{"id":18964,"date":"2022-07-01T09:12:00","date_gmt":"2022-07-01T09:12:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2022-07-01T09:12:00","modified_gmt":"2022-07-01T09:12:00","slug":"artigo18964","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.centronocaminhodaluz.com.br\/index.php\/artigo18964\/","title":{"rendered":"10 Ao encontro do Mestre &#8211; PAULO E ESTEV\u00c3O &#8211;  FRANCISCO C\u00c2NDIDO XAVIER"},"content":{"rendered":"<p>\u00c0s v\u00e9speras da partida em busca da gentilidade es panhola, eis que o<br \/>\n<br \/>Ap\u00f3stolo recebe uma carta comovente de Sim\u00e3o Pedro.<br \/> O ex -pescador de<br \/>\n<br \/>Cafarnaum escrevia-lhe de Corinto, avisando sua pr\u00f3xima chegada \u00e0 cidade<br \/>\n<br \/>imperial.<br \/> A missiva era afetuos a e enternecedora, cheia de confid\u00eancias<br \/>\n<br \/>amargas e tristes.<br \/> Pedro confiava ao amigo suas derradeiras desilus\u00f5es na<br \/>\n<br \/>\u00c1sia e mostrava-se-lhe vivamente interessado pelo que lhe sucedera em<br \/>\n<br \/>Roma.<br \/> Ignorando que o ex -rabino fora restituido \u00e0 liber dade, procurava<br \/>\n<br \/>confort\u00e1-lo fraternalmente.<br \/> Tamb\u00e9m ele, Sim\u00e3o, deliberara exilar -se junto dos<br \/>\n<br \/>irm\u00e3os da metr\u00f3pole imperial, esperando ser \u00fatil ao amigo, em quaisquer cir &#8211;<br \/>\n<br \/>cunst\u00e2ncias.<br \/> Ainda no mesmo documento \u00edntimo, rogava aproveitasse o<br \/>\n<br \/>portador para comunicar aos confr ades romanos o prop\u00f3sito de se demorar<br \/>\n<br \/>algum tempo entre eles.<\/p>\n<p>O convertido de Damasco leu e releu a mensagem amiga, altamente<br \/>\n<br \/>sensibilizado.<\/p>\n<p>Pelo emiss\u00e1rio, irm\u00e3o da igreja de Corinto, foi avi sado de que o venerando<br \/>\n<br \/>Ap\u00f3stolo de Jerusal\u00e9m chegaria ao port o de \u00d3stia dentro de dez dias, mais ou<br \/>\n<br \/>menos.<\/p>\n<p>N\u00e3o hesitou um momento.<br \/> Lan\u00e7ou m\u00e3o de todos os meios ao seu alcance,<br \/>\n<br \/>preveniu os \u00edntimos e preparou uma casa modesta, onde Pedro pudesse alojar &#8211;<br \/>\n<br \/>se com a fam\u00edlia.<br \/> Criou o melhor ambiente para a recep\u00e7\u00e3o do res peit\u00e1vel<br \/>\n<br \/>companheiro.<br \/> Valendo-se do argumento de sua pr\u00f3xima excurs\u00e3o \u00e0 Espanha,<br \/>\n<br \/>dispensava as d\u00e1divas dos amigos, indicando -lhes as necessidades de Sim\u00e3o,<br \/>\n<br \/>para que nada lhe faltasse.<br \/> Transportou quanto possu\u00eda, em objetos de uso<br \/>\n<br \/>dom\u00e9stico, do singelo aposento que alugara junto \u00e0 Porta Lavernal para a<br \/>\n<br \/>casinha destinada a Sim\u00e3o, pr\u00f3ximo dos cemit\u00e9rios israelitas da Via \u00c1pia.<br \/> Esse<br \/>\n<br \/>exemplo de coopera\u00e7\u00e3o foi altamente apreciado por todos.<br \/> Os irm\u00e3os mais<br \/>\n<br \/>humildes fizeram quest\u00e3o de oferecer pe queninas utilidades ao Ap\u00f3stolo<br \/>\n<br \/>venerando que chegaria desprovido.<\/p>\n<p>Informado de que a embarca\u00e7\u00e3o entrava no porto, o ex -rabino largou-se<br \/>\n<br \/>pressurosamente para \u00d3stia.<br \/> Lucas e Tim\u00f3teo, sempre em sua companhia,<br \/>\n<br \/>junto de outros cooperadores devotados, o amparavam nos pequenos aci &#8211;<br \/>\n<br \/>dentes do caminho, dando-lhe o bra\u00e7o, aqui e ali.<\/p>\n<p>N\u00e3o fora poss\u00edvel organizar uma recep\u00e7\u00e3o mais os tensiva.<br \/> A persegui\u00e7\u00e3o<br \/>\n<br \/>surda aos adeptos do Nazareno apertava o cerco por todos os lados.<br \/> Os<br \/>\n<br \/>\u00faltimos conselheiros honestos do Imperador estavam desaparecen do.<br \/> Roma<br \/>\n<br \/>assombrava-se com a enormidade e quantidade de crimes que se repetiam<br \/>\n<br \/>diariamente.<br \/> Nobres figuras do patriciado e do povo eram v\u00edtimas de atentados<br \/>\n<br \/>cru\u00e9is.<br \/> Atmosfera de terror dominava todas as atividades pol\u00ed ticas e, no<br \/>\n<br \/>c\u00f4mputo dessas calamidades, os crist\u00e3os eram os mais rudemente castigados,<br \/>\n<br \/>em vista da atitude hostil de quantos se acomodavam com os velhos deuses e<br \/>\n<br \/>se regalavam com os prazeres de uma exist\u00eancia dissoluta e f\u00e1cil.<br \/> Os<br \/>\n<br \/>seguidores de Jesus eram acusados e respon sabilizados por quaisquer<br \/>\n<br \/>dificuldades que sobrevinham.<br \/> Se ca\u00eda uma tempestade mais forte, devia -se o<br \/>\n<br \/>fen\u00f4meno aos adeptos da nova doutrina.<br \/> Se o inverno era mais rigoroso, a<br \/>\n<br \/>acusa\u00e7\u00e3o pesava sobre eles, porq\u00fcanto nin gu\u00e9m como os disc\u00edpulos do<br \/>\n<br \/>Crucificado havia desprezado ta nto os santu\u00e1rios da cren\u00e7a antiga,<br \/>\n<br \/>abominando os favores e os sacrif\u00edcios aos numes tutelares.<br \/> A partir do reinado<br \/>\n<br \/>316<br \/>\n<br \/>de Cl\u00e1udio, espalhavam-se lendas torpes a respeito das pr\u00e1ticas crist\u00e3s.<br \/> A<br \/>\n<br \/>fantasia do povo, \u00e1vido das distribui\u00e7\u00f5es de trigo nas grandes festas do circo,<br \/>\n<br \/>imaginava situa\u00e7\u00f5es inexistentes, gerando conceitos extra vagantes e absurdos,<br \/>\n<br \/>com rela\u00e7\u00e3o aos crentes do Evan gelho.<br \/> Por isso mesmo, desde o ano de 58,<br \/>\n<br \/>os crist\u00e3os imbeles eram levados ao Circo como escravos revolucio n\u00e1rios ou<br \/>\n<br \/>rebeldes, que deveriam desaparecer.<br \/> A opress\u00e3o agravara -se dia a dia.<br \/> Os<br \/>\n<br \/>romanos mais ou menos ilus tres, pelo nome ou pela situa\u00e7\u00e3o financeira, que<br \/>\n<br \/>simpatizavam com a doutrina do Cristo, continuavam indenes de p\u00fablicos<br \/>\n<br \/>vexames; mas os pobres, os oper\u00e1rios, os fil hos da plebe, eram levados ao<br \/>\n<br \/>mart\u00edrio, \u00e0s centenas.<br \/> Assim, os amigos do Evangelho n\u00e3o prepararam<br \/>\n<br \/>nenhuma homenagem p\u00fablica \u00e0 chegada de Sim\u00e3o Pedro.<br \/> Ao inv\u00e9s,<br \/>\n<br \/>procuraram dar ao fato um cunho todo \u00edntimo, de ma neira a n\u00e3o despertar<br \/>\n<br \/>repres\u00e1lias dos esbirros da situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Paulo de Tarso estendeu os bra\u00e7os ao velho amigo de Jerusal\u00e9m, tomado<br \/>\n<br \/>de alegria.<br \/> Sim\u00e3o trouxera a es posa e os filhos, al\u00e9m de Jo\u00e3o.<br \/> Sua palavra<br \/>\n<br \/>generosa estava cheia de novidades para o Ap\u00f3stolo do gentilismo.<br \/> Em poucos<br \/>\n<br \/>minutos, ficou sabendo da morte de Tiago e das novas torturas infligidas pelo<br \/>\n<br \/>Sin\u00e9drio \u00e0 igreja de Jerusal\u00e9m.<br \/> O velho pescador contava as \u00faltimas perip\u00e9cias<br \/>\n<br \/>da sua sorte, bem-humorado.