{"id":15533,"date":"2018-12-01T16:12:00","date_gmt":"2018-12-01T16:12:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.centronocaminhodaluz.com.br\/index.php\/artigo15533\/"},"modified":"2018-12-01T16:39:08","modified_gmt":"2018-12-01T18:39:08","slug":"artigo15533","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.centronocaminhodaluz.com.br\/index.php\/artigo15533\/","title":{"rendered":"Livro C\u00e9u e o Inferno &#8211;  Segunda Parte &#8211; Cap\u00edtulo VIII  Expia\u00e7\u00f5es Terrestres &#8211; Allan Kardec"},"content":{"rendered":"<p>Marcelo \u2014 o menino do n\u00ba 4<\/p>\n<p>Num hospital de prov\u00edncia havia um menino de 8 a 10 anos, cujo estado era dif\u00edcil precisar.<br \/> Designavam-no pelo n\u00ba 4.<br \/> Inteiramente contorcido, j\u00e1 pela sua deformidade inata, j\u00e1 pela doen\u00e7a, as pernas se lhe torciam ro\u00e7ando pelo pesco\u00e7o num estado de tal magreza, que eram pele e ossos.<br \/> O corpo, uma chaga; os sofrimentos, atrozes.<br \/> Era oriundo de uma fam\u00edlia israelita.<\/p>\n<p>A mol\u00e9stia dominava aquele organismo, j\u00e1 de oito longos anos, e no entanto demonstrava o enfermo uma intelig\u00eancia not\u00e1vel, al\u00e9m de candura, paci\u00eancia e resigna\u00e7\u00e3o edificantes.<br \/> O m\u00e9dico que o assistia, cheio de compaix\u00e3o pelo pobre um tanto abandonado, visto que seus parentes pouco o visitavam, tomou por ele certo interesse.<br \/> Achava-lhe um qu\u00ea de atraente na precocidade intelectual.<br \/> Assim n\u00e3o s\u00f3 o tratava com bondade, como fazia leituras quando as ocupa\u00e7\u00f5es lhe permitia e se admirava do seu crit\u00e9rio na aprecia\u00e7\u00e3o de coisas a seu ver superiores \u00e0 compreens\u00e3o da sua idade.<\/p>\n<p>Um dia disse-lhe o menino:  Doutor, tenha a bondade de me dar ainda uma vez aquelas p\u00edlulas ultimamente receitadas .<br \/> Para qu\u00ea? replicou-lhe o m\u00e9dico, se j\u00e1 lhe ministrei o suficiente e maior quantidade pode fazer-lhe mal.<br \/>.<br \/>.<\/p>\n<p> \u00c9 que eu sofro tanto, que dificilmente posso orar a Deus para que me d\u00ea for\u00e7as, pois n\u00e3o quero incomodar os outros enfermos que a\u00ed est\u00e3o.<br \/> Essas p\u00edlulas fazem-me dormir e, ao menos quando durmo, a ningu\u00e9m incomodo.<\/p>\n<p>Aqui est\u00e1 quanto basta para demonstrar a grandeza dessa alma encerrada num corpo informe.<br \/> Onde teria ido essa crian\u00e7a haurir esses sentimentos? Certamente n\u00e3o foi no meio em que se educou, al\u00e9m de que na idade em que principiou a sofrer n\u00e3o possu\u00eda sequer o racioc\u00ednio.<br \/> Tais sentimentos eram-lhe inatos; mas ent\u00e3o porque se via condenado ao sofrimento, admitindo-se que Deus houvesse concomitantemente criado uma alma assim t\u00e3o nobre e aquele m\u00edsero corpo \u2014 instrumento dos supl\u00edcios?<\/p>\n<p>\u00c9 preciso negar a bondade de Deus, ou admitir a anterioridade de causa; isto \u00e9, a preexist\u00eancia da alma e a pluralidade das exist\u00eancias.<\/p>\n<p>Os \u00faltimos pensamentos daquela crian\u00e7a, ao desencarnar, foram para Deus e para o caridoso m\u00e9dico que dela se condoeu.<br \/> Decorrido algum tempo foi o seu Esp\u00edrito evocado na Sociedade de Paris, e deu a seguinte comunica\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p> A vosso chamado, vim fazer com que a minha voz se estenda para al\u00e9m deste c\u00edrculo, tocando todos os cora\u00e7\u00f5es.<br \/> Oxal\u00e1 seu eco se fa\u00e7a ouvir na solid\u00e3o, e lhes lembre que as agonias da Terra tem por premissas as alegrias do c\u00e9u; que o mart\u00edrio n\u00e3o \u00e9 mais do que a casca de um fruto deleit\u00e1vel, dando coragem e resigna\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Essa voz lhes dir\u00e1 que, sobre o catre da mis\u00e9ria, est\u00e3o os enviados do Senhor, cuja miss\u00e3o consiste na exemplifica\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o h\u00e1 dor insuper\u00e1vel, desde que tenhamos o aux\u00edlio do Onipotente e dos seus bons Esp\u00edritos.<br \/> Essa voz lhes far\u00e1 ouvir lamenta\u00e7\u00f5es de mistura com preces, para que lhes compreendam a harmonia piedosa, bem diferentes da de outros coros de blasf\u00eamias.<\/p>\n<p>Um dos vossos bons Esp\u00edritos, grande ap\u00f3stolo do Espiritismo, cedeu-me o seu lugar por esta noite.<br \/>(63) Por minha vez, tamb\u00e9m me compete dizer alguma coisa acerca do progresso da vossa Doutrina, que deve auxiliar aqueles que entre v\u00f3s encarnam, para ensinar a sofrer.<br \/> O Espiritismo ser\u00e1 a pedra de toque; os padecentes ter\u00e3o o exemplo e a palavra e ent\u00e3o as impreca\u00e7\u00f5es se transformar\u00e3o em gritos de alegria e l\u00e1grimas de contentamento .<\/p>\n<p>P.<br \/> Pelo que afirmais, parece que os vossos sofrimentos n\u00e3o eram expia\u00e7\u00e3o de faltas anteriores.<br \/>.<br \/>.<\/p>\n<p>R.<br \/> N\u00e3o seria uma expia\u00e7\u00e3o direta, mas asseguro-vos que todo sofrimento tem uma causa justa.<br \/> Aquele a quem conhecestes t\u00e3o m\u00edsero foi belo, grande, rico e adulado.<br \/> Eu tivera aduladores e cortes\u00e3os, fora f\u00fatil e orgulhoso.<br \/> Anteriormente fui bem culpado; reneguei a Deus, prejudiquei meu semelhante, mas expiei cruelmente, primeiro no mundo espiritual e depois na Terra.<\/p>\n<p>Os meus sofrimentos de alguns anos apenas, nesta \u00faltima encarna\u00e7\u00e3o, suportei-os eu anteriormente por toda uma exist\u00eancia que andou pela extrema velhice.<br \/> Por meu arrependimento reconquistei a gra\u00e7a do Senhor, o qual me confiou muitas miss\u00f5es, inclusive a \u00faltima, que bem conheceis.<br \/> E fui eu quem as solicitou, para terminar a minha depura\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Adeus, amigos; tornarei algumas vezes.<br \/> A minha miss\u00e3o \u00e9 consolar e n\u00e3o instruir.<br \/> H\u00e1 por\u00e9m aqui muitas pessoas cujas feridas jazem ocultas e essas ter\u00e3o prazer com a minha presen\u00e7a.<\/p>\n<p>Marcelo.<\/p>\n<p>(63) Santo Agostinho, pelo m\u00e9dium com o qual habitualmente se comunica na Sociedade.<\/p>\n<p>Instru\u00e7\u00f5es do Guia do M\u00e9dium<\/p>\n<p>Pobrezinho sofredor, definhado, ulceroso e disforme! Nesse asilo de mis\u00e9rias e l\u00e1grimas, quantos gemidos dados! E como era resignado.<br \/>.<br \/>.<br \/> e como a sua alma lobrigava j\u00e1 ent\u00e3o o termo dos sofrimentos, apesar da tenra idade! No al\u00e9m-t\u00famulo pressentia a recompensa de tantos gemidos abafados, e esperava! E como orava tamb\u00e9m por aqueles que n\u00e3o tinham resigna\u00e7\u00e3o no sofrimento, pelos que trocavam preces por blasf\u00eamias!<\/p>\n<p>Foi-lhe lenta a agonia, mas terr\u00edvel n\u00e3o lhe foi a hora do trespasse; certamente os membros convulsos contorciam-se, oferecendo aos assistentes o espet\u00e1culo de um corpo disforme a revoltar-se contra o destino, nessa lei da carne que a todo o custo quer viver; mas, anjo bom lhe pairava por sobre o leito mortu\u00e1rio e lhe cicatrizava o cora\u00e7\u00e3o.<br \/> Depois esse anjo arrebatou nas asas brancas essa alma t\u00e3o bela a escapar-se de t\u00e3o horripilante corpo, e foram estas as palavras pronunciadas:  Gl\u00f3ria a V\u00f3s, Senhor, meu Deus!  E a alma subiu ao Todo-Poderoso, feliz e exclamou: Eis-me aqui, Senhor; deste-me por miss\u00e3o exemplificar o sofrimento.<br \/>.<br \/>.<br \/> terei suportado dignamente a prova\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Hoje, o Esp\u00edrito da pobre crian\u00e7a sobressai, paira no Espa\u00e7o, vai do fraco ao humilde, e a todos diz: \u2014 Esperan\u00e7a e coragem.<br \/> Livre de todas as impurezas da mat\u00e9ria, ele a\u00ed est\u00e1 junto de v\u00f3s a falar-vos, a dizer-vos n\u00e3o mais com essa voz fraca e lastimosa, por\u00e9m agora firme:  Todos que me observaram, viram que a crian\u00e7a n\u00e3o murmurava; hauriram naquele exemplo a calma para os seus males e seus cora\u00e7\u00f5es se tonificaram na suave confian\u00e7a em Deus, que outro n\u00e3o era o fim da minha curta passagem pela Terra .<\/p>\n<p>Santo Agostinho.<\/p>\n<p>Szymel Slizgol<\/p>\n<p>Este n\u00e3o passou de um pobre israelita de Vilna, falecido em maio de 1865.<br \/> Durante 30 anos mendigou com uma salva nas m\u00e3os.<br \/> Por toda a cidade era bem conhecida aquela voz que dizia:  Lembrai-vos dos pobres, das vi\u00favas e dos \u00f3rf\u00e3os!  Por essa longa peregrina\u00e7\u00e3o Slizgol juntara 90.<br \/>000 rublos por\u00e9m n\u00e3o guardava para si um s\u00f3 copeque.<br \/> Aliviava e curava os enfermos; pagava o ensino de crian\u00e7as pobres; distribu\u00eda aos necessitados a comida que lhe davam.<\/p>\n<p>\u00c0 noite, destinava-a ele ao preparo do rap\u00e9, que vendia a fim de prover \u00e0s suas necessidades, e o que lhe sobrava era dos pobres.<br \/> Foi sozinho no mundo e no entanto o seu enterro teve o acompanhamento de grande parte da popula\u00e7\u00e3o de Vilna, cujos armaz\u00e9ns cerraram as portas.<\/p>\n<p>Sociedade de Paris, 15 de Junho de 1865<\/p>\n<p>Evoca\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Excessivamente feliz, chegado, enfim, \u00e0 plenitude do que mais ambicionava e bem caro paguei, aqui estou, entre v\u00f3s, desde o cair da noite.<br \/> Agradecido pelo interesse que vos desperta o Esp\u00edrito do pobre mendigo, que, com satisfa\u00e7\u00e3o, vai procurar responder \u00e0s vossas perguntas.<\/p>\n<p>P.<br \/> Uma carta de Vilna nos deu conhecimento das particularidades mais not\u00e1veis da vossa exist\u00eancia e da simpatia que essas particularidades nos inspiram nasceu o desejo de nos comunicar convosco.<br \/> Agradecemos a vossa presen\u00e7a e, uma vez que quereis responder-nos, principiaremos por vos assegurar que mui felizes seremos se, para nossa orienta\u00e7\u00e3o, pudermos conhecer a vossa posi\u00e7\u00e3o espiritual, bem como as causas que determinaram o g\u00eanero de vida que tiveste na \u00faltima encarna\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>R.<br \/> Em primeiro lugar concedei ao meu Esp\u00edrito, c\u00f4nscio da sua verdadeira posi\u00e7\u00e3o, o favor de vos transmitir a sua opini\u00e3o, com respeito a um pensamento que vos ocorreu quanto \u00e0 minha personalidade.<br \/> E reclamo previamente os vossos conselhos, para o caso de ser falsa essa minha opini\u00e3o.<\/p>\n<p>Parece-vos singular que as manifesta\u00e7\u00f5es p\u00fablicas tomassem tanto vulto, para homenagear a mem\u00f3ria do homem insignificante que soube por seu Esp\u00edrito caridoso atrair essa simpatia.<br \/> N\u00e3o me refiro a v\u00f3s, caro mestre, nem a ti, prezado m\u00e9dium, nem a v\u00f3s outros verdadeiros e sinceros esp\u00edritas; falo, sim, para as pessoas indiferentes \u00e0 cren\u00e7a, pois, nisso, nada houve de extraordin\u00e1rio.<br \/> A press\u00e3o moral exercida pela pr\u00e1tica do bem, sobre a Humanidade, \u00e9 tamanha que, por mais materializada que esta seja, se inclina sempre, venera o bem, a despeito da sua tend\u00eancia para o mal.<\/p>\n<p>Agora, as perguntas que, da vossa parte, n\u00e3o s\u00e3o ditadas pela curiosidade, mas simplesmente formuladas no intuito de ampliar o ensino.<br \/> Uma vez que disponho de liberdade, vou, portanto, dizer-vos, o mais sucintamente poss\u00edvel, quais as causas determinadoras da minha \u00faltima exist\u00eancia.<\/p>\n<p>H\u00e1 muitos s\u00e9culos vivia eu com o t\u00edtulo de rei, ou, pelo menos de pr\u00edncipe soberano.<br \/> Dentro da esfera do meu poder relativamente limitado, em confronto com os atuais Estados, era eu, no entanto, absoluto senhor dos meus vassalos, como dos seus destinos, e governava-os tiranicamente, ou antes \u2014 digamos o pr\u00f3prio termo \u2014 como algoz.<\/p>\n<p>Dotado de car\u00e1ter impetuoso, violento, al\u00e9m de avaro e sensual, podeis avaliar qual deveria ter sido o destino dos pobres seres sujeitos ao meu dom\u00ednio.<br \/> Al\u00e9m de abusar do poder para oprimir o fraco, eu subordinava empregos, trabalhos e dores ao servi\u00e7o das pr\u00f3prias paix\u00f5es.<br \/> Assim \u00e9 que impunha uma d\u00edzima ao produto da mendicidade, e ningu\u00e9m poderia acumular sem que eu antecipadamente lhe n\u00e3o tomasse uma cota avultada, dessas sobras que a piedade humana deixava resvalar para as sacolas da mis\u00e9ria.<br \/> E mais ainda: a fim de que n\u00e3o decrescesse o n\u00famero de mendigos entre os meus vassalos, proibia aos infelizes darem aos amigos, parentes e f\u00e2mulos necessitados a parte insignificante do que ainda lhes restava.<\/p>\n<p>Em uma palavra, fui tudo quanto se pode imaginar de mais cruel, em rela\u00e7\u00e3o ao sofrimento e \u00e0 mis\u00e9ria alheia.<br \/> No meio de sofrimentos horrorosos, acabei por perder isso a que chamais \u2014 vida, tanto que minha morte era apontada como exemplo aterrador a quantos como eu, posto que em menor escala, tinham o mesmo modo de pensar.<\/p>\n<p>Como Esp\u00edrito, permaneci na erraticidade durante tres s\u00e9culos e meio, e, quando ao fim desse tempo compreendi que a raz\u00e3o de ser da reencarna\u00e7\u00e3o era inteiramente outra que n\u00e3o a seguida por meus grosseiros sentidos, obtive \u00e0 for\u00e7a de preces, de resigna\u00e7\u00e3o e de pesares a permiss\u00e3o de suportar materialmente os mesmos sofrimentos que infligira, e mais profundamente sens\u00edveis que aqueles por mim ocasionados.<\/p>\n<p>Obtida a permiss\u00e3o, Deus concedeu que por meu livre-arb\u00edtrio aumentassem os sofrimentos f\u00edsicos e morais.<br \/> Gra\u00e7as \u00e0 assist\u00eancia dos bons Esp\u00edritos, persisti na pr\u00e1tica do bem, e sou-lhes agradecido por me terem impedido de sucumbir sob o fardo que tomara aos ombros.