{"id":18863,"date":"2022-05-13T09:12:00","date_gmt":"2022-05-13T09:12:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.centronocaminhodaluz.com.br\/index.php\/artigo18863\/"},"modified":"2022-05-13T09:58:02","modified_gmt":"2022-05-13T12:58:02","slug":"artigo18863","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.centronocaminhodaluz.com.br\/index.php\/artigo18863\/","title":{"rendered":"3 Lutas e humilha\u00e7\u00f5es &#8211; PAULO E ESTEV\u00c3O &#8211;  FRANCISCO C\u00c2NDIDO XAVIER"},"content":{"rendered":"<p>A jornada se fez sem incidentes.<br \/> Entretanto, em sua nova soledade, o mo\u00e7o<br \/>\n<br \/>tarsense reconhecia que for\u00e7as invis\u00edveis proviam-lhe a mente de grandiosas e<br \/>\n<br \/>consoladoras inspira\u00e7\u00f5es.<br \/> Dentro da noite cheia de estrelas, tinha a impress\u00e3o<br \/>\n<br \/>de ouvir uma voz carinhosa e s\u00e1bia, a traduzir-se por apelos de infinito amor e<br \/>\n<br \/>de infinita esperan\u00e7a.<br \/> Desde o instante em que se desligara da com panhia<br \/>\n<br \/>amor\u00e1vel de \u00c1quila e sua mulher, quando se sen tiu absolutamente s\u00f3 para os<br \/>\n<br \/>grandes empreendimentos do seu novo destino, encontrou energias interiores<br \/>\n<br \/>at\u00e9 ent\u00e3o imprevistas, por desconhecidas.<\/p>\n<p>N\u00e3o podia definir aquele estado espiritual, mas o caso \u00e9 que dali por<br \/>\n<br \/>diante, sob a dire\u00e7\u00e3o de Jesus, Estev\u00e3o conservava -se a seu lado como<br \/>\n<br \/>companheiro fiel.<\/p>\n<p>Aquelas exorta\u00e7\u00f5es, aquelas vozes br andas e amigas que o assistiram em<br \/>\n<br \/>todo o curso apostolar e atribuidas diretamente ao Salvador, provinham do<br \/>\n<br \/>generoso m\u00e1rtir do \u201cCaminho\u201d, que o seguiu espiritualmente durante trinta<br \/>\n<br \/>anos, renovando-lhe constantemente as for\u00e7as para execu\u00e7\u00e3o das tarefas<br \/>\n<br \/>redentoras do Evangelho.<\/p>\n<p>Jesus quis, dessarte, que a primeira v\u00edtima das per segui\u00e7\u00f5es de Jerusal\u00e9m<br \/>\n<br \/>ficasse para sempre irmanada ao primeiro algoz dos pros\u00e9litos de sua doutrina<br \/>\n<br \/>de vida e reden\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ao inv\u00e9s dos sentimentos de remorso e perplexidade em face d o passado<br \/>\n<br \/>culposo; da saudade e desalento que, \u00e0s vezes, lhe amea\u00e7avam o cora\u00e7\u00e3o,<br \/>\n<br \/>sentia agora radiosas promessas no esp\u00edrito renovado, sem poder explicar a<br \/>\n<br \/>sagrada origem de t\u00e3o profundas esperan\u00e7as.<br \/> N\u00e3o obs tante as singulares<br \/>\n<br \/>altera\u00e7\u00f5es fision\u00f4micas que a vida, o regime e o clima do deserto lhe<br \/>\n<br \/>produziram, entrou em Damasco com alegria sincera na alma agora devo tada,<br \/>\n<br \/>absolutamente, ao servi\u00e7o de Jesus.<\/p>\n<p>Com j\u00fabilo indefin\u00edvel abra\u00e7ou o velho Ananias, pondo -o ao corrente de<br \/>\n<br \/>suas edifica\u00e7\u00f5es espirituais.<br \/> O respeit\u00e1vel anci\u00e3o retribuiu-lhe o carinho com<br \/>\n<br \/>imensa bondade.<br \/> Dessa vez, o ex -rabino n\u00e3o precisou insular-se numa pens\u00e3o<br \/>\n<br \/>entre desconhecidos, porque os irm\u00e3os do \u201cCaminho\u201d lhe ofereceram franca e<br \/>\n<br \/>amorosa hospitalidade.<br \/> Diariamente, repetia a emo\u00e7\u00e3o conf ortadora da<br \/>\n<br \/>primeira reuni\u00e3o a que comparecera, antes de recolher -se ao deserto.<br \/> A<br \/>\n<br \/>pequena assembl\u00e9ia fraternal congrega va-se todas as noites, trocando id\u00e9ias<br \/>\n<br \/>novas sobre os ensinamentos do Cristo, comentando os acontecimentos<br \/>\n<br \/>mundanos \u00e0 luz do Evangelho, permutando objetivos e conclus\u00f5es.<br \/> Saulo foi<br \/>\n<br \/>informado de todas as novidades atinentes \u00e0 doutrina, experimentando os<br \/>\n<br \/>primeiros efeitos do choque entre os judeus e os amigos do Cristo, a prop\u00f3sito<br \/>\n<br \/>da circuncis\u00e3o.<br \/> Seu temperamento apaixo nado percebeu a extens\u00e3o da tarefa<br \/>\n<br \/>que lhe estava reservada.<br \/> Os fariseus formalistas, da sinagoga, n\u00e3o mais se<br \/>\n<br \/>insurgiam contra as atividades do \u201cCaminho\u201d, desde que o seguidor de Jesus<br \/>\n<br \/>fosse, antes de tudo, fiel obser vador dos princ\u00edpios de Mois\u00e9s.<br \/> Somente<br \/>\n<br \/>Ananias e alguns poucos perceberam a sutileza dos casu\u00edstas que provocavam<br \/>\n<br \/>deliberadamente a confus\u00e3o em todos os setores, atrasando a marcha vitoriosa<br \/>\n<br \/>da Boa Nova redentora.<br \/> O ex-doutor da Lei teconheceu que, na sua aus\u00eancia,<br \/>\n<br \/>o processo de persegui\u00e7\u00e3o tomara -se mais perigoso e mais impercept\u00edvel,<br \/>\n<br \/>porq\u00fcanto, \u00e0s caracter\u00edsticas cru\u00e9is, mas francas, do movimento inicial,<br \/>\n<br \/>sucediam as manifesta\u00e7\u00f5es de hipocrisia farisaica, que, a pretexto de<br \/>\n<br \/>159<br \/>\n<br \/>contemporiza\u00e7\u00e3o e benignidade, mergulhariam a per sonalidade de Jesus e a<br \/>\n<br \/>grandeza de suas li\u00e7\u00f5es divinas em criminoso e deliberado olvido.<br \/> Coerente<br \/>\n<br \/>com as novas disposi\u00e7\u00f5es do foro \u00edntimo, n\u00e3o pretendia voltar \u00e0 sinagoga de<br \/>\n<br \/>Damasco, para n\u00e3o parecer um mestre pretensioso a pugnar pela salva\u00e7\u00e3o de<br \/>\n<br \/>outrem, antes de cuidar do aperfei\u00e7oamento pr\u00f3prio; mas, diante do que via e<br \/>\n<br \/>coligia com alto senso psicol\u00f3gico, compreendeu que era \u00fatil arrostar todas as<br \/>\n<br \/>conseq\u00fc\u00eancias e demonstrar as disparidades do formalismo farisaico com o<br \/>\n<br \/>Evangelho:<br \/>\n<br \/>o que era a circuncis\u00e3o e o que era a nova f\u00e9.<br \/> Expondo a Ananias o projeto de<br \/>\n<br \/>fomentar a discuss\u00e3o em torno do assunto, o velhinho generoso estimulou -lhe<br \/>\n<br \/>os prop\u00f3sitos de restabelecer a verdade em seus leg\u00edtimos funda mentos.<\/p>\n<p>Para esse fim, no segundo s\u00e1bado de sua perma nencia na cidade, o<br \/>\n<br \/>vigoroso pregador compareceu \u00e0 sinagoga.<br \/> Ningu\u00e9m reconheceu o rabino de<br \/>\n<br \/>Tarso na sua t\u00fanica rafada, na epiderme tostada de sol, no rosto des carnado,<br \/>\n<br \/>no brilho mais vivo dos olhos profundos.<\/p>\n<p>Terminada a leitura e a exposi\u00e7\u00e3o regulamentares, franqueada a palavra<br \/>\n<br \/>aos sinceros estudiosos da religi\u00e3o, eis que o desconhecido galga a tribuna dos<br \/>\n<br \/>mestres de Israel e, buscando interessar a numerosa assist\u00eancia, falou<br \/>\n<br \/>primeiramente do car\u00e1ter sagrado da Lei de Mois\u00e9s, detendo -se, apaixonado,<br \/>\n<br \/>nas promessas maravilhosas e s\u00e1bias de Is a\u00edas, at\u00e9 que penetrou o estudo dos<br \/>\n<br \/>profetas.<br \/> Os presentes escutavam-no com profunda aten\u00e7\u00e3o.<br \/> Alguns se<br \/>\n<br \/>esfor\u00e7avam por identificar aquela voz que lhes n\u00e3o parecia estranha.<br \/> A<br \/>\n<br \/>prega\u00e7\u00e3o vibrante suscitava ila\u00e7\u00f5es de grande alcance e beleza.<br \/> Imensa luz<br \/>\n<br \/>espiritual transbordava dos raptos altiloq\u00fcentes.<\/p>\n<p>Foi a\u00ed que o ex-rabino, conhecendo o poder magn\u00e9 tico j\u00e1 exercido sobre o<br \/>\n<br \/>vultoso audit\u00f3rio, come\u00e7ou a falar do Messias Nazareno comparando sua vida,<br \/>\n<br \/>feitos e ensinamentos, com os textos que o anunciavam nas sag radas<br \/>\n<br \/>escrituras.<\/p>\n<p>Quando abordava o problema da circuncis\u00e3o, eis que a assembl\u00e9ia rompe<br \/>\n<br \/>em furiosa gritaria.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 ele!.<br \/>.<br \/>.<br \/> \u00c9 o traidor!.<br \/>.<br \/>.<br \/> clamavaM os mais audaciosos, depois de<br \/>\n<br \/>identificar o ex-doutor de Jerusal\u00e9m.<br \/> \u2014 Pedra ao blasfemo!.<br \/>.<br \/>.<br \/> \u00c9 o bandido da<br \/>\n<br \/>seita do \u201cCaminho\u201d!.<br \/>.<br \/>.<\/p>\n<p>Os chefes do servi\u00e7o religioso, por sua vez, reconhe ceram o antigo<br \/>\n<br \/>companheiro, agora considerado tr\u00e2nsfuga da Lei, a quem se deviam impor<br \/>\n<br \/>castigos rudes e cru\u00e9is.<\/p>\n<p>Saulo assistia \u00e0 repeti\u00e7\u00e3o da mesma cena de quando se fazia ouvir na<br \/>\n<br \/>seleta reuni\u00e3o, com a presen\u00e7a dos levi tas de Chipre.<br \/> Enfrentou impass\u00edvel a<br \/>\n<br \/>situa\u00e7\u00e3o, at\u00e9 que as autoridades religiosas conseguissem acalmar os \u00e2nimos<br \/>\n<br \/>turbulentos.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s as fases mais agudas do tumulto, o arqui -sinagogo, tomando posi\u00e7\u00e3o,<br \/>\n<br \/>determinou que o orador descesse da tribuna para responder ao seu<br \/>\n<br \/>interrogat\u00f3rio.<\/p>\n<p>O convertido de Damasco compreendeu de relance toda a calma de que<br \/>\n<br \/>necessitava para sair-se com \u00eaxito daquela dif\u00edcil aventura, e obedeceu de<br \/>\n<br \/>pronto, sem protestar.<\/p>\n<p>\u2014Sois Saulo de Tarso, antigo rabino em Jerusal\u00e9m? \u2014 perguntou a<br \/>\n<br \/>autoridade com \u00eanfase.<\/p>\n<p>\u2014Sim, pela gra\u00e7a do Cristo Jesus! \u2014 respondeu em tom firme e resoluto.<\/p>\n<p>\u2014N\u00e3o vem ao caso refer\u00eancias quaisquer ao car pinteiro de Nazar\u00e9!<br \/>\n<br \/>160<br \/>\n<br \/>Interessa-nos, t\u00e3o-s\u00f3, a vossa pris\u00e3o imediata, de a cordo com as instru\u00e7\u00f5es<br \/>\n<br \/>recebidas do Templo \u2014 explicou o judeu em atitude solene.<\/p>\n<p>\u2014Minha pris\u00e3o? \u2014 interrogou Saulo admirado.<\/p>\n<p>\u2014 Sim.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o vos reconhe\u00e7o o direito de efetu\u00e1 -la \u2014 esclareceu o pregador.<\/p>\n<p>Diante daquela atitude en\u00e9rgica, houve um movi mento de admira\u00e7\u00e3o geral.<\/p>\n<p>\u2014 Por que relutais? O que s\u00f3 vos cumpre \u00e9 obe decer.<\/p>\n<p>Saulo de Tarso fixou-o com decis\u00e3o, explicando:<br \/>\n<br \/>\u2014 Nego-me porque, n\u00e3o obstante haver modificado minha concep\u00e7\u00e3o<br \/>\n<br \/>religiosa, sou doutor da Lei e, al\u00e9m disso, quanto \u00e0 situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, sou<br \/>\n<br \/>cidad\u00e3o romano e n\u00e3o posso atender a ordens verbais de pris\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Mas estais preso em nome do Sin\u00e9drio.<\/p>\n<p>\u2014 Onde o mandado?<br \/>\n<br \/>A pergunta imprevista desnorteou a autoridade.<br \/> Ha via mais de dois anos,<br \/>\n<br \/>chegara de Jerusal\u00e9m o documento oficial, mas ningu\u00e9m pod ia prever aquela<br \/>\n<br \/>eventualidade.<br \/> A ordem fora arquivada cuidadosamente, mas n\u00e3o podia ser<br \/>\n<br \/>exibida de pronto, como exigiam as circunst\u00e2ncias.<\/p>\n<p>\u2014O pergaminho ser\u00e1 apresentado dentro de pou cas horas \u2014 acrescentou<br \/>\n<br \/>o chefe da sinagoga um tanto indeciso.<\/p>\n<p>E como a justificar-se, acrescentava:<br \/>\n<br \/>\u2014Desde o esc\u00e2ndalo da vossa \u00faltima prega\u00e7\u00e3o em Damasco, temos<br \/>\n<br \/>ordem de Jerusal\u00e9m para vos prender.<\/p>\n<p>Saulo fixou-o com energia, e, voltando-se para a assembl\u00e9ia, que lhe<br \/>\n<br \/>observava a coragem moral, tomada de pasmo e admira\u00e7\u00e3o, disse alto e bom<br \/>\n<br \/>som:\u2014<br \/>\n<br \/>Var\u00f5es de Israel, trouxe ao vosso cora\u00e7\u00e3o o que possu\u00eda de melhor, mas<br \/>\n<br \/>rejeitais a verdade trocando-a pelas formalidades exteriores.<br \/> N\u00e3o vos condeno.<\/p>\n<p>Lastimo-vos, porque tamb\u00e9m fui assim como v\u00f3s outros.<br \/> Entretanto, chegada a<br \/>\n<br \/>minha hora, n\u00e3o recusei o aux\u00edlio generoso que o c\u00e9u me oferecia.<br \/> Lan\u00e7ais -me<br \/>\n<br \/>acusa\u00e7\u00f5es, vituperais minhas atuais convic\u00e7\u00f5es religiosas; mas, qual de v\u00f3s<br \/>\n<br \/>estaria disposto a discutir comigo? Onde o sin cero lutador do campo espiritual<br \/>\n<br \/>que deseje sondar, em minha companhia, as santas escrituras?<br \/>\n<br \/>Profundo sil\u00eancio seguiu-se ao repto.<\/p>\n<p>\u2014 Ningu\u00e9m? \u2014 perguntou o ardoroso art\u00edfice da nova f\u00e9, com um sorriso<br \/>\n<br \/>de triunfo.<\/p>\n<p>Conhe\u00e7o-vos, porque tamb\u00e9m palmilhei esses caminhos.<br \/> Entretanto,<br \/>\n<br \/>convenhamos em que o far isa\u00edsmo nos perdeu, atirando nossas esperan\u00e7as<br \/>\n<br \/>mais sagradas num oceano de hipocrisias.<br \/> Venerais Mois\u00e9s na sinagoga;<br \/>\n<br \/>tendes excessivo cuidado com as f\u00f3rmulas exteriores, mas qual a fei\u00e7\u00e3o da<br \/>\n<br \/>vossa vida dom\u00e9stica? Quantas dores ocultais sob a t\u00fanica brilhan te! Quantas<br \/>\n<br \/>feridas dissimulais com palavras falaciosas! Como eu, dev\u00edeis sentir imenso<br \/>\n<br \/>t\u00e9dio de tantas m\u00e1scaras ign\u00f3beis! Se f\u00f4ssemos apontar os feitos criminosos<br \/>\n<br \/>que se praticam \u00e0 sombra da Lei, n\u00e3o ter\u00edamos a\u00e7oites para castigar os<br \/>\n<br \/>culpados; nem o n\u00famero exato das maldi\u00e7\u00f5es indispens\u00e1veis \u00e0 pintura de<br \/>\n<br \/>semelhantes abomina\u00e7\u00f5es! Padeci de vossas \u00falceras, enve nenei-me tamb\u00e9m<br \/>\n<br \/>nas vossas trevas e vinha trazer -vos o rem\u00e9dio imprescind\u00edvel.<br \/> Recusais -me a<br \/>\n<br \/>coopera\u00e7\u00e3o fraterna; entretanto, em v\u00e3o recalcitrais p erante os processos<br \/>\n<br \/>regeneradores, porque somente Jesus poder\u00e1 sal var-nos! Trouxe-vos o<br \/>\n<br \/>Evangelho, ofere\u00e7o-vos a porta de reden\u00e7\u00e3o para nossas velhas mazelas e<br \/>\n<br \/>inda quereis compensar meus esfor\u00e7os com o c\u00e1rcere e a maldi\u00e7\u00e3o? Recuso &#8211;<br \/>\n<br \/>161<br \/>\n<br \/>me a receber semelhantes valores em troca de minha iniciativa espont\u00e2nea!.<br \/>.<br \/>.<\/p>\n<p>N\u00e3o podereis prender-me, porque a palavra de Deus n\u00e3o est\u00e1 algemada.<br \/> Se a<br \/>\n<br \/>rejeitais, outros me compreender\u00e3o.<br \/> N\u00e3o \u00e9 justo abandonar -me aos vossos<br \/>\n<br \/>caprichos, quando o servi\u00e7o, a fazer, me pede dedica\u00e7\u00e3o e boa-vontade.<\/p>\n<p>Os pr\u00f3prios diretores da reuni\u00e3o pareciam domina dos por for\u00e7as<br \/>\n<br \/>magn\u00e9ticas, poderosas e indefin\u00edveis.<\/p>\n<p>O mo\u00e7o tarsense passeou o olhar dominador sobre todos os presentes,<br \/>\n<br \/>revelando a rigidez do seu \u00e2nimo poderoso.<\/p>\n<p>\u2014 Vosso sil\u00eancio fala mais que as palavras \u2014 concluiu quase com aud\u00e1cia.<\/p>\n<p>\u2014 Jesus n\u00e3o vos permite a pris\u00e3o do servo humilde e fiel.<br \/> Que a sua b\u00ean\u00e7\u00e3o<br \/>\n<br \/>vos ilumine o esp\u00edrito na verdadeira compreens\u00e3o das reali dades da vida.<\/p>\n<p>Assim dizendo, caminhou resoluto para a porta de sa\u00edda, enqu anto o olhar<br \/>\n<br \/>assombrado da assembl\u00e9ia lhe acompanhava o vulto, at\u00e9 que, a passo firme,<br \/>\n<br \/>desapareceu em uma das ruas estreitas que desembocavam na grande pra\u00e7a.<\/p>\n<p>Como se despertasse, ap\u00f3s o audacioso desafio, a reuni\u00e3o degenerou em<br \/>\n<br \/>acaloradas discuss\u00f5es.<br \/> O arqui-sinagogo, que parecia sumamente<br \/>\n<br \/>impressionado com as declara\u00e7\u00f5es do ex -rabino, n\u00e3o ocultava a indecis\u00e3o,<br \/>\n<br \/>relutando entre as verdades amargas de Saulo e a ordem de pris\u00e3o imediata.<\/p>\n<p>Os companheiros mais en\u00e9rgicos procuraram levantar -lhe o esp\u00edrito de<br \/>\n<br \/>autoridade.<br \/> Era preciso prender o atrevido orador a qualquer pre\u00e7o.<br \/> Os mais<br \/>\n<br \/>decididos puseram-se \u00e0 procura imediata do pergaminho de Jerusal\u00e9m e, logo<br \/>\n<br \/>que o encontraram, resolveram pedir aux\u00edlio \u00e0s autoridades civis, promo vendo<br \/>\n<br \/>dilig\u00eancias.<br \/> Da\u00ed a tr\u00eas horas, todas as medidas para a pris\u00e3o do audacioso<br \/>\n<br \/>pregador estavam assentadas.<br \/> Os primeiros contingentes foram movimentados<br \/>\n<br \/>\u00e0s portas da cidade.<br \/> Em cada uma postou -se pequeno grupo de fariseus,<br \/>\n<br \/>secundados por dois soldados, a fim de burla rem qualquer tentativa de evas\u00e3o.<\/p>\n<p>Em seguida, iniciaram a devassa em bloco, na re sid\u00eancia de todas as<br \/>\n<br \/>pessoas suspeitas de simpatia e rela\u00e7\u00f5es com os disc\u00edpulos do Nazareno.<\/p>\n<p>Saulo, por sua vez, afastando -se da sinagoga, procurou avistar-se com<br \/>\n<br \/>Ananias, ansioso da sua palav ra amorosa e conselheira.<\/p>\n<p>O s\u00e1bio velhinho ouviu a narra\u00e7\u00e3o do acontecido, aprovando -lhe as<br \/>\n<br \/>atitudes.<\/p>\n<p>\u2014Sei que o Mestre \u2014 dizia o mo\u00e7o por fim \u2014condenou as contendas e<br \/>\n<br \/>jamais andou entre os discutidores; mas, tamb\u00e9m, jamais contemporizou com o<br \/>\n<br \/>mal.<br \/> Estou pronto a reparar meu passado de culpas.<br \/> Afron tarei as<br \/>\n<br \/>incompreens\u00f5es de Jerusal\u00e9m, a fim de paten tear minha transforma\u00e7\u00e3o radical.<\/p>\n<p>Pedirei perd\u00e3o aos ofendidos pela insensatez da minha ignor\u00e2ncia, mas, de<br \/>\n<br \/>modo algum poderei fugir ao ensejo de afirmar -me sincero e verdadeiro.<br \/> Acaso<br \/>\n<br \/>serviria ao Mestre, humilhando-me diante das explora\u00e7\u00f5es inferiores? Jesus<br \/>\n<br \/>lutou quanto poss\u00edvel e seus disc\u00edpulos n\u00e3o poder\u00e3o proceder de outro modo.<\/p>\n<p>O bondoso anci\u00e3o acompanhava-lhe as palavras com sinais afirmativos.<\/p>\n<p>Depois de confort\u00e1-lo com a sua aprova\u00e7\u00e3o, recomendou -lhe a maior<br \/>\n<br \/>prud\u00eancia.<br \/> Seria razo\u00e1vel afastar-se quanto antes dali, do seu tug\u00fario.<br \/> Os<br \/>\n<br \/>judeus de Damasco conheciam a parte que tivera na sua cura.<br \/> Por causa<br \/>\n<br \/>disso, muita vez lhes suportara as inj\u00fa rias e remoques.<br \/> Certo, procur\u00e1-lo-iam,<br \/>\n<br \/>ali, para prend\u00ea-lo.<br \/> Assim, era de opini\u00e3o que se recolhesse \u00e0 casa da cons\u00f3ror<br \/>\n<br \/>lavadeira, onde costumavam orar e estudar o Evangelho.<br \/> Ela saberia acolh\u00ea -lo<br \/>\n<br \/>com bondade.<\/p>\n<p>Saulo atendeu ao conselho sem hesitar.