{"id":18828,"date":"2022-04-29T08:12:00","date_gmt":"2022-04-29T08:12:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.centronocaminhodaluz.com.br\/index.php\/artigo18828\/"},"modified":"2022-04-29T09:09:12","modified_gmt":"2022-04-29T12:09:12","slug":"artigo18828","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.centronocaminhodaluz.com.br\/index.php\/artigo18828\/","title":{"rendered":"1 Rumo ao deserto &#8211; PAULO E ESTEV\u00c3O &#8211;  FRANCISCO C\u00c2NDIDO XAVIER"},"content":{"rendered":"<p>\u2014Aonde iremos, senhor? \u2014 atreveu-se Jacob a perguntar, timidamente,<br \/>\n<br \/>logo que entraram nas ruas tortuoSas.<\/p>\n<p>O mo\u00e7o tarsense pareceu refletir um minuto e ac entuou:<br \/>\n<br \/>\u2014\u00c9 verdade que trago comigo algum dinheiro; en tretanto, estou em<br \/>\n<br \/>situa\u00e7\u00e3o muito dif\u00edcil: sinto precisar mais de assist\u00eancia moral que de repouso<br \/>\n<br \/>f\u00edsico.<br \/> Tenho necessidade de algu\u00e9m que me ajude a compreender o que se<br \/>\n<br \/>passou.<br \/> Sabes onde reside Sadoc?<br \/>\n<br \/>\u2014Sei \u2014 respondeu o servo compungido.<\/p>\n<p>\u2014Leva-me at\u00e9 l\u00e1.<br \/>.<br \/>.<br \/> Depois de me avistar com algum amigo, pensarei numa<br \/>\n<br \/>estalagem.<\/p>\n<p>N\u00e3o se passou muito tempo e ei -los \u00e0 porta de um edif\u00edcio de singular e<br \/>\n<br \/>soberba apar\u00eancia.<br \/> Muralhas bem delineadas cercavam extens o \u00e1trio adornado<br \/>\n<br \/>de flores e arbustos.<\/p>\n<p>Descansando junto ao port\u00e3o de entrada, Saulo recomendou ao<br \/>\n<br \/>companheiro:<br \/>\n<br \/>\u2014 N\u00e3o conv\u00e9m que me aproxime assim, sem aviso.<br \/> Jamais visitei Sadoc<br \/>\n<br \/>nestas condi\u00e7\u00f5es.<br \/> Entra no \u00e1trio, chama -o e conta-lhe o que se passou comigo.<\/p>\n<p>Esperarei aqui, mesmo porque n\u00e3o posso dar um passo.<\/p>\n<p>Oservo obedeceu prontamente.<br \/> O banco de repouso distava alguns<br \/>\n<br \/>passos do largo port\u00e3o de acesso, mas ficando s\u00f3, ansioso de ouvir um amigo<br \/>\n<br \/>que o compreendesse, Saulo identificou o muro, tatean do-o.<br \/> Vacilante e<br \/>\n<br \/>tr\u00eamulo, arrastou-se dificilmente e atingiu a entrada, ali permanecendo.<\/p>\n<p>Acudindo ao chamado, Sadoc procurou saber o mo tivo da visita<br \/>\n<br \/>inesperada.<br \/> Jacob explicou, com humil dade, que vinha de Jerusal\u00e9m,<br \/>\n<br \/>acompanhando o doutor da Lei e desf iou os m\u00ednimos incidentes da viagem e os<br \/>\n<br \/>fins colimados; mas, quando se referiu ao epis\u00f3dio prin cipal, Sadoc arregalou<br \/>\n<br \/>os olhos estupidificado.<br \/> Custava -lhe acreditar no que ouvia, mas n\u00e3o podia<br \/>\n<br \/>duvidar da sinceridade do narrador, que, por sua vez, mal en cobria o pr\u00f3prio<br \/>\n<br \/>assombro.<br \/> O homem falou, ent\u00e3o, do m\u00edsero estado do chefe: da sua cegueira,<br \/>\n<br \/>das l\u00e1grimas copiosas que vertia.<br \/> Saulo a chorar? O amigo de Damasco re &#8211;<br \/>\n<br \/>cebia as estranhas not\u00edcias com imensa surpresa, sinteti zando as primeiras<br \/>\n<br \/>impress\u00f5es numa resposta desconcertante para Jacob:<br \/>\n<br \/>\u2014 O que me conta \u00e9 quase inveross\u00edmil; entretanto, em tais circunst\u00e2ncias,<br \/>\n<br \/>torna-se imposs\u00edvel acolh\u00ea-los aqui.<br \/> Desde anteontem tenho a casa cheia de<br \/>\n<br \/>amigos importantes, rec\u00e9m-chegados de Citium (1) para uma boa reuni\u00e3 o na<br \/>\n<br \/>sinagoga, s\u00e1bado pr\u00f3ximo.<br \/> C\u00e1 por mim, suponho que Saulo se perturbou,<br \/>\n<br \/>inesperadamente, e n\u00e3o quero exp\u00f4 -lo a ju\u00edzos e coment\u00e1rios menos dignos.<\/p>\n<p>\u2014 Mas, senhor, que lhe direi? \u2014 interp\u00f4s Jacob hesitante.<\/p>\n<p>\u2014 Diga que n\u00e3o estou em casa.<\/p>\n<p>\u2014 Entretanto.<br \/>.<br \/>.<br \/> encontro-me s\u00f3 com ele, assim perturbado e enfermo e,<br \/>\n<br \/>como vedes, a noite \u00e9 tempes tuosa.<br \/>.<br \/>.<\/p>\n<p>Sadoc refletiu um momento e acrescentou:<br \/>\n<br \/>\u2014 N\u00e3o ser\u00e1 dif\u00edcil remediar.<br \/> Na pr\u00f3xima esquina voc\u00eas encontrar\u00e3o a<br \/>\n<br \/>chamada \u201crua Direita\u201d e, depois de caminhar alguns passos, encontrar\u00e3o a<br \/>\n<br \/>estalagem de Judas, que tem sempre muitos c\u00f4modos dispon\u00edveis.<br \/> Mais tarde,<br \/>\n<br \/>procurarei l\u00e1 chegar para saber do ocor rido.<\/p>\n<p>126<br \/>\n<br \/>(1) Nota da Editora \u2014 Cicio, cidade da ilha de Chipre.<\/p>\n<p>Ouvindo palavras tais, que pareciam mais uma ordem que respost a a um<br \/>\n<br \/>apelo amigo, Jacob despediu-se surpreso e desanimado.<\/p>\n<p>\u2014 Senhor \u2014 disse ao rabino, regressando ao port\u00e3o de entrada \u2014,<br \/>\n<br \/>infelizmente vosso amigo Sadoc n\u00e3o se encontra em casa.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o est\u00e1? \u2014 exclamou Saulo admirado \u2014 daqui lhe ouvi a voz, embora<br \/>\n<br \/>n\u00e3o distinguisse o que dizia.<br \/> Ser\u00e1 poss\u00edvel que meus ouvidos estejam<br \/>\n<br \/>igualmente perturbados?<br \/>\n<br \/>Diante daquela observa\u00e7\u00e3o t\u00e3o expressiva e sincera, Jacob n\u00e3o conseguiu<br \/>\n<br \/>dissimular a verdade e contou ao rabino o acolhimento que tivera, a atitude<br \/>\n<br \/>reservada e fria de Sadoc.<\/p>\n<p>Seguindo as pisadas do guia, Saulo tudo ouviu, mudo, enxugando uma<br \/>\n<br \/>l\u00e1grima.<br \/> N\u00e3o contava com seme lhante recep\u00e7\u00e3o da parte de um colega que<br \/>\n<br \/>sempre considerara digno e leal, em todas as circunst\u00e2ncias da vida.<br \/> A<br \/>\n<br \/>surpresa chocava-o.<br \/> Era natural que Sadoc temesse pela renova\u00e7\u00e3o de suas<br \/>\n<br \/>id\u00e9ias, mas n\u00e3o era justo aban donasse um amigo doente, \u00e0s intemp\u00e9ries da<br \/>\n<br \/>noite.<br \/> No entanto, no rebojar de m\u00e1goas que come\u00e7avam a intu mescer-lhe o<br \/>\n<br \/>cora\u00e7\u00e3o, recordou repentinamente a vis\u00e3o de Jesus e refletiu que,<br \/>\n<br \/>efetivamente, possu\u00eda agora experi\u00eancias que o outro n\u00e3o pudera conhecer,<br \/>\n<br \/>chegando \u00e0 conclus\u00e3o de que talvez fizesse o mesmo se os pap\u00e9is estivessem<br \/>\n<br \/>invertidos.<\/p>\n<p>Conclu\u00eddo o relato do companheiro, comentou re signado:<br \/>\n<br \/>\u2014 Sadoc tem raz\u00e3o.<br \/> N\u00e3o ficava bem perturb\u00e1 -lo com a descri\u00e7\u00e3o do fato,<br \/>\n<br \/>quando tem \u00e0 mesa amigos de responsabilidade na vida p\u00fablica.<br \/> Al\u00e9m disso,<br \/>\n<br \/>estou cego.<br \/>.<br \/>.<br \/> Seria um estafermo e n\u00e3o um h\u00f3spede.<\/p>\n<p>Essas considera\u00e7\u00f5es comoveram o companheiro, que, ali\u00e1s, deixara<br \/>\n<br \/>perceber ao jovem rabino os pr\u00f3pr ios receios.<br \/> Nas palavras de Jacob, Saulo<br \/>\n<br \/>entrevira uma vaga express\u00e3o de temores injustific\u00e1veis.<br \/> O procedimento de<br \/>\n<br \/>Sadoc talvez lhe houvesse aumentado as desconfian\u00e7as.<br \/> Suas advert\u00eancias<br \/>\n<br \/>eram reticenciosas, hesitantes.<br \/> Parecia intimidado, como se antevi sse<br \/>\n<br \/>amea\u00e7as \u00e0 sua tranq\u00fcilidade pessoal.<br \/> Nos conceitos mais simples evidenciava<br \/>\n<br \/>o medo de ser acusado como portador de alguma express\u00e3o do \u201cCaminho\u201d.<br \/> Na<br \/>\n<br \/>sua amplitude de senso psicol\u00f3gico, o mo\u00e7o tarsense tudo compreendia.<br \/> Fora<br \/>\n<br \/>verdade que ele, Saulo, representava o chefe supremo da campanha<br \/>\n<br \/>demolidora, mas, de ora em diante, consagraria a vida a Jesus, assim<br \/>\n<br \/>comprometendo a quantos dele se aproximassem direta e ostensivamente.<\/p>\n<p>Sua transforma\u00e7\u00e3o provocaria muitos protestos no ambiente farisaico.<\/p>\n<p>Pressentiu nas indecis\u00f5es do guia o receio de ser acusado de algum sor til\u00e9gio<br \/>\n<br \/>ou bruxedo.<\/p>\n<p>Com efeito, depois de convenientemente instalados na modesta estalagem<br \/>\n<br \/>de Judas, o companheiro falou-lhe preocupado:<br \/>\n<br \/>\u2014 Senhor, pesa-me alegar minhas conveni\u00eancias, mas, consoante os<br \/>\n<br \/>projetos feitos, preciso regressar a Jerusal\u00e9m, onde me esperam dois filhos, a<br \/>\n<br \/>fim de nos fixarmos em Cesar\u00e9ia.<\/p>\n<p>\u2014 Perfeitamente \u2014 respondeu Saulo, respeitando-lhe os escr\u00fapulos \u2014,<br \/>\n<br \/>poder\u00e1s partir ao amanhecer.<\/p>\n<p>Aquela voz, antes agressiva e aut orit\u00e1ria, tornara-se agora compassiva e<br \/>\n<br \/>meiga, tocando o cora\u00e7\u00e3o do servo nas suas fibras mais sens\u00edveis.<\/p>\n<p>\u2014 Entretanto, senhor, estou hesitando \u2014 disse o velho j\u00e1 picado de<br \/>\n<br \/>127<br \/>\n<br \/>remorso \u2014, estais cego, necessitais de aux\u00edlio para recobrar a vista e sinto<br \/>\n<br \/>sinceramente deixar-vos ao abandono.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o te preocupes por minha causa \u2014 exclamou o doutor da Lei<br \/>\n<br \/>resignado \u2014; quem te disse que ficarei abandonado? Estou convicto de que<br \/>\n<br \/>meus olhos estar\u00e3o curados muito em breve.