<br \/> Finalmente preenchi uma exist\u00eancia de abnega\u00e7\u00e3o e caridade, que por si resgatou as faltas de outra, cruel e injusta.<br \/> Nascido de pais pobres e cedo orfanado, aprendi a ganhar o p\u00e3o numa idade em que muitos consideram incapaz o racioc\u00ednio.<\/p>\n<p>Vivi sozinho, sem amor, sem afei\u00e7\u00f5es, e desde o princ\u00edpio suportei as brutalidades que para com outros havia exercido.<\/p>\n<p>Dizem que as quantias por mim esmoladas foram todas destinadas ao al\u00edvio dos meus semelhantes: \u00e9 um fato inconcusso, ao qual, sem orgulho nem \u00eanfase, devo acrescentar que muit\u00edssimas vezes, com sacrif\u00edcio de priva\u00e7\u00f5es relativamente imperiosas, aumentava o benef\u00edcio que me permitiam fazer a caridade p\u00fablica.<br \/> Desencarnei calmamente, confiando no valor da minha repara\u00e7\u00e3o, e sou premiado muito mais do que poderiam ter cogitado as minhas secretas aspira\u00e7\u00f5es.<br \/> Hoje sou feliz, felic\u00edssimo, podendo afirmar-vos que todos quantos se elevam ser\u00e3o humilhados, como elevados ser\u00e3o todos quantos se humilharem.<\/p>\n<p>P.<br \/> Tende a bondade de dizer-nos em que consistiu a vossa expia\u00e7\u00e3o no mundo espiritual e quanto tempo durou, a contar da vossa morte at\u00e9 o momento da atenua\u00e7\u00e3o por efeito do arrependimento e das boas resolu\u00e7\u00f5es.<br \/> Dizei-nos tamb\u00e9m o que foi que provocou a mudan\u00e7a das vossas id\u00e9ias no estado espiritual.<\/p>\n<p>R.<br \/> Essa pergunta desperta-me muitas recorda\u00e7\u00f5es dolorosas! Quanto sofri eu.<br \/>.<br \/>.<br \/> Mas n\u00e3o, que n\u00e3o me lamento: apenas recordo!.<br \/>.<br \/>.<br \/> Quereis saber a natureza da minha expia\u00e7\u00e3o? Pois ei-la na sua terr\u00edvel hediondez.<\/p>\n<p>Algoz que fui de todos os bons sentimentos, fiquei por muito, por longo tempo preso pelo perisp\u00edrito ao corpo em decomposi\u00e7\u00e3o.<br \/> At\u00e9 que esta se realizasse, vi-me corro\u00eddo pelos vermes, o que muito me torturava! Quando me vi liberto das peias que me prendiam ao instrumento do supl\u00edcio, mais cruel supl\u00edcio me esperava!.<br \/>.<br \/>.<br \/> Depois do sofrimento f\u00edsico, o sofrimento moral muito mais longo.<br \/> Fui colocado em presen\u00e7a de todas as minhas v\u00edtimas.<br \/> Periodicamente, constrangido por uma for\u00e7a superior, era levado a rever o quadro vivo dos meus crimes.<br \/> E via f\u00edsica e moralmente todas as dores que a outrem fizera sofrer!<\/p>\n<p>Ah! Meus amigos, que terr\u00edvel \u00e9 a vis\u00e3o constante daqueles a quem fizemos mal! Entre v\u00f3s, tendes apenas um fraco exemplo no confronto do acusado com a sua v\u00edtima.<br \/> A\u00ed tendes, em resumo, o que sofri durante tr\u00eas s\u00e9culos e meio, at\u00e9 que Deus, compadecido da minha dor e tocado pelo meu arrependimento, solicitado pelos que me assistiam, permitisse a vida de expia\u00e7\u00e3o que conheceis.<\/p>\n<p>P.<br \/> Algum motivo particular vos induziu a escolher a \u00faltima exist\u00eancia, subordinada \u00e0 religi\u00e3o israelita?<\/p>\n<p>R.<br \/> N\u00e3o escolhi por mim, mas ouvi o conselho dos meus Guias.<br \/> A religi\u00e3o de Israel era uma pequena humilha\u00e7\u00e3o a mais na minha prova, uma vez que como em certos pa\u00edses a maioria dos encarnados menosprezam os judeus e sobretudo os judeus mendicantes.<\/p>\n<p>P.<br \/> Na Terra, com que idade come\u00e7aste a vossa obra de expia\u00e7\u00e3o? Como vos ocorreu o pensamento de vos desobrigar das resolu\u00e7\u00f5es previamente tomadas?<\/p>\n<p>Ao exercerdes t\u00e3o abnegadamente a caridade, ter\u00edeis a intui\u00e7\u00e3o das causas que a isso vos predispunham?<\/p>\n<p>R.<br \/> Meus pais eram pobres, por\u00e9m inteligentes e avaros.<br \/> Mo\u00e7o ainda, fui privado da afei\u00e7\u00e3o e carinho de minha genitora.<br \/> A perda desta me causou tanto maior e fundo pesar, quanto meu genitor dominado pela avidez de lucros, me abandonava completamente.<br \/> Quanto aos meus irm\u00e3os, todos mais velhos do que eu, n\u00e3o pareciam aperceber-se das minhas m\u00e1goas.<\/p>\n<p>Foi um outro judeu quem, movido por sentimento mais ego\u00edstico do que caritativo, me recolheu em sua casa e me ensinou a trabalhar.<br \/> O que isso lhe custara era largamente compensado pelo meu trabalho, que ali\u00e1s excedia muitas vezes \u00e0s minhas for\u00e7as.<br \/> Mais tarde, liberto desse jugo, trabalhei por conta pr\u00f3pria; mas em toda parte, no trabalho como no repouso, perseguia-me a saudade de minha m\u00e3e e, \u00e0 medida que avan\u00e7ava em anos a lembran\u00e7a desse ser mais fundamente se me gravara na mem\u00f3ria, lamentando em demasia a perda do seu amor e do seu zelo.<\/p>\n<p>N\u00e3o tardou fosse eu o \u00fanico dos meus, pois a morte em breve, dentro de meses, ceifou-me toda a fam\u00edlia.<br \/> Ent\u00e3o, principiou a manifestar-se-me o modo pelo qual havia de passar o resto da vida.<br \/> Dois dos meus irm\u00e3os deixaram \u00f3rf\u00e3os, e eu, comovido pela recorda\u00e7\u00e3o do que como \u00f3rf\u00e3o sofrera, quis preservar os pobrezinhos de uma juventude semelhante \u00e0 minha.<\/p>\n<p>N\u00e3o produzindo o meu trabalho o suficiente para sustent\u00e1-los a todos, comecei a pedir esmolas, n\u00e3o para mim, mas para outros.<br \/> A Deus n\u00e3o aprazia visse eu o resultado da minha esmolaria, a consola\u00e7\u00e3o dos meus esfor\u00e7os, e assim foi que tamb\u00e9m os pobrezinhos me deixaram para sempre.<\/p>\n<p>Eu bem sabia o que lhes faltava \u2014 era a m\u00e3e.<br \/> Resolvi, pois, pedir para as vi\u00favas infelizes que, sem poderem trabalhar para si e os filhinhos, se impunham priva\u00e7\u00f5es fatais, que acabavam por mat\u00e1-las, legando ao mundo pobres \u00f3rf\u00e3os abandonados e votados aos tormentos que eu mesmo suportara.<\/p>\n<p>A esse tempo contava 30 anos e naquela idade, saud\u00e1vel e vigoroso, viram-me pedir para a vi\u00fava e para o \u00f3rf\u00e3o.<br \/> Penosos me foram os primeiros passos, a suportar mais de um ep\u00edteto deprimente; quando, por\u00e9m, se certificaram de que eu realmente distribu\u00eda pelos pobres o que recebia; quando souberam que a essa distribui\u00e7\u00e3o ainda ajuntava as sobras do meu trabalho; ent\u00e3o, adquiri certo conceito que n\u00e3o deixava de me ser grato.<\/p>\n<p>Durante os 60 e alguns anos dessa peregrina\u00e7\u00e3o terrena, nunca deixei de atender \u00e0 tarefa que me impusera.<br \/> Tamb\u00e9m jamais a consci\u00eancia me fez sentir que causas anteriores \u00e0 exist\u00eancia fossem o m\u00f3bil do meu proceder.<br \/> Um dia somente, e antes de come\u00e7ar a pedir, ouvi estas palavras:<\/p>\n<p> N\u00e3o fa\u00e7ais a outrem o que n\u00e3o quiserdes que vos fa\u00e7am.<\/p>\n<p>Surpreendido pelos princ\u00edpios gerais de moralidade contida nessas poucas palavras, muitas vezes parecia-me ouvi-las acrescidas destas outras:  Mas fazei, ao contr\u00e1rio, o que quiserdes que vos fa\u00e7am : Tendo por auxiliares a lembran\u00e7a de minha m\u00e3e e dos meus pr\u00f3prios sofrimentos, continuei a trilhar uma senda que a minha consci\u00eancia dizia boa.<\/p>\n<p>Vou terminar esta longa comunica\u00e7\u00e3o, dizendo: Obrigado!<\/p>\n<p>Imperfeito ainda, sei contudo que o mal s\u00f3 acarreta o mal, e de novo, como j\u00e1 o fiz, me dedicarei ao bem para alcan\u00e7ar a felicidade.<\/p>\n<p>Szymel Slizgol<\/p>\n<p>Juliana Maria, a mendiga<\/p>\n<p>Na comuna de Vilate, perto, de Nozai (Liger Inferior), havia uma pobre mulher de nome Juliana Maria, velha, enferma, vivendo da caridade p\u00fablica.<br \/> Um dia caiu num po\u00e7o, do qual foi tirada por um conterr\u00e2neo, A.<br \/>.<br \/>.<br \/>, que habitualmente a socorria.<br \/> Transportada para casa, a\u00ed desencarnou pouco tempo depois, v\u00edtima do acidente.<\/p>\n<p>Era voz geral que Juliana tentara suicidar-se.<br \/> Logo no dia do seu enterro, a pessoa que lhe acudira, e que era esp\u00edrita e m\u00e9dium, sentiu como que um leve contato de pessoa que estivesse pr\u00f3xima, sem que procurasse explicar-se a causa do fen\u00f4meno.<br \/> Ao ter conhecimento do trespasse de Juliana Maria, veio-lhe ao pensamento a visita poss\u00edvel do seu Esp\u00edrito.<br \/> A conselho de um seu amigo da Sociedade de Paris, a quem tinha informado da ocorr\u00eancia, fez a evoca\u00e7\u00e3o com o intuito de ser \u00fatil ao Esp\u00edrito, n\u00e3o sem que pedisse previamente o conselho dos seus protetores, que lhe deram a seguinte comunica\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p> Poder\u00e1s faz\u00ea-lo e com isso lhe dar\u00e1s prazer, conquanto se torne desnecess\u00e1rio o benef\u00edcio que tens em mente prestar-lhe.<\/p>\n<p>Ela \u00e9 feliz e inteiramente devotada aos que se lhe mostraram compassivos.<br \/> Tu \u00e9s um dos seus bons amigos; ela quase que te n\u00e3o deixa e contigo se comunica muitas vezes sem que o saibas.<br \/> Cedo ou tarde os servi\u00e7os s\u00e3o recompensados e, quando o n\u00e3o sejam pelo pr\u00f3prio beneficiado, o ser\u00e3o pelos que por ele se interessam, antes e depois da morte.<br \/> Se acaso o Esp\u00edrito do beneficiado n\u00e3o tiver ainda reconhecido a sua nova situa\u00e7\u00e3o, outros Esp\u00edritos, a ele simp\u00e1ticos, v\u00eam dar o testemunho de sua gratid\u00e3o.<\/p>\n<p>Eis a\u00ed o que te pode explicar a sensa\u00e7\u00e3o que tiveste no mesmo dia da passagem de Juliana Maria.<\/p>\n<p>Agora, ser\u00e1 ela a auxiliar-te na pr\u00e1tica do bem.<br \/> Lembra-te do que disse Jesus: aquele que se humilhar ser\u00e1 exaltado.<br \/> Tu ver\u00e1s o servi\u00e7o que esse Esp\u00edrito poder\u00e1 prestar-te, desde que lhe pe\u00e7as assist\u00eancia com o fito de ser \u00fatil ao pr\u00f3ximo.<\/p>\n<p>Evoca\u00e7\u00e3o \u2014 Boa Juliana, sei que sois feliz e \u00e9 tudo quanto desejava saber; isso n\u00e3o impede, por\u00e9m, que de v\u00f3s me lembre muitas vezes, bem como de n\u00e3o vos esquecer nas minhas preces.<\/p>\n<p>R.<br \/> Tem confian\u00e7a em Deus, procura inspirar aos teus doentes uma f\u00e9 sincera, porque assim alcan\u00e7ar\u00e1s sempre o que desejares.<br \/> N\u00e3o te preocupes nunca com a recompensa, porque ela ser\u00e1 sempre superior ao que podes esperar.<br \/> Deus sabe recompensar justiceiramente a quem se dedique ao al\u00edvio dos seus irm\u00e3os, inspirado por absoluto desinteresse.<br \/> A n\u00e3o ser assim, tudo \u00e9 ilus\u00e3o, \u00e9 quimera.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso ter f\u00e9 antes de tudo, pois de outro modo nada se conseguir\u00e1.<br \/> Lembra-te deste conselho e ficar\u00e1s admirado dos seus resultados.<br \/> Os dois doentes que curaste s\u00e3o a prova do que te afirmo, pois, no estado em que estavam, s\u00f3 com rem\u00e9dios nada terias conseguido.<br \/> Quando implorares permiss\u00e3o a Deus para que os bons Esp\u00edritos te transmitam fluidos ben\u00e9ficos, se n\u00e3o sentires um estremecimento involunt\u00e1rio, \u00e9 que a tua prece n\u00e3o foi bastante fervorosa para ser ouvida.<\/p>\n<p>\u00c9 s\u00f3 nestas condi\u00e7\u00f5es que a prece pode tornar-se valiosa.<\/p>\n<p>Nem outra coisa resulta de dizer:  Deus Todo-Poderoso, Pai de bondade e miseric\u00f3rdia infinita, permiti que os bons Esp\u00edritos me assistam na cura de.<br \/>.<br \/>.<br \/> Tende piedade dele, Senhor; restitui-lhe a sa\u00fade, porque, sem V\u00f3s, eu nada posso fazer.<br \/> Seja feita a vossa vontade .<\/p>\n<p>Tens feito bem em n\u00e3o desdenhar os humildes; a voz daquele que sofreu resignadamente as mis\u00e9rias desse mundo \u00e9 sempre ouvida e nenhum servi\u00e7o deixa jamais de ser recompensado.<br \/> Agora, uma palavra a meu respeito, confirmativa do que te disse supracitadamente.<br \/> O Espiritismo te explica a minha linguagem de Esp\u00edrito, sem que ali\u00e1s me seja preciso entrar em min\u00facias a este respeito.<br \/> Outrossim, julgo in\u00fatil falar-te da minha exist\u00eancia anterior.<br \/> A situa\u00e7\u00e3o em que me conheceste na Terra te far\u00e1 compreender e julgar as precedentes encarna\u00e7\u00f5es, nem sempre isentas de m\u00e1culas.<br \/> Condenada a uma exist\u00eancia miser\u00e1vel, enferma, inv\u00e1lida, mendiguei em toda a minha vida.<br \/> N\u00e3o acumulei dinheiro, e na velhice as parcas economias n\u00e3o passavam de uma centena de francos, reservados para a hip\u00f3tese de ficar amarrada no leito entrevada.<\/p>\n<p>Deus, julgando suficiente a expia\u00e7\u00e3o e a prova, deu-lhes um termo e libertou-me da vida terrestre sem sofrimentos, porquanto n\u00e3o me suicidei, como a princ\u00edpio julgaram.<\/p>\n<p>Desencarnei subitamente \u00e0 borda do po\u00e7o, quando a Deus enviara da Terra a minha \u00faltima prece.<br \/> Depois, pela declividade do terreno, meu corpo resvalou naturalmente.<\/p>\n<p>N\u00e3o sofri ao dar-se o meu trespasse, e sou feliz por ter cumprido a minha miss\u00e3o sem vacila\u00e7\u00f5es, resignadamente.<br \/> Tornei-me \u00fatil na medida das minhas for\u00e7as, evitando sempre prejudicar os meus semelhantes.<br \/> Hoje recebo o pr\u00eamio e dou gra\u00e7as a Deus, ao nosso Divino Mestre, que mitiga o travo das prova\u00e7\u00f5es, fazendo-nos esquecer, quando encarnados, as faltas do passado, ao mesmo tempo que nos p\u00f5e no caminho almas caridosas, outros tantos auxiliares que atenuam o peso, o fardo das nossas culpas anteriores.<br \/> Persevera tu tamb\u00e9m que, como eu, ser\u00e1s recompensado.<\/p>\n<p>Agrade\u00e7o-te as boas preces e o servi\u00e7o que me prestaste.<br \/> Jamais o esquecerei.