<br \/> Comentava os tes temunhos mais pesados com<br \/>\n<br \/>um sorriso nos l\u00e1bios e intercalava toda a nar rativa de louvores a Deus.<br \/> Depois<br \/>\n<br \/>de reportar-se \u00e0s lutas que empenhara em muitas e repetidas peregrina\u00e7\u00f5es,<br \/>\n<br \/>contava ao ex-rabino que se refugiara alguns dias em \u00c9feso, junto de Jo\u00e3o,<br \/>\n<br \/>sendo acompanhado pelo filho de Zebedeu at\u00e9 Corinto, onde resolveram<br \/>\n<br \/>demandar a capital do Imp\u00e9rio.<br \/> Paulo, por sua vez, relatou as tarefas recebidas<br \/>\n<br \/>de Jesus, nos \u00faltimos anos, e era de ver-se o otimismo e a coragem desses<br \/>\n<br \/>homens que, inflamados do esp\u00edrito messi\u00e2nico e amoroso do Mestre,<br \/>\n<br \/>comentavam as desilus\u00f5es e as dores d o mundo como l\u00e1ureas da vida.<\/p>\n<p>Depois das suaves alegrias do reencontro, o grupo se encaminhou<br \/>\n<br \/>discretamente para a casinha reservada a Sim\u00e3o Pedro e sua fam\u00edlia.<\/p>\n<p>O ex-pescador, sentindo a excel\u00eancia da acolhida carinhosa, n\u00e3o<br \/>\n<br \/>encontrava palavras para tradu zir os j\u00fabilos dalma.<br \/> Como Paulo quando<br \/>\n<br \/>chegou a Pouzzoles, tinha a impress\u00e3o de estar num mundo diferente daquele<br \/>\n<br \/>em que vivera at\u00e9 ent\u00e3o.<\/p>\n<p>Com a sua chegada, recrudesceram os servi\u00e7os apos t\u00f3licos: mas o<br \/>\n<br \/>pregador do gentilismo n\u00e3o abandonou a id\u00e9ia de ir \u00e0 Espanha.<br \/> Alegando que<br \/>\n<br \/>Pedro o substituiria com vantagem, deliberou embarcar no dia pre fixado, num<br \/>\n<br \/>pequeno navio que se destinava \u00e0 costa gau lesa.<br \/> N\u00e3o valeram amistosos<br \/>\n<br \/>protestos, nem mesmo a Insist\u00eancia de Sim\u00e3o para que adiasse a viagem.<\/p>\n<p>Acompanhado de Lucas, Tim\u00f3teo e Demas, o velho advogado dos gentios<br \/>\n<br \/>partiu ao amanhecer de um dia lindo, cheio de projetos generosos.<\/p>\n<p>A miss\u00e3o visitou parte das G\u00e1lias, dirigindo -se ao territ\u00f3rio espanhol,<br \/>\n<br \/>demorando-se mais na regi\u00e3o de Tor tosa.<br \/> Em toda parte, a palavra e feitos do<br \/>\n<br \/>Ap\u00f3stolo ganhavam novos cora\u00e7\u00f5es para o Cristo, multiplicando os servi\u00e7os do<br \/>\n<br \/>Evangelho e renovando as esperan\u00e7as populares, \u00e0 luz do Reino de Deus.<\/p>\n<p>Em Roma, todavia, a situa\u00e7\u00e3o prosseguia cada vez mais grave.<br \/> Com a<br \/>\n<br \/>perversidade de Tigelino \u00e0 frente da Prefeitura dos Pretorianos, acentuara -se o<br \/>\n<br \/>terror entre os disc\u00edpulos de Jesus.<br \/> Faltava somente um \u00e9dito em que os<br \/>\n<br \/>cidad\u00e3os romanos, simpatizantes do Evangelho, fossem condenados<br \/>\n<br \/>publicamente, porque os libertos, os descendentes de outros pov os e os filhos<br \/>\n<br \/>da plebe j\u00e1 enchiam as pris\u00f5es.<\/p>\n<p>317<br \/>\n<br \/>Sim\u00e3o Pedro, como figura de relevo do movimento, n\u00e3o tinha descanso.<\/p>\n<p>N\u00e3o obstante a fadiga natural da senectude, procurava atender a todas as<br \/>\n<br \/>necessidades emergentes.<br \/> Seu esp\u00edrito poderoso sobrepunha -se a todas as<br \/>\n<br \/>vicissitudes e desempenhava os m\u00ednimos deveres com devotamento m\u00e1ximo \u00e0<br \/>\n<br \/>causa da Verdade.<br \/> Assistia os doentes, pregava nas catacumbas, percorria<br \/>\n<br \/>longas dist\u00e2ncias, sempre animoso e satisfeito.<br \/> Os crist\u00e3os do mun do inteiro<br \/>\n<br \/>jamais poder\u00e3o esquecer aquela falange de abnegados que os precedeu nos<br \/>\n<br \/>primeiros testemunhos da f\u00e9, afrontando situa\u00e7\u00f5es dolorosas e injustas,<br \/>\n<br \/>regando com sangue e l\u00e1grimas a sementeira do Cristo, abra \u00e7ando-se<br \/>\n<br \/>mutuamente confortados nas horas mais negras da hist\u00f3ria do Evangelho, nos<br \/>\n<br \/>espet\u00e1culos hediondos do circo, nas preces de afli\u00e7\u00e3o que se elevavam dos<br \/>\n<br \/>cemit\u00e9rios abandonados.<\/p>\n<p>Tigelino, grande inimigo dos pros\u00e9litos do Naza reno, buscava agravar a<br \/>\n<br \/>situa\u00e7\u00e3o por todos os meios ao alcance da sua autoridade odiosa e perversa.<\/p>\n<p>O filho de Zebedeu preparava-se para regressar \u00e0 \u00c1sia, quando um grupo<br \/>\n<br \/>de esbirros dos perseguidores o colheu em prega\u00e7\u00e3o carinhosa e inspirada, na<br \/>\n<br \/>qual se despedia dos confrades de Roma, com exorta\u00e7\u00f5es de to cante<br \/>\n<br \/>reconhecimento a Jesus.<br \/> Apesar das atenciosas explica\u00e7\u00f5es, Jo\u00e3o foi preso e<br \/>\n<br \/>esbordoado impiedosamente.<br \/> E, com ele, dezenas de irm\u00e3os foram<br \/>\n<br \/>trancafiados nos c\u00e1rceres imundos do Esquilino.<\/p>\n<p>Pedro recebeu a not\u00edcia dolorosamente surpreendido.<br \/> Conhecia a extens\u00e3o<br \/>\n<br \/>dos trabalhos que aguardavam na \u00c1sia o comp anheiro generoso e rogou ao<br \/>\n<br \/>Senhor n\u00e3o o abandonasse, a fim de obter absolvi\u00e7\u00e3o justa.<br \/> Como proceder<br \/>\n<br \/>em t\u00e3o dif\u00edceis circunst\u00e2ncias? Recorreu \u00e0s rela\u00e7\u00f5es prestigiosas que a cidade<br \/>\n<br \/>lhe oferecia.<br \/> Entretanto, seus afei\u00e7oados eram igualmente pobres de influ\u00ean cia<br \/>\n<br \/>pol\u00edtica nos gabinetes administrativos da \u00e9poca.<br \/> Os crist\u00e3os de posi\u00e7\u00e3o<br \/>\n<br \/>financeira mais destacada n\u00e3o ousavam enfrentar a onda avassaladora, de<br \/>\n<br \/>persegui\u00e7\u00e3o e tirania.<br \/> O antigo chefe da igreja de Jerusal\u00e9m n\u00e3o desanimou.<\/p>\n<p>Precisava libertar o amigo, concorrendo, para isso, com todo o potencial de<br \/>\n<br \/>energia, na esfera de suas possibilidades.<\/p>\n<p>Compreendendo a timidez natural dos romanos simpatizantes do Cristo,<br \/>\n<br \/>buscou reunir apressadamente uma assembl\u00e9ia de amigos \u00edntimos, para<br \/>\n<br \/>examinar o caso.<\/p>\n<p>No meio dos debates algu\u00e9m se lembrou de Paulo.<\/p>\n<p>O Ap\u00f3stolo dos gentios dispunha na capital do Imp\u00e9rio de grande n\u00famero<br \/>\n<br \/>de afei\u00e7oados eminentes.<br \/> No caso da sua absolvi\u00e7\u00e3o, a provid\u00eancia partira do<br \/>\n<br \/>c\u00edrculo dileto de Pop\u00e9ia Sabina.<br \/> Muitos militares colaboradores de Afr\u00e2 nius<br \/>\n<br \/>B\u00farrus eram seus admiradores.<br \/> Ac\u00e1cio Dom\u00edcio, que dispunha de valiosos<br \/>\n<br \/>empenhos junto dos pretorianos, era seu amigo dedicado e incondicional.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m melhor que o ex-tecel\u00e3o de Tarso poderia incumbir -se da delicada<br \/>\n<br \/>miss\u00e3o de salvar o prisioneiro.