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s \u2014 continuou Saulo como a confortar -se a si mesmo \u2014, Jesus<br \/>\n<br \/>mandou-me entrar na cidade, a fim de saber o que me convinha.<br \/> Certo, n\u00e3o me<br \/>\n<br \/>deixar\u00e1 ignorando o que devo fazer.<\/p>\n<p>Assim falando, n\u00e3o p\u00f4de ver a express\u00e3o de piedade com que Jacob o<br \/>\n<br \/>contemplava, desconcertado e oprimido.<\/p>\n<p>Entretanto, mau grado \u00e0 m\u00e1goa que lhe causava o chefe em semelhante<br \/>\n<br \/>estado, e recordando os castigos infligidos aos seguidores do Cristo, em<br \/>\n<br \/>Jerusal\u00e9m, n\u00e3o conseguiu subtrair -se aos \u00edntimos temores e partiu aos<br \/>\n<br \/>primeiros albores da manh\u00e3.<\/p>\n<p>Saulo, agora, estava s\u00f3.<br \/> No v\u00e9u espes so das sombras, podia entregar-se<br \/>\n<br \/>\u00e0s suas medita\u00e7\u00f5es profundas e tristes.<\/p>\n<p>A bolsa farta e franca assegurou -lhe a solicitude do estalajadeiro, que, de<br \/>\n<br \/>quando em quando, vinha saber suas necessidades, mas, em v\u00e3o, o h\u00f3spede<br \/>\n<br \/>foi convidado a repastos e divers \u00f5es, porque nada o demovia do seu taciturno<br \/>\n<br \/>insulamento.<\/p>\n<p>Aqueles tr\u00eas dias de Damasco foram de rigorosa disciplina espiritual.<br \/> Sua<br \/>\n<br \/>personalidade din\u00e2mica havia estabelecido uma tr\u00e9gua \u00e0s atividades<br \/>\n<br \/>mundanas, para examinar os erros do passado, as dificuldad es do presente e<br \/>\n<br \/>as realiza\u00e7\u00f5es do futuro.<br \/> Precisava ajustar -se \u00e0 inelut\u00e1vel reforma do seu eu.<\/p>\n<p>Na ang\u00fastia do esp\u00edrito, sentia-se, de fato, desamparado de todos os amigos.<br \/> A<br \/>\n<br \/>atitude de Sadoc era t\u00edpica e valeria pela de todos os correligion\u00e1rioS, que<br \/>\n<br \/>jamais se conformariam com a sua ades\u00e3o aos novos ideais.<br \/> Ningu\u00e9m<br \/>\n<br \/>acreditaria no ascendente da convers\u00e3o inesperada; entretanto, havia que lutar<br \/>\n<br \/>contra todos os c\u00e9pticos, de vez que Jesus, para falar -lhe ao cora\u00e7\u00e3o,<br \/>\n<br \/>escolhera a hora mais clara e ruti lante do dia, em local amplo e descampado e<br \/>\n<br \/>na s\u00f3 companhia de tr\u00eas homens muito menos cultos que ele, e, por isso<br \/>\n<br \/>mesmo, incapazes de algo compreenderem na sua pobreza mental.<br \/> No<br \/>\n<br \/>apreciar os valores humanos, experimentava a insuport\u00e1vel ang\u00fastia dos que<br \/>\n<br \/>se encontram em completo abandono, mas, no torvelinho das lem bran\u00e7as,<br \/>\n<br \/>destacava os vultos de Estev\u00e3o e Abigail, que lhe proporcionavam<br \/>\n<br \/>consoladoras emo\u00e7\u00f5es.<br \/> Agora compreendia aquele Cristo que viera ao mundo<br \/>\n<br \/>principalmente para os desventurados e tristes de cor a\u00e7\u00e3o.<br \/> Antes, revoltava-se<br \/>\n<br \/>contra o Messias Nazareno, em cuja a\u00e7\u00e3o presumia tal ou qual<br \/>\n<br \/>incompreens\u00edvel vol\u00fapia de sofrimento; todavia, chegava a.<br \/> examinar -se<br \/>\n<br \/>melhor, agora, haurindo na pr\u00f3pria experi\u00eancia as mais proveitosas ila\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>N\u00e3o obstante os t\u00edtulos do Sin\u00e9drio, as responsabilidades p\u00fablicas, o renome<br \/>\n<br \/>que o faziam admirado em toda parte, que era ele sen\u00e3o um necessitado da<br \/>\n<br \/>prote\u00e7\u00e3o divina? As conven\u00e7\u00f5es mundanas e os preconceitos reli giosos<br \/>\n<br \/>proporcionavam-lhe uma tranq\u00fcilidade aparente; mas, basto u a interven\u00e7\u00e3o da<br \/>\n<br \/>dor imprevista para que ajuizasse de suas necessidades imensas.<\/p>\n<p>Abismalmente concentrado na cegueira que o envolvia, orou com fervor,<br \/>\n<br \/>recorreu a Deus para que o n\u00e3o deixasse sem socorro, pediu a Jesus lhe<br \/>\n<br \/>clareasse a mente atormentada pe las id\u00e9ias de ang\u00fastia e desamparo.<\/p>\n<p>No terceiro dia de preces fervorosas, eis que o hote leiro anuncia algu\u00e9m<br \/>\n<br \/>que o procura.<br \/> Seria Sadoc? Saulo tem sede de uma voz carinhosa e amiga.<\/p>\n<p>128<br \/>\n<br \/>Manda entrar.<br \/> Um velhinho de semblante calmo e afetuoso ali est\u00e1, sem que o<br \/>\n<br \/>convertido possa ver-lhe as c\u00e3s respeit\u00e1veis e o sorriso generoso.<\/p>\n<p>O mutismo do visitante indiciava o desconhecido.<\/p>\n<p>\u2014Quem sois? \u2014 pergunta o cego admirado.<\/p>\n<p>\u2014Irm\u00e3o Saulo \u2014 replica o interpelado com do\u00e7u ra \u2014, o Senhor, que te<br \/>\n<br \/>apareceu no caminho, enviou-me a esta casa para que tornes a ver e recebas<br \/>\n<br \/>a ilumina\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo.<\/p>\n<p>Ouvindo-o, o mo\u00e7o de Tarso tateou ansiosamente nas sombras.<br \/> Quem<br \/>\n<br \/>seria aquele homem que sabia os feitos l\u00e1 da estrada! Algum conhecido de<br \/>\n<br \/>Jacob? Mas.<br \/>.<br \/>.<br \/> aquela inflex\u00e3o de voz enternecida e carinhosa?<br \/>\n<br \/>\u2014Vosso nome? \u2014 perguntou quase aterrado.<\/p>\n<p>\u2014Ananias.<\/p>\n<p>A resposta era uma revela\u00e7\u00e3o.<br \/> A ovelha perseguida vinha buscar o lobo<br \/>\n<br \/>voraz.<br \/> Saulo compreendeu a li\u00e7\u00e3o que o Cristo lhe ministrava.<br \/> A presen\u00e7a de<br \/>\n<br \/>Ananias revoca-lhe \u00e0 mem\u00f3ria os apelos mais sagrados.<br \/> Fora ele o iniciador de<br \/>\n<br \/>Abigail na doutrina e o motivo da viagem a Damasco, onde encontrara Jesus e<br \/>\n<br \/>a verdade renovadora.<br \/> Tomado de profunda venera\u00e7\u00e3o, quis avan \u00e7ar, ajoelharse<br \/>\n<br \/>ante o disc\u00edpulo do Senhor, que lhe chamava ternamente \u201cirm\u00e3o\u201d, oscularlhe<br \/>\n<br \/>enternecido as m\u00e3os benfazejas, mas apenas tateou o v\u00e1cuo, sem<br \/>\n<br \/>conseguir a execu\u00e7\u00e3o do grat\u00edssimo desejo.<\/p>\n<p>\u2014Quisera beijar vossa t\u00fanica \u2014 falou com humildade e reconhecimento \u2014<br \/>\n<br \/>, mas, como vedes, estou cego!.<br \/>.<br \/>.<\/p>\n<p>\u2014Jesus mandou-me, justamente para que tivesses, de novo, o dom da<br \/>\n<br \/>vista.<\/p>\n<p>Comovid\u00edssimo, o velho disc\u00edpulo do Senhor notou que o perseguidor cruel<br \/>\n<br \/>dos ap\u00f3stolos do \u201cCaminho\u201d estava totalmente transformado.<br \/> Ouvindo -lhe a<br \/>\n<br \/>palavra plena de f\u00e9, Saulo de Tarso deixava transparecer, n o semblante, sinais<br \/>\n<br \/>de profunda alegria interior.<br \/> Dos olhos ensombrados, manaram l\u00e1grimas<br \/>\n<br \/>cristalinas.<br \/> O mo\u00e7o apaixonado e caprichoso aprendera a ser humano e<br \/>\n<br \/>humilde.<\/p>\n<p>\u2014Jesus \u00e9 o Messias eterno! Depus minha alma em suas m\u00e3os!.<br \/>.<br \/>.<br \/> \u2014 disse<br \/>\n<br \/>entre compungido e esperan\u00e7oso.<br \/> Penitencio-me do meu caminho!.<br \/>.<br \/>.<\/p>\n<p>Banhado no pranto do arrependimento sincero, sem saber manifestar o<br \/>\n<br \/>reconhecimento daquela hora, em vir tude das trevas que lhe dificultavam os<br \/>\n<br \/>passos, ajoelhou-se com humildade.<\/p>\n<p>O velhinho generoso quis adiantar-se, impedir aquele gesto de ren\u00fancia<br \/>\n<br \/>suprema, considerando a sua pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o de homem fal\u00edvel e imperfeito;<br \/>\n<br \/>mas, desejando estimular todos os recursos daquela alma ardente, em favor da<br \/>\n<br \/>sua completa convers\u00e3o ao Cristo, aproximou -se comovido e, colocando a m\u00e3o<br \/>\n<br \/>calosa naquela fronte atormentada, exclamou:<br \/>\n<br \/>\u2014Irm\u00e3o Saulo, em nome de Deus Todo -Poderoso eu te batizo para a nova<br \/>\n<br \/>f\u00e9 em Cristo Jesus!.<br \/>.<br \/>.<\/p>\n<p>Entre as l\u00e1grimas ardentes que corriam dos olhos, o mo\u00e7o tarsenSe<br \/>\n<br \/>acentuou, contrito:<br \/>\n<br \/>\u2014Digne-se o Senhor perdoar meus pecados e ilumi nar meus prop\u00f3sitos<br \/>\n<br \/>para uma vida nova.<\/p>\n<p>\u2014Agora \u2014 disse Ananias, impondo-lhe as m\u00e3os nos olhos apagados e<br \/>\n<br \/>num gesto amoroso \u2014, em nome do Salvador, pe\u00e7o a Deus para que vejas<br \/>\n<br \/>novamente.<\/p>\n<p>\u2014Se \u00e9 do agrado de Jesus que isso acon te\u00e7a \u2014 advertiu Saulo<br \/>\n<br \/>129<br \/>\n<br \/>compungido \u2014\u2018 ofere\u00e7o meus olhos aos seus santos servi\u00e7os, para todo o<br \/>\n<br \/>sempre.<\/p>\n<p>E como se entrassem em jogo for\u00e7as poderosas e invis\u00edveis, sentiu que das<br \/>\n<br \/>p\u00e1lpebras doridas ca\u00edam subs t\u00e2ncias pesadas como escamas, \u00e0 propor\u00e7\u00e3o que<br \/>\n<br \/>a vista lhe voltava, embebendo-se de luz.<br \/> Atrav\u00e9s da janela aberta, viu o c\u00e9u<br \/>\n<br \/>claro de Damasco, experimentando indefin\u00edvel ventura naquele oceano de<br \/>\n<br \/>claridades deslumbrantes.<br \/> A aragem da manh\u00e3, como perfume do Sol, vinha<br \/>\n<br \/>banhar-lhe a fronte, traduzindo para o seu cora\u00e7\u00e3o uma b\u00ean\u00e7\u00e3o de Deus.<\/p>\n<p>\u2014Vejo!.