{"id":18780,"date":"2022-04-08T18:12:00","date_gmt":"2022-04-08T18:12:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.centronocaminhodaluz.com.br\/index.php\/artigo18780\/"},"modified":"2022-04-08T18:33:54","modified_gmt":"2022-04-08T21:33:54","slug":"artigo18780","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.centronocaminhodaluz.com.br\/index.php\/artigo18780\/","title":{"rendered":"9 Abigail crist\u00e3 &#8211; PAULO E ESTEV\u00c3O &#8211;  FRANCISCO C\u00c2NDIDO XAVIER"},"content":{"rendered":"<p>Desde o mart\u00edrio de Estev\u00e3o, agravara -se em Jerusal\u00e9m o movimento de<br \/>\n<br \/>persegui\u00e7\u00e3o a todos os disc\u00edpulos ou simpatizantes do \u201cCaminho\u201d.<br \/> Como se<br \/>\n<br \/>fora tocado de verdadeira alucina\u00e7\u00e3o, ao substituir Gamaliel nas fun\u00e7\u00f5es<br \/>\n<br \/>religiosas mais importantes da Cidade, Saulo de Tarso deixava -se fascinar por<br \/>\n<br \/>sugest\u00f5es de fanatismo cruel.<\/p>\n<p>Impiedosas devassas foram ordenadas a respeito de todas as fam\u00edlias que<br \/>\n<br \/>revelassem inclina\u00e7\u00e3o e simpatia pelas id\u00e9ias do Messias Nazareno.<br \/> A igreja<br \/>\n<br \/>modesta, onde a bondade de Pedro prosseguia socorrendo os mais<br \/>\n<br \/>desgra\u00e7ados, era rigorosamente guardada por sol dados, com ordem de impedir<br \/>\n<br \/>as pr\u00e9dicas que representavam o brando consolo dos infelizes.<\/p>\n<p>Obcecado pela id\u00e9ia de resguardar o patrim\u00f4nio farisaico, o mo\u00e7o tarsense<br \/>\n<br \/>entregava-se aos maiores desmandos e tiranias.<br \/> Homens de bem foram<br \/>\n<br \/>expulsos da cidade por meras suspeitas.<br \/> Oper\u00e1rios honestos e at\u00e9 m\u00e3es de<br \/>\n<br \/>fam\u00edlia eram interpelados em escandalosos processos p\u00fablicos, que o per &#8211;<br \/>\n<br \/>seguidor fazia quest\u00e3o de movimen tar.<br \/> Iniciou-se um \u00eaxodo de grandes<br \/>\n<br \/>propor\u00e7\u00f5es, como Jerusal\u00e9m de h\u00e1 muito n\u00e3o via.<br \/> A cidade come\u00e7ou a<br \/>\n<br \/>despovoar-se de trabalhadores.<br \/> O \u201cCaminho\u201d havia seduzido para as suas<br \/>\n<br \/>doces consola\u00e7\u00f5es a alma do povo, cansada na incom preens\u00e3o e no sacrif\u00edcio.<\/p>\n<p>Livre das prestigiosas advert\u00eancias de Gamaliel, que se retirara para o deserto,<br \/>\n<br \/>e sem a carinhosa assist\u00eancia de Abigail, que lhe facultava generosas<br \/>\n<br \/>inspira\u00e7\u00f5es, o futuro rabino parecia um louco, em cujo peito o cora\u00e7\u00e3o<br \/>\n<br \/>estivesse ressequido.<br \/> Debalde, mulhere s indefesas suplicavam-lhe piedade;<br \/>\n<br \/>inutilmente, crian\u00e7as mis\u00e9rrimas pediram complac\u00eancia para os pais,<br \/>\n<br \/>abandonados como prisioneiros infelizes.<\/p>\n<p>O mo\u00e7o de Tarso parecia dominado por uma indi feren\u00e7a criminosa.<br \/> As<br \/>\n<br \/>rogativas mais sinceras encontravam no seu esp\u00edrito um rochedo \u00e1spero.<\/p>\n<p>Incapaz de compreender as circunst\u00e2ncias que lhe haviam modifi cado os<br \/>\n<br \/>planos e esperan\u00e7as da vida, imputava o insucesso dos seus sonhos de<br \/>\n<br \/>mocidade \u00e0quele Cristo que n\u00e3o conseguira entender.<br \/> Odi\u00e1 -lo-ia enquanto<br \/>\n<br \/>vivesse.<br \/> N\u00e3o sendo poss\u00edvel encontr\u00e1-lo para uma vingan\u00e7a direta, persegui-loia<br \/>\n<br \/>na pessoa dos seus caudat\u00e1rios, atra v\u00e9s de todos os caminhos.<br \/> A seu ver,<br \/>\n<br \/>era ele, o carpinteiro an\u00f4nimo, o causador dos seus fracassos em rela\u00e7\u00e3o ao<br \/>\n<br \/>amor de Abigail, agora envenenado no s eu cora\u00e7\u00e3o impulsivo por sentimentos<br \/>\n<br \/>estranhos, que, dia a dia, ca vavam profundos abismos entre sua figura<br \/>\n<br \/>inolvid\u00e1vel e as lembran\u00e7as que lhe eram mais carinhosas.<br \/> N\u00e3o mais voltara \u00e0<br \/>\n<br \/>casa de Zacarias, e, embora os amigos da estrada de Jope instassem por suas<br \/>\n<br \/>not\u00edcias, mantinha-se irredut\u00edvel no c\u00edrculo do seu ego\u00edsmo sufocante.<br \/> De vez<br \/>\n<br \/>em quando, sentia-se premido por uma saudade singular.<br \/> Experimentava<br \/>\n<br \/>imensa falta da ternura de Abigail, cuja lembran\u00e7a nunca mais se lhe havia<br \/>\n<br \/>apartado da alma enrijecida e ansiosa.<br \/> Mulher alguma poderia substitui -la no<br \/>\n<br \/>carinho do seu cora\u00e7\u00e3o.<br \/> Entre ang\u00fastias extremas, recordava a agonia de<br \/>\n<br \/>Estev\u00e3o, sua invej\u00e1vel paz de consci\u00eancia, as palavras de amor e de perd\u00e3o;<br \/>\n<br \/>em seguida, via a noiva genuflexa, implorando -lhe amparo com um clar\u00e3o de<br \/>\n<br \/>generosidade nos olhos s\u00faplices.<br \/> Jamais esqueceria aquela prece angustiada<br \/>\n<br \/>e comovedora, que ela fizera ao abra\u00e7ar o irm\u00e3o nos der radeiros instantes de<br \/>\n<br \/>vida.<br \/> N\u00e3o obstante a persegui\u00e7\u00e3o cruel que o transformara em mola -central de<br \/>\n<br \/>todas as atividades contra a igreja humilde do \u201cCaminho\u201d, Saulo sentia que as<br \/>\n<br \/>104<br \/>\n<br \/>necessidades espirituais se multiplicavam no esp\u00edrito sedento de consola\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Oito meses de lutas incessantes passaram sobre a morte de Estev\u00e3o,<br \/>\n<br \/>quando o mo\u00e7o tarsense, capitulando ante a sa udade e o amor que lhe<br \/>\n<br \/>dominavam a alma, resolveu rever a paisagem florida da estrada de Jope, onde<br \/>\n<br \/>por certo reconquistaria o afeto de Abigail, de maneira a reorganizarem todos<br \/>\n<br \/>os projetos de um futuro ditoso.<\/p>\n<p>Tomou o carro min\u00fasculo com o cora\u00e7\u00e3o opresso .<br \/> Quantas hesita\u00e7\u00f5es n\u00e3o<br \/>\n<br \/>vencera para retornar \u00e0 antiga situa\u00e7\u00e3o, humilhando a vaidade de homem<br \/>\n<br \/>convencionalista e inflex\u00edvel! A luz crepuscular enchia a Natureza de reflexos<br \/>\n<br \/>de ouro fulgurante.