<br \/> N\u00e3o se ria razo\u00e1vel pedir sua ajuda?<br \/>\n<br \/>Comentava-se o car\u00e1ter urgente da medida, mesmo porque, numerosos<br \/>\n<br \/>crist\u00e3os morriam todos os dias na pris\u00e3o do Esquilino, v\u00edtimas das queimaduras<br \/>\n<br \/>de azeite fervente.<br \/> Tigelino e alguns comparsas da administra\u00e7\u00e3o criminosa<br \/>\n<br \/>distra\u00edam-se com os supl\u00edcios das v\u00edtimas.<br \/> O azeite era lan\u00e7ado aos infelizes<br \/>\n<br \/>no poste do mart\u00edrio.<br \/> Outras vezes, os prisioneiros maniatados eram mergulha &#8211;<br \/>\n<br \/>dos em grandes barris de \u00e1gua em ebuli\u00e7\u00e3o.<br \/> O Prefeito dos Pretorianos exigia<br \/>\n<br \/>que os correligion\u00e1rios assist issem ao supl\u00edcio, para escarmento geral.<br \/> Os<br \/>\n<br \/>encarcerados acompanhavam as tristes opera\u00e7\u00f5es, banhados em pranto<br \/>\n<br \/>silencioso.<br \/> Verificada a morte da v\u00edtima, um soldado se encarregava de lan\u00e7ar<br \/>\n<br \/>318<br \/>\n<br \/>as v\u00edsceras aos peixes famintos, nos tanques vastos das pris\u00f5es od iosas.<br \/> Dada<br \/>\n<br \/>a situa\u00e7\u00e3o geral, apavorante, poder -se-ia contar com a interven\u00e7\u00e3o de Paulo?<br \/>\n<br \/>A Espanha ficava muito distante.<br \/> Era poss\u00edvel que a sua vinda n\u00e3o<br \/>\n<br \/>aproveitasse ao caso pessoal de Jo\u00e3o.<br \/> Pedro, por\u00e9m, considerou a<br \/>\n<br \/>oportunidade do recurso e advertiu q ue seguiriam trabalhando a favor do filho<br \/>\n<br \/>de Zebedeu.<br \/> Nada impedia, por\u00e9m, de recorrer desde logo para o prest\u00edgio de<br \/>\n<br \/>Paulo, ainda porque a situa\u00e7\u00e3o piora va de instante a instante.<br \/> Aquele ano de<br \/>\n<br \/>64 come\u00e7ara com terr\u00edveis perspectivas.<br \/> N\u00e3o se podia dispens ar um homem<br \/>\n<br \/>en\u00e9rgico e resoluto \u00e0 frente dos interesses da causa.<\/p>\n<p>Dado este parecer do venerando Ap\u00f3stolo de Jeru sal\u00e9m, a assembl\u00e9ia<br \/>\n<br \/>concordou com a medida aventada.<br \/> Um irm\u00e3o que se tornara devotado<br \/>\n<br \/>cooperador de Paulo, em Roma, foi mandado \u00e0 Espanha, com urg\u00eancia.<br \/> Esse<br \/>\n<br \/>emiss\u00e1rio era Cresc\u00eancio, que saiu de \u00d3stia, com enorme ansiedade, levando<br \/>\n<br \/>a missiva de Sim\u00e3o.<\/p>\n<p>O Ap\u00f3stolo dos gentios, depois de muito peregrinar, demorava -se em<br \/>\n<br \/>Tortosa, onde conseguira reunir grande n\u00famero de colaboradores devotados a<br \/>\n<br \/>Jesus.<br \/> Suas atividades apost\u00f3licas continuavam ativas, conquanto atenua das,<br \/>\n<br \/>em virtude do cansa\u00e7o f\u00edsico.<br \/> O movimento das ep\u00edstolas diminuira, mas n\u00e3o se<br \/>\n<br \/>interrompera de todo Atendendo \u00e0 necessidade das igrejas do Oriente, Tim\u00f3teo<br \/>\n<br \/>partira da Espanha para a \u00c1sia, carregado de cartas e recomenda\u00e7\u00f5es amigas.<\/p>\n<p>Em torno do Ap\u00f3stolo agrupa ra-se novo contingente de cooperadores<br \/>\n<br \/>diligentes e sinceros.<br \/> Em todos os recantos, Paulo de Tarso ensinava o<br \/>\n<br \/>trabalho e a ren\u00fancia, a paz da consci\u00eancia e o culto do bem.<\/p>\n<p>Quando planejava novas viagens na companhia de Lucas.<br \/> eis que surge<br \/>\n<br \/>em Tortosa o mensageiro de Sim\u00e3o.<\/p>\n<p>O ex-rabino l\u00ea a carta e resolve regressar \u00e0 cidade imperial, imediatamente.<\/p>\n<p>Atrav\u00e9s das linhas afetuosas do velho antigo, entreviu a gravidade dos<br \/>\n<br \/>acontecimentos.<br \/> Al\u00e9m disso, Jo\u00e3o necessitava voltar \u00e0 \u00c1sia.<br \/> N\u00e3o ignorava a<br \/>\n<br \/>influ\u00eancia ben\u00e9fica que ele exercia em Jeru sal\u00e9m.<\/p>\n<p>Em \u00c9feso, onde a igreja se compunha de elementos judaicos e gentios, o<br \/>\n<br \/>filho de Zebedeu fora sempre um vulto nobre e exemplar, indene de es p\u00edrito<br \/>\n<br \/>sectarista.<br \/> Paulo de Tarso passou em revista as necessidades do servi\u00e7o<br \/>\n<br \/>evang\u00e9lico entre as comunidades orientais, e con cluiu pela urg\u00eancia do<br \/>\n<br \/>regresso de Jo\u00e3o, deliberando in tervir no assunto sem perda de tempo.<\/p>\n<p>Como de outras vezes, nada valeram as considera\u00e7\u00f5es dos amigos, no<br \/>\n<br \/>tocante ao problema de sua sa\u00fade.<br \/> O homem en\u00e9rgico e decidido, apesar dos<br \/>\n<br \/>cabelos brancos, mantinha o mesmo \u00e2nimo resoluto, elevado e firme, que o<br \/>\n<br \/>caracterizara na mocidade distante.<\/p>\n<p>Favorecido pela grande movimenta\u00e7\u00e3o de barcos, nos princ\u00edpios de maio<br \/>\n<br \/>de 64, n\u00e3o lhe foi dif\u00edcil retornar ao porto de \u00d3stia, junto dos companheiros.<\/p>\n<p>Sim\u00e3o Pedro recebeu-o enternecido.<br \/> Em poucas horas o convertido de<br \/>\n<br \/>Damasco conhecia a situa\u00e7\u00e3o intole r\u00e1vel criada em Roma pela a\u00e7\u00e3o delituosa<br \/>\n<br \/>de Tigelino.<br \/> Jo\u00e3o continuava encarcerado, apesar dos recursos leva dos aos<br \/>\n<br \/>tribunais, O antigo pescador de Cafarnaum, em significativas confid\u00eancias,<br \/>\n<br \/>revelava ao companheiro que o cora\u00e7\u00e3o lhe pressagiava novas dores e<br \/>\n<br \/>testemunhos cruciantes.<br \/> Um sonho prof\u00e9ti co anunciava-lhe persegui\u00e7\u00f5es e<br \/>\n<br \/>provas \u00e1speras.<br \/> Numa das \u00faltimas noites, contem plara um quadro singular, em<br \/>\n<br \/>que uma cruz de propor\u00e7\u00f5es gigantescas parecia envolver com sua sombra<br \/>\n<br \/>toda a fam\u00edlia dos disc\u00edpulos do Senhor.<br \/> Paulo de Tarso ou viu-o, com<br \/>\n<br \/>interesse, manifestando-se de inteiro acordo com os seus pressentimentos.<\/p>\n<p>319<br \/>\n<br \/>Apesar dos horizontes car regados, deliberaram uma a\u00e7\u00e3o conjunta para libertar<br \/>\n<br \/>o filho de Zebedeu.<\/p>\n<p>Corria o m\u00eas de junho.<\/p>\n<p>O ex-rabino desdobrou-se em atividades intensas, procurou Ac\u00e1cio<br \/>\n<br \/>Domicio, solicitando a sua interven\u00e7\u00e3o e valimento.<br \/> Mais ainda: considerando<br \/>\n<br \/>que as provid\u00eancias morosas poderiam redundar num fracasso, auxiliado por<br \/>\n<br \/>amigos eminentes procurou avistar -se com numerosos \u00e1ulicos da Corte<br \/>\n<br \/>Imperial, chegando \u00e0 presen\u00e7a de Pop\u00e9ia Sabina, a fim de rogar seus bons<br \/>\n<br \/>of\u00edcios, no caso do filho de Zebedeu.<br \/> A c\u00e9lebre favorita ouviu -lhe a confid\u00eancia<br \/>\n<br \/>com enorme surpresa.<br \/> Aquelas revela\u00e7\u00f5es de uma vida eterna, aquela<br \/>\n<br \/>concep\u00e7\u00e3o da Divindade assus tavam-na.