<br \/>.<br \/>.<br \/> Agora vejo!.<br \/>.<br \/>.<br \/> Gl\u00f3ria ao redentor de minha alma!.<br \/>.<br \/>.<br \/> \u2014 exclamava<br \/>\n<br \/>estendendo os bra\u00e7os num transporte de gratid\u00e3o e de amor.<\/p>\n<p>Ananias tamb\u00e9m n\u00e3o se conteve mais; em face da quela prova inaudita da<br \/>\n<br \/>miseric\u00f3rdia de Jesus, o velho disc\u00edpulo do Evangelho abra\u00e7ou -se ao jovem de<br \/>\n<br \/>Tarso, a chorar de reconhecimento a Deus pelos favores rece bidos.<br \/> Tr\u00eamulo<br \/>\n<br \/>de alegria, levantou-o em seus bra\u00e7os generosos, amparando -lhe a alma<br \/>\n<br \/>surpreendida e perturbada de j\u00fabilo.<\/p>\n<p>\u2014Irm\u00e3o Saulo \u2014 disse pressuroso \u2014, este \u00e9 o nosso grande dia;<br \/>\n<br \/>abracemo-nos na mem\u00f3ria sacrossanta do Mestre que nos irmanou em seu<br \/>\n<br \/>grande amor!.<br \/>.<br \/>.<\/p>\n<p>O convertido de Damasco n\u00e3o disse palavra.<br \/> As l\u00e1grimas de gratid\u00e3o<br \/>\n<br \/>sufocavam-no.<\/p>\n<p>Abra\u00e7ando-se ao antigo pregador, num gesto expressivo e mudo, f\u00ea-lo<br \/>\n<br \/>como se houvesse encontrado o pai dedicado e amoroso da sua nova<br \/>\n<br \/>exist\u00eancia.<br \/> Por momentos, ficaram mudos, maravilhados com a interven\u00e7\u00e3o<br \/>\n<br \/>divina, como dois irm\u00e3os muito queridos que se houvessem reconciliado sob as<br \/>\n<br \/>vistas de Deus.<\/p>\n<p>Saulo sentia-se agora fortalecido e \u00e1gil.<br \/> Num minuto, pareceu reaver todas<br \/>\n<br \/>as energias de sua vida.<br \/> Voltando a si do contentamento divino que o felicitava,<br \/>\n<br \/>tomou a m\u00e3o do velho disc\u00edpulo e beijou -a com venera\u00e7\u00e3o.<br \/> Ananias tinha os<br \/>\n<br \/>olhos rasos de pranto.<br \/> Ele pr\u00f3prio n\u00e3o podia prever as alegrias infinitas que o<br \/>\n<br \/>esperavam na pens\u00e3o singela da \u201crua Direita\u201d.<\/p>\n<p>\u2014Ressuscitastes-me para Jesus \u2014 exclamou jubiloso \u2014; serei dele<br \/>\n<br \/>eternamente.<br \/> Sua miseric\u00f3rdia suprir\u00e1 minhas fraquezas, compadecer -se-\u00e1 de<br \/>\n<br \/>minhas feridas, enviar\u00e1 aux\u00edlios \u00e0 mis\u00e9ria de minhalma pecadora, para que a<br \/>\n<br \/>lama do meu esp\u00edrito se converta em ouro do seu amor.<\/p>\n<p>\u2014 Sim, somos do Cristo \u2014 ajuntou o generoso velhinho com a alegria a<br \/>\n<br \/>transbordar dos olhos.<\/p>\n<p>E, como se fosse de s\u00fabito transformado num menino \u00e1vido de<br \/>\n<br \/>ensinamentos, Saulo de Tarso, sentando -se junto do benfeitor amigo, rogou -lhe<br \/>\n<br \/>todos os informes a respeito do Cristo, dos seus postulados e atos imor &#8211;<br \/>\n<br \/>redouros.<br \/> Ananias contou-lhe tudo quanto sabia de Jesus, por interm\u00e9dio dos<br \/>\n<br \/>Ap\u00f3stolos, depois da crucifica\u00e7\u00e3o a que ele tamb\u00e9m assistira, em Jerusal\u00e9m,<br \/>\n<br \/>na tarde tr\u00e1gica do Calv\u00e1rio.<br \/> Esclareceu que era sapateiro em Ema\u00fas e tinha<br \/>\n<br \/>ido \u00e0 cidade santa para as comemora\u00e7\u00f5es do Tem plo, tendo acompanhado o<br \/>\n<br \/>drama pungente nas ruas regurgitantes de povo.<br \/> Falou da compaix\u00e3o que lhe<br \/>\n<br \/>causara o Messias coroado de espinhos e apupado pela turba furiosa e<br \/>\n<br \/>inconsciente.<br \/> Profunda a emo\u00e7\u00e3o, ao descrever a marcha penosa com a cruz,<br \/>\n<br \/>protegido por soldados impiedosos, da f\u00faria popular, que vociferava o crime<br \/>\n<br \/>hediondo.<br \/> Curioso pelo desenrolar dos acontecimentos, seguira o condenado<br \/>\n<br \/>at\u00e9 ao monte.<br \/> Da cruz do mart\u00edrio, Jesus lan\u00e7\u00e1ra -lhe um olhar inesquec\u00edvel.<\/p>\n<p>Para o seu esp\u00edrito, aquele olhar traduzia um chamamento sagrado, que era<br \/>\n<br \/>130<br \/>\n<br \/>indispens\u00e1vel compreender.<br \/> Profundamente impressionado, a tudo assistiu at\u00e9<br \/>\n<br \/>ao fim.<br \/> Da\u00ed a tr\u00eas dias, ainda sob o peso daquelas angustiosas impress\u00f5es, eis<br \/>\n<br \/>que lhe chega a nova alvissareira de que o Cristo havia ressuscitado dos<br \/>\n<br \/>mortos para a gl\u00f3ria eterna do Todo -Poderoso.<br \/> Seus disc\u00edpulos estavam \u00e9brios<br \/>\n<br \/>de ventura.<br \/> Ent\u00e3o, procurou Sim\u00e3o Pedro para conhecer melhor a<br \/>\n<br \/>personalidade do Salvador.<br \/> T\u00e3o sublime a narrativa, t\u00e3o elevados os<br \/>\n<br \/>ensinamentos, t\u00e3o profunda a revela\u00e7\u00e3o que lhe aclarava o esp\u00edrito, que<br \/>\n<br \/>aceitou o Evangelho sem mais hesita\u00e7\u00e3o .<br \/> Desejoso de compartilhar o trabalho<br \/>\n<br \/>que Jesus legara aos que lhe pertenciam, regressou a Ema\u00fas, disp\u00f4s dos bens<br \/>\n<br \/>materiais que possu\u00eda e esperou os Ap\u00f3stolos galileus em Jerusal\u00e9m, onde se<br \/>\n<br \/>associou a Pedro nas primeiras atividades da igreja do \u201cCaminho\u201d.<br \/> A ess\u00eancia<br \/>\n<br \/>dos ensinamentos do Cristo vitalizara -lhe o esp\u00edrito, Os achaques da velhice<br \/>\n<br \/>haviam desaparecido.<br \/> Logo que Jo\u00e3o e Filipe chegaram a Jerusal\u00e9m para<br \/>\n<br \/>cooperar com o antigo pescador de Cafarnaum na edifica\u00e7\u00e3o evang\u00e9lica,<br \/>\n<br \/>combinaram sua transfer\u00eancia para Jope, a fim de atender a in\u00fameros pedidos<br \/>\n<br \/>de irm\u00e3os desejosos de conhecer a doutrina.<br \/> Ali estivera at\u00e9 que as<br \/>\n<br \/>persegui\u00e7\u00f5es intensificadas com a morte de Estev\u00e3o obrigaram -no a retirar-se.<\/p>\n<p>Saulo bebia-lhe as palavras com singular enlevo como quem fr anqueava<br \/>\n<br \/>um mundo novo.<br \/> A refer\u00eancia \u00e0s persegui\u00e7\u00f5es avivava os remorsos acerbos &#8211;<br \/>\n<br \/>Em compensa\u00e7\u00e3o, a alma estava repleta de votos sinceros, pro missores de<br \/>\n<br \/>uma vida nova.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 verdade \u2014 dizia, enquanto o narrador fazia longa pausa \u2014, vim a<br \/>\n<br \/>Damasco com outorga do Templo para vos levar preso a Jerusal\u00e9m, mas<br \/>\n<br \/>fostes v\u00f3s que chegastes com outorga de Jesus e a Ele me jungistes para<br \/>\n<br \/>sempre.<br \/> Se vos algemasse, na minha ignor\u00e2ncia, levar -vos-ia ao tormento e \u00e0<br \/>\n<br \/>morte; v\u00f3s, salvando-me do pecado, me transformastes em escravo volunt\u00e1rio<br \/>\n<br \/>e feliz!<br \/>\n<br \/>Ananias sorriu, sumamente satisfeito.<\/p>\n<p>Saulo pediu-lhe, ent\u00e3o, falasse de Estev\u00e3o, no que foi atendido, com<br \/>\n<br \/>solicitude.<br \/> Em seguida, pediu informes da sua viagem de Jope a Jerusal\u00e9m.<\/p>\n<p>Com muita prud\u00eancia, desejava do benfeitor qu alquer alus\u00e3o a Abigail.<\/p>\n<p>Formulando o pedido, f\u00ea-lo com tal inflex\u00e3o carinhosa, que o velho disc\u00edpulo,<br \/>\n<br \/>adivinhando-lhe o intuito, falou com brandura:<br \/>\n<br \/>\u2014 N\u00e3o precisar\u00e1s confessar teus anseios de mo\u00e7o.<br \/> Leio em teus olhos o<br \/>\n<br \/>que principalmente desejas.<br \/> Entre Jo pe e Jerusal\u00e9m, descansei muito tempo<br \/>\n<br \/>na vizinhan\u00e7a de um compatr\u00edcio que, apesar de fariseu, nunca privou os<br \/>\n<br \/>empregados de receberem as sagradas alegrias da Boa Nova.<br \/> Esse homem,<br \/>\n<br \/>Zacarias, tinha sob seu teto um verdadeiro anjo do c\u00e9u.<\/p>\n<p>Era a jovem Abigail, que, depois de receber o batismo de minhas m\u00e3os,<br \/>\n<br \/>confessou que te amava muito.<br \/> Falava do teu amor com ternura ardente e<br \/>\n<br \/>muitas vezes me convidou a orar pela tua convers\u00e3o a Jesus -Cristo! .<br \/>.<br \/>.<\/p>\n<p>Saulo ouvia emocionado e, ap\u00f3s ligeiro intervalo em que o amoros o<br \/>\n<br \/>velhinho parecia meditar, voltou a dizer como se falasse consigo:<br \/>\n<br \/>\u2014 Sim, se ela ainda vivesse!.<br \/>.<br \/>.<\/p>\n<p>Ananias recebeu a observa\u00e7\u00e3o sem surpresa e acen tuou:<br \/>\n<br \/>\u2014Desde que se aproximou de mim, notei que Abigail n\u00e3o ficaria muito<br \/>\n<br \/>tempo na Terra.<\/p>\n<p>Suas cores esmaecidas, o brilho intenso dos olhos, falavam -me da sua<br \/>\n<br \/>condi\u00e7\u00e3o de anjo exilado.<br \/> Mas, devemos crer que ela viva no plano imortal.<br \/> E<br \/>\n<br \/>quem sabe? Talvez suas rogativas aos p\u00e9s de Jesus hajam contribu\u00eddo para<br \/>\n<br \/>131<br \/>\n<br \/>que o Mestre te convocasse \u00e0 luz do Eva ngelho, \u00e0s portas de Damasco!.<br \/>.<br \/>.<\/p>\n<p>O velho disc\u00edpulo do \u201cCaminho\u201d estava comovido.<br \/> Recebendo aquelas<br \/>\n<br \/>carinhosas evoca\u00e7\u00f5es, Saulo chorava.<br \/> Compreendia, sim, que Abigail n\u00e3o<br \/>\n<br \/>poderia estar morta.<br \/> A vis\u00e3o de Jesus redivivo bastava para dissipar -lhe todas<br \/>\n<br \/>as d\u00favidas.<br \/> Certamente, a escolhida de sua alma apie dara-se de suas<br \/>\n<br \/>mis\u00e9rias, rogara ao Salvador, com insis t\u00eancia, lhe socorresse o esp\u00edrito<br \/>\n<br \/>mesquinho e, por venturosa coincid\u00eancia, o mesmo Ananias que lhe havia<br \/>\n<br \/>preparado o cora\u00e7\u00e3o para as b\u00ean\u00e7\u00e3os do C\u00e9u, esten dera-lhe igualmente as<br \/>\n<br \/>m\u00e3os amigas, cheias de caridade e perd\u00e3o.