<\/p>\n<p>Da\u00ed a tr\u00eas horas, o velho Ananias era procurado e interpelado.<br \/> Atenta a sua<br \/>\n<br \/>162<br \/>\n<br \/>conduta discreta, foi recolhido ao c\u00e1rcere para ulteriores averigua\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O fato \u00e9 que, inquirido pela autoridade religiosa, apenas respondia:<br \/>\n<br \/>\u2014Saulo deve estar com Jesus.<\/p>\n<p>Nos seus escr\u00fapulos de consci\u00eancia, o generoso velhinho entendia que,<br \/>\n<br \/>desse modo, n\u00e3o mentia aos homens nem comprometia um amigo fiel.<br \/> Depois<br \/>\n<br \/>de preso e incomunic\u00e1vel 24 horas, deram-lhe liberdade ap\u00f3s receber castigos<br \/>\n<br \/>dolorosos.<br \/> A aplica\u00e7\u00e3o de vinte bastonadas dei xara-lhe o rosto e as m\u00e3os<br \/>\n<br \/>gravemente feridos.<br \/> Contudo, logo que se viu livre, esperou a noite e,<br \/>\n<br \/>cautamente, encaminhou-se \u00e0 choupana humilde onde se realizavam as<br \/>\n<br \/>pr\u00e9dicas do \u201cCaminho\u201d.<br \/> Reencontrando -se com o amigo, exp\u00f4s-lhe o plano que<br \/>\n<br \/>vinha remediar a situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014Quando crian\u00e7a \u2014 exclamou Ananias prazeroso \u2014 assisti \u00e0 fuga de um<br \/>\n<br \/>homem sobre os muros de Jerusal\u00e9m.<\/p>\n<p>E como se recapitulasse os pormenores do fato, na mem\u00f3ria cansada,<br \/>\n<br \/>perguntou:<br \/>\n<br \/>\u2014 Saulo, terias medo de fugir num cesto de vime?<br \/>\n<br \/>\u2014 Por qu\u00ea? \u2014 disse o mo\u00e7o sorridente.<br \/> \u2014 Mois\u00e9s n\u00e3o come\u00e7ou a vida<br \/>\n<br \/>num cesto sobre as \u00e1guas?<br \/>\n<br \/>O velho achou gra\u00e7a na alus\u00e3o e esclareceu o pro jeto.<br \/> N\u00e3o muito longe<br \/>\n<br \/>dali, havia grandes \u00e1rvores junto dos muros da cidade.<br \/> Al\u00e7ariam o fugitivo num<br \/>\n<br \/>grande cesto, e depois, com insignific antes movimentos, ele poderia descer do<br \/>\n<br \/>outro lado, em condi\u00e7\u00f5es de encetar a viagem para Jerusal\u00e9m, conforme<br \/>\n<br \/>pretendia.<br \/> O ex-rabino experimentou imensa alegria.<br \/> Na mesma hora, a dona<br \/>\n<br \/>da casa foi buscar o concurso dos tr\u00eas irm\u00e3os de mais confian\u00e7a.<br \/> E quan do o<br \/>\n<br \/>c\u00e9u se fez mais sombrio, depois das primeiras horas da meia -noite, um<br \/>\n<br \/>pequeno grupo se reunia junto a muralha, em ponto mais distante do centro da<br \/>\n<br \/>cidade.<br \/> Saulo beijou as m\u00e3os de Ananias, quase com l\u00e1grimas.<br \/> Despediu -se<br \/>\n<br \/>em voz baixa dos amigos, enquan to um lhe entregava volumoso pacote de<br \/>\n<br \/>bolos de cevada.<br \/> Na copa da \u00e1rvore frondosa e escura, o mais jovem esperava<br \/>\n<br \/>o sinal, O mo\u00e7o tarsense entrou na sua embarca\u00e7\u00e3o improvisada e a evas\u00e3o se<br \/>\n<br \/>deu no \u00e2mbito silencioso da noite.<\/p>\n<p>Do outro lado, saiu lesto do c esto, deixando-se empolgar por estranhos<br \/>\n<br \/>pensamentos.<\/p>\n<p>Seria justo fugir assim? N\u00e3o havia cometido crime algum.<br \/> N\u00e3o seria<br \/>\n<br \/>covarde deixar de comparecer perante a autoridade civil para os<br \/>\n<br \/>esclarecimentos necess\u00e1rios? Ao mesmo tempo, considerava que sua condu ta<br \/>\n<br \/>n\u00e3o provinha de sentimentos pueris e inferiores, pois ia a Jerusal\u00e9m desassom &#8211;<br \/>\n<br \/>brado, buscaria avistar-se com os antigos companheiros, falar -lhes-ia<br \/>\n<br \/>abertamente, concluindo que tamb\u00e9m n\u00e3o seria razo\u00e1vel entregar -se inerme ao<br \/>\n<br \/>fanatismo tir\u00e2nico da Sinagoga de Damasco.<\/p>\n<p>Aos primeiros raios de sol, o fugitivo ia longe.<br \/> Levava consigo os bolos de<br \/>\n<br \/>cevada como \u00fanica provis\u00e3o, e o Evangelho presenteado por Gamaliel como<br \/>\n<br \/>lembran\u00e7a de tanto tempo de solid\u00e3o e de luta.<\/p>\n<p>A jornada foi assaz dif\u00edcil e penosa.<br \/> O cansa\u00e7 o obrigava-o a paradas<br \/>\n<br \/>constantes.<br \/> Mais de uma vez re correu \u00e0 caridade alheia, no trajeto penoso.<\/p>\n<p>Com aux\u00edlio de camelos, cavalos ou dromed\u00e1rios, a viagem de Da masco a<br \/>\n<br \/>Jerusal\u00e9m n\u00e3o exigia menos de uma semana de marchas exaustivas.<br \/> Saulo,<br \/>\n<br \/>por\u00e9m, ia a p\u00e9.<br \/> Poderia talvez valer-se do concurso definitivo de alguma<br \/>\n<br \/>caravana, onde conseguisse os recursos imprescind\u00edveis, mas preferiu<br \/>\n<br \/>familiarizar a vontade poderosa com os obst\u00e1 culos mais duros.<br \/> Quando a<br \/>\n<br \/>163<br \/>\n<br \/>fadiga lhe sugeria o desejo de aguardar a coopera\u00e7\u00e3o even tual de outrem,<br \/>\n<br \/>buscava vencer o des\u00e2nimo, punha -se novamente de p\u00e9, apoiava-se em<br \/>\n<br \/>cajados improvisados.<\/p>\n<p>Depois de suaves recorda\u00e7\u00f5es no local em que tivera a vis\u00e3o gloriosa do<br \/>\n<br \/>Messias ressuscitado, voltou a expe rimentar carinhosas emo\u00e7\u00f5es ao penetrar<br \/>\n<br \/>na Palestina, atravessando vagarosamente extensas regi\u00f5es da Galil\u00e9ia.<br \/> Fazia<br \/>\n<br \/>quest\u00e3o de conhecer o teatro das primeiras lutas do Mestre, identificar -se com<br \/>\n<br \/>as paisagens mais queridas, visitar Cafarnaum e Nazar\u00e9, ouvir a palavra dos<br \/>\n<br \/>filhos da regi\u00e3o.<br \/> Naquele tempo, j\u00e1 o ardoroso Ap\u00f3stolo dos gentios desejava<br \/>\n<br \/>inteirar-se de todos os fatos referentes \u00e0 vida de Jesus, ansiava por coorden\u00e1 &#8211;<br \/>\n<br \/>los com seguran\u00e7a, de maneira a legar aos irm\u00e3os em Humanidade o melhor<br \/>\n<br \/>reposit\u00f3rio de informa\u00e7\u00f5es sobre o Emiss\u00e1rio Divino.<\/p>\n<p>Quando chegou a Cafarnaum, um crep\u00fasculo de ouro entornava<br \/>\n<br \/>maravilhas de luz na buc\u00f3lica paisagem.<br \/> O ex -rabino desceu religiosamente \u00e0s<br \/>\n<br \/>margens do lago.<br \/> Embebeu-se na contempla\u00e7\u00e3o das \u00e1guas marulhosas.<br \/> Pen &#8211;<br \/>\n<br \/>sando em Jesus, no poder do seu amor, chorou, domina do por singular<br \/>\n<br \/>emo\u00e7\u00e3o.<br \/> Queria ter sido pescador humilde para captar os ensinamentos<br \/>\n<br \/>sublimes na fonte de suas palavras generosas e imortais.<\/p>\n<p>Por dois dias ali permaneceu em suave embeveci mento.<br \/> Sem revelar-se,<br \/>\n<br \/>procurou Levi, que o recebeu de boa -vontade.<br \/> Mostrou-lhe sua dedica\u00e7\u00e3o e<br \/>\n<br \/>conhecimento do Evangelho, falou da oportunidade de suas anota\u00e7\u00f5es.<br \/> O filho<br \/>\n<br \/>de Alfeu alegrou-se ao cont\u00e1gio daquela palavra inteligente e confortadora.<\/p>\n<p>Saulo viveu em Cafarnaum horas deliciosas para o seu esp\u00edrito emo tivo.<br \/> Fora o<br \/>\n<br \/>local das prega\u00e7\u00f5es do Mestre; mais adiante, a casinha de Sim\u00e3o Pedro; al\u00e9m,<br \/>\n<br \/>a coletoria onde o Mestre fora chamar Levi para o desempenho de importante<br \/>\n<br \/>papel entre os ap\u00f3stolos.<br \/> Abra\u00e7ou homens fortes, da localidade, que tinham<br \/>\n<br \/>sido cegos e leprosos, curados pelas m\u00e3os misericordiosas do Messias; foi a<br \/>\n<br \/>Dalmanuta, onde conheceu Madalena.<br \/> Enriqueceu o mundo impres alvo de<br \/>\n<br \/>suas observa\u00e7\u00f5es colhendo informes in\u00e9ditos.<\/p>\n<p>Da\u00ed a dias, depois de repousar em Nazar\u00e9, ei -lo \u00e0s portas da cidade santa<br \/>\n<br \/>dos israelitas, extenuado de fadiga, das caminhadas penosas, das noites de<br \/>\n<br \/>vig\u00edlia cujos sofrimentos muita vez lhe pareceram sem -fim.<\/p>\n<p>Em Jerusal\u00e9m, todavia, aguardavam-no outras surpresas n\u00e3o menos<br \/>\n<br \/>dolorosas.<\/p>\n<p>Estava empolgado por ansiosas interroga\u00e7\u00f5es.<br \/> N\u00e3o mais tivera not\u00edcia dos<br \/>\n<br \/>pais, dos amigos, da irm\u00e3 cari nhosa, dos familiares sempre vivos na sua<br \/>\n<br \/>retentiva.<br \/> Como o receberiam os companheiros mais sinceros? N\u00e3o poderia<br \/>\n<br \/>esperar am\u00e1veis recep\u00e7\u00f5es do Sin\u00e9drio.<br \/> O epis\u00f3 dio de Damasco dava-lhe a<br \/>\n<br \/>perceber o estado de \u00e2nimo dos membros do Tribunal.<\/p>\n<p>Certo, fora sumariamente expulso do cen\u00e1culo mais consp\u00edcuo da ra\u00e7a.<br \/> Em<br \/>\n<br \/>compensa\u00e7\u00e3o, fora admitido pelo Cristo no cen\u00e1culo infinito das verdades<br \/>\n<br \/>eternas.<\/p>\n<p>Dominado por essas reflex\u00f5es, atravessou a porta da cidade, recordando o<br \/>\n<br \/>tempo em que, numa biga veloz, sa\u00eda, noutro local, buscando a casa de<br \/>\n<br \/>Zacarias, na dire\u00e7\u00e3o de Jope.<br \/> As reminisc\u00eancias das horas mais venturosas da<br \/>\n<br \/>mocidade encheram-lhe os olhos de pranto.<br \/> Os transeuntes de Jerusal\u00e9m<br \/>\n<br \/>estavam longe de imaginar quem era aque le homem magro e p\u00e1lido, barba<br \/>\n<br \/>grande e olhos encovados, que passava arrastando -se de fadiga.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s grande esfor\u00e7o, atingiu um pr\u00e9dio residencial do seu conhecimento,<br \/>\n<br \/>O cora\u00e7\u00e3o palpitou-lhe apressado.<br \/> Como simples mendigo, bateu \u00e0 porta, em<br \/>\n<br \/>164<br \/>\n<br \/>ansiosa expectativa.<\/p>\n<p>Um homem de semblante severo atendeu secamente.<\/p>\n<p>\u2014Podeis informar, por favor \u2014 disse com humildade \u2014, se ainda aqui<br \/>\n<br \/>reside uma senhora chamada Dalila?<br \/>\n<br \/>\u2014N\u00e3o \u2014, respondeu o outro, r\u00edspido.<\/p>\n<p>Aquele olhar duro n\u00e3o ensejava novas perguntas, mas, ainda as sim,<br \/>\n<br \/>aventurou:<br \/>\n<br \/>\u2014Poder\u00edeis dizer, por obs\u00e9quio, para onde se mudou?<br \/>\n<br \/>\u2014Ora esta! \u2014 replicou o dono da casa irritadi\u00e7o \u2014 dar-se-\u00e1 que tenha de<br \/>\n<br \/>prestar contas a um mendigo? Daqui a pouco o senhor me perguntar\u00e1 se<br \/>\n<br \/>comprei esta casa; depois me pedir\u00e1 o pre\u00e7o, exigir\u00e1 datas, reclamar\u00e1 novas<br \/>\n<br \/>informa\u00e7\u00f5es sobre os antigos moradores, tomar\u00e1 meu tempo com mil<br \/>\n<br \/>interroga\u00e7\u00f5es ociosas.<\/p>\n<p>E, fixando em Saulo os olhos impass\u00edveis, rematou de chofre:<br \/>\n<br \/>\u2014Nada sei, est\u00e1 ouvindo? Ponha-se na rua!.<br \/>.<br \/>.<\/p>\n<p>O fugitivo de Damasco voltou serenamente para a via p\u00fablica, enquanto o<br \/>\n<br \/>homenzinho dava expans\u00e3o aos nervos doentes, batendo a porta com<br \/>\n<br \/>estrondo.<\/p>\n<p>O ex-disc\u00edpulo de Gamaliel refletiu na realidade amarga daquela primeira<br \/>\n<br \/>recep\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica.<br \/> Jerusal\u00e9m, certamente, nunca mais poderia con hec\u00ea-lo.<\/p>\n<p>N\u00e3o obstante a impress\u00e3o dolorosa, n\u00e3o se deixaria empolgar pelo des\u00e2nimo.<\/p>\n<p>Resolveu procurar Alexandre, parente de Cai f\u00e1s e seu companheiro de<br \/>\n<br \/>atividades no Sin\u00e9drio e no Templo.<br \/> Cansad\u00edssimo, bateu -lhe \u00e0 porta, com<br \/>\n<br \/>minguadas esperan\u00e7as.<br \/> Um servo da casa, depois da primeira per gunta, vinha<br \/>\n<br \/>trazer-lhe a alvissareira not\u00edcia de que o amo n\u00e3o se demoraria a atender.<\/p>\n<p>Com efeito, da\u00ed a pouco, Alexandre recebia o des conhecido com<br \/>\n<br \/>indisfar\u00e7\u00e1vel surpresa.<\/p>\n<p>Satisfeito por conseguir a aten\u00e7\u00e3o de um velho a migo, Saulo adiantou-se,<br \/>\n<br \/>cumprimentando-o com efus\u00e3o.<\/p>\n<p>O israelita ilustre n\u00e3o conseguiu ocultar o desa pontamento e sentenciou<br \/>\n<br \/>com alguma generosidade nas palavras:<br \/>\n<br \/>\u2014 Amigo, a que vindes a esta casa?<br \/>\n<br \/>\u2014 Ser\u00e1 poss\u00edvel que me n\u00e3o reconhe\u00e7as? \u2014 interrogou bem-humorado,<br \/>\n<br \/>apesar da imensa fadiga.<\/p>\n<p>\u2014 Vossa fisionomia n\u00e3o me \u00e9 de todo estranha, en tretanto.<br \/>.<br \/>.<\/p>\n<p>\u2014 Alexandre! \u2014 exclamou por fim, prazenteiro \u2014n\u00e3o te recordas mais de<br \/>\n<br \/>Saulo?<br \/>\n<br \/>Um grande abra\u00e7o foi a resposta do amigo, que per guntava sol\u00edcito,<br \/>\n<br \/>modificando o tratamento:<br \/>\n<br \/>\u2014 Muito bem! At\u00e9 que enfim! Gra\u00e7as a Deus vejo que est\u00e1s curado! N\u00e3o<br \/>\n<br \/>me enganei esperando que vol tasses! Grande \u00e9 o poder do Deus de Mois\u00e9s!<br \/>\n<br \/>Saulo compreendeu de pronto a ambig\u00fcidade da quelas express\u00f5es.<\/p>\n<p>Sentindo dificuldade em fazer -se entendido, procurava o melhor meio de<br \/>\n<br \/>explicar-se com \u00eaxito, enquanto o amigo prosseguia:<br \/>\n<br \/>\u2014 Mas que aspecto \u00e9 este? Olha que mais pareces um bedu\u00edno do<br \/>\n<br \/>deserto.<br \/>.<br \/>.<br \/> Dize-me: quanto tempo durou a enfermidade pertinaz?<br \/>\n<br \/>Saulo encheu-se de coragem e acentuou:<br \/>\n<br \/>\u2014 Mas, h\u00e1 engano com certeza, ou estar\u00e1s mal informado, porque nunca<br \/>\n<br \/>estive doente.<\/p>\n<p>\u2014 Imposs\u00edvel! \u2014 disse Alexandre visivelmente de sapontado depois de<br \/>\n<br \/>165<br \/>\n<br \/>tantas demonstra\u00e7\u00f5es afetuosas.<br \/> \u2014 Jerusal\u00e9m anda repleta de lendas a teu<br \/>\n<br \/>respeito.<br \/> Sadoc veio at\u00e9 aqui, h\u00e1 tr\u00ea s anos, pedir provid\u00eancias en\u00e9rgicas do<br \/>\n<br \/>Sin\u00e9drio para que se esclarecesse tua situa\u00e7\u00e3o e, depois de longos debates,<br \/>\n<br \/>levou uma ordem de pris\u00e3o contra ti.<br \/> Desde essa \u00e9poca, lutei<br \/>\n<br \/>desesperadamente para que se modificassem as disposi\u00e7\u00f5es da pe\u00e7a con &#8211;<br \/>\n<br \/>denat\u00f3ria.<br \/> Provei que, se havias adotado uma atitude simp\u00e1tica para com a<br \/>\n<br \/>gente do \u201cCaminho\u201d, certo, essa decis\u00e3o obedecia a fins que n\u00e3o est\u00e1vamos<br \/>\n<br \/>habilitados a compreender de pronto, como, por exemplo, o de sondar melhor a<br \/>\n<br \/>extens\u00e3o de suas atividades revolucion\u00e1ri as.<\/p>\n<p>Saulo n\u00e3o p\u00f4de conter-se e revidou, antes que o amigo continuasse:<br \/>\n<br \/>\u2014Mas, nesse caso, seria um hip\u00f3crita refalsado e indigno do cargo e de<br \/>\n<br \/>mim mesmo.<\/p>\n<p>O outro, contrafeito, carregou o sobrolho.<\/p>\n<p>\u2014Ali\u00e1s, ponderei todas as hip\u00f3teses e como n\u00e3o podia tomar -te por<br \/>\n<br \/>hip\u00f3crita \u2014 acentuou Alexandre procurando emendar a m\u00e3o \u2014 consegui<br \/>\n<br \/>provar que tua atitude em Damasco provinha de transit\u00f3ria dem\u00eancia.<br \/> N\u00e3o era<br \/>\n<br \/>justo pensar de outro modo, mesmo porque, do contr\u00e1rio, serias tamb\u00e9m<br \/>\n<br \/>insincero, conosco, na esfera do fa risa\u00edsmo.<\/p>\n<p>O ex-rabino sentiu a delicadeza do impasse.<br \/> Havia renovado as<br \/>\n<br \/>concep\u00e7\u00f5es religiosas, mas estava diante de um amigo.<br \/> Quando muitos o<br \/>\n<br \/>abandonavam, aquele o recebia fraternalmente.<br \/> Era necess\u00e1rio n\u00e3o mago\u00e1 -lo.<\/p>\n<p>Todavia, era imposs\u00edvel mascarar a verd ade.<\/p>\n<p>Sentiu os olhos \u00famidos.<br \/> Impunha -se-lhe testemunhar o Cristo, a qualquer<br \/>\n<br \/>pre\u00e7o, embora tivesse de perder as maiores afei\u00e7\u00f5es do mundo.<\/p>\n<p>\u2014Alexandre \u2014 disse humildemente \u2014, \u00e9 verdade que iniciei o grande<br \/>\n<br \/>movimento de persegui\u00e7\u00e3o ao \u201cCaminho\u201d; mas, agora, \u00e9 indispens\u00e1vel<br \/>\n<br \/>confessar que me enganei.<br \/> Os Ap\u00f3stolos galileus t\u00eam raz\u00e3o.<br \/> Estamos no limiar<br \/>\n<br \/>de grandes transforma\u00e7\u00f5es.<br \/> \u00c0s portas de Damasco, Jesus me apareceu na sua<br \/>\n<br \/>gloriosa ressurrei\u00e7\u00e3o e exortou-me ao servi\u00e7o do seu Evangelho de amor.<\/p>\n<p>A palavra sa\u00eda-lhe t\u00edmida, lavada no desejo de n\u00e3o ferir as cren\u00e7as do<br \/>\n<br \/>amigo, que, n\u00e3o obstante, deixava transparecer profunda decep\u00e7\u00e3o no rosto<br \/>\n<br \/>l\u00edvido.<br \/>\u2014<br \/>\n<br \/>N\u00e3o digas tais absurdos! \u2014 exclamou ir\u00f4nico e sorridente \u2014<br \/>\n<br \/>desgra\u00e7adamente, vejo que o mal con tinua minando-te as for\u00e7as f\u00edsicas e<br \/>\n<br \/>mentais.<br \/> A Sinagoga de Damasco tinha raz\u00e3o.<br \/> Se n\u00e3o te conhecesse da inf\u00e2n &#8211;<br \/>\n<br \/>cia, dar-te-ia agora o t\u00edtulo de blasfemo e desertor.<\/p>\n<p>O mo\u00e7o tarsense, n\u00e3o obstante a energia viril, estava desapontado.<\/p>\n<p>\u2014 Ali\u00e1s \u2014 prosseguiu o outro, assumindo ares de protetor \u2014, desde o<br \/>\n<br \/>in\u00edcio de tua viagem n\u00e3o concordei com o m\u00edsero cortejo que levavas.<br \/> Jonas e<br \/>\n<br \/>Dem\u00e9trio s\u00e3o quase bo\u00e7ais, e Jacob vive de caduquices.<br \/> Com seme lhante<br \/>\n<br \/>companhia, qualquer perturba\u00e7\u00e3o da tua parte ha veria de acarretar grandes<br \/>\n<br \/>desastres morais para a nossa posi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014No entanto, Alexandre \u2014 dizia o ex-rabino um tanto humilhado \u2014, devo<br \/>\n<br \/>insistir na verdade.<br \/> vi com estes olhos o Messias de Nazar\u00e9; ouvi -lhe a palavra<br \/>\n<br \/>de viva voz.<\/p>\n<p>Compreendendo os erros em que vivia, na minha defeituosa concep \u00e7\u00e3o da<br \/>\n<br \/>f\u00e9, demandei o deserto.<br \/> L\u00e1 estive tr\u00eas anos em servi\u00e7o rude e longas<br \/>\n<br \/>medita\u00e7\u00f5es.<br \/> Minha convic\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 superficial.<br \/> Creio, hoje, que Jesus \u00e9 o<br \/>\n<br \/>Salvador, o Filho do Deus Vivo.<\/p>\n<p>\u2014 Pois tua enfermidade \u2014 repetia Alexandre altaneiro, modificando o<br \/>\n<br \/>166<br \/>\n<br \/>diapas\u00e3o da intimidade \u2014 transtornou a vida de toda a tua fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Envergonhados com as not\u00edcias chegadas da S\u00edria, Jaques e Dalila mu daramse<br \/>\n<br \/>de Jerusal\u00e9m para a Cil\u00edcia.<br \/> Quando soube da ordem de pris\u00e3o lavrada pelo<br \/>\n<br \/>Sin\u00e9drio contra a tua pessoa, tua m\u00e3e faleceu em Tarso.<br \/> Teu pai, que te<br \/>\n<br \/>educou com esmero, esperando da tua intelig\u00eancia os maiores galard\u00f5es de<br \/>\n<br \/>nossa ra\u00e7a, vive acabrunhado e infeliz.