<br \/> Embora inimiga declarada dos<br \/>\n<br \/>crist\u00e3os, dada a simpatia que mantinha pelo juda\u00edsmo, Pop\u00e9ia impres sionou-se<br \/>\n<br \/>com a figura asc\u00e9tica do Ap\u00f3stolo e com os argumentos de refor\u00e7o ao seu<br \/>\n<br \/>pedido.<br \/> Sem ocultar sua admira\u00e7\u00e3o, prometeu atend\u00ea -lo, apontando desde logo<br \/>\n<br \/>as provid\u00eancias imediatas.<\/p>\n<p>Paulo retirou-se esperan\u00e7oso da absolvi\u00e7\u00e3o do companheiro, porque<br \/>\n<br \/>Sabina prometera libert\u00e1-lo dentro de tr\u00eas dias.<\/p>\n<p>Voltando \u00e0 comunidade, deu ci\u00eancia aos irm\u00e3os da entrevista que tivera<br \/>\n<br \/>com a favorita de Nero; mas, terminada a exposi\u00e7\u00e3o, notou, algo surpres o, que<br \/>\n<br \/>alguns companheiros reprovavam a sua iniciativa.<br \/> Pediu, ent\u00e3o, que o<br \/>\n<br \/>esclarecessem e justificassem quaisquer d\u00favidas.<br \/> Surgiram fracas<br \/>\n<br \/>considera\u00e7\u00f5es que ele acolheu com a sua inesgot\u00e1vel serenidade.<\/p>\n<p>Alegava-se que n\u00e3o era louv\u00e1vel dirigir -se a uma cortes\u00e3 dissoluta, para<br \/>\n<br \/>impetrar um favor.<br \/> Semelhante proceder afigurava -se de \u00c9feso a seguidores do<br \/>\n<br \/>Cristo.<br \/> Pop\u00e9ia era mulher de vida notadamente dissoluta, banqueteava -se nas<br \/>\n<br \/>orgias do Palatino, caracterizava-se por sua lux\u00faria escandalosa.<br \/> Seria<br \/>\n<br \/>razo\u00e1vel pedir-lhe prote\u00e7\u00e3o para os disc\u00edpulos de Jesus?<br \/>\n<br \/>Paulo de Tarso aceitou as mofinas arg\u00fci\u00e7\u00f5es com beat\u00edfica paci\u00eancia e<br \/>\n<br \/>objetou, sensatamente:<br \/>\n<br \/>\u2014 Respeito e acato a vossa opini\u00e3o, mas, antes de tudo, considero<br \/>\n<br \/>necess\u00e1rio libertar Jo\u00e3o.<br \/> Fosse eu o pri sioneiro e n\u00e3o haveria de julgar o caso<br \/>\n<br \/>t\u00e3o urgente e t\u00e3o grave.<br \/> Estou velho, alquebrado, e, portanto, melhor me fora, e<br \/>\n<br \/>mais \u00fatil qui\u00e7\u00e1, meditar na miseric\u00f3rdia de Jesus, atrav\u00e9s das grades do<br \/>\n<br \/>c\u00e1rcere.<br \/> Mas Jo\u00e3o est\u00e1 relativamente mo\u00e7o, \u00e9 forte e dedicado; o Cr istianismo<br \/>\n<br \/>da \u00c1sia n\u00e3o pode dispensar -lhe a atividade construtiva, at\u00e9 que outros<br \/>\n<br \/>trabalhadores sejam chamados \u00e0 semeadura di vina.<br \/> Com refer\u00eancia \u00e0s vossas<br \/>\n<br \/>d\u00favidas, por\u00e9m, cumpre-me aduzir um argumento que requer pondera\u00e7\u00e3o.<br \/> Por<br \/>\n<br \/>que considerais impr\u00f3pria uma solicita\u00e7\u00e3o a Pop\u00e9ia Sabina? Ter\u00edeis a mesma<br \/>\n<br \/>id\u00e9ia, se me dirigisse a Tigelino ou ao pr\u00f3prio imperador? N\u00e3o ser\u00e3o eles<br \/>\n<br \/>v\u00edtimas da mesma prostitui\u00e7\u00e3o que estigmatiza as favoritas de sua Corte? Se<br \/>\n<br \/>combinasse com um militar embriagado, do Pa latino, as provid\u00eancias<br \/>\n<br \/>imprescind\u00edveis \u00e0 liberta\u00e7\u00e3o do companheiro, talvez aplaud\u00edsseis meu gesto,<br \/>\n<br \/>sem restri\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Irm\u00e3os, \u00e9 indispens\u00e1vel compreender que a der rocada moral da mulher,<br \/>\n<br \/>quase sempre, vem da prostitui \u00e7\u00e3o do homem.<br \/> Concordo em que Pop\u00e9ia n\u00e3o \u00e9<br \/>\n<br \/>a figura mais conveniente ao feito, em virtude das inquieta\u00e7\u00f5es da sua vida;<br \/>\n<br \/>entretanto, \u00e9 a provid\u00eancia que as circunst\u00e2ncias indicaram e n\u00f3s precisamos<br \/>\n<br \/>libertar o devotado disc\u00edpulo do Senhor.<br \/> Ali\u00e1s, procurei valer -me de semelhantes<br \/>\n<br \/>recursos, recordando a exor ta\u00e7\u00e3o do Mestre, na qual recomenda ao<br \/>\n<br \/>homem granjear amigos com as rique zas da iniq\u00fcidade (1).<br \/> Considero que<br \/>\n<br \/>320<br \/>\n<br \/>quaisquer rela\u00e7\u00f5es com o Palatino constituem express\u00f5es da fortuna in\u00edqua,<br \/>\n<br \/>mas suponho \u00fatil mobilizar os que se conservam \u201cmortos\u201d no pecado para<br \/>\n<br \/>algum ato de caridade e de f\u00e9, pelo qual se desliguem dos la\u00e7os com o<br \/>\n<br \/>passado delituoso, auxiliados pela intercess\u00e3o de amigos fi\u00e9is.<\/p>\n<p>A elucida\u00e7\u00e3o do Ap\u00f3stolo espalhou grande calma em todo o recinto.<br \/> Em<br \/>\n<br \/>poucas palavras, Paulo de Tarso fi zera ver, aos companheiros, transcendentes<br \/>\n<br \/>conclus\u00f5es de ordem espiritual.<\/p>\n<p>A promessa n\u00e3o falhara.<br \/> Em tr\u00eas dias o filho de Zebedeu era restitu\u00eddo \u00e0<br \/>\n<br \/>liberdade.<br \/> Jo\u00e3o estava abatid\u00edssimo.<br \/> Os maus tratos, a contempla\u00e7\u00e3o dos<br \/>\n<br \/>quadros<br \/>\n<br \/>(1) Lucas.<br \/> Cap\u00edtulo 16\u00ba, vers\u00edculo 9.<br \/> \u2014 (Nota de Emmanuel.<br \/>)<br \/>\n<br \/>terr\u00edveis do c\u00e1rcere, a expecta\u00e7\u00e3o angustiosa, haviam -lhe mergulhado o<br \/>\n<br \/>esp\u00edrito em perplexidades dolorosas.<\/p>\n<p>Pedro regozijava-se, mas o ex-rabino, atento \u00e0 tens\u00e3o ambiente, sugeriu o<br \/>\n<br \/>regresso do Ap\u00f3stolo galileu \u00e0 \u00c1sia, sem perda de temp o.<br \/> A igreja de \u00c9feso<br \/>\n<br \/>esperava-o.<br \/> Jerusal\u00e9m devia contar com a sua colabora\u00e7\u00e3o desinte ressada e<br \/>\n<br \/>amiga.<br \/> Jo\u00e3o n\u00e3o teve tempo para muitas considera\u00e7\u00f5es, porque Paulo, como<br \/>\n<br \/>que possu\u00eddo de amargos pressentimentos, foi ao porto de \u00d3stia para<br \/>\n<br \/>predispor o seu embarque, aproveitando um navio napolitano prestes a largar<br \/>\n<br \/>para Mileto.<br \/> Colhido pelas provid\u00eancias e impossibilitado de resistir ao resoluto<br \/>\n<br \/>ex-rabino, o filho de Zebedeu embarcou em fins de junho de 64, enquanto os<br \/>\n<br \/>demais amigos permaneceriam em Roma para a boa batalha em prol do<br \/>\n<br \/>Evangelho.<\/p>\n<p>Quanto mais sombrios os horizontes, mais coeso se tornava o grupo dos<br \/>\n<br \/>irm\u00e3os na f\u00e9, em Cristo Jesus.<br \/> Multiplicavam-se as reuni\u00f5es nos cemit\u00e9rios<br \/>\n<br \/>distantes e abandonados.<br \/> Naqueles dias de sofrimentos, as prega \u00e7\u00f5es<br \/>\n<br \/>pareciam mais belas.<\/p>\n<p>Paulo de Tarso e os cooperadores desdobravam -se em edifica\u00e7\u00f5es<br \/>\n<br \/>espirituais, quando a cidade foi sacudida, de s\u00fabito, por espantoso<br \/>\n<br \/>acontecimento.<br \/> Na manh\u00e3 de 16 de julho de 64 irrompeu violento inc\u00eandio nas<br \/>\n<br \/>proximidades do Grande Circo, abrangendo toda a regi\u00e3o do bairro localizado<br \/>\n<br \/>entre o C\u00e9lio e o Palatino.