{"id":18812,"date":"2022-04-23T08:12:00","date_gmt":"2022-04-23T08:12:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.centronocaminhodaluz.com.br\/index.php\/artigo18812\/"},"modified":"2022-04-23T08:42:48","modified_gmt":"2022-04-23T11:42:48","slug":"artigo18812","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.centronocaminhodaluz.com.br\/index.php\/artigo18812\/","title":{"rendered":"10 No caminho de Damasco &#8211; PAULO E ESTEV\u00c3O &#8211;  FRANCISCO C\u00c2NDIDO XAVIER"},"content":{"rendered":"<p>Durante tr\u00eas dias, Saulo deixou-se ficar em companhia dos amigos<br \/>\n<br \/>generosos, recordando a noiva ines quec\u00edvel.<br \/> Profundamente abatido,<br \/>\n<br \/>procurava rem\u00e9dio para as m\u00e1goas \u00edntimas, na contempla\u00e7\u00e3o da paisagem que<br \/>\n<br \/>Abigail tanto amara.<br \/> Como triste consolo ao cora\u00e7\u00e3o deses perado, buscava<br \/>\n<br \/>inteirar-se das preocupa\u00e7\u00f5es da morta nos \u00faltimos tempos e, de olhos \u00famidos,<br \/>\n<br \/>ouvia as refer\u00eancias carinhosas de Ruth a tudo que se relacionava com a morta<br \/>\n<br \/>querida.<br \/> Acusava a si pr\u00f3prio de n\u00e3o haver chegado mais cedo para arrebat\u00e1 -la<br \/>\n<br \/>\u00e0 enfermidade dolorosa.<br \/> Pensamentos amargos o atormentavam, tomado de<br \/>\n<br \/>angustioso arrependimento.<\/p>\n<p>Afinal, com a rigidez das suas paix\u00f5es, aniquilara todas as possibilidades<br \/>\n<br \/>de ventura.<br \/> Com o rigorismo da sua persegui\u00e7\u00e3o implac\u00e1vel, Estev\u00e3o<br \/>\n<br \/>encontrara o supl\u00edcio terr\u00edvel; com o orgulho inflex\u00edvel do cora\u00e7\u00e3o, atirara com a<br \/>\n<br \/>noiva ao antro indevass\u00e1vel do t\u00famulo.<\/p>\n<p>Entretanto, n\u00e3o podia esquecer que devia todas as coincid\u00eancias penosas<br \/>\n<br \/>\u00e0quele Cristo crucificado, que n\u00e3o pudera compreender.<br \/> Por que topava, em<br \/>\n<br \/>tudo, tra\u00e7os do carpinteiro humilde de Nazar\u00e9, que seu esp\u00edrito voluntarioso<br \/>\n<br \/>detestava? Desde a primeira con trov\u00e9rsia na igreja do \u201cCaminho\u201d, nunca mais<br \/>\n<br \/>conseguira passar um dia sem encontr\u00e1-lo na fisionomia de algum transeunte,<br \/>\n<br \/>na admoesta\u00e7\u00e3o dos amigos, na documenta\u00e7\u00e3o oficial das suas dilig\u00eancias<br \/>\n<br \/>punitivas, na boca dos m\u00edseros prisioneiros.<br \/> Estev\u00e3o expirara falando nele com<br \/>\n<br \/>amor e j\u00fabilo; Abigail nos \u00faltimos instantes consolava -se em record\u00e1-lo e o<br \/>\n<br \/>exortava a segui-lo.<br \/> Por todo esse acervo de considera \u00e7\u00f5es que se lhe<br \/>\n<br \/>represavam na mente exausta, Saulo de Tarso galvanizara o \u00f3dio pessoal ao<br \/>\n<br \/>Messias escarnecido.<br \/> Agora que se encontrava s\u00f3, inteiramente liberto de<br \/>\n<br \/>preocupa\u00e7\u00f5es particulares, de natureza afetiva, buscaria concentrar esfor\u00e7os<br \/>\n<br \/>na puni\u00e7\u00e3o e corretivo de quantos encontrasse transviados da Lei.<br \/> Julgando -se<br \/>\n<br \/>prejudicado pela difus\u00e3o do Evangelho, renovaria os processos da persegui\u00e7\u00e3o<br \/>\n<br \/>infamante.<br \/> Sem outras esperan\u00e7as, sem novos ideais, j\u00e1 que lhe faltavam os<br \/>\n<br \/>fundamentos para constituir um lar, entre gar-se-ia de corpo e alma \u00e0 defesa da<br \/>\n<br \/>Lei de Mois\u00e9s, preservando a f\u00e9 e a tranq\u00fcilidade dos compatr\u00edcios.<\/p>\n<p>Na v\u00e9spera do seu regresso a Jerusal\u00e9m, vamos en contrar o jovem doutor<br \/>\n<br \/>em conversa particular com Zacarias, que procurava ouvi -lo atentamente.<\/p>\n<p>\u2014Afinal de contas \u2014 exclamava Saulo sombria-mente preocupado \u2014,<br \/>\n<br \/>quem ser\u00e1 esse velho que conse guiu fascinar Abigail, a ponto de ela abra\u00e7ar<br \/>\n<br \/>as doutrinas estranhas do Nazareno?<br \/>\n<br \/>\u2014 Ora \u2014 replicava o outro sem maior interesse \u2014, \u00e9 um desses miser\u00e1veis<br \/>\n<br \/>eremitas que se entregam comumente a longas medita\u00e7\u00f5es no deserto.<\/p>\n<p>Zelando o patrim\u00f4nio espiritual da pupila que Deus me confiou, indaguei da sua<br \/>\n<br \/>origem e das atividades de sua vida, chegando a saber que se trata de um<br \/>\n<br \/>homem honesto, apesar de extremamente pobre.<\/p>\n<p>\u2014 Seja como for \u2014 objetava o rapaz com austeridade \u2014, ainda n\u00e3o pude<br \/>\n<br \/>compreender os motivos da tua toler\u00e2ncia.<br \/> Como n\u00e3o te insurgiste contra o<br \/>\n<br \/>inovador? Tenho a impress\u00e3o de que as id\u00e9ias tristes e absurdas dos adeptos<br \/>\n<br \/>do \u201cCaminho\u201d contribu\u00edram, de modo de cisivo, para a mol\u00e9stia que vitimou a<br \/>\n<br \/>nossa pobre Abigail.<\/p>\n<p>\u2014 Ponderei tudo isso, mas a atitude mental da querida morta revestiu -se<br \/>\n<br \/>de imensa consola\u00e7\u00e3o, depois do contacto com esse anacoreta honesto e<br \/>\n<br \/>114<br \/>\n<br \/>humilde.<br \/> Ananias tratou-a sempre com profundo respeito, atendeu-a sempre<br \/>\n<br \/>alegre, n\u00e3o exigiu qualquer recompensa, e assim procedeu com os pr\u00f3prios<br \/>\n<br \/>empregados, revelando uma bondade sem limites.<br \/> Seria, ent\u00e3o, l\u00edcito<br \/>\n<br \/>impugnar, desprezar benef\u00edcios? \u00c9 verdade que, na esfera de minha<br \/>\n<br \/>compreens\u00e3o, n\u00e3o poderei acei tar outras id\u00e9ias al\u00e9m das que nos foram<br \/>\n<br \/>ensinadas por nossos av\u00f3s, respeit\u00e1veis e generosos; mas n\u00e3o me julguei com<br \/>\n<br \/>o direito de subtrair aos outros o objeto de suas consola\u00e7\u00f5es mais preciosas.<\/p>\n<p>Tua aus\u00eancia, ao demais, colocou -me em situa\u00e7\u00e3o dif\u00edcil.<br \/> Abigail fizera da tua<br \/>\n<br \/>pessoa o centro de todos os seus interesses afetivos.<br \/> Sem compreender as<br \/>\n<br \/>raz\u00f5es que te levaram a desaparecer de nossa casa, compadeci -me da sua<br \/>\n<br \/>amargura \u00edntima, a traduzir -se em tristeza inalter\u00e1vel.<br \/> A pobrezinha n\u00e3o<br \/>\n<br \/>conseguia ocultar suas m\u00e1goas aos nossos olhos amorosos.<br \/> O encontro de um<br \/>\n<br \/>rem\u00e9dio era providencial.<br \/> Desde a interven\u00e7\u00e3o de Ananias, Abigail<br \/>\n<br \/>transformou-se, parecia converter toda a ang\u00fastia em esperan\u00e7as de uma vida<br \/>\n<br \/>melhor.<br \/> Embora doente, recebia os mendigos que lhe vinham fa lar desse Jesus<br \/>\n<br \/>que, tamb\u00e9m, n\u00e3o consigo compreender.<br \/> Eram amigos da vizinhan\u00e7a, gente<br \/>\n<br \/>simples, com quem ela parecia alegrar -se.