<br \/> Teus amigos, cansados de suportar as<br \/>\n<br \/>ironias do povo, em Jerusal\u00e9m, vivem esquivos e humilhados depois de te<br \/>\n<br \/>procurarem em v\u00e3o.<br \/> N\u00e3o te doer\u00e1 a vis\u00e3o deste qua dro? Uma dor como esta<br \/>\n<br \/>n\u00e3o bastar\u00e1 para refazer-te o equil\u00edbrio mental?<br \/>\n<br \/>O ex-doutor da Lei tinha o cora\u00e7\u00e3o ralado de ang\u00fas tia.<br \/> Tantos dias<br \/>\n<br \/>ansiosos, tantas amarguras vividas no intuito de lograr alguma compre ens\u00e3o e<br \/>\n<br \/>repouso junto dos seus, via, agora, era tudo ilus\u00e3o e rumaria.<br \/> A fam\u00edlia<br \/>\n<br \/>desorganizada, a m\u00e3e morta, o pai infeliz; os amigos execravam -no; Jerusal\u00e9m<br \/>\n<br \/>lan\u00e7ava-lhe ironias.<\/p>\n<p>Vendo-o em tal atitude, o amigo regozijava -se \u00edntimamente, esperando<br \/>\n<br \/>ansioso o efeito de suas palavras.<\/p>\n<p>Depois de concentrar-se um minuto, Saulo acentuou:<br \/>\n<br \/>\u2014Lamento ocorr\u00eancias t\u00e3o tristes e tomo a Deus por testemunha de que<br \/>\n<br \/>n\u00e3o cooperei intencionalmente para Isso.<br \/> No entanto, mesmo aqueles que<br \/>\n<br \/>ainda n\u00e3o aceitaram o Evangelho dever iam compreender, segundo a antiga<br \/>\n<br \/>Lei, que n\u00e3o devemos ser orgulhosos.<br \/> Mois\u00e9s, nada obstante a energia das<br \/>\n<br \/>recomenda\u00e7\u00f5es, ensinou a bondade.<br \/> Os profetas, que lhe sucederam, foram<br \/>\n<br \/>emiss\u00e1rios de mensagens profundas para o nosso cora\u00e7\u00e3o, que se perdia na<br \/>\n<br \/>iniq\u00fcidade.<br \/> Am\u00f3s nos concitou a buscar Jeov\u00e1 para conseguirmos viver.<\/p>\n<p>Lastimo que os meus afei\u00e7oados se julguem ofendidos; mas \u00e9 preciso consi &#8211;<br \/>\n<br \/>derar que, antes de ouvir qualquer julgamento ocioso do mundo, devemos<br \/>\n<br \/>buscar os ju\u00edzos de Deus.<\/p>\n<p>\u2014Quer dizer que persistes nos teus erros? \u2014 perguntou Alexandre quase<br \/>\n<br \/>hostil.<br \/>\u2014<br \/>\n<br \/>N\u00e3o me sinto enganado.<br \/> Dada a incompreens\u00e3o geral \u2014 comentou o exrabino<br \/>\n<br \/>dignamente \u2014, tamb\u00e9m me encontro em penosa situa\u00e7\u00e3o; mas o Mestre<br \/>\n<br \/>n\u00e3o me faltar\u00e1 com o seu aux\u00edlio.<br \/> Lembro -me dele e experimento grande<br \/>\n<br \/>conforto.<br \/> Os afetos da fam\u00edlia e a considera\u00e7\u00e3o dos amigos eram no mundo<br \/>\n<br \/>minha \u00fanica riqueza.<br \/> Contudo, encontrei nas anota\u00e7\u00f5es de Levi o caso de um<br \/>\n<br \/>mo\u00e7o rico, que me ensina a proceder nesta hora (1).<br \/> Desde a inf\u00e2ncia procurei<br \/>\n<br \/>cumprir rigorosamente meus deveres; mas, se \u00e9 preciso lan\u00e7ar m\u00e3o da riqueza<br \/>\n<br \/>que me resta, para alcan\u00e7ar a ilumina\u00e7\u00e3o de Jesus, renunciarei \u00e0 pr\u00f3 pria<br \/>\n<br \/>estima deste mundo!.<br \/>.<br \/>.<\/p>\n<p>Alexandre pareceu comover -se com o tom melanc\u00f3lico das \u00faltimas<br \/>\n<br \/>palavras.<br \/> Saulo dava a impress\u00e3o de algu\u00e9m que estivesse prestes a chorar.<\/p>\n<p>\u2014Est\u00e1s fundamente transtornado \u2014 objetou Alexandre \u2014, s\u00f3 um demente<br \/>\n<br \/>poderia proceder assim.<\/p>\n<p>\u2014Gamaliel n\u00e3o era um louco e aceitou Jesus como o Messias prometido<br \/>\n<br \/>\u2014 acrescentou o ex-doutor invocando a vener\u00e1vel mem\u00f3ria do grande rabino.<\/p>\n<p>\u2014N\u00e3o creio! \u2014 disse o outro com ar superior.<\/p>\n<p>Saulo baixou a fronte silencioso.<br \/> Grande a humi lha\u00e7\u00e3o daquela hora.<\/p>\n<p>Depois de havido como demente, era tido por mentiroso.<br \/> Apesar disso, no auge<br \/>\n<br \/>da perplexidade, considerou que o amig o n\u00e3o estava em condi\u00e7\u00f5es<br \/>\n<br \/>(1) Mateus, cap\u00edtulo 19\u00ba, vers\u00edculos 16 a 23.<\/p>\n<p>167<br \/>\n<br \/>de compreend\u00ea-lo integralmente.<br \/> Refletia na situa \u00e7\u00e3o embara\u00e7osa, quando<br \/>\n<br \/>Alexandre voltou a dizer:<br \/>\n<br \/>\u2014 Infelizmente, preciso convencer -me do estado prec\u00e1rio do teu c\u00e9rebro.<\/p>\n<p>Por enquanto, poder\u00e1s ficar em Jerusal\u00e9m \u00e0 vontade, mas ser\u00e1 justo n\u00e3o<br \/>\n<br \/>multiplicar o esc\u00e2ndalo da tua enfermidade, com falsos paneg\u00edricos do<br \/>\n<br \/>carpinteiro de Nazar\u00e9.<br \/> A decis\u00e3o do Sin\u00e9drio, que consegui com tantos<br \/>\n<br \/>sacrif\u00edcios, poderia modificar -se.<br \/> Quanto ao mais \u2014 terminava como a despedi &#8211;<br \/>\n<br \/>lo \u2014, sabes que continuo \u00e0s tuas ordens para uma retifica\u00e7\u00e3o defi nitiva de<br \/>\n<br \/>atitudes, a qualquer tempo.<\/p>\n<p>Saulo compreendeu a advert\u00eancia; n\u00e3o era preciso dilatar a entrevista.<br \/> O<br \/>\n<br \/>amigo expulsava-o com boas maneiras.<\/p>\n<p>Em dois minutos achou-se novamente na via p\u00fablica.<br \/> Era quase meio -dia,<br \/>\n<br \/>um dia quente.<\/p>\n<p>Sentiu sede e fome.<br \/> Consultou a bolsa, estava quase vazia.<br \/> Um resto do<br \/>\n<br \/>que recebera das m\u00e3os generosas do irm\u00e3o de Gamaliel, ao deixar Palmira<br \/>\n<br \/>definitivamente.<br \/> Procurou a pens\u00e3o mais modes ta de uma das zonas mais<br \/>\n<br \/>pobres da cidade.<br \/> Em seguida a frugal refei\u00e7\u00e3o e antes que ca\u00edssem as<br \/>\n<br \/>sombras cariciosas da tarde, encaminhou -se esperan\u00e7ado para o velho<br \/>\n<br \/>casar\u00e3o reformado, onde Sim\u00e3o Pedro e companhei ros desenvolviam toda a<br \/>\n<br \/>atividade em prol da causa de Jesus.<\/p>\n<p>No trajeto, recordou-se de quando fora ouvir Estev\u00e3o em companhia de<br \/>\n<br \/>Sadoc.<br \/> Como tudo, agora, se passava inversamente! O cr\u00edtico, de o\u00fatrora,<br \/>\n<br \/>voltava para ser criticado.<br \/> O juiz, transformado em r\u00e9u, mergulhava o cora\u00e7\u00e3o<br \/>\n<br \/>em singulares ansiedades.<br \/> Como o receberiam na igreja do \u201cCaminho\u201d?<br \/>\n<br \/>Parou \u00e0 frente da habita\u00e7\u00e3o humilde.<br \/> Pensava em Estev\u00e3o.<br \/> mergulhado no<br \/>\n<br \/>passado, de alma opressa.<br \/> Ante os colegas do Sin\u00e9drio, entestando as<br \/>\n<br \/>autoridades, do juda\u00edsmo, outra era a sua atitude.<br \/> Conhecia -lhes as fraquezas<br \/>\n<br \/>peculiares.<br \/> passara tamb\u00e9m pelas m\u00e1scaras farisaicas e podia aquilatar de<br \/>\n<br \/>seus erros clamorosos.<br \/> No entanto, defrontando os Ap\u00f3stolos galileus, sagrada<br \/>\n<br \/>venera\u00e7\u00e3o se lhe impunha \u00e0 consci\u00eancia.<br \/> Aqueles homens poderiam ser rudes<br \/>\n<br \/>e simples, podiam viver distanciados dos valores intelectuais da \u00e9poca, mas<br \/>\n<br \/>tinham sido os primeiros colaboradores de Jesus.<br \/> Al\u00e9m disso, n\u00e3o pode ria<br \/>\n<br \/>aproximar-se deles sem experimentar profundo remorso.<br \/> Todos haviam sofrido<br \/>\n<br \/>vexames e humilia\u00e7\u00f5es por sua causa.<\/p>\n<p>N\u00e3o fosse Gamaliel, talvez o pr\u00f3prio Pedro teria sido lapidado.<br \/>.<br \/>.<br \/> Precisava<br \/>\n<br \/>consolidar as no\u00e7\u00f5es de humildade para manifestar seus desejos arden tes de<br \/>\n<br \/>coopera\u00e7\u00e3o sagrada com o Cristo.<br \/> Em Damasco, lutara na sinagoga contra a<br \/>\n<br \/>hipocrisia de antigos companheiros; em Jerusal\u00e9m, enfrentara Alexandre com<br \/>\n<br \/>todo o desassombro; entretanto, parecia -lhe que outra deveria ser sua atitude<br \/>\n<br \/>ali, onde tinha necessidade de ren\u00fancia para alcan\u00e7ar a reconcilia\u00e7\u00e3o com<br \/>\n<br \/>aqueles a quem havia ferido.<\/p>\n<p>Assomado de profundas reflex\u00f5es, bateu \u00e0 po rta quase tr\u00eamulo.<\/p>\n<p>Um dos auxiliares do servi\u00e7o interno, de nome Pr\u00f3coro, veio atender<br \/>\n<br \/>solicitamente.<\/p>\n<p>\u2014Irm\u00e3o \u2014 disse o mo\u00e7o tarsense em tom humil de \u2014, podeis informar se<br \/>\n<br \/>Pedro est\u00e1?<br \/>\n<br \/>\u2014Vou saber \u2014 respondeu o interpelado, amistoso.<\/p>\n<p>\u2014Caso esteja \u2014 acrescentou Saulo algo indeciso \u2014, dizei-lhe que Saulo<br \/>\n<br \/>de Tarso deseja falar-lhe em nome de Jesus.<\/p>\n<p>168<br \/>\n<br \/>Pr\u00f3coro gaguejou um \u201csim\u201d, com extrema palidez, fixou no visitante os<br \/>\n<br \/>olhos assombrados e afastou-se com dificuldade, sem dissimular a enorme<br \/>\n<br \/>surpresa.<br \/> Era o perseguidor que voltava, depois de tr\u00eas anos.<br \/> Lembra va-se,<br \/>\n<br \/>agora, daquela primeira discuss\u00e3o com Estev\u00e3o, em que o grande pregador do<br \/>\n<br \/>Evangelho sofrera tantos insultos.<br \/> Em poucos momentos alcan\u00e7ava a c\u00e2mara<br \/>\n<br \/>onde Pedro e Jo\u00e3o confabulavam sobre os problemas inte rnos.<\/p>\n<p>A not\u00edcia caiu entre ambos como uma bomba.<br \/> Ningu\u00e9m poderia prever tal<br \/>\n<br \/>coisa.<br \/> N\u00e3o acreditavam na lenda que Jerusal\u00e9m enfeitava com detalhes<br \/>\n<br \/>desconhecidos, em cada coment\u00e1rio.<br \/> Imposs\u00edvel que o algoz implac\u00e1vel dos<br \/>\n<br \/>disc\u00edpulos do Senhor estivesse convert ido \u00e0 causa do seu Evangelho de amor<br \/>\n<br \/>e reden\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O ex-pescador do \u201cCaminho\u201d, antes de recambiar o portador ao<br \/>\n<br \/>inesperado visitante, mandou chamar Tiago para resolverem os tr\u00eas a decis\u00e3o<br \/>\n<br \/>a tomar.<\/p>\n<p>O filho de Alfeu, transformado em r\u00edgido asceta, arregalou os olhos.<\/p>\n<p>Depois das primeiras opini\u00f5es que traduziam re ceios justos e emitidas<br \/>\n<br \/>precipitadamente, Sim\u00e3o exclamou com grande prud\u00eancia:<br \/>\n<br \/>\u2014Em verdade, ele nos fez o mal que p\u00f4de; entre tanto, n\u00e3o \u00e9 por n\u00f3s que<br \/>\n<br \/>devemos temer e sim pela obra do Cristo que nos est\u00e1 confiada.<\/p>\n<p>\u2014Aposto em que toda essa hist\u00f3ria da convers\u00e3o se resume numa farsa, a<br \/>\n<br \/>fim de que venhamos a cair em novas ciladas \u2014 replicou Tiago um tanto<br \/>\n<br \/>displicente.<\/p>\n<p>\u2014Por mim \u2014 disse Jo\u00e3o \u2014, pe\u00e7o a Jesus nos esclare\u00e7a, embora me<br \/>\n<br \/>recorde dos a\u00e7oites que Saulo mandou aplicar-me no c\u00e1rcere.<br \/> Antes de tudo, \u00e9<br \/>\n<br \/>indispens\u00e1vel saber se o Cristo, de fato, lhe apareceu \u00e0s portas de Damasco.<\/p>\n<p>\u2014Mas saber como? \u2014 dizia Pedro com profunda compreens\u00e3o.<br \/> \u2014 Nosso<br \/>\n<br \/>material de reconhecimento \u00e9 o pr\u00f3prio Saulo.<br \/> Ele \u00e9 o ca mpo que revelar\u00e1 ou<br \/>\n<br \/>n\u00e3o a planta sagrada do Mestre.<br \/> A meu ver, tendo a zelar um patrim\u00f4nio que<br \/>\n<br \/>nos n\u00e3o pertence, somos obrigados a proceder como aconselha a prud\u00eancia<br \/>\n<br \/>humana.<br \/> N\u00e3o \u00e9 justo abrirmos as portas, quando n\u00e3o lhe conhecemos o intuito.<\/p>\n<p>Da primeira vez que aqui esteve, Saulo de Tarso foi tratado com o respeito que<br \/>\n<br \/>o mundo lhe consagrava.<br \/> Busquei-lhe o melhor lugar para que ouvissse a<br \/>\n<br \/>palavra de Estev\u00e3o.<br \/> Infelizmente, sua atitude desres peitosa e ir\u00f4nica provocou<br \/>\n<br \/>esc\u00e2ndalo, que culminou na pris\u00e3o e morte do companheiro.<br \/> Veio<br \/>\n<br \/>espontaneamente e voltou para prender -nos.<br \/> Ao carinho fraternal, que lhe<br \/>\n<br \/>oferecemos, retribuiu com algemas e cordas.<br \/> Assim me externando, tamb\u00e9m<br \/>\n<br \/>n\u00e3o devo esquecer a li\u00e7\u00e3o do Mestre, relativamente ao perd\u00e3o, e por isso<br \/>\n<br \/>reafirmo que n\u00e3o penso por n\u00f3s, mas pelas responsabilidades que nos foram<br \/>\n<br \/>conferidas.<\/p>\n<p>Ante considera\u00e7\u00f5es t\u00e3o justas, os outros calaram, enquanto o ex -pescador<br \/>\n<br \/>acrescentava:<br \/>\n<br \/>\u2014 Por conseguinte, n\u00e3o me \u00e9 permitido receb\u00ea -lo nesta casa, sem maior<br \/>\n<br \/>exame, ainda que me n\u00e3o falte sincera boa-vontade para isso.<br \/> Resolvendo o<br \/>\n<br \/>assunto por essa forma, convocarei uma reuni\u00e3o para hoje \u00e0 noite.<br \/> O assunto \u00e9<br \/>\n<br \/>muito grave.<br \/> Saulo de Tarso foi o primeiro perseguidor do Evangelho.<br \/> Quero<br \/>\n<br \/>que todos cooperem comigo nas decis\u00f5es a tomar, pois, de mim mesmo, n\u00e3o<br \/>\n<br \/>quero parecer nem injusto, nem imprevidente.<\/p>\n<p>E depois de longa pausa, dizia para o emiss\u00e1rio:<br \/>\n<br \/>\u2014Vai, Pr\u00f3coro.<br \/> Dize-lhe que volte depois, que n\u00e3o posso deixar os<br \/>\n<br \/>quefazeres mais urgentes.<\/p>\n<p>169<br \/>\n<br \/>\u2014E se ele insistir? \u2014 perguntou o di\u00e2cono preocupado.<\/p>\n<p>\u2014Se ele de fato aqui vem em nome de Jesus, saber\u00e1 compreender e<br \/>\n<br \/>esperar.<\/p>\n<p>Saulo aguardava ansiosamente o mensageiro.<br \/> Era -lhe preciso encontrar<br \/>\n<br \/>algu\u00e9m que o entendesse e lhe sentisse a transforma\u00e7\u00e3o.<br \/> Estava exausto.<br \/> A<br \/>\n<br \/>igreja do \u201cCaminho\u201d era a derradei ra esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>Pr\u00f3coro transmitiu-lhe o recado com grande indecis\u00e3o.<br \/> N\u00e3o era preciso<br \/>\n<br \/>mais para que tudo compreendesse.<br \/> Os Ap\u00f3stolos galileus n\u00e3o acreditavam na<br \/>\n<br \/>sua palavra.<br \/> Agora examinava a situa\u00e7\u00e3o com mais clareza.<br \/> Percebia a<br \/>\n<br \/>indefin\u00edvel e grandiosa miseric\u00f3rdia do Cristo visitando-o, inesperadamente, no<br \/>\n<br \/>auge do seu abismo espiritual \u00e0s portas de Damasco.<\/p>\n<p>Pelas dificuldades para ir ter com Jesus, avaliava quanta bondade e<br \/>\n<br \/>compaix\u00e3o seriam necess\u00e1rias para que o Mestre o acolhesse, ende re\u00e7andolhe<br \/>\n<br \/>sagradas exorta\u00e7\u00f5es, no encontro inesque c\u00edvel.<\/p>\n<p>O di\u00e1cono fixou-o com simpatia.<br \/> Saulo recebera a resposta altamente<br \/>\n<br \/>desapontado.<\/p>\n<p>Ficou p\u00e1lido e tr\u00eamulo, como que envergonhado de si mesmo.<br \/> Al\u00e9m disso,<br \/>\n<br \/>tinha aspecto doentio, olhos encovados, era pele e osso.<\/p>\n<p>\u2014Compreendo, irm\u00e3o \u2014 disse de olhos molhados \u2014 Pedro tem motivos<br \/>\n<br \/>justos.<br \/>.<\/p>\n<p>Aquelas palavras comoveram a Pr\u00f3coro no mais \u00edntimo da alma e,<br \/>\n<br \/>evidenciando seu bom desejo de ampar\u00e1-lo, exclamou a demonstrar perfeito<br \/>\n<br \/>conhecimento dos fatos:<br \/>\n<br \/>\u2014N\u00e3o trazeis de Damasco alguma apresenta\u00e7\u00e3o de Ananias?<br \/>\n<br \/>\u2014J\u00e1 tenho comigo as do Mestre.<\/p>\n<p>\u2014Como assim? \u2014 perguntou o di\u00e1cono admirado.<\/p>\n<p>\u2014Jesus disse em Damasco \u2014 falou o visitante com serenidade \u2014 que<br \/>\n<br \/>mostraria quanto me compete sofrer por amor ao seu nome.<\/p>\n<p>Intimamente, o ex-doutor da Lei sentia imensa saudade dos irm\u00e3os de<br \/>\n<br \/>Damasco, que o haviam tratado com a maior simplicidade.<br \/> Entretanto,<br \/>\n<br \/>considerou, simultaneamente, que semelhante proceder era justo, porq\u00fcanto<br \/>\n<br \/>dera provas na sinagoga e junto de Ananias, de que sua atitude n \u00e3o<br \/>\n<br \/>comportava simula\u00e7\u00e3o.<br \/> Ao refletir que Jerusal\u00e9m o recebia, em toda parte,<br \/>\n<br \/>como vulgar mentiroso, sentiu l\u00e1grimas quentes lhe afluirem aos olhos.<br \/> Mas,<br \/>\n<br \/>para que o outro n\u00e3o lhe visse a sensibili dade ferida, exclamou justificando -se:<br \/>\n<br \/>\u2014Tenho os olhos cansados pelo sol do deserto! Podereis fornecer -me um<br \/>\n<br \/>pouco de \u00e1gua fresca?<br \/>\n<br \/>O di\u00e1cono atendeu prontamente.<\/p>\n<p>Da\u00ed a instantes, Saulo mergulhava as m\u00e3os num grande jarro, lavando os<br \/>\n<br \/>olhos em \u00e1gua pura.<\/p>\n<p>\u2014Voltarei depois \u2014 disse em seguida, estendendo a m\u00e3o ao auxi liar dos<br \/>\n<br \/>ap\u00f3stolos, que se afastou impres sionado.<\/p>\n<p>Amargando a fraqueza org\u00e2nica, o cansa\u00e7o, o aban dono dos amigos, as<br \/>\n<br \/>desilus\u00f5es mais acerbas, o mo\u00e7o de Tarso retirou -se cambaleante.<\/p>\n<p>\u00c0 noite, consoante deliberara, Sim\u00e3o Pedro, eviden ciando admir\u00e1vel bomsenso,<br \/>\n<br \/>reuniu os companheiros de mais responsabilidade para considerar o<br \/>\n<br \/>assunto.<br \/> Al\u00e9m dos Ap\u00f3stolos galileus, estavam presentes os irm\u00e3os Ni canor,<br \/>\n<br \/>Pr\u00f3coro, P\u00e1rmenas, Timon, Nicolau e Barnab\u00e9, este \u00faltimo incorporado ao<br \/>\n<br \/>grupo de auxiliares mais diretos da igreja, por suas elevadas qualidades de<br \/>\n<br \/>cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>170<br \/>\n<br \/>Com permiss\u00e3o de Pedro, Tiago iniciou as conversa \u00e7\u00f5es, manifestando-se<br \/>\n<br \/>contr\u00e1rio a qualquer esp\u00e9cie de aux\u00edlio imediato ao convertido da \u00faltima hora.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o ponderou que Jesus tinha poder para transformar os esp\u00edritos mais<br \/>\n<br \/>perversos, como para levantar os mais infortunados da sorte.<br \/> Pr\u00f3coro relatou<br \/>\n<br \/>suas impress\u00f5es a respeito do pertinaz perseguidor do Evangelho, ressal tando<br \/>\n<br \/>a compaix\u00e3o que seu estado de sa\u00fade despertava nos cora\u00e7\u00f5es mais<br \/>\n<br \/>insens\u00edveis.<br \/> Chegada a sua vez, Barnab\u00e9 esclareceu que, ainda em Chipre,<br \/>\n<br \/>antes de transferir-se definitivamente para Jerusal\u00e9m, ouvira alguns levitas<br \/>\n<br \/>descreverem a coragem com que o convertido falara na Sinagoga de<br \/>\n<br \/>Damasco, logo ap\u00f3s a vis\u00e3o de Jesus.<\/p>\n<p>O ex-pescador de Cafarnaum solicitou pormenores do companheiro,<br \/>\n<br \/>impressionado com a sua opini\u00e3o.<br \/> Bar nab\u00e9 explicou quanto sabia,<br \/>\n<br \/>manifestando o desejo de que resolvessem a quest\u00e3o com a maior<br \/>\n<br \/>benevol\u00eancia.<\/p>\n<p>Nicolau, percebendo a atmosfera de boa -vontade que se formava em torno<br \/>\n<br \/>da figura do ex-rabino, objetava com a sua rigidez de princ\u00edpios:<br \/>\n<br \/>\u2014Convenhamos que n\u00e3o \u00e9 justo esquecer os alei jados que se encontram<br \/>\n<br \/>nesta casa, v\u00edtimas da odiosa trucul\u00eancia dos asseclas de Saulo.