<br \/> Agora, pertenceria para sempre<br \/>\n<br \/>\u00e0quele Cristo amoroso e justo, que era o Messias prometido.<br \/> Nas emo\u00e7\u00f5es<br \/>\n<br \/>extremas que lhe caracterizavam os sentimen tos, passou a considerar o poder<br \/>\n<br \/>do Evangelho, examinando seus ilimitados recursos transformadores.<\/p>\n<p>Queria mergulhar o esp\u00edrito nas suas li\u00e7\u00f5es iluminadas e subli mes, banharse<br \/>\n<br \/>naquele rio de vida, cujas \u00e1guas do amor de Jesus fecundavam os cora\u00e7\u00f5es<br \/>\n<br \/>mais \u00e1ridos e desertos.<br \/> Aquela medita\u00e7\u00e3o profun da empolgava-lhe, agora, a<br \/>\n<br \/>alma toda.<\/p>\n<p>\u2014Ananias, meu mestre \u2014 disse o ex-rabino, com entusiasmo \u2014, onde<br \/>\n<br \/>poderei obter o Evangelho sagrado?<br \/>\n<br \/>O antigo disc\u00edpulo sorriu com bondade, e observou:<br \/>\n<br \/>\u2014 Antes de tudo, n\u00e3o me chames mestre.<br \/> Este \u00e9 e ser\u00e1 sempre o Cris to.<\/p>\n<p>N\u00f3s outros, por acr\u00e9scimo da miseric\u00f3rdia divina, somos disc\u00edpulos, irm\u00e3os na<br \/>\n<br \/>necessidade e no trabalho redentor.<br \/> Quanto \u00e0 aquisi\u00e7\u00e3o do Evangelho,<br \/>\n<br \/>somente na igreja do \u201cCaminho\u201d, em Jerusal\u00e9m, poder\u00edamos obter uma c\u00f3pia<br \/>\n<br \/>integral das anota\u00e7\u00f5es de Levi.<\/p>\n<p>E revolvendo o interior de surrada patrona, reti rava alguns pergaminhos<br \/>\n<br \/>amarelentos, nos quais conseguira reunir alguns elementos da tradi\u00e7\u00e3o<br \/>\n<br \/>apost\u00f3lica.<br \/> Apresentando essas notas dispersas, Ananias acrescen tava:<br \/>\n<br \/>\u2014 Verbalmente, tenho de cor quase todos os ensinamentos; mas, no que<br \/>\n<br \/>se refere \u00e0 parte escrita, aqui tens tudo que possuo.<\/p>\n<p>O mo\u00e7o convertido recebeu as anota\u00e7\u00f5es, assaz admi rado &#8211; Debru\u00e7ou-se<br \/>\n<br \/>imediatamente sobre os velhos rabis cos e devorava-os com indisfar\u00e7\u00e1vel<br \/>\n<br \/>interesse.<\/p>\n<p>Depois de refletir alguns minutos, acentuava:<br \/>\n<br \/>\u2014 Se poss\u00edvel, pedir-vos-ia deixar-me estes preciosos ensinamentos, at\u00e9<br \/>\n<br \/>amanh\u00e3.<br \/> Empregarei o dia em copi\u00e1 -los para meu uso particular.<br \/> O<br \/>\n<br \/>estalajadeiro me comprar\u00e1 os pergaminhos necess\u00e1rios.<\/p>\n<p>E como que j\u00e1 iluminado daquele esp\u00ed rito mission\u00e1rio que lhe assinalou as<br \/>\n<br \/>menores a\u00e7\u00f5es, para o resto da vida, ponderava atento:<br \/>\n<br \/>\u2014 Precisamos estudar um meio de difundir a nova revela\u00e7\u00e3o com a maior<br \/>\n<br \/>amplitude poss\u00edvel.<br \/> Jesus \u00e9 um socorro do C\u00e9u.<br \/> Tardar na sua mensagem \u00e9<br \/>\n<br \/>delongar o desespero dos homens.<br \/> Ali\u00e1s, a palavra \u201cevangelho\u201d significa \u201cboas<br \/>\n<br \/>not\u00edcias\u201d.<br \/> \u00c9 indispens\u00e1vel espalhar essas not\u00edcias do plano mais elevado da<br \/>\n<br \/>vida.<br \/>Enquanto o velho pregador do \u201cCaminho\u201d obser vava-o interessado, o<br \/>\n<br \/>convertido de Damasco chamou o hoteleiro para com prar os pergaminhos.<\/p>\n<p>Judas surpreendeu-se ao verificar a cura ins\u00f3lita.<br \/> Satisfazendo -lhe a<br \/>\n<br \/>curiosidade, o jovem de Tarso falou sem rebu\u00e7os:<br \/>\n<br \/>\u2014 Jesus enviou-me um m\u00e9dico.<br \/> Ananias veio curar -me em seu nome.<\/p>\n<p>E antes que o homem se recobrasse do espanto, cumul ava-o de<br \/>\n<br \/>recomenda\u00e7\u00f5es a respeito dos pergami nhos que desejava, entregando-lhe a<br \/>\n<br \/>132<br \/>\n<br \/>quantia necess\u00e1ria.<\/p>\n<p>Dando largas ao entusiasmo que lhe ia nalma, diri giu-se novamente a<br \/>\n<br \/>Ananias, expondo-lhe seus planos:<br \/>\n<br \/>\u2014 At\u00e9 aqui, ocupava o meu tempo no estudo e na exeg ese da Lei de<br \/>\n<br \/>Mois\u00e9s; agora, por\u00e9m, encherei as horas com o esp\u00edrito do Cristo.<br \/> Trabalharei<br \/>\n<br \/>nesse mister at\u00e9 ao fim dos meus dias.<br \/> Buscarei iniciar meu trabalho aqui<br \/>\n<br \/>mesmo em Damasco.<\/p>\n<p>E, fazendo uma pausa, perguntava ao benfeitor que o ouvia em sil\u00eancio:<br \/>\n<br \/>\u2014Conheceis na cidade um rapaz fariseu de nome Sadoc?<br \/>\n<br \/>\u2014Sim, \u00e9 quem tem chefiado as persegui\u00e7\u00f5es nesta cidade.<\/p>\n<p>\u2014 Pois bem \u2014 continuava o jovem tarsense aten cioso \u2014, amanh\u00e3 \u00e9<br \/>\n<br \/>s\u00e1bado e haver\u00e1 prele\u00e7\u00e3o na sinagoga.<br \/> Pretendo procurar os amigos e falar &#8211;<br \/>\n<br \/>lhes publicamente do apelo que o Cristo me endere\u00e7ou.<br \/> Quero estudar vos sas<br \/>\n<br \/>anota\u00e7\u00f5es ainda hoje, porque me dar\u00e3o assunto para a primeira pr\u00e9dica do<br \/>\n<br \/>Evangelho.<\/p>\n<p>\u2014Para ser sincero \u2014 disse Ananias com a sua experi\u00eancia dos homens \u2014<br \/>\n<br \/>, acho que deves ser muito prudente nesta nova fase religiosa.<br \/> \u00c9 poss\u00edvel que<br \/>\n<br \/>teus amigos da sinagoga n\u00e3o estejam preparados para rece ber a luz da<br \/>\n<br \/>verdade toda.<br \/> A m\u00e1-f\u00e9 tem sempre caminhos para tentar a confus\u00e3o do que \u00e9<br \/>\n<br \/>puro.<br \/>\u2014<br \/>\n<br \/>Mas se eu vi Jesus, n\u00e3o tenho o direito de ocultar uma revela \u00e7\u00e3o<br \/>\n<br \/>incontest\u00e1vel \u2014 exclamou o ne\u00f3fito, como a salientar, antes de tudo, a boa<br \/>\n<br \/>inten\u00e7\u00e3o que o animava.<\/p>\n<p>\u2014Sim, n\u00e3o digo que fujas do testemunho \u2014 explicou, calmo, o velho<br \/>\n<br \/>disc\u00edpulo \u2014\u2018 mas devo encarecer a maior prud\u00eancia nas atitudes, n\u00e3o pela<br \/>\n<br \/>doutrina do Cristo, superior e invulner\u00e1vel a quaisquer ataques dos homens,<br \/>\n<br \/>mas, por ti mesmo.<\/p>\n<p>\u2014Por mim nada posso temer.<br \/> Se Jesus me res tituiu a luz dos olhos, n\u00e3o<br \/>\n<br \/>deixar\u00e1 de iluminar meus caminhos.<br \/> Quero comunicar a Sadoc a ocorr\u00eancia<br \/>\n<br \/>que deu novos rumos ao meu de stino.<br \/> E o ensejo n\u00e3o poderia ser mais<br \/>\n<br \/>oportuno, porque sei que hospeda em sua casa, ainda agora, alguns levitas de<br \/>\n<br \/>renome, rec\u00e9m-chegados de Chipre.<\/p>\n<p>\u2014Que o Mestre te aben\u00e7oe os bons prop\u00f3sitos \u2014 disse o velho sorridente.<\/p>\n<p>Saulo sentia-se feliz.<br \/> A presen\u00e7a de Ananias confortava-o sobremodo.<\/p>\n<p>Como velhos e fi\u00e9is amigos, almo \u00e7aram juntos.<br \/> Em seguida e sempre<br \/>\n<br \/>satisfeito, o generoso enviado do Cristo retirou-se, deixando o ex-rabino todo<br \/>\n<br \/>entregue \u00e0 meticulosa c\u00f3pia dos textos.<\/p>\n<p>No dia seguinte, Saulo de Tarso levantou-se l\u00e9pido e bem disposto.<br \/> Sentiase<br \/>\n<br \/>revigorado para uma vida nova.<br \/> As recorda\u00e7\u00f5es amargas lhe desertaram da<br \/>\n<br \/>mem\u00f3ria.<br \/> A influ\u00eancia de Jesus enchia -o de alegrias substanciosas e<br \/>\n<br \/>duradouras.<br \/> Tinha a impress\u00e3o de haver aberto uma porta nova em sua a lma,<br \/>\n<br \/>por onde sopravam c\u00e9leres as inspira\u00e7\u00f5es de um mundo maior.<\/p>\n<p>Depois da primeira refei\u00e7\u00e3o, n\u00e3o obstante o dissa bor que a atitude de<br \/>\n<br \/>Sadoc lhe causara, procurou avis tar-se com o amigo, levado pela sinceridade<br \/>\n<br \/>que lhe pautava os m\u00ednimos atos da vida.<br \/> N\u00e3 o o encontrou, contudo, na<br \/>\n<br \/>resid\u00eancia particular.<br \/> Um servo informou que o amo sa\u00edra com alguns<br \/>\n<br \/>h\u00f3spedes em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 sinagoga.<\/p>\n<p>Saulo foi at\u00e9 l\u00e1.<br \/> Os trabalhos do dia estavam ini ciados.<br \/> Fora feita a leitura<br \/>\n<br \/>dos textos de Mois\u00e9s.<br \/> Um dos levitas de Citium ha via tomado a palavra para os<br \/>\n<br \/>respectivos coment\u00e1rios.<\/p>\n<p>133<br \/>\n<br \/>A entrada do ex-rabino provocou curiosidade geral.<br \/> A maioria dos<br \/>\n<br \/>presentes tinha conhecimento da sua import\u00e2ncia pessoal, bem como do seu<br \/>\n<br \/>verbo ardoroso e seguro.<br \/> Sadoc, por\u00e9m, ao v\u00ea -lo, fez-se p\u00e1lido, e mais ainda<br \/>\n<br \/>quando e jovem de Tarso lhe pediu uma palavra em particular.<br \/> Embora<br \/>\n<br \/>contrafeito, foi-lhe ao encontro.<br \/> Cumprimentaram-se sem dissimular a nova<br \/>\n<br \/>impress\u00e3o que, j\u00e1 agora, mantinham entre si.<\/p>\n<p>Em face das primeiras observa\u00e7\u00f5es do novel evan gelista, formuladas em<br \/>\n<br \/>tom am\u00e1vel, o amigo de Damasco explicou, evidenciando o seu orgulho<br \/>\n<br \/>ofendido:<br \/>\n<br \/>\u2014 De fato, sabia que estavas na cidade e cheguei mesmo a procurar -te na<br \/>\n<br \/>pens\u00e3o de Judas; tais foram, por\u00e9m, as informa\u00e7\u00f5es do hoteleiro, que me<br \/>\n<br \/>abstive de ir ao teu aposento.