{"id":18748,"date":"2022-03-26T09:12:00","date_gmt":"2022-03-26T09:12:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.centronocaminhodaluz.com.br\/index.php\/artigo18748\/"},"modified":"2022-03-26T09:34:40","modified_gmt":"2022-03-26T12:34:40","slug":"artigo18748","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.centronocaminhodaluz.com.br\/index.php\/artigo18748\/","title":{"rendered":"7 As primeiras persegui\u00e7\u00f5es &#8211; PAULO E ESTEV\u00c3O &#8211;  FRANCISCO C\u00c2NDIDO XAVIER"},"content":{"rendered":"<p>Saulo de Tarso, nas caracter\u00edsticas de sua impulsi vidade, deixou-se<br \/>\n<br \/>empolgar pela id\u00e9ia de vingan\u00e7a, impressionado com o desassombro de<br \/>\n<br \/>Estev\u00e3o em face da sua autoridade e da sua fama.<br \/> A seu ver, o pregador do<br \/>\n<br \/>Evangelho infligira-lhe humilha\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, que impunham repara\u00e7\u00f5es<br \/>\n<br \/>equivalentes.<\/p>\n<p>Todos os c\u00edrculos de Jerusal\u00e9m, n\u00e3o obstante o curto prazo da sua nova<br \/>\n<br \/>perman\u00eancia na cidade, n\u00e3o es condiam a admira\u00e7\u00e3o que lhe votavam.<br \/> Os<br \/>\n<br \/>intelectuais do Templo estimavam nele uma personalidade vigorosa, um guia<br \/>\n<br \/>seguro, tomando-o por mestre no racionalismo superior.<br \/> Os mais antigos<br \/>\n<br \/>sacerdotes e doutores do Sin\u00e9drio reconheciam -lhe a intelig\u00eancia aguda e nele<br \/>\n<br \/>depositavam a esperan\u00e7a do porvir.<br \/> Na \u00e9poca, sua ju ventude din\u00e2mica, votada<br \/>\n<br \/>quase inteiramente ao minist\u00e9rio da Lei, centralizava, por assim dizer, todos os<br \/>\n<br \/>interesses da casu\u00edstica.<br \/> Com a arg\u00facia psicol\u00f3gica que o caracterizava, o<br \/>\n<br \/>jovem tarsense conhecia o papel que Jerusal\u00e9m lhe destinava.<br \/> Assim, as<br \/>\n<br \/>controv\u00e9rsias de Estev\u00e3o do\u00edam-lhe nas fibras mais sens\u00edveis do cora\u00e7\u00e3o.<br \/> No<br \/>\n<br \/>fundo, seu ressentimento era apan\u00e1gio de uma juventude ardorosa e sincera;<br \/>\n<br \/>entretanto, a vaidade ferida, o orgu lho racial, o instinto de dom\u00ednio, toldavamlhe<br \/>\n<br \/>a retina espiritual.<\/p>\n<p>No \u00e2mago das suas reflex\u00f5es, odiava agora aquele Cristo crucificado,<br \/>\n<br \/>porque detestava a Estev\u00e3o, consi derado ent\u00e3o como perigoso inimigo.<br \/> N\u00e3o<br \/>\n<br \/>poderia tolerar qualquer express\u00e3o daquela doutrina, apa rentemente simples,<br \/>\n<br \/>mas que vinha abalar o fundamento dos prin c\u00edpios estabelecidos.<br \/> Perseguiria<br \/>\n<br \/>inflexivelmente o \u201cCaminho\u201d, na pessoa de quantos lhe estivessem associados.<\/p>\n<p>Mobilizaria, intencionalmente, todas as simpatias de que dispunha, para<br \/>\n<br \/>multiplicar a devassa imprescind\u00edvel.<br \/> Cer to, deveria contar com as<br \/>\n<br \/>admoesta\u00e7\u00f5es conciliat\u00f3rias de um Gamaliel e de outros raros esp\u00edritos, que,<br \/>\n<br \/>ao seu ver, se deixariam embair pela filosofia de bondade que os galileus<br \/>\n<br \/>haviam suscitado com as novas escrituras; mas estava convencido de que a<br \/>\n<br \/>maioria farisaica, em fun\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, ficaria a seu lado, animando -o na<br \/>\n<br \/>empresa come\u00e7ada.<\/p>\n<p>No dia seguinte \u00e0 pris\u00e3o de Estev\u00e3o, procurou arre gimentar as primeiras<br \/>\n<br \/>for\u00e7as com a m\u00e1xima habilidade.<br \/> \u00c0 cata de simpatia para o amplo m ovimento<br \/>\n<br \/>de persegui\u00e7\u00e3o que pretendia efetuar, visitou as personalidades mais<br \/>\n<br \/>eminentes do juda\u00edsmo, abstendo -se, contudo, de procurar a coopera\u00e7\u00e3o das<br \/>\n<br \/>autoridades reconhecidamente pacifistas.<br \/> A inspira\u00e7\u00e3o dos prudentes n\u00e3o o<br \/>\n<br \/>interessava.<br \/> Necessitava de t emperamentos an\u00e1logos ao seu, para que o<br \/>\n<br \/>cometimento n\u00e3o falhasse.<\/p>\n<p>Depois de concertar largo projeto entre os compa tr\u00edcios, solicitou uma<br \/>\n<br \/>audi\u00eancia da Corte Provincial, para obter o apoio dos romanos encarregados<br \/>\n<br \/>da solu\u00e7\u00e3o de todos os assuntos pol\u00edticos da prov\u00edncia.<br \/> O Procurador, apesar<br \/>\n<br \/>de residir oficialmente em Cesar\u00e9ia, estagiava na cidade e ali tivera not\u00edcia dos<br \/>\n<br \/>fatos interessantes da v\u00e9spera.<br \/> Recebendo a peti\u00e7\u00e3o do prestigioso doutor da<br \/>\n<br \/>Lei, hipotecou-lhe solidariedade plena, elogiando as pro vid\u00eancias em<br \/>\n<br \/>perspectiva.<br \/> Seduzido pelo verbo fluente do mo\u00e7o rabino, fez -lhe sentir, com a<br \/>\n<br \/>displic\u00eancia do homem de Estado de todos os tempos e em quaisquer<br \/>\n<br \/>circunst\u00e2ncias pelos assuntos religiosos, que reconhecia no farisaismo raz\u00f5es<br \/>\n<br \/>de sobra para mover combate aos galileus ignorantes, que perturbavam o ritmo<br \/>\n<br \/>73<br \/>\n<br \/>das manifesta\u00e7\u00f5es de f\u00e9, nos santu\u00e1rios da cidade santa.<\/p>\n<p>Concretizando as promessas, concedeu, imediatamente, ao movo de Tarso<br \/>\n<br \/>a necess\u00e1ria outorga para o feito colimado, ressalvando naturalmente os<br \/>\n<br \/>direitos de natureza pol\u00edtica, que a suprema autoridade romana devia manter<br \/>\n<br \/>intang\u00edveis.<\/p>\n<p>Entretanto, bastava ao novel rabino a ades\u00e3o dos poderes p\u00fablicos aos<br \/>\n<br \/>projetos aventados.<\/p>\n<p>Animado em seus prop\u00f3sitos pela quase geral apro va\u00e7\u00e3o do seu plano,<br \/>\n<br \/>Saulo come\u00e7ou a coordenar as primeiras dilig\u00eancias por desvendar as<br \/>\n<br \/>atividades do \u201cCaminho\u201d em suas m\u00ednimas modalidades.<br \/> Obcecado pela id\u00e9ia<br \/>\n<br \/>da desforra p\u00fablica, idealizava quadros sinistros na mente superexcitada.<br \/> T\u00e3o<br \/>\n<br \/>logo fosse poss\u00edvel, prenderia todos os impli cados.<br \/> O Evangelho, aos seus<br \/>\n<br \/>olhos, dissimulava sedi\u00e7\u00e3o iminente.<br \/> Apresentaria os conceitos orat\u00f3rios de<br \/>\n<br \/>Estev\u00e3o como senha da bandeira revolucion\u00e1ria, de ma neira a despertar a<br \/>\n<br \/>repulsa dos companheiros menos vigi lantes, habituados a pactuar com o mal, a<br \/>\n<br \/>pretexto de acomodat\u00edcia toler\u00e2ncia.<br \/> Combinaria os textos da Lei de Mois\u00e9s e<br \/>\n<br \/>dos Escritos Sagrados, para justificar que se deveria conduzir os desertores<br \/>\n<br \/>dos princ\u00edpios da ra\u00e7a, at\u00e9 \u00e0 morte.<br \/> Demonstraria a irrepreensibilidade da sua<br \/>\n<br \/>conduta inflex\u00edvel.<br \/> Tudo faria por conduzir Sim\u00e3o Pedro ao calabou\u00e7o.<br \/> Na sua<br \/>\n<br \/>opini\u00e3o, devia ser ele o autor inte lectual da trama sutil que se vinha formando<br \/>\n<br \/>em torno da mem\u00f3ria de um simples carpinteiro.<br \/> No arrebatamento das id\u00e9ias<br \/>\n<br \/>precipitadas, chegava a concluir que ningu\u00e9m seria poupado nas suas<br \/>\n<br \/>decis\u00f5es irrevog\u00e1veis.<\/p>\n<p>Nesse dia, singularizado pela visita \u00e0s autoridades em evid\u00eancia, no intuito<br \/>\n<br \/>de as atrair \u00e0 sua causa, outros fatos surpreendentes vieram agravar as<br \/>\n<br \/>preocupa\u00e7\u00f5es que o assoberbavam.<br \/> Os\u00e9ias Marcos e Samuel Natan , dois<br \/>\n<br \/>compatriotas riqu\u00edssimos, de Jerusal\u00e9m.<br \/> depois de ouvirem a defesa pessoal<br \/>\n<br \/>de Estev\u00e3o, no Sin\u00e9drio, impressio nados com a eloq\u00fc\u00eancia e justeza dos<br \/>\n<br \/>conceitos do orador, distribu\u00edram com os filhos a parte da heran\u00e7a cab\u00edvel a<br \/>\n<br \/>cada um, e doaram ao \u2018Caminho o restante de seus haveres.<br \/> Para isso,<br \/>\n<br \/>procuraram Sim\u00e3o Pedro beijando -lhe as m\u00e3os calejadas no trabalho, depois<br \/>\n<br \/>de lhe ouvirem a palavra acerca de Jesus -Cristo.<\/p>\n<p>A not\u00edcia ecoou nos c\u00edrculos farisaicos com as caracter\u00edsticas de verdadeiro<br \/>\n<br \/>esc\u00e2ndalo.<\/p>\n<p>Saulo de Tarso teve conhecimento do fato, no dia imediato, aferindo o<br \/>\n<br \/>abalo geral que a atitude de Estev\u00e3o provocara.