<br \/> \u00cb das<br \/>\n<br \/>escrituras que se exija cuidado com os lobos que penetram no redil sob a pele<br \/>\n<br \/>das ovelhas.<br \/> O doutor da Lei, que nos fez tanto mal, sempre deu prefer\u00eancia \u00e0s<br \/>\n<br \/>grandes express\u00f5es espetaculares contra o Evangelho, no Sin\u00e9drio.<br \/> Quem<br \/>\n<br \/>sabe nos prepara atualmente nova armadilha de grande efeito?<br \/>\n<br \/>A tal pergunta, o bondoso Barnab\u00e9 curvou a fronte, em sil\u00eancio.<br \/> Pedro<br \/>\n<br \/>notou que a reuni\u00e3o se dividia em dois grupos.<br \/> De um lado estavam ele e Jo\u00e3o<br \/>\n<br \/>chefiando os pareceres favor\u00e1veis; do outro, Tiago e Filipe enca be\u00e7avam o<br \/>\n<br \/>movimento contr\u00e1rio.<br \/> Acolhendo a admoesta \u00e7\u00e3o de Nicolau, exprimiu-se com<br \/>\n<br \/>brandura:<br \/>\n<br \/>\u2014Amigos, antes da enuncia\u00e7\u00e3o de qualquer ponto de vista pessoal,<br \/>\n<br \/>conviria refletirmos na bondade infi nita do Mestre.<br \/> Nos trabalhos de minha vida,<br \/>\n<br \/>anteriores ao Pentecostes, confesso que as faltas de toda sorte aparecem no<br \/>\n<br \/>meu caminho de homem fr\u00e1gil e pecador.<\/p>\n<p>N\u00e3o hesitava em apedrejar os mais infelizes e cheguei, mesmo, a advertir<br \/>\n<br \/>o Cristo para faz\u00ea-lo! Como sabeis, fui dos que negaram o Senhor na hora<br \/>\n<br \/>extrema.<br \/> Entretanto, depois que nos chegou o conhecimento pela ins pira\u00e7\u00e3o<br \/>\n<br \/>celeste, n\u00e3o ser\u00e1 justo olvidarmos o Cristo em qualquer iniciativa.<br \/> Precisamos<br \/>\n<br \/>pensar que, se Saulo de Tarso procura valer -se de semelhantes expedientes<br \/>\n<br \/>para desferir novos golpes nos servidores do Evangelho, ent\u00e3o ele \u00e9 ainda<br \/>\n<br \/>mais desgra\u00e7ado que antes, quando nos atormentava abertamente.<br \/> Sendo,<br \/>\n<br \/>pois, um necessitado, de qualquer modo n\u00e3o vejo raz\u00f5es para lhe recusarmos<br \/>\n<br \/>m\u00e3os fraternas.<\/p>\n<p>Percebendo que Tiago preparava -se para defender o parecer de Nicolau,<br \/>\n<br \/>Sim\u00e3o Pedro continuou, depois de ligeira pau sa:<br \/>\n<br \/>\u2014 Nosso irm\u00e3o acaba de referir -se ao s\u00edmbolo do lobo que surge no redil<br \/>\n<br \/>com a pele das ovelhas generosas e humildes.<br \/> Concordo com essa express\u00e3o<br \/>\n<br \/>de zelo.<br \/> Tamb\u00e9m eu n\u00e3o pude acolher Saulo, quando hoje nos bateu \u00e0 porta,<br \/>\n<br \/>atento \u00e0 responsabilidade que me foi confiada.<\/p>\n<p>Nada quis decidir sem o vosso concurso, O Mestre nos ensinou que<br \/>\n<br \/>nenhuma obra \u00fatil se poder\u00e1 fazer na Terra sem a coopera\u00e7\u00e3o fraternal.<br \/> Mas,<br \/>\n<br \/>aproveitando o parecer enunciado, examinemos, com since ridade, o problema<br \/>\n<br \/>imprevisto.<br \/> Em verdade, Jesus recomendou nos acautel\u00e1ssemos contra o<br \/>\n<br \/>171<br \/>\n<br \/>fermento dos fariseus, esclarecendo que o disc\u00edpulo dever\u00e1 possuir con sigo a<br \/>\n<br \/>do\u00e7ura das pombas e a prud\u00eancia das serpentes.<br \/> Convenhamos em que, de<br \/>\n<br \/>fato, Saulo de Tarso possa ser o lobo simb\u00f3lico.<br \/> Ainda a\u00ed, ap \u00f3s esse<br \/>\n<br \/>conhecimento hipot\u00e9tico, ter\u00edamos profunda quest\u00e3o a resolver.<br \/> Se es tamos<br \/>\n<br \/>numa tarefa de paz e de amor, que fazer com o lobo, depois da necess\u00e1ria<br \/>\n<br \/>identifica\u00e7\u00e3o? Matar? Sabemos que isso n\u00e3o entra em nossa linha de conta.<\/p>\n<p>N\u00e3o seria mais razo\u00e1vel refletir nas possibilidades da domestica\u00e7\u00e3o?<br \/>\n<br \/>Conhecemos homens rudes que conseguem domi nar c\u00e3es ferozes.<br \/> Onde<br \/>\n<br \/>estaria, pois, o esp\u00edrito que Jesus nos legou como sagrado patrim\u00f4nio, se por<br \/>\n<br \/>temores mesquinhos deix\u00e1ssemos de praticar o bem?<br \/>\n<br \/>A palavra concisa do Ap\u00f3stolo tivera efeito singular.<br \/> O pr\u00f3prio Tiago<br \/>\n<br \/>parecia desapontado pelas anteriores re flex\u00f5es.<br \/> Em v\u00e3o Nicolau procurou<br \/>\n<br \/>argumentos novos para formular outras obje\u00e7\u00f5es.<br \/> Observando o pesado si &#8211;<br \/>\n<br \/>l\u00eancio que se fizera, Pedro sentenciou serenamente:<br \/>\n<br \/>\u2014 Desse modo, amigos, proponho convidarmos Barnab\u00e9 para visitar<br \/>\n<br \/>pessoalmente o doutor de Tarso, em nome desta casa.<br \/> Ele e Saulo n\u00e3o se<br \/>\n<br \/>conhecem, valorizando-se melhor semelhante oportunidade, porque, ao v\u00ea -lo,<br \/>\n<br \/>o mo\u00e7o tarsense nada ter\u00e1 que recordar do seu passado em Jerusal\u00e9m.<br \/> Se<br \/>\n<br \/>fosse visitado, pela primeira vez, por um de n\u00f3s, talvez se perturbasse,<br \/>\n<br \/>julgando nossas palavras como de algu\u00e9m que lhe fosse pedir contas.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o aplaudiu a id\u00e9ia calorosamente.<br \/> Em face do bom -senso que as<br \/>\n<br \/>express\u00f5es de Pedro revelavam, T iago e Filipe mostravam-se satisfeitos e<br \/>\n<br \/>tranq\u00fcilos.<br \/> Combinou-se a dilig\u00eancia de Barnab\u00e9 para o dia seguinte.<\/p>\n<p>Aguardariam Saulo de Tarso com interesse.<br \/> Se, de fato, sua convers\u00e3o fosse<br \/>\n<br \/>real, tanto melhor.<\/p>\n<p>O di\u00e1cono de Chipre destacava-se por sua grande bondade.<br \/> Sua<br \/>\n<br \/>express\u00e3o carinhosa e humilde, seu esp\u00ed rito conciliador, contribu\u00edam, na igreja,<br \/>\n<br \/>para a solu\u00e7\u00e3o pac\u00edfica de todos os assuntos.<\/p>\n<p>Com um sorriso generoso, Barnab\u00e9 abra\u00e7ou o ex -rabino, pela manh\u00e3, na<br \/>\n<br \/>pens\u00e3o em que ele se hospedara.<br \/> Nenhum tra\u00e7o da sua nova personalidade<br \/>\n<br \/>indiciava aquele perseguidor famoso, que fizera Sim\u00e3o Pedro decidir a<br \/>\n<br \/>convoca\u00e7\u00e3o dos amigos para resolver o seu acolhimento.<br \/> O ex -doutor da Lei<br \/>\n<br \/>era todo humildade e estava doente.<br \/> Indisfar\u00e7\u00e1vel fadiga transparecia -lhe nos<br \/>\n<br \/>m\u00ednimos gestos.<br \/> A fisionomia n\u00e3o iludia um grande sofrimento.<br \/> Corres pondia<br \/>\n<br \/>\u00e0s palavras afetuosas do visitante com um sor riso triste e acanhado.<br \/> Via-selhe,<br \/>\n<br \/>entretanto, a satisfa\u00e7\u00e3o que a visita lhe causava, O gesto espont\u00e2neo de<br \/>\n<br \/>Barnab\u00e9 sensibilizava-o.<br \/> A seu pedido, Saulo contou-lhe a viagem a Damasco<br \/>\n<br \/>e a gloriosa vis\u00e3o do Mestre, que constitu\u00eda o marco inolvid\u00e1vel da sua vida, O<br \/>\n<br \/>ouvinte n\u00e3o dissimulou simpatias.<\/p>\n<p>Em poucas horas sentia-se t\u00e3o identificado com o novo amigo, quais se<br \/>\n<br \/>fossem conhecidos de longos ano s.<br \/> Ap\u00f3s a conversa\u00e7\u00e3o, Barnab\u00e9 pretextou<br \/>\n<br \/>qualquer coisa para dirigir-se ao dono da hospedaria, a quem pagou as<br \/>\n<br \/>despesas da hospedagem.<br \/> Em seguida, convidou -o a acompanh\u00e1-lo \u00e0 igreja do<br \/>\n<br \/>\u201cCaminho\u201d.<br \/> Saulo n\u00e3o deixou de hesitar, enquanto o outro insistia.<\/p>\n<p>\u2014 Receio \u2014 disse o mo\u00e7o tarsense um tanto in deciso \u2014, pois j\u00e1 ofendi<br \/>\n<br \/>muito a Sim\u00e3o Pedro e demais companheiros.<br \/> S\u00f3 por acr\u00e9scimo de<br \/>\n<br \/>miseric\u00f3rdia do Cristo consegui uma r\u00e9stia de luz, para n\u00e3o perder totalmente<br \/>\n<br \/>meus dias.<\/p>\n<p>\u2014 Ora essa! \u2014 exclamou Barnab\u00e9, batendo-lhe no ombro com bonomia \u2014<br \/>\n<br \/>quem n\u00e3o ter\u00e1 errado na vida? Se Jesus nos tem valido a todos, n\u00e3o \u00e9 porque<br \/>\n<br \/>172<br \/>\n<br \/>o mere\u00e7amos, mas pela necessidade de nossa condi\u00e7\u00e3o de pe cadores.<\/p>\n<p>Em poucos minutos, encontravam-se a caminho, notando o emiss\u00e1rio de<br \/>\n<br \/>Pedro o penoso estado de sa\u00fade do antigo rabino.<br \/> Muito p\u00e1lido e abatido,<br \/>\n<br \/>parecia caminhar com esfor\u00e7o; tremiam-lhe as m\u00e3os, sentia-se febril.<br \/> Deixavase<br \/>\n<br \/>levar como algu\u00e9m que conhecesse a necessidade de amparo.<br \/> Sua<br \/>\n<br \/>humildade comovia o outro, que, a seu respeito, ouv ira tantas refer\u00eancias<br \/>\n<br \/>desairosas.<\/p>\n<p>Chegados a casa, Pr\u00f3coro lhes abriu a porta, mas, desta vez, Saulo n\u00e3o<br \/>\n<br \/>ficaria a esperar indefinidamente.<br \/> Barnab\u00e9 tomou -lhe a m\u00e3o, afetuoso, e<br \/>\n<br \/>dirigiram-se para o vasto sal\u00e3o, onde Pedro e Timon os esperavam.<br \/> Sau daramse<br \/>\n<br \/>em nome de Jesus.<br \/> O antigo perseguidor empalidecera mais.<br \/> Por sua vez,<br \/>\n<br \/>ao v\u00ea-lo, Sim\u00e3o n\u00e3o ocultou um movimento de espanto ao notar -lhe a diferen\u00e7a<br \/>\n<br \/>f\u00edsica.<\/p>\n<p>Aqueles olhos encovados, a extrema fraqueza org\u00e2 nica, falavam aos<br \/>\n<br \/>Ap\u00f3stolos galileus de profundos sofrimentos.<\/p>\n<p>\u2014 Irm\u00e3o Saulo \u2014 disse Pedro comovido \u2014, Jesus quer que sejas bemvindo<br \/>\n<br \/>a esta casa.<\/p>\n<p>\u2014 Assim seja \u2014 respondeu o rec\u00e9m-chegado, de olhos \u00famidos.<\/p>\n<p>Timon abra\u00e7ou-o com palavras afetuosas, em lugar de Jo\u00e3o que se<br \/>\n<br \/>ausentara ao amanhecer, a servi\u00e7o d a confraria de Jope.<\/p>\n<p>Em breves momentos, vencendo o constrangimento do primeiro contacto<br \/>\n<br \/>com os amigos pessoais do Mestre, depois de t\u00e3o longa aus\u00eancia, o mo\u00e7o<br \/>\n<br \/>tarsense, atendendo-lhes ao pedido, relatava a jornada de Damasco com todos<br \/>\n<br \/>os pormenores do grande acontecimento, evidenciando singular emotividade<br \/>\n<br \/>nas l\u00e1grimas que lhe banhavam o rosto.<br \/> Sensibilizara -se, sobremaneira, ao<br \/>\n<br \/>relembrar tamanhas gra\u00e7as.<br \/> Pedro e Timon j\u00e1 n\u00e3o tinham d\u00favidas.<br \/> A vis\u00e3o do<br \/>\n<br \/>ex-rabino tinha sido real.<br \/> Ambos, em companhia de Ba rnab\u00e9, seguiram a<br \/>\n<br \/>descri\u00e7\u00e3o at\u00e9 ao fim, com olhos cheios de pranto.<br \/> Efetivamente, o Mestre<br \/>\n<br \/>voltara, a fim de converter o grande perseguidor da sua doutrina.<br \/> Requisitando<br \/>\n<br \/>Saulo de Tarso para o redil do seu amor, revelara, mais uma vez, a li\u00e7\u00e3o<br \/>\n<br \/>imortal do perd\u00e3o e da miseric\u00f3rdia.<\/p>\n<p>Terminada a narrativa, o ex-doutor da Lei estava cansado e abatido.<\/p>\n<p>Instado a explanar suas novas espe ran\u00e7as, seus projetos de trabalho espiritual,<br \/>\n<br \/>bem como o que pretendia fazer em Jerusal\u00e9m, confessou -se desde logo<br \/>\n<br \/>profundamente reconhecido por tanto interesse afetuoso e falou com certa<br \/>\n<br \/>timidez:<br \/>\n<br \/>\u2014Necessito entrar numa fase ativa de trabalho com que possa desfazer<br \/>\n<br \/>meu passado culposo.<br \/> \u00c9 verdade que fiz todo o mal \u00e0 igreja de Jesus, em<br \/>\n<br \/>Jerusal\u00e9m; mas, se a miseric\u00f3rdia de Jesus di latar minha perman\u00eancia no<br \/>\n<br \/>mundo, empregarei o tempo em estender esta casa de amor e paz a outros<br \/>\n<br \/>lugares da Terra.<\/p>\n<p>\u2014Sim \u2014 replicou Sim\u00e3o ponderadamente \u2014, certo que o Messias<br \/>\n<br \/>renovar\u00e1 tuas for\u00e7as, de modo a poderes atender a t\u00e3o nobre cometimento, na<br \/>\n<br \/>\u00e9poca oportuna.<\/p>\n<p>Saulo parecia confortar-se com a palavra de encorajamento; deixando<br \/>\n<br \/>perceber que desejava consolidar a confian\u00e7a dos ouvintes, arrancou das<br \/>\n<br \/>dobras da t\u00fanica rafada um rolo de pergaminhos e, apresentando -o ao expescador<br \/>\n<br \/>de Cafarnaum, disse sensibilizado:<br \/>\n<br \/>\u2014Aqui est\u00e1 uma rel\u00edquia da amizade de Gamaliel, que trago<br \/>\n<br \/>invariavelmente comigo.<\/p>\n<p>173<br \/>\n<br \/>Pouco antes de morrer, ele deu-me a c\u00f3pia das anota\u00e7\u00f5es de Levi, concer &#8211;<br \/>\n<br \/>nentes \u00e0 vida e feitos do Salvador.<br \/> Tinha em grande conta estas notas, porque<br \/>\n<br \/>as recebeu desta casa, na primeira visita que lhe fez.<\/p>\n<p>Sim\u00e3o Pedro, evocando gratas recorda\u00e7\u00f5es, tomou os pergaminhos com vivo<br \/>\n<br \/>interesse.<br \/> Saulo verificava que o presente de Gamaliel tivera a finalidade<br \/>\n<br \/>prevista pelo generoso doador.<\/p>\n<p>Desde esse instante, os olhos do antigo pescador fixaram-se nele com<br \/>\n<br \/>mais confian\u00e7a.<br \/> Pedro falou da bondade do generoso rabino, informan do-se da<br \/>\n<br \/>sua vida em Palmira; dos seus \u00faltimos dias, do seu traspasse.<br \/> O disc\u00edpulo<br \/>\n<br \/>atendia satisfeito.<\/p>\n<p>Voltando ao assunto das suas novas persp ectivas, explicou-se mais<br \/>\n<br \/>amplamente, sempre humilde:<br \/>\n<br \/>\u2014Tenho muitos planos de trabalho para o futuro, mas, sinto -me combalido<br \/>\n<br \/>e doente.<br \/> O esfor\u00e7o da \u00faltima viagem, sem recursos de qualquer natureza,<br \/>\n<br \/>agravou-me a sa\u00fade.<br \/> Sinto-me febril, o corpo dolorido, a alma exausta.<\/p>\n<p>\u2014Tens falta de dinheiro? \u2014 interrogou Sim\u00e3o bondosamente.<\/p>\n<p>\u2014Sim.<br \/>.<br \/>.<br \/> \u2014 respondeu hesitante.<\/p>\n<p>\u2014Essas necessidades \u2014 esclareceu Pedro \u2014 j\u00e1 foram providas em parte.<\/p>\n<p>N\u00e3o te preocupes em demasia.<br \/> Recomendei a Barnab\u00e9 que pagasse as<br \/>\n<br \/>primeiras despesas da hospedaria e, quanto ao mais, convidamos -te a<br \/>\n<br \/>repousar conosco o tempo que quiseres.<br \/> Esta casa \u00e9 tamb\u00e9m tua.<br \/> Usa de<br \/>\n<br \/>nossas possibilidades como te aprouver.<\/p>\n<p>O h\u00f3spede sensibilizou-se.<br \/> Recordando o passado, sentia -se ferido no seu<br \/>\n<br \/>amor-pr\u00f3prio; mas, ao mesmo tempo, rogava a Jesus o auxiliasse para n\u00e3o<br \/>\n<br \/>desprezar as oportunidades de aprendizado.<\/p>\n<p>\u2014Aceito.<br \/>.<br \/>.<br \/> \u2014 respondeu em voz reticenciosa, re velando acanhamento \u2014,<br \/>\n<br \/>ficarei convosco enquanto minha sa\u00fade necessitar de tratamento.<br \/>.<br \/>.<\/p>\n<p>E como se tivesse extrema dificuldade em acrescentar um pedido ao favor<br \/>\n<br \/>que aceitava, depois de longa pausa em que se lhe notava o esfor\u00e7o para falar,<br \/>\n<br \/>solicitou comovedoramente:<br \/>\n<br \/>\u2014Caso fosse poss\u00edvel, desejaria ocupar o mesmo leito em que Estev\u00e3o foi<br \/>\n<br \/>recolhido, generosamente, nesta casa.<\/p>\n<p>Barnab\u00e9 e Pedro ficaram altamente emocionados.<br \/> Todos haviam<br \/>\n<br \/>combinado n\u00e3o fazer alus\u00e3o ao pregador massacrado sob apupos e pedradas.<\/p>\n<p>N\u00e3o queriam relembrar o passado perante o convertido de Damasco, ainda<br \/>\n<br \/>mesmo que sua atitude n\u00e3o fosse essenci almente sincera.<\/p>\n<p>Ouvindo-o, o antigo pescador de Cafarnaum chegou quase a chorar.<br \/> Com<br \/>\n<br \/>extrema dedica\u00e7\u00e3o, satisfez-lhe o pedido e, assim, foi ele conduzido ao interior,<br \/>\n<br \/>onde se acomodou entre len\u00e7\u00f3is muito alvos.<br \/> Pedro fez mais: compreendendo<br \/>\n<br \/>a profunda significa\u00e7\u00e3o daquele desejo, trouxe ao convertido de Damasco os<br \/>\n<br \/>singelos pergaminhos que o m\u00e1rtir utilizava diariamente no estudo e medita\u00e7\u00e3o<br \/>\n<br \/>da Lei, dos Profetas e do Evangelho.<br \/> Ape sar da febre, Saulo regozijou-se.<\/p>\n<p>Tomado de profunda como\u00e7\u00e3o, nas passagens prediletas dos pergaminhos sagrados,<br \/>\n<br \/>leu o nome de \u201cAbigail\u201d, grafado diversas vezes.<br \/> Ali estavam frases<br \/>\n<br \/>peculiares \u00e0 dial\u00e9tica da noiva amada, datas que coincidiam, perfeitamente,<br \/>\n<br \/>com as suas revela\u00e7\u00f5es \u00edntimas, quando ambos se entretinham a falar do<br \/>\n<br \/>passado, no pomar de Zacarias.<br \/> A palavra \u201cCorinto\u201d era repetida muitas vezes.<\/p>\n<p>Aqueles documentos pareciam ter uma voz.<br \/> Falavam -lhe ao cora\u00e7\u00e3o, de um<br \/>\n<br \/>grande e santo amor fraternal.<br \/> Ouvia -a em sil\u00eancio e guardou as conclus\u00f5es<br \/>\n<br \/>avaramente.<br \/> N\u00e3o revelaria a ningu \u00e9m suas \u00edntimas dores.<br \/> Bastavam aos outros<br \/>\n<br \/>174<br \/>\n<br \/>os grandes erros da sua vida p\u00fablica, os remorsos, as retifica\u00e7\u00f5es que, apesar<br \/>\n<br \/>de verificadas em campo aberto, raros ami gos conseguiam compreender.<\/p>\n<p>Observando-lhe a atitude de constante medita\u00e7\u00e3o, Pedro desdobrou -se na<br \/>\n<br \/>tarefa de assist\u00eancia fraternal.<br \/> Eram as palavras amigas, os co ment\u00e1rios<br \/>\n<br \/>acerca do poder de Jesus, os caldos suculen tos, as frutas substanciosas, a<br \/>\n<br \/>palavra de bom \u00e2nimo.<br \/> Por tudo isso, sensibilizava -se o doente, sem saber<br \/>\n<br \/>como traduzir sua gratid\u00e3o imperec\u00edvel.<\/p>\n<p>Entretanto, notou que Tiago, filho de Alfeu, re ceoso, talvez, dos seus<br \/>\n<br \/>antecedentes, n\u00e3o se dignava dirigir -lhe uma palavra.<br \/> Arvorado em r\u00edgido<br \/>\n<br \/>cumpridor da Lei de Mois\u00e9s, dentro da igreja do \u201cCaminho\u201d, era percebido, de<br \/>\n<br \/>vez em quando, pelo mo\u00e7o tarsense, qual sombra impass\u00edvel a deslizar,<br \/>\n<br \/>balbuciando preces silenciosas, entre os enfermos.<br \/> A princ\u00edpio, sentiu quanto<br \/>\n<br \/>lhe do\u00eda aquele desinteresse; mas logo considerou a necessidade de humilhar &#8211;<br \/>\n<br \/>se diante de todos.<br \/> Nada fizera, ainda, que pudess e positivar suas novas<br \/>\n<br \/>convic\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Quando dominava no Sin\u00e9drio, tamb\u00e9m n\u00e3o perdoava as ades\u00f5es de<br \/>\n<br \/>\u00faltima hora.<\/p>\n<p>Logo que entrou a convalescer, j\u00e1 plenamente identificado com a afei\u00e7\u00e3o<br \/>\n<br \/>de Pedro, pediu-lhe conselhos sobre os planos que tinha em mente,<br \/>\n<br \/>encarecendo a m\u00e1xima franqueza, para que pudesse enfrentar a situa \u00e7\u00e3o, por<br \/>\n<br \/>mais duras que lhe fossem as circunst\u00e2ncias.