u00e9 o de reunir todos v\u00f3s ao redor de mim, meus filhos, meus irm\u00e3os, e dizer-vos: qualquer que seja o pre\u00e7o pago na Terra, a felicidade que vos espera est\u00e1 muito acima dele.<\/p>\n<p>Nunca tive posi\u00e7\u00e3o.<br \/> Filho de numerosa fam\u00edlia, servi aos que podiam me ajudar a suportar a vida.<br \/> Nascido numa \u00e9poca em que a servid\u00e3o era cruel, suportei todas as injusti\u00e7as, todas as cargas e todos os excessos que os auxiliares do patr\u00e3o quiseram impor-me.<\/p>\n<p>Vi minha mulher ultrajada, minhas filhas raptadas e depois rejeitadas, sem que pudesse queixar-me.<br \/> Vi meus filhos envolvidos em roubos e outros crimes, sem o quererem, e depois enforcados por crimes que n\u00e3o cometeram.<\/p>\n<p>Se soubesseis, pobres amigos, o que sofri numa t\u00e3o longa exist\u00eancia! Mas eu esperava, eu esperava a felicidade que n\u00e3o \u00e9 da Terra e que o Senhor por fim me concedeu.<br \/> A todos v\u00f3s, portanto, meus irm\u00e3os, desejo coragem, paci\u00eancia e resigna\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Meu filho, podes guardar o que te dei: \u00e9 um ensinamento pr\u00e1tico.<br \/> Aquele que prega \u00e9 melhor ouvido quando pode dizer: eu suportei mais do que v\u00f3s, e suportei sem me queixar.<\/p>\n<p>P.<br \/> Em que \u00e9poca viveste?<\/p>\n<p>\u2014 De 1400 a 1460.<\/p>\n<p>P.<br \/> Tiveste nova exist\u00eancia depois?<\/p>\n<p>\u2014 Sim, vivi ainda como mission\u00e1rio entre v\u00f3s.<br \/> Sim, um mission\u00e1rio da f\u00e9, mas da verdadeira, da pura, daquela que nos vem da m\u00e3o de Deus e n\u00e3o daquela que os homens fizeram.<\/p>\n<p>P.<br \/> Agora, como Esp\u00edrito, ainda tens ocupa\u00e7\u00f5es?<\/p>\n<p>\u2014 Poderias pensar que os Esp\u00edritos ficam inativos? A inatividade, a inutilidade seria para eles um supl\u00edcio.<br \/> Minha miss\u00e3o \u00e9 a de guiar centros de trabalhadores no Espiritismo.<br \/> Inspiro-lhes bons pensamentos e me esfor\u00e7o para neutralizar aqueles que os maus Esp\u00edritos tentam sugerir.<\/p>\n<p>Bernardin.<\/p>\n<p>A Condessa Paula<\/p>\n<p>Era uma jovem mulher, bela, rica, nascida em fam\u00edlia ilustre, e al\u00e9m disso um modelo completo de todas as virtudes de cora\u00e7\u00e3o e esp\u00edrito.<br \/> Morreu aos 36 anos, em 1851.<br \/> Era uma dessas criaturas cuja morte p\u00f5e em todas as bocas as seguintes palavras:  Por que Deus retira t\u00e3o cedo pessoas como essa da Terra? <\/p>\n<p>Felizes os que fazem assim aben\u00e7oada a pr\u00f3pria mem\u00f3ria! Ela era boa, doce, indulgente para com todos.<br \/> Sempre pronta a desculpar ou atenuar o mal, em vez de aument\u00e1-lo.<br \/> Jamais a maledic\u00eancia lhe manchou os l\u00e1bios.<br \/> Sem arrog\u00e2ncia nem estupidez, tratava os seus inferiores com uma benevol\u00eancia que n\u00e3o descia a excessos de familiaridade, sem distanci\u00e1-los com ares de superioridade ou de uma prote\u00e7\u00e3o humilhante.<\/p>\n<p>Compreendendo que as pessoas que vivem do seu trabalho n\u00e3o possuem outros rendimentos e precisam do dinheiro que ganham, seja por sua posi\u00e7\u00e3o, seja para viverem, jamais retardou o pagamento de um sal\u00e1rio.<br \/> O simples pensamento de que algu\u00e9m pudesse passar necessidade pela falta de pagamento lhe produziria um peso na consci\u00eancia.<br \/> N\u00e3o era dessas pessoas que sempre disp\u00f5em de dinheiro para satisfazer as suas fantasias, mas n\u00e3o para pagarem aos que devem.<br \/> N\u00e3o compreendia que pudesse ser de bom gosto para o rico fazer d\u00edvidas, e se sentiria humilhada se algu\u00e9m pudesse dizer que os seus fornecedores eram obrigados a contemporizar os pagamentos.<br \/> Assim, a sua morte provocou muitas lamenta\u00e7\u00f5es, mas nenhuma reclama\u00e7\u00e3o.<br \/> Sua caridade era inesgot\u00e1vel, mas n\u00e3o dessa caridade convencional que se ostenta em pleno dia.<br \/> Era a caridade do cora\u00e7\u00e3o e n\u00e3o a da ostenta\u00e7\u00e3o.<br \/> S\u00f3 Deus sabe as l\u00e1grimas que ela enxugou e os desesperos que acalmou, pois as suas boas a\u00e7\u00f5es s\u00f3 eram testemunhadas por ela e pelos infelizes a que assistia.<br \/> Sabia sobretudo descobrir os infort\u00fanios ocultos, que s\u00e3o os mais pungentes, socorrendo-os com a delicadeza que reergue moralmente e ajudando em vez de rebaix\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Sua posi\u00e7\u00e3o e as elevadas fun\u00e7\u00f5es do marido a obrigavam a uma despesa caseira a que n\u00e3o podia furtar-se.<br \/> Mas, satisfazendo inteiramente as exig\u00eancias da sua posic\u00e3o, sem mesquinhez, ela o fazia com m\u00e9todo, conseguindo evitar desperd\u00edcios ruinosos e despesas sup\u00e9rfluas, o que lhe permitia reduzir pela metade o que outros teriam gasto sem fazerem melhor.<\/p>\n<p>Podia assim reservar da sua fortuna uma parte maior para os necessitados.<br \/> Havia destinado uma parte importante de seus recursos exclusivamente para este fim, e essa destina\u00e7\u00e3o era sagrada para ela, considerando-a como redu\u00e7\u00e3o a fazer nas despesas caseiras.<br \/> Encontrou assim o meio de conciliar os seus deveres sociais com os seus deveres na assist\u00eancia aos infelizes.<br \/>(54)<\/p>\n<p>Evocada doze anos ap\u00f3s a morte por um parente iniciado no Espiritismo, deu a seguinte comunica\u00e7\u00e3o, respondendo a diversas perguntas que lhe foram feitas.<br \/> Foram tiradas desta comunica\u00e7\u00e3o, dada em l\u00edngua alem\u00e3, os t\u00f3picos que interessam ao nosso assunto, deixando-se de lado os de interesse da fam\u00edlia.<\/p>\n<p> Tens raz\u00e3o, meu amigo, de pensar que sou feliz.<br \/> Eu o sou, com efeito, al\u00e9m de tudo o que se pudesse conceber, e n\u00e3o obstante estou ainda longe do plano superior.<br \/> Eu pertencia aos felizes da Terra, pois n\u00e3o me lembro de ter experimentado nenhum sofrimento real.<br \/> Juventude, sa\u00fade, fortuna, homenagens, eu tinha tudo o que constitui a felicidade entre v\u00f3s.<br \/> Mas o que \u00e9 essa felicidade ao lado da que se encontra aqui? Que s\u00e3o as vossas festas mais espl\u00eandidas, em que se exibem as mais ricas j\u00f3ias, comparadas as assembl\u00e9ias dos Esp\u00edritos que resplandecem de uma luz que os vossos olhos n\u00e3o poderiam suportar e que \u00e9 o apan\u00e1gio da sua pureza?<\/p>\n<p>O que s\u00e3o os vossos pal\u00e1cios e os vossos sal\u00f5es dourados ante as moradas a\u00e9reas, o vasto campo do espa\u00e7o matizado de cores que fariam empalidecer o arco-\u00edris? Que s\u00e3o os vossos passeios passo a passo nos parques, ante a viagens atrav\u00e9s da imensid\u00e3o, mais r\u00e1pidas do que o rel\u00e2mpago? O que s\u00e3o os vossos horizontes limitados e carregados de nuvens, ante o grandioso espet\u00e1culo dos mundos a se moverem no universo sem limites, sob a poderosa m\u00e3o do Alt\u00edssimo?<\/p>\n<p>Como os vossos concertos mais melodiosos s\u00e3o tristes e ruidosos, ante esta harmonia que faz vibrar os fluidos do \u00e9ter e todas as fibras da alma? Como as vossas grandes alegrias s\u00e3o tristes e ins\u00edpidas ante a inef\u00e1vel sensa\u00e7\u00e3o de felicidade que incessantemente satura o nosso ser \u00e0 maneira de um efl\u00favio benfazejo, sem nenhuma mescla de inquieta\u00e7\u00e3o, nenhuma preocupa\u00e7\u00e3o, nenhum sofrimento! Aqui tudo respira amor e confian\u00e7a e sinceridade.<br \/> Por toda parte cora\u00e7\u00f5es amantes, por toda parte vemos amigos, nada de invejosos e ciumentos.<br \/> Esse \u00e9 o mundo em que me encontro, meu amigo, e todos v\u00f3s o atingireis infalivelmente seguindo o caminho certo.<\/p>\n<p>Entretanto uma felicidade uniforme logo aborreceria.<br \/> N\u00e3o penses que a nossa felicidade esteja livre de vicissitudes.