<br \/> A defec\u00e7\u00e3o dos dois<br \/>\n<br \/>correligion\u00e1rios bandeando-se para os galileus causou-lhe profundo sentimento<br \/>\n<br \/>de revolta.<br \/> Falava-se, mais, que Os\u00e9ias e Samuel, entregando ao \u201cCaminho\u201d a<br \/>\n<br \/>totalidade de seus bens, haviam declarado, entre l\u00e1grimas, que aceitavam o<br \/>\n<br \/>Cristo como o Messias prometido.<br \/> Os coment\u00e1rios dos amigos, a respeito,<br \/>\n<br \/>instigavam-no \u00e0s mais fortes repres\u00e1lias.<br \/> Designado pelas caprichosas<br \/>\n<br \/>correntes populares como o mais jovem defensor da Lei, sentia -se compelido,<br \/>\n<br \/>cada vez mais, a revelar o seu ascendente nesse posto que considerava<br \/>\n<br \/>sagrado.<br \/> Na defesa do seu mandato, por isso mesmo, desprezaria todas as<br \/>\n<br \/>considera\u00e7\u00f5es tendentes a \u00ednfirmar -lhe o rigorismo, em que presumia um divino<br \/>\n<br \/>dever.<\/p>\n<p>Considerando a gravidade da \u00faltima ocorr\u00eancia que amea\u00e7ava a<br \/>\n<br \/>estabilidade do juda\u00edsmo no seio mesmo dos seus elementos mais destacados,<br \/>\n<br \/>procurou novamente as autoridades supremas do Sin\u00e9drio, a fim de apressar<br \/>\n<br \/>as repress\u00f5es em perspectiva.<\/p>\n<p>74<br \/>\n<br \/>Atento \u00e0 autoriza\u00e7\u00e3o concedida pelos mais altos poderes pol\u00edticos da<br \/>\n<br \/>prov\u00edncia, Caif\u00e1s prop\u00f4s fosse o zeloso doutor de Tarso nomeado chefe e<br \/>\n<br \/>promotor de todas as provid\u00eancias atinentes e indispens\u00e1veis \u00e0 guarda e<br \/>\n<br \/>defesa da Lei.<br \/> Competia-lhe, ent\u00e3o, promover todos os recursos que julgasse<br \/>\n<br \/>convenientes e \u00fateis, reservadas ao Sin\u00e9drio as \u00faltimas decis\u00f5es, m\u00e1xime, as<br \/>\n<br \/>de natureza mais grave.<\/p>\n<p>Satisfeito com o resultado da reuni\u00e3o que impro visara, o mo\u00e7o tarsense<br \/>\n<br \/>acentuou antes de se despedir dos amigos:<br \/>\n<br \/>\u2014 Hoje mesmo requisitarei o corpo de tropa que dever\u00e1 operar no<br \/>\n<br \/>per\u00edmetro da cidade.<\/p>\n<p>Amanh\u00e3 ordenarei a deten\u00e7\u00e3o de Samuel e Os\u00e9ias, at\u00e9 que se resolvam a<br \/>\n<br \/>retomar ju\u00edzo e, no fim da semana, tratarei das capturas da gentalha do<br \/>\n<br \/>\u201cCaminho\u201d.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o temer\u00e1s, acaso, os sortil\u00e9gios? \u2014 interrogou Alexandre com ironia.<\/p>\n<p>\u2014 De modo algum \u2014 respondeu sentencioso e decisivo.<br \/> \u2014 Sabendo de<br \/>\n<br \/>oitiva que os pr\u00f3prios militares come\u00e7am a ficar supersticiosos sob a influ\u00eancia<br \/>\n<br \/>das id\u00e9ias extravagantes dessa g ente, chefiarei em pessoa a expe di\u00e7\u00e3o,<br \/>\n<br \/>porq\u00fcanto tenciono recolher o tal Sim\u00e3o Pedro ao calabou\u00e7o.<\/p>\n<p>\u2014 Sim\u00e3o Pedro? \u2014 perguntou um dos presentes.<br \/> admirado.<\/p>\n<p>\u2014 Por que n\u00e3o?<br \/>\n<br \/>\u2014 Sabes o motivo da aus\u00eancia de Gamaliel ao nosso encontro de hoje? \u2014<br \/>\n<br \/>tornou o outro.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 que, a convite desse mesmo Sim\u00e3o, ele foi observar as instala\u00e7\u00f5es e<br \/>\n<br \/>os feitos do \u201cCaminho\u201d.<br \/> N\u00e3o achas tudo isso extremamente curioso? Temos, de<br \/>\n<br \/>maneira geral, a impress\u00e3o de que o chefe humilde dos galileus, desaprovando<br \/>\n<br \/>a atitude de Estev\u00e3o perante o Sin\u00e9drio, deseja recompor a situa\u00e7\u00e3o, buscando<br \/>\n<br \/>aproximar-se de nossa autoridade administrativa.<br \/> Quem sabe? Talvez tudo isso<br \/>\n<br \/>seja \u00fatil.<br \/> No m\u00ednimo, \u00e9 bem poss\u00edvel estejamos caminhando para a necess\u00e1ria<br \/>\n<br \/>rearmoniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Saulo mostrava-se mais que surpreso, porque estupefato.<\/p>\n<p>\u2014 Mas, que vem a ser tudo isso? Gamaliel visitando o \u201cCaminho\u201d? Chego a<br \/>\n<br \/>duvidar da sua integridade mental.<\/p>\n<p>\u2014 Mas sabemos \u2014 interveio Alexandre \u2014 que o mestre sempre pautou<br \/>\n<br \/>seus atos e pensamentos com a m\u00e1xima corre\u00e7\u00e3o.<br \/> Era justo se negasse a tal<br \/>\n<br \/>convite, em considera\u00e7\u00e3o a n\u00f3s outros; entretanto, se tal n\u00e3o fez, \u00e9 igualmente<br \/>\n<br \/>preciso n\u00e3o desacatemos a delibera\u00e7\u00e3o tomada, certo, com a nobreza de<br \/>\n<br \/>objetivos que sempre o inspirou.<\/p>\n<p>\u2014 De acordo \u2014 disse Saulo algo contrafeito \u2014\u2018entretanto, apesar da<br \/>\n<br \/>amizade e gratid\u00e3o que lhe con sagro, nem mesmo Gamaliel poder\u00e1 modificar<br \/>\n<br \/>minhas resolu\u00e7\u00f5es.<br \/> \u00c9 poss\u00edvel que Sim\u00e3o Pedro se justifique, saindo ileso das<br \/>\n<br \/>provas a que ser\u00e1 submetido; mas, seja como for, ter\u00e1 de ser conduzido ao<br \/>\n<br \/>c\u00e1rcere para as necess\u00e1rias inquiri\u00e7\u00f5es.<br \/> Desconfio da sua aparente hu mildade.<\/p>\n<p>Com que fim se abalan\u00e7aria ele a deixar suas redes para arvorar -se em<br \/>\n<br \/>benfeitor gracioso dos pobres de Jerusal\u00e9m? Vejo, em tudo isso, prop\u00f3sitos de<br \/>\n<br \/>sedu\u00e7\u00e3o que n\u00e3o deve andar muito longe.<br \/> Os mais hu mildes e ignorantes<br \/>\n<br \/>caminham \u00e0 frente dos perigos.<br \/> Os senhores da destrui\u00e7\u00e3o aparecem depois.<\/p>\n<p>A palestra animou-se ainda algum tempo, em torno da expectativa geral<br \/>\n<br \/>dos acontecimentos que se aproximavam, at\u00e9 que Saulo se despediu e voltou<br \/>\n<br \/>para casa, disposto a assentar os \u00faltimos detalhes do seu plano.<\/p>\n<p>75<br \/>\n<br \/>A pris\u00e3o de Estev\u00e3o tivera, na igreja modesta do \u201cCaminho\u201d, ampla<br \/>\n<br \/>repercuss\u00e3o despertando justificados receios aos Ap\u00f3stolos da Galil\u00e9ia.<br \/> Pedro<br \/>\n<br \/>recebera a not\u00edcia com profunda tristeza.<br \/> Encontrara no rapaz de Corinto um<br \/>\n<br \/>auxiliar devotado e um irm\u00e3o.<br \/> Al\u00e9m disso, pela nobreza de suas qualidades<br \/>\n<br \/>afetivas, Estev\u00e3o se tornara uma figura central a focalizar todas as aten\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Para a sua fronte inspirada convergiam numerosos problemas, em cuja solu\u00e7\u00e3o<br \/>\n<br \/>o ex-pescador de Cafarnaum n\u00e3o mais dispensava a sua prestigiosa<br \/>\n<br \/>coopera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Amado pelos aflitos e sofredores, tinha sempre a palavra de bom \u00e2nimo,<br \/>\n<br \/>que levantava o mais desalentado cora\u00e7\u00e3o.<br \/> Pedro e Jo\u00e3o preocuparam -se<br \/>\n<br \/>mais por amor, que por quaisquer outras considera\u00e7\u00f5e s.<br \/> Entretanto Tiago, filho<br \/>\n<br \/>de Alfeu, n\u00e3o conseguia disfar\u00e7ar seu desgosto em face da conduta<br \/>\n<br \/>desassombrada do irm\u00e3o de f\u00e9, que n\u00e3o hesitara em afrontar os poderes<br \/>\n<br \/>farisaicos, dos senhores da situa\u00e7\u00e3o.<br \/> Na opini\u00e3o dele, Estev\u00e3o andara errado<br \/>\n<br \/>no cap\u00edtulo das exorta\u00e7\u00f5es; deveria comedir -se, merecera a pris\u00e3o pelos<br \/>\n<br \/>argumentos precipitados na defesa de si mesmo.<br \/> Fer mentara-se a discuss\u00e3o.<\/p>\n<p>Pedro fazia-lhe sentir a oportunidade da ocorr\u00eancia, para que se revelasse a<br \/>\n<br \/>liberdade do Evangelho.<br \/> E refor\u00e7ava os argument os com a l\u00f3gica dos fatos.<br \/> A<br \/>\n<br \/>resolu\u00e7\u00e3o de Os\u00e9ias e Samuel, entregando -se ao Cristo, era invocada para<br \/>\n<br \/>justificar o \u00eaxito espiritual do \u201cCaminho\u201d.<br \/> Toda a cidade comentava os aconteci &#8211;<br \/>\n<br \/>mentos; muitos se aproximavam da igreja com sincero desejo de melhor<br \/>\n<br \/>conhecer o Cristo, e isso devia significar a vit\u00f3ria da causa.<br \/> Tiago, no entanto,<br \/>\n<br \/>n\u00e3o se deixava vencer pelos mais fortes racioc\u00ednios.<br \/> A disc\u00f3rdia tomava corpo,<br \/>\n<br \/>mas Sim\u00e3o e o filho de Zebedeu sobre punham a tudo os interesses da<br \/>\n<br \/>Mensagem de Jesus.