<\/p>\n<p>\u2014De minha parte \u2014 disse o Ap\u00f3stolo ponderadamente \u2014 n\u00e3o me parece<br \/>\n<br \/>razo\u00e1vel permaneceres em Je rusal\u00e9m, por enquanto, neste per\u00edodo de<br \/>\n<br \/>renova\u00e7\u00e3o.<br \/> Para falar com sinceridade, h\u00e1 que considerar teu novo estado<br \/>\n<br \/>dalma como a planta preciosa que come\u00e7a a germinar.<br \/> \u00c9 necess\u00e1rio dar<br \/>\n<br \/>liberdade ao germe divino da f\u00e9.<br \/> Na hip\u00f3tese da tua perman\u00eancia aqui,<br \/>\n<br \/>encontrarias, diariamente, de um lado os sacerdote s intransigentes em guerra<br \/>\n<br \/>contra o teu cora\u00e7\u00e3o; e de outro, as pessoas incompreens\u00edveis, que falam nas<br \/>\n<br \/>extremas dificuldades do perd\u00e3o, embora conhe\u00e7am, de sobra, as li\u00e7\u00f5es do<br \/>\n<br \/>Mestre nesse sentido.<br \/> N\u00e3o deves ignorar que a persegui\u00e7\u00e3o aos simpatizantes<br \/>\n<br \/>do \u201cCaminho\u201d deixou tra\u00e7os muito profundos na alma popular.<br \/> N\u00e3o raro, aqui<br \/>\n<br \/>chegam pessoas mutiladas, que amaldi\u00e7oam o movimento.<br \/> Isso para n\u00f3s,<br \/>\n<br \/>Saulo, est\u00e1 num passado que jamais voltar\u00e1; contudo, essas criaturas n\u00e3o o<br \/>\n<br \/>poder\u00e3o compreender assim, de pronto.<br \/> Em Jerusal\u00e9m estarias mal colocado.<\/p>\n<p>O germe de tuas novas convic\u00e7\u00f5es encontraria mil ele mentos hostis e talvez<br \/>\n<br \/>ficasses \u00e0 merc\u00ea da exaspera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O rapaz ouviu as advert\u00eancias ralado de ang\u00fastia, sem protestar.<br \/> O<br \/>\n<br \/>Ap\u00f3stolo tinha raz\u00e3o.<\/p>\n<p>Em toda a cidade encontraria cr\u00edticas soezes e destruidoras.<\/p>\n<p>\u2014 Voltarei a Tarso.<br \/>.<br \/>.<br \/> \u2014 disse com humildade \u2014, \u00e9 poss\u00edvel que meu velho<br \/>\n<br \/>pai compreenda a situa\u00e7\u00e3o e ajude meus passos.<br \/> Sei que Jesus aben\u00e7oar\u00e1<br \/>\n<br \/>meus esfor\u00e7os.<br \/> Se \u00e9 preciso recome\u00e7ar a exist\u00eancia, recome \u00e7\u00e1-la-ei no lar de<br \/>\n<br \/>onde provim.<br \/>.<br \/>.<\/p>\n<p>Sim\u00e3o contemplou-o com ternura, admirado daquela transforma\u00e7\u00e3o<br \/>\n<br \/>espiritual.<\/p>\n<p>Diariamente, ambos reatavam as palestras amisto sas.<br \/> O convertido de<br \/>\n<br \/>Damasco, intelig\u00eancia fulgurante, revelava curiosidade insaci\u00e1vel a respeito da<br \/>\n<br \/>personalidade do Cristo, dos seus m\u00ednimos feitos e mais sutis ensinamentos.<\/p>\n<p>Outras vezes, solicitava ao ex -pescador todos os informes poss\u00edveis sobre<br \/>\n<br \/>Estev\u00e3o, regozijando-se com as lembran\u00e7as de Abigail, embora guardasse<br \/>\n<br \/>175<br \/>\n<br \/>avaramente os pormenores do seu romance da moci dade.<br \/> Inteirou-se, ent\u00e3o,<br \/>\n<br \/>dos pesados trabalhos do pregador do Evangelho quando no cativeiro; da sua<br \/>\n<br \/>dedica\u00e7\u00e3o a um patr\u00edcio de nome S\u00e9rgio Paulo; da fuga em miser\u00e1vel estado<br \/>\n<br \/>de sa\u00fade, no porto palestinense; do ingresso na igreja do \u201cCaminho\u201d como<br \/>\n<br \/>indigente, das primeiras no\u00e7\u00f5es do Evangelho e conseq\u00fcente ilumina\u00e7\u00e3o em<br \/>\n<br \/>Cristo Jesus.<br \/> Encantava-se, ouvindo as narrativas simples e amorosas de<br \/>\n<br \/>Pedro, que revelava sua venera\u00e7\u00e3o ao m\u00e1rtir evitando melindr\u00e1 -lo na sua<br \/>\n<br \/>condi\u00e7\u00e3o de verdugo repeso.<\/p>\n<p>Logo que p\u00f4de levantar-se da cama, foi ouvir as prega\u00e7\u00f5es naquele<br \/>\n<br \/>mesmo recinto onde insultara o irm\u00e3o de Abigail, pela primeira vez.<br \/> Os<br \/>\n<br \/>expositores do Evangelho eram, mais freq\u00fcentemente, Pedro e Tiago.<br \/> O<br \/>\n<br \/>primeiro falava com profunda prud\u00eancia, embora se valesse de maravilhosas<br \/>\n<br \/>express\u00f5es simb\u00f3licas.<br \/> O segundo, entretanto, parecia torturado pela influ\u00eancia<br \/>\n<br \/>judaizante.<br \/> Tiago dava a impress\u00e3o de reingresso na maioria dos ouvintes, nos<br \/>\n<br \/>regulamentos farisaicos.<br \/> Suas prele\u00e7\u00f5es fugiam ao padr\u00e3o de liberdade e de<br \/>\n<br \/>amor em Jesus-Cristo.<br \/> Revelava-se encarcerado nas concep\u00e7\u00f5es estrei tas do<br \/>\n<br \/>juda\u00edsmo dominante.<br \/> Longos per\u00edodos de seus discursos referiam -se \u00e0s carnes<br \/>\n<br \/>impuras, \u00e0s obriga\u00e7\u00f5es para com a Lei, aos imperativos da circuncis\u00e3o.<br \/> A<br \/>\n<br \/>assembl\u00e9ia tamb\u00e9m parecia completamente modificada.<br \/> A igreja assemelhavase<br \/>\n<br \/>muito mais a uma sinagoga comum.<br \/> Israelitas, em atitude solene,<br \/>\n<br \/>consultavam pergaminhos e papiros que continham as prescri\u00e7\u00f5es de Moi s\u00e9s.<\/p>\n<p>Saulo procurou, em v\u00e3o, a figura impressionante dos sofredores e aleijados<br \/>\n<br \/>que vira no recinto, quando ali esteve pela primeira vez.<br \/> Curios\u00edssimo, notou<br \/>\n<br \/>que Sim\u00e3o Pedro atendia-os numa sala cont\u00edgua, com grande bon dade.<\/p>\n<p>Aproximou-se mais e p\u00f4de observar que, enquanto a prega\u00e7\u00e3o reproduzia a<br \/>\n<br \/>cena exata das sinagogas, os aflitos se suce diam ininterruptamente na sala<br \/>\n<br \/>humilde do ex-pescador de Cafarnaum.<br \/> Alguns sa\u00edam conduzindo bilhas de<br \/>\n<br \/>rem\u00e9dio, outros levavam azeite e p\u00e3o.<\/p>\n<p>Saulo impressionou-se.<br \/> A igreja do \u201cCaminho\u201d pare cia muito mudada.<\/p>\n<p>Faltava-lhe alguma coisa.<br \/> O ambiente geral era d e asfixia de todas as id\u00e9ias do<br \/>\n<br \/>Nazareno.<br \/> N\u00e3o mais encontrou ali a grande vibra\u00e7\u00e3o de fraterni dade e de<br \/>\n<br \/>unifica\u00e7\u00e3o de princ\u00edpios pela independ\u00eancia espiritual.<br \/> Depois de aturadas<br \/>\n<br \/>reflex\u00f5es, tudo atribu\u00eda \u00e0 falta de Estev\u00e3o.<br \/> Morto este, extinguira -se o esfor\u00e7o<br \/>\n<br \/>do Evangelho livre; pois fora ele o fermento divino da renova\u00e7\u00e3o.<br \/> Somente<br \/>\n<br \/>agora se capacitava da grandeza da sua elevada tarefa.<\/p>\n<p>Quis pedir a palavra, falar como em Damasco, zurzir os erros de<br \/>\n<br \/>interpreta\u00e7\u00e3o, sacudir a poeira que se adensava sobre o im enso e sagrado<br \/>\n<br \/>idealismo do Cristo, mas lembrou as pondera\u00e7\u00f5es de Pedro e calou -se.<br \/> N\u00e3o<br \/>\n<br \/>era justo, por enquanto, verberar o procedimento de outrem, quando n\u00e3o dera<br \/>\n<br \/>obras de si mesmo, por testemunhar a pr\u00f3pria renova\u00e7\u00e3o.<br \/> Se tentasse falar,<br \/>\n<br \/>podia ouvir, talvez, reprimendas justas.<br \/> Al\u00e9m disso, notava que os conhecidos<br \/>\n<br \/>de outros tempos, freq\u00fcentadores agora da igreja do \u201cCaminho\u201d, sem<br \/>\n<br \/>abandonar, de modo algum, seus princ\u00edpios err\u00f4neos, olhavam -no de soslaio,<br \/>\n<br \/>sem dissimular desprezo, considerando -o em perturba\u00e7\u00e3o mental.<br \/> No entanto,<br \/>\n<br \/>era com esfor\u00e7o supremo que sopi tava o desejo de ter\u00e7ar armas, mesmo ali,<br \/>\n<br \/>para restaura\u00e7\u00e3o da verdade pura.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a primeira reuni\u00e3o, procurou oportunidade de estar a s\u00f3s com o ex &#8211;<br \/>\n<br \/>pescador de Cafarnaum, a fim de se inteirar das inov a\u00e7\u00f5es observadas.<\/p>\n<p>\u2014 A tempestade que desabou sobre n\u00f3s \u2014 explicou Pedro<br \/>\n<br \/>generosamente, sem qualquer alus\u00e3o ao seu pro cedimento de outrora \u2014<br \/>\n<br \/>176<br \/>\n<br \/>levou-me a s\u00e9rias medita\u00e7\u00f5es.<br \/> Desde a primeira dilig\u00eancia do Sin\u00e9drio nesta<br \/>\n<br \/>casa, notei que Tiago sofrera profundas transforma\u00e7\u00f5es.<br \/> Entregou-se a uma<br \/>\n<br \/>vida de grande ascetismo e rigoroso cumprimento da Lei de Mois\u00e9s.<\/p>\n<p>Pensei muito na mudan\u00e7a das suas atitudes, mas, por outro lado,<br \/>\n<br \/>considerei que ele n\u00e3o \u00e9 mau.<br \/> \u00c9 companheiro zeloso, dedicado e leal.<br \/> Calei -me<br \/>\n<br \/>para mais tarde concluir que tudo tem uma raz\u00e3o de ser.<br \/> Quando as<br \/>\n<br \/>persegui\u00e7\u00f5es apertaram o cerco a atitude de Tiago, embora pouco louv\u00e1vel,<br \/>\n<br \/>quanto \u00e0 liberdade do Evangelho, teve seu lado ben\u00e9fico.<br \/> Os dele gados mais<br \/>\n<br \/>truculentos respeitaram-lhe o devocionismo moisaico e suas amizades sinceras<br \/>\n<br \/>no juda\u00edsmo nos permitiram a manuten\u00e7\u00e3o do patrim\u00f4nio do Cristo.<br \/> Eu e Jo\u00e3o<br \/>\n<br \/>tivemos horas angustiosas, na considera\u00e7\u00e3o desses problemas.<br \/> Estar\u00edamos<br \/>\n<br \/>sendo insinceros, falsear\u00edamos a verdade?<br \/>\n<br \/>Ansiosamente rogamos a inspira\u00e7\u00e3o do Mest re.<br \/> Com o aux\u00edlio de sua divina<br \/>\n<br \/>luz, chegamos a criteriosas conclus\u00f5es.<br \/> Seria justo lutar a videira ainda tenra<br \/>\n<br \/>com a figueira brava? Se f\u00f4ssemos atender ao impulso pessoal de combater os<br \/>\n<br \/>inimigos da independ\u00eancia do Evangelho, esquecer\u00edamos fatalmente, a obra<br \/>\n<br \/>coletiva.<br \/> N\u00e3o \u00e9 l\u00edcito que o timoneiro, por testemunhar a excel\u00eancia de conhe &#8211;<br \/>\n<br \/>cimentos n\u00e1uticos, atire o barco contra os rochedos, com preju\u00edzo de vida para<br \/>\n<br \/>quantos confiaram no seu esfor\u00e7o.<br \/> Consideramos, assim, que as dificuldades<br \/>\n<br \/>eram muitas e precis\u00e1vamos, enquanto m\u00ednima fosse a nossa possibili dade de<br \/>\n<br \/>a\u00e7\u00e3o, conservar a \u00e1rvore do Evangelho ainda tenra, para aqueles que viessem<br \/>\n<br \/>depois de n\u00f3s.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do mais, Jesus ensinou que s\u00f3 conseguimos elevados objetivos neste<br \/>\n<br \/>mundo, cedendo alguma coisa de n\u00f3s mesmos.<br \/> Por interm\u00e9dio de Tiago, o<br \/>\n<br \/>farisa\u00edsmo acede em caminhar conosco.<br \/> Pois bem: consoante os ensina mentos<br \/>\n<br \/>do Mestre, caminharemos as milhas poss\u00edveis.<br \/> E julgo mesmo que, se Jesus<br \/>\n<br \/>assim nos ensinou, \u00e9 porque na marcha temos a oportunidade de ensinar<br \/>\n<br \/>alguma coisa e revelar quem somos &#8211;<br \/>\n<br \/>Enquanto Saulo o contemplava com redobrada admi ra\u00e7\u00e3o pelos judiciosos<br \/>\n<br \/>conceitos emitidos, o Ap\u00f3stolo rematava:<br \/>\n<br \/>\u2014 Isso passa! A obra \u00e9 do Cristo.<br \/> Se fosse nossa, falharia por certo, mas<br \/>\n<br \/>n\u00f3s n\u00e3o passamos de simples e imperfe itos cooperadores.<\/p>\n<p>Saulo guardou a li\u00e7\u00e3o e recolheu-se pensativo.<br \/> Pedro parecia-lhe muito<br \/>\n<br \/>maior agora, no seu foro \u00edntimo.<br \/> Aquela serenidade, aquele poder de<br \/>\n<br \/>compreens\u00e3o dos fatos m\u00ednimos, davam-lhe id\u00e9ia da sua profunda ilumi na\u00e7\u00e3o<br \/>\n<br \/>espiritual.<\/p>\n<p>De sa\u00fade refeita, antes de qualquer delibera\u00e7\u00e3o sobre o novo caminho a<br \/>\n<br \/>tomar, o mo\u00e7o tarsense desejou rever Jerusal\u00e9m num impulso natural de<br \/>\n<br \/>afei\u00e7\u00e3o aos lugares que lhe sugeriam tantas lembran\u00e7as cariciosas.<br \/> Visitou o<br \/>\n<br \/>Templo, experimentando o contraste das emo\u00e7\u00f5es.<br \/> N\u00e3o se animou a penetrar<br \/>\n<br \/>no Sin\u00e9drio, mas procurou, ansioso, a Sinagoga dos cilicianos, onde presumia<br \/>\n<br \/>reencontrar as amizades nobres e af\u00e1veis de outros tempos.<\/p>\n<p>Entretanto, mesmo ali onde se reuniam os conterr\u00e2neos residentes em<br \/>\n<br \/>Jerusal\u00e9m, foi recebido friamente.<br \/> Ningu\u00e9m o convidou ao labor da palavra.<\/p>\n<p>Apenas alguns conhecidos de sua fam\u00edlia apertaram -lhe a m\u00e3o secamente,<br \/>\n<br \/>evitando-lhe a companhia, de modo ostensivo.<\/p>\n<p>Os mais ir\u00f4nicos, terminados os servi\u00e7os religiosos, dirigiram-lhe<br \/>\n<br \/>perguntas, com sorrisos escarninhos.<br \/> Sua convers\u00e3o \u00e0s portas de Damasco<br \/>\n<br \/>era glosada com dit\u00e9rios acerados e deprimentes.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o seria algum sortil\u00e9gio dos feiticeiros do \u201cCaminho\u201d? \u2014 diziam uns.<\/p>\n<p>177<br \/>\n<br \/>\u2014 N\u00e3o seria Dem\u00e9trio que se vestira de Cristo e lhe deslumbrara os olhos<br \/>\n<br \/>doentes e fatigados? \u2014 interrogavam outros.<\/p>\n<p>Percebeu as ironias de que estava sendo objeto.<br \/> Tratavam -no como<br \/>\n<br \/>demente.<br \/> Foi a\u00ed que, sem sopitar a impulsividade do cora\u00e7\u00e3o honesto, subiu<br \/>\n<br \/>ousadamente num estrado e falou com orgulho:<br \/>\n<br \/>\u2014 Irm\u00e3os da Cil\u00edcia, estais enganados.<br \/> N\u00e3o estou louco.<br \/> N\u00e3o buscais<br \/>\n<br \/>arg\u00fcir-me porque eu vos conhe\u00e7o e sei medir a hipocrisia farisaica.<\/p>\n<p>Estabeleceu-se luta imediata.<br \/> Velhos amigos voci feravam improp\u00e9rios.<br \/> Os<br \/>\n<br \/>mais ponderados cercaram-no como se o fizessem a um doente e pediram -lhe<br \/>\n<br \/>que se calasse.<br \/> Saulo precisou fazer um esfo\u00e7o her\u00f3ico para conter a<br \/>\n<br \/>indigna\u00e7\u00e3o.<br \/> A custo, conseguiu dominar -se e retirou-se.<br \/> Em plena via p\u00fablica,<br \/>\n<br \/>sentia-se assaltado por id\u00e9ias escaldantes.<br \/> N\u00e3o seria melhor combater aberta &#8211;<br \/>\n<br \/>mente, pregar a verdade sem considera\u00e7\u00e3o pela s m\u00e1scaras religiosas que<br \/>\n<br \/>enchiam a cidade? A seus olhos, era justo refletir na guerra declarada aos<br \/>\n<br \/>erros farisaicos.<br \/> E se, ao contr\u00e1rio das pondera\u00e7\u00f5es de Pedro, assu misse em<br \/>\n<br \/>Jerusal\u00e9m a chefia de um movimento mais vasto, a favor do Nazareno? N\u00e3o<br \/>\n<br \/>tivera a coragem de perseguir -lhe os disc\u00edpulos, quando os doutores do Si &#8211;<br \/>\n<br \/>n\u00e9drio eram todos complacentes? Por que n\u00e3o assumir, agora, a atitude da<br \/>\n<br \/>repara\u00e7\u00e3o, encabe\u00e7ando um movimento em contr\u00e1rio? Havia de encontrar<br \/>\n<br \/>alguns amigos que se lhe associassem ao esf or\u00e7o ardente.<br \/> Com esse gesto,<br \/>\n<br \/>auxiliaria o pr\u00f3prio irm\u00e3o na sua tarefa dignifi cante em prol dos necessitados.<\/p>\n<p>Fascinado com tais perspectivas, penetrou no Templo famoso.<br \/> Recordou<br \/>\n<br \/>os dias mais recuados da inf\u00e2ncia e da primeira juventude.<br \/> O movimento<br \/>\n<br \/>popular no recinto j\u00e1 lhe n\u00e3o despertava o interesse de outrora.<br \/> Instintiva mente,<br \/>\n<br \/>aproximou-se do local onde Estev\u00e3o sucumbira.<br \/> Lembrou a cena dolorosa,<br \/>\n<br \/>detalhe por detalhe.<br \/> Penosa ang\u00fastia assomava -lhe ao cora\u00e7\u00e3o.<br \/> Orou com<br \/>\n<br \/>fervor ao Cristo.<br \/> Entrou na sala ond e estivera a s\u00f3s com Abigail, a ouvir as<br \/>\n<br \/>\u00faltimas palavras do m\u00e1rtir do Evangelho.<br \/> Compreendia, enfim, a grandeza<br \/>\n<br \/>daquela alma que o perdoara in extremis.<br \/> Cada palavra do moribundo res &#8211;<br \/>\n<br \/>soava-lhe agora, estranhamente, nos ouvidos.<br \/> A eleva \u00e7\u00e3o de Estev\u00e3o<br \/>\n<br \/>fascinava-o.<br \/> O pregador do \u201cCaminho\u201d havia -se imolado por Jesus! Por que<br \/>\n<br \/>n\u00e3o faz\u00ea-lo tamb\u00e9m?.<br \/> Era justo ficar em Jerusal\u00e9m, seguir -lhe os passos<br \/>\n<br \/>her\u00f3icos, para que a li\u00e7\u00e3o do Mestre fosse com preendida.<br \/> Na recorda\u00e7\u00e3o do<br \/>\n<br \/>passado, o mo\u00e7o tarsense mergulhava -se em preces fervorosas.<br \/> Suplicava a<br \/>\n<br \/>inspira\u00e7\u00e3o do Cristo para seus novos caminhos.<br \/> Foi a\u00ed que o convertido de<br \/>\n<br \/>Damasco, exteriorizando as faculdades espirituais, fruto das penosas<br \/>\n<br \/>disciplinas, observou que um vulto luminoso surgia inopinadamente a seu lado,<br \/>\n<br \/>falando-lhe com inef\u00e1vel ternura:<br \/>\n<br \/>\u2014 Retira-te de Jerusal\u00e9m, porque os antigos companheiros n\u00e3o aceitar\u00e3o,<br \/>\n<br \/>por enquanto, o testemunho!<br \/>\n<br \/>Sob o p\u00e1lio de Jesus, Estev\u00e3o seguia -lhe os passos na senda do<br \/>\n<br \/>discipulado, embora a posi\u00e7\u00e3o transcendental de sua assist \u00eancia invis\u00edvel.<\/p>\n<p>Saulo, naturalmente, cuidou que era o pr\u00f3prio Cristo o autor da carinhosa<br \/>\n<br \/>advert\u00eancia e, fundamente impressionado, demandou a igreja do \u201cCaminho\u201d,<br \/>\n<br \/>informando a Sim\u00e3o Pedro o que ocorrera.<\/p>\n<p>\u2014 Entretanto \u2014 acabou dizendo ao generoso Ap\u00f3s tolo que o ouvia<br \/>\n<br \/>admirado \u2014, n\u00e3o devo ocultar que tencionava agitar a opini\u00e3o religiosa da<br \/>\n<br \/>cidade, defender a causa do Mestre, restabelecer a verdade em sua fei\u00e7\u00e3o<br \/>\n<br \/>Integral.<\/p>\n<p>Enquanto o ex-pescador escutava em sil\u00eancio, como a refor\u00e7ar a resposta,<br \/>\n<br \/>178<br \/>\n<br \/>o novo disc\u00edpulo continuava:<br \/>\n<br \/>\u2014 Estev\u00e3o n\u00e3o se entregou ao sacrif\u00edcio? Sinto que nos falta aqui uma<br \/>\n<br \/>coragem igual \u00e0 do m\u00e1rtir, sucumbido \u00e0s pedradas da minha ignor\u00e2ncia.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, Saulo \u2014 replicou Pedro com firmeza \u2014, n\u00e3o seria razo\u00e1vel pensar<br \/>\n<br \/>assim.<br \/> Tenho maior experi\u00eancia da vida, embora n\u00e3o tenha cabedais de<br \/>\n<br \/>intelig\u00eancia semelhantes aos teus.<\/p>\n<p>Est\u00e1 escrito que o disc\u00edpulo n\u00e3o poder\u00e1 ser maior que o mestre.<br \/> Aqui<br \/>\n<br \/>mesmo, em Jerusal\u00e9m, vimos Judas cair numa cilada igual a esta.<br \/> Nos dias<br \/>\n<br \/>angustiosoS do Calv\u00e1rio, em que o Senhor provou a excel\u00eancia e a divindade<br \/>\n<br \/>do seu amor e, n\u00f3s, o amargo testemunho da ex\u00edgua f\u00e9, condenamos o<br \/>\n<br \/>infortunado companheiro.<br \/> Alguns irm\u00e3os nossos mant\u00eam, at\u00e9 o presente, a<br \/>\n<br \/>opini\u00e3o dos primeiros dias; mas, em contacto com a realidade do mundo,<br \/>\n<br \/>cheguei \u00e0 conclus\u00e3o de que Judas foi mais infeliz que perverso.