<br \/> N\u00e3o se trata de um concerto perp\u00e9tuo, nem de uma festa sem fim, nem de beat\u00edfica contempla\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s da eternidade.<br \/> N\u00e3o.<br \/> \u00c9 o movimento, a vida, a atividade.<br \/> As ocupa\u00e7\u00f5es, embora isentas de fadigas, apresentam incessante variedade de aspectos e de emo\u00e7\u00f5es, pelos mil incidentes que as continham.<br \/> Cada qual tem a sua miss\u00e3o a cumprir, seus protegidos a assistir, amigos da Terra a visitar, processos da Natureza a dirigir, almas sofredoras a consolar.<br \/> H\u00e1 um vaiv\u00e9m, n\u00e3o de uma rua para outra, mas de um mundo para outro.<br \/> As criaturas se re\u00fanem, se separam para novamente se juntarem; encontram-se aqui e ali, conversam sobre o que fazem, felicitam-se pelos sucessos obtidos; entendem-se, assistem-se mutuamente nos casos dif\u00edceis.<br \/> Enfim, asseguro-te que ningu\u00e9m disp\u00f5e de um segundo de tempo para se enfadar.<\/p>\n<p>Neste momento a Terra \u00e9 a nossa grande preocupa\u00e7\u00e3o.<br \/> Que movimento entre os Esp\u00edritos! Que numerosas falanges afluem a ela a fim de concorrerem para a sua transforma\u00e7\u00e3o! Dir-se-ia uma multid\u00e3o de trabalhadores ocupados em destrin\u00e7ar uma floresta sob o comando de chefes experimentados.<br \/> Uns abatem as velhas \u00e1rvores a golpes violentos, arrancam-lhes as profundas ra\u00edzes; outros desbastam o terreno; estes preparam a terra que semeiam e aqueles edificam a nova cidade sobre as ru\u00ednas palpitantes do mundo destru\u00eddo.<br \/> Durante esse tempo, os chefes se re\u00fanem, discutem e enviam mensageiros com suas ordens a todas as dire\u00e7\u00f5es.<br \/> A Terra deve ser regenerada dentro de um tempo determinado.<br \/> \u00c9 necess\u00e1rio que se cumpram os des\u00edgnios da Provid\u00eancia.<br \/> Eis porque todos se esfor\u00e7am.<br \/> N\u00e3o penses que eu seja apenas espectador desse grande trabalho.<br \/> Eu me envergonharia de permanecer inativa quando todos est\u00e3o ocupados.<br \/> Importante miss\u00e3o me foi confiada e me esfor\u00e7o para cumpri-Ia da melhor maneira poss\u00edvel.<\/p>\n<p>N\u00e3o foi sem lutas que cheguei \u00e0 posi\u00e7\u00e3o que ocupo na vida espiritual.<br \/> Sabes que a minha \u00faltima exist\u00eancia, por mais merit\u00f3ria que te pare\u00e7a, n\u00e3o seria suficiente para isso.<br \/> Durante muitas exist\u00eancias passei pelas provas do trabalho e da mis\u00e9ria, que voluntariamente escolhera para fortificar e depurar a minha alma.<br \/> Tive a felicidade de sair vitoriosa dessas provas, mas restava ainda uma a enfrentar, a mais perigosa de todas: a da fortuna e do bem-estar material, de um bem-estar sem mistura de amarguras.<br \/> Nela estava o perigo.<br \/> Antes de tent\u00e1-la, desejei sentir-me suficientemente forte para n\u00e3o sucumbir.<br \/> Deus levou em conta a minha boa inten\u00e7\u00e3o e me concedeu a gra\u00e7a de me amparar.<br \/> Muitos Esp\u00edritos, seduzidos pelas apar\u00eancias, se precipitam na escolha e, que desgra\u00e7a.<br \/> Demasiado fracos para enfrentar o perigo, as sedu\u00e7\u00f5es triunfam sobre a sua inexperi\u00eancia.<br \/>(55)<\/p>\n<p>Trabalhadores, estou nas vossas fileiras! Eu, a dama nobre, ganhei, como v\u00f3s, o meu p\u00e3o com o suor da minha fronte.<br \/> Sofri nas priva\u00e7\u00f5es, passei pelos maus tempos e foi isso que desenvolveu as for\u00e7as viris de minha alma.<br \/> Sem isso eu teria provavelmente fracassado na minha \u00faltima prova, o que me afastaria bem longe da atual situac\u00e3o.<br \/> Como eu, tereis tamb\u00e9m a vez de passar pela prova da fortuna, mas n\u00e3o vos precipiteis pedindo-a muito cedo.<br \/> E v\u00f3s, os que sois ricos, tende sempre em mente que a verdadeira fortuna, a fortuna imperec\u00edvel n\u00e3o est\u00e1 na Terra, e compreendei porque pre\u00e7o podereis merecer as gra\u00e7as do Todo-Poderoso.<\/p>\n<p>Paula, na Terra Condessa de.<br \/>.<br \/>.<\/p>\n<p>(54) Pode-se dizer que era um vivo retrato da mulher caridosa apresentada em O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap.<br \/> Xlll.<br \/> (N.<br \/> de Kardec).<br \/> \u2014 Fazer d\u00edvidas e ser displicente no pagamento era uma forma de mostrar superioridade usada pelos ricos e os nobres.<br \/> Por isso \u00e9 que Kardec se refere ao assunto ao tratar da Condessa Paula.<br \/> Ainda hoje algumas pessoas de posse acham elegante tratar com displic\u00eancia os seus credores pobres, tripudiando sobre as necessidades do pr\u00f3ximo.<br \/> (N.<br \/> do T.<br \/>)<\/p>\n<p>55) Essa passagem explica bem claramente o motivo da fal\u00eancia de Esp\u00edritos incumbidos de grandes miss\u00f5es.<br \/> Veja-se em Obras P\u00f3stumas que o pr\u00f3prio Kardec foi sempre advertido quanto ao perigo de falir.<br \/> Em A Caminho da Luz, obra psicogr\u00e1fica de Francisco C\u00e2ndido Xavier, Emmanuel refere v\u00e1rios exemplos de grandes mission\u00e1rios falidos em sua passagem pela Terra.<br \/> No campo da mediunidade esses fracassos s\u00e3o mesmo comuns e os exemplos enxameiam ao nosso redor.<br \/> (N.<br \/> do T.<br \/>)<\/p>\n<p>Jean Reynaud<\/p>\n<p>Meus amigos, como esta vida nova \u00e9 magn\u00edfica! Semelhante a uma torrente luminosa, ela arrasta no seu curso imenso as almas inebriadas de infinito.<br \/> Ap\u00f3s o rompimento dos liames carnais, meus olhos abarcaram os novos horizontes que me cercam e gozei das espl\u00eandidas maravilhas do Infinito.<br \/> Passei das sombras da mat\u00e9ria \u00e0 alvorada cintilante que anuncia o Todo-Poderoso.<br \/> Estou salvo, n\u00e3o pelo m\u00e9rito das minhas obras, mas pelo conhecimento do princ\u00edpio eterno que me fez evitar as manchas lan\u00e7adas pela ignor\u00e2ncia na pobre Humanidade.<\/p>\n<p>Bendita foi a minha morte.<br \/> Meus bi\u00f3grafos a julgaram prematura, os cegos! Lamentaram-na por alguns escritos nascidos da poeira e n\u00e3o compreender\u00e3o quanto o sil\u00eancio em torno da minha tumba rec\u00e9m-fechada ser\u00e1 \u00fatil para a santa causa do Espiritismo.<br \/> Minha obra estava realizada.<br \/> Os meus sucessores avan\u00e7avam na rota.<br \/> Eu j\u00e1 havia atingido esse ponto culminante em que o homem deu o que tinha de melhor e nada mais faz do que repetir.<br \/> Minha morte faz voltar-se a aten\u00e7\u00e3o dos letrados para a minha obra capital, referente \u00e0 quest\u00e3o esp\u00edrita que eles fingem desconhecer e que em breve os envolver\u00e1.<br \/> Gl\u00f3ria a Deus! Ajudado pelos Esp\u00edritos superiores que protegem a vossa doutrina, vou ser um dos pioneiros que balizam a vossa rota.<\/p>\n<p>Jean Reynaud<\/p>\n<p>(Paris, reuni\u00e3o familiar: outra comunica\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea)<\/p>\n<p>O Esp\u00edrito responde a um pensamento formulado sobre a sua morte inesperada, em idade pouco avan\u00e7ada, e que surpreendera muita gente:<\/p>\n<p>Quem te disse que a minha morte n\u00e3o foi um benef\u00edcio para o Espiritismo, para o seu futuro, para o seu desenvolvimento? Notaste, meu amigo, a linha seguida pelo seu progresso, o rumo que toma a f\u00e9 esp\u00edrita? Deus concedeu primeiro as provas materiais: a dan\u00e7a das mesas, as pancadas e toda a esp\u00e9cie de fen\u00f4menos.<br \/> Isso para chamar a aten\u00e7\u00e3o, uma introdu\u00e7\u00e3o divertida.<br \/> Os homens necessitam de provas palp\u00e1veis para crer.<br \/> Agora \u00e9 bem diferente! Ap\u00f3s as provas materiais, Deus fala \u00e0 intelig\u00eancia, ao bom senso, \u00e0 raz\u00e3o fria.<br \/> E n\u00e3o mais atrav\u00e9s de fatos estranhos, mas de coisas racionais que devem convencer e atrair at\u00e9 mesmo os incr\u00e9dulos, os mais sistem\u00e1ticos.