<br \/> Observando o mal irremedi\u00e1vel que<br \/>\n<br \/>a consumia, eu e Ruth acompanh\u00e1vamos tudo isso enternecidamente.<br \/> Como<br \/>\n<br \/>n\u00e3o proceder assim, se estava em jogo a paz espiritual de uma filha dileta, nos<br \/>\n<br \/>derradeiros dias da sua vida? \u00c9poss\u00edvel que ainda n\u00e3o consigas entender o<br \/>\n<br \/>sentido da minha conduta, neste particular, mas em s\u00e3 consci\u00eancia estou<br \/>\n<br \/>justificado, porq\u00fcanto sei que cumpri meu dever, n\u00e3o lhe embargando os<br \/>\n<br \/>recursos que julgou necess\u00e1rios \u00e0 sua consola\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Saulo ouvia-o admirado.<br \/> A serenidade e a pondera \u00e7\u00e3o de Zacarias<br \/>\n<br \/>infirmavam-lhe os estos mais fortes de reprimenda e severidade.<br \/> As acusa\u00e7\u00f5es<br \/>\n<br \/>veladas ao seu afastamento da noiva, sem moti vo justificado, penetravam-lhe o<br \/>\n<br \/>cora\u00e7\u00e3o com pruridos de remorso pungente.<\/p>\n<p>\u2014Sim \u2014 revidou menos \u00e1spero \u2014, reconsidero melhor as raz\u00f5es que te<br \/>\n<br \/>induziram a suportar tudo isso, mas, n\u00e3o quero, n\u00e3o posso e n\u00e3o devo<br \/>\n<br \/>exonerar-me do compromisso que assumi em d esafronta da Lei.<\/p>\n<p>\u2014Mas, a que compromisso te referes? \u2014 interrogou Zacarias<br \/>\n<br \/>surpreendido.<\/p>\n<p>\u2014Quero dizer que preciso encontrar Ananias, a fim de castig\u00e1 -lo<br \/>\n<br \/>devidamente.<\/p>\n<p>\u2014 Que \u00e9 isso, Saulo? \u2014 objetou Zacarias penosamente impressionado.<\/p>\n<p>\u2014 Abigail acaba de baixar ao sepulcro; seu esp\u00edrito, de complei\u00e7\u00e3o<br \/>\n<br \/>sensibil\u00edssima e afetuosa, sofreu profundamente por motivos que igno ramos e<br \/>\n<br \/>que talvez conhe\u00e7as; o conforto \u00fanico que ela encontrou foi, justamente, a<br \/>\n<br \/>amizade paternal desse velhinho bom e honesto; e queres puni-lo pelo bem<br \/>\n<br \/>que nos fez e \u00e0 criatura inesquec\u00edvel?<br \/>\n<br \/>\u2014 Mas \u00e9 a defesa da Lei de Mois\u00e9s que est\u00e1 em jogo \u2014 respondeu o mo\u00e7o<br \/>\n<br \/>tarsense com firmeza.<\/p>\n<p>\u2014 Entretanto \u2014 advertiu sensatamente Zacarias \u2014, revistando os textos<br \/>\n<br \/>sagrados, n\u00e3o encontrei qualquer disp ositivo que autorize a castigar os<br \/>\n<br \/>benfeitores.<\/p>\n<p>O doutor da Lei esbo\u00e7ou um gesto de contrariedade em face da<br \/>\n<br \/>observa\u00e7\u00e3o justa, mas, valendo -se da sua hermen\u00eautica, considerou com<br \/>\n<br \/>sagacidade:<br \/>\n<br \/>\u2014 Mas uma coisa \u00e9 estudar a Lei e outra \u00e9 defender a Lei.<br \/> Na tare fa<br \/>\n<br \/>superior em que me encontro, sou obrigado a examinar se o bem n\u00e3o oculta o<br \/>\n<br \/>115<br \/>\n<br \/>mal que condenamos.<br \/> A\u00ed reside a nossa diverg\u00eancia.<br \/> Tenho de punir os<br \/>\n<br \/>transviados, como necessitas podar as \u00e1rvores da tua ch\u00e1cara.<\/p>\n<p>Fez-se prolongado sil\u00eancio.<br \/> Absortos em profund a medita\u00e7\u00e3o, separados<br \/>\n<br \/>mental e intimamente, foi Saulo quem retomou a palavra perguntando:<br \/>\n<br \/>\u2014 Desde quando Ananias se ausentou destas pa ragens?<br \/>\n<br \/>\u2014 H\u00e1 mais de dois meses.<\/p>\n<p>\u2014 E chegaste a conhecer o rumo que tomou?<br \/>\n<br \/>&#8211; Abigail disse-me que ele fora chamado a Jerusal\u00e9m, a fim de confortar os<br \/>\n<br \/>doentes dos bairros pobres, dada a situa\u00e7\u00e3o dif\u00edcil que por l\u00e1 se criara com a<br \/>\n<br \/>persegui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Pois a sua nefasta influ\u00eancia ser\u00e1 igualmente ju gulada pelas for\u00e7as da<br \/>\n<br \/>nossa vigil\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Regressando \u00e0 cidade, amanh\u00e3, como pretendo, procurarei localizar -lhe o<br \/>\n<br \/>paradeiro.<\/p>\n<p>Ananias n\u00e3o dementar\u00e1 outras cabe\u00e7as! Jamais chegou a pensar na<br \/>\n<br \/>rea\u00e7\u00e3o que provocou em minhalma, embora n\u00e3o nos conhe\u00e7amos<br \/>\n<br \/>pessoalmente.<\/p>\n<p>Zacarias n\u00e3o conseguiu dissimular o seu desgosto e sentenciou:<br \/>\n<br \/>\u2014 Na simplicidade da minha vida rural n\u00e3o posso atinar com a raz\u00e3o das<br \/>\n<br \/>lutas religiosas de Jerusal\u00e9m; mas, enfim, trata -se de problemas inerentes aos<br \/>\n<br \/>teus misteres profissionais e n\u00e3o devo intrometer -me nas provid\u00eancias que<br \/>\n<br \/>mais convenham.<\/p>\n<p>Saulo deixou-se ficar longo tempo pensativo, para, em seguida, imprimir<br \/>\n<br \/>novos rumos \u00e0 conversa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No dia seguinte, muito consternado, regressou \u00e0cidade, ansioso por encher<br \/>\n<br \/>o v\u00e1cuo do cora\u00e7\u00e3o, perdido no labirinto das horas vagas.<br \/> A ningu\u00e9m revelou a<br \/>\n<br \/>grande amargura que lhe ia na alma.<br \/> Fechando-se em mutismo absoluto,<br \/>\n<br \/>retomou as fun\u00e7\u00f5es religiosas, de semblante carregado.<\/p>\n<p>Ao sol claro da manh\u00e3 alta, vamos encontr\u00e1 -lo no Sin\u00e9drio, interrogando<br \/>\n<br \/>um auxiliar de servi\u00e7o, com vivacidade:<br \/>\n<br \/>\u2014 Isaac, cumpriste minhas ordens p ara os informes desejados?<br \/>\n<br \/>\u2014 Sim, senhor, encontrei entre os prisioneiros um rapaz que conhece o<br \/>\n<br \/>velho Ananias.<\/p>\n<p>\u2014 Muito bem \u2014 disse o doutor de Tarso evidentemente satisfeito \u2014, e<br \/>\n<br \/>onde mora o tal Ananias?<br \/>\n<br \/>\u2014 Ah! l\u00e1 isso ele n\u00e3o quis dizer, apesar do muito que insisti.<br \/> Alegou que<br \/>\n<br \/>n\u00e3o sabia.<\/p>\n<p>\u2014 Entretanto, \u00e9 poss\u00edvel que esteja mentindo \u2014ajuntou Saulo com rancor.<\/p>\n<p>\u2014 Esses homens s\u00e3o capazes de tudo.<br \/> Providencia, j\u00e1, para que ele aqui<br \/>\n<br \/>compare\u00e7a quanto antes.<br \/> Saberei como arrancar -lhe a verdade.<\/p>\n<p>Como quem j\u00e1 lhe conhecia as decis\u00f5es irrevog\u00e1veis.<br \/> Isaac obedeceu com<br \/>\n<br \/>humildade.<br \/> Da\u00ed a uma hora mais ou menos, dois soldados penetravam no<br \/>\n<br \/>gabinete, acompanhando um rapaz de fisionomia miser\u00e1vel.<br \/> Sem trair qualquer<br \/>\n<br \/>como\u00e7\u00e3o, Saulo de Tarso mandou que se reco lhessem \u00e0 sala de puni\u00e7\u00f5es,<br \/>\n<br \/>onde iria ter com o prisioneiro dentro de alguns minutos.<\/p>\n<p>Terminada a escritura\u00e7\u00e3o de alguns papiros, diri giu-se, resoluto, ao sal\u00e3o<br \/>\n<br \/>dos castigos.