<\/p>\n<p>O Mestre afirmara-se emiss\u00e1rio para todos os desalen tados e doentes.<br \/> E<br \/>\n<br \/>estes j\u00e1 conheciam a igreja humilde de Jerusal\u00e9m, iluminando -se com a<br \/>\n<br \/>palavra de vida e de verdade.<\/p>\n<p>Os enfermos, os desiludidos da sorte, os desprotegidos do mundo, os<br \/>\n<br \/>tristes, iam-lhe ao encontro para o esclarecimento consolador.<br \/> Era de ver -se<br \/>\n<br \/>como se rejubilavam na dor, quando se lhes falava da claridade eterna da<br \/>\n<br \/>ressurrei\u00e7\u00e3o.<br \/> Velhinhos tr\u00eamulos abriam os olhos desmesuradamente, como se<br \/>\n<br \/>contemplassem novos horizontes de imprevistas esperan\u00e7as.<br \/> Criaturas<br \/>\n<br \/>cansadas da luta terrestre sorriam venturosas, quando, em ouvindo a Boa<br \/>\n<br \/>Nova, compreendiam que a exist\u00eancia amargurada n\u00e3o era tudo.<\/p>\n<p>Pedro observava os sofredores que Jesus tanto amara e experimentava<br \/>\n<br \/>novas for\u00e7as.<\/p>\n<p>Ciente da atitude nobre de Gamaliel ante as acusa\u00e7\u00f5es do doutor de Tarso,<br \/>\n<br \/>e crente de que s\u00f3 ela evitara o apedrejamento imediato de Estev\u00e3o, concebeu<br \/>\n<br \/>o projeto de convid\u00e1-lo a visitar as instala\u00e7\u00f5es toscas da igreja do \u201cCaminho\u201d.<\/p>\n<p>Exposta aos companheiros, a id\u00e9ia foi unan imemente aprovada.<br \/> Jo\u00e3o era o<br \/>\n<br \/>mensageiro escolhido para o novo cometimento.<\/p>\n<p>Gamaliel n\u00e3o s\u00f3 recebeu cavalheirescamente o emis s\u00e1rio como tamb\u00e9m<br \/>\n<br \/>demonstrou grande interesse pelo convite, aceitando -o com a generosidade<br \/>\n<br \/>que lhe exornava a velhice veneranda.<\/p>\n<p>Entabuladas as combina\u00e7\u00f5es, o s\u00e1bio rabino deu entrada na casa pobre<br \/>\n<br \/>dos galileus, que o receberam com infinita alegria.<br \/> Sim\u00e3o Pedro,<br \/>\n<br \/>profundamente respeitoso, explicou-lhe as finalidades da institui\u00e7\u00e3o, es &#8211;<br \/>\n<br \/>clareceu-o relativamente aos feitos verificados e falou do conforto dispensado<br \/>\n<br \/>aos que se encontravam em aban dono.<br \/> Carinhosamente, ofereceu-lhe uma<br \/>\n<br \/>76<br \/>\n<br \/>c\u00f3pia, em pergaminho, de todas as anota\u00e7\u00f5es de Mateus sobre a<br \/>\n<br \/>personalidade do Cristo e seus gloriosos ensinamentos.<br \/> Gamaliel agradecia,<br \/>\n<br \/>atencioso, ao ex-pescador, tratando-o igualmente com defer\u00eancia e<br \/>\n<br \/>considera\u00e7\u00e3o.<br \/> Dando a entender que desejava expor \u00e0 sua respeit\u00e1vel<br \/>\n<br \/>aprecia\u00e7\u00e3o todos os programas da igreja humilde, Sim\u00e3o conduziu o velho<br \/>\n<br \/>doutor da Lei a todas as depend\u00eancias.<br \/> Chegados \u00e0 longa enfermaria em que<br \/>\n<br \/>se aglomeravam os mais diversos doentes, o grande rabino de Jerusal\u00e9m n\u00e3o<br \/>\n<br \/>p\u00f4de ocultar a m\u00e1xima impress\u00e3o, comovido at\u00e9 as l\u00e1grimas com o quadro que<br \/>\n<br \/>se lhe deparava aos olhos espantados.<br \/> Em leitos acolhedores via anci\u00e3es de<br \/>\n<br \/>cabelos nevados pelos invernos da vida, e crian\u00e7as esqu\u00e1lidas cujos olha res<br \/>\n<br \/>agradecidos acompanhavam o vulto de Pedro, como se estivessem na<br \/>\n<br \/>presen\u00e7a de um pai.<br \/> N\u00e3o dera ainda dez passos em torno dos m\u00f3veis singelos<br \/>\n<br \/>e limpos, quando estacou \u00e0 frente de um velhinho de miser\u00e1vel as pecto.<\/p>\n<p>Imobilizado p\u00e9la enfermidade que o prostrara, o pobre enfermo pareceu<br \/>\n<br \/>reconhec\u00ea-lo igualmente.<\/p>\n<p>E o di\u00e1logo se travou sem pre\u00e2mbulos:<br \/>\n<br \/>\u2014Sam\u00f4nio, tu aqui? \u2014 interrogou Gamaliel admi rado.<br \/> \u2014 Pois ser\u00e1<br \/>\n<br \/>poss\u00edvel que abandonasses Cesar\u00e9ia?<br \/>\n<br \/>\u2014Ah! sois v\u00f3s, senhor! \u2014 respondeu o interpelado com uma l\u00e1grima no<br \/>\n<br \/>canto dos olhos.<br \/> \u2014 Ainda bem que um dos meus compatr\u00edcios e amigos<br \/>\n<br \/>chegou a observar minha grande mis\u00e9ria.<\/p>\n<p>O pranto embargou-lhe a voz, impedindo-o de continuar.<\/p>\n<p>\u2014Mas, os teus filhos? E os parentes? N a posse de quem est\u00e3o tuas<br \/>\n<br \/>propriedades da Samaria? \u2014 perguntava o velho mestre perplexo.<br \/> \u2014 N\u00e3o<br \/>\n<br \/>chores, Deus tem sempre muito para nos dar.<\/p>\n<p>Decorrida longa pausa em que Sam\u00f4nio pareceu coordenar as id\u00e9ias para<br \/>\n<br \/>explicar-se, conseguiu limpar as l\u00e1grimas e p rosseguir:<br \/>\n<br \/>\u2014 Ah! senhor, como Job, vi meu corpo apodrecer entre os confortos de<br \/>\n<br \/>minha casa; Jeov\u00e1 em sua sabe doria reservava-me longas provan\u00e7as.<\/p>\n<p>Denunciado como leproso, em v\u00e3o solicitei socorro dos filhos que o Criador me<br \/>\n<br \/>concedeu na mocidade.<br \/> Todos me abandonaram.<br \/> Os familiares deram-se<br \/>\n<br \/>pressa em partir deixando-me sozinho.<br \/> Os amigos que se banqueteavam<br \/>\n<br \/>comigo, em Cesar\u00e9ia, fugiram sem que os pudesse ver.<br \/> Fiquei s\u00f3 e<br \/>\n<br \/>desamparado.<br \/> Um dia, para suprema desespera\u00e7\u00e3o da minha desdita, os<br \/>\n<br \/>executores da justi\u00e7a procuraram-me para notificar a senten\u00e7a cruel.<\/p>\n<p>Combinados entre si, a conselho da iniq\u00fcidade, meus filhos destituiram -me de<br \/>\n<br \/>todos os bens, assenhorearam-Se de minhas posses e dos t\u00edtulos em dinheiro,<br \/>\n<br \/>que representavam a esperan\u00e7a de uma velhice honest a.<br \/> Por fim e para<br \/>\n<br \/>c\u00famulo de sofrimentos, conduziram-me ao vale dos imundos, onde me<br \/>\n<br \/>abandonaram como se fora um criminoso sentenciado a morte.<br \/> Senti tanto<br \/>\n<br \/>abandono e tanta fome, experimentei tamanhas necessidades, talvez pela<br \/>\n<br \/>minha vida passada no trabalho e no conforto, que fugi do vale dos leprosos,<br \/>\n<br \/>fazendo longa jornada a p\u00e9, esperan\u00e7oso de encontrar em Jerusal\u00e9m as<br \/>\n<br \/>amizades valiosas de outrora.<\/p>\n<p>Ouvindo o relato doloroso, o velho mestre tinha os olhos \u00famidos.<\/p>\n<p>Conhecera Sam\u00f4nio nos dias mais felizes de s ua vida.<br \/> Homenageado em sua<br \/>\n<br \/>resid\u00eancia, de passagem por Cesar\u00e9ia, espantava -se agora daquela angustiosa<br \/>\n<br \/>indig\u00eancia.<\/p>\n<p>Depois de pequeno interregno em que o doente pro curava enxugar o suor<br \/>\n<br \/>e as l\u00e1grimas, com voz pausada continuou:<br \/>\n<br \/>77<br \/>\n<br \/>\u2014 Empreendi a viagem, mas tudo conspirou contra mim.<br \/> Em breve os p\u00e9s<br \/>\n<br \/>chagados n\u00e3o podiam caminhar.<br \/> Arrastava -me como podia, cheio de cansa\u00e7o e<br \/>\n<br \/>sede, quando um carroceiro humilde, apiedado, me colheu e trouxe a esta<br \/>\n<br \/>casa, onde a dor encontra um consolo fraternal.<\/p>\n<p>Gamaliel n\u00e3o sabia como externar sua surpresa, tal a emo\u00e7\u00e3o que lhe<br \/>\n<br \/>vibrava no \u00edntimo.<br \/> Pedro, igualmente, estava sensibilizado.<br \/> Acostumando -se \u00e0<br \/>\n<br \/>pr\u00e1tica do bem sem cogitar jamais dos antecedentes do socorrido, via no caso<br \/>\n<br \/>uma confortadora revela\u00e7\u00e3o do amoroso poder do Cris to.<\/p>\n<p>O grande rabino estava at\u00f4nito diante do que ali via e ouvia.<br \/> Com a<br \/>\n<br \/>sinceridade que lhe era peculiar, n\u00e3o podia dissimular sua amizade agradecida<br \/>\n<br \/>ao pobre enfermo; mas, sem recursos para retir\u00e1 -lo daquele pobre albergue,<br \/>\n<br \/>via-se na conting\u00eancia de estender seu reconhecimento a Sim\u00e3o Pedro e<br \/>\n<br \/>demais companheiros do ex-pescador de Cafarnaum.<br \/> S\u00f3 agora reconhecia que<br \/>\n<br \/>o juda\u00edsmo n\u00e3o havia cogitado desses pousos de amor.<br \/> Encontrando ali o<br \/>\n<br \/>amigo leproso, desejou sinceramente ampar\u00e1 -lo.<br \/> Mas como? Pela primeira vez<br \/>\n<br \/>pensou na dolorosa eventualidade de enviar um ente amado ao vale dos<br \/>\n<br \/>imundos.<br \/> Ele que aconselhara esse recurso a tanta gente, ali estava<br \/>\n<br \/>considerando, agora, a situa\u00e7\u00e3o de um amigo querido.