<br \/> Aquele c\u00e9u muito azul, a verdura agreste, as brisas<br \/>\n<br \/>caridosas da tarde, eram os mesmos.<br \/> Sentia -se reviver.<br \/> Sonhos e esperan\u00e7as<br \/>\n<br \/>continuavam, tamb\u00e9m, intang\u00edveis.<br \/> E refletia na melhor maneira de reaver a<br \/>\n<br \/>dedica\u00e7\u00e3o da mulher escolhida, sem humilha\u00e7\u00e3o para sua vaidade.<br \/> Contar -lheia<br \/>\n<br \/>sua desespera\u00e7\u00e3o, diria das suas in s\u00f4nias, da continuidade do imenso amor<br \/>\n<br \/>que nenhuma circunst\u00e2ncia conseguira destruir.<br \/> Embora mantivesse firme o<br \/>\n<br \/>prop\u00f3sito de omitir toda e qualquer alus\u00e3o ao carpinteiro de Nazar\u00e9, falaria a<br \/>\n<br \/>Abigail do remorso por n\u00e3o lhe haver estendido m\u00e3os amigas no ins tante em<br \/>\n<br \/>que todas as esperan\u00e7as de sua alma feminina se haviam abalado, ante o<br \/>\n<br \/>imprevisto da morte dolorosa do irm\u00e3o, em circunst\u00e2ncias t\u00e3o amargas.<\/p>\n<p>Esclareceria os detalhes de seus sentimentos.<br \/> Havia de referir -se \u00e0 recorda\u00e7\u00e3o<br \/>\n<br \/>indel\u00e9vel da sua prece angustiosa e ardente, quando Estev\u00e3o penetrava os<br \/>\n<br \/>umbrais da morte.<\/p>\n<p>Atra\u00ed-la-ia ao cora\u00e7\u00e3o que jamais a esquecera, beijar -lhe-ia os cabelos,<br \/>\n<br \/>formularia novos projetos de amor e felicidade.<\/p>\n<p>Mergulhado em tais pensamentos, atingiu a porta de entrada, identifica ndo<br \/>\n<br \/>as roseiras em flor.<\/p>\n<p>Ocora\u00e7\u00e3o batia-lhe descompassado, quando Zacarias surgiu com grande<br \/>\n<br \/>surpresa.<br \/> Um abra\u00e7o demorado assi nalou o reencontro.<br \/> Abigail foi objeto de<br \/>\n<br \/>sua primeira interroga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Com estranheza notou que Zacarias en tristeceu.<\/p>\n<p>\u2014 Pensei que algum de teus amigos j\u00e1 te houvesse levado a desagrad\u00e1vel<br \/>\n<br \/>not\u00edcia &#8211; come\u00e7ou dizendo, enquanto o jovem buscava ouvi -lo ansioso.<br \/> \u2014<br \/>\n<br \/>Abigail, h\u00e1 mais de quatro meses, adoeceu dos pulm\u00f5es e, para falar com<br \/>\n<br \/>franqueza, n\u00e3o temos qualquer esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>Saulo fizera-se l\u00edvido.<\/p>\n<p>\u2014Logo depois que voltou precipitadamente de Je rusal\u00e9m, esteve mais de<br \/>\n<br \/>um m\u00eas entre a vida e a morte.<br \/> Em v\u00e3o nos esfor\u00e7amoS, eu e Ruth, para<br \/>\n<br \/>restituir-lhe o vi\u00e7o e as cores da juventude.<br \/> A pobrezinha entrou a definhar e,<br \/>\n<br \/>em pouco tempo, acamou-se abatida.<br \/> Solicitei tua presen\u00e7a, com ansiedade, a<br \/>\n<br \/>fim de resolvermos o poss\u00edvel em seu benef\u00edcio, mas n\u00e3o apareceste.<br \/> Pare ciame<br \/>\n<br \/>que um ambiente novo lhe proporcionaria o resta belecimento da sa\u00fade,<br \/>\n<br \/>mas, faltaram-me os recursos para uma iniciativa ma is ampla, tal como se<br \/>\n<br \/>impunha.<\/p>\n<p>\u2014Mas, Abigail fez alguma queixa a meu respeito?<br \/>\n<br \/>\u2014 perguntou Saulo, aflito.<\/p>\n<p>\u2014De modo algum.<br \/> Ali\u00e1s, o regresso inesperado de Jerusal\u00e9m, a<br \/>\n<br \/>enfermidade s\u00fabita e teu injustific\u00e1vel afastamento desta casa eram de molde a<br \/>\n<br \/>causar-nos d\u00favidas e receios; mas logo se verificaram melhoras positivas, ap\u00f3s<br \/>\n<br \/>o per\u00edodo mais agudo da febre, e ela nos tranq\u00fcilizou a respeito.<br \/> Explicou a<br \/>\n<br \/>necessidade da tua aus\u00eancia, disse estar ciente dos teus muitos afazeres e<br \/>\n<br \/>105<br \/>\n<br \/>encargos pol\u00edticos; referiu-se com gratid\u00e3o ao acolhimento que lhe<br \/>\n<br \/>dispensaram teus parentes e, quando Ruth, para confort\u00e1 -la, qualifica de<br \/>\n<br \/>ingrato o teu procedimento, Abigail \u00e9 sempre a primeira a defender -te.<\/p>\n<p>Saulo quis dizer alguma coisa, enquanto Zacarias fazia uma pausa, mas<br \/>\n<br \/>nada lhe ocorreu \u00e0 mente.<br \/> A emo\u00e7\u00e3o que lhe causava a nobreza espiritual da<br \/>\n<br \/>noiva amada, paralisava-lhe as id\u00e9ias.<\/p>\n<p>\u2014 Apesar do seu esfor\u00e7o para tranq\u00fcilizar -nos \u2014 continuava o marido de<br \/>\n<br \/>Ruth \u2014, temos a impress\u00e3o de que nossa filha adotiva se encontra dominada<br \/>\n<br \/>por desgostos profundos, que procura ocultar.<br \/> Enquanto podia andar, visitava<br \/>\n<br \/>os pessegueiros, \u00e0 mesma hora em que costumava faz\u00ea -lo contigo.<br \/> A princ\u00edpio,<br \/>\n<br \/>minha mulher surpreendeu-a chorando, nas sombras da noite; mas, em v\u00e3o<br \/>\n<br \/>procuramos sondar a causa de seus \u00ed ntimos padecimentos.<br \/> O \u00fanico motivo que<br \/>\n<br \/>alegava era justamente o da enfermidade, que come\u00e7ava a minar -lhe o<br \/>\n<br \/>organismo.<br \/> Mais tarde estagiou uma semana, por aqui, um pobre velho<br \/>\n<br \/>chamado Ananias.<br \/> Deu-se ent\u00e3o um fato estranho: Abigail encontrou -o em<br \/>\n<br \/>casa dos nossos rendeiros e, todas as tardes, detinha -se a ouvi-lo horas a fio,<br \/>\n<br \/>manifestando da\u00ed para c\u00e1 muita fortaleza espiritual.<br \/> Ao despedir -se, o pobre<br \/>\n<br \/>mendigo deu-lhe como lembran\u00e7a alguns pergaminhos com os ensinamentos<br \/>\n<br \/>do famoso carpinteiro de Nazar\u00e9.<br \/>.<br \/>.<\/p>\n<p>\u2014 Do carpinteiro? \u2014 atalhou Saulo evidentemente contrariado.<br \/> \u2014 E<br \/>\n<br \/>depois?<br \/>\n<br \/>\u2014 Tornou-se dedicada leitora do chamado Evan gelho dos galileus.<\/p>\n<p>Consideramos a conveni\u00eancia de afast\u00e1 -la de semelhante novidade espiritual,<br \/>\n<br \/>mas Ruth ponderou ser essa, agora, a sua \u00fan ica distra\u00e7\u00e3o.<br \/> Com efeito, desde<br \/>\n<br \/>que come\u00e7ou a falar no discutido Jesus Nazareno, observamos que Abigail se<br \/>\n<br \/>enchera de profundas consola\u00e7\u00f5es.