<br \/> Um dia nos havemos de tornar a ver e muitas coisas te ser\u00e3o explicadas, coisas essas cuja explica\u00e7\u00e3o hoje seria extempor\u00e2nea.<br \/> Fica certo somente da minha dedica\u00e7\u00e3o, de que estarei ao teu lado sempre que de mim precisares para aliviar aqueles que sofrem.<\/p>\n<p>A mendiga velhinha,<\/p>\n<p>Juliana Maria.<\/p>\n<p>Evocado a 10 de junho de 1864, na Sociedade de Paris, o Esp\u00edrito de Juliana ditou a mensagem seguinte:<\/p>\n<p> Caro presidente: obrigada por quererdes admitir-me ao vosso centro.<br \/> Previstes, sob o ponto de vista social, a superioridade das minhas antecedentes encarna\u00e7\u00f5es, pois, se voltei \u00e0 Terra com a prova de pobreza, foi para punir-me do v\u00e3o orgulho com que repelia os pobres, os miser\u00e1veis.<br \/> Assim, passei pela pena de Tali\u00e3o fazendo-me a mais horrenda mendiga deste pa\u00eds; mas, ainda assim, como que para certificar-me da bondade de Deus, nem por todos fui repelida; e esse era todo o meu temor.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m foi sem queixumes que suportei a prova\u00e7\u00e3o, pressentindo uma vida melhor, da qual n\u00e3o tornaria ao mundo do ex\u00edlio e da calamidade.<br \/> Que ventura a desse dia em que a nossa alma rejuvenescida pode franquear a vida espiritual para a\u00ed rever os seres amados! Sim, porque tamb\u00e9m amei e considero-me feliz pelo encontro daqueles que me precederam.<\/p>\n<p>Obrigada a A.<br \/>.<br \/>.<br \/>, esse bom amigo que me facultou a express\u00e3o do reconhecimento.<br \/> Sem a sua mediunidade eu n\u00e3o lhe poderia provar, agradecida, que minha alma n\u00e3o se esquece das ben\u00e9ficas influ\u00eancias de um cora\u00e7\u00e3o bondoso como o seu, recomendando-lhe que procure progredir em sua divina cren\u00e7a.<br \/> J\u00e1 que ele tem por miss\u00e3o regenerar as almas transviadas, que fique bem certo do meu aux\u00edlio.<br \/> E eu posso retribuir-lhe pelo c\u00eantuplo o que por mim fez, instruindo-o na senda que percorreis.<\/p>\n<p>Agradecei ao Senhor o permitir que os bons Esp\u00edritos vos orientem, a fim de animardes o pobre nas suas m\u00e1goas e deterdes o rico no seu orgulho.<br \/> Capacitai-vos de quanto \u00e9 vergonhosa a repulsa para com os infelizes, servindo-vos o meu exemplo, a fim de evitardes o retorno \u00e0 Terra na expia\u00e7\u00e3o de faltas que vos coloquem t\u00e3o baixo a ponto de serdes socialmente considerado esc\u00f3ria da sociedade.<\/p>\n<p>Juliana Maria.<\/p>\n<p>Transmitida a A.<br \/> esta comunica\u00e7\u00e3o, ele por sua vez obteve a que se segue e o que \u00e9 ali\u00e1s uma confirma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>P.<br \/> Boa Juliana, uma vez que \u00e9 vosso desejo auxiliar-me com os vossos conselhos, a fim de que me adiante em nossa santa Doutrina, vinde comunicar-vos comigo, certa de que me esfor\u00e7arei por aproveitar-vos os ensinamentos.<\/p>\n<p>R.<br \/> Lembra-te da recomenda\u00e7\u00e3o que vou fazer e n\u00e3o te afastes dela nunca.<br \/> Procura sempre ser caridoso na medida de tuas for\u00e7as; compreendes a caridade tal como deve ser praticada em todos os atos da vida.<br \/> N\u00e3o tenho necessidade, por conseguinte, de aconselhar-te uma coisa da qual podes tu mesmo ser o juiz; todavia, dir-te-ei que sigas a voz da consci\u00eancia, a qual jamais te enganar\u00e1, desde que a consultes sinceramente.<br \/> N\u00e3o te iludas com as miss\u00f5es a cumprir; pequenos e grandes, cada qual tem a sua miss\u00e3o.<\/p>\n<p>Penosa foi a minha, por\u00e9m eu fazia jus a tal puni\u00e7\u00e3o em conseq\u00fc\u00eancia das precedentes exist\u00eancias, como confessei ao bom presidente da Sociedade matriz de Paris, que um dia vos h\u00e1 de congregar a todos.<br \/> Esse dia vem menos longe do que sup\u00f5es, pois o Espiritismo caminha a passos largos, apesar de todos os \u00f3bices que se lhe antep\u00f5em.<br \/> Segui, pois, sem temores, fervorosos adeptos; segui, que os vossos esfor\u00e7os ser\u00e3o coroados por outros tantos \u00eaxitos.<br \/> Que vos importa o que de v\u00f3s possam dizer? Colocai-vos, acima da cr\u00edtica irris\u00f3ria, a qual recair\u00e1 sobre os pr\u00f3prios advers\u00e1rios do Espiritismo.<\/p>\n<p>Ah! Os orgulhosos! Julgam-se fortes pensando poder aniquilar-vos, mas.<br \/>.<br \/>.<br \/> bons amigos, tranquilizai-vos e n\u00e3o receeis enfrent\u00e1-los, porque s\u00e3o menos invenc\u00edveis do que porventura possais supor.<br \/> Dentre eles, h\u00e1 muitos receosos de que a verdade lhes venha deslumbrar os olhos.<br \/> Esperai, que acabar\u00e3o por vir auxiliar a coroa\u00e7\u00e3o da obra.<\/p>\n<p>Juliana Maria.<\/p>\n<p>Aqui est\u00e1 um fato repleto de ensinamentos.<br \/> Quem se dignar meditar sobre estas tr\u00eas comunica\u00e7\u00f5es, nelas encontrar\u00e1 condensados todos os grandes princ\u00edpios do Espiritismo.<\/p>\n<p>Logo na primeira comunica\u00e7\u00e3o, o Esp\u00edrito manifesta a sua superioridade pela linguagem; como g\u00eanio benfazejo e como que metamorfoseada, esta mulher radiante vem proteger aqueles mesmos que a desprezaram sob os andrajos da mis\u00e9ria.<\/p>\n<p>\u00c9 a aplica\u00e7\u00e3o destas m\u00e1ximas evang\u00e9licas:  Os grandes ser\u00e3o rebaixados e os pequenos ser\u00e3o exaltados; felizes os humildes, felizes os aflitos, porque ser\u00e3o consolados; n\u00e3o desprezeis os pequenos, porque aquele que vos parece pequeno neste mundo, pode ser bem maior do que julgais .<\/p>\n<p>Max, o mendigo<\/p>\n<p>Em 1850, numa vila da Baviera, morreu um velho quase centen\u00e1rio, conhecido por pai Max.<br \/> Por n\u00e3o possuir fam\u00edlia, ningu\u00e9m lhe determinava a origem.<br \/> Havia cerca de meio s\u00e9culo que se invalidara para ganhar a vida, sem outro recurso al\u00e9m da mendicidade, que ele dissimulara, procurando vender pelas herdades e castelos, almanaques e outras miudezas.<br \/> Deram-lhe a alcunha de conde Max e as crian\u00e7as o chamavam somente pelo t\u00edtulo, circunst\u00e2ncia esta que o fazia rir sem agastamento.<br \/> Por que esse t\u00edtulo? Ningu\u00e9m saberia diz\u00ea-lo.<br \/> O h\u00e1bito o sancionara.<br \/> Talvez tivesse provindo da sua fisionomia, das suas maneiras, cuja distin\u00e7\u00e3o fazia contraste com a miserabilidade dos andrajos.<\/p>\n<p>Muitos anos depois da morte, Max apareceu em sonho \u00e0 filha do propriet\u00e1rio de um castelo em cuja estrebaria era outrora hospedado, porque n\u00e3o possu\u00eda domic\u00edlio pr\u00f3prio.<br \/> Nessa apari\u00e7\u00e3o, disse ele:  Agrade\u00e7o o terdes vos lembrado do pobre Max nas vossas preces, porque o Senhor as ouviu.<br \/> Alma caritativa, que vos interessastes pela pobre mendigo, j\u00e1 que quereis saber quem sou, vou satisfazer-vos, ministrando, ao mesmo tempo e a todos, um grande ensinamento.<\/p>\n<p>H\u00e1 cerca de s\u00e9culo e meio era eu um dos ricos e poderosos senhores desta regi\u00e3o, por\u00e9m orgulhoso da minha nobreza.<br \/> A fortuna imensa, al\u00e9m de s\u00f3 me servir aos prazeres, mal chegava para o jogo, para a libertinagem, para as orgias, que eram a minha \u00fanica preocupa\u00e7\u00e3o na vida.<\/p>\n<p>Quanto aos vassalos, porque os julgasse animais de trabalho destinados a servir-me, eram espezinhados e oprimidos a fim de que provessem \u00e0s minhas dissipa\u00e7\u00f5es.<br \/> Surdo aos queixumes deles, como em regra tamb\u00e9m o era com todos os infelizes, julgava eu que eles ainda se deveriam ter por honrados, em satisfazer-me aos caprichos.<br \/> Morri cedo, exausto pelos excessos, mas sem ter, realmente, experimentado qualquer desgra\u00e7a real.<br \/> Ao contr\u00e1rio, tudo parecia sorrir-me, a ponto de passar por um dos seres mais ditosos do mundo.<\/p>\n<p>Tive funerais suntuosos e os bo\u00eamios lamentavam a perda do rica\u00e7o, mas a verdade \u00e9 que sobre o meu t\u00famulo nenhuma l\u00e1grima se derramou, nenhuma prece por mim se fez a Deus, de cora\u00e7\u00e3o, enquanto minha mem\u00f3ria era amaldi\u00e7oada por todos aqueles para cuja mis\u00e9ria contribu\u00edra.<\/p>\n<p>Ah! Como \u00e9 terr\u00edvel a maldi\u00e7\u00e3o daqueles que prejudicamos! Pois essa maldi\u00e7\u00e3o n\u00e3o deixou de ressoar-me aos ouvidos durante longos anos que me pareceram uma eternidade.<br \/> Depois por morte de cada uma das v\u00edtimas, era um novo espectro amea\u00e7ador ou sarc\u00e1stico erguido diante de mim, a perseguir-me sem tr\u00e9guas, sem que eu pudesse encontrar um v\u00e3o lugar onde me furtasse \u00e0s suas vistas! Nem um olhar amigo!<\/p>\n<p>Os antigos companheiros de devassid\u00e3o, infelizes como eu, fugiam, parecendo dizer-me desdenhosos:  Tu n\u00e3o podes mais custear os nossos prazeres .<br \/> Oh! Ent\u00e3o, quanto daria eu por um instante de repouso, por um copo d \u00e1gua para saciar a sede ardente que me devorava! Entretanto eu nada mais possu\u00eda, e todo o ouro a jorros derramado sobre a Terra n\u00e3o produzia uma s\u00f3 b\u00ean\u00e7\u00e3o, uma s\u00f3 que fosse.<br \/>.<br \/>.<br \/> ouviste, minha filha?!<\/p>\n<p>Cansado por fim, oprimido, como viajor que n\u00e3o lobriga o termo da jornada, exclamei;  Meu Deus, tende compaix\u00e3o de mim! Quando terminar\u00e1 esta situa\u00e7\u00e3o horr\u00edvel?!  Ent\u00e3o uma voz \u2014 primeira que ouvi depois de haver deixado a Terra disse:  Quando quiseres .<br \/> Que ser\u00e1 preciso fazer, grande Deus? \u2014 repliquei.<br \/> Dizei-o, que a tudo me sujeitarei.<br \/> \u2014  \u00c9 preciso o arrependimento, \u00e9 preciso te humilhares perante os mesmos a quem humilhaste; pedir-lhes que intercedam por ti, porque a prece do ofendido que perdoa \u00e9 sempre agrad\u00e1vel ao Senhor .<\/p>\n<p>Humilhei-me, pedi aos meus vassalos e servidores que ali estavam diante de mim, e cujos semblantes, pouco a pouco mais ben\u00e9volos, acabaram por desaparecer.<br \/> Isso foi para mim como que uma nova vida; o desespero deu lugar \u00e0 esperan\u00e7a, enquanto eu agradecia a Deus com todas as for\u00e7as de minha alma.<\/p>\n<p>A voz acrescentou:  Pr\u00edncipe.<br \/>.<br \/>.<br \/>  ao que respondi:  N\u00e3o h\u00e1 aqui outro pr\u00edncipe sen\u00e3o Deus, o Deus Onipotente que humilha os soberbos.<br \/> Perdoai-me Senhor, porque pequei; e se tal for da vossa vontade, fazei-me servo dos meus servos .<\/p>\n<p>Alguns anos depois reencarnei numa fam\u00edlia de burgueses pobres.<br \/> Ainda crian\u00e7a perdi meus pais e fiquei s\u00f3, no mundo, desamparado.<br \/> Ganhei a vida como pude, ora como oper\u00e1rio, ora como trabalhador de campo, mas sempre honestamente, porque j\u00e1 cria em Deus.<\/p>\n<p>Aos quarenta anos fiquei inteiramente paral\u00edtico, sendo-me preciso da\u00ed por diante mendigar por mais de cinq\u00fcenta anos, por essas mesmas terras de que fora o absoluto senhor.<br \/> Nas herdades que me haviam pertencido, recebia uma migalha de p\u00e3o, feliz quando por abrigo me davam a coberta de uma estrebaria.<br \/> Ainda por uma acerba ironia do destino, apelidaram-me Sr.<br \/> Conde.<br \/>.<br \/>.<\/p>\n<p>Durante o sono, aprazia-me percorrer esse mesmo castelo onde reinei despoticamente, revendo-me no fausto da minha antiga fortuna! Ao despertar, sentia das vis\u00f5es uma impress\u00e3o de amargura e tristeza, mas nunca uma s\u00f3 queixa se me escapou dos l\u00e1bios; e quando a Deus aprouve chamar-me, exaltei a sua gl\u00f3ria por me haver sustentado com firmeza e resigna\u00e7\u00e3o numa prova t\u00e3o penosa, da qual hoje recebo a recompensa.<br \/> Quanto a v\u00f3s, minha filha, eu vos bendigo por terdes orado por mim.<\/p>\n<p>Para este fato pedimos a aten\u00e7\u00e3o de todos quantos pretendem que, sem a perspectiva das penas eternas, os homens deixariam de ter um freio \u00e0s suas paix\u00f5es.<br \/> Um castigo como este do pai Max ser\u00e1 porventura menos prof\u00edcuo do que essas penas sem fim, nas quais hoje ningu\u00e9m acredita?<\/p>\n<p>Hist\u00f3ria de um criado<\/p>\n<p>Servindo a uma fam\u00edlia de alta posi\u00e7\u00e3o, era um mo\u00e7o cujos tra\u00e7os fision\u00f4micos, cujo ar inteligente, surpreendiam por sua distin\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em suas maneiras nada havia de r\u00fastico ou plebeu e, ao mesmo tempo que diligenciava bem servir aos patr\u00f5es, estava longe de ostentar quaisquer servilismos, ali\u00e1s muito pr\u00f3prios das pessoas que conhec\u00earamos, e porque n\u00e3o o vissemos, perguntamos se o haviam despedido.<br \/> Disseram-nos que tinha ido passar alguns dias na sua terra natal, e que l\u00e1 falecera.<\/p>\n<p>Disseram-nos mais, que muito lamentavam a perda de t\u00e3o excelente mo\u00e7o, possuidor de sentimentos assaz elevados para a sua posi\u00e7\u00e3o.<br \/> Acrescentaram que ele lhes era muito dedicado, dando provas de grande afei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mais tarde, veio-nos a id\u00e9ia de evocar esse rapaz, e eis o que nos disse ele:<\/p>\n<p> Na pen\u00faltima encarna\u00e7\u00e3o, havia eu nascido de muito boa fam\u00edlia, como se diz na Terra, mas cujos bens estavam arruinados pelas prodigalidades de meu pai.<br \/> \u00d3rf\u00e3o muito crian\u00e7a, um amigo deste recolheu-me e mandou educar-me excelentemente como um filho, educa\u00e7\u00e3o essa que me suscitou uma leve vaidade.<br \/> Meu protetor, de ent\u00e3o, \u00e9 hoje o Sr.<br \/> G.<br \/>, ao servi\u00e7o do qual me conhecestes.<\/p>\n<p>\u00c9 que eu quis expiar o orgulho, na \u00faltima exist\u00eancia, sob a condi\u00e7\u00e3o de criado, provando ao mesmo tempo a dedica\u00e7\u00e3o devida ao meu benfeitor.<br \/> Cheguei mesmo a salvar-lhe a vida sem que ele o soubesse.