<br \/> E isso ainda \u00e9 apenas o come\u00e7o.<\/p>\n<p>Prestai bem aten\u00e7\u00e3o no que vos digo: toda uma s\u00e9rie de fatos inteligentes e irrefut\u00e1veis v\u00e3o se dar, e o n\u00famero dos adeptos da f\u00e9 esp\u00edrita, j\u00e1 grande, vai ainda aumentar.<br \/> Deus vai se impor \u00e0s intelig\u00eancias de elite, \u00e0s sumidades do pensamento, do talento e do saber.<br \/> Ser\u00e1 essa uma irradia\u00e7\u00e3o luminosa que se expandir\u00e1 por toda a Terra como um fluido irresist\u00edvel e arrastar\u00e1 os mais recalcitrantres \u00e0 busca do infinito, ao estudo dessa admir\u00e1vel ci\u00eancia que nos ensina m\u00e1ximas t\u00e3o sublimes.<\/p>\n<p>Todos se agrupar\u00e3o ao vosso redor e, fazendo abstra\u00e7\u00e3o do t\u00edtulo de g\u00eanio que lhes tenham dado, tornar-se-\u00e3o humildes e pequenos para aprender e para se convencerem.<br \/> Depois, mais tarde, quando estiverem bem instru\u00eddos e bem convencidos, empregar\u00e3o a sua autoridade e a notoriedade dos seus nomes para avan\u00e7ar mais e atingir os \u00faltimos limites do alvo que vos foi proposto: a regenera\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie humana pelo conhecimento racional e aprofundado das exist\u00eancias passadas e futuras.<br \/> Eis a minha sincera opini\u00e3o sobre o estado atual do Espiritismo.<br \/>(56)<\/p>\n<p>Em Bordeaux<\/p>\n<p>Evoca\u00e7\u00e3o \u2014 Atendo com prazer ao vosso apelo, senhora.<br \/> Sim, tendes raz\u00e3o, a perturba\u00e7\u00e3o esp\u00edrita n\u00e3o poderia, por assim dizer, existir para mim (isto respondia ao pensamento do m\u00e9dium) : exilado volunt\u00e1rio na vossa Terra, eu deveria lan\u00e7ar a primeira semente s\u00e9ria das verdades que envolvem o mundo neste momento, e guardava sempre comigo a consci\u00eancia da p\u00e1tria(57), de maneira que logo me reconheci no meio de meus irm\u00e3os.<\/p>\n<p>P.<br \/> \u2014 Eu vos agrade\u00e7o por ter querido vir, mas n\u00e3o acreditaria que o meu desejo de conversar convosco tivesse exercido influ\u00eancia nisso.<br \/> Deve, necessariamente, haver uma dist\u00e2ncia t\u00e3o grande entre n\u00f3s que s\u00f3 penso nisso com respeito.<\/p>\n<p>R.<br \/> \u2014 Agrade\u00e7o esse bom pensamento, meu filho, mas deveis saber tamb\u00e9m que, seja qual for a dist\u00e2ncia que a conclus\u00e3o mais ou menos pronta e mais ou menos feliz das provas possa estabelecer entre n\u00f3s, h\u00e1 sempre um la\u00e7o poderoso que nos une: a simpatia.<br \/> E esse liame haveis estreitado pela const\u00e2ncia do vosso pensamento.<\/p>\n<p>(56) Conferindo esta mensagem com as tradu\u00e7\u00f5es correntes em nossa l\u00edngua, o leitor encontrar\u00e1 diversas diferen\u00e7as de texto, mas cotejando-a com o original franc\u00eas ver\u00e1 que fizemos o poss\u00edvel para ser bem fi\u00e9is \u00e0 letra e ao esp\u00edrito.<br \/> As tradu\u00e7\u00f5es literais nem sempre s\u00e3o fi\u00e9is, pois esquecem a diversidade de sentido das palavras e das express\u00f5es de uma l\u00edngua para outra.<br \/> (N.<br \/> do T.<br \/>)<\/p>\n<p>(57) A consci\u00eancia da p\u00e1tria, no caso, n\u00e3o se refere \u00e0 Fran\u00e7a, mas \u00e0 p\u00e1tria espiritual, como se depreende facilmente do texto, onde o esp\u00edrito afirma a sua condi\u00e7\u00e3o de exilado volunt\u00e1rio na vossa Terra.<br \/> A palavra vossa, nesse caso, tem grande import\u00e2ncia por acentuar a diferen\u00e7a entre o mundo espiritual e o dos encarnados.<br \/> (N.<br \/> do T.<br \/>)<\/p>\n<p>P.<br \/> \u2014 Embora muitos Esp\u00edritos tenham explicado as suas primeiras sensa\u00e7\u00f5es ao acordar, seria muito bom me dizerdes o que experimentastes ao tomar consci\u00eancia da situa\u00e7\u00e3o e como a separa\u00e7\u00e3o de vosso Esp\u00edrito e do vosso corpo se processou.<br \/>(58)<\/p>\n<p>R.<br \/> \u2014 Como para todos.<br \/> Senti aproximar-se o momento da liberta\u00e7\u00e3o, mas fui mais feliz que muitos, porque isso n\u00e3o me causou ang\u00fastias, pois eu j\u00e1 conhecia as suas conseq\u00fc\u00eancias, embora elas fossem ainda maiores do que eu pensava.<br \/> O corpo entrava as faculdades espirituais, e sejam quais forem as luzes que o esp\u00edrito tenha conservado, elas s\u00e3o sempre mais ou menos abafadas pelo contato da mat\u00e9ria.<br \/>(59) Eu adormeci esperando um despertar feliz, e o sono foi curto, mas o espanto foi imenso.<br \/> Os esplendores celestes se desenrolaram aos meus olhos, brilhando em todo o seu fulgor.<br \/> Minha vista mergulhava espantada nas imensidades desses mundos cuja exist\u00eancia e habitabilidade eu havia afirmado.<br \/> Era uma miragem que me revelava e confirmava a veracidade dos meus sentimentos.<br \/> Por mais que se creia seguro, o homem quando fala tem no fundo do seu cora\u00e7\u00e3o, quase sempre, momentos de d\u00favida e de incerteza.<br \/> Desconfia, sen\u00e3o da verdade que proclama, pelo menos, com freq\u00fc\u00eancia, dos meios imperfeitos que emprega para demonstr\u00e1-la.<br \/> Convencido da verdade que desejava fazer admitida, tive muitas vezes de lutar comigo mesmo contra a falta de coragem para ver, para tocar, por assim dizer, a verdade, e para torn\u00e1-la palp\u00e1vel aos que tinham tanta necessidade de nela crer, para seguirem com seguran\u00e7a o caminho que lhes convinha.<br \/>(60)<\/p>\n<p>P.<br \/> \u2014 Na vida professastes o Espiritismo?<\/p>\n<p>R.<br \/> \u2014 Entre professar e praticar h\u00e1 grande diferen\u00e7a.<br \/> Muita gente professa doutrina que n\u00e3o pratica.<br \/> Eu praticava e n\u00e3o professava.<br \/> Da mesma maneira que todo homem que segue a lei do Cristo \u00e9 crist\u00e3o, mesmo que o fa\u00e7a sem conhecimento, pode ser esp\u00edrita todo aquele que cr\u00ea na alma imortal, nas suas exist\u00eancias, na sua marcha progressiva incessante, nas prova\u00e7\u00f5es terrenas \u2014 ablu\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para se purificar.<br \/> Eu acreditava e portanto era esp\u00edrita.<br \/> Compreendi a erraticidade, essa fase de liga\u00e7\u00e3o entre as encarna\u00e7\u00f5es, esse purgat\u00f3rio em que o Esp\u00edrito culpado se despoja de suas vestes sujas para envergar uma nova roupa, onde o Esp\u00edrito em evolu\u00e7\u00e3o tece com cuidado a roupa nova que vai usar e deseja conservar limpa.<br \/> Compreendi, j\u00e1 vos disse, e embora sem professar, continuei a praticar.<\/p>\n<p>Observa\u00e7\u00e3o: Essas tr\u00eas comunica\u00e7\u00f5es foram obtidas por tr\u00eas m\u00e9diuns diferentes, completamente estranhos uns aos outros.<br \/> A semelhan\u00e7a dos pensamentos e a forma da linguagem permitem admitir-se pelo menos a presun\u00e7\u00e3o da identidade.<br \/> A express\u00e3o: tece com cuidado a roupa nova que vai usar, \u00e9 encantadora figura que exprime a solicitude com que o Esp\u00edrito em progresso prepara a nova exist\u00eancia em que deve continuar progredindo.<br \/> Os Esp\u00edritos atrasados s\u00e3o menos precavidos e fazem \u00e0s vezes escolhas infelizes que os for\u00e7am a recome\u00e7ar.<\/p>\n<p>ESP\u00cdRITOS FELIZES<\/p>\n<p>Antonio Costeau<\/p>\n<p>Membro da Sociedade Esp\u00edrita de Paris, sepultado em 12 de setembro de 1863 no cemit\u00e9rio de Montmartre, em vala comum.<\/p>\n<p>Era um homem de cora\u00e7\u00e3o que o Espiritismo reconduziu a Deus; completa, sincera e profunda era a sua f\u00e9 em Deus.<br \/> Simples calceteiro, praticava a caridade por pensamentos, palavras e obras consoante os fracos recursos de que dispunha e encontrando meios, ainda assim, de socorrer os que possu\u00edam menos do que ele.