<br \/> O epis\u00f3dio abalava -o<br \/>\n<br \/>profundamente Procurando evitar racioc\u00ednios filos\u00f3ficos, de modo a n\u00e3o cair em<br \/>\n<br \/>conclus\u00f5es apressadas, falou com do\u00e7ura:<br \/>\n<br \/>\u2014Sim, tens raz\u00e3o para agradecer o esfor\u00e7o dos teus benfeitores.<\/p>\n<p>\u2014E tamb\u00e9m a miseric\u00f3rdia do Cristo \u2014 acentuou o doente com uma<br \/>\n<br \/>l\u00e1grima.<br \/> \u2014 Creio, agora, que o generoso profeta de Nazar\u00e9, com o testemunho<br \/>\n<br \/>de amor que nos trouxe, \u00e9 o Messias prometido.<\/p>\n<p>O grande doutor compreendeu o \u00eaxito da nova dou trina.<br \/> Aquele Jesus<br \/>\n<br \/>desconhecido, ignorado da sociedade mais culta de Jerusal\u00e9m, triunfava no<br \/>\n<br \/>cora\u00e7\u00e3o dos infelizes, pela contribui\u00e7\u00e3o de amor desinteressado que trou xera<br \/>\n<br \/>aos mais deserdados da sorte.<\/p>\n<p>Compreendeu, ao mesmo tempo, a discri\u00e7\u00e3o que se lhe impunha naquele<br \/>\n<br \/>meio humilde, atentas as suas responsabilidades na vida p\u00fablica.<br \/> Precisando<br \/>\n<br \/>prosseguir na conversa, por testemu nhar o seu altru\u00edsmo e piedade, advertiu<br \/>\n<br \/>com um sorriso:<br \/>\n<br \/>\u2014Acredito que Jesus de Nazar\u00e9, de fato, foi um modelo de ren\u00fancia a prol<br \/>\n<br \/>de id\u00e9ias que, at\u00e9 hoje, n\u00e3o pude perquirir ou compreender; mas da\u00ed a<br \/>\n<br \/>consider\u00e1-lo o pr\u00f3prio Messias.<br \/>.<\/p>\n<p>Essas palavras reticenciosas davam a compreender o escr\u00fapulo do seu<br \/>\n<br \/>cora\u00e7\u00e3o delicado, entre a Lei Antiga e as novas revela\u00e7\u00f5es do Evangelho.<\/p>\n<p>Sim\u00e3o Pedro assim o entendeu e, debalde, procurava um meio para desviar a<br \/>\n<br \/>palestra noutro rumo, O pr\u00f3prio Sam\u00f4nio, por\u00e9m, como tutelado do Mes tre, foi<br \/>\n<br \/>em aux\u00edlio do Ap\u00f3stolo, redarguindo a Gamaliel com observa\u00e7\u00f5es ponderadas<br \/>\n<br \/>e justas:<br \/>\n<br \/>\u2014 Se eu estivesse com sa\u00fade, plenamente identifi cado com a fam\u00edlia e no<br \/>\n<br \/>gozo dos bens que conquistei com esfor\u00e7o e trabalho, talvez duvidasse<br \/>\n<br \/>tamb\u00e9m dessa realidade confortando- a, Mas estou prostrado, esquecido de<br \/>\n<br \/>todos e sei quem me deu m\u00e3o amiga.<br \/> Como israelitas, amantes da Lei de<br \/>\n<br \/>Mois\u00e9s, temos esperado um Salvador na pessoa mortal de um pr\u00edncipe do<br \/>\n<br \/>mundo; contudo, essa cren\u00e7a h\u00e1 de prevalecer para uma situa\u00e7\u00e3 o passageira.<\/p>\n<p>S\u00e3o ilus\u00f3rios preconceitos, esses que nos levam a induzir uma domina\u00e7\u00e3o de<br \/>\n<br \/>for\u00e7as perec\u00edveis.<br \/> A enfermidade, por\u00e9m, \u00e9 conselheira carinhosa e<br \/>\n<br \/>esclarecida.<br \/> De que nos valeria um profeta que salvasse o mundo para depois<br \/>\n<br \/>78<br \/>\n<br \/>desaparecer entre as mis\u00e9rias an\u00f4nimas de um corpo apodrecido? N\u00e3o est\u00e1<br \/>\n<br \/>escrito que toda iniq\u00fcidade perecer\u00e1? E onde est\u00e1 o pr\u00edncipe poderoso da<br \/>\n<br \/>Terra que domine sem a garantia das armas? O leito de dor \u00e9 um campo de<br \/>\n<br \/>ensinamentos sublimes e luminosos.<br \/> Nele, a alma exausta vai es timando no<br \/>\n<br \/>corpo a fun\u00e7\u00e3o de uma t\u00fanica.<\/p>\n<p>Tudo o que se refira \u00e0 vestimenta vai perdendo, conseq\u00fcentemente, de<br \/>\n<br \/>import\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Persevera, contudo, a nossa realidade espiritual.<br \/> Os antigos afirmavam<br \/>\n<br \/>que somos deuses.<br \/> Na minha situa\u00e7\u00e3o atual tenho a per feita impress\u00e3o de que<br \/>\n<br \/>somos deuses projetados num turbilh\u00e3o de p\u00f3.<br \/> Apesar das chagas pustulentas<br \/>\n<br \/>que me segregaram das afei\u00e7\u00f5es mais queridas, penso, quero e amo.<br \/> Na<br \/>\n<br \/>c\u00e2mara escura do sofrimento, encontrei o Se nhor Jesus, para compreend\u00ea-lo<br \/>\n<br \/>melhor.<br \/> Hoje creio que seu poder dominar\u00e1 as na\u00e7\u00f5es, porque \u00e9 a for\u00e7a do<br \/>\n<br \/>amor triunfando da pr\u00f3pria morte.<\/p>\n<p>A voz daquele homem marcado de feridas roxas, no seu grave entono,<br \/>\n<br \/>parecia o clarim da verdade saindo de um mont\u00e3o de p\u00f3.<br \/> Pedro verificava,<br \/>\n<br \/>satisfeito, o progresso moral daquele mendigo an\u00f4nimo, para avaliar<br \/>\n<br \/>\u00edntimamente a for\u00e7a regeneradora do Evangelho.<\/p>\n<p>Gamaliel, por sua vez, aturdia -se com o profundo sentido daqueles<br \/>\n<br \/>conceitos.<br \/> A prega\u00e7\u00e3o do Cristo, nos l\u00e1bios de um doente desamparado, tinha<br \/>\n<br \/>um cunho de beleza misteriosa e singular.<br \/> Sam\u00f4nio falara no tom de quem<br \/>\n<br \/>tivera experi\u00eancias diretas de um encontro real com o profeta nazareno.<\/p>\n<p>Buscando afastar qualquer possibili dade de controv\u00e9rsia religiosa, o generoso<br \/>\n<br \/>rabino sorriu e acrescentou:<br \/>\n<br \/>\u2014 Reconhe\u00e7o que falas com muita s abedoria.<br \/> Se \u00e9 incontest\u00e1vel que<br \/>\n<br \/>estou numa idade em que n\u00e3o seria \u00fatil alterar os princ\u00edpios, n\u00e3o posso<br \/>\n<br \/>manifestar-me contr\u00e1rio \u00e0s tuas suposi\u00e7\u00f5es, pois estou bem de sa\u00fade, gozo o<br \/>\n<br \/>carinho dos meus e tenho vida tranq\u00fcila.<br \/> Minha facul dade de julgar,<br \/>\n<br \/>portanto, tem de operar noutro rumo.<\/p>\n<p>Sim, \u00e9 justo \u2014 retrucou Sam\u00f4nio, inspirado \u2014, por enquanto n\u00e3o estais<br \/>\n<br \/>precisando de um salvador.<br \/> Eis por que o Cristo afirmava que viera para os<br \/>\n<br \/>doentes e para os aflitos.<\/p>\n<p>Gamaliel compreendeu o alcance dessas palavra s que davam para meditar<br \/>\n<br \/>uma vida inteira.<br \/> Sentiu os olhos \u00famidos.<br \/> A observa\u00e7\u00e3o de Sam\u00f4nio penetrara &#8211;<br \/>\n<br \/>lhe fundo o cora\u00e7\u00e3o sens\u00edvel de homem justo.<br \/> Percebendo, todavia, que<br \/>\n<br \/>necessitava de prud\u00eancia para n\u00e3o confundir os sen timentos do povo, atento o<br \/>\n<br \/>cargo oficial que ocupava, esbo\u00e7ou um manso sorriso para o interlocutor,<br \/>\n<br \/>bateu-lhe levemente no ombro, e com acento de fraternal sinceridade<br \/>\n<br \/>acentuou:<br \/>\n<br \/>\u2014 Talvez tenhas raz\u00e3o.<br \/> Estudarei o teu Cristo.<\/p>\n<p>E lembrando o pouco tempo de que dispunha, reco mendou o amigo a<br \/>\n<br \/>Sim\u00e3o, despedindo-se num abra\u00e7o, para acompanhar o Ap\u00f3stolo de<br \/>\n<br \/>Cafarnaum \u00e0s \u00faltimas depend\u00eancias.<\/p>\n<p>Antes de se retirar, o s\u00e1bio rabino felicitou os com p\u00e0nheiros de Jesus pela<br \/>\n<br \/>obra que realizavam na cidade, e, compreendendo a delicadeza de sua miss\u00e3o<br \/>\n<br \/>num ambiente por vezes t\u00e3o hostil, aconselhou a Pedro n\u00e3o es quecer, na igreja<br \/>\n<br \/>do \u201cCaminho\u201d, todas as pr\u00e1ticas exteriores do juda\u00edsmo.<br \/> Seria justo, ao seu ver,<br \/>\n<br \/>que se cuidasse da circuncis\u00e3o de todos os que lhe batessem \u00e0 porta; que<br \/>\n<br \/>evitassem as viandas impuras; que n\u00e3o olvidassem o Templo e seus princ\u00edpios.<\/p>\n<p>Gamaliel sabia que os galileus n\u00e3o seriam isentos de persegui\u00e7\u00e3o, ainda mais<br \/>\n<br \/>79<br \/>\n<br \/>tratando-se de uma organiza\u00e7\u00e3o iniciada por algu\u00e9m que fora condenado \u00e0<br \/>\n<br \/>morte pelo Sin\u00e9drio.<br \/> Com aqueles con selhos, visava aparar os golpes da<br \/>\n<br \/>viol\u00eancia, que, cedo ou tarde, haveriam de chegar.<\/p>\n<p>Pedro, Jo\u00e3o e Tiago agradeceram sensibilizados a carinhosa admoesta\u00e7\u00e3o<br \/>\n<br \/>e o velho doutor regressou ao lar, fundamente impressionado com as li\u00e7\u00f5es do<br \/>\n<br \/>dia, levando consigo os apontamentos de Mateus, que se p\u00f4s a ler<br \/>\n<br \/>imediatamente.<\/p>\n<p>Mais dois dias decorreram e as persegui\u00e7\u00f5es capi taneadas por Saulo de<br \/>\n<br \/>Tarso come\u00e7aram a sacudir Jeru sal\u00e9m em todos os setores de suas atividades<br \/>\n<br \/>religiosas.<\/p>\n<p>Os\u00e9ias Marcos e Samuel Natan foram presos, sem nota de cul pa, a fim de<br \/>\n<br \/>responderem a rigoroso inqu\u00e9rito.