<br \/> Isso constituiu tamb\u00e9m uma prova\u00e7\u00e3o da qual sa\u00ed vitorioso e bastante confortado para n\u00e3o me deixar corromper num meio vicioso.<br \/> Conservando-me impoluto, a despeito dos maus exemplos, agrade\u00e7o a Deus a recompensa, na felicidade que hoje gozo.<\/p>\n<p>P.<br \/> Em que circunst\u00e2ncias salvaste a vida do Sr.<br \/> G.<br \/>.<br \/>.<br \/>?<\/p>\n<p>R.<br \/> Evitando que fosse esmagado por uma grande \u00e1rvore enquanto passeava a cavalo.<br \/> Eu que o seguia s\u00f3, percebi a imin\u00eancia do perigo, e com um grito lancinante fi-lo voltar r\u00e1pido, enquanto o tronco se abatia.<\/p>\n<p>O Sr.<br \/> G.<br \/>.<br \/>.<br \/> a quem referimos o fato, dele se lembrou perfeitamente.<\/p>\n<p>P.<br \/> Por que desencarnaste t\u00e3o jovem?<\/p>\n<p>R.<br \/> Porque Deus julgou suficiente a prova.<\/p>\n<p>P.<br \/> Como pudeste aproveitar essa prova\u00e7\u00e3o quando n\u00e3o t\u00ednheis no\u00e7\u00e3o da sua causa anterior?<\/p>\n<p>R.<br \/> Na humildade da minha condi\u00e7\u00e3o ainda me restava um instinto daquele orgulho; fui feliz por t\u00ea-Ia conseguido domar, tornando proveitosa a prova\u00e7\u00e3o que, a n\u00e3o ser assim, eu teria de come\u00e7ar.<br \/> Nos seus momentos de liberdade o meu Esp\u00edrito se lembrava do que fora e ao despertar lhe invadia um desejo intuitivo de resistir \u00e0s m\u00e1s tend\u00eancias.<br \/> Tive mais m\u00e9rito lutando assim do que se tivesse a lembran\u00e7a do passado.<br \/> Com essa lembran\u00e7a, o orgulho de outros tempos se teria exaltado, perturbando-me, ao passo que deste modo apenas tive que combater as influ\u00eancias nocivas da minha nova condi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>P.<br \/> De que serviu terdes recebido uma brilhante educa\u00e7\u00e3o, uma vez que na \u00faltima encarna\u00e7\u00e3o n\u00e3o vos era poss\u00edvel lembrar os conhecimentos adquiridos?<\/p>\n<p>R.<br \/> Tais conhecimentos, dada a minha ulterior condi\u00e7\u00e3o, seriam sup\u00e9rfluos; por isso ficaram num estado latente para que hoje eu os reencontrasse.<br \/> Mas aqueles conhecimentos n\u00e3o me foram de todo in\u00fateis, uma vez que desenvolvendo-me a intelig\u00eancia, me incutiram predile\u00e7\u00e3o instintiva pelas coisas elevadas e repugn\u00e2ncia pelos baixos e ign\u00f3beis exemplos que tinha \u00e0 vista.<br \/> Sem aquela educa\u00e7\u00e3o, eu n\u00e3o passaria de um criado.<\/p>\n<p>P.<br \/> A abnega\u00e7\u00e3o dos criados para com os patr\u00f5es ter\u00e1 por ascendente o fato de rela\u00e7\u00f5es anteriores?<\/p>\n<p>R.<br \/> Sem d\u00favida, e ao menos \u00e9 esse o caso comum.<br \/> \u00c0s vezes esses criados s\u00e3o membros da mesma fam\u00edlia, ou, como no meu caso, escravos da gratid\u00e3o e que procuram saldar uma d\u00edvida, ao mesmo tempo concorrendo para que progridam por sua dedica\u00e7\u00e3o.<br \/> V\u00f3s n\u00e3o compreendeis todos os efeitos da simpatia que a anterioridade de rela\u00e7\u00f5es produz no mundo.<br \/> A morte em absoluto n\u00e3o interrompe essas rela\u00e7\u00f5es, que podem perpetuar-se por s\u00e9culos e s\u00e9culos.<\/p>\n<p>P.<br \/> Por que s\u00e3o hoje t\u00e3o raros esses exemplos de dedica\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>R.<br \/> Acusai a fei\u00e7\u00e3o ego\u00edstica e orgulhosa do vosso s\u00e9culo, agravada ainda pela incredulidade das id\u00e9ias materialistas.<br \/> \u00c0 verdadeira f\u00e9 antep\u00f5e-se presentemente a cobi\u00e7a, a avidez do ganho, em detrimento da abnega\u00e7\u00e3o.<br \/> Induzindo os homens \u00e0 verdade, o Espiritismo far\u00e1 reviver igualmente as virtudes esquecidas.<\/p>\n<p>Nada melhor do que este exemplo para evidenciar o benef\u00edcio do esquecimento em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s exist\u00eancias anteriores.<\/p>\n<p>Se G.<br \/> tivesse ci\u00eancia do que havia dito o seu criado, ficaria para com ele numa posi\u00e7\u00e3o embara\u00e7osa, nem o conservaria como criado, obstando, por conseguinte a uma prova\u00e7\u00e3o proveitosa para ambos.<\/p>\n<p>Antonio B.<br \/>.<br \/>.<\/p>\n<p>(Enterrado vivo \u2014 Pena de Tali\u00e3o)<\/p>\n<p>Antonio B.<br \/>.<br \/>.<br \/>, escritor de estimad\u00edssimo merecimento, que exercera com distin\u00e7\u00e3o e integridade muitos cargos p\u00fablicos na Lombardia, pelo ano de 1850 caiu aparentemente morto, de um ataque catal\u00e9ptico.<\/p>\n<p>Como algumas vezes sucede em casos dessa natureza, a sua morte foi considerada real, concorrendo ainda mais para o engano os vest\u00edgios da decomposi\u00e7\u00e3o assinalados no corpo.<\/p>\n<p>Quinze dias depois do enterro, uma circunst\u00e2ncia fortuita determinou a exuma\u00e7\u00e3o, a pedido da fam\u00edlia.<br \/> Tratava-se de um medalh\u00e3o por acaso esquecido no caix\u00e3o.<br \/> Qual n\u00e3o foi, por\u00e9m, o espanto dos assistentes quando, ao abrir este, notaram que o corpo havia mudado de posi\u00e7\u00e3o, voltando-se de bru\u00e7os e \u2014 coisa horr\u00edvel \u2014 que uma das m\u00e3os havia sido comida em parte pelo defunto.<\/p>\n<p>Ficou ent\u00e3o patente que o infeliz Antonio B.<br \/>.<br \/>.<br \/> fora enterrado vivo e deveria ter sucumbido de desespero e por fome.<\/p>\n<p>Evocado na Sociedade de Paris, em agosto de 1861, a pedido de parentes, deu as seguintes explica\u00e7\u00f5es:<\/p>\n<p>1.<br \/> Evoca\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Que quereis?<\/p>\n<p>2.<br \/> A pedido de um vosso parente, n\u00f3s vos evocamos com prazer e seremos felizes se quiserdes responder-nos.<\/p>\n<p>R.<br \/> Sim, desejo faz\u00ea-lo.<\/p>\n<p>3.<br \/> Lembrai-vos dos incidentes da vossa morte?<\/p>\n<p>R.<br \/> Ah! Certamente que me lembro; mas por que avivar essa lembran\u00e7a do castigo?<\/p>\n<p>4.<br \/> Efetivamente foste enterrado por descuido?<\/p>\n<p>R.<br \/> Assim deveria ser, visto revestir-se a morte aparente de todos os caracter\u00edsticos da morte real; eu estava quase exangue.<br \/>(64)<\/p>\n<p>N\u00e3o se deve, por\u00e9m, imputar a ningu\u00e9m um acontecimento que me estava reservado desde que nasci.<\/p>\n<p>5.<br \/> Incomodam-vos essas perguntas? Ser\u00e1 mister lhe darmos fim?<\/p>\n<p>R.<br \/> N\u00e3o.<br \/> Podeis continuar.<\/p>\n<p>6.<br \/> Porque deixaste a reputa\u00e7\u00e3o de um homem de bem, esper\u00e1vamos que f\u00f4sseis feliz.<\/p>\n<p>R.<br \/> Eu vos agrade\u00e7o, pois sei que haveis de interceder por mim.<br \/> Vou fazer o poss\u00edvel para vos responder e, se n\u00e3o o puder fazer, o far\u00e1 um dos vossos Guias por mim.<\/p>\n<p>7.<br \/> Podeis descrever-nos as vossas sensa\u00e7\u00f5es daquele momento?<\/p>\n<p>R.<br \/> Que dolorosa prova\u00e7\u00e3o sentir-me encerrado entre quatro t\u00e1buas, tolhido, absolutamente tolhido! Gritar! Imposs\u00edvel!<\/p>\n<p>A voz, por falta de ar, n\u00e3o tinha eco! Ah! Que tortura a do infeliz que em v\u00e3o se esfor\u00e7a para respirar num ambiente limitado! Eu era como um condenado \u00e0 boca de um forno, abstra\u00e7\u00e3o feita do calor.<br \/> A ningu\u00e9m desejo um fim rematado por semelhantes torturas.<br \/> N\u00e3o, n\u00e3o desejo a ningu\u00e9m um fim assim! Oh! Cruel puni\u00e7\u00e3o de cruel e feroz exist\u00eancia! N\u00e3o saberia dizer no que ent\u00e3o pensava; apenas revendo o passado, vagamente entrevia o futuro.<\/p>\n<p>8.<br \/> Disseste cruel puni\u00e7\u00e3o de feroz exist\u00eancia.<br \/>.<br \/>.<br \/> Como se pode conciliar esta afirmativa com a vossa reputa\u00e7\u00e3o ilibada?<\/p>\n<p>R.<br \/> Que vale uma exist\u00eancia diante da eternidade?!<\/p>\n<p>Certamente procurei ser honesto e bom na minha \u00faltima encarna\u00e7\u00e3o, mas eu aceitara um tal ep\u00edlogo previamente, isto \u00e9, antes de encarnar.<br \/> Ah! Por que interrogar-me sobre esse passado doloroso que s\u00f3 eu e os bons Esp\u00edritos enviados do Senhor conhec\u00edamos? Mas, visto que assim \u00e9 preciso, dir-vos-ei que numa exist\u00eancia anterior eu enterrara viva uma mulher \u2014 a minha mulher, e por sinal que num fosso! A pena de Tali\u00e3o devia ser-me aplicada.<br \/> Olho por olho, dente por dente.<\/p>\n<p>9.<br \/> Agradecemos essas respostas e pedimos a Deus vos perdoe o passado, em aten\u00e7\u00e3o ao m\u00e9rito da vossa \u00faltima encarna\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>R.<br \/> Voltarei mais tarde, mas, n\u00e3o obstante, o Esp\u00edrito de Erasto completar\u00e1 esta minha comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Instru\u00e7\u00f5es do Guia do M\u00e9dium<\/p>\n<p>Por essa comunica\u00e7\u00e3o podeis inferir a correlatividade e depend\u00eancia imediata das vossas exist\u00eancias entre si; as tribula\u00e7\u00f5es, as vicissitudes, as dificuldades e dores humanas s\u00e3o sempre as conseq\u00fc\u00eancias de uma vida anterior, culposa ou mal aproveitada.<br \/> Devo todavia dizer-vos que desfechos como este de Antonio B.<br \/>.<br \/>.<br \/> s\u00e3o raros, visto como se assim terminou uma exist\u00eancia correta, foi por t\u00ea-lo solicitado ele pr\u00f3prio, com o objetivo de abreviar a sua erraticidade e atingir mais r\u00e1pido as esferas superiores.<br \/> Efetivamente, depois de um per\u00edodo de perturba\u00e7\u00e3o e sofrimento moral, inerente \u00e0 expia\u00e7\u00e3o do hediondo crime, ser-lhe-\u00e1 perdoado este, e ele se al\u00e7ar\u00e1 a um mundo melhor, onde o espera a v\u00edtima que h\u00e1 muito lhe perdoou.<br \/> Aproveitai este exemplo cruel, queridos esp\u00edritos, a fim de suportardes, com paci\u00eancia, os sofrimentos morais e f\u00edsicos e todas as pequenas mis\u00e9rias da Terra.<\/p>\n<p>P.<br \/> Que proveito pode a Humanidade auferir de semelhantes puni\u00e7\u00f5es?<\/p>\n<p>R.<br \/> As penas n\u00e3o existem para desenvolver a Humanidade, por\u00e9m para puni\u00e7\u00e3o daqueles que erram.<br \/> De fato, a Humanidade n\u00e3o pode ter interesse algum no sofrimento de um dos seus membros.<br \/> Neste caso, a puni\u00e7\u00e3o foi apropriada \u00e0 falta.<br \/> Por que h\u00e1 loucos, idiotas, paral\u00edticos?<\/p>\n<p>Por que morrem estes queimados, enquanto aqueles padecem as torturas de longa agonia entre a vida e a morte?<\/p>\n<p>Ah! Crede-me; respeitai a soberana vontade e n\u00e3o procureis sondar a raz\u00e3o dos decretos da Provid\u00eancia! Deus \u00e9 justo e s\u00f3 faz o bem.<\/p>\n<p>(64) Privado de circula\u00e7\u00e3o do sangue.<br \/> Descolora\u00e7\u00e3o da pele; priva\u00e7\u00e3o do sangue.<\/p>\n<p>Erasto.<\/p>\n<p>Esse fato n\u00e3o encerra ensinamento terr\u00edvel? A justi\u00e7a de Deus \u00e0s vezes tardia, nem por isso deixa de atingir o culpado, prosseguindo em seu aviso.<br \/> \u00c9 altamente moralizador o saber-se que, se grandes culpados acabam pacificamente na abund\u00e2ncia de bens terrenos, nem por isso deixar\u00e1 de soar cedo ou tarde, para eles, a hora da expia\u00e7\u00e3o.<br \/> Penas tais s\u00e3o compreens\u00edveis, n\u00e3o s\u00f3 por estarem mais ou menos ao alcance das nossas vistas, mas tamb\u00e9m por serem l\u00f3gicas.<br \/> Cremos, porque a raz\u00e3o admite.<br \/> Uma exist\u00eancia honrosa n\u00e3o exclui, portanto, as prova\u00e7\u00f5es da vida, que s\u00e3o escolhidas e aceitas como complemento de expia\u00e7\u00e3o \u2014o restante do pagamento de uma d\u00edvida saldada antes de receber o pre\u00e7o do progresso realizado.<\/p>\n<p>Considerando quanto nos s\u00e9culos passados eram freq\u00fcentes, mesmo nas classes mais elevadas e esclarecidas, os atos de barb\u00e1rie que hoje repugnam; quantos assass\u00ednios cometidos naqueles tempos de menosprezo pela vida de outrem, esmagado o fraco pelos poderosos sem escr\u00fapulos; ent\u00e3o compreenderemos que muitos dos nossos contempor\u00e2neos t\u00eam de expungir m\u00e1culas passadas, e tampouco nos admiraremos do n\u00famero consider\u00e1vel de pessoas que sucumbem vitimadas por acidentes isolados ou por cat\u00e1strofes coletivas.<\/p>\n<p>O despotismo, o fanatismo, a ignor\u00e2ncia e os preconceitos na Idade M\u00e9dia e dos s\u00e9culos que se seguiram, legaram \u00e0s gera\u00e7\u00f5es futuras uma d\u00edvida enorme, que ainda n\u00e3o est\u00e1 saldada.<\/p>\n<p>Muitas desgra\u00e7as nos parecem imerecidas, somente porque apenas vemos o presente.<\/p>\n<p>Letil<\/p>\n<p>Esse industrial, que residiu nos arredores de Paris, morreu em abril de 1864, de modo horroroso.<br \/> Incendiando-se uma caldeira de verniz fervente, foi num abrir e fechar de olhos que o seu corpo se cobriu de mat\u00e9ria candecente, pelo que logo compreendeu ele que estava perdido.<br \/> Achando-se na oficina apenas com um rapaz aprendiz, ainda teve \u00e2nimo de dirigir-se ao seu domic\u00edlio, \u00e0 dist\u00e2ncia de mais de 300 metros.<\/p>\n<p>Quando lhe puderam prestar os primeiros socorros, j\u00e1 as carnes dilaceradas ca\u00edam aos peda\u00e7os, desnudos os ossos de uma parte do corpo e da face.<br \/> Ainda assim, sobreviveu doze horas a cruciantes sofrimentos, mas conservando toda a presen\u00e7a de esp\u00edrito at\u00e9 o \u00faltimo momento, predispondo os seus neg\u00f3cios com perfeita lucidez.<\/p>\n<p>Em toda a cruel agonia n\u00e3o lhe ouviram um s\u00f3 gemido, um s\u00f3 queixume, e morreu orando a Deus.<br \/> Era um homem honrad\u00edssimo, de car\u00e1ter meigo e afetuoso, amado, prezado de todos os que o conheciam.<br \/> Tamb\u00e9m acatara com entusiasmo, por\u00e9m pouco refletidamente, as id\u00e9ias esp\u00edritas, e assim foi que, m\u00e9dium, n\u00e3o lhe faltaram in\u00fameras mistifica\u00e7\u00f5es, as quais, seja dito, em nada lhe abalaram a cren\u00e7a.<\/p>\n<p>Em certos casos, a confian\u00e7a no que os Esp\u00edritos lhe diziam, ia at\u00e9 \u00e0 ingenuidade.