<br \/> E o fato \u00e9 que n\u00e3o mais a vimos chorar,<br \/>\n<br \/>embora se lhe n\u00e3o apagasse do semblante aba tido a dolorosa express\u00e3o de<br \/>\n<br \/>amargura e melancolia.<br \/> Sua conversa\u00e7\u00e3o, da\u00ed por diante, parece haver<br \/>\n<br \/>adquirido inspira\u00e7\u00f5es diferentes.<br \/> A dor transformou -se-lhe em confortadora<br \/>\n<br \/>express\u00e3o de alegria \u00edntima.<\/p>\n<p>E fala a teu respeito com um amor cada vez mais puro.<br \/> D\u00e1 impres s\u00e3o de<br \/>\n<br \/>haver descoberto nos misteriosos escaninhos da alma, a energia de uma vida<br \/>\n<br \/>nova.<\/p>\n<p>Depois de um suspiro, Zacarias terminava:<br \/>\n<br \/>\u2014 E, contudo, a mudan\u00e7a n\u00e3o alterou a marcha da enfermidade que a.<\/p>\n<p>devora devagarinho.<br \/> Dia a dia, vemo -la inclinar-se para o t\u00famulo, como flor que<br \/>\n<br \/>tomba do hastil ao sopro do vento forte.<\/p>\n<p>Saulo experimentava indisfar\u00e7\u00e1vel ang\u00fastia.<br \/> Penosa emo\u00e7\u00e3o revolvia -lhe a<br \/>\n<br \/>alma generosa e sens\u00edvel.<br \/> Como definir -se? Esmagavam-lhe o esp\u00edrito<br \/>\n<br \/>amargurosas interroga\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Quem era, afinal, aquele Jesus que o topava em toda parte? O interesse<br \/>\n<br \/>de Abigail pelo Evangelho perseguido revelava a vit\u00f3ria do carpinteiro nazareno<br \/>\n<br \/>a contrastar os pr\u00f3prios sonhos da sua mocidade.<\/p>\n<p>\u2014 Mas, Zacarias \u2014 perguntou irritadi\u00e7o o doutor de Tarso \u2014, por que n\u00e3o<br \/>\n<br \/>impediste semelhante contacto? Esses velhos feiticeiros percorrem as estradas<br \/>\n<br \/>disseminando a confus\u00e3o.<br \/> Surpreende-me essa condescend\u00eancia, porq\u00fcanto<br \/>\n<br \/>nossa fidelidade \u00e0 Lei n\u00e3o admite, ou, pelo menos, nunca dever\u00e1 admitir<br \/>\n<br \/>transig\u00eancias.<\/p>\n<p>O interpelado recebeu a recrimina\u00e7\u00e3o com seren idade e acentuou:<br \/>\n<br \/>\u2014Antes de tudo, importa considerar que pedi em v\u00e3o o socorro da tua<br \/>\n<br \/>106<br \/>\n<br \/>presen\u00e7a, para orientar-me.<br \/> E, al\u00e9m do mais, quem teria coragem de sonegar o<br \/>\n<br \/>rem\u00e9dio ao doente amado?<br \/>\n<br \/>Desde que lhe vi a resigna\u00e7\u00e3o santificada, fiz o prop\u00f3sito de n\u00e3o m e referir<br \/>\n<br \/>aos seus novos pontos de vista em mat\u00e9ria de cren\u00e7a religiosa.<\/p>\n<p>E como Saulo estivesse engolfado em profundas cismas, sem saber o que<br \/>\n<br \/>responder, o bom homem rematou:<br \/>\n<br \/>\u2014Vem comigo, ver\u00e1s com os pr\u00f3prios olhos!.<br \/>.<br \/>.<\/p>\n<p>O rapaz seguiu-lhe os passos, cambaleando.<br \/> As id\u00e9ias baralhavam-Se-lhe<br \/>\n<br \/>no c\u00e9rebro dolorido.<br \/> Aquelas not\u00edcias inesperadas envenenavam -lhe o cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Reclinada no leito, assistida pela afei\u00e7\u00e3o maternal de Ruth, a mo\u00e7a de<br \/>\n<br \/>Corinto estampava no rosto um profundo abatimento.<br \/> Muito magra, a epide rme<br \/>\n<br \/>adquirira a cor do marfim, mas o olhar l\u00facido denotava absoluta calma<br \/>\n<br \/>espiritual.<br \/> Carinhosa serenidade estampava-se-lhe na fisionomia entristecida.<\/p>\n<p>De vez em quando, renovava-se a dispn\u00e9ia com prolongada afli\u00e7\u00e3o, vol tandose<br \/>\n<br \/>ent\u00e3o para a janela aberta, como se dali esperasse rem\u00e9dio ao seu<br \/>\n<br \/>cansa\u00e7o, atrav\u00e9s das brisas frescas que chegavam do seio generoso da<br \/>\n<br \/>Natureza.<\/p>\n<p>Ao v\u00ea-la, Saulo n\u00e3o dissimulou o seu espanto.<br \/> A jovem, por sua vez,<br \/>\n<br \/>recebendo a jubilosa surpresa, tomou-se de sincera e transbordante alegria.<\/p>\n<p>Sauda\u00e7\u00f5es afetuosas se trocaram entre ambos, en quanto os olhos<br \/>\n<br \/>traduziam a saudade angustiosa com que haviam esperado aquele momento.<\/p>\n<p>O futuro rabino acariciou-lhe as m\u00e3os mimosas, que pareciam agora<br \/>\n<br \/>modeladas em cera transl\u00facida.<br \/> Falaram da e speran\u00e7a que os alentara,<br \/>\n<br \/>constante, antes do reencontro.<br \/> Notando que eles desejavam ficar s\u00f3s, para<br \/>\n<br \/>confidenciar mais \u00e0 vontade, Zacarias e Ruth retiraram -se discretamente.<\/p>\n<p>\u2014 Abigail! \u2014 exclamou Saulo comovid\u00edssimo, logo que se viram a s\u00f3s \u2014<br \/>\n<br \/>abdiquei o meu orgulho e a minha vaidade de homem p\u00fablico para vir at\u00e9 aqui,<br \/>\n<br \/>perguntar se me perdoaste, se me n\u00e3o esqueceste!<br \/>\n<br \/>\u2014 Esquecer-te? \u2014 respondeu ela de olhos \u00famidos.<br \/> Por mais rude e longa<br \/>\n<br \/>que seja a esta\u00e7\u00e3o de sol ardente, a folha do deserto n\u00e3o poder\u00e1 esquecer a<br \/>\n<br \/>chuva ben\u00e9fica que lhe deu vida.<br \/> N\u00e3o me fales, igualmente, em perd\u00e3o, pois<br \/>\n<br \/>acaso poder\u00e1 algu\u00e9m perdoar -se a si mesmo?<br \/>\n<br \/>E n\u00f3s, Saulo, pertencemo-nos um ao outro para a eternidade.<br \/> N\u00e3o me<br \/>\n<br \/>disseste, muitas vezes, que eu era o cora\u00e7\u00e3o do teu c\u00e9rebro?<br \/>\n<br \/>Ouvindo o timbre caricioso daquela voz amada, o jovem de Tarso comovia &#8211;<br \/>\n<br \/>se nas entranhas do pr\u00f3prio ser arrebatado e ardente.<br \/> Aquela humildade e<br \/>\n<br \/>aquele tom de ternura penetravam-lhe o cora\u00e7\u00e3o, reconquistando -lhe o<br \/>\n<br \/>discernimento para o caminho reto.<\/p>\n<p>Guardando, entre as suas, as m\u00e3os p\u00e1lidas da noiva, exclamou com um<br \/>\n<br \/>lampejo de alegria nos olhos:<br \/>\n<br \/>\u2014 Por que dizes que \u201ceras o cora\u00e7\u00e3o\u201d, se ainda \u00e9s e s\u00ea -lo-\u00e1s para sempre?<br \/>\n<br \/>Deus aben\u00e7oar\u00e1 nossas esperan\u00e7as.<br \/> Realizaremos nosso ideal.