<br \/> Os cooperadores do movimento organizaram<br \/>\n<br \/>longas nominatas dos israelitas mais destacados que freq\u00fcenta vam as<br \/>\n<br \/>reuni\u00f5es da igreja do \u201cCaminho\u201d.<br \/> O mo\u00e7o de Tarso determinara que se abrisse<br \/>\n<br \/>inqu\u00e9rito geral.<br \/> Entretanto, como desejava dar uma demonstra\u00e7\u00e3o de desas &#8211;<br \/>\n<br \/>sombro aos advers\u00e1rios, julgou que deveria iniciar as pris\u00f5es de maior<br \/>\n<br \/>import\u00e2ncia, depois do encarceramen to de Os\u00e9ias e Samuel, no reduto mesmo<br \/>\n<br \/>dos galileus obscuros, que haviam ousado afrontar a sua au toridade.<\/p>\n<p>Foi pela manh\u00e3 de um dia muito claro, que o futuro rabino, cercado de<br \/>\n<br \/>alguns companheiros e soldados, bateu \u00e0 porta da casa humilde, fazendo<br \/>\n<br \/>grande alarde dos fins de sua visita insidiosa.<br \/> Sim\u00e3o Pedro em pessoa foi<br \/>\n<br \/>atend\u00ea-lo com grande serenidade nos olhos.<\/p>\n<p>Indisfar\u00e7\u00e1vel pavor estabeleceu-se entre os mais t\u00edmidos, porq\u00fcanto, dois<br \/>\n<br \/>jovens que acompanhavam o Ap\u00f3stolo se incumbi ram de correr ao interior e<br \/>\n<br \/>espalhar a not\u00edcia.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9s tu Sim\u00e3o Pedro, antigo pescador de Cafar naum? perguntou Saulo<br \/>\n<br \/>com certa insol\u00eancia.<\/p>\n<p>\u2014 Eu mesmo \u2014 respondeu com firmeza.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1s preso! \u2014 disse o chefe da expedi\u00e7\u00e3o num gesto de triunfo.<br \/> E<br \/>\n<br \/>mandando que dois dos companheiros se adiantassem, ordenou fosse o<br \/>\n<br \/>Ap\u00f3stolo algemado incontinenti.<br \/> Pedro n\u00e3o op\u00f4s a m\u00ednima resist\u00ea ncia.<\/p>\n<p>Impressionado com o temperamento pac\u00edfico que os continuadores do<br \/>\n<br \/>Nazareno testemunhavam sempre, Saulo objetou com esc\u00e1rnio:<br \/>\n<br \/>\u2014 O Mestre do \u201cCaminho\u201d deve ter sido um alto modelo de in\u00e9rcia e<br \/>\n<br \/>covardia.<br \/> Ainda n\u00e3o encontrei qual quer ind\u00edcio de dignidade nos seus<br \/>\n<br \/>disc\u00edpulos, cujas faculdades de rea\u00e7\u00e3o parecem mortas.<\/p>\n<p>Recebendo em cheio t\u00e3o acerba inj\u00faria, o ex -pescador respondeu<br \/>\n<br \/>serenamente:<br \/>\n<br \/>\u2014 Engan\u00e0i-vos quando assim julgais.<br \/> O disc\u00edpulo do Evangelho \u00e9 apenas<br \/>\n<br \/>inimigo do mal e, na sua tarefa coloca o amor acima de todos os princ\u00edpios.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do mais, n\u00f3s consideramos que todo jugo, com Jesus, \u00e9 suave.<\/p>\n<p>O jovem tarsense, detentor de t\u00e3o alto poderio, n\u00e3o dissimulou o mal -estar<br \/>\n<br \/>que a resposta lhe causava e, apontando o continuador de Jesus, disse a um<br \/>\n<br \/>dos homens da escolta:<br \/>\n<br \/>&#8211; Jonas, toma conta dele.<\/p>\n<p>E, acentuando ironicamente as palavras, dirigiu -se aos demais com um<br \/>\n<br \/>gesto de desprezo para o Ap\u00f3stolo algemado, que o contemplava sereno,<br \/>\n<br \/>embora surpreendido:<br \/>\n<br \/>N\u00e3o discutamos.<br \/> com este homem.<br \/> Esta gente do \u201cCaminho\u201d est\u00e1<br \/>\n<br \/>sempre cheia de racioc\u00ednios absur dos.<br \/> \u00c9 preciso n\u00e3o perder tempo com a<br \/>\n<br \/>80<br \/>\n<br \/>cegueira da ignor\u00e2ncia.<br \/> Vamos at\u00e9 l\u00e1 dentro, prendamos os chefes.<br \/> Os<br \/>\n<br \/>sequazes do carpinteiro h\u00e3o de ser perseguidos at\u00e9 ao fim.<\/p>\n<p>Resoluto, tomou a dianteira, penetrando ousadamente em busca dos<br \/>\n<br \/>apartamentos mais \u00edntimos.<br \/> De porta a porta, encontrava mendigos que o<br \/>\n<br \/>fitavam tomados de espanto e amargura.<br \/> O quadro vivo de tanta mis\u00e9ria<br \/>\n<br \/>abrigada enchia-o de admira\u00e7\u00e3o; mas, esfor\u00e7a va-se por n\u00e3o perder a<br \/>\n<br \/>enfibratura implac\u00e1vel, de maneira a executar seus projetos nos menores<br \/>\n<br \/>detalhes.<br \/> Ao lado da enfermaria de mais vastas propor\u00e7\u00f5es, en controu o filho<br \/>\n<br \/>de Zebedeu, que lhe ouviu a voz de pris\u00e3o sem alterar a serenidade<br \/>\n<br \/>fision\u00f4mica.<\/p>\n<p>Sentindo as m\u00e3os grosseiras do soldado que lhe aplicava as algemas,<br \/>\n<br \/>Jo\u00e3o ergueu os olhos ao Alto e murmurou simplesmente:<br \/>\n<br \/>\u2014Encomendo-me ao Cristo.<\/p>\n<p>O chefe da caravana olhou-o com profundo desprezo e exclamou<br \/>\n<br \/>altivamente para os companheiros:<br \/>\n<br \/>\u2014Faltam dois dos mais suspeitos.<br \/> Procuremo -los Referia-se a Filipe e<br \/>\n<br \/>Tiago, na qualidade de disc\u00edpulos diretos do Messias Nazareno.<\/p>\n<p>Mais alguns passos e o primeiro foi encontrado facilmente.<br \/> Filipe deixou -se<br \/>\n<br \/>algemar sem um protesto.<br \/> Suas filhas o rodearam aflitas e chorosas.<\/p>\n<p>\u2014 Coragem, filhas \u2014 disse ele sem temor \u2014, acaso ser\u00edamos superiores<br \/>\n<br \/>a Jesus, que foi perseguido e cru cificado pelos homens?<br \/>\n<br \/>\u2014 Ouves, Clemente? \u2014 perguntou SauLo, irritado, a um dos amigos mais<br \/>\n<br \/>cotados.<br \/> \u2014 N\u00e3o se percebe outra coisa a n\u00e3o ser refer\u00eancias ao estranho<br \/>\n<br \/>Nazareno! O primeiro falou em jugo do Cristo, o segundo encomen dou-se ao<br \/>\n<br \/>Cristo, este alude \u00e0 superioridade do Cristo.<br \/>.<br \/>.<br \/> Aonde iremos?<br \/>\n<br \/>Ap\u00f3s desabafar a c\u00f3lera, em termos \u00e1speros, rema tava com o estribilho<br \/>\n<br \/>constante:<br \/>\n<br \/>\u2014Havemos de ir at\u00e9 ao fim.<\/p>\n<p>Seguros os tr\u00eas prisioneiros, faltav a o filho de Alfeu.<br \/> Algu\u00e9m se lembrou de<br \/>\n<br \/>procur\u00e1-lo no tosco biombo que ocupava.<br \/> Com efeito, l\u00e1 o acharam ajoelhado,<br \/>\n<br \/>tendo diante dos olhos um rolo de pergaminhos em que se en contrava a Lei de<br \/>\n<br \/>Mois\u00e9s.<br \/> Via-se-Lhe a palidez marm\u00f3rea do rosto, quando Saulo s e aproximou<br \/>\n<br \/>r\u00edspido:<br \/>\n<br \/>\u2014Que \u00e9 isso? H\u00e1 aqui algu\u00e9m que cuide da Lei?<br \/>\n<br \/>O irm\u00e3o de Levi levantou os olhos transbordantes de sincero receio e<br \/>\n<br \/>explicou humilde:<br \/>\n<br \/>\u2014Senhor, jamais esqueci a Lei de nossos pais.<br \/> Meus av\u00f3s ensinaram -me<br \/>\n<br \/>a receber de joelhos as luzes do profeta santo.<\/p>\n<p>A atitude de Tiago n\u00e3o traduzia fingimento.<br \/> Con sagrando o m\u00e1ximo<br \/>\n<br \/>respeito ao libertador de Israel, sempre ouvira dizer que seus livros sagrados<br \/>\n<br \/>estavam tocados de virtude santa.<br \/> Na expectativa do c\u00e1rcere, atemoriza ra-se<br \/>\n<br \/>com o perigo iminente.<br \/> N\u00e3o pudera compreender, maiormente, como outros<br \/>\n<br \/>companheiros, o sentido divino e oculto das li\u00e7\u00f5es do Evangelho.<br \/> O sacrif\u00edcio<br \/>\n<br \/>inspirava-lhe indisfar\u00e7\u00e1veis temores.<br \/> Afinal, pensava ele na compreens\u00e3o<br \/>\n<br \/>parcial do Cristo: \u2014 quem ficaria para superintender as obras come\u00e7adas? O<br \/>\n<br \/>Mestre expirara na cruz e, naquele instante, os Ap\u00f3stolos de Jerusal\u00e9m esta &#8211;<br \/>\n<br \/>vam presos.<\/p>\n<p>Precisava defender-se com os meios poss\u00edveis, ao seu alcance.<br \/> Imaginou<br \/>\n<br \/>recorrer \u00e0s virtudes sobrenaturais da Lei de Mois\u00e9s, de acordo com as velhas<br \/>\n<br \/>cren\u00e7as.<br \/> Genuflexo, esperara os verdugos que se apro ximavam.<\/p>\n<p>81<br \/>\n<br \/>Em face da atitude imprevista de Tiago, Saulo de Tarso estava at\u00f4nito.<br \/> S\u00f3<br \/>\n<br \/>os esp\u00edritos profundamente aferrados ao juda\u00edsmo liam, de joelhos, os<br \/>\n<br \/>ensinamentos de Mois\u00e9s.<br \/> Em s\u00e3 consci\u00eancia, n\u00e3o poderia ordenar a pris\u00e3o<br \/>\n<br \/>daquele homem, O argumento que justificava sua tarefa, perante as<br \/>\n<br \/>autoridades pol\u00edticas e religiosas de Jerusal\u00e9m, era o combate aos inimigos<br \/>\n<br \/>das tradi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u2014Mas n\u00e3o sois amigo do carpinteiro?