<br \/> Ele n\u00e3o<br \/>\n<br \/>acreditava na validade das obras sem dinheiro, n\u00e3o aceitava outro poder que<br \/>\n<br \/>n\u00e3o fosse o dos pr\u00edncipes do mundo.<br \/> Estava sempre inquieto pelo triunfo<br \/>\n<br \/>imediato das id\u00e9ias do Cristo.<br \/> Muitas vez es, vimo-lo altercar, impaciente, pela<br \/>\n<br \/>constru\u00e7\u00e3o do Reino de Jesus, adstrito aos princ\u00edpios pol\u00edticos do mundo.<br \/> O<br \/>\n<br \/>Mestre sorria e fingia n\u00e3o enten der as insinua\u00e7\u00f5es, como quem estava senhor<br \/>\n<br \/>do seu divino programa.<br \/> Judas, antes do apostolado, era nego ciante.<br \/> Estava<br \/>\n<br \/>habituado a vender a mercadoria e receber o pagamento imediato.<br \/> Julgo, nas<br \/>\n<br \/>medita\u00e7\u00f5es de agora, que ele n\u00e3o p\u00f4de compreender o Evangelho de outra<br \/>\n<br \/>forma, ignorando que Deus \u00e9 um credor cheio de mise ric\u00f3rdia, que espera<br \/>\n<br \/>generosamente a todos n\u00f3s, que n\u00e3o passamos de m\u00edseros devedores.<\/p>\n<p>Talvez amasse profundamente o Messias, contudo, a inquieta\u00e7\u00e3o F\u00ea -lo<br \/>\n<br \/>perder na oportunidade sagrada.<br \/> T\u00e3o -s\u00f3 pelo desejo de apressar a vit\u00f3ria,<br \/>\n<br \/>engendrou a trag\u00e9dia da cruz, com a sua falta de vigil\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Saulo ouvia assombrado aquelas considera\u00e7\u00f5es jus tas e o bondoso<br \/>\n<br \/>Ap\u00f3stolo continuava:<br \/>\n<br \/>\u2014Deus \u00e9 a Provid\u00eancia de todos.<br \/> Ningu\u00e9m est\u00e1 esquecido.<br \/> Para que<br \/>\n<br \/>ajuizes melhor da situa\u00e7\u00e3o, admi tamos que fosses mais feliz que Judas.<\/p>\n<p>Figuremos tua vit\u00f3ria pessoal no feito.<\/p>\n<p>Concedamos que pudesses atrair para o Mestre toda a cidade.<br \/> E depois?<br \/>\n<br \/>Deverias e poderias responder por todos os que aderissem ao teu es for\u00e7o? A<br \/>\n<br \/>verdade \u00e9 que poderias atrair, nunca, por\u00e9m, converter.<br \/> Como n\u00e3o te fosse<br \/>\n<br \/>poss\u00edvel atender a todos, em particular , acabarias execrado pela mesma forma.<\/p>\n<p>Se Jesus, que tudo pode neste mundo sob a \u00e9gide do Pai, espera com<br \/>\n<br \/>paci\u00eancia a convers\u00e3o do mundo, por que n\u00e3o poderemos esperar, de nossa<br \/>\n<br \/>parte? A melhor posi\u00e7\u00e3o da vida \u00e9 a do equil\u00edbrio.<br \/> N\u00e3o \u00e9 justo desejar fazer<br \/>\n<br \/>nem menos, nem mais do que nos compete, mesmo porque o Mestre<br \/>\n<br \/>sentenciou que a cada dia bastam os seus tra balhos.<\/p>\n<p>O convertido de Damasco estava surpreso a mais n\u00e3o poder.<br \/> Sim\u00e3o<br \/>\n<br \/>apresentava argumentos irretorqu\u00ed veis.<br \/> Sua inspira\u00e7\u00e3o assombrava -o.<\/p>\n<p>\u2014\u00c0 vista do que ocorreu \u2014 prosseguiu o ex-pescador serenamente \u2014,<br \/>\n<br \/>importa que te v\u00e1s logo que caia a noite.<br \/> A luta iniciada na Sinagoga dos<br \/>\n<br \/>cil\u00edcios \u00e9 muito mais importante que os atritos de Damasco.<br \/> \u00c9 poss\u00edvel que<br \/>\n<br \/>amanh\u00e3 procurem encarcerar -te &#8211; Al\u00e9m disso, a advert\u00eancia recebida no<br \/>\n<br \/>Templo n\u00e3o \u00e9 de molde a procrastinarmos provid\u00eancias indispens\u00e1veis.<\/p>\n<p>Saulo concordou de boamente com o alvitre.<br \/> Poucas vezes na vida<br \/>\n<br \/>escutara observa\u00e7\u00f5es t\u00e3o sensatas.<\/p>\n<p>\u2014Pretendes voltar \u00e0 Cil\u00edcia? \u2014 disse Pedro com inflex\u00e3o paternal.<\/p>\n<p>179<br \/>\n<br \/>\u2014J\u00e1 n\u00e3o tenho mais aonde ir \u2014 respondeu com resignado sorriso.<\/p>\n<p>&#8211; Pois bem, partir\u00e1s para Cesar\u00e9ia.<br \/> Temos ali ami gos sinceros que te<br \/>\n<br \/>poder\u00e3o auxiliar.<\/p>\n<p>O programa de Sim\u00e3o Pedro foi rigorosamente cum prido.<br \/> \u00c0 noite, quando<br \/>\n<br \/>Jerusal\u00e9m se envolvia em grande sil\u00eancio, um cavaleiro humilde transpunha as<br \/>\n<br \/>portas da cidade, na dire\u00e7\u00e3o dos caminhos que conduziam ao grande porto<br \/>\n<br \/>palestinense.<\/p>\n<p>Torturado pelas apreens\u00f5es constantes da sua nova vida, chegou a<br \/>\n<br \/>Cesar\u00e9ia decidido a n\u00e3o se deter ali muito t empo.<br \/> Entregou as cartas de Pedro<br \/>\n<br \/>que o recomendavam aos amigos fi\u00e9is.<br \/> Recebido com simpatia por todos, n\u00e3o<br \/>\n<br \/>teve dificuldades em retomar o caminho da cidade natal.<\/p>\n<p>Dirigindo-se agora para o cen\u00e1rio da inf\u00e2ncia, sen tia-se extremamente<br \/>\n<br \/>comovido com as m\u00ednimas recorda\u00e7\u00f5es.<br \/> Aqui, um acidente do caminho a<br \/>\n<br \/>sugerir cariciosas lembran\u00e7as; ali, um grupo de \u00e1rvores envelhecidas a des &#8211;<br \/>\n<br \/>pertarem especial aten\u00e7\u00e3o.<br \/> V\u00e1rias vezes, passou por cara vanas de camelos<br \/>\n<br \/>que lhe faziam relembrar as iniciativas paternas.<br \/> T\u00e3o inte nsa lhe fora a vida<br \/>\n<br \/>espiritual nos \u00faltimos anos, t\u00e3o grandes as transforma\u00e7\u00f5es, que a vida do lar se<br \/>\n<br \/>lhe figurava um sonho bom, de h\u00e1 muito desva necido.<br \/> Atrav\u00e9s de Alexandre,<br \/>\n<br \/>recebera as primeiras not\u00edcias de casa.<br \/> Lamentava a partida de sua m\u00e3e, justa &#8211;<br \/>\n<br \/>mente quando tinha maior necessidade da sua compreen s\u00e3o afetuosa; mas<br \/>\n<br \/>entregava a Jesus os seus cuidados, nesse particular.<br \/> Do velho pai n\u00e3o era<br \/>\n<br \/>razo\u00e1vel esperar um entendimento mais justo.<br \/> Esp\u00edrito formalista, radi cado ao<br \/>\n<br \/>farisa\u00edsmo de maneira integral, certo n\u00e3o aprovaria a sua conduta.<\/p>\n<p>Atingiu as primeiras ruas de Tarso, de alma opressa.<br \/> As recorda\u00e7\u00f5es<br \/>\n<br \/>sucediam-se ininterruptas.<\/p>\n<p>Batendo \u00e0 porta do lar paterno, pela fisionomia indiferente dos servos<br \/>\n<br \/>compreendeu como voltava trans formado.<br \/> Os dois criados mais antigos n\u00e3o o<br \/>\n<br \/>reconheceram.<br \/> Guardou sil\u00eancio e esperou.<br \/> Ao fim de longa espera, o genitor<br \/>\n<br \/>foi receb\u00ea-lo.<br \/> O velho Isaac amparando -se ao cajado, nas adiantadas<br \/>\n<br \/>express\u00f5es de um reumatismo per tinaz, n\u00e3o dissimulou um gesto largo de<br \/>\n<br \/>espanto.<br \/> \u00c9 que reconhecera de pronto o filho.<\/p>\n<p>\u2014Meu filho!.<br \/>.<br \/>.<br \/> \u2014 disse com voz en\u00e9rgica, procurando dominar a emo\u00e7\u00e3o<br \/>\n<br \/>\u2014 ser\u00e1 poss\u00edvel que os olhos me enganem?<br \/>\n<br \/>Saulo abra\u00e7ou-o afetuosamente, dirigindo-se ambos para o interior.<\/p>\n<p>Isaac sentou-se e, buscando penetrar o \u00edntimo do filho, com o olhar<br \/>\n<br \/>percuciente interrogou em tom de censura:<br \/>\n<br \/>\u2014Ser\u00e1 que est\u00e1s mesmo curado?<br \/>\n<br \/>Para o rapaz, tal pergunta era mais um golpe des ferido na sua<br \/>\n<br \/>sensibilidade afetiva.<\/p>\n<p>Sentia-se cansado, derrotado, desiludido; necessitava de alento para reco &#8211;<br \/>\n<br \/>me\u00e7ar a exist\u00eancia num idealismo maior e at\u00e9 o pai o reprovava com perguntas<br \/>\n<br \/>absurdas! Ansioso de compreens\u00e3o, retrucou de maneira comovedora:<br \/>\n<br \/>\u2014Meu pai, por piedade, acolhei -me!.<br \/>.<br \/>.<br \/> N\u00e3o estive doente, mas sou agora<br \/>\n<br \/>necessitado pelo esp\u00edrito! Sinto que n\u00e3o pod erei reiniciar minha carreira na vida<br \/>\n<br \/>sem algum repouso!.<br \/>.<br \/>.<br \/> Estendei -me vossas m\u00e3os!.<br \/>.<br \/>.<\/p>\n<p>Conhecendo a austeridade paterna e a extens\u00e3o das pr\u00f3prias<br \/>\n<br \/>necessidades naquela hora dif\u00edcil do seu cami nho, o ex-doutor de Jerusal\u00e9m<br \/>\n<br \/>huinilhou-se inteiramente, pondo na voz toda a fadiga que se lhe represava no<br \/>\n<br \/>cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O anci\u00e3o israelita contemplou-o firme, solene, e sentenciou sem<br \/>\n<br \/>180<br \/>\n<br \/>compaix\u00e3o:<br \/>\n<br \/>\u2014 N\u00e3o estiveste doente? Que significa ent\u00e3o a tris te com\u00e9dia de<br \/>\n<br \/>Damasco? Os filhos podem ser ingratos e conseguem esquecer, m as os pais,<br \/>\n<br \/>se nunca os retiram do pensamento, sabem sentir melhor a crueldade do seu<br \/>\n<br \/>proceder.<br \/>.<br \/>.<br \/> N\u00e3o te doeria ver -nos vencidos e huinilhados com a vergonha que<br \/>\n<br \/>lan\u00e7aste sobre nossa casa? Ralada de desgostos, tua m\u00e3e encontrou lenitivo<br \/>\n<br \/>na morte; mas, eu? Acreditas-me insens\u00edvel \u00e0 tua deser\u00e7\u00e3o? Se resisti, foi<br \/>\n<br \/>porque guardava a esperan\u00e7a de buscar Jeov\u00e1, supondo que tudo n\u00e3o<br \/>\n<br \/>passasse de mal-entendido, que uma perturba\u00e7\u00e3o mental houvesse atirado<br \/>\n<br \/>contigo na incompreens\u00e3o e nas cr\u00edticas injustific\u00e1veis do mun do!.<br \/>.<br \/>.<br \/> Criei-te<br \/>\n<br \/>com todo o desvelo que um pai, da nossa ra\u00e7a, costuma dedicar ao \u00fanico filho<br \/>\n<br \/>var\u00e3o.<br \/>.<br \/>.<br \/> Sintetizavas gloriosas promessas para nossa estirpe.<\/p>\n<p>Sacrifiquei-me por ti, cumulei-te de afagos, n\u00e3o poupei esfor\u00e7os para que<br \/>\n<br \/>pudesses contar com os mestres mais s\u00e1bios, cuidei da tua mocidade, enchi -te<br \/>\n<br \/>com a ternura do cora\u00e7\u00e3o e \u00e9 desse modo que retribuis as dedica\u00e7\u00f5es e os<br \/>\n<br \/>carinhos do lar?<br \/>\n<br \/>Saulo podia enfrentar muitos homens armados, sem abdicar a coragem<br \/>\n<br \/>desassombrada que lhe assinalava as atitudes.<br \/> Po dia verberar o procedimento<br \/>\n<br \/>conden\u00e1vel dos outros, ocupar a mais perigosa tribuna para o exame das<br \/>\n<br \/>hipocrisias humanas, mas, diante daquele velhinho que n\u00e3o mais podia renovar<br \/>\n<br \/>a f\u00e9, e considerando a amplitude dos seus sagrados sentimentos paternais,<br \/>\n<br \/>n\u00e3o reagiu e come\u00e7ou a chorar.<\/p>\n<p>\u2014Choras? \u2014 continuou o anci\u00e3o com grande se cura.<br \/> \u2014 Mas eu nunca te<br \/>\n<br \/>dei exemplos de covardia! Lutei com heroismo nos dias mais dif\u00edceis, para que<br \/>\n<br \/>nada te faltasse.<br \/> Tua fraqueza moral \u00e9 filha do perj\u00fario, da trai\u00e7\u00e3o.<br \/> Tuas<br \/>\n<br \/>l\u00e1grimas v\u00eam do remorso inelut\u00e1vel!<br \/>\n<br \/>Como enveredaste, assim, pelo caminho da mentira exe cr\u00e1vel? Com que<br \/>\n<br \/>fim engendraste a cena de Damasco para repudiar os princ\u00edpios que te<br \/>\n<br \/>alimentaram do ber\u00e7o? Como abandonar a situa\u00e7\u00e3o brilhante do rabino de<br \/>\n<br \/>quem tanto esper\u00e1vamos, para arvorar-se em companheiro de homens<br \/>\n<br \/>desclassificados, que nunca tiveram a tradi\u00e7\u00e3o amorosa de um lar?<br \/>\n<br \/>Ante as acusa\u00e7\u00f5es injustas, o mo\u00e7o tarsense solu \u00e7ava, talvez pela primeira<br \/>\n<br \/>vez na vida.<\/p>\n<p>\u2014Quando soube que ias desposar uma jovem sem pais conh ecidos \u2014<br \/>\n<br \/>prosseguia o velho implac\u00e1vel \u2014, surpreendi-me e esperei que te<br \/>\n<br \/>pronunciasses diretamente.<br \/> Mas tarde, Dalila e o marido eram compelidos a<br \/>\n<br \/>deixar Jerusal\u00e9m precipitadamente, ralados de vergonha com a ordem de<br \/>\n<br \/>pris\u00e3o que a Sinagoga de Damasco requi sitava contra ti.<br \/> V\u00e1rias vezes<br \/>\n<br \/>conjeturei se n\u00e3o seria essa cria tura inferior, que elegeste, a causa de<br \/>\n<br \/>tamanhos desastres morais.<br \/> H\u00e1 mais de tr\u00eas anos levanto -me diariamente para<br \/>\n<br \/>refletir no teu criminoso proceder em detrimento dos mais sagrados deveres!<br \/>\n<br \/>Ao ouvir aqueles conceitos injustos \u00e0 pessoa de Abigail, o rapaz cobrou<br \/>\n<br \/>\u00e2nimo e murmurou com humildade:<br \/>\n<br \/>\u2014 Meu pai, essa criatura era uma santa! Deus n\u00e3o a quis neste mundo!<br \/>\n<br \/>Talvez, se ela ainda vivesse, teria eu o c\u00e9rebro mais equilibrado para<br \/>\n<br \/>harmonizar a minha nova vida.<\/p>\n<p>O pai n\u00e3o gostou da resposta, embora a obje\u00e7\u00e3o fosse feita em tom de<br \/>\n<br \/>obedi\u00eancia e carinho.<\/p>\n<p>\u2014Nova vida? \u2014 glosou irritado \u2014 que queres com isso dizer?<br \/>\n<br \/>Saulo enxugou as l\u00e1grimas e respondeu resignado:<br \/>\n<br \/>181<br \/>\n<br \/>\u2014Quero dizer que o epis\u00f3dio de Dama sco n\u00e3o foi ilus\u00e3o e que Jesus<br \/>\n<br \/>reformou minha vida.<\/p>\n<p>\u2014N\u00e3o poderias ver em tudo isso rematada lou cura? \u2014 continuou o pai<br \/>\n<br \/>com espanto.<\/p>\n<p>Imposs\u00edvel! como abandonar o amor da fam\u00edlia, as tradi\u00e7\u00f5es vener\u00e1 veis do<br \/>\n<br \/>teu nome, as esperan\u00e7as sagradas dos teus, para seguir um carpinteiro<br \/>\n<br \/>desconhecido?<br \/>\n<br \/>Saulo compreendeu o sofrimento moral do genitor quando assim se<br \/>\n<br \/>exprimia.<br \/> Teve \u00edmpetos de atirar -se-lhe nos bra\u00e7os amorosos; falar -lhe do<br \/>\n<br \/>Cristo, proporcionar-lhe entendimento real da situa\u00e7\u00e3o.<br \/> Mas, prevendo si &#8211;<br \/>\n<br \/>multaneamente a dificuldade de se fazer compreendido, observava -o<br \/>\n<br \/>resignado, enquanto ele prosseguia de olhos \u00famidos, revelando a m\u00e1goa e a<br \/>\n<br \/>c\u00f3lera que o dominavam.<\/p>\n<p>\u2014Como pode ser isso? Se a doutrina malfadada do carpinteiro de Nazar\u00e9<br \/>\n<br \/>imp\u00f5e criminosa indiferen\u00e7a pelos la\u00e7os mais santos da vida, como negar -lhe<br \/>\n<br \/>nocividade e bastardia? Ser\u00e1 justo preferir um aventureiro, que mor reu entre<br \/>\n<br \/>malfeitores, ao pai digno e trabalhador que envelheceu no servi\u00e7o honesto de<br \/>\n<br \/>Deus?<br \/>\n<br \/>\u2014Mas, pai \u2014 dizia o mo\u00e7o em voz s\u00faplice \u2014, o Cristo \u00e9 o Salvador<br \/>\n<br \/>prometido!.<br \/>.<br \/>.<\/p>\n<p>Isaac pareceu agravar a pr\u00f3pria f\u00faria.<\/p>\n<p>\u2014Blasfemas? \u2014 gritou.<br \/> \u2014 N\u00e3o temes insultar a Provid\u00eancia Divina? As<br \/>\n<br \/>esperan\u00e7as de Israel n\u00e3o pode riam repousar numa fronte que se esvaiu no<br \/>\n<br \/>sangue do castigo, entre ladr\u00f5es!.<br \/>.<br \/>.<br \/> Est\u00e1s l ouco! Exijo a reconsidera\u00e7\u00e3o de tuas<br \/>\n<br \/>atitudes.<\/p>\n<p>Enquanto fazia uma pausa, o convertido objetou:<br \/>\n<br \/>\u2014 \u00c9 certo que meu passado est\u00e1 cheio de culpas quando n\u00e3o hesitei em<br \/>\n<br \/>perseguir as express\u00f5es da ver dade; mas, de tr\u00eas anos a esta parte, n\u00e3o me<br \/>\n<br \/>recordo de ato algum que necessite reconsidera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O anci\u00e3o pareceu atingir o auge da c\u00f3lera e exclamou \u00e1spero:<br \/>\n<br \/>\u2014Sinto que as palavras generosas n\u00e3o quadram \u00e0 tua raz\u00e3o perturbada.<\/p>\n<p>Vejo que tenho esperado em v\u00e3o, para n\u00e3o morrer odiando algu\u00e9m.<\/p>\n<p>Infelizmente, sou obrigado a reconhecer nas tuas atuais decis\u00f5es um louco, ou<br \/>\n<br \/>um criminoso vulgar.<br \/> Portanto, para que nossas atitudes se definam, pe\u00e7o -te<br \/>\n<br \/>que escolhas em definitivo, entre mim e o desprez\u00edvel carpinteiro!.<\/p>\n<p>A voz paternal, ao enunciar semelhante intimativa, era aba fada, vacilante,<br \/>\n<br \/>evidenciando profundo sofrimento.<br \/> Saulo compreendeu e, em v\u00e3o, procurava<br \/>\n<br \/>um argumento conciliador.<br \/> A incompreens\u00e3o do pai angustiava -o.<br \/> Nunca<br \/>\n<br \/>refletiu tanto e t\u00e3o intensamente no ensino de Jesus sobre os la\u00e7os de fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Sentia-se estreitamente ligado ao generoso velhinho, queria ampar\u00e1 -lo na sua<br \/>\n<br \/>rigidez intelectual, abrandar-lhe a fei\u00e7\u00e3o tir\u00e2nica, mas compreen dia as barreiras<br \/>\n<br \/>que se antepunham aos seus desejos sinceros.<br \/> Sabia com que severidade fora<br \/>\n<br \/>formado o seu pr\u00f3prio car\u00e1ter.<br \/> Prejul gando a inutilidade dos apelos afe tivos,<br \/>\n<br \/>murmurou entre humilde e ansioso:<br \/>\n<br \/>\u2014Meu pai, ambos precisamos de Jesus!.<br \/>.<br \/>.<\/p>\n<p>O velho, inflex\u00edvel, endere\u00e7ou-lhe um olhar austero e retrucou com<br \/>\n<br \/>aspereza:<br \/>\n<br \/>\u2014Tua escolha est\u00e1 feita! Nada tens a fazer nesta casa!.<br \/>.<br \/>.<\/p>\n<p>O velhinho estava tr\u00eamulo.<br \/> Via-se-lhe o esfor\u00e7o espiritual para tomar<br \/>\n<br \/>aquela decis\u00e3o.<\/p>\n<p>182<br \/>\n<br \/>Criado nas concep\u00e7\u00f5es intransigentes da Lei de Mois\u00e9s, Isaac sofria como<br \/>\n<br \/>pai; entretanto, expulsava o filho deposit\u00e1rio de tantas esperan\u00e7as, como se<br \/>\n<br \/>cumprisse um dever.<br \/> O cora\u00e7\u00e3o amoroso sugeria-lhe piedade, mas o racioc\u00ednio<br \/>\n<br \/>do homem, encarcerado nos dogmas implac\u00e1veis da ra\u00e7a, abafava -lhe o<br \/>\n<br \/>impulso natural.<\/p>\n<p>Saulo contemplou-o em atitude silenciosa e supli cante.<br \/> O lar era a<br \/>\n<br \/>derradeira esperan\u00e7a que ainda lhe restava.<br \/> N\u00e3o queria crer na \u00faltima perda.<\/p>\n<p>Cravou no anci\u00e3o os olhos quase lacrimosos e, depois de longo mi nuto de<br \/>\n<br \/>expecta\u00e7\u00e3o, implorou num gesto comovedor que lhe n\u00e3o era habitual:<br \/>\n<br \/>\u2014 Falta-me tudo, meu pai.<br \/> Estou cansado e doente! N\u00e3o tenho dinheiro<br \/>\n<br \/>algum, necessito da piedade alheia.<\/p>\n<p>E acentuando a queixa dolorosa:<br \/>\n<br \/>\u2014 Tamb\u00e9m v\u00f3s me expulsais?.<br \/>.<br \/>.<\/p>\n<p>Isaac sentiu que a rogativa lhe vibrava no mais \u00edntimo do cora\u00e7\u00e3o.<br \/> Mas,<br \/>\n<br \/>julgando talvez que a energia era mais eficiente que a ternura, no caso,<br \/>\n<br \/>respondeu secamente:<br \/>\n<br \/>\u2014 Corrige as tuas impress\u00f5es, porque ningu\u00e9m te expulsou.<br \/> Foste tu que<br \/>\n<br \/>votaste os amigos e os afetos mais puros ao supremo abandono!.<br \/>.<br \/>.<br \/> Tens<br \/>\n<br \/>necessidades? \u00cb justo que pe\u00e7as ao carpinteiro as provid\u00eancias acertadas.<br \/>.<br \/>.<\/p>\n<p>Ele que fez tamanhos absurdos, ter\u00e1 poder bas tante para valer-te.