<br \/> Voltei para<br \/>\n<br \/>levar-te comigo.<\/p>\n<p>Teremos um lar, ser\u00e1s nele a rainha!.<br \/>.<br \/>.<\/p>\n<p>Dominada por indefin\u00edvel alegria, a noiva, que o contemplava com l\u00e1grimas,<br \/>\n<br \/>murmurou:<br \/>\n<br \/>\u2014 Desconfio, Saulo, que os lares da Terra n\u00e3o foram feitos para n\u00f3s!.<br \/>.<br \/>.<\/p>\n<p>Deus sabe quanto desejei, ardentemente, ser a m\u00e3e carinhosa de teus filhos;<br \/>\n<br \/>como conservei o ideal acima de todas as circunst\u00e2ncias, para aformo sear tua<br \/>\n<br \/>exist\u00eancia com o meu carinho! Desde menina, em Corinto, vi mulheres que<br \/>\n<br \/>107<br \/>\n<br \/>desbaratavam os tesouros do C\u00e9u, simbolizados no amor do esposo e dos<br \/>\n<br \/>filhinhos; e pensei que o Senhor me concederia o mesmo patrim\u00f4nio de<br \/>\n<br \/>esperan\u00e7as divinas, pois aguardava as b\u00ean\u00e7\u00e3os do santu\u00e1rio dom\u00e9stico para<br \/>\n<br \/>glorific\u00e1-lo de todo o cora\u00e7\u00e3o.<br \/> Para exalt\u00e1 -lo, idealizei a vida do homem amado,<br \/>\n<br \/>que me auxiliaria a erguer o altar da prole; e, assim que m e chegaste, organizei<br \/>\n<br \/>vastos planos de uma vida santa e venturosa, na qual pud\u00e9ssemos honrar a<br \/>\n<br \/>Deus.<\/p>\n<p>Saulo escutava comovido.<br \/> Nunca lhe observara ta manha largueza de<br \/>\n<br \/>racioc\u00ednio e lucidez, naquele tom de ternura tranq\u00fcila.<\/p>\n<p>Mas o C\u00e9u \u2014 prosseguiu resignada \u2014 retirou-me as possibilidades de<br \/>\n<br \/>semelhante ventura na Terra.<br \/> Nos meus primeiros dias de solid\u00e3o, visitava os<br \/>\n<br \/>lugares ermos, como a procurar -te, requisitando o socorro do teu afeto.<br \/> Os<br \/>\n<br \/>pessegueiros de nossa predile\u00e7\u00e3o pareciam dizer que nunca mais voltari as; a<br \/>\n<br \/>noite amiga aconselhava-me a esquecer; o luar, que me ensinaste a bem &#8211;<br \/>\n<br \/>querer, agravava as minhas recorda\u00e7\u00f5es e amortecia as minhas esperan\u00e7as.<\/p>\n<p>Da peregrina\u00e7\u00e3o de cada noite, voltava com l\u00e1gri mas nos olhos, filhas do<br \/>\n<br \/>desespero do cora\u00e7\u00e3o.<br \/> Embalde pr ocurava tua palavra confortadora.<br \/> Sentia -me<br \/>\n<br \/>profundamente s\u00f3.<br \/> Para lembrar e seguir tuas advert\u00eancias, recordava que me<br \/>\n<br \/>chamaste a aten\u00e7\u00e3o, \u00e0 \u00faltima vez que nos encontramos, para a amizade de<br \/>\n<br \/>Zacarias e de Ruth.<br \/> \u00c9 verdade que n\u00e3o tenho outros amigos mais f i\u00e9is e<br \/>\n<br \/>generosos que eles; entretanto, n\u00e3o lhes poderia ser mais pesada na vida,<br \/>\n<br \/>al\u00e9m do que sou.<br \/> Evitei, ent\u00e3o, con fiar-lhes minhas ang\u00fastias.<br \/> Nos primeiros<br \/>\n<br \/>meses da tua aus\u00eancia, amarguei sem consolo a minha grande desdita.<br \/> Foi<br \/>\n<br \/>quando surgiu aqui um velhinho respeit\u00e1vel, chamado Ananias, que me deu a<br \/>\n<br \/>conhecer as luzes sagradas da nova revela\u00e7\u00e3o.<br \/> Conheci a hist\u00f3ria do Cristo, o<br \/>\n<br \/>Filho de Deus Vivo; devorei o seu Evangelho de reden\u00e7\u00e3o, edi fiquei-me nos<br \/>\n<br \/>seus exemplos.<br \/> Desde essa hora, compreen di-te melhor, conhecendo a minha<br \/>\n<br \/>pr\u00f3pria situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>S\u00fabito acesso de tosse cortou-lhe a narrativa.<\/p>\n<p>As palavras da noiva ca\u00edam-lhe no cora\u00e7\u00e3o como gotas de fel.<br \/> Nunca<br \/>\n<br \/>experimentara dor moral t\u00e3o aguda.<br \/> Verificando a sinceridade natural, o carinho<br \/>\n<br \/>doce daquelas confiss\u00f5es, sentia-se pungido de acerbos remorsos.<br \/> Como<br \/>\n<br \/>pudera abandonar, assim, a escolhida de sua alma, olvidando -lhe a fidelidade e<br \/>\n<br \/>o amor? Onde encontrara tamanha dureza de esp\u00edrito para esquecer deveres<br \/>\n<br \/>t\u00e3o sagrados? Agora, vinha encontr\u00e1 -la ex\u00e2nine, desiludida de realizar na Terra<br \/>\n<br \/>os sonhos da juventude.<br \/> Al\u00e9m de tudo, o carpinteiro odiado parecia tomar -lhe o<br \/>\n<br \/>lugar no cora\u00e7\u00e3o da noiva adorada.<br \/> Naquele momento, n\u00e3o experimentava<br \/>\n<br \/>apenas o desejo de lhe arrasar a doutrina e os adeptos, mas sentia ci\u00fames<br \/>\n<br \/>dele na alma caprichosa.<br \/> De que poderes podia dispor o nazareno obscuro e<br \/>\n<br \/>martirizado na cruz, para conquistar os sentimentos mais puros da noiva<br \/>\n<br \/>carinhosa?<br \/>\n<br \/>\u2014 Abigail \u2014 disse comovido \u2014, abandona as id\u00e9ias tristes que poderiam<br \/>\n<br \/>envenenar os sonhos de nossa mo cidade.<br \/> N\u00e3o te entregues a ilus\u00f5es.<\/p>\n<p>Renovemos nossas esperan\u00e7as.<br \/> Breve estar\u00e1s restabelecida.<br \/> Sei que me per &#8211;<br \/>\n<br \/>doaste a morte de teu irm\u00e3o, e minha fam\u00edlia te receber\u00e1 em Tarso com j\u00fabilos<br \/>\n<br \/>sinceros! Seremos felizes, muito felizes!.<br \/>.<br \/>.<\/p>\n<p>Seus olhos pareciam pairar numa regi\u00e3o de sonhos deliciosos, procurando<br \/>\n<br \/>reavivar no cora\u00e7\u00e3o amado os seus projetos de felicidade terrena.<\/p>\n<p>Ela, por\u00e9m, misturando sorrisos e l\u00e1grimas, acres centava:<br \/>\n<br \/>\u2014 Francamente, querido, eu tamb\u00e9m desejaria re viver!.<br \/>.<br \/>.<br \/> Ser tua,<br \/>\n<br \/>108<br \/>\n<br \/>entretecer teus sonhos de juventude, inventar estrelas para o c\u00e9u da tua<br \/>\n<br \/>exist\u00eancia; tudo isso constitui meu ideal de mulher!.<br \/>.<br \/>.<br \/> Ah! se pudesse, buscaria<br \/>\n<br \/>os teus parentes com amor, haveria de con quist\u00e1-los para o meu cora\u00e7\u00e3o, ao<br \/>\n<br \/>pre\u00e7o de um grande afeto; mas, pressinto que os planos de Deus s\u00e3o diferentes,<br \/>\n<br \/>no que concerne aos nossos destinos.<br \/> Jesus cha mou-me para a sua<br \/>\n<br \/>fam\u00edlia espiritual.<br \/>.