<br \/> Alinhavam-se, ali, todos os instrumentos odiosos e execr\u00e1veis<br \/>\n<br \/>das persegui\u00e7\u00f5es pol\u00edtico-religiosas, que envenenavam Jerusal\u00e9m nos<br \/>\n<br \/>embates da \u00e9poca.<\/p>\n<p>Depois de sentar-se enfaticamente, o mo\u00e7o de Tarso inquiriu o m\u00edsero<br \/>\n<br \/>116<br \/>\n<br \/>encarcerado com aspereza:<br \/>\n<br \/>\u2014Teu nome?<br \/>\n<br \/>\u2014Matatias Johanan.<\/p>\n<p>\u2014Conheces o velho Ananias, pregador ambulante da igreja do \u201cCaminho\u201d?<br \/>\n<br \/>\u2014Sim, senhor.<\/p>\n<p>\u2014Desde quando?<br \/>\n<br \/>\u2014Conheci-o nas v\u00e9speras de minha pris\u00e3o, que se verificou h\u00e1 um m\u00eas.<\/p>\n<p>\u2014E onde reside esse adepto do carpinteiro?<br \/>\n<br \/>\u2014Isso n\u00e3o sei \u2014 exclamou o interpelado em voz t\u00edmida.<br \/> \u2014 Quando o<br \/>\n<br \/>conheci, morava num bairro pobre de Jerusal\u00e9m, onde ensinava o Evangelho.<\/p>\n<p>Mas Ananias n\u00e3o tinha pouso certo.<br \/> Veio de Jope, estacionando em diversas<br \/>\n<br \/>aldeias, onde pregava as verdades de Jesus -Cristo.<br \/> Aqui, vivia de bairro em<br \/>\n<br \/>bairro, no seu piedoso mister.<\/p>\n<p>O mo\u00e7o tarsense n\u00e3o prestou aten\u00e7\u00e3o naquela ati tude de profunda<br \/>\n<br \/>humildade, e, franzindo o sobrolho, acrescentou amea\u00e7adoramente:<br \/>\n<br \/>\u2014Achas que podes mentir a um doutor da Lei?<br \/>\n<br \/>\u2014Senhor, eu juro.<br \/>.<br \/>.<br \/> \u2014 dizia o jovem ansiosamente.<\/p>\n<p>Saulo n\u00e3o se dignou fixar-lhe o gesto suplicante.<br \/> Dirigindo-se a um dos<br \/>\n<br \/>guardas, exclamou impass\u00edvel:<br \/>\n<br \/>\u2014J\u00falio, n\u00e3o temos tempo a perder.<br \/> Necessito da informa\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria.<\/p>\n<p>Aplica-lhe o tormento das unhas.<br \/> Acredito que, por esse processo, n\u00e3o se<br \/>\n<br \/>animar\u00e1 a prosseguir na dissimula\u00e7\u00e3o da verdade.<\/p>\n<p>A ordem foi logo cumprida.<br \/> Agu \u00e7adas pontas de ferro foram tiradas de um<br \/>\n<br \/>grande arm\u00e1rio cheio de p\u00f3.<br \/> Em poucos instantes, J\u00falio e o companheiro,<br \/>\n<br \/>depois de amarrarem o pobre rapaz num tronco r\u00fastico, aplicavam -lhe os<br \/>\n<br \/>instrumentos pontiagudos na ponta dos dedos, provocando -lhe gritos<br \/>\n<br \/>lancinantes.<br \/> O jovem prisioneiro clamava, em v\u00e3o, suas dores atrozes.<br \/> Os<br \/>\n<br \/>verdugos ouviam-no com indiferen\u00e7a.<br \/> Quando o sangue come\u00e7ou a gotejar da<br \/>\n<br \/>unha arrancada violentamente, a v\u00edtima bra dou em altas vozes:<br \/>\n<br \/>\u2014 Por piedade!.<br \/>.<br \/>.<br \/> Confessarei tudo, direi onde ele est\u00e1!.<br \/>.<br \/>.<br \/> Tende compaix\u00e3o<br \/>\n<br \/>de mim!.<br \/>.<br \/>.<\/p>\n<p>Saulo ordenou sustassem a puni\u00e7\u00e3o por momentos, a fim de ouvir as novas<br \/>\n<br \/>declara\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u2014 Senhor! \u2014 acrescentou o infeliz entre l\u00e1grimas Ananias n\u00e3o se encontra<br \/>\n<br \/>mais em Jerusal\u00e9m.<br \/> \u2013 Em nossa \u00faltima reuni\u00e3o, tr\u00eas dias ante s de cairmos<br \/>\n<br \/>no c\u00e1rcere, o velho disc\u00edpulo do Evangelho se despediu, afir mando que ia<br \/>\n<br \/>fixar-se em Damasco.<\/p>\n<p>Aquela voz lamentosa era um eco de profundas amarguras a se<br \/>\n<br \/>represarem num cora\u00e7\u00e3o mo\u00e7o, mas repleto de penosas desilus\u00f5es da vida.<\/p>\n<p>Saulo, entretanto, parecia n\u00e3o ter olhos de ver sofrimentos t\u00e3o comove dores.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 tudo quanto sabes? \u2014 perguntou secamente.<\/p>\n<p>\u2014 Juro-o \u2014 tornou o rapaz humildemente.<\/p>\n<p>Diante daquela afirma\u00e7\u00e3o categ\u00f3rica, transparente no olhar sincero e na<br \/>\n<br \/>inflex\u00e3o da voz comovente e triste, o doutor da Lei deu-se por satisfeito,<br \/>\n<br \/>mandando recolher o prisioneiro ao calabou\u00e7o.<\/p>\n<p>Da\u00ed a dois dias, o mo\u00e7o tarsense convocava uma reu ni\u00e3o no Sin\u00e9drio, \u00e0<br \/>\n<br \/>qual atribu\u00eda singular import\u00e2ncia.<br \/> Os colegas acorreram ao chamado, sem<br \/>\n<br \/>exce\u00e7\u00e3o.<br \/> Abertos os trabalhos, o doutor de Tarso esclareceu o motivo da<br \/>\n<br \/>convoca\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Amigos \u2014 declarou ciosamente \u2014, h\u00e1 tempos nos reunimos para<br \/>\n<br \/>117<br \/>\n<br \/>examinar o car\u00e1ter da luta religiosa que se criara em Jerusal\u00e9m com as<br \/>\n<br \/>atividades dos asseclas do carpinteiro de Nazar\u00e9.<br \/> Felizmente, no ssa<br \/>\n<br \/>interven\u00e7\u00e3o chegou a tempo de evitar grandes males, dada a arg\u00facia dos<br \/>\n<br \/>falsos taumaturgos exportados da Galil\u00e9ia.<br \/> \u00c1 custa de grandes esfor\u00e7os, a<br \/>\n<br \/>atmosfera desanuviou-se.<br \/> \u00c9 verdade que os c\u00e1rceres da cidade transbordam,<br \/>\n<br \/>mas a medida se justifica, porq\u00fc anto \u00e9 indispens\u00e1vel reprimir o instinto<br \/>\n<br \/>revolucion\u00e1rio das massas ignorantes.<\/p>\n<p>A chamada igreja do \u201cCaminho\u201d restringiu suas atividades \u00e0assist\u00eancia aos<br \/>\n<br \/>enfermos desamparados.<br \/> Nossos bairros mais humildes est\u00e3o em paz.<br \/> Voltou<br \/>\n<br \/>a serenidade aos nossos afaze res no Templo.<br \/> Entretanto, n\u00e3o se pode afirmar<br \/>\n<br \/>o mesmo quanto \u00e0s cidades vizinhas.<\/p>\n<p>Minhas consultas \u00e0s autoridades religiosas de Jope e Cesar\u00e9ia d\u00e3o a<br \/>\n<br \/>conhecer os dist\u00farbios que os adeptos do Cristo v\u00eam provocando,<br \/>\n<br \/>acintosamente, com preju\u00edzo s\u00e9rio para a ordem p\u00fablica.<br \/> N\u00e3o somente nesses<br \/>\n<br \/>n\u00facleos precisamos desenvolver a obra saneadora, mas, ainda agora, che gamme<br \/>\n<br \/>not\u00edcias alarmantes de Damasco, a requererem provid\u00eancias imediatas.<\/p>\n<p>Localizam-se ali perigosos elementos.<br \/> Um velho, chamado Ananias, l\u00e1 est\u00e1<br \/>\n<br \/>perturbando a vida de quantos necessitam de paz nas sinago gas.<br \/> N\u00e3o \u00e9 justo<br \/>\n<br \/>que o mais alto tribunal da ra\u00e7a se desinteresse das coletividades israelitas<br \/>\n<br \/>noutros setores.<br \/> Proponho, ent\u00e3o, estendermos o benef\u00edcio dessa cam panha a<br \/>\n<br \/>outras cidades.<br \/> Para esse fim, ofere\u00e7o todos os meus pr\u00e9stimos pessoais, sem<br \/>\n<br \/>\u00f4nus para a casa a que servimos.<br \/> Bastar -me-\u00e1, t\u00e3o-s\u00f3, o necess\u00e1rio<br \/>\n<br \/>documento de habilita\u00e7\u00e3o, a fim de acionar todos os recursos que me pare\u00e7am<br \/>\n<br \/>acertados, inclusive o da pr\u00f3pria pena de morte, quando a julg ue necess\u00e1ria e<br \/>\n<br \/>oportuna.