<br \/> O fogo come\u00e7ara em vastos armaz\u00e9ns repletos de<br \/>\n<br \/>material inflam\u00e1vel e propagara-se com rapidez assombrosa.<br \/> Debalde foram<br \/>\n<br \/>convocados os oper\u00e1rios e homens do povo para atenuar -lhe a viol\u00eancia; em<br \/>\n<br \/>v\u00e3o a turba numerosa e compacta movimentou recursos para aliviar a situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>As labaredas subiam sempre, alastrando -se com furor, deixando mont\u00f5es de<br \/>\n<br \/>escombros e ru\u00ednas.<br \/> Roma inteira acudia a ver o sinistro espet\u00e1culo, j\u00e1<br \/>\n<br \/>empolgada pelas suas paix\u00f5es amea\u00e7adoras e terr\u00edveis.<br \/> O fogo, com<br \/>\n<br \/>prodigiosa rapidez, deu volta ao Palatino e invadiu o Velabro.<br \/> O primeiro dia<br \/>\n<br \/>findava-se com angustiosas perspectivas.<br \/> O firmamento cobria -se de fumo<br \/>\n<br \/>espesso, iluminando-se grande parte das colinas com o clar\u00e3o od ioso do<br \/>\n<br \/>inc\u00eandio terr\u00edvel.<br \/> As elegantes constru\u00e7\u00f5es do Aventino e do C\u00e9lio pareciam<br \/>\n<br \/>\u00e1rvores secas de floresta em chamas.<br \/> Acentuara-se a desola\u00e7\u00e3o das v\u00edtimas<br \/>\n<br \/>da enorme cat\u00e1strofe.<br \/> Tudo ardia nas adjac\u00eancias do F\u00f3rum.<br \/> Come\u00e7ou o<br \/>\n<br \/>\u00eaxodo com infinitas dificuldades.<br \/> As portas da cidade congestionavam-se de<br \/>\n<br \/>pessoas tomadas de profundo terror.<br \/> Animais espavoridos corriam ao longo<br \/>\n<br \/>das vias p\u00fablicas, como acossados por perseguidores invis\u00edveis.<br \/> Pr\u00e9dios<br \/>\n<br \/>antigos, de s\u00f3lida constru\u00e7\u00e3o, ruiam com sinistro estrondo.<br \/> To dos os habitantes<br \/>\n<br \/>321<br \/>\n<br \/>de Roma desejavam distanciar -se da zona comburente.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m mais se atrevia a atacar a fogueira ind\u00f4mita.<br \/> O segundo dia<br \/>\n<br \/>apresentou-se com o mesmo espet\u00e1culo inesquec\u00edvel.<br \/> Os populares desistiram<br \/>\n<br \/>de salvar alguma coisa; contentavam-se em poder enterrar os mortos sem<br \/>\n<br \/>conta, encontrados nos locais de poss\u00edvel acesso.<br \/> Dezenas de pessoas<br \/>\n<br \/>percorriam as ruas em gargalhadas de hor r\u00edvel acento; a loucura generalizava &#8211;<br \/>\n<br \/>se entre as criaturas mais impression\u00e1veis.<br \/> Macas improvisadas conduziam<br \/>\n<br \/>feridos sem destino certo.<br \/> Longas prociss\u00f5es invadiam os santu\u00e1rios para<br \/>\n<br \/>salvar as suntuosas imagens dos deuses.<br \/> Milhares de mulheres<br \/>\n<br \/>acompanhavam a figura impass\u00edvel dos numes tutelares, em dolorosas<br \/>\n<br \/>s\u00faplicas, fazendo votos de penosos sacrif\u00edcios, em vozes esten t\u00f3ricas.<br \/> Homens<br \/>\n<br \/>piedosos apanhavam, no remoinho das multid\u00f5es estonteadas, as crian\u00e7as<br \/>\n<br \/>massacradas ou apenas feridas.<br \/> Toda a zona de acesso a Via \u00c1pia, em<br \/>\n<br \/>dire\u00e7\u00e3o de Alba Longa, estava entupida de retirantes apressados e desiludidos.<\/p>\n<p>Centenas de m\u00e3es gritavam pelos filhinhos desaparecidos e, n\u00e3o raro,<br \/>\n<br \/>tomavam-se provid\u00eancias, \u00e0 pressa, para socorrer as que enlouque ciam.<br \/> A<br \/>\n<br \/>popula\u00e7\u00e3o em peso desejava abandonar a cidade, ao mesmo tempo.<br \/> A<br \/>\n<br \/>situa\u00e7\u00e3o tornara-se perigosa.<br \/> A turba amotinada atacava as liteiras do s<br \/>\n<br \/>patr\u00edcios.<br \/> Somente os cavaleiros desassombrados conseguiam romper a mole<br \/>\n<br \/>humana, provocando novas blasf\u00eamias e lamen ta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O fogo j\u00e1 havia devorado, quase totalmente, os pala cetes nobres e<br \/>\n<br \/>preciosos das Carinas e continuava des tro\u00e7ando os bairros romanos, entre os<br \/>\n<br \/>vales e as colinas, onde a popula\u00e7\u00e3o era muito densa.<br \/> Durante uma semana,<br \/>\n<br \/>dia e noite, lavrou o fogo destruidor, espalhando deso la\u00e7\u00f5es e ru\u00ednas.<br \/> Das<br \/>\n<br \/>catorze circunscri\u00e7\u00f5es em que se dividia a metr\u00f3pole imperial, apenas quatro<br \/>\n<br \/>ficaram inc\u00f3lumes.<br \/> Tr\u00eas eram uma aluvi\u00e3o de escombros fumegan tes e as<br \/>\n<br \/>outras sete conservavam t\u00e3o-s\u00f3 alguns vest\u00edgios dos edif\u00edcios mais preciosos.<\/p>\n<p>O imperador estava em \u00c1ncio (Antium), quando irrompeu a fogueira por ele<br \/>\n<br \/>mesmo idealizada, pois a verdade \u00e9 que, desejo so de edificar uma cidade nova<br \/>\n<br \/>com os imensos recursos financeiros que chegavam das pro v\u00edncias tribut\u00e1rias,<br \/>\n<br \/>projetara o inc\u00eandio famoso, assim vencendo a oposi\u00e7\u00e3o do povo, que n\u00e3o<br \/>\n<br \/>desejava a transfer\u00eancia dos santu\u00e1rios.<\/p>\n<p>Al\u00e9m dessa medida de ordem urban\u00ed stica, o filho de Agripina caracterizava &#8211;<br \/>\n<br \/>se, em tudo, pela sua originalidade sat\u00e2nica.<br \/> Presumindo-se genial artista, n\u00e3o<br \/>\n<br \/>passava de monstruoso histri\u00e3o, assinalando a sua passagem pela vida p\u00fablica<br \/>\n<br \/>com crimes indel\u00e9veis e odiosos.<br \/> N\u00e3o seria interessante apresentar ao mundo<br \/>\n<br \/>uma Roma em chamas? Nenhum espet\u00e1culo, a seus olhos, seria ines quec\u00edvel<br \/>\n<br \/>como esse.<br \/> Depois das cinzas mortas, reedifi caria os bairros destru\u00eddos.<br \/> Seria<br \/>\n<br \/>generoso para com as v\u00edtimas da imensa cat\u00e1strofe.<br \/> Passaria \u00e0 hist\u00f3ria do<br \/>\n<br \/>Imp\u00e9rio como administrador magn\u00e2nimo e amigo dos s\u00faditos sofredores.<\/p>\n<p>Alimentando tais prop\u00f3sitos, combinou o atentado com os \u00e1ulicos de sua<br \/>\n<br \/>maior confian\u00e7a e intimidade, ausentando -se da cidade para n\u00e3o despertar<br \/>\n<br \/>suspeitas no esp\u00edrito dos pol\u00edticos mais honestos.<\/p>\n<p>Entretanto, n\u00e3o pudera prever, ele pr\u00f3prio, a exten s\u00e3o da espantosa<br \/>\n<br \/>calamidade.<br \/> O inc\u00eandio tomara pro por\u00e7\u00f5es indesej\u00e1veis.<br \/> Seus conselheiros<br \/>\n<br \/>menos dignos n\u00e3o puderam pressentir a amplitude do desastre.<br \/> Arran cado, \u00e0<br \/>\n<br \/>pressa, dos seus prazeres criminosos, o imperador chegou a tempo de<br \/>\n<br \/>observar o \u00faltimo dia de fogo, verificando o car\u00e1ter da medida odiosa.<\/p>\n<p>Dirigindo-se a um dos pontos mais elev\u00e1dos, contemplou o mont\u00e3o de ru\u00ednas e<br \/>\n<br \/>sentiu a gravidade da situa\u00e7\u00e3o.