<br \/>.<\/p>\n<p>\u2014 Ai de mim! \u2014 exclamou Saulo cortando-lhe a palavra \u2014 em toda parte,<br \/>\n<br \/>topo express\u00f5es do carpinteiro de Nazar\u00e9! Que flagelo! N\u00e3o repitas semelhante<br \/>\n<br \/>coisa.<br \/> Deus n\u00e3o seria justo se te seq\u00fcestrasse ao meu afeto.<br \/> -Quem poderia,<br \/>\n<br \/>ent\u00e3o, como esse Cristo, interpor -se aos nossos votos?<br \/>\n<br \/>Mas Abigail fixou-o com um gesto s\u00faplice e falou:<br \/>\n<br \/>\u2014 Saulo, de que nos valeria a desespera\u00e7\u00e3o? N\u00e3o ser\u00e1 melhor incl inarmonos<br \/>\n<br \/>com paci\u00eancia aos sagrados des\u00edgnios? N\u00e3o alimentemos d\u00favidas<br \/>\n<br \/>prejudiciais.<br \/> Este leito \u00e9 de medita\u00e7\u00e3o e de morte, O sangue, v\u00e1rias vezes, j\u00e1<br \/>\n<br \/>me golfou prenunciando o fim.<br \/> Mas n\u00f3s cremos em Deus e sabemos que esse<br \/>\n<br \/>fim \u00e9 apenas corporal.<br \/> Nossa alma n\u00e3o morrer\u00e1, amar-nos-emos<br \/>\n<br \/>eternamente.<br \/>.<br \/>.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o concordo \u2014 respondia ele extremamente aflito \u2014, essas<br \/>\n<br \/>presun\u00e7\u00f5es s\u00e3o fruto de ensinamentos absurdos, quais os desse fan\u00e1tico<br \/>\n<br \/>nazareno que morreu na cruz, entre a humilha\u00e7\u00e3o e a covardia.<br \/> Nunca assim<br \/>\n<br \/>foste, melanc\u00f3lica e desalentada; somente os sortil\u00e9gios galileus podiam<br \/>\n<br \/>convencer-te de tais absurdos funestos.<br \/> Mas, procura raciocinar por ti mesma!<br \/>\n<br \/>Que te deu o crucificado sen\u00e3o tristeza e desola\u00e7\u00e3o?<br \/>\n<br \/>\u2014Enganas-te, Saulo! N\u00e3o me sinto desanimada, embora convic ta da<br \/>\n<br \/>impossibilidade de minha ventura terrena.<br \/> Jesus n\u00e3o foi um mestre vulgar de<br \/>\n<br \/>sortil\u00e9gios, foi o Messias dispensador de consola\u00e7\u00e3o e vida.<br \/> Sua influ\u00eancia<br \/>\n<br \/>renovou-me as for\u00e7as, saturou-me de bom \u00e2nimo e verdadeira compreens\u00e3o<br \/>\n<br \/>dos des\u00edgnios supremos.<br \/> Seu Evangelho de perd\u00e3o e amor \u00e9 o tesouro di vino<br \/>\n<br \/>dos sofredores e deserdados do mundo.<\/p>\n<p>O jovem n\u00e3o conseguia dissimular a irrita\u00e7\u00e3o que lhe vagava na alma.<\/p>\n<p>\u2014Sempre o mesmo refr\u00e3o \u2014 disse confuso \u2014 invariavelmente, a<br \/>\n<br \/>afirmativa de ter vindo para os infeli zes, para os doentes e infortunados.<br \/> Mas,<br \/>\n<br \/>as tribos de Israel n\u00e3o se comp\u00f5em apenas de criaturas dessa es p\u00e9cie.<br \/> E os<br \/>\n<br \/>homens valorosos do povo escolhido? E as fam\u00edlias de tradi\u00e7\u00f5es respeit\u00e1veis?<br \/>\n<br \/>Estariam fora da influ\u00eancia do Salvador?<br \/>\n<br \/>\u2014Tenho lido os ensinamentos de Jesus \u2014 respondeu a mo\u00e7a com firmeza<br \/>\n<br \/>\u2014 e suponho compreender as tuas obje\u00e7\u00f5es.<br \/> O Cristo, cumprindo a sagrada<br \/>\n<br \/>palavra dos profetas, revela-nos que a vida \u00e9 um conjunto de nobres<br \/>\n<br \/>preocupa\u00e7\u00f5es da alma, a fim de que marchemos para Deus pelos cami nhos<br \/>\n<br \/>retos.<br \/> N\u00e3o podemos conceber o Criador como juiz ocioso e isolado, sen\u00e3o<br \/>\n<br \/>como Pai desvelado no benef\u00edcio de seus filhos.<br \/> Os homens valo rosos a que te<br \/>\n<br \/>referes, os forros de enfermidades e so frimentos, na posse das b\u00ean\u00e7\u00e3os reais<br \/>\n<br \/>de Deus, deviam ser filhos laboriosos, preocupados com o rendimento da<br \/>\n<br \/>tarefa que foram chamados a cumprir, a prol da feli cidade de seus irm\u00e3os.<br \/> Mas,<br \/>\n<br \/>no mundo, temos contra nossas tend\u00eancias superiores o inimigo que se instala<br \/>\n<br \/>em nosso pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o.<br \/> O ego\u00edsmo ataca a sa\u00fade, o ci\u00fame prejudica o<br \/>\n<br \/>mandato divino, como a ferrugem e a tra\u00e7a que inutilizam nossas vestes e<br \/>\n<br \/>instrumentos, quando nos descuidamos.<br \/> S\u00e3o poucos os que se recor dam da<br \/>\n<br \/>prote\u00e7\u00e3o divina, nos dias alegres da fartura, como rar\u00edssimos os que trabalham<br \/>\n<br \/>\u00e0 revelia do aguilh\u00e3o.<br \/> Isso demonstra que o Cristo \u00e9 um roteiro para todos,<br \/>\n<br \/>109<br \/>\n<br \/>constituindo-se em consolo para os que choram e orien ta\u00e7\u00e3o para as almas<br \/>\n<br \/>criteriosas, chamadas por Deus a contribuir nas santas preocupa\u00e7\u00f5es do bem.<\/p>\n<p>Saulo estava impressionado com aquela cla reza de racioc\u00ednio.<br \/> Mas a<br \/>\n<br \/>conversa\u00e7\u00e3o exigira da enferma maior esfor\u00e7o e conseq\u00fcente fadiga.<br \/> A<br \/>\n<br \/>respira\u00e7\u00e3o tornara-se dif\u00edcil, e n\u00e3o tardou que o sangue lhe borbotasse do peito<br \/>\n<br \/>em prolongada hemoptise.<br \/> Aquele sofrimento, adornado de ternura e<br \/>\n<br \/>humildade, comovia e exasperava profundamente o noivo.<br \/> Compreendeu que<br \/>\n<br \/>seria impiedoso atacar perante a noiva aquele Jesus que lhe cumpria perseguir<br \/>\n<br \/>at\u00e9 ao fim.<br \/> N\u00e3o queria crer que a sua Abigail estivesse nas v\u00e9speras da morte.<\/p>\n<p>Preferia encarar o futuro com otimismo.<br \/> Restabelecida, f\u00e1-la-ia voltar aos seus<br \/>\n<br \/>antigos pontos de vista.<br \/> N\u00e3o toleraria a intromis s\u00e3o do Cristo no santu\u00e1rio<br \/>\n<br \/>dom\u00e9stico.<br \/> No esfor\u00e7o introspectivo, entretanto, concluiu que precisava dar<br \/>\n<br \/>uma tr\u00e9gua aos seus pensamentos antag\u00f4nicos, para cogitar dos problemas<br \/>\n<br \/>essenciais da sua pr\u00f3pria tranq\u00fcilidade.<br \/> A jovem enferma, ap\u00f3s a crise que<br \/>\n<br \/>durara minutos longos e tristes, tinha os grandes olhos serenos e l\u00faci dos.