<\/p>\n<p>A proposta de Saulo foi recebida com demonstra\u00e7\u00f5es de simpatia.<br \/> Houve<br \/>\n<br \/>mesmo quem chegasse a propor um voto especial de louvor ao seu zelo<br \/>\n<br \/>vigilante, com aplausos un\u00e2nimes da reduzida assembl\u00e9ia.<br \/> Faltava ao cen\u00e1culo<br \/>\n<br \/>a pondera\u00e7\u00e3o de um Gamaliel, e o sumo-sacerdote, compelido pela aprova\u00e7\u00e3o<br \/>\n<br \/>geral, n\u00e3o hesitou em conceder as cartas indispens\u00e1veis, com ampla<br \/>\n<br \/>autoriza\u00e7\u00e3o para agir discricionariamente.<br \/> Os presentes abra\u00e7aram o jovem ra &#8211;<br \/>\n<br \/>bino com muitos enc\u00f4mios ao seu esp\u00edrito arguto e e n\u00e9rgico.<br \/> Francamente,<br \/>\n<br \/>aquela mentalidade mo\u00e7a e vigorosa constitu\u00eda auspicioso penhor de um futuro<br \/>\n<br \/>maior, com a emancipa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de Israel.<br \/> Alvo das refer\u00eancias lisonjeiras e<br \/>\n<br \/>estimuladoras dos amigos, Saulo de Tarso agu\u00e7ava o orgulho de sua ra\u00e7a,<br \/>\n<br \/>esperan\u00e7oso nos dias do porvir.<br \/> Verdade \u00e9 que sofria amargamente com a<br \/>\n<br \/>derrocada dos sonhos da juventude, mas empregaria a soledade da exist\u00eancia<br \/>\n<br \/>nas lutas que reputava sagradas, ao servi\u00e7o de Deus.<\/p>\n<p>De posse das cartas de habilita\u00e7\u00e3o para agir con venientemente, em<br \/>\n<br \/>coopera\u00e7\u00e3o com as Sinagogas de Damasco, aceitou a companhia de tr\u00eas<br \/>\n<br \/>var\u00f5es respeit\u00e1veis, que se ofereceram a acompanh\u00e1 -lo na qualidade de servidores<br \/>\n<br \/>muito amigos.<\/p>\n<p>Ao fim de tr\u00eas dias, a pequena caravana se deslocou de Jerusal\u00e9m para a<br \/>\n<br \/>extensa plan\u00edcie da S\u00edria.<\/p>\n<p>Na v\u00e9spera da chegada, quase a termo da viagem dif\u00edcil e penosa, o mo\u00e7o<br \/>\n<br \/>tarsense sentia agravarem-se as recorda\u00e7\u00f5es amargas que lhe assomavam<br \/>\n<br \/>constantes.<br \/> For\u00e7as secretas impunham-lhe profundas interroga\u00e7\u00f5es.<br \/> Passava<br \/>\n<br \/>em revista os primeiros sonhos da juventude.<br \/> Sua alma desdobrava -se em<br \/>\n<br \/>perguntas atrozes.<br \/> Desde a adolesc\u00eancia que encarecia a paz interior: tinha<br \/>\n<br \/>sede de estabilidade para realizar a sua carreira.<br \/> Onde en contrar aquela<br \/>\n<br \/>118<br \/>\n<br \/>serenidade, que, t\u00e3o cedo, fora objeto das suas cogita\u00e7\u00f5es mai s \u00edntimas? Os<br \/>\n<br \/>mestres de Israel preconizavam, para isso, a observ\u00e2ncia integral da Lei.<br \/> Mais<br \/>\n<br \/>que tudo, havia ele guardado os seus princ\u00edpios.<br \/> Desde os impulsos iniciais da<br \/>\n<br \/>juventude, abominava o pecado.<br \/> Consagrara -se ao ideal de servir a Deus com<br \/>\n<br \/>todas as suas for\u00e7as.<br \/> N\u00e3o hesitara na execu\u00e7\u00e3o de tudo que considerava<br \/>\n<br \/>dever, ante as a\u00e7\u00f5es mais violentas e rudes.<br \/> Se era incontest\u00e1vel que tinha<br \/>\n<br \/>in\u00fameros admiradores e amigos, tinha igualmente poderosos advers\u00e1 rios,<br \/>\n<br \/>gra\u00e7as ao seu car\u00e1ter inflex\u00edvel no cumprimen to das obriga\u00e7\u00f5es que<br \/>\n<br \/>considerava sagradas.<br \/> Onde, ent\u00e3o, a paz espiritual que tanto almejava nos<br \/>\n<br \/>esfor\u00e7os comuns? Por mais energias que despendesse, via -se como um laborat\u00f3rio<br \/>\n<br \/>de inquieta\u00e7\u00f5es dolorosas e profundas.<br \/> Sua vida assinalava -se por<br \/>\n<br \/>id\u00e9ias poderosas, mas, no seu \u00edntimo, lutava com antagonismos<br \/>\n<br \/>irreconcili\u00e1veis.<br \/> As no\u00e7\u00f5es da Lei de Mois\u00e9s pareciam n\u00e3o lhe bastar \u00e0 sede<br \/>\n<br \/>devoradora.<br \/> Os enigmas do destino empolgavam -lhe a mente.<br \/> O mist\u00e9rio da<br \/>\n<br \/>dor e dos destinos diferenciais crivava -o de enigmas insol\u00faveis e sombrias<br \/>\n<br \/>interroga\u00e7\u00f5es.<br \/> Entretanto, aqueles adeptos do carpinteiro crucificado<br \/>\n<br \/>ostentavam uma serenidade desconhecida! A alega\u00e7\u00e3o de ignor\u00e2ncia dos<br \/>\n<br \/>problemas mais graves da vida n\u00e3o prevalecia no caso, pois Estev\u00e3o era uma<br \/>\n<br \/>intelig\u00eancia poderosa e mostrara, ao morrer, uma paz impressionante,<br \/>\n<br \/>acompanhada de valores espirituais que infundiam assombro.<\/p>\n<p>Por mais que os companheiros lhe chamassem a aten\u00e7\u00e3o para os<br \/>\n<br \/>primeiros quadros de Damasco, que se desenhavam ao longe, Saulo n\u00e3o<br \/>\n<br \/>conseguia forrar-se ao solil\u00f3quio sombrio.<\/p>\n<p>Parecia n\u00e3o ver os camelos resigna dos, que se arrastavam pesadamente<br \/>\n<br \/>sob o sol de brasas, a pino, do meio -dia.<br \/> Embalde foi convidado \u00e0 refei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Detendo-se por minutos num pequeno o\u00e1sis delicioso, esperou que terminasse<br \/>\n<br \/>o leve repasto dos companheiros e prosseguiu na marcha, absorvido pela<br \/>\n<br \/>intensidade dos pensamentos \u00edntimos.<\/p>\n<p>Ele pr\u00f3prio n\u00e3o saberia explicar o que se passava.<br \/> Suas reminisc\u00eancias<br \/>\n<br \/>atingiam os per\u00edodos da primeira inf\u00e2ncia.<br \/> Todo o seu passado laborioso<br \/>\n<br \/>aclarava-se, nitidamente, naquele exame introspectivo.<br \/> Dentre todas as figuras<br \/>\n<br \/>familiares, a lembran\u00e7a de Estev\u00e3o e de Abigail destacava -se, como a solicit\u00e1lo<br \/>\n<br \/>para mais fortes interroga\u00e7\u00f5es.<br \/> Por que haviam adquirido, os dois irm\u00e3os de<br \/>\n<br \/>Corinto, tal ascend\u00eancia em todos os pr oblemas do seu ego? Por que esperava<br \/>\n<br \/>Abigail atrav\u00e9s de todas as estra das da mocidade, na idealiza\u00e7\u00e3o de uma vida<br \/>\n<br \/>pura? Recordava os amigos mais eminentes, e em nenhum deles encontrou<br \/>\n<br \/>qualidades morais semelhantes \u00e0s daquele jo vem pregador do \u201cCaminho\u201d, que<br \/>\n<br \/>afrontara a sua autoridade pol\u00edtico-religiosa, diante de Jerusal\u00e9m em peso,<br \/>\n<br \/>desdenhando a humilha\u00e7\u00e3o e a morte, para morrer depois, aben\u00e7oando -lhe as<br \/>\n<br \/>resolu\u00e7\u00f5es in\u00edquas e implac\u00e1veis.<br \/> Que for\u00e7a os unira nos labirintos do mundo,<br \/>\n<br \/>para que o seu cora\u00e7\u00e3o nunca mais os esquecesse? A verdade dolorosa \u00e9 que<br \/>\n<br \/>se encontrava sem paz interior, n\u00e3o obstante a conquista e gozo de todas as<br \/>\n<br \/>prerrogativas e privil\u00e9gios, entre os vultos mais destacados da sua ra\u00e7a.