<br \/> E cheguei at\u00e9 a pedir -lhe segredo da minha<br \/>\n<br \/>visita.<br \/> Com efeito, parece incr\u00edvel que te ren desses, tamb\u00e9m tu, passivamente,<br \/>\n<br \/>aos sortil\u00e9gios do \u201cCaminho\u201d! N\u00e3o posso compreender semelhante transmuta &#8211;<br \/>\n<br \/>\u00e7\u00e3o em tua robusta mentalidade.<\/p>\n<p>\u2014Mas, Sadoc \u2014 replicou o jovem tarsense muito calmo \u2014, eu vi Jesus<br \/>\n<br \/>ressuscitado.<br \/>.<br \/>.<\/p>\n<p>O outro fez grande esfor\u00e7o para conter uma ruidosa gargalhada.<\/p>\n<p>\u2014Ser\u00e1 poss\u00edvel \u2014 objetou com zombaria \u2014 que tua \u00edndole sentimental,<br \/>\n<br \/>t\u00e3o contr\u00e1ria a manifesta\u00e7\u00f5es de misticismo, tenha capi tulado nesse terreno?<br \/>\n<br \/>Acreditarias mesmo em tais vis\u00f5es? N\u00e3o poderias imaginar -te v\u00edtima de algum<br \/>\n<br \/>desfa\u00e7ado adepto do carpinteiro? Tuas atitudes de agora nos causar\u00e3o<br \/>\n<br \/>profunda vergonha.<br \/> Que dir\u00e3o os homens irrespons\u00e1veis, que nada conhecem<br \/>\n<br \/>da Lei de Mois\u00e9s? E a nossa posi\u00e7\u00e3o no partido dominante, da ra\u00e7a? Os<br \/>\n<br \/>colegas do farisa\u00edsmo h\u00e3o de arregalar os olhos, quando souberem da tua<br \/>\n<br \/>clamorosa defec\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando aceitei o encargo de perseguir os companheiros do oper\u00e1 rio de<br \/>\n<br \/>Nazar\u00e9, reprimindo-lhes as atividades perigosas, fi-lo pela amizade que te<br \/>\n<br \/>consagrava; e n\u00e3o te doer\u00e1 a trai\u00e7\u00e3o dos votos anteriores? Considera como se<br \/>\n<br \/>dificultar\u00e1 nosso escopo, quando se espalhar a not\u00edcia de que capitulaste<br \/>\n<br \/>perante esses homens sem cultura e sem consci\u00eancia.<\/p>\n<p>Saulo fitou o amigo, revelando imensa preocupa\u00e7\u00e3o no olhar ansioso.<\/p>\n<p>Aquelas acusa\u00e7\u00f5es eram as premissas do acolhimento que o aguardava no<br \/>\n<br \/>cen\u00e1culo dos velhos companheiros de lutas e edifica\u00e7\u00f5es religiosas.<\/p>\n<p>\u2014N\u00e3o \u2014 disse ele sentindo fundamente cada pa lavra \u2014, n\u00e3o posso<br \/>\n<br \/>aceitar as tuas arg\u00fci\u00e7\u00f5es.<br \/> Repito que vi Jesus de Nazar\u00e9 e devo proclamar que<br \/>\n<br \/>nele reconhe\u00e7o o Messias prometido pelos nossos profetas mais eminentes.<\/p>\n<p>Enquanto o outro fazia largo gesto admirativo, ao observar aquela inflex\u00e3o<br \/>\n<br \/>de certeza e sinceridade.<br \/> Saulo continuava convicto:<br \/>\n<br \/>\u2014 Quanto ao mais, considero que, a todo tempo, devemos e podemos<br \/>\n<br \/>reparar os erros do passado.<br \/> E \u00e9 com esse ardor de f\u00e9 que me proponho<br \/>\n<br \/>regenerar minhas pr\u00f3prias estradas.<\/p>\n<p>Trabalharei, doravante, pela minha certeza em Cristo Jesus.<br \/> N\u00e3 o \u00e9 justo<br \/>\n<br \/>que me perca em pondera\u00e7\u00f5es sentimentalistas, olvidando a ver dade; e assim<br \/>\n<br \/>procederei em benef\u00edcio dos meus pr\u00f3 prios amigos.<br \/> Os amantes das<br \/>\n<br \/>realidades da vida sempre foram os mais detestados, ao tempo em que<br \/>\n<br \/>viveram.<br \/> Que fazer? At\u00e9 aqui, minhas prega\u00e7\u00f5es nasciam dos textos recebidos<br \/>\n<br \/>dos antepassados vener\u00e1veis, mas, hoje, minhas asser\u00e7\u00f5es se baseiam n\u00e3o<br \/>\n<br \/>somente nos reposit\u00f3rios da tradi\u00e7\u00e3o, sen\u00e3o tamb\u00e9m na prova testemunhal.<\/p>\n<p>Sadoc n\u00e3o conseguiu ocultar a surpresa.<\/p>\n<p>134<br \/>\n<br \/>\u2014Mas.<br \/>.<br \/>.<br \/> a tua posi\u00e7\u00e3o? E os teus parentes? E<br \/>\n<br \/>o nome? E tudo que recebeste dos que rodeiam tua personalidade com<br \/>\n<br \/>fervorosos compromissos? \u2014 perguntou Sadoc revocando-o ao passado.<\/p>\n<p>Agora, estou com o Cristo e todos n\u00f3s lhe per tencemos.<br \/> Sua palavra<br \/>\n<br \/>divina convocou-me a esfor\u00e7os mais ardentes e ativos.<br \/> Aos que me<br \/>\n<br \/>compreenderem devo, naturalmente, a gratid\u00e3o mais sagrada; entretanto, para<br \/>\n<br \/>os que n\u00e3o possam entender guardarei a melhor atitude de serenidade,<br \/>\n<br \/>considerando que o pr\u00f3prio Mes sias foi levado \u00e0 cruz.<\/p>\n<p>\u2014Tamb\u00e9m tu com a mania do mart\u00edrio?<br \/>\n<br \/>O interpelado guardou uma bela express\u00e3o de digni dade pessoal e<br \/>\n<br \/>concluiu:<br \/>\n<br \/>\u2014N\u00e3o posso perder-me em opini\u00f5es levianas.<br \/> Espe rarei que o teu amigo<br \/>\n<br \/>de Chipre termine a prele\u00e7\u00e3o, para relatar minha experi\u00eancia diante de todos.<\/p>\n<p>\u2014Falar nisso aqui?<br \/>\n<br \/>\u2014Por que n\u00e3o?<br \/>\n<br \/>\u2014Seria mais razo\u00e1vel descansares da viagem e da enfermidade,<br \/>\n<br \/>meditando melhor no assunto, mesmo por que tenho esperan\u00e7a nas tuas<br \/>\n<br \/>reconsidera\u00e7\u00f5es, relativamente ao acontecido.<\/p>\n<p>\u2014Sabes, por\u00e9m, que n\u00e3o sou nenhuma crian\u00e7a e cumpre -me esclarecer a<br \/>\n<br \/>verdade, em qualquer circunst\u00e2ncia.<\/p>\n<p>\u2014E se te apuparem? E se fores considerado traidor?<br \/>\n<br \/>\u2014A fidelidade a Deus deve ser maior que tudo isso, aos nossos olhos.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 poss\u00edvel, no entanto, que n\u00e3o te concedam a palavra \u2014 ponderou<br \/>\n<br \/>Sadoc ap\u00f3s esbarrar com a for\u00e7a daquelas profundas convic\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u2014 Minha condi\u00e7\u00e3o \u00e9 bastante para que ningu\u00e9m se atreva a negar -me o<br \/>\n<br \/>que \u00e9 de justi\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o, seja.<br \/> Responder\u00e1s pelas conseq\u00fc\u00eancias \u2014 concluiu Sadoc<br \/>\n<br \/>constrangido.<\/p>\n<p>Naquele momento, ambos compreenderam a imen sid\u00e3o da linha divis\u00f3ria<br \/>\n<br \/>que os extremava.<br \/> Saulo per cebeu que a amizade que Sadoc sempre lhe<br \/>\n<br \/>testemunhara baseava-se nos interesses puramente humanos.<br \/> Abando nando a<br \/>\n<br \/>falsa carreira que lhe dava prest\u00edgio e brilho, via esfumar -se a cordialidade do<br \/>\n<br \/>outro.<br \/> Mas, de tal cogita\u00e7\u00e3o, logo lhe veio \u00e0 mente que, tamb\u00e9m ele, assim<br \/>\n<br \/>procederia, provavelmente, se n\u00e3o tivesse Jesus no cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Sereno e desassombrado, evitou aproximar -Se do local onde se<br \/>\n<br \/>acomodavam os visitantes ilustres, bus cando aproximar-se do largo estrado em<br \/>\n<br \/>que se improvisara uma nova tribuna.<br \/> Terminada a disserta\u00e7\u00e3o do levita de<br \/>\n<br \/>Citium, Saulo surgiu \u00e0 vista de todos os presentes, que o saudaram com<br \/>\n<br \/>olhares ansiosos.<br \/> Cumprimentou, af\u00e1vel, os diretores da reuni\u00e3o e pediu v\u00eania<br \/>\n<br \/>para expor suas id\u00e9ias.<\/p>\n<p>Sadoc n\u00e3o tivera coragem de criar um ambiente antip\u00e1tico, para deixar que<br \/>\n<br \/>tudo corresse \u00e0 fei\u00e7\u00e3o das circunst\u00e2ncias, e foi por isso que os sacerdotes<br \/>\n<br \/>apertaram a m\u00e3o de Saulo com a simpatia de sempre, acolhendo com imensa<br \/>\n<br \/>alegria o seu alvitre.<\/p>\n<p>Com a palavra, o ex-rabino ergueu a fronte, nobremente, como costumava<br \/>\n<br \/>fazer nos seus dias triunfais.<\/p>\n<p>\u2014 Var\u00f5es de Israel! come\u00e7ou em tom solene \u2014 em nome do Todo-<br \/>\n<br \/>Poderoso, venho anunciar-vos hoje, pela primeira vez, as verdades da nova<br \/>\n<br \/>revela\u00e7\u00e3o.<br \/> Temos ignorado, at\u00e9 agora, o fato culminante da vida da Hu &#8211;<br \/>\n<br \/>manidade, O Messias prometido j\u00e1 veio, consoante o afirmaram os profetas<br \/>\n<br \/>135<br \/>\n<br \/>que se glorificaram na virtude e no sofrimento.<br \/> Jesus de Nazar\u00e9 \u00e9 o Salvador<br \/>\n<br \/>dos pecadores.<\/p>\n<p>Uma bomba que estourasse no recinto, n\u00e3o causa ria maior espanto.<br \/> Todos<br \/>\n<br \/>fixavam o orador, at\u00f4nitos.<br \/> A assembl\u00e9ia estava obst\u00fapida.<br \/> Saulo, contudo,<br \/>\n<br \/>prosseguia intr\u00e9pido, depois de uma pausa:<br \/>\n<br \/>\u2014N\u00e3o vos assombreis com o que vos digo.<br \/> Conhe ceis minha consci\u00eancia<br \/>\n<br \/>pela retid\u00e3o de minha vida, pela minha fidelidad e \u00e0s leis divinas.<br \/> Pois bem: \u00e9<br \/>\n<br \/>com este patrim\u00f4nio do passado que vos falo hoje, reparando as faltas<br \/>\n<br \/>involunt\u00e1rias que cometi nos impulsos sinceros de uma persegui\u00e7\u00e3o cruel e<br \/>\n<br \/>injusta.<br \/> Em Jerusal\u00e9m fui o primeiro a condenar os ap\u00f3stolos do \u201cCaminho\u201d;<br \/>\n<br \/>provoquei a uni\u00e3o de romanos e israelitas para a repress\u00e3o, sem tr\u00e9guas, a<br \/>\n<br \/>todas as atividades que se prendessem ao Nazareno; varejei lares sagrados,<br \/>\n<br \/>encarcerei mulheres e crian\u00e7as, submeti alguns \u00e0 pena de morte, ocasionei um<br \/>\n<br \/>vasto \u00eaxodo das massas oper\u00e1rias que trabalhavam pacificamente na cidade<br \/>\n<br \/>para seu progresso; criei para todos os esp\u00edritos mais sinceros um regime de<br \/>\n<br \/>sombras e terrores.