<\/p>\n<p>Imensa dor represou-se no esp\u00edrito do ex-rabino.<br \/> As alus\u00f5es ao Cristo<br \/>\n<br \/>do\u00edam-lhe muito mais que as reprimendas diretas que recebera.<br \/> Sem conseguir<br \/>\n<br \/>refrear a pr\u00f3pria ang\u00fastia, sentiu que l\u00e1grimas ardentes rola vam-lhe nas faces<br \/>\n<br \/>queimadas pelo sol\u2019 do deserto.<br \/> Nunca experimentara pranto assim amargo.<\/p>\n<p>Nem mesmo na cegueira angustiosa, conseq\u00fcente \u00e0 vis\u00e3o de Jesus, cho rara<br \/>\n<br \/>t\u00e3o penosamente.<br \/> N\u00e3o obstante esquecido numa pens\u00e3o sem -nome, cego e<br \/>\n<br \/>acabrunhado, sentia a prote\u00e7\u00e3o do Mestre que o convocara ao seu divino<br \/>\n<br \/>servi\u00e7o.<\/p>\n<p>Guardava a impress\u00e3o de estar mais perto do Cristo.<br \/> Regozijava -se nas<br \/>\n<br \/>dores mais acerbas, pelo fato de haver recebido, \u00e0s portas de Damasco, o seu<br \/>\n<br \/>apelo glorioso e direto.<\/p>\n<p>Mas, depois de tudo, procurava, em v\u00e3o, apoio nos home ns para iniciar a<br \/>\n<br \/>sagrada tarefa.<\/p>\n<p>Os mais amigos recomendavam-lhe a dist\u00e2ncia.<br \/> Por \u00faltimo, ali estava o pai,<br \/>\n<br \/>velho e abastado, a recusar -lhe a m\u00e3o no instante mais doloroso da vida.<\/p>\n<p>Expulsava-o.<br \/> Manifestava avers\u00e3o por suas id\u00e9ias regeneradoras.<br \/> N\u00e3o lhe<br \/>\n<br \/>tolerava a condi\u00e7\u00e3o de amigo do Cristo.<br \/> No pranto que lhe borbulhava dos<br \/>\n<br \/>olhos, recordou-se, por\u00e9m, de Ananias.<br \/> Quando todos o abandonavam em<br \/>\n<br \/>Damasco, surgira o mensageiro do Mestre, restituindo -lhe o bom \u00e2nimo.<\/p>\n<p>Seu pai falara-lhe, ironicamente, dos poderes do Senhor.<br \/> Sim, Jesus n\u00e3o<br \/>\n<br \/>lhe faltaria com os recursos indispens\u00e1veis.<br \/> Lan\u00e7ando ao genitor um olhar<br \/>\n<br \/>inolvid\u00e1vel, disse humildemente:<br \/>\n<br \/>\u2014 Ent\u00e3o, adeus, meu pai!.<br \/>.<br \/>.<br \/> Dizeis bem, porque estou certo de que o<br \/>\n<br \/>Messias n\u00e3o me abandonar\u00e1!.<br \/>.<br \/>.<\/p>\n<p>A passos indecisos, aproximou-se da porta de sa\u00edda.<br \/> Vagou o olhar<br \/>\n<br \/>nevoado de pranto pelos antigos adornos da sala.<br \/> A poltrona de sua m\u00e3e<br \/>\n<br \/>estava na posi\u00e7\u00e3o habitual.<br \/> Recordou o tempo em que os olhos maternos liam<br \/>\n<br \/>para ele as primeiras no\u00e7\u00f5es da Lei.<br \/> Julgou divi sar-lhe a sombra a lhe acenar<br \/>\n<br \/>com amoroso sorriso.<br \/> Jamais experimentara tamanho v\u00e1cuo no cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Estava s\u00f3.<br \/> Teve receio de si mesmo, porq\u00fcanto, jamais se vira em tais<br \/>\n<br \/>183<br \/>\n<br \/>conjunturas.<\/p>\n<p>Depois da medita\u00e7\u00e3o dolorosa, retirou -se em sil\u00eancio.<br \/> Olhou, indiferente, o<br \/>\n<br \/>movimento da rua, como algu\u00e9m que houvesse perdido todo o interesse de<br \/>\n<br \/>viver.<\/p>\n<p>N\u00e3o dera ainda muitos passos, no seu incerto des tino, quando ouviu<br \/>\n<br \/>chamarem-no com insist\u00eancia.<\/p>\n<p>Deteve-se \u00e0 espera e verificou tratar -se de velho servidor do pai, que corria<br \/>\n<br \/>ao seu encal\u00e7o.<\/p>\n<p>Em poucos instantes, o criado entregava -lhe uma bolsa pesada,<br \/>\n<br \/>exclamando em tom amistoso:<br \/>\n<br \/>\u2014 Vosso pai manda este dinheiro como lembran\u00e7a.<\/p>\n<p>Saulo experimentou no \u00edntimo a revolta do \u201chomem velho\u201d.<br \/> Imaginou<br \/>\n<br \/>invocar a pr\u00f3pria dignidade para de volver a d\u00e1diva humilhante.<br \/> Assim<br \/>\n<br \/>procedendo ensinaria ao pai que era filho e n\u00e3o mendigo.<br \/> Dar -lhe-ia uma li\u00e7\u00e3o,<br \/>\n<br \/>mostraria o valor pr\u00f3prio, mas considerou, ao mesmo tempo, que as prova\u00e7\u00f5es<br \/>\n<br \/>rigorosas talvez se verificassem com assentimento de Jesus, para que seu<br \/>\n<br \/>cora\u00e7\u00e3o ainda voluntarioso aprendesse a verdadeira humildade.<br \/> Sentiu que<br \/>\n<br \/>havia vencido muitos trope\u00e7os; que se havia mostrado superior em Damasco e<br \/>\n<br \/>em Jerusal\u00e9m; que dominara as hostilidades do deserto; que suportara a<br \/>\n<br \/>ingratid\u00e3o dos climas e as canseiras dolorosas; m as, que o Mestre agora lhe<br \/>\n<br \/>sugeria a luta consigo mesmo, para que o \u201chomem do mundo\u201d deixasse de<br \/>\n<br \/>existir, ensejando o renascimento do cora\u00e7\u00e3o en\u00e9rgico, mas amoroso e terno,<br \/>\n<br \/>do disc\u00edpulo.<br \/> Seria, talvez, a maior de todas as batalhas.<br \/> Assim compreendeu,<br \/>\n<br \/>num relance, e buscando vencer -se a si mesmo, tomou a bolsa com resignado<br \/>\n<br \/>sorriso, guardou-a humildemente entre as dobras da t\u00fanica, saudou o servo<br \/>\n<br \/>com express\u00f5es de agradecimento e disse, esfor \u00e7ando-se por evidenciar<br \/>\n<br \/>alegria:<br \/>\n<br \/>\u2014 Sin\u00e9sio, conte a meu pai o contentamento que me causou com a sua<br \/>\n<br \/>carinhosa oferta e diga-lhe que rogo a Deus que o ajude.<\/p>\n<p>Seguindo o curso incerto de sua nova situa\u00e7\u00e3o, viu na atitude paterna o<br \/>\n<br \/>reflexo dos antigos h\u00e1bitos do juda\u00edsmo.<br \/> Como pai, Isaac n\u00e3o queria parecer<br \/>\n<br \/>ingrato e inflex\u00edvel, procurando ampar\u00e1-lo; mas como fariseu nunca lhe<br \/>\n<br \/>suportaria a renova\u00e7\u00e3o das id\u00e9ias.<\/p>\n<p>Com ar indiferente, tomou leve refei\u00e7\u00e3o em modesta locanda.<br \/> Entretanto,<br \/>\n<br \/>n\u00e3o conseguia tolerar o movimento das ruas.<br \/> Tinha sede de medita\u00e7\u00e3o e<br \/>\n<br \/>sil\u00eancio.<br \/> Precisava ouvir a consci\u00eancia e o cora\u00e7\u00e3o, antes de assentar os novos<br \/>\n<br \/>planos de vida.<br \/> Procurou afastar -se da cidade.<br \/> Como eremita an\u00f4nimo, buscou<br \/>\n<br \/>o campo agreste.<br \/> Depois de muito caminhar sem destino, atingiu os arredores<br \/>\n<br \/>do Tauro.<br \/> Come\u00e7ava o cortejo das sombras tristes da tarde.<\/p>\n<p>Exausto de fadiga, descansou junto de uma das inume r\u00e1veis cavernas<br \/>\n<br \/>abandonadas.<\/p>\n<p>Muito ao longe, Tarso repousava entre arvoredos.<br \/> As auras vespertinas<br \/>\n<br \/>vibravam no ambiente, sem perturbar a placidez das coisas.<br \/> Mer gulhado na<br \/>\n<br \/>quietude da Natureza, Saulo recuou mentalmente ao dia da sua radical<br \/>\n<br \/>transforma\u00e7\u00e3o.<br \/> Lembrou o abandono na pens\u00e3o de Judas, a indiferen\u00e7a de<br \/>\n<br \/>Sadoc \u00e0 sua amizade.<br \/> Rememorou a primeira reuni\u00e3o de Da masco, na qual<br \/>\n<br \/>suportara tantos apupos, ironias e sar casmos.<br \/> Demandara Palmira, ansioso<br \/>\n<br \/>pela assist\u00eancia de Gamaliel, a fim de penetrar a causa do Cristo, mas o nobre<br \/>\n<br \/>mestre lhe aconselhara o insulamento no deserto.<br \/> Recordou as duras<br \/>\n<br \/>dificuldades do tear e a car\u00eancia de recursos de toda a esp\u00e9cie, no o\u00e1sis<br \/>\n<br \/>184<br \/>\n<br \/>solit\u00e1rio.<br \/> Naqueles dias silenciosos e longos, jamais pudera esquecer a noiva<br \/>\n<br \/>morta, lutando por erguer -se, espiritualmente, acima dos sonhos<br \/>\n<br \/>desmoronados.<br \/> Por mais que estudasse o Evan gelho, intimamente<br \/>\n<br \/>experimentava singular remorso pelo sacrif\u00edcio de Estev\u00e3o, que, a seu ver, f ora<br \/>\n<br \/>a pedra tumular do seu noivado futuroso.<br \/> Suas noites estavam cheias de<br \/>\n<br \/>infinitas ang\u00fastias.<br \/> \u00c0s vezes, em pesadelos dolorosos, sentia -se de novo em<br \/>\n<br \/>Jerusal\u00e9m, assinando senten\u00e7as in\u00edquas.<br \/> As v\u00edtimas da grande persegui\u00e7\u00e3o<br \/>\n<br \/>acusavam-no, olhando-o assustadas, como se a sua fisionomia fosse a de um<br \/>\n<br \/>monstro.<br \/> A esperan\u00e7a no Cristo reanimava -lhe o esp\u00edrito resoluto.<br \/> Depois de<br \/>\n<br \/>provas \u00e1speras, deixara a solid\u00e3o para regressar \u00e0 vida social.<br \/> Novamente em<br \/>\n<br \/>Damasco, a sinagoga o recebeu com amea\u00e7as.<br \/> Os amigos de outro s tempos,<br \/>\n<br \/>com profunda ironia, lan\u00e7avam-lhe ep\u00edtetos cru\u00e9is.<br \/> Foi -lhe necess\u00e1rio fugir<br \/>\n<br \/>como criminoso comum, saltando muros pela calada da noite.<br \/> Depois, bus cara<br \/>\n<br \/>Jerusal\u00e9m, na esperan\u00e7a de fazer -se compreendido.<br \/> Contudo, Alexandre, em<br \/>\n<br \/>cujo esp\u00edrito culto pretendia encontrar melhor entendimento, recebera -o como<br \/>\n<br \/>vision\u00e1rio e mentiroso.<br \/> Extremamente fatigado, batera \u00e0 porta da igreja do<br \/>\n<br \/>\u201cCaminho\u201d, mas fora obrigado a recolher -se a uma reles hospedaria, por for\u00e7a<br \/>\n<br \/>das suspeitas justas dos Ap\u00f3stolos da Galil\u00e9ia.<br \/> Doente e abatido, fora levado \u00e0<br \/>\n<br \/>presen\u00e7a de Sim\u00e3o Pedro, que lhe ministrara li\u00e7\u00f5es de alta prud\u00eancia e<br \/>\n<br \/>excessiva bondade, mas, a exemplo de Gamaliel, aconselhara -lhe pr\u00e9vio<br \/>\n<br \/>recolhimento, discri\u00e7\u00e3o, aprendizado em suma.<br \/> Embalde procurava um meio de<br \/>\n<br \/>harmonizar as circunst\u00e2ncias, de maneira a cooperar na obra do Evangelho e<br \/>\n<br \/>todas as portas pareciam fechadas ao seu esfor\u00e7o.<br \/> Afinal, dirigira -se a Tarso,<br \/>\n<br \/>ansioso do amparo familiar para reiniciar a vida.<br \/> A atitude paterna s\u00f3 lhe<br \/>\n<br \/>agravara as desilus\u00f5es.<\/p>\n<p>Repelindo-o, o genitor lan\u00e7ava-o num abismo.<br \/> Agora come\u00e7ava a<br \/>\n<br \/>compreender que, reencetar a exist\u00eancia, n\u00e3o era volver \u00e0 atividade do ninho<br \/>\n<br \/>antigo, mas principiar, do fundo dalma, o esfor\u00e7o interior, alijar o passado nos<br \/>\n<br \/>m\u00ednimos resqu\u00edcios, ser outro homem enfim.<\/p>\n<p>Compreendia a nova situa\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o p\u00f4de impedir as l\u00e1grimas que lhe<br \/>\n<br \/>afloravam copiosas.<\/p>\n<p>Quando deu acordo de si, a noite havia fechado de todo.<br \/> O c\u00e9u oriental<br \/>\n<br \/>resplandecia de estrelas.<br \/> Ventos suaves sopravam de longe, refrescando -lhe a<br \/>\n<br \/>fronte iacandescida.<br \/> Acomodou-se como p\u00f4de, entre as pedras agrestes, sem<br \/>\n<br \/>coragem de eximir-se ao sil\u00eancio da Natureza amiga.<br \/> N\u00e3o obstante prosseguir<br \/>\n<br \/>no curso de suas amargas reflex\u00f5es, sentia-se mais calmo.<br \/> Confiou ao Mestre<br \/>\n<br \/>as preocupa\u00e7\u00f5es acerbas, pediu o rem\u00e9dio da sua miseric\u00f3rdia e procurou<br \/>\n<br \/>manter-se em repouso.<br \/> Ap\u00f3s a prece ardente, cessou de chorar, figurando -selhe<br \/>\n<br \/>que uma for\u00e7a superior e invis\u00edvel lhe balsamizava as chagas da alma<br \/>\n<br \/>opressa.<\/p>\n<p>Breve, em doce quietude do c\u00e9rebro dolorido, sentiu que o sono come\u00e7ava<br \/>\n<br \/>a empolg\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Suav\u00edssima sensa\u00e7\u00e3o de repouso proporcionava -lhe grande al\u00edvio.<br \/> Estaria<br \/>\n<br \/>dormindo?<br \/>\n<br \/>Tinha a impress\u00e3o de haver penetrado uma regi\u00e3o de sonhos deliciosos.<\/p>\n<p>Sentia-se \u00e1gil e feliz.<br \/> Tinha a impress\u00e3o de que fora arrebatado a uma campina<br \/>\n<br \/>tocada de luz primaveril, isenta e longe deste mundo.<br \/> Flores brilhantes, como<br \/>\n<br \/>feitas de n\u00e9voa colorida, desabrochavam ao longo de estradas maravilhosas,<br \/>\n<br \/>rasgadas na regi\u00e3o banhada de claridades indefin\u00edveis.<\/p>\n<p>Tudo lhe falava de um mundo diferente.<br \/> Aos seus ouvidos toa vam<br \/>\n<br \/>185<br \/>\n<br \/>harmonias suaves, dando id\u00e9ia de cavatinas executadas ao longe, em harpas e<br \/>\n<br \/>ala\u00fades divinos.<br \/> Desejava identificar a paisagem, definir -lhe os contornos,<br \/>\n<br \/>enriquecer observa\u00e7\u00f5es, mas um sentimento profundo de paz deslum brava-o<br \/>\n<br \/>inteiramente.<br \/> Devia ter penetrado um reino maravilhoso, porq\u00fcanto os<br \/>\n<br \/>portentos espirituais que se pa tenteavam a seus olhos excediam todo<br \/>\n<br \/>entendimento.<br \/> (1)<br \/>\n<br \/>Mal n\u00e3o havia despertado desse deslumbramento, quando se sentiu presa<br \/>\n<br \/>de novas surpresas com a apro xima\u00e7\u00e3o de algu\u00e9m que pisa va de leve,<br \/>\n<br \/>acercando-se de mansinho.<br \/> Mais alguns instantes, viu Estev\u00e3o e Abigail \u00e0 sua<br \/>\n<br \/>frente, jovens e formosos, envergando vestes t\u00e3o brilhantes e t\u00e3o alvas que<br \/>\n<br \/>mais se assemelhavam a peplos de neve transl\u00facida.<\/p>\n<p>(1) Mais tarde na 2\u00aa Ep\u00edstola aos Cor\u00edn tios (cap\u00edtulo 12\u00ba, vers\u00edculos de 2 a<br \/>\n<br \/>4), Saulo afirmava: \u2014 \u201cConhe\u00e7o um homem em Cristo que h\u00e1 14 anos (se<br \/>\n<br \/>no corpo n\u00e3o sei, se fora do corpo n\u00e3o sei; Deus o sabe) foi arrebatado<br \/>\n<br \/>at\u00e9 ao terceiro c\u00e9u.<br \/> E sei que o tal homem foi arrebatado ao para\u00edso e<br \/>\n<br \/>ouviu palavras inef\u00e1veis, de que ao homem n\u00e3o \u00e9 l\u00edcito falar\u201d.<br \/> Dessa<br \/>\n<br \/>gloriosa experi\u00eancia o Ap\u00f3stolo dos gentios extraiu novas conclus\u00f5es<br \/>\n<br \/>sobre suas id\u00e9ias not\u00e1veis, referentemente ao corpo espiritual.<br \/> \u2014 (Nota<br \/>\n<br \/>de Emmanuel)<br \/>\n<br \/>Incapaz de traduzir as sagradas como \u00e7\u00f5es de sua alma, Saulo de Tarso<br \/>\n<br \/>ajoelhou-se e come\u00e7ou a chorar.<\/p>\n<p>Os dois irm\u00e3os, que voltavam a encoraj\u00e1 -lo, aproximaram-Se com<br \/>\n<br \/>generoso sorriso.<\/p>\n<p>\u2014Levanta-te, Saulo! \u2014 disse Estev\u00e3o com profunda bondade.<\/p>\n<p>\u2014Que \u00e9 isso? Choras? \u2014 perguntou Abigail em tom blandicioso.<br \/> \u2014<br \/>\n<br \/>Estarias desalentado quando a tarefa apenas come\u00e7a?<br \/>\n<br \/>O mo\u00e7o tarsense, agora de p\u00e9, desatou em pranto convulsivo.<br \/> Aquelas<br \/>\n<br \/>l\u00e1grimas n\u00e3o eram somente um desa bafo do cora\u00e7\u00e3o abandonado no mundo.<\/p>\n<p>Traduziam um j\u00fabilo infinito, uma gratid\u00e3o imensa a Jesus, sempre pr\u00f3digo de<br \/>\n<br \/>prote\u00e7\u00e3o e benef\u00edcios.<br \/> Quis aproximar -se, oscular as m\u00e3os de Estev\u00e3o, rogar<br \/>\n<br \/>perd\u00e3o para o nefando passado, mas foi o m\u00e1rtir do \u201cCaminho\u201d que, na luz de<br \/>\n<br \/>sua ressurrei\u00e7\u00e3o gloriosa, aproximou-se do ex-rabino e o abra\u00e7ou<br \/>\n<br \/>efusivamente, como se o fizesse a um irm\u00e3o amado.<br \/> Depois, beijando -lhe a<br \/>\n<br \/>fronte, murmurou com ternura:<br \/>\n<br \/>\u2014Saulo, n\u00e3o te detenhas no passado! Quem haver\u00e1, no mundo, isento de<br \/>\n<br \/>erros? S\u00f3 Jesus foi puro!.<br \/>.<br \/>.<\/p>\n<p>O ex-disc\u00edpulo de Gamaliel sentia-se mergulhado em verdadeiro oceano de<br \/>\n<br \/>venturas.<\/p>\n<p>Queria falar das suas alegrias infindas, agradecer tamanhas d\u00e1divas, mas<br \/>\n<br \/>ind\u00f4mita emo\u00e7\u00e3o lhe selava os l\u00e1bios e confundia o cora\u00e7\u00e3o.<br \/> Amparado por<br \/>\n<br \/>Estev\u00e3o, que lhe sorria em sil\u00eancio, viu Abigail mais formosa que nunca,<br \/>\n<br \/>recordando-lhe as flores da primavera na casa humilde do caminho de Jope.<\/p>\n<p>N\u00e3o p\u00f4de furtar-se \u00e0s reflex\u00f5es do homem, esquecer os sonhos desfeitos,<br \/>\n<br \/>lembrando-os, acima de tudo, naquele glorioso minuto da sua vida.<br \/> Pensou no<br \/>\n<br \/>lar que poderia ter constitu\u00eddo; no carinho com que a jovem de Corinto lhe<br \/>\n<br \/>cuidaria dos filhos afetuosos; no amor insubstitu\u00edvel que sua dedica\u00e7\u00e3o lhe<br \/>\n<br \/>poderia dar.<br \/> Mas, compreendendo -lhe os mais \u00edntimos pensamentos, a noiva<br \/>\n<br \/>espiritual aproximou-se, tomou-lhe a destra calejada nos labores rudes do<br \/>\n<br \/>186<br \/>\n<br \/>deserto e falou comovidamente:<br \/>\n<br \/>\u2014 Nunca nos faltar\u00e1 um lar.<br \/>.<br \/>.<br \/> T\u00ea-lo-emos no cora\u00e7\u00e3o de quantos vierem \u00e0<br \/>\n<br \/>nossa estrada.<\/p>\n<p>Quanto aos filhos, temos a fam\u00edlia imensa que Jesus nos legou em sua<br \/>\n<br \/>miseric\u00f3rdia.<br \/>.<br \/>.<br \/> Os filhos do Calv\u00e1rio s\u00e3o nossos tamb\u00e9m.<br \/>.<br \/>.<br \/> Eles est\u00e3o em t oda<br \/>\n<br \/>parte, esperando a heran\u00e7a do Sal vador.<\/p>\n<p>O mo\u00e7o tarsense entendeu a carinhosa advert\u00eancia, arquivando -a no imo<br \/>\n<br \/>do cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014N\u00e3o te entregues ao desalento \u2014 continuou Abigail, generosa e sol\u00edcita<br \/>\n<br \/>\u2014; nossos antepassados conheceram o Deus dos Ex\u00e9rcitos, que era o dono<br \/>\n<br \/>dos triunfos sangrentos, do ouro e da prata do mundo; n\u00f3s, por\u00e9m,<br \/>\n<br \/>conhecemos o Pai, que \u00e9 o Senhor de nosso cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A Lei nos destacava a f\u00e9, pela riqueza das d\u00e1divas ma teriais nos<br \/>\n<br \/>sacrif\u00edcios; mas o Evangelho nos conhece pela confian\u00e7a inesgot\u00e1vel e pela f\u00e9<br \/>\n<br \/>ativa ao servi\u00e7o do Todo-Poderoso.<br \/> \u00c9 preciso ser fiel a Deus, Saulo! Ainda que<br \/>\n<br \/>o mundo inteiro se voltasse contra ti, possuirias o tesouro inesgot\u00e1vel do<br \/>\n<br \/>cora\u00e7\u00e3o fiel.<br \/> A paz triunfante do Cristo \u00e9 a da alma laboriosa, que obedece e<br \/>\n<br \/>confia.<br \/>.<br \/>.<br \/> N\u00e3o tornes a recalcitrar contra os aguilh\u00f5es.<br \/> Esvazia -te dos<br \/>\n<br \/>pensamentos do mundo.<br \/> Quando hajas esgotado a der radeira gota da posca<br \/>\n<br \/>dos enganos terrenos, Jesus enche r\u00e1 teu esp\u00edrito de claridades imortais!.<br \/>.<br \/>.<\/p>\n<p>Experimentando infindo consolo, Saulo chegava a perturbar-se pela<br \/>\n<br \/>incapacidade de articular uma frase.<br \/> As exorta\u00e7\u00f5es de Abigail calar -lhe-iam<br \/>\n<br \/>para sempre.<br \/> Nunca mais permitiria que o des\u00e2nimo se apossasse dele.<\/p>\n<p>Enorme esperan\u00e7a represava-se, agora, em seu \u00edntimo.