<\/p>\n<p>Enfileirava, no pensamento, as jovens que havia conhec ido no transcurso da<br \/>\n<br \/>vida, as afei\u00e7oadas da inf\u00e2ncia, e em nenhuma podia encontrar as mesmas<br \/>\n<br \/>caracter\u00edsticas de Abigail, que lhe adivinhava os mais rec\u00f4nditos desejos.<\/p>\n<p>Atormentado pelas indaga\u00e7\u00f5es profundas que lhe assoberbavam a mente,<br \/>\n<br \/>pareceu despertar de um grande pesadelo.<br \/> Devia ser meio -dia.<br \/> Muito distante<br \/>\n<br \/>ainda, a paisagem de Damasco apresentava os seus contornos: pomares<br \/>\n<br \/>espessos, c\u00fapulas cinzentas que se esbo\u00e7avam ao longe.<br \/> Bem montado,<br \/>\n<br \/>119<br \/>\n<br \/>evidenciando o aprumo de um homem habituado aos prazeres do esporte,<br \/>\n<br \/>Saulo ia \u00e0 frente, em atitude dominadora.<\/p>\n<p>Em dado instante, todavia, quando mal despertara das angustiosas<br \/>\n<br \/>cogita\u00e7\u00f5es, sente-se envolvido por luzes diferentes da tonalidade solar.<br \/> Tem a<br \/>\n<br \/>impress\u00e3o de que o ar se fende como uma cortina, sob press\u00e3o invis\u00edvel e<br \/>\n<br \/>poderosa.<br \/> \u00cdntimamente, considera -se presa de inesperada vertigem ap\u00f3s o<br \/>\n<br \/>esfor\u00e7o mental, persistente e doloroso.<br \/> Quer voltar -se, pedir o socorro dos<br \/>\n<br \/>companheiros, mas n\u00e3o os v\u00ea, apesar da possibilidade de suplicar o aux\u00edlio.<\/p>\n<p>\u2014Jacob!.<br \/>.<br \/>.<br \/> Dem\u00e9trio!.<br \/>.<br \/>.<br \/> Socorram-me!.<br \/>.<br \/>.<br \/> \u2014 grita desesperadamente.<\/p>\n<p>Mas a confus\u00e3o dos sentidos lhe tira a no\u00e7\u00e3o de equil\u00edbrio e tomba do<br \/>\n<br \/>animal, ao desamparo, sobre a areia ardente.<br \/> A vis\u00e3o, no entanto, parece<br \/>\n<br \/>dilatar-se ao infinito.<br \/> Outra luz lhe banha os olhos deslumbrados , e no caminho,<br \/>\n<br \/>que a atmosfera rasgada lhe desvenda, v\u00ea surgir a figura de um homem de<br \/>\n<br \/>majest\u00e1tica beleza, dando-lhe a impress\u00e3o de que descia do c\u00e9u ao seu<br \/>\n<br \/>encontro.<br \/> Sua t\u00fanica era feita de pontos luminosos, os cabelos tocavam nos<br \/>\n<br \/>ombros, \u00e0 nazarena, os olhos magn\u00e9ticos, imanados de simpatia e de amor,<br \/>\n<br \/>iluminando a fisionomia grave e terna, onde pairava uma divina tristeza.<\/p>\n<p>O doutor de Tarso contemplava-o com espanto profundo, e foi quando,<br \/>\n<br \/>numa inflex\u00e3o de voz inesquec\u00edvel, o desconhecido se fez ouvir:<br \/>\n<br \/>\u2014Saulo!.<br \/>.<br \/>.<br \/> Saulo!.<br \/>.<br \/>.<br \/> por que me persegues?<br \/>\n<br \/>O mo\u00e7o tarsense n\u00e3o sabia que estava instintiva -mente de joelhos.<br \/> Sem<br \/>\n<br \/>poder definir o que se passava, comprimiu o cora\u00e7\u00e3o numa atitude<br \/>\n<br \/>desesperada.<br \/> Incoerc\u00edvel sentimento de venera\u00e7\u00e3o apossou -se inteiramente<br \/>\n<br \/>dele.<br \/> Que significava aquilo? De quem o vulto divino que entrevia no painel do<br \/>\n<br \/>firmamento aberto e cuja presen\u00e7a lhe inundava o cora\u00e7\u00e3o prec\u00edpite de<br \/>\n<br \/>emo\u00e7\u00f5es desconhecidas?<br \/>\n<br \/>Enquanto os companheiros cercavam o jovem ge nuflexo, sem nada<br \/>\n<br \/>ouvirem nem verem, n\u00e3o obstante haverem percebido, a princ\u00edpio, uma grande<br \/>\n<br \/>luz no alto, Saulo interrogava em voz tr\u00eamula e receosa:<br \/>\n<br \/>\u2014 Quem sois v\u00f3s, Senhor?<br \/>\n<br \/>Aureolado de uma luz bals\u00e2mica e num tom de in conceb\u00edvel do\u00e7ura, o<br \/>\n<br \/>Senhor respondeu:<br \/>\n<br \/>\u2014 Eu sou Jesus!.<br \/>.<br \/>.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, viu-se o orgulhoso e inflex\u00edvel doutor da Lei curvar -se para o solo,<br \/>\n<br \/>em pranto convulsivo.<br \/> Dir-se-ia que o apaixonado rabino de Jerusal\u00e9m fora<br \/>\n<br \/>ferido de morte, experimentando num momento a derrocada de todos os<br \/>\n<br \/>princ\u00edpios que lhe conformaram o esp\u00edrito e o norteara m, at\u00e9 ent\u00e3o, na vida.<\/p>\n<p>Diante dos olhos tinha, agora, e assim, aquele Cristo magn\u00e2nimo e<br \/>\n<br \/>incompreendido! Os pregadores do \u201cCaminho\u201d n\u00e3o estavam iludidos! A palavra<br \/>\n<br \/>de Estev\u00e3o era a verdade pura! A cren\u00e7a de Abigail era a senda real.<br \/> Aquele<br \/>\n<br \/>era o Messias! A hist\u00f3ria maravilhosa da sua ressurrei\u00e7\u00e3o n\u00e3o era um recurso<br \/>\n<br \/>lend\u00e1rio para fortificar as energias do povo.<br \/> Sim, ele, Saulo, via -o ali no<br \/>\n<br \/>esplendor de suas gl\u00f3rias divinas!<br \/>\n<br \/>E que amor deveria animar -lhe o cora\u00e7\u00e3o cheio de augusta miseric\u00f3rdia,<br \/>\n<br \/>para vir encontr\u00e1-lo nas estradas desertas, a ele, Saulo, que se arvorara em<br \/>\n<br \/>perseguidor implac\u00e1vel dos disc\u00edpulos mais fi\u00e9is!.<br \/> .<br \/>.<br \/> Na express\u00e3o de<br \/>\n<br \/>sinceridade da sua alma ardente, considerou tudo isso na fugacidade de um<br \/>\n<br \/>minuto.<br \/> Experimentou invenc\u00edvel vergonha do seu passado cruel.<br \/> Uma torrente<br \/>\n<br \/>de l\u00e1grimas impetuosas lavava -lhe o cora\u00e7\u00e3o.<br \/> Quis falar, penitenciar -se, clamar<br \/>\n<br \/>suas infindas desilus\u00f5es, protestar fidelidade e dedica\u00e7\u00e3o ao Messias de<br \/>\n<br \/>120<br \/>\n<br \/>Nazar\u00e9, mas a contri\u00e7\u00e3o sincera do esp\u00ed rito arrependido e dilacerado<br \/>\n<br \/>embargava-lhe a voz.<\/p>\n<p>Foi quando notou que Jesus se aproximava e, contem plando-o<br \/>\n<br \/>carinhosamente, o Mestre tocou-lhe os ombros com ternura, dizendo com<br \/>\n<br \/>inflex\u00e3o paternal:<br \/>\n<br \/>\u2014N\u00e3o recalcitres contra os aguilh\u00f5es!.<br \/>.<br \/>.<\/p>\n<p>Saulo compreendeu.<br \/> Desde o primeiro encontro com Estev\u00e3o, for\u00e7as<br \/>\n<br \/>profundas o compeliam a cada momento, e em qualquer parte, \u00e0 medita\u00e7\u00e3o<br \/>\n<br \/>dos novos ensinamentos.<br \/> O Cristo chamara-o por todos os meios e de todos os<br \/>\n<br \/>modos.<\/p>\n<p>Sem que pudessem entender a grandeza divina da quele instante, os<br \/>\n<br \/>companheiros de viagem viram-no chorar mais copiosamente.<\/p>\n<p>O mo\u00e7o de Tarso solu\u00e7ava.<br \/> Ante a express\u00e3o doce e persuasiva do<br \/>\n<br \/>Messias Nazareno, considerava o tempo perdido em caminhos escabrosos e<br \/>\n<br \/>ingratos.