<\/p>\n<p>Contemplando-a naquela doce atitude de suprema resigna\u00e7\u00e3o, Saulo de Tarso<br \/>\n<br \/>experimentou enternecedoras como\u00e7\u00f5es \u00edntimas.<br \/> Seu temperamento<br \/>\n<br \/>arrebatado entregava-se facilmente \u00e0s impress\u00f5es extremadas.<\/p>\n<p>Aproximando-se mais da noiva amada, tinha os olhos \u00famidos.<br \/> Desejou<br \/>\n<br \/>acarici\u00e1-la como se o fizesse a uma crian\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 Abigail \u2014 murmurou ternamente \u2014, n\u00e3o falemos mais de id\u00e9ias<br \/>\n<br \/>religiosas.<br \/> Perdoa-me! Recordemos nosso porvir de flores, esque\u00e7amos tudo<br \/>\n<br \/>para consolidar as melhores esperan\u00e7as.<\/p>\n<p>E as palavras lhe borbulhavam ardentes de emo \u00e7\u00e3o.<br \/> O carinho que<br \/>\n<br \/>evidenciavam era sintoma do arre pendimento e das aspira\u00e7\u00f5es nobres e<br \/>\n<br \/>sinceras que lhe trabalhavam, agora, no esp\u00edrito angustiado.<br \/> Entretanto, como<br \/>\n<br \/>se fora presa de singular abatimento depois do esfor\u00e7o despendido, a jovem de<br \/>\n<br \/>Corinto estava l\u00e2nguida, receando prosseguir no col\u00f3quio, em virtude dos<br \/>\n<br \/>acessos de tosse que a amea\u00e7avam freq\u00fcentemente.<br \/> O noivo, preocupado,<br \/>\n<br \/>compreendeu a situa\u00e7\u00e3o e, apertando -lhe as m\u00e3os transparentes, beijou -as<br \/>\n<br \/>enternecido.<\/p>\n<p>\u2014 Precisas repousar \u2014 disse com inflex\u00e3o carinhosa \u2014, n\u00e3o te preocupes<br \/>\n<br \/>por minha causa.<br \/> Dar-te-ei de minhas pr\u00f3prias for\u00e7as.<br \/> Breve estar\u00e1s<br \/>\n<br \/>restabelecida.<\/p>\n<p>E, depois de envolv\u00ea-la num olhar cheio de gratid\u00e3o e infinita ternura,<br \/>\n<br \/>rematava:<br \/>\n<br \/>\u2014 Voltarei a ver-te todas as noites que possa afas tar-me de Jerusal\u00e9m, e<br \/>\n<br \/>logo que puderes voltaremos a ver o luar, l\u00e1 no j ardim, para que a Natureza<br \/>\n<br \/>aben\u00e7oe os nossos sonhos, sob as vistas de Deus.<\/p>\n<p>\u2014 Sim, Saulo \u2014 disse pausadamente \u2014, Jesus nos conceder\u00e1 o melhor.<\/p>\n<p>De qualquer modo, no entanto, esta r\u00e1s no meu cora\u00e7\u00e3o, sempre, sempre.<br \/>.<br \/>.<\/p>\n<p>O doutor da Lei ia despedir-se, mas refletiu que a noiva nada lhe dissera<br \/>\n<br \/>com refer\u00eancia ao irm\u00e3o.<br \/> A generosidade daquele sil\u00eancio impressionava -o.<\/p>\n<p>Preferia ser acusado, discutir o feito com as suas penosas circunst\u00e2n cias, para<br \/>\n<br \/>que tamb\u00e9m se justificasse.<br \/> Mas, em vez de reprimendas, encontrava car\u00edcias,<br \/>\n<br \/>em vez de exprobra\u00e7\u00d5es, uma tranq\u00fcilidade generosa, com que a meiga jovem<br \/>\n<br \/>sabia ocultar as profundas feridas que lhe iam nalma.<\/p>\n<p>\u2014 Abigail \u2014 exclamou algo hesitante \u2014, antes de partir, quisera saber<br \/>\n<br \/>francamente se me desculpaste pela morte de Es tev\u00e3o.<br \/> Nunca mais pude falar &#8211;<br \/>\n<br \/>te das conting\u00eancias que me levaram a t\u00e3o triste desfecho; no entanto, estou<br \/>\n<br \/>110<br \/>\n<br \/>convicto de que tua bondade olvidou minha falta.<\/p>\n<p>\u2014 Por que te recordas disso? \u2014 respondeu-lhe esfor\u00e7ando-se por manter<br \/>\n<br \/>a voz firme e clara.<br \/> \u2014 Minhalma est\u00e1 agora tranq\u00fcila.<br \/> Jeziel est\u00e1 com o Cristo<br \/>\n<br \/>e morreu legando-te um pensamento amistoso.<br \/> Que poderia eu reclamar de<br \/>\n<br \/>minha parte, se Deus tem sido t\u00e3o misericordioso para comigo? Ainda agora,<br \/>\n<br \/>estou agradecendo ao Pai justo, de todo o cora\u00e7\u00e3o, a d\u00e1diva da tua presen\u00e7a<br \/>\n<br \/>nesta casa.<br \/> H\u00e1 muito vinha pedindo ao C\u00e9u n\u00e3o me dei xasse morrer sem te<br \/>\n<br \/>rever e ouvir.<br \/>.<\/p>\n<p>Saulo calculou a extens\u00e3o daquela generosidade es pont\u00e2nea e teve os<br \/>\n<br \/>olhos \u00famidos.<br \/> Despediu-se.<br \/> A noite fresca estava repleta de sugest\u00f5es para o<br \/>\n<br \/>seu esp\u00edrito.<br \/> Nunca meditara nos insond\u00e1veis des\u00edgnios do Eterno, como<br \/>\n<br \/>naquele momento em que recebera t\u00e3o profundas li\u00e7\u00f5es de humildade e amor,<br \/>\n<br \/>da mulher amada.<br \/> Experimentava na alma opressa o embate de duas for\u00e7as<br \/>\n<br \/>antag\u00f4nicas, que lutavam entre si para a pos se do seu cora\u00e7\u00e3o generoso e<br \/>\n<br \/>impulsivo.<\/p>\n<p>N\u00e3o compreendia Deus sen\u00e3o como um senhor po deroso e inflex\u00edvel.<br \/> \u00c0<br \/>\n<br \/>sua vontade soberana, dobrar -se-iam todas as preocupa\u00e7\u00f5es humanas.<br \/> Mas<br \/>\n<br \/>come\u00e7ava a perquirir o motivo de suas dolorosas inquietudes.<br \/> Por que n\u00e3o<br \/>\n<br \/>encontrava, em parte alguma, a paz anelada ardentemente? E, todavia, aquela<br \/>\n<br \/>gente miser\u00e1vel do \u201cCaminho\u201d entregava -se \u00e0s algemas do c\u00e1rcere, sorridente<br \/>\n<br \/>e tranq\u00fcila.<br \/> Homens enfermos e valetudin\u00e1rios, isentos de qualquer esperan\u00e7a<br \/>\n<br \/>do mundo, suportavam-lhe as persegui\u00e7\u00f5es com louvores no cora\u00e7\u00e3o.<br \/> O<br \/>\n<br \/>pr\u00f3prio Estev\u00e3o, cuja morte lhe servira de exemplo inesquec\u00edvel, aben \u00e7oara-o<br \/>\n<br \/>pelos sofrimentos recebidos por amor ao carpin teiro de Nazar\u00e9.<br \/> Aquelas<br \/>\n<br \/>criaturas desamparadas gozavam de uma tranq\u00fcilidade que ele desconh ecia,<br \/>\n<br \/>O quadro da noiva doente n\u00e3o lhe sa\u00eda dos olhos.<br \/> Abigail era sen s\u00edvel e<br \/>\n<br \/>afetuosa, mas lembrava sua ansiedade feminina, a intensidade de suas<br \/>\n<br \/>preocupa\u00e7\u00f5es de mulher, quando, eventualmente, n\u00e3o conseguia comparecer<br \/>\n<br \/>com pontualidade no ador\u00e1vel recanto da estrada de Jope.<br \/> Aquele Jesus<br \/>\n<br \/>desconhecido proporcionara-lhe for\u00e7as ao cora\u00e7\u00e3o.