<br \/> Se a Sociedade n\u00e3o lhe adquiriu uma sepultura particular, foi porque lhe pareceu dever antes empregar mais utilmente o dinheiro em benef\u00edcio dos vivos, do que em v\u00e3s satisfa\u00e7\u00f5es de amor-pr\u00f3prio, al\u00e9m de que n\u00f3s, os esp\u00edritas, sabemos melhor que ningu\u00e9m que a vala comum \u00e9, tanto quanto os mais suntuosos mausol\u00e9us, uma porta aberta para o c\u00e9u.<\/p>\n<p>O Sr.<br \/> Canu, secret\u00e1rio da Sociedade e profundo materialista de outros tempos, pronunciou sobre a campa a seguinte alocu\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p> Caro irm\u00e3o Costeau: faz alguns anos, muitos dentre n\u00f3s, e eu em primeiro lugar, confesso-o, n\u00e3o vir\u00edamos a este t\u00famulo aberto, que representaria apenas o fim das mis\u00e9rias humanas, e depois o nada, o pavoroso nada, isto \u00e9, onde n\u00e3o existia nem alma para merecer ou expiar e, conseq\u00fcentemente, nem Deus para recompensar, castigar ou perdoar.<br \/> Hoje, gra\u00e7as \u00e0 nossa santa Doutrina, divisamos aqui o termo das prova\u00e7\u00f5es, e para voc\u00ea, querido irm\u00e3o, cujos despojos baixam \u00e0 terra, o triunfo dos labores e o in\u00edcio das recompensas a que fizeram jus a sua coragem, resigna\u00e7\u00e3o, caridade, as vossas virtudes e, acima de tudo isso, a glorifica\u00e7\u00e3o de um Deus s\u00e1bio, onipotente, justo e bom.<\/p>\n<p>(58) A frase ao tomar consci\u00eancia da situa\u00e7\u00e3o corresponde no texto franc\u00eas a esta: en vous reconnaissant, que traduzida literalmente em portugu\u00eas n\u00e3o daria o mesmo sentido.<br \/> (N.<br \/> do T.<br \/>)<\/p>\n<p>(59) Esta explica\u00e7\u00e3o corresponde ao ensino dado pelos Esp\u00edritos n\u00e3o s\u00f3 no Espiritismo mas tamb\u00e9m nas diversas religi\u00f5es e ordens espiritualistas que trataram do problema.<br \/> Por mais evolu\u00eddo que seja, o esp\u00edrito encarnado est\u00e1 sempre sujeito a essa asfixia dos seus dons, produzida pelo contato da mat\u00e9ria.<br \/> Por isso mesmo o Espiritismo define a mat\u00e9ria como o liame que prende o esp\u00edrito.<br \/> Ver O Livro dos Esp\u00edritos, perguntas 22 e 22a.<br \/> (N.<br \/> do T.<br \/>)<\/p>\n<p>(60) Essa dificuldade de exprimir a verdade entrevista \u00e9 conhecida de todos os que conseguem elevar-se acima do n\u00edvel comum.<br \/> Jean Reynaud conseguiu, nesse trecho, precisar os diversos aspectos dessa luta \u00edntima pela comunica\u00e7\u00e3o, de que j\u00e1 falavam os gregos.<br \/> Plat\u00e3o, no final da sua exist\u00eancia, decIarou que n\u00e3o podia traduzir em palavras, as mais belas percep\u00e7\u00f5es de sua alma no mundo das id\u00e9ias.<br \/> Todos os estudiosos que s\u00e3o interpelados sobre quest\u00f5es esp\u00edritas ou discorrem sobre elas conhecem essas dificuldades.<br \/> (N.<br \/> do T.<br \/>)<\/p>\n<p>Seja, pois, caro irm\u00e3o, o portador das gra\u00e7as que rendemos ao Eterno por ter permitido que se dissipassem as trevas do erro e da incredulidade que nos assoberbavam.<br \/> N\u00e3o h\u00e1 muito tempo, e nestas mesmas circunst\u00e2ncias, com a fronte abatida e o cora\u00e7\u00e3o lacerado, em des\u00e2nimo, n\u00f3s lhe ter\u00edamos dito: amigo, adeus para sempre.<br \/> Mas hoje lhe dizemos, de fronte erguida, radiante de esperan\u00e7as, e com o cora\u00e7\u00e3o cheio de amor e de coragem: caro irm\u00e3o, at\u00e9 breve, ore por n\u00f3s.<\/p>\n<p>Um dos m\u00e9diuns da Sociedade obteve ali mesmo na sepultura, ainda meio aberta, a seguinte comunica\u00e7\u00e3o, ouvida por todos os presentes, coveiros inclusive, de cabe\u00e7as descobertas com profunda emo\u00e7\u00e3o.<br \/> Era, de fato, um espet\u00e1culo novo e surpreendente esse de ouvir palavras de um morto, recolhidas do seio do pr\u00f3prio t\u00famulo:<\/p>\n<p> Obrigado, amigos, obrigado.<br \/> O meu t\u00famulo ainda nem mesmo de todo \u00e9 fechado, mas, passando um segundo, a terra cobrir\u00e1 os meus despojos.<br \/> V\u00f3s sabeis no entanto, que minha alma n\u00e3o ser\u00e1 sepultada nesse p\u00f3, antes pairar\u00e1 no Espa\u00e7o a fim de subir at\u00e9 Deus!<\/p>\n<p>E como consola poder a gente dizer a respeito da dissolu\u00e7\u00e3o dos inv\u00f3lucros: oh! eu n\u00e3o morri, vivo a verdadeira vida, a vida eterna! O enterro do pobre n\u00e3o tem grandes cortejos, nem orgulhosas manifesta\u00e7\u00f5es se lhe abeiram da campa.<br \/>.<br \/>.<\/p>\n<p>Em compensa\u00e7\u00e3o, acreditai-me, imensa multid\u00e3o aqui n\u00e3o falta, e bons Esp\u00edritos acompanharam convosco, e com estas mulheres piedosas, o corpo que a\u00ed jaz estendido.<\/p>\n<p>Ao menos todos v\u00f3s tendes f\u00e9 e amais o bom Deus!<\/p>\n<p>Oh! certamente n\u00e3o morremos s\u00f3 porque o nosso corpo se reduz a nada, esposa amada! Demais, eu estarei sempre ao teu lado para te consolar, para te ajudar a suportar as prova\u00e7\u00f5es.<br \/> Rude ser-te-\u00e1 a vida, mas cheio o cora\u00e7\u00e3o com as id\u00e9ias da eternidade e do amor de Deus.<br \/> Como ser\u00e3o ef\u00eameros os teus sofrimentos! Parentes que rodeiam a minha amant\u00edssima companheira, amem-na, respeitem-na, sejam para ela como irm\u00e3os.<br \/> N\u00e3o se esque\u00e7am nunca da assist\u00eancia que mutuamente voc\u00eas devem uns aos outros na Terra, se \u00e9 que pretendem penetrar a morada do Senhor.<\/p>\n<p>Quanto a voc\u00eas, esp\u00edritas, irm\u00e3os, amigos, obrigado por terem vindo a esta morada de p\u00f3 e lama, a dizer-me adeus.<br \/> Mas sabem e sabem muito bem, voc\u00eas, que minha alma imortal vive, e que algumas vezes, lhes ir\u00e1 pedir preces que jamais lhe h\u00e3o de recusar para auxili\u00e1-la na vida magn\u00edfica que lhe descortinaram na vida terrena.<\/p>\n<p>A voc\u00eas todos que aqui est\u00e3o, adeus.<br \/> N\u00f3s nos podemos rever noutro lugar, al\u00e9m deste t\u00famulo.<br \/> As almas me chamam a conferenciar.<br \/> Adeus, orem pelos que sofrem e at\u00e9 outra vista.<\/p>\n<p>Costeau.<\/p>\n<p>Tr\u00eas dias depois, evocado num grupo particular, o Esp\u00edrito de Costeau assim se exprimiu por interm\u00e9dio de outro m\u00e9dium:<\/p>\n<p> A morte \u00e9 a vida.<br \/> N\u00e3o fa\u00e7o mais que repetir o que j\u00e1 disseram, mas para voc\u00eas n\u00e3o h\u00e1 outra express\u00e3o sen\u00e3o esta, a despeito do que afirmam os materialistas, aqueles que preferem ficar cegos.<br \/> Oh! meus amigos, que belo espet\u00e1culo na Terra o de ver tremular os estandartes do Espiritismo!<\/p>\n<p>Ci\u00eancia profunda, imensa, da qual apenas voc\u00eas soletram as primeiras palavras.<br \/> E que de luzes leva aos homens de boa vontade, aos que, libertando-se das terr\u00edveis cadeias do orgulho, aItamente proclamam a sua cren\u00e7a em Deus! Homens, orai, rendei gra\u00e7as por tantos benef\u00edcios.<br \/> Pobre Humanidade! Ah! se vos fora dado compreender!.<br \/>.<br \/>.<br \/> Mas n\u00e3o, que o tempo n\u00e3o \u00e9 chegado ainda, no qual a miseric\u00f3rdia do Senhor deve estender-se por todos os homens, a fim de que lhe reconhe\u00e7am as vontades e a elas se submetam.<br \/> Pelos seus raios luminosos, ci\u00eancia bendita, \u00e9 que eles j\u00e1 chegar\u00e3o e compreender\u00e3o.<\/p>\n<p>Ao seus raios vivificantes, o mestre e o oper\u00e1rio vir\u00e3o a confundir-se e identificar-se, compenetrados dessa caridade fraterna preconizada pelo divino Messias.<\/p>\n<p>Oh! meus irm\u00e3os, pensem na felicidade imensa que possuem como primeiros iniciados na obra de regenera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Honra lhes seja feita.<br \/> Prossigam e um dia, como eu, vendo a p\u00e1tria dos Esp\u00edritos, exclamar\u00e3o: a morte \u00e9 a vida, ou antes um sonho, esp\u00e9cie de pesadelo que dura o espa\u00e7o de um minuto e do qual despertamos para nos vermos rodeados de amigos que nos felicitam, ditosos por nos abra\u00e7arem.