<br \/> Doravante necessitava reformar o patrim\u00f4nio dos pensamentos mais<br \/>\n<br \/>\u00edntimos; a Vis\u00e3o de Jesus ressuscitado, aos seus olhos mortais, renovava -lhe<br \/>\n<br \/>integralmente as concep\u00e7\u00f5es reli giosas.<br \/> Certo, o Salvador apiedara -se do seu<br \/>\n<br \/>cora\u00e7\u00e3o leal e sincero, consagrado ao servi\u00e7o da Lei, e descera da sua gl\u00f3ria<br \/>\n<br \/>estendendo-lhe as m\u00e3os divinas.<br \/> Ele, Saulo, era a ovelha perdida no<br \/>\n<br \/>resvaladouro das teorias escal dantes e destruidoras.<br \/> Jesus era o Pastor amigo<br \/>\n<br \/>que se dignava fechar os olhos para os espinheirOS ingratos, a fim de salv\u00e1 -lo<br \/>\n<br \/>carinhosamente.<br \/> Num \u00e1pice, o jovem rabino considerou a ext ens\u00e3o daquele<br \/>\n<br \/>gesto de amor.<br \/> As l\u00e1grimas brotaram-lhe do cora\u00e7\u00e3o amargurado, como a linfa<br \/>\n<br \/>pura, de uma fonte desconhecida.<br \/> Ali mesmo, no santu\u00e1rio augusto do esp\u00edrito,<br \/>\n<br \/>fez o protesto de entregar-se a Jesus para sempre.<br \/> Recordou, de s\u00fabito, as<br \/>\n<br \/>prova\u00e7\u00f5es r\u00edgidas e dolorosas.<br \/> A id\u00e9ia de um lar morrera com Abigail.<br \/> Sentia -se<br \/>\n<br \/>s\u00f3 e acabrunhado.<br \/> Doravante, por\u00e9m, entregar -se-ia ao Cristo, como simples<br \/>\n<br \/>escravo do seu amor.<\/p>\n<p>E tudo envidaria para provar -lhe que sabia compreender o seu sacrif\u00edcio,<br \/>\n<br \/>amparando-o na senda escura das iniq\u00fcidades humanas, naquele instante<br \/>\n<br \/>decisivo do seu destino.<br \/> Banhado em pranto, como nunca lhe acontecera na<br \/>\n<br \/>vida, fez, ali mesmo, sob o olhar assombrado dos companheiros e ao calor<br \/>\n<br \/>escaldante do meio-dia, a sua primeira profiss\u00e3o de f\u00e9.<\/p>\n<p>\u2014 Senhor, que quereis que eu fa\u00e7a?<br \/>\n<br \/>Aquela alma resoluta, mesmo no transe de uma capitula\u00e7\u00e3O incondicional,<br \/>\n<br \/>humilhada e ferida em seus princ\u00edpios mais estim\u00e1veiS, dava mostras de sua<br \/>\n<br \/>nobreza e lealdade.<\/p>\n<p>Encontrando a revela\u00e7\u00e3o maior, em face do amor que Jesus lhe<br \/>\n<br \/>demonstraVa sol\u00edcito, Saulo de Tarso n\u00e3o escolhe tarefas para servi -lo, na<br \/>\n<br \/>renova\u00e7\u00e3o de seus esfor\u00e7os de homem.<\/p>\n<p>Entregando-se-lhe de alma e corpo, como se fora \u00ednfimo servo, interroga<br \/>\n<br \/>com humildade o que desejava o Mestre da sua coop era\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Foi a\u00ed que Jesus, contemplando -o mais amorosamente e dando-lhe a<br \/>\n<br \/>entender a necessidade de os homens se harmonizarem no trabalho comum<br \/>\n<br \/>da edifica\u00e7\u00e3o de todos, no amor universal, em seu nome, esclareceu gene &#8211;<br \/>\n<br \/>rosamente:<br \/>\n<br \/>\u2014Levanta-te, Saulo! Entra na cidade e l\u00e1 te ser\u00e1 dito o que te conv\u00e9m<br \/>\n<br \/>fazer!.<br \/>.<br \/>.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, o mo\u00e7o tarsense n\u00e3o mais percebeu o vulto amor\u00e1vel, guardando a<br \/>\n<br \/>impress\u00e3o de estar mergulhado num mar de sombras.<br \/> Prosternado, continuava<br \/>\n<br \/>121<br \/>\n<br \/>chorando, causando piedade aos companheiros.<br \/> Esfregou os ol hos como se<br \/>\n<br \/>desejasse rasgar o v\u00e9u que lhe obscurecia a vista mas s\u00f3 conseguia tatear no<br \/>\n<br \/>seio das trevas densas.<br \/> Aos poucos, come\u00e7ou a perceber a presen\u00e7a dos<br \/>\n<br \/>amigos, que pareciam comentar a situa\u00e7\u00e3o:<br \/>\n<br \/>\u2014Afinal, Jacob \u2014 dizia um deles, evidenciando grande p reocupa\u00e7\u00e3o \u2014,<br \/>\n<br \/>que faremos agora?<br \/>\n<br \/>\u2014Acho bom \u2014 respondia o interpelado \u2014 enviarmos Jonas a Damasco,<br \/>\n<br \/>requisitando provid\u00eancias imediatas.<\/p>\n<p>\u2014Mas, que se teria passado? \u2014 perguntava o velho respeit\u00e1vel que<br \/>\n<br \/>respondia por Jonas.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o sei bem \u2014 esclarecia Jacob impressionado \u2014, a princ\u00edpio, notei<br \/>\n<br \/>intensa luz nos c\u00e9us e, logo em seguida, ouvi que ele pedia socorro.<br \/> Nem tive<br \/>\n<br \/>tempo de atender, porque, no mesmo instante, ele caiu do ani mal, sem poder<br \/>\n<br \/>esperar qualquer recurso.<\/p>\n<p>\u2014O que me preocupa \u2014 ponderava Dem\u00e9trio \u2014 \u00e9 esse di\u00e1logo com as<br \/>\n<br \/>sombras.<br \/> Com quem conversar\u00e1 ele? Se lhe escutamos a voz e n\u00e3o vemos<br \/>\n<br \/>ningu\u00e9m, que se passar\u00e1 aqui, nesta hora, sem que possamos com preender?<br \/>\n<br \/>\u2014 Mas n\u00e3o percebes que o chefe est\u00e1 em del\u00edrio? \u2014-objetou Jacob<br \/>\n<br \/>prudentemente \u2014 as grandes viagens, com o sol causticante, costumam abater<br \/>\n<br \/>as organiza\u00e7\u00f5es mais resistentes.<br \/> Al\u00e9m disso, como vimos, desde a manh\u00e3,<br \/>\n<br \/>ele parece acabrunhado e doente.<br \/> N\u00e3o se alimentou, en fraqueceu-se com o<br \/>\n<br \/>esfor\u00e7o destes dias t\u00e3o longos, que vimos atravessando, desde Jerusal\u00e9m,<br \/>\n<br \/>com grande sacrif\u00edcio.<br \/> A meu ver \u2014 conclu\u00eda abanando a cabe\u00e7a entristecido<br \/>\n<br \/>\u2014 trata-se de um desses casos de febres que atacam repentinamente no<br \/>\n<br \/>deserto.<br \/>.<br \/>.<\/p>\n<p>O velho Jonas, no entanto, de olhos arregalados, fixava o rabino solu \u00e7ante,<br \/>\n<br \/>com grande admira\u00e7\u00e3o.<br \/> Depois de ouvir a opini\u00e3o dos companheiros, falou,<br \/>\n<br \/>receoso, como se temesse ofender alguma entidade desconhecida:<br \/>\n<br \/>\u2014Tenho grande experi\u00eancia destas marchas com o sol a pino.<br \/> Gastei a<br \/>\n<br \/>mocidade conduzindo camelos atrav\u00e9s dos des ertos da Ar\u00e1bia.<br \/> Mas, nunca vi<br \/>\n<br \/>um doente, nesses lugares, com estas caracter\u00edsticas \u2014 a febre dos que caem<br \/>\n<br \/>extenuados no caminho n\u00e3o se manifesta com del\u00edrio e com l\u00e1grimas.<br \/> O<br \/>\n<br \/>enfermo cai abatido, sem rea\u00e7\u00f5es.<br \/> Aqui, por\u00e9m, observamos o patr\u00e3o como se<br \/>\n<br \/>estivesse a conversar com um homem invis\u00edvel para n\u00f3s.<\/p>\n<p>Reluto em aceitar essa hip\u00f3tese, mas estou desconfiado de que, em tudo<br \/>\n<br \/>isso, haja sinal dos sortil\u00e9gios do \u201cCaminho\u201d Os seguidores do carpinteiro<br \/>\n<br \/>sabem processos m\u00e1gicos que estamos longe de compreender.<br \/> N\u00e3o ignoramos<br \/>\n<br \/>que o doutor se consagrou \u00e0 tarefa de persegui -los onde se encontrem.<\/p>\n<p>Quem sabe planejaram contra ele alguma, vingan\u00e7a cruel?