<br \/> Se era inconteste que a<br \/>\n<br \/>enfermidade lhe extinguia a vida aos poucos, tamb\u00e9m evidente era o<br \/>\n<br \/>rejuvenescimento das suas energias espirituais.<br \/> A noiva falara -lhe como que<br \/>\n<br \/>tocada de novas inspira\u00e7\u00f5es; aqueles olhos pareciam con templar interiormente<br \/>\n<br \/>a paisagem de outros mundos.<\/p>\n<p>Essas reflex\u00f5es n\u00e3o lhe deram ensejo \u00e0 admira\u00e7\u00e3o da Natureza.<\/p>\n<p>Reentrando em Jerusal\u00e9m, guardou a impres s\u00e3o de que despertava de um<br \/>\n<br \/>sonho.<br \/> \u00c0 sua frente desenhavam-se as linhas majestosas do grande santu\u00e1rio.<\/p>\n<p>O orgulho de ra\u00e7a falava-lhe mais forte ao esp\u00edrito.<\/p>\n<p>Era imposs\u00edvel conferir superioridade aos homens do \u201cCami nho\u201d.<br \/> Bastou a<br \/>\n<br \/>vis\u00e3o do Templo para que encontrasse em si mesmo os esclarecimentos que<br \/>\n<br \/>desejava.<br \/> A seu ver, a serenidade dos disc\u00edpulos do Cristo provinha, natural &#8211;<br \/>\n<br \/>mente, da ignor\u00e2ncia que lhes era apan\u00e1gio.<br \/> Geralmente, os que se<br \/>\n<br \/>afei\u00e7oavam aos galileus eram, apenas, criaturas que o mundo desclassificara<br \/>\n<br \/>pela decad\u00eancia f\u00edsica, pela educa\u00e7\u00e3o fa lha, pelo supremo abandono.<br \/> O<br \/>\n<br \/>homem de responsabilidade, por certo, n\u00e3o poderia encontrar a paz a pre\u00e7o t\u00e3o<br \/>\n<br \/>vil.<br \/> Figurarase-lhe haver resolvido o problema.<br \/> Continuaria a luta.<br \/> Contava com<br \/>\n<br \/>o breve restabelecimento da noiva; logo que poss\u00edvel desposaria Ab igail e, com<br \/>\n<br \/>f\u00e1cilidade, dissuadi-la-ia dos fantasiosos qu\u00e3o perigosos engodos daqueles<br \/>\n<br \/>ensinamentos condenados.<br \/> Do \u00e2mbito do seu lar, feliz, prosseguiria na<br \/>\n<br \/>persegui\u00e7\u00e3o de quantos esquecessem a Lei, trocando -a por outros princ\u00edpios.<\/p>\n<p>111<br \/>\n<br \/>Esses racioc\u00ednios lhe acalmaram, de certo modo, as inquieta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Mas, no dia seguinte, manh\u00e3 alta, um mensageiro de Zacarias golpeava &#8211;<br \/>\n<br \/>lhe a alma com uma not\u00edcia grave:<br \/>\n<br \/>Abigail piorara, estava agonizante!<br \/>\n<br \/>Incontinenti, tomou o caminho de Jope, ansioso de arrebatar a bem -amada<br \/>\n<br \/>ao perigo iminente.<\/p>\n<p>Ruth e o marido estavam desolados.<br \/> Desde a ma drugada, a enferma ca\u00edra<br \/>\n<br \/>em penosa prostra\u00e7\u00e3o.<br \/> Os v\u00f4mitos de sangue sucediam -se ininterruptos.<br \/> Dirse-<br \/>\n<br \/>ia que s\u00f3 esperava a visita do noivo para morrer.<br \/> Saulo escutou -os, l\u00edvido<br \/>\n<br \/>como cera.<br \/> Mudo, dirigiu-se para o quarto, onde o ar fresco penetrava<br \/>\n<br \/>embalsamado, trazendo a mensagem das flores do pomar e do jardim, que<br \/>\n<br \/>pareciam enviar despedidas \u00e0s m\u00e3os delicadas e carinho sas que lhes haviam<br \/>\n<br \/>dado a vida.<\/p>\n<p>Abigail recebeu-o com um raio de infinita alegria nos olhos transl\u00facidos.<br \/> O tom<br \/>\n<br \/>de marfim do semblante abatido acentuara -se rapidamente.<br \/> O peito arfava-lhe<br \/>\n<br \/>prec\u00edpite, o cora\u00e7\u00e3o batia sem ritmo.<br \/> Sua express\u00e3o geral evidenciava a<br \/>\n<br \/>derradeira agonia.<br \/> Saulo aproximou -se angustiado.<br \/> Pela primeira vez na vida,<br \/>\n<br \/>sentia-se tr\u00e9mulo diante do irremedi\u00e1vel.<br \/> Aquele olhar, aquela palidez de<br \/>\n<br \/>m\u00e1rmore, aquela afli\u00e7\u00e3o tocada de ang\u00fastia.<br \/> anuncia vam-lhe o desenlace.<\/p>\n<p>Depois de inquiri-la, quanto \u00e0 raz\u00e3o daquele abatimento inesperado,<br \/>\n<br \/>tomou-lhe as m\u00e3os fl\u00e1cidas, banhadas do suor frio dos moribundos.<\/p>\n<p>\u2014Como foi isso, Abigail? \u2014 dizia perturbado \u2014ainda ontem, deixei-te t\u00e3o<br \/>\n<br \/>esperan\u00e7ado.<br \/>.<br \/>.<br \/> Pedi sinceramente a Deus te curasse para mim!.<br \/>.<br \/>.<\/p>\n<p>Extremamente sensibilizados, Zacarias e sua mulher afastaram -se.<\/p>\n<p>Vendo que a noiva tinha imensa dificuldade em expor as \u00faltimas id\u00e9ias,<br \/>\n<br \/>Saulo ajoelhou-se a seu lado, cobriu-lhe as m\u00e3os de beijos ardentes.<br \/> A agonia<br \/>\n<br \/>dolorosa parecia-lhe o sofrimento injustific\u00e1vel, que o c\u00e9u houvera enviado a<br \/>\n<br \/>um anjo.<br \/> Ele, que trazia o esp\u00edrito res secado pela hermen\u00eautica das leis<br \/>\n<br \/>humanas, sentiu que chorava intensamente pela primeira vez.<br \/> Lendo -lhe a<br \/>\n<br \/>sensibilidade atrav\u00e9s das l\u00e1grimas que lhe desciam silenciosamente dos olhos,<br \/>\n<br \/>Abigail esbo\u00e7ou um gesto de carinho com dificuldade infinita.<br \/> Conhecia S aulo e<br \/>\n<br \/>comprovara-lhe a rigidez do car\u00e1ter.<br \/> Aquele pranto revelava o calv\u00e1rio \u00edntimo<br \/>\n<br \/>do bem-amado, mas demonstrava, igualmente, o alvorecer de uma vida nova<br \/>\n<br \/>para o seu esp\u00edrito.<\/p>\n<p>\u2014N\u00e3o chores, Saulo \u2014 murmurou dificilmente a morte n\u00e3o \u00e9 o fim de<br \/>\n<br \/>tudo.<br \/>.<br \/>.<br \/>\u2014<br \/>\n<br \/>Quero-te comigo em toda a vida \u2014 replicou o rapaz desfeito em<br \/>\n<br \/>l\u00e1grimas.<\/p>\n<p>\u2014 E, contudo, \u00e9 preciso morrer para vivermos ver dadeiramente<br \/>\n<br \/>acrescentava a agonizante, cortando as palavras com a respira\u00e7\u00e3o opressa.<br \/> \u2014<br \/>\n<br \/>Jesus nos ensinou que a semente caindo na terra fica s\u00f3, mas se morrer d\u00e1<br \/>\n<br \/>muitos frutos!.<br \/>.<br \/>.<br \/> N\u00e3o te rebeles contra os des\u00edgnios supremos que me<br \/>\n<br \/>arrebatam do teu conv\u00edvio material! Se nos un\u00edssemos pelo matrim\u00f4nio, talvez<br \/>\n<br \/>tiv\u00e9ssemos muitas alegrias; ter\u00edamos um lar com os nossos filhos; mas<br \/>\n<br \/>destruindo nossas esperan\u00e7as de uma felicidade passa geira na Terra, Deus<br \/>\n<br \/>nos multiplica os sonhos genero sos.