<br \/> T\u00e3o grande foi a minha ventura, que eu n\u00e3o podia compreender que Deus me destinasse tantas gra\u00e7as relativamente ao pouco que fiz.<br \/> Parecia-me sonhar e como outrora me acontecia sonhar que estava morto, fui por instantes obrigado ao temor de voltar ao desgra\u00e7ado corpo.<br \/> Muito n\u00e3o tardou, por\u00e9m, que me desse contas da realidade e rendesse gra\u00e7as a Deus.<br \/> Eu bendizia o mestre que t\u00e3o bem soube incutir-me os deveres de homem que cr\u00ea na vida futura.<br \/> Sim, eu o bendizia, agradecia-lhe, porquanto O Livro dos Esp\u00edritos despertara-me n alma os elos de amor ao meu Criador.<\/p>\n<p>Obrigado, bons amigos que me atra\u00edram para junto de voc\u00eas.<br \/> Comuniquem aos nossos irm\u00e3os que estou muitas vezes com o nosso amigo Sanson.<br \/> At\u00e9 outra vista e coragem, porque o triunfo os espera.<br \/> Felizes aqueles que houverem tomado parte no combate! <\/p>\n<p>Da\u00ed por diante o Sr.<br \/> Costeau manifestou-se constantemente, na Sociedade e em outras reuni\u00f5es, dando sempre provas dessa eleva\u00e7\u00e3o de pensamentos que caracteriza os Esp\u00edritos adiantados.<\/p>\n<p>A Srta.<br \/> Ema<\/p>\n<p>Em conseq\u00fc\u00eancia de acidentes causados por fogo, faleceu a Srta.<br \/> Ema ap\u00f3s cru\u00e9is sofrimentos.<br \/> Algu\u00e9m se propusera solicitar a sua evoca\u00e7\u00e3o na Sociedade Esp\u00edrita de Paris, quando ela se apresentou espontaneamente a 31 de julho de 1863, pouco tempo depois da morte.<\/p>\n<p> Eis-me aqui ainda no cen\u00e1rio do mundo, eu que me julgava sepultada para sempre no meu v\u00e9u de inoc\u00eancia e juventude.<br \/> Salvar-me-ia o fogo da Terra, do fogo do inferno \u2014 assim pensava eu na minha f\u00e9 cat\u00f3lica e, se n\u00e3o ousava entrever os esplendores do para\u00edso, minha alma t\u00edmida se apagava \u00e0 expia\u00e7\u00e3o do purgat\u00f3rio, enquanto pedia, sofria e chorava.<br \/> Mas quem dava ao \u00e2nimo abatido a for\u00e7a de suportar as ang\u00fastias? Quem, nas longas noites de ins\u00f4nia e febre dolorosa se inclinava no leito de mart\u00edrios? Quem me refrescava os l\u00e1bios sedentos, escaldantes? \u00c9reis v\u00f3s, meu Guia, cuja aur\u00e9ola branca me cercava; e \u00e9reis v\u00f3s outros, Esp\u00edritos caros e amigos, que v\u00ednheis murmurar-me ao ouvido palavras de esperan\u00e7a e de amor.<\/p>\n<p>A chama que me consumia o corpo d\u00e9bil tamb\u00e9m me despojou das suas cadeias e, assim, morri vivendo j\u00e1 a verdadeira vida.<br \/> N\u00e3o experimentei a perturba\u00e7\u00e3o; entrei serena e recolhida no dia radiante que envolve aqueles que, depois de muito terem sofrido, souberam esperar um pouco.<\/p>\n<p>Minha m\u00e3e, minha querida m\u00e3e foi a \u00faltima vibra\u00e7\u00e3o terrestre que me repercutiu na alma.<br \/> Como eu desejo que ela se torne esp\u00edrita! Desprendi-me da Terra como fruto maduro que se desprendesse da \u00e1rvore antes do tempo.<br \/> Eu n\u00e3o tinha sido tocada pelo dem\u00f4nio do orgulho que estimula as almas desditosas, arrastadas pelos \u00eaxitos embriagadores e brilhantes da juventude.<\/p>\n<p>Bendigo, pois, o fogo, o sofrimento, a prova, que n\u00e3o passavam de expia\u00e7\u00e3o.<br \/> Semelhante a esses brancos e leves fios do Outono, flutuo na torrente luminosa e n\u00e3o s\u00e3o mais as estrelas de diamante que me rebrilham na fronte, mas as \u00e1ureas estrelas do bom Deus.<\/p>\n<p>Ema.<\/p>\n<p>Em 30 de julho de 1863, espontaneamente o mesmo Esp\u00edrito concedeu em outro centro em Havre a seguinte comunica\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p> Os que sofrem na Terra, s\u00e3o recompensados na outra vida.<\/p>\n<p>Deus \u00e9 repleto de Justi\u00e7a e Miseric\u00f3rdia para com os que aqui sofrem.<\/p>\n<p>Concede a felicidade pura e perfeita, que n\u00e3o se deveria temer os sofrimentos e tampouco a morte, se fosse poss\u00edvel aos pobres seres humanos saber os misteriosos des\u00edgnios de Nosso Criador.<\/p>\n<p>Mas a Terra \u00e9 um local de muitas prova\u00e7\u00f5es e freq\u00fcentemente semeados de dores bem pungentes.<\/p>\n<p>Seja resignado se for ferido e diante de Deus que \u00e9 o Criador Absoluto, inclinai-vos pela Sua bondade quando Ele vos der um fardo pesado para suportar.<\/p>\n<p>Se Ele vos chamar depois de grandes sofrimentos, se nenhum lamento ou murm\u00fario entrar em vosso cora\u00e7\u00e3o, vereis como foram poucas essas dores e as penas da Terra, quando percebereis a recompensa que Deus vos reserva.<\/p>\n<p>Bem cedo deixei a Terra e Deus quis me perdoar e dar-me a vida daqueles que respeitam Sua vontade.<\/p>\n<p>Adorai e Amai de todo cora\u00e7\u00e3o para sempre a Deus.<\/p>\n<p>Acima de tudo orai firmemente.<\/p>\n<p>\u00c9 nisto que consiste o vosso sustent\u00e1culo aqui na Terra.<\/p>\n<p>A vossa esperan\u00e7a, a vossa salva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ema.<\/p>\n<p>O Doutor Vignal<\/p>\n<p>Antigo membro da Sociedade de Paris, falecido a 27 de mar\u00e7o de 1865.<br \/> Na v\u00e9spera do enterro, um son\u00e2mbulo l\u00facido e bom vidente, instado a transportar-se para junto dele e narrar o que visse, falou:<\/p>\n<p> Vejo um cad\u00e1ver em que se opera um trabalho extraordin\u00e1rio; dir-se-ia uma quantidade de massa que se agita e alguma coisa que parece fazer esfor\u00e7os para se lhe desprender, encontrando, contudo, dificuldade em vencer a resist\u00eancia.<br \/> N\u00e3o distingo forma de Esp\u00edrito bem caracterizada.<\/p>\n<p>Fez-se a evoca\u00e7\u00e3o na Sociedade de Paris, a 31 de mar\u00e7o.<\/p>\n<p>P.<br \/> \u2014 Caro Sr.<br \/> Vignal, todos os seus velhos colegas da Sociedade de Paris guardam do Sr.<br \/> as mais vivas saudades, e eu, particularmente, das boas rela\u00e7\u00f5es, ali\u00e1s nunca interrompidas.<br \/> Evocando-o, tivemos por fim primeiramente testemunhar-lhe a nossa simpatia, considerando-nos felizes se puder e quiser palestrar conosco.<\/p>\n<p>R.<br \/> \u2014 Prezado amigo e digno mestre: t\u00e3o bondosa lembran\u00e7a e testemunhos de simpatia me s\u00e3o muito lisonjeiros.<br \/> Gra\u00e7as \u00e0 sua evoca\u00e7\u00e3o, levadas pelas preces, pude vir hoje assistir desimpedido a esta reuni\u00e3o de bons amigos e irm\u00e3os esp\u00edritas.<br \/> Como justamente disse o jovem secret\u00e1rio, eu estava impaciente por me comunicar; desde o anoitecer de hoje, empreguei todas as for\u00e7as espirituais para dominar esse desejo; como os graves assuntos, tratados na sua conversa\u00e7\u00e3o, me interessassem vivamente, tornaram a minha expectativa menos penosa.<br \/> Perdoe-me, meu caro amigo, mas a minha gratid\u00e3o exigia a minha manifesta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>P.<br \/> \u2014 Diga-nos primeiramente como se encontra no mundo espiritual, descrevendo o trabalho da separa\u00e7\u00e3o, as sensa\u00e7\u00f5es daquele momento, bem como o tempo necess\u00e1rio ao reconhecimento do seu estado.<\/p>\n<p>R.<br \/> \u2014 Sou t\u00e3o feliz quanto poss\u00edvel, vendo plenamente confirmados os secretos pensamentos conceb\u00edveis, em rela\u00e7\u00e3o a uma doutrina confortante e consoladora.<\/p>\n<p>Sou feliz, e tanto mais por ver agora, sem obst\u00e1culo algum, desenvolver-se diante de mim o futuro da ci\u00eancia e da filosofia esp\u00edritas.<\/p>\n<p>Mas deixemos por hoje estas digress\u00f5es inoportunas; de novo voltarei a conversar com voc\u00eas acerca deste assunto, m\u00e1xime sabendo que a minha presen\u00e7a lhes dar\u00e1 tanto prazer quanto o que experimento em visit\u00e1-los.<\/p>\n<p>A separa\u00e7\u00e3o foi r\u00e1pida; mais do que podia esperar pelo meu apoucado merecimento.