<\/p>\n<p>Evocado na Sociedade de Paris, a 29 de abril de 1864, poucos dias ap\u00f3s a morte e ainda sob a impress\u00e3o da cena terr\u00edvel que o vitimou, deu a seguinte comunica\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p> Profunda tristeza me acabrunha! Aterrado ainda pela minha tr\u00e1gica morte, julgo-me sob os ferros de um algoz.<\/p>\n<p>Quanto sofri! .<br \/>.<br \/>.<br \/> Oh! Quanto sofri! Estou tr\u00eamulo, como que sentindo o cheiro nauseante de carnes queimadas.<br \/> Agonia de 12 horas, essa que padeceste, oh! Esp\u00edrito culpado! Mas ele a sofreu sem murmura\u00e7\u00f5es e por isso vai receber de Deus o seu perd\u00e3o.<br \/> Esposa minha muito amada, n\u00e3o chore, que em breve estas dores se acalmar\u00e3o.<br \/> Eu n\u00e3o mais sofro na realidade.<br \/> Auxilia-me muito a no\u00e7\u00e3o do Espiritismo e agora vejo que, sem essa consoladora cren\u00e7a, teria permanecido no del\u00edrio da morte horr\u00edvel que padeci.<\/p>\n<p>H\u00e1, por\u00e9m, um Esp\u00edrito consolador que n\u00e3o me deixa, desde que exalei o \u00faltimo suspiro.<br \/> Eu ainda falava, e j\u00e1 o tinha a meu lado.<br \/>.<br \/>.<br \/> Parecia-me ser um reflexo das minhas dores a produzir em mim vertigens, que me fizessem ver fantasmas.<br \/>.<br \/>.<br \/> Mas n\u00e3o; era o meu anjo de guarda que, silencioso e mudamente, me consolava pelo cora\u00e7\u00e3o.<br \/> Logo que me despedi da Terra, disse-me ele;  Vem, meu filho, torna a ver o dia .<br \/> Ent\u00e3o respirei mais livremente, julgando-me livre de medonho pesadelo; perguntei pela esposa e ele me disse;  Est\u00e3o todos na Terra, e tu, filho, est\u00e1s entre n\u00f3s .<\/p>\n<p>Eu procurava o lar, onde, sempre em companhia do anjo, vi todos banhados de pranto.<br \/> A tristeza e o luto haviam invadido aquela habita\u00e7\u00e3o outrora pac\u00edfica.<br \/> N\u00e3o pude por mais tempo tolerar o espet\u00e1culo e, comovid\u00edssimo, disse ao meu Guia: Oh! Meu bom anjo, saiamos daqui.<br \/> Sim, saiamos, respondeu-me, e procuremos repouso.<br \/> Da\u00ed para c\u00e1 tenho sofrido menos e, se n\u00e3o tivesse visto inconsol\u00e1veis a esposa e os filhos e tristes os amigos, seria quase feliz.<\/p>\n<p>O meu bom Guia fez-me ver a causa da morte horr\u00edvel que tive, e eu, a fim de vos instruir, vou cont\u00e1-la para v\u00f3s.<\/p>\n<p>Vai para dois s\u00e9culos mandei queimar uma rapariga, inocente como se pode ser na sua idade \u201412 a 14 anos.<br \/> Qual a acusa\u00e7\u00e3o que lhe pesava? A cumplicidade em uma conspira\u00e7\u00e3o contra a pol\u00edtica clerical.<br \/> Eu era ent\u00e3o italiano e juiz inquisidor; como os algozes n\u00e3o ousassem tocar o corpo da pobre crian\u00e7a, fui eu mesmo o juiz e o carrasco.<\/p>\n<p>Oh! Quanto \u00e9s grande, justi\u00e7a divina! A ti submetido, prometi a mim mesmo n\u00e3o vacilar no dia do combate, e ainda bem que tive for\u00e7a para manter o compromisso.<br \/> N\u00e3o murmurei, e V\u00f3s me perdoaste, oh! Deus! Quando, por\u00e9m, se me apagar\u00e1 da mem\u00f3ria a lembran\u00e7a da pobre v\u00edtima inocente? Essa lembran\u00e7a \u00e9 que me faz sofrer! \u00c9 mister, portanto, que ela me perdoe.<\/p>\n<p>Oh! V\u00f3s, adeptos da nova doutrina, que freq\u00fcentemente dizeis n\u00e3o poder evitar os males pela ignor\u00e2ncia do passado! Oh! Irm\u00e3os meus! Bendizei antes o Pai, porque se essa lembran\u00e7a vos acompanhasse \u00e0 Terra, n\u00e3o mais haveria a\u00ed repouso em vossos cora\u00e7\u00f5es.<br \/> Como poder\u00edeis v\u00f3s, constantemente assediados pela vergonha, pelo remorso, fruir um s\u00f3 momento de paz?<\/p>\n<p>O esquecimento a\u00ed \u00e9 um benef\u00edcio, porque a lembran\u00e7a aqui \u00e9 uma tortura.<br \/> Mais alguns dias e, como recompensa \u00e0 resigna\u00e7\u00e3o com que suportei as minhas dores, Deus me conceder\u00e1 o esquecimento da falta.<br \/> Eis a promessa que acaba de fazer-me o meu bom anjo.<\/p>\n<p>O car\u00e1ter do Sr.<br \/> Letil, na \u00faltima encarna\u00e7\u00e3o, prova quanto o seu Esp\u00edrito se aperfei\u00e7oou.<br \/> A conduta que teve seria o resultado do arrependimento como das boas resolu\u00e7\u00f5es previamente tomadas, mas isso por si s\u00f3 n\u00e3o bastava: era preciso coroar essas resolu\u00e7\u00f5es com uma grande expia\u00e7\u00e3o; era mister que suportasse como homem o supl\u00edcio a outrem infligido e mais ainda; a resigna\u00e7\u00e3o que, felizmente, n\u00e3o o abandonou nessa terr\u00edvel conting\u00eancia.<br \/> Naturalmente o conhecimento do Espiritismo contribuiu grandemente para sustentar-lhe a f\u00e9, a coragem oriunda da esperan\u00e7a de um futuro.<br \/> Ciente de que as dores f\u00edsicas s\u00e3o provas e expia\u00e7\u00f5es, submeteu-se a elas resignado, dizendo: Deus \u00e9 justo; logo, \u00e9 porque as mereci.<\/p>\n<p>Um S\u00e1bio Ambicioso<\/p>\n<p>Posto nunca tivesse provado as cruciantes ang\u00fastias da mis\u00e9ria, a Sra.<br \/> B.<br \/>.<br \/>.<br \/>, de Bord\u00e9us, teve uma vida de mart\u00edrios f\u00edsicos, em conseq\u00fc\u00eancia de incont\u00e1vel s\u00e9rie de mol\u00e9stias mais ou menos graves, a partir da idade de 5 meses.<br \/> Vivendo 70 anos, quase que anualmente batia \u00e0s portas do t\u00famulo.<br \/> Tr\u00eas vezes envenenada pela terap\u00eautica de uma ci\u00eancia experimental e duvidosa, em ensaios feitos no seu organismo e temperamento, arruinada, ao demais, pelos rem\u00e9dios tanto quanto pela doen\u00e7a, assim viveu entregue a sofrimentos intoler\u00e1veis, que nada podia atenuar.<br \/> Uma sua filha, esp\u00edrita crist\u00e3 e m\u00e9dium, pedia sempre a Deus que lhe suavizasse as cru\u00e9is prova\u00e7\u00f5es.<br \/> Foi por\u00e9m aconselhada pelo seu Guia a pedir simplesmente a for\u00e7a, a calma, a resigna\u00e7\u00e3o para as suportar, fazendo acompanhar esse conselho das seguintes instru\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p> Nessa vida tudo tem sua raz\u00e3o de ser: n\u00e3o h\u00e1 um s\u00f3 dos vossos sofrimentos que n\u00e3o corresponda aos sofrimentos por v\u00f3s causados; n\u00e3o h\u00e1 um s\u00f3 dos vossos excessos que n\u00e3o tenha por conseq\u00fc\u00eancia uma priva\u00e7\u00e3o; n\u00e3o h\u00e1 uma s\u00f3 l\u00e1grima a destilar dos olhos, que n\u00e3o seja destinada a lavar uma falta, um crime qualquer.<\/p>\n<p>Suportai, portanto, com paci\u00eancia e resigna\u00e7\u00e3o as dores f\u00edsicas e morais, por mais cru\u00e9is que elas se vos possam figurar.<br \/> Imaginai o trabalhador que, amortecidos os membros pela fadiga, prossegue no trabalho, porque tem diante de si a dourada espiga, outros tantos frutos da sua perseveran\u00e7a.<br \/> Assim, o destino do infeliz que sofre nesse mundo; a aspira\u00e7\u00e3o da felicidade, que deve constituir-se em fruto de sua paci\u00eancia, o tornar\u00e1 resistente \u00e0s dores ef\u00eameras da Humanidade.<br \/> Eis o que se d\u00e1 com tua m\u00e3e.<br \/> Cada uma das suas dores acolhidas como expiat\u00f3ria, corresponde \u00e0 extin\u00e7\u00e3o de uma n\u00f3doa do passado; e quanto mais cedo as n\u00f3doas todas se extinguirem, tanto mais breve ela ser\u00e1 feliz.<\/p>\n<p>A falta de resigna\u00e7\u00e3o esteriliza o sofrimento que, por isso mesmo, teria de ser recome\u00e7ado.<br \/> Conv\u00e9m-lhe, pois, a coragem e a resigna\u00e7\u00e3o, e o que se faz preciso \u00e9 pedir a Deus e aos bons Esp\u00edritos que lhe concedam.<br \/> Tua m\u00e3e foi outrora um bom m\u00e9dico, vivendo num meio em que f\u00e1cil se lhe tornava o bem-estar, e no qual n\u00e3o lhe faltaram dons nem homenagens.<br \/> Sem ser fil\u00e2ntropo, e, por conseguinte, sem visar o al\u00edvio dos seus irm\u00e3os, mas cioso de gl\u00f3ria e fortuna, quis atingir o apogeu da Ci\u00eancia, para aumentar a reputa\u00e7\u00e3o e a clientela.<br \/> E na consecu\u00e7\u00e3o desse prop\u00f3sito n\u00e3o havia considera\u00e7\u00e3o que o detivesse.<\/p>\n<p>Porque previa um estudo nas convuls\u00f5es que investigava, sua m\u00e3e era martirizada no leito de sofrimentos, enquanto o filho se submetia a experi\u00eancias que deveriam explicar uns tantos fen\u00f4menos; aos velhos abreviava os dias e aos homens vigorosos enfraquecia com ensaios tendentes a comprovar a a\u00e7\u00e3o desse ou daquele medicamento.<br \/> Todas as experi\u00eancias eram tentadas sem que o infeliz paciente delas soubesse ou sequer desconfiasse.<br \/> A satisfa\u00e7\u00e3o da cupidez e do orgulho, a sede de ouro e de renome, foram os m\u00f3veis da sua conduta.<br \/> Foram precisos s\u00e9culos de prova\u00e7\u00f5es terr\u00edveis para domar esse Esp\u00edrito ambicioso e cheio de orgulho, at\u00e9 que o arrependimento iniciasse a obra de regenera\u00e7\u00e3o.<br \/> Agora termina a repara\u00e7\u00e3o, visto como as provas dessa \u00faltima encarna\u00e7\u00e3o podem dizer-se suaves relativamente \u00e0quelas que j\u00e1 suportou.<br \/> Coragem, pois, porque se o castigo foi longo e cruel, grande ser\u00e1 a recompensa \u00e0 resigna\u00e7\u00e3o, \u00e0 paci\u00eancia, \u00e0 humildade.<\/p>\n<p>Coragem, todos v\u00f3s que sofreis: considerai a brevidade da exist\u00eancia material, pensai nas alegrias eternas.<\/p>\n<p>Invocai a esperan\u00e7a, a dedicada amiga dos sofredores: a f\u00e9, sua irm\u00e3, que vos mostra o c\u00e9u, onde com aquela podeis penetrar antecipadamente.<br \/> Atra\u00ed tamb\u00e9m a v\u00f3s esses amigos que o Senhor vos faculta, amigos que vos cercam, que vos sustentam e amam, e cuja solicitude constante vos reconduz, para junto d Aquele a quem haveis ofendido, transgredindo as suas leis.<\/p>\n<p>Depois de haver desencarnado, a Sra.<br \/> B.<br \/>.<br \/>.<br \/> veio dar tanto por interm\u00e9dio de sua filha como na Sociedade de Paris, muitas comunica\u00e7\u00f5es, nas quais se refletem as qualidades mais elevadas, e se confirmam os seus antecedentes.<\/p>\n<p>Carlos de Saint-G.<br \/>.<br \/>.<br \/> (idiota)<\/p>\n<p>(Sociedade Esp\u00edrita de Paris, 1860)<\/p>\n<p>Era um rapaz de 13 anos, ainda encarnado, cujas faculdades intelectuais eram nulas a ponto de n\u00e3o reconhecer os pr\u00f3prios pais, mal podendo tomar por si mesmo o alimento.<br \/> Dava-se nele a completa suspens\u00e3o de desenvolvimento em todo o sistema org\u00e2nico.<\/p>\n<p>1.<br \/> (A S.<br \/> Lu\u00eds) Poderemos evocar o Esp\u00edrito deste menino?<\/p>\n<p>R.<br \/> Sim, \u00e9 como se o fiz\u00e9sseis ao de um desencarnado.<\/p>\n<p>2.<br \/> Essa resposta faz-nos supor que a evoca\u00e7\u00e3o se pode fazer a qualquer hora.<br \/>.<br \/>.<\/p>\n<p>R.<br \/> Sim, visto como presa ao corpo por la\u00e7os materiais, que n\u00e3o espirituais, sua alma pode desligar-se a qualquer hora.<\/p>\n<p>3.<br \/> (Evoca\u00e7\u00e3o de Carlos).<\/p>\n<p>R.<br \/> Sou um pobre Esp\u00edrito preso a Terra por um p\u00e9 como se passarinho fosse.<\/p>\n<p>4.<br \/> Presentemente, isto \u00e9, como Esp\u00edrito, tendes consci\u00eancia de vossa nulidade neste mundo?<\/p>\n<p>R.<br \/> Decerto que sinto o cativeiro.<\/p>\n<p>5.<br \/> Quando o corpo adormece e o vosso Esp\u00edrito se desprende, tendes as id\u00e9ias t\u00e3o l\u00facidas como se estiv\u00e9sseis em estado normal?<\/p>\n<p>R.<br \/> Quando o corpo infeliz repousa, fico um pouco mais livre para al\u00e7ar-me ao c\u00e9u a que aspiro.<\/p>\n<p>6.<br \/> Experimentais no estado espiritual qualquer sensa\u00e7\u00e3o dolorosa oriunda do vosso estado corp\u00f3reo?<\/p>\n<p>R.<br \/> Sim, por isso que \u00e9 uma puni\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>7.<br \/> Lembrai-vos da precedente encarna\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>R.<br \/> Oh! Sim, e ela \u00e9 a causa do meu ex\u00edlio de hoje.<\/p>\n<p>8.<br \/> Que exist\u00eancia era essa?<\/p>\n<p>R.<br \/> A de um jovem libertino no reinado de Henrique III.<\/p>\n<p>9.<br \/> Dizeis ser uma puni\u00e7\u00e3o a vossa condi\u00e7\u00e3o atual.<br \/>.<br \/>.<br \/> acaso n\u00e3o a escolheste?<\/p>\n<p>R.<br \/> N\u00e3o.<\/p>\n<p>10.<br \/> Como pode vossa exist\u00eancia atual servir ao vosso adiantamento no estado de nulidade em que vos achais?<\/p>\n<p>R.<br \/> Para mim n\u00e3o h\u00e1 nulidade, pois foi Deus quem me imp\u00f4s esta conting\u00eancia.<\/p>\n<p>11.<br \/> Podeis prever o tempo de dura\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia atual?<\/p>\n<p>R.<br \/> N\u00e3o, por\u00e9m, mais ano menos ano, reentrarei na minha p\u00e1tria.<\/p>\n<p>12.<br \/> Que fizeste durante o tempo que mediou entre a vossa \u00faltima desencarna\u00e7\u00e3o e a encarna\u00e7\u00e3o atual?<\/p>\n<p>R.<br \/> Deus encarcerou-me; logo, era eu um Esp\u00edrito leviano.<\/p>\n<p>13.<br \/> Tendes, quando acordado, a consci\u00eancia do que se passa, apesar da imperfei\u00e7\u00e3o dos vossos \u00f3rg\u00e3os?<\/p>\n<p>R.<br \/> Vejo e ou\u00e7o, mas meu corpo nada v\u00ea nem percebe.<\/p>\n<p>14.<br \/> Poderemos fazer alguma coisa de proveitoso por ti?<\/p>\n<p>R.<br \/> Nada.<\/p>\n<p>15.<br \/> (A S.<br \/> Lu\u00eds) Tratando-se de Esp\u00edritos encarnados, as preces tem a mesma efic\u00e1cia que para os desencarnados?<\/p>\n<p>R.<br \/> As preces, al\u00e9m de sempre \u00fateis, agradam a Deus.<br \/> No caso deste Esp\u00edrito, elas de nada lhe servem imediatamente, por\u00e9m mais tarde Deus as levar\u00e1 em conta.<\/p>\n<p>Esta evoca\u00e7\u00e3o ratifica o que sempre se disse dos idiotas.<br \/> A nulidade moral n\u00e3o importa nulidade do Esp\u00edrito, que com exce\u00e7\u00e3o dos \u00f3rg\u00e3os, goza de todas as suas faculdades.