<br \/>.<br \/>.<br \/> Enquanto esperarmos a uni\u00e3o<br \/>\n<br \/>indissol\u00favel, auxiliar-te-ei de onde estiver e te consagrar\u00e1s ao Eterno, em<br \/>\n<br \/>esfor\u00e7os sublimes e redentores.<br \/>.<br \/>.<\/p>\n<p>Via-se que a agonizante movimentava recursos su premos para pronunciar<br \/>\n<br \/>as derradeiras palavras.<\/p>\n<p>112<br \/>\n<br \/>\u2014Quem te deu semelhantes id\u00e9ias? \u2014 perguntou o jovem ralado de<br \/>\n<br \/>ang\u00fastia.<\/p>\n<p>&#8211; Esta noite, depois que partiste, senti que algu\u00e9m se aproximava<br \/>\n<br \/>enchendo o quarto de luz.<br \/>.<br \/>.<br \/> Era Jeziel que vinha ver -me.<br \/>.<br \/>.<br \/> Ao avist\u00e1-lo, lembreime<br \/>\n<br \/>de Jesus no inef\u00e1vel mist\u00e9rio da sua ressurrei\u00e7\u00e3o.<br \/> Anunciou -me que Deus<br \/>\n<br \/>santificava os nossos prop\u00f3sitos de ventura, mas que eu seria levada ainda<br \/>\n<br \/>hoje \u00e0 vida espiritual.<br \/> Ensinou-me a quebrar o ego\u00edsmo de minhalma, encheume<br \/>\n<br \/>de bom \u00e2nimo e trouxe-me a grata nova de que Jesus ama -te muito, tem<br \/>\n<br \/>esperan\u00e7as em ti!.<br \/>.<br \/>.<br \/> Refleti, ent\u00e3o, que seria \u00fatil entregar -me jubilosa \u00e0s m\u00e3os<br \/>\n<br \/>da morte, pois, quem sabe, se ficasse no mundo n\u00e3o iria perturbar a miss\u00e3o<br \/>\n<br \/>que o Salvador te destinou.<br \/>.<br \/>.<br \/> Jeziel afirmou que n\u00f3s te ajudaremos de um plano<br \/>\n<br \/>mais alto! Por que, ent\u00e3o, deixarei de ser tua companheira?.<br \/>.<br \/>.<br \/> Seguirei teus<br \/>\n<br \/>passos no caminho, levar-te-ei onde se encontrem nossos irm\u00e3os do mundo,<br \/>\n<br \/>em abandono, auxiliarei teus racioc\u00ednios a descobrir sempre a verdade!.<br \/>.<br \/>.<br \/> Ainda<br \/>\n<br \/>n\u00e3o aceitaste o Evangelho, mas Jesus \u00e9 bom e ter\u00e1 algum meio de nos unir os<br \/>\n<br \/>pensamentos na verdadeira compreens\u00e3o!.<br \/>.<br \/>.<\/p>\n<p>O esfor\u00e7o da moribunda havia sido imenso.<br \/> A voz extinguira -se-lhe na<br \/>\n<br \/>garganta.<br \/> De seus olhos, profundamente l\u00facidos, as l\u00e1grimas corriam<br \/>\n<br \/>abundantes.<\/p>\n<p>\u2014Abigail! Abigail! \u2014 gritava Saulo desesperado.<\/p>\n<p>Mas, ap\u00f3s longos minutos de angustiosa ansiedade, ela dizia num arranco<br \/>\n<br \/>supremo:<br \/>\n<br \/>\u2014Jeziel j\u00e1 veio .<br \/>.<br \/>.<br \/> buscar-me.<br \/>.<br \/>.<\/p>\n<p>Instintivamente, Saulo compreendeu que era chegado o momento fatal.<br \/> Em<br \/>\n<br \/>v\u00e3o chamou pela moribunda, cujos olhos se empanavam; debalde lhe beijou as<br \/>\n<br \/>m\u00e3os geladas, agora cobertas de um palor de neve transl\u00facida.<br \/> Como louco,<br \/>\n<br \/>gritou por Zacarias e Ruth.<br \/> Esta, solu\u00e7ante, desfeita em pran to, abra\u00e7ou-se a<br \/>\n<br \/>Abigail que, desde a morte do filho, resumia todo o seu tesouro maternal.<\/p>\n<p>A agonizante fixou o olhar, respectivamente, em cada um, como a<br \/>\n<br \/>evidenciar amoroso agradecimento.<br \/> Depois.<br \/>.<br \/>.<br \/> uma s\u00f3 l\u00e1grima silenciosa foi o<br \/>\n<br \/>seu \u00faltimo adeus.<\/p>\n<p>Do jardim pr\u00f3ximo chegavam perfumes brandos; o c\u00e9u crepuscular<br \/>\n<br \/>tonalizava-se de nuvens aurifulgentes, enquanto os p\u00e1ssaros em recolhida<br \/>\n<br \/>cruzavam os ares alegremente.<br \/>.<br \/>.<\/p>\n<p>Pesada amargura abatera-se sobre a mans\u00e3o da estrada de Jope.<br \/> Alara -se<br \/>\n<br \/>ao c\u00e9u a filha dileta, a noiva amada, a amiga carinhosa das flores e dos<br \/>\n<br \/>passarinhos.<\/p>\n<p>Saulo de Tarso ali se deixou ficar mudo, estarrecido enquanto Ruth, lavada<br \/>\n<br \/>em l\u00e1grimas, cobria de rosas a morta adorada, que parecia dormir.<\/p>\n<div class=\"pvc_clear\"><\/div>\n<p id=\"pvc_stats_18780\" class=\"pvc_stats all  \" data-element-id=\"18780\" style=\"\"><i class=\"pvc-stats-icon medium\" aria-hidden=\"true\"><svg aria-hidden=\"true\" focusable=\"false\" data-prefix=\"far\" data-icon=\"chart-bar\" role=\"img\" xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" viewBox=\"0 0 512 512\" class=\"svg-inline--fa fa-chart-bar fa-w-16 fa-2x\"><path fill=\"currentColor\" d=\"M396.8 352h22.4c6.4 0 12.8-6.4 12.8-12.8V108.8c0-6.4-6.4-12.8-12.8-12.8h-22.4c-6.4 0-12.8 6.4-12.8 12.8v230.4c0 6.4 6.4 12.8 12.8 12.8zm-192 0h22.4c6.4 0 12.8-6.4 12.8-12.8V140.8c0-6.4-6.4-12.8-12.8-12.8h-22.4c-6.4 0-12.8 6.4-12.8 12.8v198.4c0 6.4 6.4 12.8 12.8 12.8zm96 0h22.4c6.4 0 12.8-6.4 12.8-12.8V204.8c0-6.4-6.4-12.8-12.8-12.8h-22.4c-6.4 0-12.8 6.4-12.8 12.8v134.4c0 6.4 6.4 12.8 12.8 12.8zM496 400H48V80c0-8.84-7.16-16-16-16H16C7.16 64 0 71.16 0 80v336c0 17.67 14.33 32 32 32h464c8.84 0 16-7.16 16-16v-16c0-8.84-7.16-16-16-16zm-387.2-48h22.4c6.4 0 12.8-6.4 12.8-12.8v-70.4c0-6.4-6.4-12.8-12.8-12.8h-22.4c-6.4 0-12.8 6.4-12.8 12.8v70.4c0 6.4 6.4 12.8 12.8 12.8z\" class=\"\"><\/path><\/svg><\/i> <img decoding=\"async\" width=\"16\" height=\"16\" alt=\"Loading\" data-src=\"https:\/\/www.centronocaminhodaluz.com.br\/wp-content\/plugins\/page-views-count\/ajax-loader-2x.gif\" border=0 src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" class=\"lazyload\" style=\"--smush-placeholder-width: 16px; --smush-placeholder-aspect-ratio: 16\/16;\" \/><\/p>\n<div class=\"pvc_clear\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desde o mart\u00edrio de Estev\u00e3o, agravara -se em Jerusal\u00e9m o movimento de persegui\u00e7\u00e3o a todos os disc\u00edpulos ou simpatizantes do \u201cCaminho\u201d. Como se fora tocado de verdadeira alucina\u00e7\u00e3o, ao substituir Gamaliel nas fun\u00e7\u00f5es religiosas mais importantes da Cidade, Saulo de Tarso deixava -se fascinar por sugest\u00f5es de fanatismo cruel. 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