<br \/>\n<br \/>Com invej\u00e1vel presen\u00e7a de esp\u00edri to o interpelado respondeu:<br \/>\n<br \/>\u2014N\u00e3o me consta que a Lei nos impe\u00e7a de ter amigos.<\/p>\n<p>Saulo perturbou-se, mas prosseguiu:<br \/>\n<br \/>\u2014Mas, que escolheis? A Lei ou o Evangelho? Qual dos dois aceitais em<br \/>\n<br \/>primeiro lugar?<br \/>\n<br \/>\u2014A Lei \u00e9 a primeira revela\u00e7\u00e3o divina \u2014 disse Tiago com intelig\u00eancia.<\/p>\n<p>Ante a resposta que o desconcertava, de alguma sorte, o mo\u00e7o de Tarso<br \/>\n<br \/>refletiu um momento e acrescentou, dirigindo-se, aos circunstantes:<br \/>\n<br \/>\u2014Est\u00e1 bem.<br \/> Este homem fica em paz.<\/p>\n<p>O filho de Alfeu, \u00edntimamente satisfeito com o re sultado de sua iniciativa,<br \/>\n<br \/>acreditava agora que a Lei de Moises estava tocada de gra\u00e7as vivas e<br \/>\n<br \/>permanentes.<br \/> A seu ver, fora o c\u00f3digo do juda\u00edsmo o talism\u00e3 que o con servara<br \/>\n<br \/>em liberdade.<br \/> Desde esse dia, o irm\u00e3o de Levi ia consolidar, para sempre, suas<br \/>\n<br \/>tend\u00eancias supersticiosas.<br \/> O fanatismo que os historiadores do Cristianismo<br \/>\n<br \/>encontraram na sua personalidade enigm\u00e1tica teve a\u00ed sua origem.<\/p>\n<p>Afastando-se do aposento de Tiago, Saulo prepa rava-se para sair, quando,<br \/>\n<br \/>de regresso \u00e0 portaria para ordenar a partida dos prisionei ros, esbarrou com a<br \/>\n<br \/>cena que mais o haveria de impressionar.<\/p>\n<p>Todos os doentes que se podiam arrastar, todos os abrigados capazes de<br \/>\n<br \/>se moverem, cercavam a pessoa de Pedro, chorando comovidamente.<\/p>\n<p>Algumas crian\u00e7as lhe chamavam \u201cpai\u201d; anci\u00e3es tr\u00eamulos oscula vam-lhe as<br \/>\n<br \/>m\u00e3os.<br \/>.<br \/>.<\/p>\n<p>\u2014Quem se compadecer\u00e1 de n\u00f3s, agora? \u2014 perguntava uma velhinha<br \/>\n<br \/>debulhada em pranto.<\/p>\n<p>\u2014Meu \u201cpai\u201d, aonde v\u00e3o levar -vos? \u2014 dizia um \u00f3rf\u00e3o afetuoso, abra\u00e7ando &#8211;<br \/>\n<br \/>se ao prisioneiro.<\/p>\n<p>\u2014Vou ao monte, filho \u2014 respondia o Ap\u00f3stolo.<\/p>\n<p>\u2014E se vos matarem? \u2014 tornava o pequenino com uma grande<br \/>\n<br \/>interroga\u00e7\u00e3o nos olhos azuis.<\/p>\n<p>\u2014Encontrar-me-ei com o Mestre e voltarei com ele \u2014 esclarecia Pedro<br \/>\n<br \/>bondosamente.<\/p>\n<p>Nesse instante, surgiu a figura de Saulo, que re gressava.<br \/> Contemplando a<br \/>\n<br \/>multid\u00e3o de aleijados, cegos , leprosos e crian\u00e7as que entupiam a sala,<br \/>\n<br \/>exclamou irritado:<br \/>\n<br \/>\u2014Afastem-se, abram caminho!<br \/>\n<br \/>Alguns recuaram, espavoridos, vendo os soldados que se aproximavam,<br \/>\n<br \/>enquanto que os mais resolutos n\u00e3o arredavam passo.<br \/> Um leproso, que mal se<br \/>\n<br \/>punha em p\u00e9, adiantou-se.<br \/> O velho Sam\u00f4nio, recordando-se do tempo em que<br \/>\n<br \/>podia mandar e ser obedecido, aproximou-se de Saulo com desassombro.<\/p>\n<p>\u2014N\u00f3s precisamos saber para onde v\u00e3o estes prisioneiros disse com<br \/>\n<br \/>gravidade.<\/p>\n<p>\u2014Para tr\u00e1s! \u2014 exclamou o mo\u00e7o tarsense, esbo\u00e7ando um ges to de<br \/>\n<br \/>repugn\u00e2ncia.<br \/> Ser\u00e1 poss\u00edvel que um homem da Lei tenha de dar<br \/>\n<br \/>82<br \/>\n<br \/>satisfa\u00e7\u00f5es a um velho imundo?<br \/>\n<br \/>Os guardas armados tentaram adiantar -se, para castigar o atrevido; no<br \/>\n<br \/>entanto, a lepra defendia Sam\u00f4nio dos seus ataques.<br \/> Prevalecendo -se da<br \/>\n<br \/>situa\u00e7\u00e3o, o antigo propriet\u00e1rio de Cesar\u00e9ia revidou com firmeza:<br \/>\n<br \/>\u2014O homem da Lei n\u00e3o precisa prestar contas sen\u00e3o a Deus, quando no<br \/>\n<br \/>exato cumprimento dos seus deveres; mas, nesta casa, falam os c\u00f3digos de<br \/>\n<br \/>humanidade.<br \/> Para v\u00f3s eu sou imundo, mas para Sim\u00e3o Pedro sou um ir m\u00e3o.<\/p>\n<p>Prendeis os bons e libertais os maus!<br \/>\n<br \/>Onde a vossa justi\u00e7a? Credes somente no Deus dos ex\u00e9rcitos? \u00cb<br \/>\n<br \/>indispens\u00e1vel saberdes que se o Eterno \u00e9 o fator supremo da ordem, o<br \/>\n<br \/>Evangelho nos ensina a buscar em sua provid\u00eancia o carinho de um Pai.<\/p>\n<p>Em ouvindo aquela voz digna, que fluia da mis\u00e9ria e do sofrimento como<br \/>\n<br \/>um apelo de desespera\u00e7\u00e3o, Saulo quedara -se admirado.<br \/> O mendigo,<br \/>\n<br \/>entretanto, depois de longa pausa, prosseguia resoluto:<br \/>\n<br \/>\u2014 Onde est\u00e3o vossas casas de arrimo aos oprimi dos da sorte? Quando<br \/>\n<br \/>vos lembrastes de um asilo para os mais infelizes? Enganais -vos se supondes<br \/>\n<br \/>in\u00e9rcia em nossa atitude.<br \/> Os fariseus levaram Jesus ao Calv\u00e1rio da<br \/>\n<br \/>crucifica\u00e7\u00e3o, privando os necessitados de sua pre sen\u00e7a inef\u00e1vel.<br \/> Por haver<br \/>\n<br \/>praticado o bem, Estev\u00e3o foi metido no c\u00e1rcere .<br \/> Agora, o Sin\u00e9drio requisita os<br \/>\n<br \/>Ap\u00f3stolos do \u201cCaminho\u201d, retribuindo-lhes a bondade com a escurid\u00e3o do<br \/>\n<br \/>calabou\u00e7o.<br \/> Mas estais equivocados.<br \/> N\u00f3s, os miser\u00e1veis de Jerusal\u00e9m,<br \/>\n<br \/>haveremos de lutar convosco.<br \/> De Sim\u00e3o Pedro n\u00f3s disputaremos a pr\u00f3pria<br \/>\n<br \/>sombra.<br \/> Se vos negardes a atender nossas s\u00faplicas, importa lem brardes que<br \/>\n<br \/>somos leprosos.<br \/> Envenenaremos vossos po\u00e7os.<br \/> Pagareis a perversidade com<br \/>\n<br \/>a sa\u00fade e com a vida.<\/p>\n<p>Nesse \u00ednterim, n\u00e3o p\u00f4de continuar.<\/p>\n<p>Ante a expecta\u00e7\u00e3o angustiosa de todos, Saulo de Tarso sentenciou r\u00edspido:<br \/>\n<br \/>\u2014 Cala-te miser\u00e1vel! Onde estou que te pude ouvir at\u00e9 agora? Nem mais<br \/>\n<br \/>uma palavra &#8211;<br \/>\n<br \/>E designando-o a um dos soldados, murmurou com desprezo:<br \/>\n<br \/>\u2014 Sin\u00e9sio, d\u00e1-lhe dez bastonadas.<br \/> \u00c9 indispens\u00e1vel castigar -lhe a l\u00edngua<br \/>\n<br \/>insolente e viperina.<\/p>\n<p>Ali mesmo, \u00e0 vista de todos os companheiros que se retra\u00edam<br \/>\n<br \/>amedrontados, Sam\u00f4nio recebeu o castigo sem balbuciar uma queixa.<br \/> Pedro e<br \/>\n<br \/>Jo\u00e3o tinham os olhos \u00famidos.<br \/> Os demais doentes encolhiam -se estarrecidos.<\/p>\n<p>Terminada a tarefa, um grande sil\u00eancio dominava os cora\u00e7\u00f5es ansiosos e<br \/>\n<br \/>doloridos.<br \/> O doutor de Tarso rompeu a expectativa com a ordem de partida, a<br \/>\n<br \/>caminho do c\u00e1rcere.<\/p>\n<p>Duas crian\u00e7as p\u00e1lidas acercaram-se, ent\u00e3o, do ex-pescador de Cafarnaum<br \/>\n<br \/>e perguntaram chorosas:<br \/>\n<br \/>\u2014 \u201cPai\u201d, com quem ficaremos n\u00f3s?<br \/>\n<br \/>Pedro voltou-se, acabrunhado, e respondeu com ternura:<br \/>\n<br \/>\u2014 As filhas de Filipe ficar\u00e3o convosco.<br \/>.<br \/>.<br \/> Se Jesus permitir, meus filhos,<br \/>\n<br \/>n\u00e3o me demorarei.<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio Saulo, intimamente, estava comovido; en tretanto, n\u00e3o desejava<br \/>\n<br \/>trair-se a si mesmo, deixando-se vencer pela emo\u00e7\u00e3o que o quadro lhe<br \/>\n<br \/>provocava.<\/p>\n<p>Pedro compreendeu que as l\u00e1grimas silenciosas de todos os tutelados<br \/>\n<br \/>humildes do \u201cCaminho\u201d traduziam desvelado amor, naquele momento de<br \/>\n<br \/>angustiantes despedidas.<\/p>\n<p>83<br \/>\n<br \/>Em seguida a esse feito, o jovem tarsense desdobrou as energias na<br \/>\n<br \/>primeira persegui\u00e7\u00e3o experimentada pelas express\u00f5es individuais e coletivas<br \/>\n<br \/>do Cristianismo nascente.<br \/> Mais do que se poderia supor, Jerusal\u00e9m regur gitava<br \/>\n<br \/>de criaturas que se interessavam pelas id\u00e9ias do Messias Nazareno.<br \/> Saulo<br \/>\n<br \/>prevaleceu-se dessa circunst\u00e2ncia para fazer sentir, mais uma vez, o perigo<br \/>\n<br \/>ideol\u00f3gico que o Evangelho representava.<br \/> Numerosas pris\u00f5es foram efetuadas.<\/p>\n<p>Na cidade, iniciara-se um \u00eaxodo de grandes propor\u00e7\u00f5es.