<br \/> Fui eficazmente auxiliado pelo seu concurso e o son\u00e2mbulo lhes deu uma id\u00e9ia bastante clara do fen\u00f4meno da separa\u00e7\u00e3o, para que eu nele insista.<br \/> Era uma esp\u00e9cie de oscila\u00e7\u00e3o intermitente, um como arrastamento em sentidos opostos.<br \/> Triunfou o Esp\u00edrito aqui presente.<br \/> S\u00f3 deixei completamente o corpo quando ele baixou \u00e0 terra; e aqui vim ter com voc\u00eas.<\/p>\n<p>P.<br \/> \u2014 Que diz dos seus funerais? Julguei-me no dever de a eles comparecer.<br \/> Nesse momento o Sr.<br \/> era muito livre para apreci\u00e1-los; e as preces por mim feitas a seu favor (discretamente, j\u00e1 se v\u00ea) tinham chegado at\u00e9 o Sr.<br \/>?<\/p>\n<p>R.<br \/> \u2014 Sim; j\u00e1 lhe disse; a sua assist\u00eancia auxiliou-me grandemente e voltei para o seu lado, abandonando completamente a velha carca\u00e7a.<br \/> Demais, o Sr.<br \/> sabe, pouco me importam as coisas materiais.<br \/> S\u00f3 pensava na alma e em Deus.<\/p>\n<p>P.<br \/> \u2014 Recorda-se de que a seu pedido, h\u00e1 5 anos, em fevereiro de 1860 e quando ainda estava entre n\u00f3s, fizemos um estudo acerca da sua personalidade.<br \/>(61) Naquela ocasi\u00e3o o seu Esp\u00edrito desprendeu-se para vir falar conosco.<br \/> Poder\u00e1 descrever-nos da melhor forma a diferen\u00e7a entre o seu atual desprendimento e aquele de ent\u00e3o?<\/p>\n<p>(61) Ver a Revista Esp\u00edrita de mar\u00e7o de 1860.<\/p>\n<p>R.<br \/> \u2014 Sim, lembro-me.<br \/> Que grande diferen\u00e7a entre um e outro! Naquele estado, a mat\u00e9ria me oprimia ainda na sua trama inflex\u00edvel, isto \u00e9, queria mas n\u00e3o podia desembara\u00e7ar-me totalmente.<\/p>\n<p>Hoje sou livre; um vasto campo desconhecido se me depara e eu espero com o seu aux\u00edlio e o dos bons Esp\u00edritos, aos quais me recomendo, progredir e compenetrar-me o mais rapidamente poss\u00edvel dos sentimentos que \u00e9 mister possuir e dos atos que me cumpre empreender para suportar as prova\u00e7\u00f5es e merecer a recompensa.<\/p>\n<p>Que majestade! Que grandeza! \u00c9 quase um sentimento de temor que predomina, quando, fracos quais somos, queremos fixar as paragens luminosas.<\/p>\n<p>P.<br \/> \u2014 Sempre que o Sr.<br \/> quiser, continuaremos a conversar acerca do assunto.<\/p>\n<p>R.<br \/> \u2014 Respondi sucinta e desordenadamente a diversas perguntas.<br \/> N\u00e3o exija mais agora do seu fiel disc\u00edpulo, porquanto n\u00e3o estou ainda inteiramente livre.<br \/> Continuar a conversar seria o meu prazer, mas o meu Guia modera-me o entusiasmo e ali\u00e1s j\u00e1 pude apreciar-lhe bastante a bondade e a justi\u00e7a, motivo porque me submeto inteiramente \u00e0 decis\u00e3o dele, por maior que seja o meu pesar por ser interrompido.<br \/> Consolo-me, pensando que poderei vir assistir algumas vezes, inc\u00f3gnito, \u00e0s suas reuni\u00f5es.<\/p>\n<p>Falar-lhe-ei sempre que possa, pois o estimo e desejo provar-lhe.<br \/> Outros Esp\u00edritos, por\u00e9m, mais adiantados, reclamam prioridade, devendo eu curvar-me \u00e0queles que me permitiram dar livre curso \u00e0 torrente das id\u00e9ias acumuladas.<\/p>\n<p>Deixo-os, meus amigos, e devo agradecer duplamente n\u00e3o s\u00f3 voc\u00eas esp\u00edritas que me evocaram como tamb\u00e9m a este Esp\u00edrito que houve por bem ceder-me o seu lugar, Esp\u00edrito que na Terra tinha o ilustre nome de Pascal.<\/p>\n<p>Daquele que foi e ser\u00e1 sempre o mais devotado dos seus adeptos.<\/p>\n<p>Dr.<br \/> Vignal.<\/p>\n<p>Victor Leblufe<\/p>\n<p>Mo\u00e7o, pr\u00e1tico do porto do Havre, falecido aos 20 anos de idade.<\/p>\n<p>Morava com a m\u00e3e, mercadora, a quem prodigalizava os mais ternos e afetuosos cuidados, sustentando-a com o produto do seu rude trabalho.<br \/> Nunca o viram freq\u00fcentar tabernas nem entregar-se aos t\u00e3o freq\u00fcentes excessos da profiss\u00e3o, por n\u00e3o querer desviar a menor part\u00edcula de sal\u00e1rio do fim piedoso que lhe destinava.<\/p>\n<p>Todo o seu lazer consagrava-o \u00e0 genitora para poup\u00e1-la de fadigas.<br \/> Atingido havia muito por enfermidade, da qual, sabia, havia de morrer, ocultava-lhe os sofrimentos para n\u00e3o a inquietar e para que ela n\u00e3o quisesse priv\u00e1-lo do servi\u00e7o.<br \/> Na idade das paix\u00f5es, eram precisos a esse mo\u00e7o um grande cabedal de qualidades morais e poderosa for\u00e7a de vontade para resistir \u00e0s perniciosas tenta\u00e7\u00f5es do meio em que vivia.<br \/> Possu\u00eddo de sincera piedade, a sua morte foi edificante.<\/p>\n<p>Na v\u00e9spera da morte, exigiu da m\u00e3e que fosse repousar, dizendo-lhe ter, tamb\u00e9m, ele, necessidade de dormir.<\/p>\n<p>Ela teve naquele \u00ednterim uma vis\u00e3o; achava-se, disse, em grande escurid\u00e3o, quando viu um ponto luminoso que crescia pouco a pouco, at\u00e9 que o quarto ficou iluminado por brilhante claridade, da qual se destacava radiante a figura do filho, elevando-se ao Espa\u00e7o infinito.<br \/> Compreendeu que o seu fim estava pr\u00f3ximo, e, com efeito, no dia seguinte, aquela alma bem formada havia deixado a Terra, murmurando uma prece.<\/p>\n<p>Uma fam\u00edlia esp\u00edrita, conhecedora da conduta correta dele, interessando-se pela m\u00e3e que ficara sozinha, teve a id\u00e9ia de o evocar pouco tempo ap\u00f3s a morte; mas ele se manifestou espontaneamente e deu a seguinte comunica\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p> Desejais saber como estou agora; feliz, felic\u00edssimo! Devem ser levados em conta os sofrimentos e ang\u00fastias, que s\u00e3o a origem das b\u00ean\u00e7\u00e3os e da felicidade de al\u00e9m-t\u00famulo.<br \/> A felicidade! Ah! n\u00e3o compreendeis o que significa essa palavra.<br \/> As venturas terrenas das que experimentamos ao regressar para Jesus, com a consci\u00eancia pura, com a confian\u00e7a do servo cumpridor do seu dever, que espera cheio de alegria a aprova\u00e7\u00e3o d Aquele que \u00e9 tudo.<\/p>\n<p>Ah! meus amigos, a vida \u00e9 penosa e dif\u00edcil, quando se n\u00e3o tem em vista a finalidade dela; mas eu vos digo, em verdade, que quando vierdes para junto de n\u00f3s, se seguirdes a lei de Deus, sereis recompensados al\u00e9m mas muito al\u00e9m dos sofrimentos e dos m\u00e9ritos que porventura julgardes ter adquirido para a outra vida.<br \/> Sede bons e caritativos, dessa caridade t\u00e3o desconhecida entre os homens, e que se chama benevol\u00eancia.<br \/> Socorrei os vossos semelhantes, fazendo por outrem mais que por v\u00f3s mesmos, uma vez que ignorais a mis\u00e9ria alheia e conheceis a vossa.<\/p>\n<p>Socorrei minha m\u00e3e, pobre m\u00e3e, \u00fanico pesar que me vem da Terra.<br \/> Ela deve passar por outras provas e preciso \u00e9 que chegue ao c\u00e9u.<br \/> Adeus, vou v\u00ea-la.<\/p>\n<p>Victor.<\/p>\n<p>O Guia do m\u00e9dium \u2014 Nem sempre os sofrimentos amargados na Terra constituem uma expia\u00e7\u00e3o.<br \/> Os Esp\u00edritos que, cumprindo a vontade do Senhor, baixam \u00e0 Terra, como este, s\u00e3o felizes em provar males que para outros seriam uma expia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O sono os revigora perante o Todo-Poderoso, dando-lhes a for\u00e7a de tudo suportarem para sua maior gl\u00f3ria.<br \/> A miss\u00e3o deste Esp\u00edrito, em sua \u00faltima exist\u00eancia, n\u00e3o era de aparato, mas por mais obscura que fosse nem por isso tinha menos m\u00e9rito, visto como n\u00e3o podia ser estimulado pelo orgulho.<br \/> Ele tinha, antes de tudo, um dever de gratid\u00e3o a cumprir para com aquela que lhe foi a genitora; depois, deveria demonstrar que nos piores ambientes podem encontrar-se almas puras, de nobres e elevados sentimentos, capazes de resistir \u00e0s tenta\u00e7\u00f5es.