<br \/> O exterm\u00ednio da propriedade particular atingira<br \/>\n<br \/>322<br \/>\n<br \/>propor\u00e7\u00f5es quase infinitas.<br \/> N\u00e3o se pudera prever t\u00e3o dolorosas conseq\u00fc\u00eancias.<\/p>\n<p>Reconhecendo a irrita\u00e7\u00e3o justa do povo, Nero pro curou falar, em p\u00fablico,<br \/>\n<br \/>esbo\u00e7ando algumas l\u00e1grimas na sua profunda capacidade de dissimula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Prometeu auxiliar a restaura\u00e7\u00e3o das casas particulares, declarou que<br \/>\n<br \/>compartilhava do sofrimento geral e que Roma.<br \/> se levan taria novamente sobre<br \/>\n<br \/>os escombros fumegantes, mais imponente e mais bela.<br \/> Imensa multid\u00e3o<br \/>\n<br \/>ouvia-lhe a palavra, atenta aos seus m\u00ednimos gestos.<br \/> O imperador na sua<br \/>\n<br \/>m\u00edmica teatral, assumia atitudes comovedoras.<br \/> Referia -se aos santu\u00e1rios<br \/>\n<br \/>perdidos, debulhado em pranto.<br \/> Invocava a prote\u00e7\u00e3o dos deuses, a cada frase<br \/>\n<br \/>de maior efeito.<br \/> A turba sensibilizara -se.<br \/> Jamais o C\u00e9sar se mostrara t\u00e3o<br \/>\n<br \/>paternalmente comovido.<br \/> N\u00e3o seri a razo\u00e1vel duvidar das suas promessas e<br \/>\n<br \/>observa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Em dado instante, a sua palavra vibrou mais pat\u00e9tica e expres siva.<\/p>\n<p>Comprometia-se, solenemente, com o povo, a punir inexoravelmente os<br \/>\n<br \/>respons\u00e1veis.<br \/> Procuraria os incendi\u00e1rios, vingaria a desgra\u00e7a roman a sem<br \/>\n<br \/>piedade.<br \/> Rogava, mesmo, a todos os habitantes da cidade cooperassem com<br \/>\n<br \/>ele, procurando e denunciando os culpados.<\/p>\n<p>Nesse \u00ednterim, quando o verbo imperial se tornara mais significativo, notou &#8211;<br \/>\n<br \/>se que a massa popular se agi tava estranhamente.<br \/> Maioria esmagadora<br \/>\n<br \/>irmanava-se, agora, num grito terr\u00edvel:<br \/>\n<br \/>\u2014Crist\u00e3os \u00e0s feras! \u00c0s feras!<br \/>\n<br \/>O filho de Agripina encontrara a solu\u00e7\u00e3o que pro curava.<br \/> Ele que procurava,<br \/>\n<br \/>em v\u00e3o, no esp\u00edrito super-excitado, as novas v\u00edtimas das suas maquina\u00e7\u00f5es<br \/>\n<br \/>execrandas, \u00e0s quais pudesse atribuir a culpa dos sucessos lament\u00e1veis, viu<br \/>\n<br \/>no brado amea\u00e7ador da turba uma resposta \u00e0s pr\u00f3prias cogita\u00e7\u00f5es sinistras.<\/p>\n<p>Nero conhecia o \u00f3dio que o vulgo votava aos seguidores humildes do<br \/>\n<br \/>Nazareno, Os disc\u00edpulos do Evangelho mantinham -se alheios e superiores aos<br \/>\n<br \/>costumes dissolutos e brutais da \u00e9poca.<br \/> N\u00e3o freq\u00fcentavam os circos,<br \/>\n<br \/>afastavam-se dos templos pag\u00e3os, n\u00e3o se prosternavam diante dos \u00eddolos nem<br \/>\n<br \/>aplaudiam as tradi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas do Imp\u00e9rio.<br \/> Al\u00e9m disso, pregavam<br \/>\n<br \/>ensinamentos estranhos e pare ciam aguardar um novo reino.<br \/> O grande histri\u00e3o<br \/>\n<br \/>do Palatino sentiu uma onda de alegria invadir -lhe os olhos m\u00edopes e<br \/>\n<br \/>congestos.<br \/> A escolha do povo romano n\u00e3o poderia ser melhor.<br \/> Os crist\u00e3os<br \/>\n<br \/>deviam ser mesmo os criminosos.<br \/> Sobre eles deveria cair o gl\u00e1dio vingad or.<\/p>\n<p>Trocou um olhar inteligente com Tigelino, como a expri mir que haviam<br \/>\n<br \/>apanhado, ao acaso, a solu\u00e7\u00e3o imprevista e logo afirmou \u00e0 massa enfurecida<br \/>\n<br \/>que tomaria provid\u00eancias imediatas para reprimir os abusos e castigar os<br \/>\n<br \/>culpados da cat\u00e1strofe; finalment e, que o inc\u00eandio seria considerado crime de<br \/>\n<br \/>lesa-majestade e sacril\u00e9gio, para que os castigos tamb\u00e9m fossem<br \/>\n<br \/>excepcionais.<\/p>\n<p>O povo aplaudia freneticamente, antegozando as sen sa\u00e7\u00f5es do circo, com<br \/>\n<br \/>esgares de feras e c\u00e2nticos de mart\u00edrio.<\/p>\n<p>A nefanda acusa\u00e7\u00e3o pesou sobre os disc\u00edpulos de Jesus, como fardo<br \/>\n<br \/>hediondo.<\/p>\n<p>As primeiras pris\u00f5es realizaram-se como flagelo maldito.<br \/> Numerosas<br \/>\n<br \/>fam\u00edlias refugiaram-se nos cemit\u00e9rios e nos arredores da cidade meio<br \/>\n<br \/>destru\u00edda, receosas dos algozes implac\u00e1veis.<br \/> Praticava -se toda a esp\u00e9cie de<br \/>\n<br \/>abusos.<br \/> Jovens indefesas eram entregues, nos c\u00e1rceres, ao instinto feroz de<br \/>\n<br \/>soldados sem entranhas.<br \/> Anci\u00e3es res peit\u00e1veis conduzidos \u00e0 enxovia, sob<br \/>\n<br \/>algemas e pancadas.<br \/> Os filhos arrancados do colo maternal, entre l\u00e1grimas e<br \/>\n<br \/>323<br \/>\n<br \/>apelos comovedores.<br \/> Tempestade sinistra ca\u00edra sobre os seguidores do<br \/>\n<br \/>Crucificado, que se submetiam a puni \u00e7\u00f5es injustas, de olhos postos no c\u00e9u.<\/p>\n<p>De nada valeram, para Nero, as pondera\u00e7\u00f5es dos patr\u00edcios ilustres, que<br \/>\n<br \/>ainda cultivavam as tradi\u00e7\u00f5es de prud\u00eancia e honestidade.<br \/> Quantos se<br \/>\n<br \/>aproximavam da autoridade imperial, com a valiosa contribui\u00e7\u00e3o de alvi tres<br \/>\n<br \/>justos, eram declarados suspeitos, agravando a situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O filho de Agripina e seus \u00e1ulicos imediatos deli beraram que se oferecesse<br \/>\n<br \/>ao povo o primeiro espet\u00e1culo no pri nc\u00edpio de agosto de 64, como positiva<br \/>\n<br \/>demonstra\u00e7\u00e3o das provid\u00eancias oficiais, contra os supostos autores do nefando<br \/>\n<br \/>atentado.<br \/> As demais v\u00edtimas, isto \u00e9, todos os prisioneiros que chegassem ao<br \/>\n<br \/>c\u00e1rcere, depois da festa inicial, serviriam de ornamento aos fu turos regozijos, \u00e0<br \/>\n<br \/>medida que a cidade pudesse recompor -se com as novas constru\u00e7\u00f5es em<br \/>\n<br \/>perspectiva.<br \/> Para isso, determinara -se a reedifica\u00e7\u00e3o imediata do Grande<br \/>\n<br \/>Circo.<br \/> Antes de atender \u00e0s pr\u00f3prias necessidades da Corte, o imperador dese &#8211;<br \/>\n<br \/>java as simpatias do povo ignorante e sofredor, alimen tando o que pudesse<br \/>\n<br \/>satisfazer seus estranhos caprichos.<\/p>\n<p>A primeira carnificina, destinada a distrair o \u00e2nimo popular, foi levada a<br \/>\n<br \/>efeito em jardins imensos, na parte que permanecera imune da destrui\u00e7\u00e3o, por<br \/>\n<br \/>entre orgias indecorosas, de que participaram a plebe e a grande fra \u00e7\u00e3o do<br \/>\n<br \/>patriciado que se entregara \u00e0 dissolu\u00e7\u00e3o e ao desregramento.