<br \/>\n<br \/>Ofereci-me para vir a Damasco, a fim de fugir dos meus parentes, que<br \/>\n<br \/>parecem seduzidos por essas doutrinas novas.<br \/> O nde j\u00e1 se viu curar a cegueira<br \/>\n<br \/>de algu\u00e9m com a simples imposi\u00e7\u00e3o das m\u00e3os? Entretanto, meu irm\u00e3o curou &#8211;<br \/>\n<br \/>se com o famoso Sim\u00e3o Pedro.<br \/> S\u00f3 a feiti\u00e7aria, a meu ver, esclarecer\u00e1 essas<br \/>\n<br \/>coisas.<br \/> Vendo tantos fatos misteriosos, em minha pr\u00f3 pria casa, tive medo de<br \/>\n<br \/>Satan\u00e1s e fugi.<\/p>\n<p>Recolhido em si pr\u00f3prio, surpreendido no meio das trevas densas que o<br \/>\n<br \/>envolviam, Saulo escutou os comen t\u00e1rios dos amigos, experimentando grande<br \/>\n<br \/>abatimento, como se voltasse exausto e cego, de uma imensa derrota.<\/p>\n<p>Limpando as l\u00e1grimas, chamo u um deles com profunda humildade.<\/p>\n<p>Acudiram todos solicitamente.<\/p>\n<p>122<br \/>\n<br \/>\u2014 Que aconteceu? \u2014 perguntou Jacob preocupado e ansioso.<br \/> \u2014<br \/>\n<br \/>Estamos aflitos por vossa causa.<br \/> Estais doente, senhor ?.<br \/>.<br \/>.<br \/> Providenciaremos o<br \/>\n<br \/>que julgardes necess\u00e1rio.<br \/>.<br \/>.<\/p>\n<p>Saulo fez um gesto triste e acrescentou:<br \/>\n<br \/>\u2014Estou cego.<\/p>\n<p>\u2014Mas que foi? \u2014 pergunto\u00fa o outro inquieto.<\/p>\n<p>\u2014Eu vi Jesus Nazareno! \u2014 disse contrito, inteiramente modificado.<\/p>\n<p>Jonas fez um sinal significativo, como a afirmar aos companheiros que<br \/>\n<br \/>tinha raz\u00e3o, entreolhando-se todos muito admirados.<br \/> Entenderam, de modo<br \/>\n<br \/>instintivo, que o jovem rabino se havia perturbado.<br \/> Jacob, que era pes soa de<br \/>\n<br \/>sua intimidade, tomou a iniciativa das primeiras provid\u00eancias e acentuou:<br \/>\n<br \/>Senhor, lamentamos vossa enfermidade.<br \/> Precisa mos resolver quanto ao<br \/>\n<br \/>destino da caravana.<\/p>\n<p>O doutor de Tarso, entretanto, revelando uma humil dade que jamais se<br \/>\n<br \/>coadunara com o seu feitio domina dor, deixou cair uma l\u00e1grima e respondeu<br \/>\n<br \/>com profunda tristeza:<br \/>\n<br \/>\u2014Jacob, n\u00e3o te preocupes comigo.<br \/>.<br \/>.<br \/> Relativamente ao que me cumpre<br \/>\n<br \/>fazer, preciso chegar a Damasco, sem demora.<br \/> Quanto a voc\u00eas.<br \/>.<br \/>.<br \/> \u2014 e a voz<br \/>\n<br \/>reticenciosa quebrantara-se dolorosamente, como premida de grande an g\u00fastia,<br \/>\n<br \/>para concluir em tom amargo \u2014, fa\u00e7am como quiserem, pois, at\u00e9 agora, voc\u00eas<br \/>\n<br \/>eram meus servos, mas, de ora em d iante, eu tamb\u00e9m sou escravo, n\u00e3o mais<br \/>\n<br \/>me perten\u00e7o a mim mesmo.<\/p>\n<p>Ante aquela voz humilde e triste, Jacob come\u00e7ou a chorar.<br \/> Tinha plena<br \/>\n<br \/>convic\u00e7\u00e3o de que Saulo enlouquecera.<br \/> Chamou os dois companheiros \u00e0 parte<br \/>\n<br \/>e explicou:<br \/>\n<br \/>\u2014Voc\u00eas voltar\u00e3o para Jerusal\u00e9m com a triste nova, enquanto me dirijo \u00e0<br \/>\n<br \/>cidade pr\u00f3xima, com o doutor, a providenciar da melhor forma.<br \/> Lev\u00e1 -lo-ei aos<br \/>\n<br \/>seus amigos e buscaremos o socorro de algum m\u00e9dico.<br \/>.<br \/>.<br \/> Noto -o extremamente<br \/>\n<br \/>perturbado.<br \/>.<br \/>.<\/p>\n<p>O jovem rabino cientificou-se das delibera\u00e7\u00f5es quase sem surpresa.<\/p>\n<p>Conformou-se passivamente com a resolu\u00e7\u00e3o do servo.<br \/> Naquela hora,<br \/>\n<br \/>submerso em trevas densas e profundas, tinha a imagina\u00e7\u00e3o repleta de<br \/>\n<br \/>conjeturas transcendentes.<br \/> A cegueira s\u00fabita n\u00e3o o afligia.<br \/> Do \u00e2mbito daquela<br \/>\n<br \/>escurid\u00e3o que lhe enchia os olhos da carne, parecia emergir o vulto radioso de<br \/>\n<br \/>Jesus, aos seus olhos de Esp\u00edrito.<br \/> Era justo que cessassem as suas per &#8211;<br \/>\n<br \/>cep\u00e7\u00f5es visuais, a fim de conservar, para sempre, a lem bran\u00e7a do glorioso<br \/>\n<br \/>minuto de sua transforma\u00e7\u00e3o para uma vida mais subli me.<\/p>\n<p>Saulo recebeu as observa\u00e7\u00f5es de Jacob, com a humil dade de uma crian\u00e7a.<\/p>\n<p>Sem uma queixa, sem resist\u00eancia, ouviu o trotar da caravana que regressava,<br \/>\n<br \/>enquanto o velho servidor lhe oferecia o bra\u00e7o amigo, tomado de infinitos<br \/>\n<br \/>receios.<\/p>\n<p>Com o pranto a escorrer dos olhos inexpressivos,<br \/>\n<br \/>como perdidos nalguma vis\u00e3o indevass\u00e1vel no v\u00e1cuo, o<br \/>\n<br \/>orgulhoso doutor de Tarso, guiado por Jacob, seguiu a p\u00e9, sob o sol ardente<br \/>\n<br \/>das primeiras horas da tarde.<\/p>\n<p>Comovido pelas b\u00ean\u00e7\u00e3os que recebera das esferas mais elevadas da vida ,<br \/>\n<br \/>Saulo chorava como nunca.<br \/> Es tava cego e separado dos seus.<br \/> Dolorosas<br \/>\n<br \/>ang\u00fastias represavam-se-lhe no cora\u00e7\u00e3o opresso.<br \/> Mas a vis\u00e3o do Cristo<br \/>\n<br \/>redivivo, sua palavra inesquec\u00edvel, sua express\u00e3o de amor lhe estavam<br \/>\n<br \/>presentes na alma transformada.<br \/> Jesus era o Senhor, inacess\u00edvel \u00e0 morte.<\/p>\n<p>123<br \/>\n<br \/>Ele orientaria os seus passos no caminho, dar -lhe-ia novas ordens, secaria<br \/>\n<br \/>as chagas da vaidade e do orgulho que lhe corro\u00edam o cora\u00e7\u00e3o; sobretudo,<br \/>\n<br \/>conceder-lhe-ia for\u00e7as para reparar os erros dos seus dias de ilus\u00e3o.<\/p>\n<p>Impressionado e triste, Jacob guiava o chefe amigo, perguntando a si<br \/>\n<br \/>pr\u00f3prio a raz\u00e3o daquele pranto inces sante e silencioso.<\/p>\n<p>Envolvido na sombra da cegueira tempor\u00e1ria, Saulo n\u00e3o percebeu que os<br \/>\n<br \/>mantos espessos do crep\u00fasculo abra\u00e7avam a Natureza.<br \/> Nuvens escuras<br \/>\n<br \/>precipitavam a queda da noite, enquanto ventos sufocantes sopravam da<br \/>\n<br \/>imensa plan\u00edcie.<br \/> Dificilmente, acompanhava as pas sadas de Jacob, que<br \/>\n<br \/>desejava apressar a marcha, receoso da chuva.<br \/> Cora\u00e7\u00e3o resoluto e en\u00e9rgico,<br \/>\n<br \/>n\u00e3o reparava os obst\u00e1culos que se antepun ham \u00e0 sua jornada dolorosa.<\/p>\n<p>Faltava-lhe a vis\u00e3o, necessitava de um guia; mas Jesus recomendara que<br \/>\n<br \/>entrasse na cidade, onde lhe seria dito o que tinha a fazer.<br \/> Era preciso<br \/>\n<br \/>obedecer ao Salvador que o honrara com as supremas revela\u00e7\u00f5es da vida.<br \/> A<br \/>\n<br \/>passos indecisos, ferindo os p\u00e9s em cada movimento inseguro, caminharia de<br \/>\n<br \/>qualquer modo para executar as ordens divinas.