<br \/> A imperfei\u00e7\u00e3o dos \u00f3rg\u00e3os \u00e9 apenas um obst\u00e1culo \u00e0 livre manifesta\u00e7\u00e3o dos pensamentos.<br \/> \u00c9, pois, o caso de um homem vigoroso, que fosse momentaneamente manietado.<\/p>\n<p>Instru\u00e7\u00e3o de um Esp\u00edrito acerca de idiotas e loucos, dada na Sociedade de Paris.<\/p>\n<p>Os idiotas s\u00e3o os seres castigados pelo mau uso de poderosas faculdades; almas encarceradas em corpos cujos \u00f3rg\u00e3os impotentes n\u00e3o podem exprimir os pr\u00f3prios pensamentos.<br \/> Esse mutismo moral e f\u00edsico constitui uma das mais cru\u00e9is puni\u00e7\u00f5es terrenas, muitas vezes escolhida por Esp\u00edritos arrependidos e desejosos de resgatar suas faltas.<br \/> A prova\u00e7\u00e3o nem por isso \u00e9 improf\u00edcua, porque o Esp\u00edrito n\u00e3o fica estacion\u00e1rio na pris\u00e3o carnal; esses olhos est\u00fapidos v\u00eaem, esses c\u00e9rebros deprimidos concebem, conquanto nada possam traduzir pela palavra e pelo olhar.<\/p>\n<p>Excetuada a mobilidade, o seu estado \u00e9 o de let\u00e1rgicos ou catal\u00e9pticos, que v\u00eaem e ouvem, sem contudo poderem exprimir-se.<br \/> Quando tendes esses horr\u00edveis pesadelos, durante os quais procurais fugir de um perigo, gritando, clamando, n\u00e3o obstante a imobilidade do vosso corpo como da vossa l\u00edngua; quando isso sucede, dizemos, a vossa sensa\u00e7\u00e3o \u00e9 id\u00eantica \u00e0 dos idiotas.<br \/> \u00c9 a paralisia do corpo anexa \u00e0 vida do Esp\u00edrito.<\/p>\n<p>Assim se explicam quase todas as enfermidades, pois nada ocorre sem causa, e o que chamais injusti\u00e7a do destino \u00e9 apenas a aplica\u00e7\u00e3o da mais alta justi\u00e7a.<br \/> A loucura tamb\u00e9m \u00e9 puni\u00e7\u00e3o ao abuso das mais elevadas faculdades; o louco tem duas personalidades, a que delira e a que tem consci\u00eancia dos seus atos sem poder gui\u00e1-los.<\/p>\n<p>Quanto aos idiotas, a vida contemplativa, insulada, da sua alma, sem os prazeres e gozos do corpo, pode igualmente tornar-se agitada pelos acontecimentos, como qualquer das exist\u00eancias mais complicadas; revoltam-se alguns contra o supl\u00edcio volunt\u00e1rio e, lamentando a escolha feita, sentem violento desejo de tornar \u00e0 outra vida, desejo que lhes faz esquecer a resigna\u00e7\u00e3o do presente e o remorso do passado, do qual tem a consci\u00eancia, visto como, embora idiotas e loucos, sabem mais que v\u00f3s, ocultando sob a impot\u00eancia f\u00edsica uma pot\u00eancia moral de que n\u00e3o tendes id\u00e9ia alguma.<\/p>\n<p>Os atos de f\u00faria, como de imbecilidade a que se entregam, s\u00e3o no \u00edntimo julgados pelo seu ser, que deles sofre e se vexa.<br \/> Escarnec\u00ea-los, injuri\u00e1-los, mesmo maltrat\u00e1-los, como por vezes se faz, \u00e9 aumentar-lhes o sofrimento, fazendo-lhes sentir mais cruamente a sua fraqueza e abje\u00e7\u00e3o.<br \/> Pudessem eles e acusariam de covardia aqueles que assim procedem, sabendo que a v\u00edtima n\u00e3o pode defender-se.<\/p>\n<p>A loucura n\u00e3o \u00e9 das leis divinas; resultando materialmente da ignor\u00e2ncia, da sordidez e da mis\u00e9ria, pode o homem debel\u00e1-la.<br \/> Os modernos recursos da higiene, que a Ci\u00eancia modernamente executa e a todos faculta, tende a destru\u00ed-Ia.<br \/> Sendo o progresso condi\u00e7\u00e3o expressa da Humanidade, as prova\u00e7\u00f5es tendem a modificar-se, acompanhando a evolu\u00e7\u00e3o dos s\u00e9culos.<br \/> Dia vir\u00e1 em que as prova\u00e7\u00f5es devam ser todas morais; e quando a Terra, nova ainda, houver preenchido todas as fases da sua exist\u00eancia, ent\u00e3o se transformar\u00e1 em morada de felicidade, como se d\u00e1 com os planetas mais adiantados.<\/p>\n<p>Pedro Jouty (pai do m\u00e9dium)<\/p>\n<p>Houve tempo em que se punha em d\u00favida a exist\u00eancia da alma dos idiotas e se chegava a perguntar se realmente eles pertenciam \u00e0 esp\u00e9cie humana.<br \/> O modo por que o Espiritismo encara os fatos n\u00e3o \u00e9 realmente muito moralizador e instrutivo?<\/p>\n<p>Considerando que esses corpos encerram almas que j\u00e1 tivessem brilhado na Terra; almas t\u00e3o presentes e l\u00facidas como as nossas a despeito do pesado inv\u00f3lucro que lhes abafa as manifesta\u00e7\u00f5es; considerando que o mesmo pode acontecer conosco se abusarmos das faculdades que a Provid\u00eancia nos concedeu; considerando tudo isso, n\u00e3o teremos assunto para s\u00e9rias reflex\u00f5es? Sem admitirmos a pluralidade de exist\u00eancias, como poderemos conciliar imbecilidade com a justi\u00e7a e bondade de Deus? Se a alma n\u00e3o viveu anteriormente, ent\u00e3o \u00e9 porque foi criada ao mesmo tempo que o corpo, e, nesse caso, como explicar a cria\u00e7\u00e3o de almas t\u00e3o prec\u00e1rias da parte de um Deus justo e bom? \u00c9 bem de ver que aqui n\u00e3o se trata da loucura, por exemplo, que se pode prevenir ou curar.<\/p>\n<p>Os idiotas nascem e morrem assim, sem a no\u00e7\u00e3o do bem e do mal.<br \/> Qual portanto, o seu destino na vida eterna? Ser\u00e3o felizes ao lado dos homens inteligentes e laboriosos.<br \/> Mas porque o favoritismo se nada fizeram de bom? Ficar\u00e3o no que chamam limbo, isto \u00e9, um estado misto que n\u00e3o \u00e9 feliz nem infeliz? Mas por que essa eterna inferioridade? Ter\u00e3o eles a culpa de serem por Deus criados idiotas? Desafiamos para que saiam desse impasse a todos quantos negam a reencarna\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Pela reencarna\u00e7\u00e3o, ao contr\u00e1rio, o que se afigura injusti\u00e7a se torna admiravelmente justo, o que parece inexplic\u00e1vel se explicado racionalmente.<\/p>\n<p>Ademais, sabemos que os nossos advers\u00e1rios, os antagonistas desta doutrina, n\u00e3o tem argumentos para combat\u00ea-la sen\u00e3o o receio de terem de voltar \u00e0 Terra.<br \/> Respondemos-lhes: para que volteis n\u00e3o vos \u00e9 pedida a vossa permiss\u00e3o, pois o juiz n\u00e3o consulta a vontade do r\u00e9u para mand\u00e1-lo ao c\u00e1rcere.<br \/> Todos tem a possibilidade de n\u00e3o reencarnar, desde que se aperfei\u00e7oem o bastante para se al\u00e7arem a uma esfera mais elevada.<br \/> O ego\u00edsmo e o orgulho n\u00e3o se compadecem, por\u00e9m, com essas esferas felizes e da\u00ed a necessidade de todos se despojarem dessas enfermidades morais, graduando-se pelo trabalho e pr\u00f3prio esfor\u00e7o.<\/p>\n<p>Sabemos que em determinados pa\u00edses, longe de serem objeto de desprezo, os idiotas s\u00e3o assistidos de ben\u00e9ficos cuidados.<br \/> Essa comisera\u00e7\u00e3o n\u00e3o se filiar\u00e1 numa intui\u00e7\u00e3o do verdadeiro estado desses infelizes, tanto mais dignos de aten\u00e7\u00e3o quanto, por se verem repudiados na sociedade, seus Esp\u00edritos compreendem essa conting\u00eancia? Considera-se mesmo como favor e a\u00e7\u00e3o graciosa a presen\u00e7a de um desses seres no seio da fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 isso supersti\u00e7\u00e3o? Talvez, porque nos ignorantes a supersti\u00e7\u00e3o se confunde com as id\u00e9ias mais santas, por lhe n\u00e3o apreenderem o alcance.<br \/> Mas seja como for, aos parentes se oferece ocasi\u00e3o de exercerem a caridade, tanto mais merit\u00f3ria quanto mais pesado lhes seja esse encargo, de nenhuma compensa\u00e7\u00e3o material.<br \/> H\u00e1 maior m\u00e9rito na cuidadosa assist\u00eancia de um filho desgra\u00e7ado do que na de um filho cujas qualidades ofere\u00e7am qualquer compensa\u00e7\u00e3o.<br \/> Sendo a caridade desinteressada, uma das virtudes mais agrad\u00e1veis a Deus, atrai sempre a sua b\u00ean\u00e7\u00e3o \u00e0queles que a praticam.<br \/> Esse sentimento inato e espont\u00e2neo vale por esta prece:  Obrigado, meu Deus, por nos terdes dado um ser fraco a sustentar, um aflito a consolar.<\/p>\n<p>Adelaide Margarida Gosse<\/p>\n<p>Era uma humilde e pobre criada, de Harfleur, Normandia.<br \/> Aos 11 anos entrou para o servi\u00e7o de alguns horticultores ricos, seus patr\u00edcios.<br \/> Um ano depois, uma inunda\u00e7\u00e3o do Senna arrebatava-lhes, afogando-os, todos os animais! Ainda por outras desgra\u00e7as que se sucederam, os patr\u00f5es da rapariga ca\u00edram na mis\u00e9ria! Adelaide reuniu-se-lhes no infort\u00fanio, abafou a voz do ego\u00edsmo e, s\u00f3 ouvindo o generoso cora\u00e7\u00e3o, obrigou-os a aceitarem quinhentos francos de suas economias, continuando a servi-los independentemente de sal\u00e1rio.<\/p>\n<p>Depois da morte dos patr\u00f5es, passou a dedicar-se a uma filha que deixaram, vi\u00fava e sem recursos.<br \/> Mourejava pelos campos, recolhia o produto, e, casando-se, reuniu os seus esfor\u00e7os aos do marido, para manterem juntos a pobre mulher, a quem continuou a chamar de patroa! Cerca de meio s\u00e9culo durou esta abnega\u00e7\u00e3o sublime.<br \/> A Sociedade de Emula\u00e7\u00e3o, de Ru\u00e3o, n\u00e3o deixou no esquecimento mulher digna de tanto respeito e admira\u00e7\u00e3o, porquanto lhe decretou uma medalha de honra e uma recompensa em dinheiro; a este testemunho associaram-se as lojas ma\u00e7\u00f4nicas do Havre, oferecendo-lhe uma pequena soma destinada ao seu bem-estar.<\/p>\n<p>Finalmente, a administra\u00e7\u00e3o local tamb\u00e9m se interessou por ela, delicadamente, de modo que lhe n\u00e3o ferisse a suscetibilidade.<br \/> Este anjo de bondade foi arrebatado da Terra instant\u00e2nea e suavemente, em conseq\u00fc\u00eancia de um ataque de paralisia.<br \/> Singelas, por\u00e9m decentes, foram as \u00faltimas homenagens que lhe prestaram \u00e0 mem\u00f3ria.<br \/> O secret\u00e1rio da Municipalidade foi \u00e0 frente do cortejo f\u00fanebre.<\/p>\n<p>(Sociedade de Paris \u201427 de dezembro de 1861)<\/p>\n<p>Evoca\u00e7\u00e3o.<br \/> \u2014 Ao Deus Onipotente rogamos nos permita a comunica\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito de Margarida Gosse.<\/p>\n<p>P.<br \/> Felizes nos consideramos em poder testemunhar-vos a nossa admira\u00e7\u00e3o pela vossa conduta na Terra e esperamos que tanta abnega\u00e7\u00e3o tenha recebido a sua recompensa.<\/p>\n<p>R.<br \/> Sim, Deus foi bom e misericordioso para com a sua serva.<br \/> Tudo quanto fiz, e que vos parece louv\u00e1vel, era natural.<\/p>\n<p>P.<br \/> Podereis dizer-nos, para edifica\u00e7\u00e3o nossa, qual a causa da humildade de vossa condi\u00e7\u00e3o terrena?<\/p>\n<p>R.<br \/> Em duas encarna\u00e7\u00f5es anteriores ocupei posi\u00e7\u00e3o assaz elevada, sendo-me f\u00e1cil a pr\u00e1tica do bem, que fazia sem sacrif\u00edcio, sendo, como era, rica.<\/p>\n<p>Pareceu-me, por\u00e9m, que me adiantava lentamente, e por isso pedi para voltar em condi\u00e7\u00f5es humildes, nas quais houvesse mesmo de lutar com as priva\u00e7\u00f5es.<br \/> Para isso me preparei durante longo tempo e Deus manteve-me a coragem, de modo que pudesse atingir o fim que me propusera.<\/p>\n<p>P.<br \/> J\u00e1 tornaste a ver os antigos patr\u00f5es? Dizei-nos qual a vossa posi\u00e7\u00e3o perante eles, e se ainda vos considerais como empregada deles?<\/p>\n<p>R.<br \/>Vi-os, pois quando cheguei a este mundo, j\u00e1 aqui estavam.<br \/> Humildemente vos confesso que me consideram como sendo superior a eles.<\/p>\n<p>P.<br \/> T\u00ednheis qualquer motivo de afei\u00e7\u00e3o para com eles, de prefer\u00eancia a outros quaisquer?<\/p>\n<p>R.<br \/> Obrigat\u00f3rio, nenhum, visto que em qualquer parte conseguiria meu objetivo.<br \/> Escolhi-os, no entanto, para retribuir uma d\u00edvida de reconhecimento.<br \/> \u00c9 que outrora haviam sido ben\u00e9volos para comigo, prestando-me servi\u00e7os.<\/p>\n<p>P.<br \/> Que futuro julgais que vos aguarde?<\/p>\n<p>R.<br \/> Espero a reencarna\u00e7\u00e3o em um mundo onde se n\u00e3o conhe\u00e7am dores.<br \/> Talvez me julgueis muito presun\u00e7osa, por\u00e9m eu vos falo com a vivacidade pr\u00f3pria do meu car\u00e1ter.<br \/> Al\u00e9m disso, submeto-me \u00e0 vontade de Deus.<\/p>\n<p>P.<br \/> Agradecidos pela vossa presen\u00e7a, n\u00e3o duvidamos que Deus vos cumule de benef\u00edcios.<\/p>\n<p>R.<br \/> Obrigada.<br \/> Assim, Deus vos aben\u00e7oe a todos, para que possais, desencarnados, gozar das puras alegrias que a mim me foram concedidas.<\/p>\n<p>Clara Rivier<\/p>\n<p>Era uma menina dos seus 10 anos, filha de uma fam\u00edlia de camponeses do Sul da Fran\u00e7a.<br \/> Havia j\u00e1 4 anos que se achava profundamente enferma.<br \/> Durante a vida nunca lhe foi ouvido um queixume, um sinal de impaci\u00eancia e, se bem que desprovida de instru\u00e7\u00e3o, consolava a fam\u00edlia nas suas afli\u00e7\u00f5es e comentava a vida futura e a felicidade que dessa vida deveria correr.<br \/> Desencarnou em setembro de 1862, ap\u00f3s 4 dias de convulsivas torturas, durante as quais n\u00e3o cessava de orar.<br \/>  N\u00e3o temo a morte, dizia, por isso que depois dela me est\u00e1 reservada uma vida feliz .<br \/> A seu pai, que chorava, dizia:  Console-se, porque virei visit\u00e1-lo; sinto que a hora se aproxima e, quando ela chegar, saberei preveni-lo.<br \/>  Efetivamente, quando era iminente o momento do desenlace, chamou por todos os seus e lhes disse:  Apenas tenho cinco minutos de vida; d\u00eaem-me as m\u00e3os .<br \/> E expirou como previra.<\/p>\n<p>Da\u00ed por diante um Esp\u00edrito batedor principiou a visitar a casa dos Rivier: quebra tudo, bate na mesa, agita as roupas, as cortinas, a lou\u00e7a.<br \/>.<br \/>.<br \/> Sob a forma de Clara ele apareceu \u00e0 irm\u00e3 mais mo\u00e7a, que apenas contava 5 anos.<\/p>\n<p>Segundo afirmou essa crian\u00e7a, a irm\u00e3 lhe aparecia freq\u00fcentemente e essas apari\u00e7\u00f5es provocavam-lhe exclama\u00e7\u00f5es de alegria como esta:  Mas veja como Clara \u00e9 bonita! <\/p>\n<p>1.