<br \/> A festividade<br \/>\n<br \/>prolongou-se por noites sucessivas, sob a claridade de espl\u00eandida ilumina\u00e7\u00e3o e<br \/>\n<br \/>o ritmo harmonioso de numerosas orque stras, que inundavam o ar de melodias<br \/>\n<br \/>enternecedoras.<br \/> Nos lagos artifi ciais deslizavam barcos graciosos,<br \/>\n<br \/>artisticamente iluminados.<br \/> No seio da paisagem, favorecida pelas sombras da<br \/>\n<br \/>noite, que as tochas poderosas n\u00e3o conseguiam afastar de todo, repastava -se<br \/>\n<br \/>a devassid\u00e3o em jogo franco.<br \/> Ao Lado das express\u00f5es festivas, enfileiravam -se<br \/>\n<br \/>as do mart\u00edrio dos pobres condenados.<br \/> Os crist\u00e3os eram entregues ao povo<br \/>\n<br \/>para o castigo que ele julgasse mais justo.<br \/> Para isso, com intervalos regulares,<br \/>\n<br \/>os jardins estavam cheios de cruzes, de postes, de a\u00e7oites e numerosos<br \/>\n<br \/>instrumentos outros de flagela\u00e7\u00e3o.<br \/> Havia guardas imperiais para auxi liarem as<br \/>\n<br \/>atividades punitivas &#8211; Em fogueiras preparadas, encontravam-se \u00e1gua e azeite<br \/>\n<br \/>fervente, bem como pontas de ferro em brasa, par a os que desejassem aplic\u00e1las.<\/p>\n<p>Os gemidos e solu\u00e7os dos desgra\u00e7ados casavam -se ironicamente com as<br \/>\n<br \/>notas harmoniosas dos ala\u00fades.<br \/> Uns expiravam entre l\u00e1grimas e preces, aos<br \/>\n<br \/>apupos do povo; outros, entregavam-se estoicamente ao mart\u00edrio,<br \/>\n<br \/>contemplando o c\u00e9u alto e estrelado.<\/p>\n<p>A linguagem mais forte ser\u00e1 pobre para traduzir as dores imensas da grei<br \/>\n<br \/>crist\u00e3, naqueles dias angustiosos.<br \/> N\u00e3o obstante os tormentos inenarr\u00e1veis, os<br \/>\n<br \/>seguidores fi\u00e9is de Jesus revelaram o poder da f\u00e9 \u00e0quela so ciedade perversa e<br \/>\n<br \/>decadente, afrontando as torturas que lhes cabiam.<br \/> Interrogados nos tribunais,<br \/>\n<br \/>em momento t\u00e3o tr\u00e1gico, declaravam abertamente sua confian\u00e7a em Cristo<br \/>\n<br \/>Jesus, aceitando os sofrimentos com humildade, por amor ao seu nome.<\/p>\n<p>Aquele heroismo parecia acirrar, ainda mai s, os \u00e2nimos da multid\u00e3o<br \/>\n<br \/>animalizada.<\/p>\n<p>Inventavam-se novos g\u00eaneros de supl\u00edcio.<br \/> A perversidade apre sentava,<br \/>\n<br \/>diariamente, n\u00fameros novos em sua venenosa fac\u00fandia.<br \/> Mas os crist\u00e3os<br \/>\n<br \/>pareciam possuidos de energias diferentes das conhecidas nos campos de<br \/>\n<br \/>batalhas sanguinolentas.<br \/> A paci\u00eancia invenc\u00edvel, a f\u00e9 poderosa, a capacidade<br \/>\n<br \/>moral de resist\u00eancia, assombravam os mais afoitos.<br \/> N\u00e3o foram poucos os que<br \/>\n<br \/>324<br \/>\n<br \/>se entregaram ao sacrif\u00edcio, cantando.<br \/> Muita vez, diante de tanta coragem, os<br \/>\n<br \/>verdugos improvisados temeram o misterioso poder triunfante da morte.<\/p>\n<p>Terminada a chacina de agosto, com grande entu siasmo popular, continuou<br \/>\n<br \/>a persegui\u00e7\u00e3o sem tr\u00e9guas, para que n\u00e3o faltasse o contingente de v\u00edtimas nos<br \/>\n<br \/>espet\u00e1culos peri\u00f3dicos, oferecidos ao povo em regozijo pela recons tru\u00e7\u00e3o da<br \/>\n<br \/>cidade.<\/p>\n<p>Diante das torturas e da carnificina, o cora\u00e7\u00e3o de Paulo de Tarso sangrava<br \/>\n<br \/>de dor.<br \/> A tormenta operava confus\u00e3o em todos os setores.<br \/> Os crist\u00e3os do<br \/>\n<br \/>Oriente, em sua maioria, trabalhavam por desertar do campo da luta, for\u00e7ados<br \/>\n<br \/>por circunst\u00e2ncias imperiosas da vida par ticular.<br \/> O velho Ap\u00f3stolo, entretanto,<br \/>\n<br \/>unindo-se a Pedro, reprovava essa atitude.<br \/> \u00c0 exce\u00e7\u00e3o de Lucas, todos os<br \/>\n<br \/>cooperadores diretos, conhecidos desde a \u00c1sia, haviam regressado.<br \/> O ex &#8211;<br \/>\n<br \/>tecel\u00e3o, todavia, fazendo causa comum com os d esamparados, fez quest\u00e3o de<br \/>\n<br \/>assisti-los no transe inaudito.<br \/> As igrejas dom\u00e9sticas estavam silenciosas.<br \/> Fe &#8211;<br \/>\n<br \/>chados os grandes sal\u00f5es alugados na Suburra para as prega\u00e7\u00f5es da doutrina.<\/p>\n<p>Restava aos seguidores do Mes tre apenas um meio de se entreverem e se<br \/>\n<br \/>reconfortarem na prece e nas l\u00e1grimas comuns: era as reuni\u00f5es nas<br \/>\n<br \/>catacumbas abandonadas.<br \/> E a verdade \u00e9 que n\u00e3o poupa vam sacrif\u00edcios para<br \/>\n<br \/>acorrer a esses lugares tristes e ermos.<br \/> Era nesses cemit\u00e9rios esquecidos que<br \/>\n<br \/>encontravam o conforto fraternal, para o momento tr\u00e1gico que os visitava.<br \/> Ali<br \/>\n<br \/>oravam, comentavam as luminosas li\u00e7\u00f5es do Mestre e hauriam novas for\u00e7as<br \/>\n<br \/>para os testemunhos impendentes.<\/p>\n<p>Amparando-se em Lucas, Paulo de Tarso enfrentava o frio da noite, as<br \/>\n<br \/>sombras espessas, os caminhos \u00e1speros.<br \/> Enquant o Sim\u00e3o Pedro cogitava de<br \/>\n<br \/>atender a outros setores, o ex -rabino encaminhava-se aos antigos sepulcros,<br \/>\n<br \/>levando aos irm\u00e3os aflitos a inspira\u00e7\u00e3o do Mestre Divino, que lhe borbulhava<br \/>\n<br \/>na alma ardente.<br \/> Muitas vezes as prega\u00e7\u00f5es se realizavam alta madrugada,<br \/>\n<br \/>quando soberano sil\u00eancio dominava a Natureza.<br \/> Centenas de dis c\u00edpulos<br \/>\n<br \/>escutavam a palavra luminosa do velho Ap\u00f3stolo dos gentios, experimentando<br \/>\n<br \/>o poderoso influxo da sua f\u00e9.<br \/> Nesses recintos sagrados, o convertido de<br \/>\n<br \/>Damasco associava-se aos c\u00e2nticos que se misturavam de prantos dolorosos.<\/p>\n<p>O esp\u00edrito santificado de Jesus, nesses momentos, parecia pairar na fronte<br \/>\n<br \/>daqueles m\u00e1rtires an\u00f4nimos, infundindo-lhes esperan\u00e7as divinas.<\/p>\n<p>Dois meses haviam decorrido, ap\u00f3s a festa hedionda, e o movimento das<br \/>\n<br \/>pris\u00f5es aumentava dia a dia.<br \/> Esperavam-se grandes comemora\u00e7\u00f5es.<br \/> Alguns<br \/>\n<br \/>edif\u00edcios nobres do Palatino, reconstru\u00eddos em linhas s\u00f3brias e elegantes,<br \/>\n<br \/>reclamavam homenagens dos poderes p\u00fablicos.<br \/> As obras de reedifica\u00e7\u00e3o do<br \/>\n<br \/>Grande Circo estavam adiantad\u00edssimas.<br \/> Era impresci nd\u00edvel programar festejos<br \/>\n<br \/>condignos.<br \/> Para esse fim, os c\u00e1rceres estavam repletos.<\/p>\n<p>N\u00e3o faltariam figurantes para as cenas tr\u00e1gicas.