<br \/> Fiz tudo isso, na falsa suposi\u00e7\u00e3o de defender a Deus,<br \/>\n<br \/>como se o Pai Supremo necessitasse de m\u00edseros defensores!.<br \/>.<br \/>.<br \/> Mas, de<br \/>\n<br \/>viagem para esta cidade, autorizado pelo Sin\u00e9drio e pela Corte Provincial, para<br \/>\n<br \/>invadir os lares alheios e perseguir criaturas inofensivas e ino centes, eis que<br \/>\n<br \/>Jesus me aparece \u00e0s vossas portas e me pergunta, em pleno meio -dia, na<br \/>\n<br \/>paisagem desolada e deserta: \u2014 Saulo, Saulo, por que me persegues?<br \/>\n<br \/>A essa evoca\u00e7\u00e3o, a voz eloq\u00fcente se enternecia e as l\u00e1grimas lhe corriam<br \/>\n<br \/>copiosas.<\/p>\n<p>Interrompera-se ao recordar a ocorr\u00eancia decisiva do seu destino.<br \/> Os<br \/>\n<br \/>ouvintes contemplavam-no assombrados.<\/p>\n<p>\u2014Que \u00e9 isso? \u2014 diziam alguns.<\/p>\n<p>\u2014O doutor de Tarso graceja!.<br \/>.<br \/>.<br \/> \u2014 afirmavam outros sorrindo, convictos de<br \/>\n<br \/>que o jovem tribuno estivesse buscando maior efeito orat\u00f3rio.<\/p>\n<p>\u2014N\u00e3o, amigos \u2014 exclamou com veem\u00eancia \u2014, jamais gracejei convosco<br \/>\n<br \/>nas tribunas sagradas.<br \/> O Deus justo n \u00e3o permitiu que minha viol\u00eancia<br \/>\n<br \/>criminosa fosse at\u00e9 ao fim, em detrimento da verdade, e consentiu, por<br \/>\n<br \/>miseric\u00f3rdia de acr\u00e9scimo, que o m\u00edsero servo n\u00e3o encon trasse a morte sem<br \/>\n<br \/>vos trazer a luz da cren\u00e7a nova!.<br \/>.<br \/>.<\/p>\n<p>N\u00e3o obstante o ardor da prega\u00e7\u00e3o, q ue deixava em todos os ouvidos<br \/>\n<br \/>resson\u00e2ncias emocionais, rompeu no recinto estranho vozerio.<br \/> Alguns fariseus<br \/>\n<br \/>mais exaltados interpelaram Sadoc, em voz baixa, quanto ao ines perado<br \/>\n<br \/>daquela surpresa, obtendo a confirma\u00e7\u00e3o de que Saulo, de fato, parecia<br \/>\n<br \/>extremamente perturbado, alegando ter visto o carpinteiro de Nazar\u00e9 nas<br \/>\n<br \/>vizinhan\u00e7as de Damasco.<br \/> Imediatamente estabeleceu -se enorme confus\u00e3o em<br \/>\n<br \/>toda a sala, porque havia quem visse no caso perigosa defec\u00e7\u00e3o do rabino, e<br \/>\n<br \/>quem opinasse por enfermidade s\u00fabita, que o houvesse dementado.<\/p>\n<p>\u2014Var\u00f5es de minha antiga f\u00e9 \u2014 trovejou a voz do mo\u00e7o tarsense, mais<br \/>\n<br \/>incisiva \u2014, \u00e9 in\u00fatil tentardes empanar a verdade.<br \/> N\u00e3o sou traidor nem estou<br \/>\n<br \/>doente.<br \/> Estamos defrontando uma era nova, em face da qual todos os nossos<br \/>\n<br \/>caprichos religiosos s\u00e3o insignificantes.<\/p>\n<p>Uma chuva de improp\u00e9rios cortou-lhe repentina-mente a palavra.<\/p>\n<p>\u2014 Covarde! Blasfemo! C\u00e3o do \u201cCaminho\u201d!.<br \/>.<br \/>.<br \/> Fora o traidor de Mois\u00e9s!.<br \/>.<br \/>.<\/p>\n<p>Os apodos partiam de todos os lados.<br \/> Os mais afei \u00e7oados ao ex-rabino,<br \/>\n<br \/>que se inclinavam a sup\u00f4-lo v\u00edtima de graves perturba\u00e7\u00f5es mentais, entraram<br \/>\n<br \/>em conflito com os fariseus mais rudes e rigorosos.<br \/> Algumas ben galas foram<br \/>\n<br \/>136<br \/>\n<br \/>atiradas \u00e0 tribuna com extrema violencia.<br \/> Os grupos, que se haviam atracado<br \/>\n<br \/>em luta, espalhavam forte celeuma na sinagoga, percebendo o orador que se<br \/>\n<br \/>encontravam na imin\u00eancia de irrepar\u00e1veis desastres.<\/p>\n<p>Foi quando um dos levitas mais idosos assomou ao grande estrado,<br \/>\n<br \/>levantando a voz com toda a energia de que era capaz e rogando aos<br \/>\n<br \/>presentes acompanh\u00e1-lo na recita\u00e7\u00e3o de um dos Salmos de David.<br \/> O convite<br \/>\n<br \/>foi aceito por todos.<br \/> Os mais exaltados repetiram a prece, tomados de<br \/>\n<br \/>vergonha.<\/p>\n<p>Saulo acompanhava a cena com profundo interesse.<\/p>\n<p>Terminada a ora\u00e7\u00e3o, disse o sacerdote, com \u00eanfase irritante:<br \/>\n<br \/>\u2014 Lamentemos este epis\u00f3dio, mas evitemos a confus\u00e3o que em nada<br \/>\n<br \/>aproveita.<br \/> At\u00e9 ontem, Saulo de Tarso honrava as nossas fileiras como<br \/>\n<br \/>paradigma de triunfo; hoje, sua palavra \u00e9 para n\u00f3s um galho de espinhos.<br \/> Com<br \/>\n<br \/>um passado respeit\u00e1vel, esta atitude de agora s\u00f3 nos merece condena\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Perj\u00fario? Dem\u00eancia? N\u00e3o o sabemos com certeza.<br \/> Outro fora o tribuno e<br \/>\n<br \/>apedrej\u00e1-lo-\u00edamos sem pestanejar; mas, com um antigo colega os processos<br \/>\n<br \/>devem ser outros.<br \/> Se est\u00e1 doente, s\u00f3 merece compaix\u00e3o; se traidor, s\u00f3 poder\u00e1<br \/>\n<br \/>merecer absoluto desprezo.<br \/> Que Jerusal\u00e9m o julgue como seu embaixador.<\/p>\n<p>Quanto a n\u00f3s, encerremos as prega\u00e7\u00f5es da sinagoga e recolhamo -nos \u00e0 paz<br \/>\n<br \/>dos fi\u00e9is cumpridores da Lei.<\/p>\n<p>O ex-rabino suportou a increpa\u00e7\u00e3o com grande sere nidade a lhe<br \/>\n<br \/>transparecer dos olhos.<\/p>\n<p>Intimamente, sentia-se ferido no seu amor-pr\u00f3prio.<br \/> Os remanescentes do<br \/>\n<br \/>\u201chomem velho\u201d exigiam revide e repara\u00e7\u00e3o imediata, ali mesmo, \u00e0 vista de<br \/>\n<br \/>todos.<br \/> Quis falar novamente, exigir a palavra, obrigar os companheiros a ouvi &#8211;<br \/>\n<br \/>lo, mas sentia-se presa de emo\u00e7\u00f5es incoerc\u00edveis, que l he infirmavam os<br \/>\n<br \/>\u00edmpetos explosivos.<br \/> Im\u00f3vel, notou que velhos afei\u00e7oa dos de Damasco<br \/>\n<br \/>abandonavam o recinto calmamente, sem lhe fazer sequer uma ligeira<br \/>\n<br \/>sauda\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Observou, tamb\u00e9m, que os levitas de Citium pareciam entend\u00ea -lo, atrav\u00e9s<br \/>\n<br \/>de um olhar de simpatia, ao mesmo tempo que Sadoc fixava -o com ironia e<br \/>\n<br \/>risinhos de triunfo.<br \/> Era o rep\u00fadio que chegava.<br \/> Acostumado aos aplausos onde<br \/>\n<br \/>quer que aparecesse, fora v\u00edtima da pr\u00f3pria ilus\u00e3o, acreditando que, para falar<br \/>\n<br \/>com \u00eaxito, sobre Jesus, bastavam os lour os ef\u00eameros j\u00e1 conquistados ao<br \/>\n<br \/>mundo.<br \/> Enganara-se.<br \/> Seus c\u00f4mparas punham-no \u00e0 margem, como in\u00fatil.<\/p>\n<p>Nada lhe do\u00eda mais que ser assim desaproveitado, quando lhe ardia nalma<br \/>\n<br \/>a devo\u00e7\u00e3o sacerdotal.<br \/> Preferia que o esbofeteassem, que o prendessem, que o<br \/>\n<br \/>flagelassem, mas n\u00e3o lhe tirassem o ensejo de discutir sem peias, a todos<br \/>\n<br \/>vencendo e convencendo com a l\u00f3gica de suas defini\u00e7\u00f5es.<br \/> Aquele abandono<br \/>\n<br \/>feria-o fundo, porque, antes de qual quer considera\u00e7\u00e3o, reconhecia n\u00e3o laborar<br \/>\n<br \/>em benef\u00edcio pessoal, por vaidade ou ego\u00edsmo, mas pelos pr\u00f3prios<br \/>\n<br \/>correligion\u00e1rios atidos \u00e0s concep\u00e7\u00f5es r\u00edgidas e inflex\u00edveis da Lei.<br \/> Aos poucos a<br \/>\n<br \/>sinagoga ficara deserta, sob o calor ardente das primeiras horas da tarde.<\/p>\n<p>Saulo sentou-se num banco tosco e chorou.<br \/> Era a luta entre a vaidade de<br \/>\n<br \/>outros tempos e a ren\u00fancia de si mesmo, que come\u00e7ava.<br \/> Para conforto da<br \/>\n<br \/>alma opressa, recordou a narrativa de Ananias, no cap\u00edtulo em que Jesus<br \/>\n<br \/>dissera ao velho disc\u00edpulo que lhe mostraria quanto importava sofrer por amor<br \/>\n<br \/>ao seu nome.<\/p>\n<p>Acabrunhado, retirou-se do Templo, em busca do benfeitor, a fim de<br \/>\n<br \/>reconfortar-se com a sua palavra.<\/p>\n<p>137<br \/>\n<br \/>Ananias n\u00e3o se mostrou surpreendido com a expo si\u00e7\u00e3o das ocorr\u00eancias.<\/p>\n<p>\u2014Vejo-me cercado de enormes dificuldades \u2014 dizia Saulo um tanto<br \/>\n<br \/>perturbado.<\/p>\n<p>Sinto-me no dever de espalhar a nova doutrina, felicitando os nossos<br \/>\n<br \/>semelhantes; Jesus encheu-me o cora\u00e7\u00e3o de energias inesperadas, mas a<br \/>\n<br \/>secura dos homens \u00e9 de amedrontar os mais fortes.<\/p>\n<p>\u2014Sim \u2014 explicava o anci\u00e3o paciente \u2014, o Senhor conferiu-te a tarefa do<br \/>\n<br \/>semeador; tens muito boa-vontade, mas, que faz um homem recebendo<br \/>\n<br \/>encargos dessa natureza? Antes de tudo, procura ajuntar as sementes no seu<br \/>\n<br \/>mealheiro particular, para que o esfor\u00e7o seja prof\u00edcuo.<\/p>\n<p>O ne\u00f3fito percebeu o alcance da compara\u00e7\u00e3o e per guntou:<br \/>\n<br \/>\u2014Mas, que desejais dizer com isso?<br \/>\n<br \/>\u2014Quero dizer que um homem de vida pura e reta, sem os erros da pr\u00f3pria<br \/>\n<br \/>boa-inten\u00e7\u00e3o, est\u00e1 sempre pronto a plantar o bem e a justi\u00e7a no roteiro que<br \/>\n<br \/>perlustra; mas aquele que j\u00e1 se enganou, ou que guarda alguma culpa, tem<br \/>\n<br \/>necessidade de testemunhar no sofrimento pr\u00f3prio, antes de ensinar.