<br \/> Os amigos do<br \/>\n<br \/>\u201cCaminho\u201d, com possibilidades financeiras, preferiam encetar vid a nova na<br \/>\n<br \/>Idum\u00e9ia ou na Ar\u00e1bia, na Cil\u00edcia ou na S\u00edria.<br \/> Os que podiam.<br \/> escapavam ao<br \/>\n<br \/>rigor dos inqu\u00e9ritos violentos, iniciados com retumb\u00e2ncias de esc\u00e2ndalo<br \/>\n<br \/>p\u00fablico.<br \/> As personalidades mais eminentes eram metidas na pris\u00e3o,<br \/>\n<br \/>incomunic\u00e1veis, mas os an\u00f4nimos e humildes, os da plebe, sofriam grandes<br \/>\n<br \/>vexames nas depend\u00eancias do tribunal onde se faziam os interrogat\u00f3rios.<br \/> Os<br \/>\n<br \/>guardas assalariados por Saulo.<br \/> para a execu\u00e7\u00e3o do nefando trabalho,<br \/>\n<br \/>excediam-se nos abusos.<\/p>\n<p>\u2014\u00c9s do \u201cCaminho\u201d de Cristo Jesus? \u2014 perguntava um deles a uma<br \/>\n<br \/>desventurada mulher, com risinhos de ironia.<\/p>\n<p>\u2014Eu.<br \/>.<br \/>.<br \/> eu.<br \/>.<br \/>.<br \/> \u2014 gaguejava a infeliz, compreen dendo a delicadeza da<br \/>\n<br \/>situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014Depressa, dize depressa! \u2014 tornava o beleguim desrespeitoso.<\/p>\n<p>A m\u00edsera criatura empalidecia a tremer, refletindo nos pesados castigos que<br \/>\n<br \/>lhe seriam impostos e retrucava com profundo temor:<br \/>\n<br \/>\u2014Eu.<br \/>.<br \/>.<br \/> n\u00e3o.<br \/>.<br \/>.<\/p>\n<p>\u2014 E que foste fazer nas suas assembl\u00e9ias sedi ciosas?<br \/>\n<br \/>\u2014 Fui buscar rem\u00e9dio para um filhinho doente.<\/p>\n<p>Em face da negativa, o preposto do Sin\u00e9drio pa recia acalmar-se, mas logo<br \/>\n<br \/>exclamava para um dos auxiliares:<br \/>\n<br \/>\u2014 Muito bem! A interrogada pode ir em paz; antes, por\u00e9m, de retirar -se,<br \/>\n<br \/>manda o regulamento se lhe aplique alguns golpes de chanfalho.<\/p>\n<p>E era in\u00fatil resistir.<br \/> Naquele tribunal singular, por longos dias seguidos,<br \/>\n<br \/>verificaram-se puni\u00e7\u00f5es de toda esp\u00e9cie.<br \/> Das respostas do querelado<br \/>\n<br \/>dependiam o encarceramento, os a\u00e7oites, o chanfalho.<br \/> as bastonadas.<br \/> as<br \/>\n<br \/>macera\u00e7\u00f5es e os apupos.<\/p>\n<p>Saulo tornara-se a mola central do movimento ter r\u00edvel e execrado por todos<br \/>\n<br \/>os simpatizantes do \u201cCaminho\u201d.<br \/> Multiplicando energias, visitava diariamente os<br \/>\n<br \/>n\u00facleos do servi\u00e7o a que costumava chamar \u201cexpurgo de Jerusal\u00e9m\u201d,<br \/>\n<br \/>desenvolvendo atividade pasmosa, dentro da qual mantinha a vigil\u00e2ncia<br \/>\n<br \/>constante das autoridades administrativas, encorajava os au xiliares e<br \/>\n<br \/>prepostos, instigava outros perseguidores dos princ\u00edpios de Jesus, sem deixar<br \/>\n<br \/>arrefecer-se o zelo religioso do Sin\u00e9drio.<\/p>\n<p>Dentro de uma semana, ap\u00f3s as pris\u00f5es efetuadas na igreja modesta,<br \/>\n<br \/>realizava-se a memor\u00e1vel sess\u00e3o em que Pedro, Jo\u00e3o e Fili pe deveriam ser<br \/>\n<br \/>julgados.<br \/> A assembl\u00e9ia excepcional despertara a maior curiosidade.<br \/> L\u00e1 se<br \/>\n<br \/>congregavam todas as personalidades eminentes do fari sa\u00edsmo dominante.<\/p>\n<p>Gamaliel compareceu, dando mostras de profundo abatimento.<\/p>\n<p>De modo geral, comentava-se a atitude dos mendigos que, n\u00e3o obtendo<br \/>\n<br \/>permiss\u00e3o de ingresso, aglomera vam-se em longas filas na grande pra\u00e7a e<br \/>\n<br \/>protestavam em atroante vozerio.<\/p>\n<p>Debalde aplicavam-lhes bastonadas a torto e a direito, porque a turba de<br \/>\n<br \/>miser\u00e1veis assumira propor\u00e7\u00f5es nunca vistas, O quadro era curioso e<br \/>\n<br \/>84<br \/>\n<br \/>alarmante.<br \/> Tomar provid\u00eancias para correr com a massa, parecia tarefa<br \/>\n<br \/>imposs\u00edvel, Os peregrinos e os doentes contavam -se por centenas numerosas.<\/p>\n<p>Era in\u00fatil reprimir nos pontos isolados, o que somente vinha agravar a revolta e<br \/>\n<br \/>desespera\u00e7\u00e3o de muitos.<br \/> Em altos brados re clamavam a liberdade de Sim\u00e3o<br \/>\n<br \/>Pedro.<\/p>\n<p>Exigiam em tumulto a sua liberta\u00e7\u00e3o, como se exigissem um legado de seu<br \/>\n<br \/>leg\u00edtimo direito.<\/p>\n<p>No sal\u00e3o nobre, n\u00e3o s\u00f3 os assistentes comentavam o fato, mas, tamb\u00e9m<br \/>\n<br \/>os juizes n\u00e3o dissimulavam profunda impress\u00e3o.<br \/> O pr\u00f3prio An\u00e1s contava o<br \/>\n<br \/>ass\u00e9dio de que vinha sendo objeto, por parte dos favorecidos de Je rusal\u00e9m.<\/p>\n<p>Alexandre alegava que \u00e0 sua resid\u00eancia aflu\u00edram centenas de aflitos a solicitar &#8211;<br \/>\n<br \/>lhe os bons of\u00edcios a favor dos prisioneiros.<br \/> S aulo, de vez em quando,<br \/>\n<br \/>respondia a um que outro, com r\u00e1pidos monoss\u00edlabos.<br \/> Sua fisionomia<br \/>\n<br \/>carregada traduzia prop\u00f3sitos inferiores relativamente ao destino dos Ap\u00f3stolos<br \/>\n<br \/>da Boa Nova, que l\u00e1 estavam \u00e0 sua frente, no fundo da sala, humildes,<br \/>\n<br \/>serenos, no banco dos criminosos comuns.<\/p>\n<p>Viu-se, ent\u00e3o, que Gamaliel se detinha com o sumo -sacerdote em<br \/>\n<br \/>conversa\u00e7\u00e3o \u00edntima, que durou alguns mi nutos e despertava grande<br \/>\n<br \/>curiosidade entre os colegas.<br \/> Em seguida, o venerando doutor da Lei chamou<br \/>\n<br \/>o ex-disc\u00edpulo para um entendimento particular, antes de inicia rem os<br \/>\n<br \/>trabalhos.<br \/> Os colegas perceberam que o rabino tolerante e generoso ia<br \/>\n<br \/>advogar a causa dos continuado res do Nazareno.<\/p>\n<p>\u2014 Qual a senten\u00e7a a ser proposta para os prisio neiros? \u2014 interrogou o<br \/>\n<br \/>velhinho com bondoso interesse, logo que se viram distanciados dos grupos<br \/>\n<br \/>rumorosos.<\/p>\n<p>\u2014 Sendo eles galileus \u2014 disse Saulo enf\u00e1tico da sua autoridade \u2014, n\u00e3o<br \/>\n<br \/>lhes ser\u00e1 conferido o direito da palavra no recinto; de maneira que j\u00e1 deliberei a<br \/>\n<br \/>puni\u00e7\u00e3o que lhes cabe.<\/p>\n<p>Vou propor a morte dos tr\u00eas, com a de Estev\u00e3o, pelo apedrejamento.<\/p>\n<p>\u2014 Que dizes? \u2014 exclamou Gamaliel, surpreso.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o vejo outro recurso \u2014 disse o mo\u00e7o tarsense \u2014, precisamos extirpar<br \/>\n<br \/>pela raiz os males que come\u00e7am.<br \/> Acredito que, se encararmos o movimento<br \/>\n<br \/>com toler\u00e2ncia, teremos o prest\u00edgio do juda\u00edsmo abalado por nossas pr\u00f3prias<br \/>\n<br \/>m\u00e3os.<\/p>\n<p>\u2014 Entretanto, Saulo \u2014 replicou o velho mestre com profunda bondade \u2014,<br \/>\n<br \/>devo invocar o ascendente que tenho em tua forma\u00e7\u00e3o espiritual, para<br \/>\n<br \/>defender estes homens da pena de morte.<\/p>\n<p>O mo\u00e7o caprichoso fez-se l\u00edvido.<br \/> N\u00e3o se habituara a transigir nos seus<br \/>\n<br \/>conceitos e decis\u00f5es.<br \/> Sua vontade era sempre tir\u00e2nica e inflex\u00edvel.<br \/> Mas<br \/>\n<br \/>Gamaliel fora de todos os tempos o seu melhor amigo.<br \/> Aquelas m\u00e3os rugosas<br \/>\n<br \/>lhe haviam ministrado os exemplos mais sant os.<\/p>\n<p>Delas recebera vasto potencial de socorro em todos os dias da vida.<\/p>\n<p>Compreendeu que defrontava um obst\u00e1culo poderoso na consecu\u00e7\u00e3o integral<br \/>\n<br \/>de seus desejos.<br \/> O venerando rabino percebeu a perplexidade e logo insistiu:<br \/>\n<br \/>\u2014Ningu\u00e9m mais do que eu conhece a generosidade do teu cora\u00e7\u00e3o e sou<br \/>\n<br \/>o primeiro a reconhecer que tuas resolu\u00e7\u00f5es obedecem ao zelo inexced\u00edvel na<br \/>\n<br \/>defesa de nossos princ\u00edpios milen\u00e1rios; mas o \u201cCaminho\u201d, Saulo, parece ter<br \/>\n<br \/>uma grande finalidade na renova\u00e7\u00e3o dos nossos valores humanos e religi osos.<\/p>\n<p>Quem, entre n\u00f3s, se havia lembrado de amparar os infortunados com o<br \/>\n<br \/>provimento de um lar afetuoso e fraterno? Antes da tua dilig\u00eancia corretiva,<br \/>\n<br \/>85<br \/>\n<br \/>visitei essa institui\u00e7\u00e3o singela e pude confor tar-me na observa\u00e7\u00e3o do seu<br \/>\n<br \/>excelente programa.