<br \/> Evoca\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>R.<br \/> Aqui estou, disposta a responder-vos.<\/p>\n<p>2.<br \/> T\u00e3o jovem quando encarnada, donde vos vinham as elevadas id\u00e9ias sobre a vida futura, manifestadas neste mundo?<\/p>\n<p>R.<br \/> Do pouco tempo que me cumpria passar no vosso planeta e da minha precedente encarna\u00e7\u00e3o.<br \/> Eu era m\u00e9dium tanto ao deixar como ao voltar \u00e0 Terra; predestinada, sentia e via o que dizia.<\/p>\n<p>3.<br \/> Como se explica que uma crian\u00e7a da vossa idade n\u00e3o desse um s\u00f3 gemido durante quatro anos de sofrimento?<\/p>\n<p>R.<br \/> Porque esse sofrimento f\u00edsico era dominado por maior pot\u00eancia \u2014 a do meu Guia, continuamente vis\u00edvel ao meu lado.<br \/> Ele, ao mesmo tempo que me aliviava, sabia incutir-me uma for\u00e7a de vontade superior aos sofrimentos.<\/p>\n<p>4.<br \/> Como vos apercebeste do momento decisivo da morte?<\/p>\n<p>R.<br \/> Por influxo do meu anjo de guarda, que jamais me iIudiu.<\/p>\n<p>5.<br \/> Disseste a vosso pai que se resignasse porque vir\u00edeis visit\u00e1-lo.<br \/> Como se explica, pois, que, animada de t\u00e3o bons sentimentos para com vossos pais, vi\u00e9sseis perturb\u00e1-los depois com ru\u00eddos em sua casa?<\/p>\n<p>R.<br \/> \u00c9 que eu tenho indubitavelmente uma prova\u00e7\u00e3o, ou antes uma miss\u00e3o a realizar.<br \/> Acreditais que venha ver meus pais sem objetivo algum? Esses rumores, essas lutas derivadas da minha presen\u00e7a s\u00e3o um aviso.<br \/> Nisso sou tamb\u00e9m auxiliada por outros Esp\u00edritos cuja turbul\u00eancia tem sua raz\u00e3o de ser, como raz\u00e3o de ser tem a minha apari\u00e7\u00e3o \u00e0 irm\u00e3zinha.<br \/>.<br \/>.<br \/> Gra\u00e7as a n\u00f3s, muitas convic\u00e7\u00f5es v\u00e3o despontar.<br \/> Meus pais haviam de passar por uma prova\u00e7\u00e3o.<br \/> Bem cedo isso passar\u00e1, mas n\u00e3o antes de terem convencido uma multid\u00e3o de pessoas.<\/p>\n<p>6.<br \/> Ent\u00e3o n\u00e3o sois v\u00f3s, individualmente, o autor desses rumores?<\/p>\n<p>R.<br \/> Sou, por\u00e9m ajudada por Esp\u00edritos a servi\u00e7o da prova\u00e7\u00e3o reservada aos meus genitores.<\/p>\n<p>7.<br \/> Como se explica, ent\u00e3o, que a irm\u00e3zinha s\u00f3 vos reconhecesse, n\u00e3o sendo v\u00f3s a autora exclusiva das manifesta\u00e7\u00f5es?<\/p>\n<p>R.<br \/> \u00c9 que ela apenas viu a mim.<br \/> Agora disp\u00f5e de dupla vista e ainda terei de confort\u00e1-la muitas vezes com a minha presen\u00e7a.<\/p>\n<p>8.<br \/> Qual a raz\u00e3o dos vossos sofrimentos mortificantes numa idade t\u00e3o infantil?<\/p>\n<p>R.<br \/> Faltas anteriores, expia\u00e7\u00e3o.<br \/> Na precedente exist\u00eancia eu abusara da sa\u00fade, como da posi\u00e7\u00e3o brilhante que ocupara.<br \/> Eis porque Deus me disse:  \u2014 Gozaste demasiada e desmesuradamente; portanto, pagar\u00e1s a diferen\u00e7a; eras orgulhosa, logo, ser\u00e1s humilde; vaidosa da tua beleza, importa que dela decaias, esfor\u00e7ando-te antes por adquirir a caridade e a bondade .<br \/> Procedi consoante a vontade divina e o meu Guia me auxiliou.<\/p>\n<p>9.<br \/> Quereis que digamos alguma coisa aos vossos pais?<\/p>\n<p>R.<br \/> A pedido de um m\u00e9dium, eles j\u00e1 tiveram ensejo de praticar a caridade, de n\u00e3o orarem s\u00f3 com os l\u00e1bios, e fizeram bem, porque cumpre faz\u00ea-lo tamb\u00e9m na pr\u00e1tica, pelo cora\u00e7\u00e3o.<br \/> Socorrer os que sofrem e orar, \u00e9 ser esp\u00edrita.<br \/> A todas as almas Deus concedeu livre-arb\u00edtrio, isto \u00e9, faculdade de progresso, como lhes deu a todas a mesma aspira\u00e7\u00e3o e, por isso, mais do que geralmente se pensa, o avental da ro\u00e7a tem tanta rela\u00e7\u00e3o como a toga bordada.<\/p>\n<p>Aproximai as dist\u00e2ncias pela caridade, dai guarida ao pobre em vossa casa, reanimai-o, n\u00e3o o humilheis.<br \/> Se esta grande lei da consci\u00eancia fosse geralmente praticada, o mundo n\u00e3o assistiria periodicamente a essas grandes pen\u00farias que desonram a civiliza\u00e7\u00e3o dos povos e que por Deus s\u00e3o enviadas para castig\u00e1-los e abrir-lhes os olhos.<\/p>\n<p>Queridos pais, orai.<br \/> Amai-vos, praticai a lei do Cristo: n\u00e3o fa\u00e7ais a outrem o que n\u00e3o quiserdes que nos fa\u00e7am.<br \/> Apelai para o Deus que vos experimenta, mostrando que a Sua bondade \u00e9 santa e infinita como EIe.<br \/> Como previs\u00e3o do futuro, armai-vos de coragem e perseveran\u00e7a, j\u00e1 que sois chamados a sofrer ainda.<br \/> Cumpre fazer jus \u00e0 boa coloca\u00e7\u00e3o em mundo melhor, onde a compreens\u00e3o da justi\u00e7a divina se torna a puni\u00e7\u00e3o dos maus Esp\u00edritos.<\/p>\n<p>Queridos pais, estarei sempre perto de v\u00f3s.<br \/> Adeus, ou antes, at\u00e9 \u00e0 vista.<br \/> Tende resigna\u00e7\u00e3o, caridade, amor por vossos semelhantes, e um dia sereis felizes.<\/p>\n<p>Clara.<\/p>\n<p> Mais do que geralmente se pensa, o avental da ro\u00e7a tem tanta rela\u00e7\u00e3o como a toga bordada.<br \/>.<br \/>.<br \/>  Esta imagem bel\u00edssima \u00e9 alus\u00e3o aos Esp\u00edritos que, de uma a outra exist\u00eancia, passam de brilhantes a hum\u00edlimas condi\u00e7\u00f5es, expiando muitas vezes o abuso em rela\u00e7\u00e3o aos dons que Deus lhe concedeu.<\/p>\n<p>\u00c9 uma justi\u00e7a essa que est\u00e1 ao alcance de todos.<\/p>\n<p>Profundo pensamento \u00e9 tamb\u00e9m esse que atribui as calamidades coletivas \u00e0 infra\u00e7\u00e3o das leis divinas, porque Deus castiga os povos tanto quanto os indiv\u00edduos.<br \/> Realmente, pela pr\u00e1tica da caridade, as guerras e as mis\u00e9rias acabariam por ser eliminadas.<br \/> Pois bem, a pr\u00e1tica dessa lei conduz ao Espiritismo e, quem sabe, ser\u00e1 essa a raz\u00e3o de ter ele tantos e t\u00e3o ac\u00e9rrimos inimigos? As exorta\u00e7\u00f5es desta filha, aos pais, ser\u00e3o acaso as de um dem\u00f4nio?<\/p>\n<p>Francisca Vernhes<\/p>\n<p>Ela era cega de nascimento e filha de um rendeiro das cercanias de Tolosa.<br \/> Faleceu em 1855, aos 45 anos.<\/p>\n<p>Ocupava-se constantemente com o ensino do catecismo aos meninos, preparando-os para a primeira comunh\u00e3o.<\/p>\n<p>Mudado o catecismo, nenhuma dificuldade lhe sobreveio em ensinar o novo, por conhec\u00ea-los ambos de cor.<br \/> De regresso de longa excurs\u00e3o em tarde invernosa, na companhia de uma tia, era-lhe preciso atravessar sombria floresta por caminhos lamacentos.<br \/> Fazia-se mister a maior precau\u00e7\u00e3o para que as duas mulheres se n\u00e3o despenhassem nos fossos.<br \/> Nesta conting\u00eancia, querendo a tia dar-lhe a m\u00e3o, ela disse:  N\u00e3o vos incomodeis comigo, n\u00e3o corro risco algum, uma vez que tenho aos ombros uma luz que me guia.<br \/> Segui-me, pois, que serei eu a conduzir-vos .<br \/> Assim terminaram a jornada impunemente, conduzindo a cega \u00e0 tia que n\u00e3o o era.<\/p>\n<p>(Evoca\u00e7\u00e3o em Paris \u2014maio de 1865)<\/p>\n<p>P.<br \/> Quereis dizer-nos que luz seria essa a guiar-vos naquela noite trevosa e s\u00f3 vista por v\u00f3s?<\/p>\n<p>R.<br \/> Qu\u00ea! Pois as pessoas como v\u00f3s, em cont\u00ednuas rela\u00e7\u00f5es com os Esp\u00edritos, tem necessidade de explica\u00e7\u00e3o acerca de um fato como esse? Era o meu anjo de guarda quem me guiava.<\/p>\n<p>P.<br \/> Essa era tamb\u00e9m a nossa opini\u00e3o, mas desej\u00e1vamos v\u00ea-la confirmada.<br \/> Mas sab\u00edeis naquela ocasi\u00e3o que era o vosso anjo de guarda quem vos conduzia?<\/p>\n<p>R.<br \/> Confesso que n\u00e3o, posto acreditasse numa interven\u00e7\u00e3o do c\u00e9u.<br \/> Eu orara por tanto tempo para que o Pai celestial se apiedasse de mim.<br \/>.<br \/>.<br \/> \u00c9 t\u00e3o cruel a cegueira.<br \/>.<br \/>.<br \/> Sim, ela \u00e9 bem cruel, mas tamb\u00e9m reconhe\u00e7o ser justa.<\/p>\n<p> Aqueles que pecam pelos olhos, por eles devem ser punidos; e assim deve suceder relativamente a todas as outras faculdades do homem, que o levem ao abuso.<br \/> N\u00e3o procureis, portanto, nos in\u00fameros sofrimentos humanos, outra causa que n\u00e3o seja aquela que lhes \u00e9 pr\u00f3pria e natural a expia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p> Esta, contudo, s\u00f3 \u00e9 merit\u00f3ria quando suportada com humildade, podendo ser suavizada por meio da prece, pela atra\u00e7\u00e3o de influ\u00eancias espirituais que, protegendo os r\u00e9us da penitenci\u00e1ria humana, lhes infundam esperan\u00e7a e conforto.<\/p>\n<p>P.<br \/> Dedicada ao ensino das crian\u00e7as pobres, tiveste dificuldades em adquirir os conhecimentos do catecismo, quando o mudaram?<\/p>\n<p>R.<br \/> Ordinariamente, os cegos t\u00eam outros sentidos duplos, se assim se pode dizer.<br \/> A observa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 uma das menores faculdades da sua natureza.<\/p>\n<p> A mem\u00f3ria \u00e9 para eles como um arm\u00e1rio onde se colocam coordenados e, para sempre, os ensinos respectivos \u00e0s suas aptid\u00f5es e tend\u00eancias.<br \/> Uma vez que nada do exterior pode perturbar essa faculdade, o seu desenvolvimento pode ser not\u00e1vel, pela educa\u00e7\u00e3o.<br \/> Quanto a mim, agrade\u00e7o a Deus o haver-me concedido que essa faculdade me permitisse preencher a miss\u00e3o que levava, junto dessas crian\u00e7as, e que constitu\u00eda tamb\u00e9m uma repara\u00e7\u00e3o do mau exemplo que lhes dera em anterior exist\u00eancia.<\/p>\n<p>Tudo \u00e9 assunto s\u00e9rio para os esp\u00edritas; basta, para afirm\u00e1-lo, olhar ao derredor deles.<br \/> Os meus ensinos lhes seriam porventura mais \u00fateis do que se deixassem levar pelas sutilezas filos\u00f3ficas de certos esp\u00edritos, que se divertem com lisonjear-lhes o orgulho em frases t\u00e3o bomb\u00e1sticas qu\u00e3o vazias de sentido.<\/p>\n<p>P.<br \/> Pelo vosso procedimento tivemos uma prova do vosso adiantamento moral, e agora, pela vossa linguagem, temos que esse adiantamento tamb\u00e9m \u00e9 intelectual.<\/p>\n<p>R.<br \/> Muito me resta por adquirir; h\u00e1, por\u00e9m, muita gente que na Terra passa por ignorante, s\u00f3 porque tem a intelig\u00eancia embotada pela expia\u00e7\u00e3o.<br \/> Com a morte se rasga o v\u00e9u e freq\u00fcentemente os ignorantes s\u00e3o mais instru\u00eddos do que aqueles que lhes desdenham a ignor\u00e2ncia.<br \/> Crede que o orgulho \u00e9 a pedra de toque para conhecimento dos homens.<\/p>\n<p> Todos aqueles que possu\u00edrem cora\u00e7\u00e3o acess\u00edvel \u00e0 lisonja, demasiado confiantes na sua ci\u00eancia, est\u00e3o no mau caminho; em geral s\u00e3o hip\u00f3critas e, portanto, desconfiai deles.<\/p>\n<p> Sede humildes como o foi o Cristo, e como ele, com amor carregai a vossa cruz, a fim de subirdes ao reino dos c\u00e9us.<\/p>\n<p>Francisca Vernhes.<\/p>\n<p>Ana Bitter<\/p>\n<p>A perda de um filho adorado \u00e9 motivo de acerbo pesar; ver, por\u00e9m, o filho \u00fanico, alvo de todas as esperan\u00e7as, deposit\u00e1rio de todas as afei\u00e7\u00f5es, definhar a olhos vistos e sem sofrimentos, por causas desconhecidas, por um desses caprichos da Natureza que zombam da Ci\u00eancia e, depois de esgotar todos os recursos, n\u00e3o haver por compensa\u00e7\u00e3o, uma esperan\u00e7a sequer; suportar essa ang\u00fastia de todos os momentos por longos anos sem lhe prever o termo, \u00e9 um supl\u00edcio cruel que a riqueza agrava em vez de suavizar, dada a impossibilidade de v\u00ea-Ia fruida pelo ente adorado.<\/p>\n<p>Esta era a situa\u00e7\u00e3o do pai de Ana Bitter, que por isso se entregou a um \u00edntimo desespero.<br \/> O car\u00e1ter se lhe exasperava ante o espet\u00e1culo, que lhe cortava o cora\u00e7\u00e3o, e cujas conseq\u00fc\u00eancias n\u00e3o poderiam deixar de ser fatais, ainda que indeterminadas.<br \/> Um amigo da fam\u00edlia, adepto do Espiritismo, julgou dever interrogar a respeito do assunto o seu protetor espiritual, e obteve a seguinte resposta:<\/p>\n<p> Muito desejo explicar-lhe o caso que ora o preocupa, mesmo porque sei que a mim n\u00e3o recorre por curiosidade indiscreta mas pelo interesse que lhe merece aquela pobre crian\u00e7a, e ainda porque, crente na justi\u00e7a divina s\u00f3 ter\u00e1 a ganhar com isso.<br \/> Todos aqueles que acarretam sobre si a justi\u00e7a do Senhor devem curvar a fronte sem maldi\u00e7\u00f5es nem revoltas, porque n\u00e3o h\u00e1 castigo sem causa.<\/p>\n<p>A pobre crian\u00e7a, cuja senten\u00e7a de morte fora suspensa por Deus, em breve dever\u00e1 regressar ao nosso meio, uma vez que mereceu a divina compaix\u00e3o; quanto ao pai, esse homem infeliz, tem de ser punido na sua \u00fanica afei\u00e7\u00e3o mundana, visto haver zombado da confian\u00e7a e dos sentimentos daqueles que o rodeiam.<br \/> Por momentos o seu arrependimento tocou o Onipotente e a morte sustou o golpe sobre o ente que lhe \u00e9 t\u00e3o caro; mas para logo veio a revolta e o castigo sempre a acompanha.<br \/> Em tais condi\u00e7\u00f5es, \u00e9 felicidade ainda o ser punido nesse mundo!<\/p>\n<p>Meus amigos, orai por essa pobre crian\u00e7a, cuja juventude vai dificultar-lhe os \u00faltimos momentos.<br \/> Nesse ser a seiva \u00e9 t\u00e3o abundante, que, apesar do seu depauperamento org\u00e2nico, a alma ter\u00e1 dificuldade em se lhe desprender.<br \/> Oh! Orai.<br \/>.<br \/>.<br \/> Mais tarde ela tamb\u00e9m vos auxiliar\u00e1 e consolar\u00e1, pois o seu Esp\u00edrito \u00e9 mais adiantado do que aqueles que a rodeiam.<br \/> Para que o seu desprendimento seja auxiliado, coube-me, como gra\u00e7a especial do Senhor, o poder orientar-vos a respeito do assunto.