<br \/> Isso \u00e9 uma prova de que as qualidades morais tem causas anteriores e um exemplo assim n\u00e3o ter\u00e1 sido est\u00e9ril.<\/p>\n<p>A Senhora Anais Gourdon<\/p>\n<p>Era muito jovem e not\u00e1vel pela do\u00e7ura de car\u00e1ter e de eminentes qualidades morais que a distinguiam, tendo falecido em novembro de 1860.<br \/> Pertencia a uma fam\u00edlia de mineiros dos arredores de Saint-Etienne, circunst\u00e2ncia que torna interessante sua posi\u00e7\u00e3o espiritual.<\/p>\n<p>Evoca\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>\u2014 R.<br \/> Presente.<\/p>\n<p>P.<br \/> O seu pai e o seu marido pediram-me para evoc\u00e1-la e felizes se julgariam se obtivessem uma comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>R.<br \/> Eu tamb\u00e9m sou feliz em d\u00e1-la.<\/p>\n<p>P.<br \/> Por que t\u00e3o cedo se furtou aos carinhos da fam\u00edlia?<\/p>\n<p>R.<br \/> Porque terminei as prova\u00e7\u00f5es terrenas.<\/p>\n<p>P.<br \/> Pode algumas vezes ver os seus parentes?<\/p>\n<p>R.<br \/> Oh! estou sempre ao lado deles.<\/p>\n<p>P.<br \/> \u00c9 feliz como Esp\u00edrito?<\/p>\n<p>R.<br \/> Sou feliz.<br \/> Amo e espero.<br \/> Os c\u00e9us n\u00e3o me infundem temor e cheia de confian\u00e7a aguardo que asas brancas me alcem at\u00e9 eles.<\/p>\n<p>P.<br \/> Que entende por asas brancas?<\/p>\n<p>R.<br \/> Tornar-me Esp\u00edrito puro, resplandecer como os mensageiros celestes que me ofuscam.<\/p>\n<p>As asas dos anjos, arcanjos, serafins, que n\u00e3o passam de Esp\u00edritos puros, s\u00e3o evidentemente apenas um atributo pelos homens, imaginado para dar id\u00e9ia da rapidez com que se transportam, uma vez que a sua natureza et\u00e9rea os dispensa de qualquer amparo para fender os espa\u00e7os.<br \/> Contudo, eles podem aparecer aos homens com esse acess\u00f3rio para lhes corresponderem ao pensamento, assim como os Esp\u00edritos se revestem da apar\u00eancia terrestre a fim de se tornarem reconhec\u00edveis.<\/p>\n<p>P.<br \/> Podem seus parentes fazer algo a seu favor?<\/p>\n<p>R.<br \/> Podem, caros irm\u00e3os, n\u00e3o me entristecer com as suas lamenta\u00e7\u00f5es, pois sabem que n\u00e3o estou perdida de todo para eles.<br \/> Desejo que a recorda\u00e7\u00e3o de meu ser lhes seja suave e doce.<br \/> Passei como uma flor pela Terra e nada de pesaroso deve subsistir dessa passagem.<\/p>\n<p>P.<br \/> Como pode ser t\u00e3o po\u00e9tica a sua linguagem e t\u00e3o pouco em harmonia com a posi\u00e7\u00e3o que teve na Terra?<\/p>\n<p>R.<br \/> \u00c9 que a minha alma \u00e9 quem fala.<br \/> Sim, eu tinha conhecimentos adquiridos e Deus permite muitas vezes que Esp\u00edritos delicados encarnem entre os homens mais r\u00fasticos, para fazer-lhes pressentir as delicadezas ao alcance deles, delicadezas essas que compreender\u00e3o mais tarde.<\/p>\n<p>Sem esta explica\u00e7\u00e3o t\u00e3o l\u00f3gica, consent\u00e2nea com a solicitude de Deus para com as criaturas, dificilmente se compreenderia o que \u00e0 primeira vista pareceria anomalia.<br \/> Realmente, que pode haver de mais belo, po\u00e9tico e gracioso que a linguagem dessa jovem educada entre rudes oper\u00e1rios? D\u00e1-se o contr\u00e1rio muitas vezes: Esp\u00edritos inferiores encarnam entre os mais adiantados homens, por\u00e9m, com objetivo oposto.<br \/> \u00c9 visando o seu pr\u00f3prio adiantamento que Deus os p\u00f5e em contato com um meio esclarecido e, \u00e0s vezes, tamb\u00e9m como instrumento de prova\u00e7\u00e3o desse mundo.<br \/> Que outra filosofia pode resolver esses problemas?<\/p>\n<p>Maur\u00edcio Gontran<\/p>\n<p>possu\u00eda todas as qualidades que fazem prever brilhante futuro.<br \/> Com grande \u00eaxito terminara muito crian\u00e7a os primeiros estudos e se matriculara em seguida na Escola Polit\u00e9cnica.<br \/> A sua morte acarretou aos parentes uma dessas dores que deixam tra\u00e7os profundos e tanto mais dolorosos, pois que, tendo sido sempre de natureza delicada, lhe atribu\u00edam o fim prematuro ao trabalho de estudos a que o levaram.<\/p>\n<p>Exprobando-se ent\u00e3o, diziam:  De que lhe serve agora tudo o que aprendeu? Melhor fora ficasse ignorante, pois a ci\u00eancia n\u00e3o lhe era necess\u00e1ria para viver, e assim estaria, sem d\u00favida, entre n\u00f3s; seria o consolo da nossa velhice .<br \/> Se conhecessem o Espiritismo, raciocinariam de forma diferente.<br \/> Nele encontraram, contudo, a verdadeira consola\u00e7\u00e3o.<br \/> O ditado seguinte foi dado pelo rapaz a um dos seus amigos, meses ap\u00f3s o decesso.<\/p>\n<p>P.<br \/> Meu caro Maur\u00edcio, a terna afei\u00e7\u00e3o que votava a seus pais me d\u00e1 a convic\u00e7\u00e3o de que deseja reconfortar-lhes o \u00e2nimo, se estiver ao seu alcance faz\u00ea-lo.<br \/> O pesar, direi mesmo desespero, que o seu passamento lhes trouxe visivelmente \u00e0 sa\u00fade e os leva a se desgostarem da vida.<br \/> Algumas palavras de consolo poder\u00e3o certamente fazer renascer-lhes a esperan\u00e7a.<br \/>.<br \/>.<\/p>\n<p>R.<br \/> Meu amigo, esperava com impaci\u00eancia esta ocasi\u00e3o que ora me faculta, de comunicar-me.<br \/> A dor de meus pais aflige-me, por\u00e9m, ela se acalmar\u00e1 quando tiverem a certeza de que n\u00e3o estou perdido para eles; aproxime-se deles a fim de os convencer desta verdade, o que certamente voc\u00ea conseguir\u00e1.<br \/> Era preciso este acontecimento para insinuar-lhes uma cren\u00e7a que lhes trar\u00e1 a felicidade, e os impedir\u00e1 de murmurar contra os decretos da Provid\u00eancia.<\/p>\n<p>Voc\u00eas sabem que o meu pai era muito c\u00e9tico a respeito da vida futura.<br \/> Deus concedeu-lhe este desgosto para arranc\u00e1-lo do erro.<br \/> Aqui nos reencontraremos, neste mundo, onde n\u00e3o se conhecem desgostos da vida e onde os precedi; afirme-lhes categoricamente que a ventura de tornarem a ver-me lhes ser\u00e1 recusada como castigo por falta de confian\u00e7a na bondade de Deus.<br \/> Interdita me seria mesmo a comunica\u00e7\u00e3o com eles, durante o tempo da sua perman\u00eancia na Terra.<br \/> O desespero \u00e9 uma rebeldia \u00e0 vontade do Onipotente, sempre punido com o prolongamente da causa que o produziu, at\u00e9 que haja completa submissao.<\/p>\n<p>O desespero \u00e9 verdadeiro suic\u00eddio, porque mina as for\u00e7as corp\u00f3reas e aquele que abrevia os seus dias, no intuito de escapar mais cedo aos travos da dor, faz jus \u00e0s mais cru\u00e9is decep\u00e7\u00f5es; deve-se, ao contr\u00e1rio, avigorar o corpo a fim de suportar mais facilmente o peso das prova\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Meus queridos e bondosos pais, \u00e9 a v\u00f3s que neste momento me dirijo.<br \/> Desde que deixei os despojos mortais nunca deixei de estar ao vosso lado.<br \/> A\u00ed estou muito mais vezes mesmo do que quando na Terra.<br \/> Consolai-vos, pois porque eu n\u00e3o estou morto, ou antes, estou mais vivo que v\u00f3s.<br \/> Apenas o corpo morreu, mas o Esp\u00edrito, esse vive sempre.<br \/> Ele \u00e9 ao demais livre, feliz, isento de mol\u00e9stias, de enfermidades e de dores.<\/p>\n<p>Em vez de vos afligirdes, regozijai-vos por saber que estou ao abrigo de cuidados e apreens\u00f5es, em lugar onde o cora\u00e7\u00e3o se satura de alegria pur\u00edssima, sem a sombra de um desgosto.<\/p>\n<p>Meus bons amigos, n\u00e3o deploreis aqueles que morrem precocemente, porque isso \u00e9 uma gra\u00e7a que Deus lhes concede, poupando-os \u00e0s tributa\u00e7\u00f5es da vida terrena.<br \/> A minha exist\u00eancia a\u00ed n\u00e3o devia prolongar-se por muito tempo desta vez, pois adquirira o necess\u00e1rio para me preparar no Espa\u00e7o, para uma miss\u00e3o mais elevada.<br \/> Se tivesse mais tempo, n\u00e3o imaginas a que perigos e sedu\u00e7\u00f5es iria expor-me.