<br \/> Os que<br \/>\n<br \/>n\u00e3o forem integralmente puros, ou nada sofreram no caminho, jamais s\u00e3o bem<br \/>\n<br \/>compreendidos por quem lhes ouve simplesmente a palavra.<br \/> Contra os seus<br \/>\n<br \/>ensinos est\u00e3o suas pr\u00f3prias vidas.<br \/> Al\u00e9m do mais, tud o que \u00e9 de Deus reclama<br \/>\n<br \/>grande paz e profunda compreens\u00e3o.<br \/> No teu caso, deves pensar na li\u00e7\u00e3o de<br \/>\n<br \/>Jesus permanecendo trinta anos entre n\u00f3s, preparando -se para suportar nossa<br \/>\n<br \/>presen\u00e7a durante apenas tr\u00eas.<br \/> Para receber uma tarefa do C\u00e9u, David con &#8211;<br \/>\n<br \/>viveu com a Natureza apascentando rebanhos; para desbravar as estradas do<br \/>\n<br \/>Salvador, Jo\u00e3o Batista meditou muito tempo nos \u00e1speros desertos da Jud\u00e9ia.<\/p>\n<p>As pondera\u00e7\u00f5es carinhosas de Ananias ca\u00edam-lhe na alma opressa como<br \/>\n<br \/>b\u00e1lsamo vitalizante.<\/p>\n<p>\u2014 Quando hajas sofrido mais \u2014 continuava o benfeitor e amigo sincero \u2014,<br \/>\n<br \/>ter\u00e1s apurado a compreens\u00e3o dos homens e das coisas, S\u00f3 a dor nos ensina a<br \/>\n<br \/>ser humanos.<br \/> Quando a criatura entra no per\u00edodo mais perigoso da exist\u00eancia,<br \/>\n<br \/>depois da matinal inf\u00e2ncia e antes da noite da velhice; qua ndo a vida exubera<br \/>\n<br \/>energias, Deus lhe envia os filhos, para que, com os tra balhos, se lhe<br \/>\n<br \/>enterne\u00e7a o cora\u00e7\u00e3o.<br \/> Pelo que me h\u00e1s confessado, \u00e9 poss\u00edvel n\u00e3o venhas a<br \/>\n<br \/>ser pai, mas ter\u00e1s os filhos do Calv\u00e1rio em toda parte.<br \/> N\u00e3o viste Sim\u00e3o Pedro,<br \/>\n<br \/>em Jerusal\u00e9m, rodeado de infelizes? Naturalmente, encontrar\u00e1s um lar maior<br \/>\n<br \/>na Terra, onde ser\u00e1s chamado a exercer a fraternidade, o amor, o perd\u00e3o.<br \/>.<br \/>.<br \/> \u00c9<br \/>\n<br \/>preciso morrer para o mundo, para que o Cristo viva em n\u00f3s.<br \/>.<br \/>.<\/p>\n<p>Aquelas observa\u00e7\u00f5es t\u00e3o sadias e t\u00e3o mansas pene traram o esp\u00edrito do exrabino<br \/>\n<br \/>como b\u00e1lsamo de consola\u00e7\u00e3o de horizontes mais vastos.<br \/> Suas palavras<br \/>\n<br \/>carinhosas fizeram-no recordar algu\u00e9m que o amava muito.<br \/> De c\u00e9rebro<br \/>\n<br \/>cansado pelos embates do dia, Saulo esfor \u00e7ava-se por fixar melhor as id\u00e9ias.<\/p>\n<p>Ah!.<br \/>.<br \/>.<br \/> agora se lembrava perfeitamente.<br \/> Esse algu\u00e9m era Gamaliel.<br \/> Veio -lhe de<br \/>\n<br \/>s\u00fabito o desejo de se avistar com o velho mestre.<br \/> compreendia a raz\u00e3o<br \/>\n<br \/>daquela lembran\u00e7a.<br \/> \u00c9 que, tamb\u00e9m ele, pela \u00faltima vez, lhe falara da<br \/>\n<br \/>necessidade que sentia dos lugares ermos, para medi tar as sublimes verdades<br \/>\n<br \/>novas.<br \/> Sabia-o em Palmira, na companhia de um irm\u00e3o.<br \/> Como n\u00e3o se<br \/>\n<br \/>recordara ainda do antigo mestre, que lhe fora quase um pai? Certamente,<br \/>\n<br \/>Gamaliel receb\u00ea-lo-ia de bra\u00e7os abertos, regozijar -se-ia com as suas<br \/>\n<br \/>conquistas recentes, dar-lhe-ia conselhos generosos quanto aos rumos a<br \/>\n<br \/>seguir.<\/p>\n<p>Engolfado em recorda\u00e7\u00f5es cariciosas, agradeceu a Ananias com um olhar<br \/>\n<br \/>138<br \/>\n<br \/>significativo, acrescentando sen sibilizado:<br \/>\n<br \/>\u2014 Tendes raz\u00e3o.<br \/>.<br \/>.<br \/> Buscarei o deserto em vez de voltar a Jerusal\u00e9m<br \/>\n<br \/>precipitadamente, sem for\u00e7as, talvez, para enfrentar a incompreens\u00e3o dos<br \/>\n<br \/>meus confrades.<br \/> Tenho um velho amigo em Palmira, que me acolher\u00e1 de bom<br \/>\n<br \/>grado.<br \/> Ali repousarei algum tempo, at\u00e9 que possa internar -me pelas regi\u00f5es<br \/>\n<br \/>ermas, a fim de meditar as li\u00e7\u00f5es recebidas.<\/p>\n<p>Ananias aprovou a id\u00e9ia com um sorriso.<br \/> Ainda ficaram conversando longo<br \/>\n<br \/>tempo, at\u00e9 que a noite mergulhou a alma das coisas no seu vel\u00e1rio de sombras<br \/>\n<br \/>espessas.<\/p>\n<p>O velho pregador conduziu, ent\u00e3o, o novo adepto para a humilde reuni\u00e3o<br \/>\n<br \/>que se realizava nesse s\u00e1bado de grandes desilus\u00f5es para o ex-rabino.<\/p>\n<p>Damasco n\u00e3o tinha propriamente uma igreja; en tretanto, contava<br \/>\n<br \/>numerosos crentes irmanados pelo ideal religioso do \u201cCaminho\u201d.<br \/> O n\u00facleo de<br \/>\n<br \/>ora\u00e7\u00f5es era em casa de uma lavadeira humilde, companheira de f\u00e9, que<br \/>\n<br \/>alugava a sala para poder acudir a um filho paral\u00edtico.<br \/> Profundamente<br \/>\n<br \/>admirado, o mo\u00e7o tarsense enxergou ali a miniatura do quadro observado pela<br \/>\n<br \/>primeira vez, quando tivera a curiosidade invenc\u00edvel de assistir \u00e0s c\u00e9lebres<br \/>\n<br \/>prega\u00e7\u00f5es de Estev\u00e3o em Jerusal\u00e9m.<br \/> Em torno da mesa r\u00fastica, juntavam-se<br \/>\n<br \/>m\u00edseras criaturas da plebe, que ele sempre mantivera separada da sua esfera<br \/>\n<br \/>social.<br \/> Mulheres analfabetas com crian\u00e7as ao colo, velhos pe dreiros rudes,<br \/>\n<br \/>lavadeiras que n\u00e3o conseguiam conjugar duas palavras certas.<br \/> Anci\u00e3es de<br \/>\n<br \/>m\u00e3os tr\u00eamulas, amparando-se a cajados fortes, doentes mis\u00e9rrimos que<br \/>\n<br \/>exibiam a marca de enfermidades dolorosas.<br \/> A cerim\u00f4nia parecia ainda mais<br \/>\n<br \/>simples que as de Sim\u00e3o Pedro e seus com panheiros galileus.<br \/> Ananias<br \/>\n<br \/>chefiava e presidia o ato.<br \/> Sentando -se \u00e0 mesa, qual patriarca no seio da<br \/>\n<br \/>fam\u00edlia, rogou as b\u00ean\u00e7\u00e3os de Jesus para a boa -vontade de todos.<br \/> Em seguida,<br \/>\n<br \/>fez a leitura dos ensinos de Jesus, respi gando algumas senten\u00e7as do Mestre<br \/>\n<br \/>Divino nos pergaminhos esparsos.<br \/> Depois de comentar a p\u00e1gina lida,<br \/>\n<br \/>ilustrando-a com a exposi\u00e7\u00e3o de fatos significativos, do seu conhecimento, ou<br \/>\n<br \/>da sua experi\u00eancia pessoal, o velho disc\u00edpulo do Evangelho deixava o lugar,<br \/>\n<br \/>percorria as filas de bancos e impunha as m\u00e3os sobre os doentes e<br \/>\n<br \/>necessitados.<br \/> Comumente, segundo o h\u00e1bito das primeiras c\u00e9lulas crist\u00e3s do<br \/>\n<br \/>primeiro s\u00e9culo, ao memorar as alegrias de Jesus quando servia o repasto aos<br \/>\n<br \/>disc\u00edpulos, fazia-se modesta distribui\u00e7\u00e3o de p\u00e3o e \u00e1gua pura, em nome do<br \/>\n<br \/>Senhor.<br \/> Saulo serviu-se do bolo simples, enternecidamente.<br \/> Para sua alma, o<br \/>\n<br \/>cibo mesquinho tinha o sabor divino da fraternidade universal.<br \/> A \u00e1gua clara e<br \/>\n<br \/>fresca da bilha grosseira soube-lhe a flu\u00eddo de amor que partia de Jesus,<br \/>\n<br \/>comunicando-se a todos os seres.<br \/> Ao fim da reuni\u00e3o, Ananias orava<br \/>\n<br \/>fervorosamente.<br \/> Depois de contar a vi s\u00e3o de Saulo e a sua pr\u00f3pria, nos<br \/>\n<br \/>coment\u00e1rios singelos daquela noite, pedia ao Salvador prote gesse o novo<br \/>\n<br \/>servo em demanda a Palmira, a fim de meditar mais demoradamente na<br \/>\n<br \/>imensid\u00e3o de suas miseric\u00f3rdias.<br \/> Ouvindo-lhe a rogativa que o calor da<br \/>\n<br \/>amizade revestia de amavio singular, Saulo chorou de reconheci mento e<br \/>\n<br \/>gratid\u00e3o, comparando as emo\u00e7\u00f5es do rabino que fora, com as do servo de<br \/>\n<br \/>Jesus que agora queria ser.<br \/> Nas reuni\u00f5es suntuosas do Sin\u00e9drio, jamais ouvira<br \/>\n<br \/>um companheiro exorar ao C\u00e9u com aquela sincer idade superior.<br \/> Entre os<br \/>\n<br \/>mais afei\u00e7oados s\u00f3 encontrara elogios v\u00e3os, prontos a se transformarem em<br \/>\n<br \/>cal\u00fanias torpes, quando lhes n\u00e3o podia conceder favores materiais.<br \/> Em toda<br \/>\n<br \/>parte, admira\u00e7\u00e3o superficial, filha do jogo dos interesses inferiores.<br \/> Ali, a<br \/>\n<br \/>situa\u00e7\u00e3o era outra.<br \/> Nenhuma daquelas criaturas desfavorecidas da sorte viera<br \/>\n<br \/>139<br \/>\n<br \/>pedir-lhe f\u00e1cilidades; todos pareciam satisfeitos ao servi\u00e7o de Deus, que assim<br \/>\n<br \/>os congregava a termo de trabalhos exaustivos e penosos.<br \/> E, por fim, ainda<br \/>\n<br \/>rogavam a Jesus lhe concedesse paz de esp\u00edrito para o seu empreendimento.<\/p>\n<p>Terminada a reuni\u00e3o, Saulo de Tarso tinha l\u00e1gri mas nos olhos.<br \/> Na igreja do<br \/>\n<br \/>\u201cCaminho\u201d, em Jerusal\u00e9m, os Ap\u00f3stolos galileus o trataram com especial<br \/>\n<br \/>defer\u00eancia, atentos \u00e0 sua posi\u00e7\u00e3o social e pol\u00edtica, senhor da s regalias que as<br \/>\n<br \/>conven\u00e7\u00f5es do mundo lhe conferiam; mas os crist\u00e3os de Damasco<br \/>\n<br \/>impressionaram-no mais vivamente, arrebataram-lhe a alma, conquistando-a<br \/>\n<br \/>para uma afei\u00e7\u00e3o imorredoura, com aquele gesto de confian\u00e7a e cari nho,<br \/>\n<br \/>tratando-o como irm\u00e3o.