<\/p>\n<p>Depois de haver expiado o insulamento, morreu o pai de Ana Bitter.<br \/> Em seguida damos de um e outro as primeiras comunica\u00e7\u00f5es imediatas \u00e0s respectivas desencarna\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Da filha \u2014 Obrigada meu amigo, pela vossa intercess\u00e3o por esta crian\u00e7a, bem como por terdes seguido os conselhos do vosso bom Guia.<br \/> Sim.<br \/> Gra\u00e7as \u00e0s vossas preces, mais f\u00e1cil me foi deixar o inv\u00f3lucro terrestre, porque meu pai.<br \/>.<br \/>.<br \/> Ah! Esse n\u00e3o orava, maldizia! Entretanto, n\u00e3o lhe quero mal por isso: conseq\u00fc\u00eancia da grande ternura que me votava.<br \/> A Deus rogo que lhe conceda luzes antes de morrer; e, quanto a mim, o incito, e animo, porque me assiste a miss\u00e3o de lhe suavizar os \u00faltimos momentos.<br \/> Vezes h\u00e1 nas quais parece que um raio de luz divina baixa at\u00e9 ele e o comove.<br \/> Ent\u00e3o, contudo, isso n\u00e3o passa de fugaz clar\u00e3o que para logo o deixa entregue \u00e0s primitivas id\u00e9ias.<br \/> Ele tem consigo um germe de f\u00e9, mas t\u00e3o sufocado pelos mundanos interesses, que s\u00f3 poder\u00e1 vingar por meio de novas e mais cru\u00e9is prova\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Pelo que me diz respeito, apenas cumpria suportar um resto de prova, de expia\u00e7\u00e3o, e assim \u00e9 que n\u00e3o foi nem muito dolorosa nem muito dif\u00edcil.<br \/> A minha singular enfermidade n\u00e3o acarretava sofrimentos; eu era como que instrumento da prova\u00e7\u00e3o de meu pai, o qual, por me ver naquele estado, sofria mais do que eu mesma.<br \/> Al\u00e9m disso, eu tinha resigna\u00e7\u00e3o e ele n\u00e3o.<br \/> Hoje sou recompensada.<br \/> Deus, bondosamente, abreviou-me a estada na Terra \u2014 o que ali\u00e1s lhe agrade\u00e7o.<br \/> Feliz entre os bons Esp\u00edritos que me cercam, todos cumprimos satisfeitos as nossas obriga\u00e7\u00f5es, mesmo porque a inatividade seria um cruel supl\u00edcio.<\/p>\n<p>O Pai (um m\u00eas depois da morte).<br \/> \u2014Evocando-vos temos por fim, nos informarmos da vossa situa\u00e7\u00e3o no mundo dos Esp\u00edritos e ser-vos \u00fateis na medida das nossas for\u00e7as.<\/p>\n<p>R.<br \/> O mundo dos Esp\u00edritos? N\u00e3o o vejo.<br \/>.<br \/>.<br \/> O que vejo s\u00e3o homens conhecidos, que comigo n\u00e3o se preocupam e tampouco me deploram a sorte, antes parecendo-me contentes de se verem livres de mim.<\/p>\n<p>P.<br \/> Mas fazeis uma id\u00e9ia exata da vossa condi\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>R.<br \/> Perfeitamente, por algum tempo julguei-me ainda no vosso mundo,mas hoje sei muito bem que n\u00e3o mais perten\u00e7o a ele.<\/p>\n<p>P.<br \/> Por que, ent\u00e3o n\u00e3o podeis divisar outros Esp\u00edritos que vos rodeiam?<\/p>\n<p>R.<br \/> N\u00e3o o sei, apesar de tudo estar bem claro em torno de mim.<\/p>\n<p>P.<br \/> Ainda n\u00e3o viste vossa filha?<\/p>\n<p>R.<br \/> N\u00e3o, ela est\u00e1 morta; procuro-a, chamo por ela inutilmente.<br \/> Que v\u00e1cuo horr\u00edvel que a sua morte me deixou na Terra! Morrendo, julgava encontr\u00e1-la, mas nada! O insulamento sempre e sempre! Ningu\u00e9m que me dirija uma palavra de consola\u00e7\u00e3o e esperan\u00e7a.<br \/> Adeus, vou procurar minha filha.<\/p>\n<p>O Guia do m\u00e9dium.<br \/> \u2014Este homem n\u00e3o era ateu nem materialista, mas daqueles que cr\u00eaem vagamente sem se preocuparem de Deus e do futuro, empolgados como s\u00e3o pelos interesses terrenos.<br \/> Profundamente ego\u00edsta, tudo sacrificaria para salvar a filha, mas tamb\u00e9m sem o m\u00ednimo escr\u00fapulo sacrificaria os interesses de terceiros em seu proveito pessoal.<br \/> Por ningu\u00e9m se interessava a n\u00e3o ser pela pr\u00f3pria filha.<br \/> Deus o puniu da forma como o vistes, arrebatando-lhe da Terra a consola\u00e7\u00e3o \u00fanica; e como ele n\u00e3o se arrependesse, o seq\u00fcestro subsiste no mundo espiritual.<\/p>\n<p>N\u00e3o se interessando por ningu\u00e9m a\u00ed, tamb\u00e9m aqui ningu\u00e9m por ele se interessa.<br \/> Permanece s\u00f3, insulado, abandonado, e nisso consiste a sua puni\u00e7\u00e3o.<br \/> Mas que faz ele nessas conjunturas? Dirige-se a Deus? Arrepende-se? N\u00e3o, murmurava sempre, blasfema, at\u00e9 faz, em uma palavra, o que fazia na Terra.<br \/> Ajudai-o, pois, pela prece como pelo conselho, para que se desanuvie da sua cegueira.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Maitre \u2014 O cego<\/p>\n<p>Pertencia \u00e0 classe mediana da sociedade e gozava de modesta abastan\u00e7a, ao amparo de quaisquer priva\u00e7\u00f5es.<br \/> Os pais o destinavam \u00e0 ind\u00fastria e deram-lhe boa educa\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, aos 20 anos, ele perdeu a vista.<br \/> Pr\u00f3ximo dos 50 anos, veio finalmente a falecer, isto em 1845.<br \/> Dez anos antes fora acometido por outra enfermidade que o deixou surdo, de modo que s\u00f3 pelo tato mantinha rela\u00e7\u00f5es com o mundo dos encarnados.<br \/> Ora, n\u00e3o ver, j\u00e1 \u00e9 um supl\u00edcio; n\u00e3o ver e n\u00e3o ouvir \u00e9 duplicado supl\u00edcio, principalmente para quem depois de fruir as faculdades desses sentidos tiver de suportar essa dupla priva\u00e7\u00e3o.<br \/> Qual a causa de sorte t\u00e3o cruel? Naturalmente n\u00e3o era a sua \u00faltima exist\u00eancia, sempre moldada numa conduta exemplar.<br \/> Assim \u00e9 que sempre foi bom filho, possuidor de car\u00e1ter meigo e ben\u00e9volo e, quando por c\u00famulo de infelicidade, se viu privado da audi\u00e7\u00e3o, aceitou resignado sem um queixume, esta prova.<br \/> Pela sua conversa\u00e7\u00e3o pressentia-se na lucidez do seu Esp\u00edrito uma intelig\u00eancia pouco comum.<br \/> Pessoa que o conhecera, na presun\u00e7\u00e3o de que poderia receber instru\u00e7\u00f5es \u00fateis, evocou-lhe o Esp\u00edrito e obteve a seguinte mensagem, em resposta \u00e0s perguntas que lhe dirigira.<\/p>\n<p>(Paris \u20141863)<\/p>\n<p> Agrade\u00e7o, meus amigos, o terdes vos lembrado de mim.<br \/> Pode ser que isso se n\u00e3o fosse independente da suposi\u00e7\u00e3o de proveito da minha comunica\u00e7\u00e3o, mas, ainda assim, estou certo de que motivos s\u00e9rios vos animam e eis porque com prazer atendo ao chamado, uma vez que, por feliz, me \u00e9 permitido orientar-vos.<br \/> Assim possa o meu exemplo avolumar as provas assaz numerosas que os Esp\u00edritos vos d\u00e3o da justi\u00e7a de Deus.<br \/> Cego e surdo me conhecestes e para logo vos propusestes saber a causa desse destino.<\/p>\n<p>Eu vo-lo digo: antes de tudo, importa dizer que era a segunda vez que eu expiava a priva\u00e7\u00e3o da vista.<br \/> Na minha precedente exist\u00eancia, em princ\u00edpios do \u00faltimo s\u00e9culo, fiquei cego aos 30 anos, consecutivamente a excessos de todo o g\u00eanero que, arruinando-me a sa\u00fade, me enfraqueceram o organismo.<br \/> Note-se que era j\u00e1 isso uma puni\u00e7\u00e3o por abuso dos dons providenciais de que fora largamente cumulado.<br \/> Em vez por\u00e9m, de me atribuir a causa original dessa enfermidade, entrei de acusar a Provid\u00eancia, na qual, ali\u00e1s, pouco cria.<\/p>\n<p>Anatematizei Deus, reneguei-O, acusei-O, acrescentando que, se acaso existisse, devia ser injusto e mau, por deixar assim penar as criaturas.<br \/> Entretanto, eu deveria dar-me ainda por feliz, isento como estava de mendigar o p\u00e3o, \u00e0 fei\u00e7\u00e3o de tantos outros m\u00edseros cegos como eu.<br \/> Mas \u00e9 que eu s\u00f3 pensava em mim, na priva\u00e7\u00e3o de gozos que me impunham.<br \/> Influenciado por id\u00e9ias assim, que o ceticismo mais exaltava, tornei-me nervoso, exigente, numa palavra, insuport\u00e1vel aos que comigo privavam.<br \/> Al\u00e9m disso, a vida era-me um moto-cont\u00ednuo, pois que eu n\u00e3o pensava no futuro, uma quimera.<\/p>\n<p>Depois de esgotar embalde os recursos da Ci\u00eancia e considerada imposs\u00edvel a cura, resolvi antecipar a morte: suicidei-me.<br \/> Que despertar, ent\u00e3o, que foi o meu, imerso nas mesmas trevas da vida! Contudo, n\u00e3o tardou muito o reconhecimento da minha situa\u00e7\u00e3o, da minha transfer\u00eancia para o mundo espiritual.<br \/> Era um Esp\u00edrito, sim, por\u00e9m cego.<\/p>\n<p>A vida de al\u00e9m-t\u00famulo tornava-se-me, pois, a realidade! Procurei fugir-lhe, mas em v\u00e3o.<br \/>.<br \/>.<br \/> Envolvia-me o v\u00e1cuo.<br \/> Pelo que ouvia dizer, essa vida deveria ser eterna e com ela a minha situa\u00e7\u00e3o.<br \/> Id\u00e9ia horrenda! Eu n\u00e3o sofria, mas imposs\u00edvel \u00e9 descrever as ang\u00fastias e tormentos espirituais experimentados.<\/p>\n<p>Quanto tempo teriam eles durado? Ignoro-o.<br \/>.<br \/>.<br \/> Mas qu\u00e3o longo me pareceu esse tempo!<\/p>\n<p>Extenuado, fatigado, pude finalmente analisar-me a mim pr\u00f3prio; compreendi o ascendente de um poder superior, que sobre mim atuava e considerei que se essa pot\u00eancia podia oprimir-me, tamb\u00e9m poderia dar-me al\u00edvio.<br \/> E implorei piedade.<br \/> \u00c0 medida que orava e o fervor ia aumentando, algu\u00e9m me dizia que a minha situa\u00e7\u00e3o teria um termo.<br \/> Por fim se fez a luz e extremo foi o meu arroubo de alegria ao entrever as claridades celestes, distinguindo os Esp\u00edritos que me rodeavam, sorrindo, ben\u00e9volos, bem como aqueles que, radiosos, flutuavam no Espa\u00e7o.<\/p>\n<p>Ao querer seguir-lhes os passos, for\u00e7a invis\u00edvel me reteve.<br \/> Foi ent\u00e3o que um deles me disse:  O Deus que negaste teve considera\u00e7\u00e3o do teu arrependimento e permitiu-nos te d\u00e9ssemos a luz, mas tu s\u00f3 cedeste pelo sofrimento, pelo cansa\u00e7o.<br \/> Se queres participar desta felicidade aqui fruida, for\u00e7oso \u00e9 provares a sinceridade do teu arrependimento e as boas disposi\u00e7\u00f5es, recome\u00e7ando a prova terrestre em condi\u00e7\u00f5es que te predisponham \u00e0s mesmas faltas, porque esta nova prova\u00e7\u00e3o dever\u00e1 ser mais rude que a outra .<\/p>\n<p>Aceitei pressuroso e prometi n\u00e3o mais falhar.<br \/> Assim voltei \u00e0 Terra nas condi\u00e7\u00f5es que sabeis.<br \/> N\u00e3o me foi dif\u00edcil compreender a situa\u00e7\u00e3o, porque eu n\u00e3o era mau por \u00edndole; revoltara-me contra Deus e Deus me puniu.<br \/> Reencarnei trazendo a f\u00e9 inata, raz\u00e3o porque n\u00e3o murmurei, antes aceitei a dupla enfermidade, resignado, como expia\u00e7\u00e3o que era, oriunda da soberana justi\u00e7a.<\/p>\n<p>O insulamento dos meus derradeiros anos nada tinha de desesperador, porque me bafejava a f\u00e9 no futuro e a miseric\u00f3rdia de Deus.<br \/> Demais, esse insulamento me foi proveitoso, pois que durante a longa noite silenciosa a minha alma mais livremente se al\u00e7ava ao Eterno, antevendo o infinito pelo pensamento.<br \/> Quando, por fim, terminou o ex\u00edlio, o mundo espiritual s\u00f3 me proporcionou esplendores, inef\u00e1veis gozos.<br \/> O retrospecto ao passado faz que me julgue muito feliz, relativamente, pelo que dou gra\u00e7as a Deus; quando, por\u00e9m, olho para o futuro, vejo a grande dist\u00e2ncia que ainda me separa da completa felicidade.<\/p>\n<p>Tendo j\u00e1 expiado, ainda me faltava reparar.<br \/> A \u00faltima encarna\u00e7\u00e3o s\u00f3 a mim aproveitou, pelo que espero recome\u00e7ar brevemente por exist\u00eancia que me permita ser \u00fatil ao pr\u00f3ximo, reparando por esse meio a inutilidade anterior.<br \/> S\u00f3 assim me adiantarei na boa senda, sempre franqueada aos Esp\u00edritos possu\u00eddos de boa vontade.<\/p>\n<p>Amigos, eis a\u00ed a minha hist\u00f3ria; e se o meu exemplo puder esclarecer quaisquer dos meus irm\u00e3os encarnados, de modo que evitem a m\u00e1 a\u00e7\u00e3o que pratiquei, terei por principiado o resgate da minha d\u00edvida.<\/p>\n<p>Jos\u00e9.<\/p>\n<p>FIM<\/p>\n<div class=\"pvc_clear\"><\/div>\n<p id=\"pvc_stats_15533\" class=\"pvc_stats all  \" data-element-id=\"15533\" style=\"\"><i class=\"pvc-stats-icon medium\" aria-hidden=\"true\"><svg aria-hidden=\"true\" focusable=\"false\" data-prefix=\"far\" data-icon=\"chart-bar\" role=\"img\" xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" viewBox=\"0 0 512 512\" class=\"svg-inline--fa fa-chart-bar fa-w-16 fa-2x\"><path fill=\"currentColor\" d=\"M396.8 352h22.4c6.4 0 12.8-6.4 12.8-12.8V108.8c0-6.4-6.4-12.8-12.8-12.8h-22.4c-6.4 0-12.8 6.4-12.8 12.8v230.4c0 6.4 6.4 12.8 12.8 12.8zm-192 0h22.4c6.4 0 12.8-6.4 12.8-12.8V140.8c0-6.4-6.4-12.8-12.8-12.8h-22.4c-6.4 0-12.8 6.4-12.8 12.8v198.4c0 6.4 6.4 12.8 12.8 12.8zm96 0h22.4c6.4 0 12.8-6.4 12.8-12.8V204.8c0-6.4-6.4-12.8-12.8-12.8h-22.4c-6.4 0-12.8 6.4-12.8 12.8v134.4c0 6.4 6.4 12.8 12.8 12.8zM496 400H48V80c0-8.84-7.16-16-16-16H16C7.16 64 0 71.16 0 80v336c0 17.67 14.33 32 32 32h464c8.84 0 16-7.16 16-16v-16c0-8.84-7.16-16-16-16zm-387.2-48h22.4c6.4 0 12.8-6.4 12.8-12.8v-70.4c0-6.4-6.4-12.8-12.8-12.8h-22.4c-6.4 0-12.8 6.4-12.8 12.8v70.4c0 6.4 6.4 12.8 12.8 12.8z\" class=\"\"><\/path><\/svg><\/i> <img decoding=\"async\" width=\"16\" height=\"16\" alt=\"Loading\" data-src=\"https:\/\/www.centronocaminhodaluz.com.br\/wp-content\/plugins\/page-views-count\/ajax-loader-2x.gif\" border=0 src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" class=\"lazyload\" style=\"--smush-placeholder-width: 16px; --smush-placeholder-aspect-ratio: 16\/16;\" \/><\/p>\n<div class=\"pvc_clear\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Marcelo \u2014 o menino do n\u00ba 4 Num hospital de prov\u00edncia havia um menino de 8 a 10 anos, cujo estado era dif\u00edcil precisar. Designavam-no pelo n\u00ba 4. 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