<br \/> Era indispens\u00e1vel n\u00e3o<br \/>\n<br \/>observar as dificuldades, era imprescind\u00edvel n\u00e3o esquecer os fins.<br \/> Que<br \/>\n<br \/>importava o olhar em trevas, o regresso da caravana a Jerusal\u00e9m, a penosa<br \/>\n<br \/>caminhada a p\u00e9 em demanda de Damasco, a falsa suposi\u00e7\u00e3o dos<br \/>\n<br \/>companheiros a respeito da inolvid\u00e1vel ocorr\u00eancia, a perda dos t\u00edtulos<br \/>\n<br \/>honor\u00edficos, o rep\u00fadio dos sacerdotes seus amigos, a incompreens\u00e3o do<br \/>\n<br \/>mundo inteiro, diante do fato culminante do seu destino?<br \/>\n<br \/>Saulo de Tarso, com a profunda sinceridade que lhe caracterizava as<br \/>\n<br \/>m\u00ednimas a\u00e7\u00f5es, s\u00f3 queria saber que Deus havia mudado de resolu\u00e7\u00e3o a seu<br \/>\n<br \/>respeito.<br \/> Ser-lhe-ia fiel at\u00e9 ao fim.<\/p>\n<p>Quando as sombras crepusculares se faziam mais densas, dois homens<br \/>\n<br \/>desconhecidos entravam nos sub\u00far bios da cidade.<br \/> Embora a ventania<br \/>\n<br \/>afastasse as nuvens tempestuosas na dire\u00e7\u00e3o do deserto, grossos pingos de<br \/>\n<br \/>chuva ca\u00edam, aqui e ali, sobre a poeira ardente das ruas.<\/p>\n<p>As janelas das casas residenciais fechavam-se com estr\u00e9pito.<\/p>\n<p>Damasco podia recordar o jovem tarsense, formoso e triunfador.<br \/> Conhecia &#8211;<br \/>\n<br \/>o nas suas festas mais brilhantes, costumava aplaudi -lo nas sinagogas.<br \/> Mas,<br \/>\n<br \/>vendo passar na via p\u00fablica aqueles dois homens cansados e tristes, jamais<br \/>\n<br \/>poderia identific\u00e1-lo naquele rapaz que caminhava cambaleante, de olhos<br \/>\n<br \/>mortos.<br \/>.<br \/>.<\/p>\n<div class=\"pvc_clear\"><\/div>\n<p id=\"pvc_stats_18812\" class=\"pvc_stats all  \" data-element-id=\"18812\" style=\"\"><i class=\"pvc-stats-icon medium\" aria-hidden=\"true\"><svg aria-hidden=\"true\" focusable=\"false\" data-prefix=\"far\" data-icon=\"chart-bar\" role=\"img\" xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" viewBox=\"0 0 512 512\" class=\"svg-inline--fa fa-chart-bar fa-w-16 fa-2x\"><path fill=\"currentColor\" d=\"M396.8 352h22.4c6.4 0 12.8-6.4 12.8-12.8V108.8c0-6.4-6.4-12.8-12.8-12.8h-22.4c-6.4 0-12.8 6.4-12.8 12.8v230.4c0 6.4 6.4 12.8 12.8 12.8zm-192 0h22.4c6.4 0 12.8-6.4 12.8-12.8V140.8c0-6.4-6.4-12.8-12.8-12.8h-22.4c-6.4 0-12.8 6.4-12.8 12.8v198.4c0 6.4 6.4 12.8 12.8 12.8zm96 0h22.4c6.4 0 12.8-6.4 12.8-12.8V204.8c0-6.4-6.4-12.8-12.8-12.8h-22.4c-6.4 0-12.8 6.4-12.8 12.8v134.4c0 6.4 6.4 12.8 12.8 12.8zM496 400H48V80c0-8.84-7.16-16-16-16H16C7.16 64 0 71.16 0 80v336c0 17.67 14.33 32 32 32h464c8.84 0 16-7.16 16-16v-16c0-8.84-7.16-16-16-16zm-387.2-48h22.4c6.4 0 12.8-6.4 12.8-12.8v-70.4c0-6.4-6.4-12.8-12.8-12.8h-22.4c-6.4 0-12.8 6.4-12.8 12.8v70.4c0 6.4 6.4 12.8 12.8 12.8z\" class=\"\"><\/path><\/svg><\/i> <img decoding=\"async\" width=\"16\" height=\"16\" alt=\"Loading\" data-src=\"https:\/\/www.centronocaminhodaluz.com.br\/wp-content\/plugins\/page-views-count\/ajax-loader-2x.gif\" border=0 src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" class=\"lazyload\" style=\"--smush-placeholder-width: 16px; --smush-placeholder-aspect-ratio: 16\/16;\" \/><\/p>\n<div class=\"pvc_clear\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Durante tr\u00eas dias, Saulo deixou-se ficar em companhia dos amigos generosos, recordando a noiva ines quec\u00edvel. Profundamente abatido, procurava rem\u00e9dio para as m\u00e1goas \u00edntimas, na contempla\u00e7\u00e3o da paisagem que Abigail tanto amara. Como triste consolo ao cora\u00e7\u00e3o deses perado, buscava inteirar-se das preocupa\u00e7\u00f5es da morta nos \u00faltimos tempos e, de olhos \u00famidos, ouvia as refer\u00eancias&hellip; <br \/> <a class=\"read-more\" href=\"https:\/\/www.centronocaminhodaluz.com.br\/index.php\/artigo18812\/\">Leia mais<\/a><\/p>\n<div class=\"pvc_clear\"><\/div>\n<p id=\"pvc_stats_18812\" class=\"pvc_stats all  \" data-element-id=\"18812\" style=\"\"><i class=\"pvc-stats-icon medium\" aria-hidden=\"true\"><svg aria-hidden=\"true\" focusable=\"false\" data-prefix=\"far\" data-icon=\"chart-bar\" role=\"img\" xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" viewBox=\"0 0 512 512\" class=\"svg-inline--fa fa-chart-bar fa-w-16 fa-2x\"><path fill=\"currentColor\" d=\"M396.8 352h22.4c6.4 0 12.8-6.4 12.8-12.8V108.8c0-6.4-6.4-12.8-12.8-12.8h-22.4c-6.4 0-12.8 6.4-12.8 12.8v230.4c0 6.4 6.4 12.8 12.8 12.8zm-192 0h22.4c6.4 0 12.8-6.4 12.8-12.8V140.8c0-6.4-6.4-12.8-12.8-12.8h-22.4c-6.4 0-12.8 6.4-12.8 12.8v198.4c0 6.4 6.4 12.8 12.8 12.8zm96 0h22.4c6.4 0 12.8-6.4 12.8-12.8V204.8c0-6.4-6.4-12.8-12.8-12.8h-22.4c-6.4 0-12.8 6.4-12.8 12.8v134.4c0 6.4 6.4 12.8 12.8 12.8zM496 400H48V80c0-8.84-7.16-16-16-16H16C7.16 64 0 71.16 0 80v336c0 17.67 14.33 32 32 32h464c8.84 0 16-7.16 16-16v-16c0-8.84-7.16-16-16-16zm-387.2-48h22.4c6.4 0 12.8-6.4 12.8-12.8v-70.4c0-6.4-6.4-12.8-12.8-12.8h-22.4c-6.4 0-12.8 6.4-12.8 12.8v70.4c0 6.4 6.4 12.8 12.8 12.8z\" class=\"\"><\/path><\/svg><\/i> <img decoding=\"async\" width=\"16\" height=\"16\" alt=\"Loading\" data-src=\"https:\/\/www.centronocaminhodaluz.com.br\/wp-content\/plugins\/page-views-count\/ajax-loader-2x.gif\" border=0 src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" class=\"lazyload\" style=\"--smush-placeholder-width: 16px; --smush-placeholder-aspect-ratio: 16\/16;\" \/><\/p>\n<div class=\"pvc_clear\"><\/div>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[16],"tags":[],"class_list":["post-18812","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-mensagens-diversas"],"a3_pvc":{"activated":true,"total_views":364,"today_views":0},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.centronocaminhodaluz.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18812","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.centronocaminhodaluz.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.centronocaminhodaluz.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.centronocaminhodaluz.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.centronocaminhodaluz.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18812"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.centronocaminhodaluz.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18812\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.centronocaminhodaluz.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18812"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.centronocaminhodaluz.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18812"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.centronocaminhodaluz.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18812"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}