<\/p>\n<p>Podereis acaso julgar da minha fortaleza para n\u00e3o sucumbir nessa luta que importaria atraso de alguns s\u00e9culos? Por que pois lastimar o que me \u00e9 vantajoso?<\/p>\n<p>Neste caso, uma dor inconsol\u00e1vel acusaria descren\u00e7a s\u00f3 leg\u00edtima pela id\u00e9ia do nada.<br \/> Aqueles que assim descr\u00eaem, esses \u00e9 que s\u00e3o dignos de l\u00e1stima, pois para eles n\u00e3o pode haver consola\u00e7\u00e3o poss\u00edvel; os entes caros se lhes apresentam como irremediavelmente perdidos, porque a tumba lhes leva a \u00faltima esperan\u00e7a!<\/p>\n<p>P.<br \/> A sua morte foi dolorosa?<\/p>\n<p>R.<br \/> N\u00e3o, meu amigo, apenas sofri, antes da morte, os efeitos da mol\u00e9stia, por\u00e9m esse sofrimento diminu\u00eda \u00e0 propor\u00e7\u00e3o que o \u00faltimo instante se aproximava: depois, um dia, adormeci sem pensar na morte.<br \/> Tive ent\u00e3o um sonho delicioso! Sonhei que estava curado, que n\u00e3o mais sofria, e respirava a longos haustos, prazerosamente, um ar embalsamado e puro: transportava-me atrav\u00e9s do Espa\u00e7o uma for\u00e7a desconhecida.<br \/> Brilhante luz resplandecia em torno, mas sem cansar-me a vista! Vi meu av\u00f4 n\u00e3o mais esqu\u00e1lido, alquebrado, por\u00e9m com aspecto juvenil e lou\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Estendia-me os bra\u00e7os e me estreitava efusivamente ao cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Multid\u00e3o de outras pessoas, de risonhos semblantes, o acompanhavam e me acolhiam todos com benevol\u00eancia e do\u00e7ura; parecia-me reconhec\u00ea-los e, venturoso por tornar a v\u00ea-los; troc\u00e1vamos felicita\u00e7\u00f5es e testemunhos de amizade.<br \/> Pois bem! O que eu supunha ser um sonho era a realidade, porque desse sonho n\u00e3o devia despertar na Terra: \u00e9 que acordara no mundo espiritual.<\/p>\n<p>P.<br \/> A sua mol\u00e9stia n\u00e3o se originou da grande assiduidade no estudo?<\/p>\n<p>R.<br \/> Oh! N\u00e3o, desenganai-vos.<br \/> Contado estava o tempo que eu deveria passar na Terra e coisa alguma poderia a\u00ed reter-me.<br \/> Sabia-o meu Esp\u00edrito nos momentos de desprendimento e considerava-me feliz com a id\u00e9ia da pr\u00f3xima liberta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Contudo n\u00e3o deixou de aproveitar-me a mim o tempo em que a\u00ed estive e hoje me felicito por o n\u00e3o haver perdido.<\/p>\n<p>Os estudos s\u00e9rios que realizei me fortificaram a alma e lhe aumentaram os conhecimentos e se, em virtude da minha curta exist\u00eancia n\u00e3o pude dar-lhes aplica\u00e7\u00e3o, nem por isso deixarei de o fazer mais tarde e com maior utilidade.<\/p>\n<p>Adeus, meu caro amigo; parto para junto de meus pais, a fim de predispo-los a receber esta comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Maur\u00edcio.<\/p>\n<div class=\"pvc_clear\"><\/div>\n<p id=\"pvc_stats_15433\" class=\"pvc_stats all  \" data-element-id=\"15433\" style=\"\"><i class=\"pvc-stats-icon medium\" aria-hidden=\"true\"><svg aria-hidden=\"true\" focusable=\"false\" data-prefix=\"far\" data-icon=\"chart-bar\" role=\"img\" xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" viewBox=\"0 0 512 512\" class=\"svg-inline--fa fa-chart-bar fa-w-16 fa-2x\"><path fill=\"currentColor\" d=\"M396.8 352h22.4c6.4 0 12.8-6.4 12.8-12.8V108.8c0-6.4-6.4-12.8-12.8-12.8h-22.4c-6.4 0-12.8 6.4-12.8 12.8v230.4c0 6.4 6.4 12.8 12.8 12.8zm-192 0h22.4c6.4 0 12.8-6.4 12.8-12.8V140.8c0-6.4-6.4-12.8-12.8-12.8h-22.4c-6.4 0-12.8 6.4-12.8 12.8v198.4c0 6.4 6.4 12.8 12.8 12.8zm96 0h22.4c6.4 0 12.8-6.4 12.8-12.8V204.8c0-6.4-6.4-12.8-12.8-12.8h-22.4c-6.4 0-12.8 6.4-12.8 12.8v134.4c0 6.4 6.4 12.8 12.8 12.8zM496 400H48V80c0-8.84-7.16-16-16-16H16C7.16 64 0 71.16 0 80v336c0 17.67 14.33 32 32 32h464c8.84 0 16-7.16 16-16v-16c0-8.84-7.16-16-16-16zm-387.2-48h22.4c6.4 0 12.8-6.4 12.8-12.8v-70.4c0-6.4-6.4-12.8-12.8-12.8h-22.4c-6.4 0-12.8 6.4-12.8 12.8v70.4c0 6.4 6.4 12.8 12.8 12.8z\" class=\"\"><\/path><\/svg><\/i> <img decoding=\"async\" width=\"16\" height=\"16\" alt=\"Loading\" data-src=\"https:\/\/www.centronocaminhodaluz.com.br\/wp-content\/plugins\/page-views-count\/ajax-loader-2x.gif\" border=0 src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" class=\"lazyload\" style=\"--smush-placeholder-width: 16px; --smush-placeholder-aspect-ratio: 16\/16;\" \/><\/p>\n<div class=\"pvc_clear\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sr. Sanson O Sr. Sanson, antigo membro da Sociedade Esp\u00edrita de Paris, morreu a 21 de abril de 1862, ap\u00f3s um ano de cru\u00e9is padecimentos. Prevendo o seu fim ele havia dirigido ao presidente da sociedade uma carta contendo a seguinte passagem: No caso de uma s\u00fabita separa\u00e7\u00e3o de minha alma e meu corpo, venho&hellip; <br \/> <a class=\"read-more\" href=\"https:\/\/www.centronocaminhodaluz.com.br\/index.php\/artigo15433\/\">Leia mais<\/a><\/p>\n<div class=\"pvc_clear\"><\/div>\n<p id=\"pvc_stats_15433\" class=\"pvc_stats all  \" data-element-id=\"15433\" style=\"\"><i class=\"pvc-stats-icon medium\" aria-hidden=\"true\"><svg aria-hidden=\"true\" focusable=\"false\" data-prefix=\"far\" data-icon=\"chart-bar\" role=\"img\" xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" viewBox=\"0 0 512 512\" class=\"svg-inline--fa fa-chart-bar fa-w-16 fa-2x\"><path fill=\"currentColor\" d=\"M396.8 352h22.4c6.4 0 12.8-6.4 12.8-12.8V108.8c0-6.4-6.4-12.8-12.8-12.8h-22.4c-6.4 0-12.8 6.4-12.8 12.8v230.4c0 6.4 6.4 12.8 12.8 12.8zm-192 0h22.4c6.4 0 12.8-6.4 12.8-12.8V140.8c0-6.4-6.4-12.8-12.8-12.8h-22.4c-6.4 0-12.8 6.4-12.8 12.8v198.4c0 6.4 6.4 12.8 12.8 12.8zm96 0h22.4c6.4 0 12.8-6.4 12.8-12.8V204.8c0-6.4-6.4-12.8-12.8-12.8h-22.4c-6.4 0-12.8 6.4-12.8 12.8v134.4c0 6.4 6.4 12.8 12.8 12.8zM496 400H48V80c0-8.84-7.16-16-16-16H16C7.16 64 0 71.16 0 80v336c0 17.67 14.33 32 32 32h464c8.84 0 16-7.16 16-16v-16c0-8.84-7.16-16-16-16zm-387.2-48h22.4c6.4 0 12.8-6.4 12.8-12.8v-70.4c0-6.4-6.4-12.8-12.8-12.8h-22.4c-6.4 0-12.8 6.4-12.8 12.8v70.4c0 6.4 6.4 12.8 12.8 12.8z\" class=\"\"><\/path><\/svg><\/i> <img decoding=\"async\" width=\"16\" height=\"16\" alt=\"Loading\" data-src=\"https:\/\/www.centronocaminhodaluz.com.br\/wp-content\/plugins\/page-views-count\/ajax-loader-2x.gif\" border=0 src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" class=\"lazyload\" style=\"--smush-placeholder-width: 16px; --smush-placeholder-aspect-ratio: 16\/16;\" \/><\/p>\n<div class=\"pvc_clear\"><\/div>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[16],"tags":[],"class_list":["post-15433","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-mensagens-diversas"],"a3_pvc":{"activated":true,"total_views":5155,"today_views":0},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.centronocaminhodaluz.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15433","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.centronocaminhodaluz.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.centronocaminhodaluz.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.centronocaminhodaluz.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.centronocaminhodaluz.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=15433"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.centronocaminhodaluz.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15433\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.centronocaminhodaluz.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=15433"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.centronocaminhodaluz.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=15433"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.centronocaminhodaluz.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=15433"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}