<br \/> Trabalharia para o<br \/>\n<br \/>Cristo em todos os lugares e circunst\u00e2ncias.<br \/> O Mestre sacrificara -se por todos<br \/>\n<br \/>os homens.<br \/> Dedicar-lhe a exist\u00eancia representava um nobre dever.<br \/> Enquanto<br \/>\n<br \/>formulava estes pensamentos, recordou a dificuldade de harmonizar -se com as<br \/>\n<br \/>criaturas.<\/p>\n<p>Encontraria lutas.<br \/> Lembrou a promessa de Jesus, de que estaria presente<br \/>\n<br \/>onde houvesse irm\u00e3os reunidos em seu nome.<br \/> Mas tudo lhe pareceu<br \/>\n<br \/>subitamente dif\u00edcil naquela r\u00e1pida opera\u00e7\u00e3o intelectual.<br \/> As sinagogas<br \/>\n<br \/>combatiam-se entre si.<br \/> A pr\u00f3pria igreja de Jerusal\u00e9m tendia, nova mente, \u00e0s<br \/>\n<br \/>influ\u00eancias judaizantes.<br \/> Foi a\u00ed que Abigail res pondeu, de novo, aos seus apelos<br \/>\n<br \/>\u00edntimos, exclamando com infinito carinho:<br \/>\n<br \/>\u2014 Reclamas companheiros concordes contigo nas edifica\u00e7\u00f5es<br \/>\n<br \/>evang\u00e9licas.<br \/> Mas \u00e9 preciso lembrar que Jesus n\u00e3o os teve.<br \/> Os ap\u00f3stolos n\u00e3o<br \/>\n<br \/>puderam concordar com o Mestre sen\u00e3o com o aux\u00edlio do C\u00e9u, depois da Res &#8211;<br \/>\n<br \/>surrei\u00e7\u00e3o e do Pentecostes.<br \/> Os mais amados dormiam, enquanto Ele,<br \/>\n<br \/>agoniado, orava no horto.<br \/> Uns negaram-no, outros fugiram na hora decisiva.<\/p>\n<p>Concorda com Jesus e trabalha.<br \/> O caminho para Deus est\u00e1 subdividido<br \/>\n<br \/>em verdadeira infinidade de planos.<br \/> O esp\u00edrito passar\u00e1 sozinho de uma esfera<br \/>\n<br \/>para outra.<br \/> Toda eleva\u00e7\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil, mas somente a\u00ed encontramos a vit\u00f3ria real.<\/p>\n<p>Recorda a \u201cporta estreita\u201d das li\u00e7\u00f5es evang\u00e9licas e caminha.<br \/> Quando sej a<br \/>\n<br \/>oportuno, Jesus chamar\u00e1 ao teu labor os que possam concordar contigo, em<br \/>\n<br \/>seu nome.<br \/> Dedica-te ao Mestre em todos os instantes de tua vida.<br \/> Serve -o com<br \/>\n<br \/>energia e ternura, como quem sabe que a realiza\u00e7\u00e3o espiritual reclama o<br \/>\n<br \/>concurso de todos os sentimentos que enobre\u00e7am a alma.<\/p>\n<p>Saulo estava enlevado.<br \/> N\u00e3o poderia traduzir as sen sa\u00e7\u00f5es cariciosas que<br \/>\n<br \/>lhe represavam no cora\u00e7\u00e3o tomado de inef\u00e1vel contentamento.<br \/> Esperan\u00e7as<br \/>\n<br \/>novas bafejavam-lhe a alma.<br \/> Em sua retina espiritual desdobrava -se radioso<br \/>\n<br \/>187<br \/>\n<br \/>futuro.<br \/> Quis mover-se, agradecer a d\u00e1diva sublime, mas a emo\u00e7\u00e3o privava -o de<br \/>\n<br \/>qualquer manifesta\u00e7\u00e3o afetiva.<br \/> Entretanto, pairava -lhe no esp\u00edrito uma grande<br \/>\n<br \/>interroga\u00e7\u00e3o.<br \/> Que fazer, doravante, para triunfar? Como completar as no\u00e7\u00f5es<br \/>\n<br \/>sagradas que lhe competia exempli ficar praticamente, sem anota\u00e7\u00e3o de<br \/>\n<br \/>sacrif\u00edcios?<br \/>\n<br \/>Deixando perceber que lhe ouvia as mais secretas interpela\u00e7\u00f5es, Abigail<br \/>\n<br \/>adiantou-se, sempre carinhosa:<br \/>\n<br \/>\u2014Saulo, para certeza da vit\u00f3ria no escabroso cami nho, lembra-te de que \u00e9<br \/>\n<br \/>preciso dar: Jesus deu ao mundo quanto possu\u00eda e, acima de tudo, deu -nos a<br \/>\n<br \/>compreens\u00e3o intuitiva das nossas fraquezas, para tolerarmos as mis\u00e9 rias<br \/>\n<br \/>humanas.<br \/>.<br \/>.<\/p>\n<p>O mo\u00e7o tarsense notou que Estev\u00e3o, nesse \u00ednterim, se despedia,<br \/>\n<br \/>endere\u00e7ando-lhe um olhar fraterno.<\/p>\n<p>Abigail, por sua vez, apertava-lhe as m\u00e3os com imensa ternura.<br \/> O ex &#8211;<br \/>\n<br \/>rabino desejaria prolongar a deli ciosa vis\u00e3o para o resto da vida, manter -se<br \/>\n<br \/>junto dela para sempre; contudo, a entidade querida esbo\u00e7ava um gesto de<br \/>\n<br \/>amoroso adeus.<br \/> Esfor\u00e7ou-se, ent\u00e3o, por catalogar apressadamente suas<br \/>\n<br \/>necessidades espirituais, dese joso de ouvi-la relativamente aos problemas que<br \/>\n<br \/>o defrontavam.<br \/> Ansioso de aproveitar as m\u00ednimas parcelas daquele glorioso,<br \/>\n<br \/>fugaz minuto, Saulo alinhava mentalmente grande n\u00famero de perguntas.<br \/> Que<br \/>\n<br \/>fazer para adquirir a compreens\u00e3o perfeita dos des\u00edgnios do Cristo?<br \/>\n<br \/>\u2014Ama! \u2014 respondeu Abigail espontaneamente.<\/p>\n<p>Mas, como proceder de modo a enriquecermos na virtude divina? Jesus<br \/>\n<br \/>aconselha o amor aos pr\u00f3prios inimigos.<br \/> Entretanto, considerava qu\u00e3o dif\u00edcil<br \/>\n<br \/>devia ser semelhante realiza\u00e7\u00e3o.<br \/> Penoso testemunhar dedica\u00e7\u00e3o, sem o real<br \/>\n<br \/>entendimento dos outros.<br \/> Como fazer para que a alma alcan\u00e7asse t\u00e3o elevada<br \/>\n<br \/>express\u00e3o de esfor\u00e7o com Jesus -Cristo?<br \/>\n<br \/>\u2014Trabalha! \u2014 esclareceu a noiva amada, sorrindo bondosamente.<\/p>\n<p>Abigail tinha raz\u00e3o.<br \/> Era necess\u00e1rio realizar a obra de aperfei\u00e7oamento<br \/>\n<br \/>interior.<br \/> Desejava ardentemente fa z\u00ea-lo.<br \/> Para isso insulara-se no deserto, por<br \/>\n<br \/>mais de mil dias consecutivos.<\/p>\n<p>Todavia, voltando ao ambiente do esfor\u00e7o coletivo, em coopera\u00e7\u00e3o com<br \/>\n<br \/>antigos companheiros, acalentava sadias esperan\u00e7as que se converteram em<br \/>\n<br \/>dolorosas perplexidades.<\/p>\n<p>Que provid\u00eancias adotar contra o des\u00e2nimo destruidor?<br \/>\n<br \/>\u2014Espera! \u2014 disse ela ainda, num gesto de terna solicitude, como quem<br \/>\n<br \/>desejava esclarecer que a alma deve estar pronta a atender ao prog rama<br \/>\n<br \/>divino, em qualquer circunst\u00e2ncia, extreme de caprichos pessoais.<\/p>\n<p>Ouvindo-a, Saulo considerou que a esperan\u00e7a fora sempre a companheira<br \/>\n<br \/>dos seus dias mais \u00e1speros.<br \/> Sa beria aguardar o porvir com as b\u00ean\u00e7\u00e3os do<br \/>\n<br \/>Alt\u00edssimo.<br \/> Confiaria na sua miseric\u00f3rdia.<br \/> N\u00e3o desdenharia as opor tunidades do<br \/>\n<br \/>servi\u00e7o redentor.<br \/> Mas.<br \/>.<br \/>.<br \/> os homens? Em toda parte medrava a confus\u00e3o nos<br \/>\n<br \/>esp\u00edritos.<br \/> Reconhecia que, de fato, a concord\u00e2ncia geral em torno dos ensina &#8211;<br \/>\n<br \/>mentos do Mestre Divino representava uma das realiza \u00e7\u00f5es mais dif\u00edceis, no<br \/>\n<br \/>desdobramento do Evangelho; mas, al\u00e9m disso, as criaturas pareciam<br \/>\n<br \/>igualmente desinteressadas da verdade e da luz.<br \/> Os israelitas agarravam -se<br \/>\n<br \/>\u00e0Lei de Mois\u00e9s, intensificando o regime das hipocrisias farisaicas; os<br \/>\n<br \/>seguidores do \u201cCaminho\u201d aproximavam-se novamente das sinagogas, fugiam<br \/>\n<br \/>dos gentios, submetiam-se, rigorosamente, aos processos da circuncis\u00e3o.<\/p>\n<p>Onde a liberdade do Cristo? Onde as vastas esperan\u00e7as que o seu amor<br \/>\n<br \/>188<br \/>\n<br \/>trouxera \u00e0 Humanidade inteira, sem exclus\u00e3o dos filhos de outras ra\u00e7as?<br \/>\n<br \/>Concordavam em que se fazia indispens\u00e1vel amar, trabalhar, esperar; entre &#8211;<br \/>\n<br \/>tanto, como agir no \u00e2mbito de for\u00e7as t\u00e3o heterog\u00eaneas? Como conciliar as<br \/>\n<br \/>grandiosas li\u00e7\u00f5es do Evangelho com a indiferen\u00e7a dos homens?<br \/>\n<br \/>Abigail apertou-lhe as m\u00e3os com mais ternura, a indicar as despedidas, e<br \/>\n<br \/>acentuou docemente:<br \/>\n<br \/>\u2014 Perdoa!.<br \/>.<br \/>.<\/p>\n<p>Em seguida, seu vulto luminoso pareceu diluir -se como se fosse feito de<br \/>\n<br \/>fragmentos de aurora.<\/p>\n<p>Empolgado pela maravilhosa revela\u00e7\u00e3o, Saulo viu -se s\u00f3, sem saber como<br \/>\n<br \/>coordenar as express\u00f5es do pr\u00f3prio deslumbramento.<br \/> Na regi\u00e3o, que se<br \/>\n<br \/>coroava de claridades infinitas, sentiam-se vibra\u00e7\u00f5es de misteriosa beleza.<br \/> Aos<br \/>\n<br \/>seus ouvidos continuavam chegando ecos long\u00ednquos de sublimes harmonias<br \/>\n<br \/>siderais, que pareciam traduzir men sagens de amor, oriundas de s\u00f3is<br \/>\n<br \/>distantes.<br \/>.<br \/>.<br \/> Ajoelhou-se e orou! Agradeceu ao Senhor a maravilha das suas<br \/>\n<br \/>b\u00ean\u00e7\u00e3os.<br \/> Da\u00ed a instantes, como se energias impon der\u00e1veis o reconduzissem<br \/>\n<br \/>ao ambiente da Terra, sentiu-se no leito r\u00fastico, improvisado entre as pedras.<\/p>\n<p>Incapaz de esclarecer o prodigioso fen\u00f4meno, Saulo de Tarso contemplou os<br \/>\n<br \/>c\u00e9us, embevecido.<\/p>\n<p>O infinito azul do firmamento n\u00e3o era um abismo em cujo fundo brilhavam<br \/>\n<br \/>estrelas.<br \/>.<br \/>.<br \/> A seus olhos, o espa\u00e7o adquiria nova significa\u00e7\u00e3o; devia estar cheio<br \/>\n<br \/>de express\u00f5es de vida, que ao homem comum n\u00e3o era dado compreender.<\/p>\n<p>Haveria corpos celestes, como os havia terrestres.<br \/> A criatura n\u00e3o estava<br \/>\n<br \/>abandonada, em particular, pelos poderes supremos da Cria\u00e7\u00e3o.<br \/> A bondade de<br \/>\n<br \/>Deus excedia a toda a intelig\u00eancia humana.<br \/> Os que se haviam libertado da<br \/>\n<br \/>carne voltavam do plano espiritual por confortar os que permaneciam a<br \/>\n<br \/>dist\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Para Estev\u00e3o, ele fora verdugo cruel; para Abigail, noivo ingrato.<\/p>\n<p>Entretanto, permitia o Senhor que ambos regressassem \u00e0 paisagem caliginosa<br \/>\n<br \/>do mundo, reanimando-lhe o cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A exist\u00eancia planet\u00e1ria alcan\u00e7ava novo sentido nas suas elucubra\u00e7\u00f5es<br \/>\n<br \/>profundas.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m estaria abandonado, Os homens mais miser\u00e1veis teriam no c\u00e9u<br \/>\n<br \/>quem os acompanhasse com desvelada dedica\u00e7\u00e3o.<br \/> Por mais duras que<br \/>\n<br \/>fossem as experi\u00eancias humanas, a vida, agora, assu mia nova fei\u00e7\u00e3o de<br \/>\n<br \/>harmonia e beleza eternas.<\/p>\n<p>A Natureza estava calma.<br \/> O luar esplendia no alto em vibra\u00e7\u00f5es de<br \/>\n<br \/>encanto indefin\u00edvel.<\/p>\n<p>De quando em quando, o vento sussurrava de leve, espalhando<br \/>\n<br \/>mensagens misteriosas.<\/p>\n<p>Lufadas cariciosas acalmavam a fronte d o pensador, que se embevecia na<br \/>\n<br \/>recorda\u00e7\u00e3o imediata de suas maravilhosas vis\u00f5es do mundo invis\u00edvel.<\/p>\n<p>Experimentando uma paz at\u00e9 ent\u00e3o desconhecida, acreditou que renascia<br \/>\n<br \/>naquele momento para uma exis t\u00eancia muito diversa.<br \/> Singular serenidade<br \/>\n<br \/>tocava-lhe o esp\u00edrito.<br \/> Uma compreens\u00e3o diferente felicitava -o para o rein\u00edcio da<br \/>\n<br \/>jornada no mundo.<br \/> Guardaria o lema de Abigail, para sempre.<br \/> O amor, o<br \/>\n<br \/>trabalho, a esperan\u00e7a e o perd\u00e3o seriam seus companheiros insepar\u00e1veis.<\/p>\n<p>Cheio de dedica\u00e7\u00e3o por todos os seres, aguardar ia as oportunidades que<br \/>\n<br \/>Jesus lhe concedesse, abstendo-se de provocar situa\u00e7\u00f5es, e, nesse passo,<br \/>\n<br \/>saberia tolerar a ignor\u00e2ncia ou a fraqueza alheias, ciente de que tamb\u00e9m ele<br \/>\n<br \/>189<br \/>\n<br \/>carregava um passado conden\u00e1vel, que, nada obstante, merecera a compaix\u00e3o<br \/>\n<br \/>do Cristo.<\/p>\n<p>Somente muito depois, quando as brisas leves da madrugada anunciavam<br \/>\n<br \/>o dia, o ex-doutor da Lei conseguiu conciliar o sono.<br \/> Quando despertou, era<br \/>\n<br \/>manh\u00e3 alta.<br \/> Muito ao longe, Tarso havia retomado o seu movi mento habitual.<\/p>\n<p>Ergueu-se encorajado como nunca.<br \/> O col\u00f3quio espiritual com Estev\u00e3o e<br \/>\n<br \/>Abigail renovara-lhe as energias.<br \/> Lembrou, instintivamente, a bolsa que o pai<br \/>\n<br \/>lhe havia mandado.<\/p>\n<p>Retirou-a para calcular as possibilidades finan ceiras de que podia dispor<br \/>\n<br \/>para novos cometimentos.<br \/> A d\u00e1diva paterna fora abundante e generosa.<\/p>\n<p>Contudo, n\u00e3o conseguia atinar, de pronto, com a decis\u00e3o prefer\u00edvel.<\/p>\n<p>Depois de muito refletir, decidiu adquirir um tear.<br \/> Seria o recome\u00e7o da luta.<\/p>\n<p>A fim de consolidar as novas disposi\u00e7\u00f5es interiores, julgou \u00fatil exercer em<br \/>\n<br \/>Tarso o mister de tecel\u00e3o, visto que ali, na terra do seu ber\u00e7o, se ostentara<br \/>\n<br \/>como intelectual de valor e aplaudido atleta.<\/p>\n<p>Dentro em pouco, era reconhecido pelos conterr\u00e2neos como humilde<br \/>\n<br \/>tapeceiro.<\/p>\n<p>A not\u00edcia teve desagrad\u00e1vel repercuss\u00e3o no lar an tigo, motivando a<br \/>\n<br \/>mudan\u00e7a do velho Isaac, que, ap\u00f3s de serd\u00e1-lo ostensivamente, transferiu-se<br \/>\n<br \/>para uma de suas propriedades \u00e0 margem do Eufrates, onde esperou a morte<br \/>\n<br \/>junto de uma filha, incapaz de compreender o pri mog\u00eanito muito amado.<\/p>\n<p>Assim, durante tr\u00eas anos, o sol it\u00e1rio tecel\u00e3o das vizinhan\u00e7as do Tauro<br \/>\n<br \/>exemplificou a humildade e o tra balho, esperando devotadamente que Jesus o<br \/>\n<br \/>convocasse ao testemunho.<\/p>\n<div class=\"pvc_clear\"><\/div>\n<p id=\"pvc_stats_18863\" class=\"pvc_stats all  \" data-element-id=\"18863\" style=\"\"><i class=\"pvc-stats-icon medium\" aria-hidden=\"true\"><svg aria-hidden=\"true\" focusable=\"false\" data-prefix=\"far\" data-icon=\"chart-bar\" role=\"img\" xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" viewBox=\"0 0 512 512\" class=\"svg-inline--fa fa-chart-bar fa-w-16 fa-2x\"><path fill=\"currentColor\" d=\"M396.8 352h22.4c6.4 0 12.8-6.4 12.8-12.8V108.8c0-6.4-6.4-12.8-12.8-12.8h-22.4c-6.4 0-12.8 6.4-12.8 12.8v230.4c0 6.4 6.4 12.8 12.8 12.8zm-192 0h22.4c6.4 0 12.8-6.4 12.8-12.8V140.8c0-6.4-6.4-12.8-12.8-12.8h-22.4c-6.4 0-12.8 6.4-12.8 12.8v198.4c0 6.4 6.4 12.8 12.8 12.8zm96 0h22.4c6.4 0 12.8-6.4 12.8-12.8V204.8c0-6.4-6.4-12.8-12.8-12.8h-22.4c-6.4 0-12.8 6.4-12.8 12.8v134.4c0 6.4 6.4 12.8 12.8 12.8zM496 400H48V80c0-8.84-7.16-16-16-16H16C7.16 64 0 71.16 0 80v336c0 17.67 14.33 32 32 32h464c8.84 0 16-7.16 16-16v-16c0-8.84-7.16-16-16-16zm-387.2-48h22.4c6.4 0 12.8-6.4 12.8-12.8v-70.4c0-6.4-6.4-12.8-12.8-12.8h-22.4c-6.4 0-12.8 6.4-12.8 12.8v70.4c0 6.4 6.4 12.8 12.8 12.8z\" class=\"\"><\/path><\/svg><\/i> <img decoding=\"async\" width=\"16\" height=\"16\" alt=\"Loading\" data-src=\"https:\/\/www.centronocaminhodaluz.com.br\/wp-content\/plugins\/page-views-count\/ajax-loader-2x.gif\" border=0 src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" class=\"lazyload\" style=\"--smush-placeholder-width: 16px; --smush-placeholder-aspect-ratio: 16\/16;\" \/><\/p>\n<div class=\"pvc_clear\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A jornada se fez sem incidentes. Entretanto, em sua nova soledade, o mo\u00e7o tarsense reconhecia que for\u00e7as invis\u00edveis proviam-lhe a mente de grandiosas e consoladoras inspira\u00e7\u00f5es. Dentro da noite cheia de estrelas, tinha a impress\u00e3o de ouvir uma voz carinhosa e s\u00e1bia, a traduzir-se por apelos de infinito amor e de infinita esperan\u00e7a. Desde o&hellip; <br \/> <a class=\"read-more\" href=\"https:\/\/www.centronocaminhodaluz.com.br\/index.php\/artigo18863\/\">Leia mais<\/a><\/p>\n<div class=\"pvc_clear\"><\/div>\n<p id=\"pvc_stats_18863\" class=\"pvc_stats all  \" data-element-id=\"18863\" style=\"\"><i class=\"pvc-stats-icon medium\" aria-hidden=\"true\"><svg aria-hidden=\"true\" focusable=\"false\" data-prefix=\"far\" data-icon=\"chart-bar\" role=\"img\" xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" viewBox=\"0 0 512 512\" class=\"svg-inline--fa fa-chart-bar fa-w-16 fa-2x\"><path fill=\"currentColor\" d=\"M396.8 352h22.4c6.4 0 12.8-6.4 12.8-12.8V108.8c0-6.4-6.4-12.8-12.8-12.8h-22.4c-6.4 0-12.8 6.4-12.8 12.8v230.4c0 6.4 6.4 12.8 12.8 12.8zm-192 0h22.4c6.4 0 12.8-6.4 12.8-12.8V140.8c0-6.4-6.4-12.8-12.8-12.8h-22.4c-6.4 0-12.8 6.4-12.8 12.8v198.4c0 6.4 6.4 12.8 12.8 12.8zm96 0h22.4c6.4 0 12.8-6.4 12.8-12.8V204.8c0-6.4-6.4-12.8-12.8-12.8h-22.4c-6.4 0-12.8 6.4-12.8 12.8v134.4c0 6.4 6.4 12.8 12.8 12.8zM496 400H48V80c0-8.84-7.16-16-16-16H16C7.16 64 0 71.16 0 80v336c0 17.67 14.33 32 32 32h464c8.84 0 16-7.16 16-16v-16c0-8.84-7.16-16-16-16zm-387.2-48h22.4c6.4 0 12.8-6.4 12.8-12.8v-70.4c0-6.4-6.4-12.8-12.8-12.8h-22.4c-6.4 0-12.8 6.4-12.8 12.8v70.4c0 6.4 6.4 12.8 12.8 12.8z\" class=\"\"><\/path><\/svg><\/i> <img decoding=\"async\" width=\"16\" height=\"16\" alt=\"Loading\" data-src=\"https:\/\/www.centronocaminhodaluz.com.br\/wp-content\/plugins\/page-views-count\/ajax-loader-2x.gif\" border=0 src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" class=\"lazyload\" style=\"--smush-placeholder-width: 16px; --smush-placeholder-aspect-ratio: 16\/16;\" \/><\/p>\n<div class=\"pvc_clear\"><\/div>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[16],"tags":[],"class_list":["post-18863","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-mensagens-diversas"],"a3_pvc":{"activated":true,"total_views":389,"today_views":0},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.centronocaminhodaluz.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18863","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.centronocaminhodaluz.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.centronocaminhodaluz.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.centronocaminhodaluz.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.centronocaminhodaluz.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18863"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.centronocaminhodaluz.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18863\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.centronocaminhodaluz.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18863"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.centronocaminhodaluz.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18863"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.centronocaminhodaluz.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18863"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}