<\/p>\n<p>O jovem doutor estava p\u00e1lido, ouvindo tais conceitos, que, a seu ver, eram<br \/>\n<br \/>positivo sinal de fraqueza.<\/p>\n<p>Mas ser\u00e1 poss\u00edvel \u2014 disse admirado \u2014 que tamb\u00e9m v\u00f3s tenhais lido o<br \/>\n<br \/>Evangelho dos galileus?<br \/>\n<br \/>\u2014Estou a l\u00ea-lo \u2014 confirmou Gamaliel sem titubear \u2014 e pretendo meditar<br \/>\n<br \/>mais demoradamente os fen\u00f4menos que ocorrem em nosso tempo.<br \/> Pressinto<br \/>\n<br \/>grandes transforma\u00e7\u00f5es em toda parte.<br \/> Tenciono retirar -me da vida p\u00fablica em<br \/>\n<br \/>breves dias, a fim de tomar o caminho do deserto.<br \/> \u00c9 claro, por\u00e9m, que estas<br \/>\n<br \/>minhas palavras devem ser guardadas por ti, em penhor de m\u00fatua con fian\u00e7a.<\/p>\n<p>Sumamente impressionado, o mo\u00e7o de Tarso n\u00e3o sabia o que responder.<\/p>\n<p>Presumia o mestre respeit\u00e1vel mentalmente prejudicado por excesso de<br \/>\n<br \/>lucubra\u00e7\u00f5es.<br \/> O mestre, por\u00e9m, como se lhe adivinhasse o pensamento,<br \/>\n<br \/>acrescentou:<br \/>\n<br \/>\u2014 N\u00e3o me suponhas mentalmente debilitado.<br \/> A ve lhice no corpo n\u00e3o me<br \/>\n<br \/>apagou a capacidade de pensar e discernir por mim mesmo.<br \/> Compreendo o<br \/>\n<br \/>esc\u00e2ndalo que se levantaria em Jerusal\u00e9m se um rabino do Sin\u00e9 drio<br \/>\n<br \/>modificasse publicamente as convic\u00e7\u00f5es mais \u00edntimas.<br \/> Mas \u00e9 preciso convir<br \/>\n<br \/>que estou falando a um filho espiritual.<br \/> E expondo, sinceramente, o meu ponto<br \/>\n<br \/>de vista, fa\u00e7o-o t\u00e3o-s\u00f3 para defender homens generosos e justos de uma<br \/>\n<br \/>senten\u00e7a in\u00edqua e indevida.<\/p>\n<p>\u2014Vossa revela\u00e7\u00e3o \u2014 exclamou Saulo de rold\u00e3o \u2014 decepciona-me<br \/>\n<br \/>profundamente!<br \/>\n<br \/>\u2014Conheces-me de menino e sabes que o homem sincero n\u00e3o se poder\u00e1<br \/>\n<br \/>preocupar com os que o elogiem ou o lamentem no cumprimento de um<br \/>\n<br \/>sagrado dever.<\/p>\n<p>E, imprimindo carinhoso acento \u00e0 voz, acentuava sol\u00edcito:<br \/>\n<br \/>\u2014N\u00e3o me fa\u00e7as ir contigo, nesta assembl\u00e9ia, aos debates p\u00fablicos<br \/>\n<br \/>escandalosos e atentat\u00f3rios da fei\u00e7\u00e3o amorosa que toda verdade deve trazer<br \/>\n<br \/>consigo.<br \/> Libertar\u00e1s estes homens em aten\u00e7\u00e3o ao nosso passado de m\u00fatuo<br \/>\n<br \/>entendimento.<br \/> \u00c9 s\u00f3 o que te pe\u00e7o.<br \/> Deixa -os em paz, por amor aos nos sos<br \/>\n<br \/>la\u00e7os afetivos.<br \/> Daqui a alguns dias n\u00e3o precisar\u00e1s conceder mais coisa alguma<br \/>\n<br \/>ao velho mestre.<br \/> Ser\u00e1s meu substituto neste cen\u00e1culo, porq\u00fcanto tenciono<br \/>\n<br \/>abandonar a cidade em breves dias.<\/p>\n<p>E como Saulo hesitasse, continuou:<br \/>\n<br \/>\u2014N\u00e3o precisar\u00e1s refletir muito tempo.<br \/> O sumo-sacerdote est\u00e1 ciente de<br \/>\n<br \/>que eu pediria tua dem\u00eancia para os prisioneiros.<\/p>\n<p>\u2014Mas.<br \/>.<br \/>.<br \/> e a minha autoridade? \u2014 interrogou o rapaz com orgulho.<br \/> \u2014<br \/>\n<br \/>Como conciliar a indulg\u00eancia com a necessidade de reprimir o mal?<br \/>\n<br \/>\u2014Toda a autoridade \u00e9 de Deus.<br \/> N\u00f3s somos simples instrumentos, meu<br \/>\n<br \/>filho.<br \/> Ningu\u00e9m se diminuir\u00e1 por ser bom e tolerante.<br \/> Quanto \u00e0 provid\u00eancia mais<br \/>\n<br \/>digna, cab\u00edvel no caso, \u00e9 conceder liberdade a todos eles.<\/p>\n<p>\u2014Todos? \u2014 perguntou Saulo num gesto de grande admira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Como n\u00e3o? \u2014 confirmou o vener\u00e1vel doutor da Lei.<br \/> \u2014 Pedro \u00e9 um<br \/>\n<br \/>homem generoso, Filipe \u00e9 um pai de fam\u00edlia extremamente dedicado ao<br \/>\n<br \/>cumprimento de seus deveres, Jo\u00e3o \u00e9 um mo\u00e7o simples, Estev\u00e3o se<br \/>\n<br \/>consagrou aos pobres.<\/p>\n<p>\u2014 Sim, sim \u2014 interrompeu o mo\u00e7o tarsense.<br \/> \u2014Concordo com a liberta\u00e7\u00e3o<br \/>\n<br \/>dos tr\u00eas primeiros, com uma condi\u00e7\u00e3o.<br \/> Por serem casados, Pedro e Filipe<br \/>\n<br \/>86<br \/>\n<br \/>poder\u00e3o continuar em Jerusal\u00e9m, restringindo suas atividades ao socorro dos<br \/>\n<br \/>doentes e necessitados; Jo\u00e3o ser\u00e1 banido; mas Estev\u00e3o dever\u00e1 sofrer a<br \/>\n<br \/>senten\u00e7a decisiva.<br \/> J\u00e1 propus, pu blicamente, a lapida\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o vejo motivos<br \/>\n<br \/>para transigir, mesmo porque, para escarmento, pelo menos um dos disc\u00edpulos<br \/>\n<br \/>do carpinteiro deve morrer.<\/p>\n<p>Gamaliel compreendeu a for\u00e7a daquela resolu\u00e7\u00e3o pela veem\u00eancia das<br \/>\n<br \/>palavras que a traduziam.<br \/> Saulo deixara bem claro que n\u00e3o transigiria, quanto<br \/>\n<br \/>ao taumaturgo.<br \/> O velho rabino n\u00e3o insistiu.<br \/> Para evitar um esc\u00e2ndalo, entendeu<br \/>\n<br \/>que Est\u00e9v\u00e3o pagaria com o sacrif\u00edcio.<br \/> Ali\u00e1s, considerando o temperamento<br \/>\n<br \/>voluntarioso do ex-disc\u00edpulo, a quem a cidade havia conferido atrib ui\u00e7\u00f5es t\u00e3o<br \/>\n<br \/>vastas, j\u00e1 n\u00e3o era pouco obter dem\u00eancia para os tr\u00eas homens justos,<br \/>\n<br \/>consagrados ao bem comum.<\/p>\n<p>Compreendendo a situa\u00e7\u00e3o, acentuou o respeit\u00e1vel rabino.<\/p>\n<p>\u2014 Pois bem, seja assim!<br \/>\n<br \/>E, com um sorriso de bondade, deixou o mo\u00e7o algo preocupado e perplexo .<\/p>\n<p>Da\u00ed a instantes, com surpresa geral da assembl\u00e9ia, Saulo de Tarso, da<br \/>\n<br \/>tribuna, propunha a liberta\u00e7\u00e3o de Pedro e Filipe, o banimento de Jo\u00e3o, e<br \/>\n<br \/>reiterava o pedido de apedrejamento para Estev\u00e3o, por consider\u00e1 -lo o mais<br \/>\n<br \/>perigoso dos elementos do \u201cCaminho\u201d.<br \/> As autoridades do Sin\u00e9drio apreciando<br \/>\n<br \/>os alvitres, com satisfa\u00e7\u00e3o, por saberem que a medida agradaria \u00e0 turba<br \/>\n<br \/>numerosa, afirmaram seu un\u00e2nime consentimento e a morte de Estev\u00e3o foi<br \/>\n<br \/>aprazada para uma semana depois, convidando Saulo os amigos para a triste<br \/>\n<br \/>cerim\u00f4nia p\u00fablica a que ele pr\u00f3prio haveria de presidir.<\/p>\n<div class=\"pvc_clear\"><\/div>\n<p id=\"pvc_stats_18748\" class=\"pvc_stats all  \" data-element-id=\"18748\" style=\"\"><i class=\"pvc-stats-icon medium\" aria-hidden=\"true\"><svg aria-hidden=\"true\" focusable=\"false\" data-prefix=\"far\" data-icon=\"chart-bar\" role=\"img\" xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" viewBox=\"0 0 512 512\" class=\"svg-inline--fa fa-chart-bar fa-w-16 fa-2x\"><path fill=\"currentColor\" d=\"M396.8 352h22.4c6.4 0 12.8-6.4 12.8-12.8V108.8c0-6.4-6.4-12.8-12.8-12.8h-22.4c-6.4 0-12.8 6.4-12.8 12.8v230.4c0 6.4 6.4 12.8 12.8 12.8zm-192 0h22.4c6.4 0 12.8-6.4 12.8-12.8V140.8c0-6.4-6.4-12.8-12.8-12.8h-22.4c-6.4 0-12.8 6.4-12.8 12.8v198.4c0 6.4 6.4 12.8 12.8 12.8zm96 0h22.4c6.4 0 12.8-6.4 12.8-12.8V204.8c0-6.4-6.4-12.8-12.8-12.8h-22.4c-6.4 0-12.8 6.4-12.8 12.8v134.4c0 6.4 6.4 12.8 12.8 12.8zM496 400H48V80c0-8.84-7.16-16-16-16H16C7.16 64 0 71.16 0 80v336c0 17.67 14.33 32 32 32h464c8.84 0 16-7.16 16-16v-16c0-8.84-7.16-16-16-16zm-387.2-48h22.4c6.4 0 12.8-6.4 12.8-12.8v-70.4c0-6.4-6.4-12.8-12.8-12.8h-22.4c-6.4 0-12.8 6.4-12.8 12.8v70.4c0 6.4 6.4 12.8 12.8 12.8z\" class=\"\"><\/path><\/svg><\/i> <img decoding=\"async\" width=\"16\" height=\"16\" alt=\"Loading\" data-src=\"https:\/\/www.centronocaminhodaluz.com.br\/wp-content\/plugins\/page-views-count\/ajax-loader-2x.gif\" border=0 src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" class=\"lazyload\" style=\"--smush-placeholder-width: 16px; 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A seu ver, o pregador do Evangelho infligira-lhe humilha\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, que impunham repara\u00e7\u00f5es equivalentes. 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