<\/p>\n<p>Um a um, apertaram-lhe a m\u00e3o com votos de feliz viagem.<br \/> Alguns velhos<br \/>\n<br \/>mais humildes beijaram-lhe as m\u00e3os.<br \/> Tais provas de afeto davam-lhe novas<br \/>\n<br \/>for\u00e7as.<br \/> Se os amigos do juda\u00edsmo lhe desprezavam a palavra, acintosos e<br \/>\n<br \/>hostis, come\u00e7ava agora a encontrar no seu camin ho os filhos do Calv\u00e1rio.<\/p>\n<p>Trabalharia por eles, consagraria ao seu consolo as energias da mocidade.<\/p>\n<p>Pela primeira vez na vida, revelou interesse pelo sor riso das criancinhas.<br \/> Como<br \/>\n<br \/>se desejasse retribuir as demonstra\u00e7\u00f5es de carinho recebidas, tomou nos<br \/>\n<br \/>bra\u00e7os um menino doente.<br \/> Diante da pobre m\u00e3e sorridente e agradecida, fez &#8211;<br \/>\n<br \/>lhe festas, acariciou-lhe os cabelos desajeitadamente.<br \/> Entre os ac\u00faleos<br \/>\n<br \/>agressivos de sua alma apaixonada, come\u00e7avam a desabrochar as flores de<br \/>\n<br \/>ternura e gratid\u00e3o.<\/p>\n<p>Ananias estava satisfeito.<br \/> Junto dos irm\u00e3os de mais confian\u00e7a,<br \/>\n<br \/>acompanhou o ne\u00f3fito at\u00e9 \u00e0 pens\u00e3o de Judas.<br \/> Aquele modesto grupo<br \/>\n<br \/>desconhecido percorreu as ruas banhadas de luar, estreitamente unido e<br \/>\n<br \/>reconfortando-se em coment\u00e1rios crist\u00e3os.<br \/> Saulo admirava -se de haver<br \/>\n<br \/>encontrado t\u00e3o depressa aquela chave de harmonia que lhe proporcionava<br \/>\n<br \/>segura confian\u00e7a em todos.<br \/> Teve a impress\u00e3o de que nas genu\u00ednas<br \/>\n<br \/>comunidades do Cristo a amizade era diferente de tudo que lhe dava<br \/>\n<br \/>express\u00e3o nos agrupamentos mundanos.<br \/> Na diversidade das lutas sociais o<br \/>\n<br \/>tra\u00e7o dominante das rela\u00e7\u00f5es cifrava -se agora, a seus olhos, nas vantagens do<br \/>\n<br \/>interesse individual; ao passo que, na unidade de esfor\u00e7os da tarefa do Mestre,<br \/>\n<br \/>havia um cunho divino de confian\u00e7a, como se os com promissos tivessem o<br \/>\n<br \/>ascendente divino, original.<\/p>\n<p>Todos falavam, como nascidos no mesmo lar.<br \/> Se expunham uma id\u00e9ia<br \/>\n<br \/>digna de maior pondera\u00e7\u00e3o, faziam-no com serenidade e geral compreens\u00e3o<br \/>\n<br \/>do dever; se versavam assuntos leves e simples, os coment\u00e1rios timbravam<br \/>\n<br \/>franca e confortadora alegria.<br \/> Em nenhum deles notava a preocupa\u00e7\u00e3o de<br \/>\n<br \/>parecer menos sincero na defesa dos seus pontos de vista; mas, ao inv\u00e9s,<br \/>\n<br \/>lhaneza de trato sem laivos de hipocrisia, porque, em regra, sentiam -se sob a<br \/>\n<br \/>tutela do Cristo, que, para a consci\u00eancia de cada um, era o amigo i nvis\u00edvel e<br \/>\n<br \/>presente, a quem ningu\u00e9m deveria enganar.<\/p>\n<p>Consolado e satisfeito de haver encontrado amigos na verdadeira acep\u00e7\u00e3o<br \/>\n<br \/>da palavra, Saulo chegou \u00e0 estalagem de Judas, despedindo -se de todos<br \/>\n<br \/>profundamente comovido.<br \/> Ele pr\u00f3prio surpreendia -se com o sabor de<br \/>\n<br \/>Intimidade com que as express\u00f5es lhe afloravam aos l\u00e1bios.<br \/> Agora<br \/>\n<br \/>compreendia que a palavra \u201cirm\u00e3o\u201d, lar gamente usada entre os adeptos do<br \/>\n<br \/>\u201cCaminho\u201d, n\u00e3o era f\u00fatil e v\u00e3.<br \/> Os companheiros de Ananias conquistaram -lhe o<br \/>\n<br \/>cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nunca mais esqueceria os irm\u00e3os de Damasco.<\/p>\n<p>No dia imediato, contratando um servi\u00e7al indicado pelo estalajadeiro, Saulo<br \/>\n<br \/>140<br \/>\n<br \/>de Tarso, ao amanhecer, embora surpreendesse o dono da casa com o seu<br \/>\n<br \/>\u00e2nimo resoluto, p\u00f4s-se a caminho da cidade famosa, situada num o\u00e1sis em<br \/>\n<br \/>pleno deserto.<\/p>\n<p>Nas primeiras horas da manh\u00e3, sa\u00edam das portas de Damasco dois<br \/>\n<br \/>homens modestamente trajados, \u00e0 fren te de pequeno camelo carregado das<br \/>\n<br \/>necess\u00e1rias provis\u00f5es.<\/p>\n<p>Saulo fizera quest\u00e3o de partir assim, a p\u00e9, de modo a iniciar a vida com<br \/>\n<br \/>rigores que lhe seriam sumamente ben\u00e9ficos mais tarde.<br \/> N\u00e3o viajaria mais na<br \/>\n<br \/>qualidade de doutor da Lei, rodeado de servos, sim como disc\u00edpulo de Jesus,<br \/>\n<br \/>adstrito aos seus programas.<br \/> Por esse motivo, considerou prefer\u00edvel viajar<br \/>\n<br \/>como bedu\u00edno, para aprender a contar, sempre, com as pr\u00f3 prias for\u00e7as.<br \/> Sob o<br \/>\n<br \/>calor calcinante do dia, sob as b\u00ean\u00e7\u00e3os refrigeradoras do crep\u00fasculo, seu<br \/>\n<br \/>pensamento estava fixo naquele que o chamara do mundo para uma vida nova.<\/p>\n<p>As noites do deserto, quando o luar enche de sonho a desola\u00e7\u00e3o da paisagem<br \/>\n<br \/>morta, s\u00e3o tocadas de misteriosa beleza.<br \/> Sob as frondes de alguma tamareira<br \/>\n<br \/>solit\u00e1ria, o convertido de Damasco aproveitava o sil\u00eancio para profundas<br \/>\n<br \/>medita\u00e7\u00f5es.<br \/> O firmamento estrelado tinha, agora, para seu esp\u00edrito,<br \/>\n<br \/>confortadoras e permanentes mensagens.<br \/> Estava convi cto de que sua alma<br \/>\n<br \/>havia sido arrebatada a novos horizontes, porque, atrav\u00e9s de todas as coisas<br \/>\n<br \/>da Natureza, parecia receber o pensamento do Cristo que lhe falava<br \/>\n<br \/>carinhosamente ao cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<div class=\"pvc_clear\"><\/div>\n<p id=\"pvc_stats_18828\" class=\"pvc_stats all  \" data-element-id=\"18828\" style=\"\"><i class=\"pvc-stats-icon medium\" aria-hidden=\"true\"><svg aria-hidden=\"true\" focusable=\"false\" data-prefix=\"far\" 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O mo\u00e7o tarsense pareceu refletir um minuto e ac entuou: \u2014\u00c9 verdade que trago comigo algum dinheiro; en tretanto, estou em situa\u00e7\u00e3o muito dif\u00edcil: sinto precisar mais de assist\u00eancia moral que de repouso f\u00edsico. Tenho necessidade de algu\u00e9m que me&hellip; <br \/> <a class=\"read-more\" href=\"https:\/\/www.centronocaminhodaluz.com.br\/index.php\/artigo18828\/\">Leia mais<\/a><\/p>\n<div class=\"pvc_clear\"><\/div>\n<p id=\"pvc_stats_18828\" class=\"pvc_stats all  \" data-element-id=\"18828\" style=\"\"><i class=\"pvc-stats-icon medium\" aria-hidden=\"true\"><svg aria-hidden=\"true\" focusable=\"false\" data-prefix=\"far\" data-icon=\"chart-bar\" role=\"img\" xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" viewBox=\"0 0 512 512\" class=\"svg-inline--fa fa-chart-bar fa-w-16 fa-2x\"><path fill=\"currentColor\" d=\"M396.8 352h22.4c6.4 0 12.8-6.4 12.8-12.8V108.8c0-6.4-6.4-12.8-12.8-12.8h-22.4c-6.4 0-12.8 6.4-12.8 12.8v230.4c0 6.4 6.4 12.8 12.8 12.8zm-192 0h22.4c6.4 0 12.8-6.4 12.8-12.8V140.8c0-6.4-6.4-12.8-12.8-12.8h-22.4c-6.4 0-12.8 6.4-12.8 12.8v198.4c0 6.4 6.4 12.8 12.8 12.8zm96 0h22.4c6.4 0 12.8-6.4 12.8-12.8V204.8c0-6.4-6.4-12.8-12.8-12.8h-22.4c-6.4 0-12.8 6.4-12.8 12.8v134.4c0 6.4 6.4 12.8 12.8 12.8zM496 400H48V80c0-8.84-7.16-16-16-16H16C7.16 64 0 71.16 0 80v336c0 17.67 14.33 32 32 32h464c8.84 0 16-7.16 16-16v-16c0-8.84-7.16-16-16-16zm-387.2-48h22.4c6.4 0 12.8-6.4 12.8-12.8v-70.4c0-6.4-6.4-12.8-12.8-12.8h-22.4c-6.4 0-12.8 6.4-12.8 12.8v70.4c0 6.4 6.4 12.8 12.8 12.8z\" class=\"\"><\/path><\/svg><\/i> <img decoding=\"async\" width=\"16\" height=\"16\" alt=\"Loading\" data-src=\"https:\/\/www.centronocaminhodaluz.com.br\/wp-content\/plugins\/page-views-count\/ajax-loader-2x.gif\" border=0 src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" class=\"lazyload\" style=\"--smush-placeholder-width: 16px; --smush-placeholder-aspect-ratio: 16\/16;\" \/><\/p>\n<div class=\"pvc_clear\"><\/div>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[16],"tags":[],"class_list":["post-18828","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-mensagens-diversas"],"a3_pvc":{"activated":true,"total_views":657,"today_views":0},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.centronocaminhodaluz.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18828","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.centronocaminhodaluz.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.centronocaminhodaluz.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.centronocaminhodaluz.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.centronocaminhodaluz.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18828"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.centronocaminhodaluz.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18828\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.centronocaminhodaluz.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18828"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.centronocaminhodaluz.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18828"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.centronocaminhodaluz.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18828"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}