<br \/> Projetavam -se naumaquias<br \/>\n<br \/>pitorescas, bem como ca\u00e7adas humanas no circo, em cuja arena<br \/>\n<br \/>seriam igualmente representadas pe\u00e7as famosas de sabor mitol\u00f3gico.<\/p>\n<p>Os crist\u00e3os oravam, sofriam, esperavam.<\/p>\n<p>Certa noite, Paulo dirigia aos irm\u00e3os a palavra afe tuosa, no coment\u00e1rio do<br \/>\n<br \/>Evangelho de Jesus.<br \/> Seus con ceitos pareciam, mais que nunca, divinamente<br \/>\n<br \/>inspirados.<br \/> As brisas da madrugada pe netravam a caverna mortu\u00e1ria, que se<br \/>\n<br \/>iluminava de algumas tochas bruxuleantes.<br \/> O recinto estava repleto de<br \/>\n<br \/>mulheres e crian\u00e7a , ao lado de muitos homens embu\u00e7ados.<\/p>\n<p>Depois da prega\u00e7\u00e3o comovedora, ouvida por todos, com os olhos molhados<br \/>\n<br \/>de l\u00e1grimas, o ex-tecel\u00e3o de Tarso perolava sol\u00edcito:<br \/>\n<br \/>325<br \/>\n<br \/>\u2014 Sim, irm\u00e3os, Deus \u00e9 mais belo nos dias tr\u00e1gicos.<br \/> Quando as sombras<br \/>\n<br \/>amea\u00e7am o caminho, a luz \u00e9 mais preciosa e mais pura.<br \/> Nestes dias de<br \/>\n<br \/>sofrimento e morte, quando a mentira destronou a verdade e a virtude foi<br \/>\n<br \/>substituida pelo crime, lembremos Jesus no madeiro in famante.<br \/> A cruz tem,<br \/>\n<br \/>para n\u00f3s outros, uma divina men sagem.<br \/> N\u00e3o desdenhemos o testemunho<br \/>\n<br \/>sagrado, quando o Mestre, n\u00e3o obstante im\u00e1culo, s\u00f3 alcan\u00e7ou neste mundo<br \/>\n<br \/>batalhas silenciosas e sofrimentos indefin\u00edveis.<br \/> For tale\u00e7amo-nos na id\u00e9ia de<br \/>\n<br \/>que seu reino ainda n\u00e3o \u00e9 deste mundo.<br \/> Alcemos o esp\u00edrito \u00e0 esfera do seu<br \/>\n<br \/>amor imortal.<br \/> A cidade dos crist\u00e3os n\u00e3o est\u00e1 na Terra; ela n\u00e3o poderia ser a<br \/>\n<br \/>Jerusal\u00e9m que crucificou o Enviado Divino, nem a Roma que se compr\u00e1s em<br \/>\n<br \/>derramar o sangue dos m\u00e1rtires.<br \/> Neste mundo, estamos em uma frente de<br \/>\n<br \/>combate incruento, trabalhando pelo triunfo eterno da paz do Senhor.<br \/> N\u00e3o<br \/>\n<br \/>esperemos, portanto, repousar no lugar do trabalho e dos testemunhos vivos.<\/p>\n<p>Da cidade indestrut\u00edvel da nossa f\u00e9, Jesus nos contempla e balsamiza o<br \/>\n<br \/>cora\u00e7\u00e3o.<br \/> Caminhemos ao seu encontro, atrav\u00e9s dos su pl\u00edcios e das<br \/>\n<br \/>perplexidades dolorosas.<br \/> Ele ascendeu ao Pai, do cimo do Calv\u00e1rio; n\u00f3s lhe<br \/>\n<br \/>seguiremos as pegadas, aceitando com humildade os sofrimentos que, por seu<br \/>\n<br \/>amor, nos forem reservados.<br \/>.<br \/>.<\/p>\n<p>O audit\u00f3rio parecia ext\u00e1tico, ouvindo as palavras prof\u00e9ticas do Ap\u00f3stolo.<\/p>\n<p>Entre as lajes frias e impass\u00edveis, os irm\u00e3os na f\u00e9 sentiam-se mais unidos entre<br \/>\n<br \/>si.<br \/> Em todos os olhares cintilava a certeza da vit\u00f3ria espi ritual.<br \/> Naquelas<br \/>\n<br \/>express\u00f5es de dor e de esperan\u00e7a havia o t\u00e1cito compromisso de seguir o<br \/>\n<br \/>Crucificado at\u00e9 ao seu Reino de Luz.<\/p>\n<p>O orador fizera uma pausa, sentindo -se dominado por estranhas<br \/>\n<br \/>como\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Nesse instante inesquec\u00edvel, um magote de guardas rompeu afoito no<br \/>\n<br \/>recinto.<br \/> O centuri\u00e3o Vol\u00famnio, \u00e0 testa da patrulha armada, fazia \u00edntima\u00e7\u00f5es em<br \/>\n<br \/>alta voz, enquanto os crentes pac\u00edficos estarreciam surpresos.<\/p>\n<p>\u2014Em nome de C\u00e9sar! \u2014 bradava o preposto imperial, exultando de<br \/>\n<br \/>contentamento.<br \/> E ordenando aos soldados que fechassem o c\u00edrcu lo em torno<br \/>\n<br \/>dos crist\u00e3os indefesos, continuava gritando de modo espetacular.<br \/> \u2014 E que<br \/>\n<br \/>ningu\u00e9m fuja! Quem o tentar, morre como um c\u00e3o!<br \/>\n<br \/>Apoiando-se a forte cajado, pois, nessa noite n\u00e3o tivera a companhia de<br \/>\n<br \/>Lucas, Paulo, erecto, evidenciando sua energia mora l, exclamou firmemente:<br \/>\n<br \/>\u2014E quem vos disse que fugir\u00edamos? Ignorais, por ventura, que os crist\u00e3os<br \/>\n<br \/>conhecem o Mestre a quem servem? Sois emiss\u00e1rio de um pr\u00edncipe do mundo,<br \/>\n<br \/>que estes sepulcros esperam; mas n\u00f3s somos trabalhadores do Salvador<br \/>\n<br \/>magn\u00e2nimo e imortal!.<br \/>.<br \/>.<\/p>\n<p>Vol\u00famnio fitou-o surpreso.<br \/> Quem seria aquele velho, cheio de energia e<br \/>\n<br \/>combatividade?<br \/>\n<br \/>Apesar da admira\u00e7\u00e3o que lhe inspirava, o centuri\u00e3o manifestou seu<br \/>\n<br \/>desagrado num sorriso de ironia.<br \/> Medindo o ex -rabino de alto a baixo, com<br \/>\n<br \/>olhar de profundo desprezo, acrescentou:<br \/>\n<br \/>\u2014Atentem bem no que aqui dizem e fazem.<br \/>.<br \/>.<\/p>\n<p>E depois de uma gargalhada, dirigiu -se a Paulo com insol\u00eancia:<br \/>\n<br \/>\u2014Como ousas afrontar a autoridade de Augusto? Devem existir, de fato,<br \/>\n<br \/>diferen\u00e7as singulares entre o imperador e o crucificado de J erusal\u00e9m.<br \/> N\u00e3o sei<br \/>\n<br \/>onde estaria seu poder de salva\u00e7\u00e3o para deixar suas v\u00edtimas ao abandono, no<br \/>\n<br \/>fundo dos c\u00e1rceres ou nos postes do mart\u00edrio.<br \/>.<br \/>.<\/p>\n<p>Essas palavras eram pontilhadas de mordaz ironia, mas o Ap\u00f3stolo<br \/>\n<br \/>326<br \/>\n<br \/>respondeu com a mesma nobreza de Convic\u00e7\u00e3o:<br \/>\n<br \/>\u2014Enganai-vos, centuri\u00e3o! As diferen\u00e7as s\u00e3o apre ci\u00e1veis!.<br \/>.<br \/> \u00c9 que v\u00f3s<br \/>\n<br \/>obedeceis a um infeliz e odiento perseguidor e n\u00f3s trabalhamos por um<br \/>\n<br \/>salvador que ama e perdoa.<br \/> Os administradores romanos, impensadamente,<br \/>\n<br \/>poder\u00e3o inventar crueldades; mas Jesus nunca cessa r\u00e1 de nutrir a fonte das<br \/>\n<br \/>b\u00ean\u00e7\u00e3os!.<br \/>.<\/p>\n<p>A resposta produzira grande sensa\u00e7\u00e3o no audit\u00f3rio.<br \/> Os crist\u00e3os pareciam<br \/>\n<br \/>mais calmos e confiantes, os sol dados n\u00e3o ocultavam a enorme impress\u00e3o que<br \/>\n<br \/>os dominava.<br \/> O centuri\u00e3o, embora reconhecendo o desassombro daquele<br \/>\n<br \/>esp\u00edrito varonil, n\u00e3o queria parecer fraco aos olhos dos subalternos e exclamou<br \/>\n<br \/>irritado:<br \/>\n<br \/>\u2014Vamos, Luc\u00edlio: tr\u00eas bastonadas neste velho atre vido.<\/p>\n<p>O nomeado avan\u00e7ou para o Ap\u00f3stolo, impass\u00edvel.<br \/> Ante a admira\u00e7\u00e3o<br \/>\n<br \/>silenciosa dos presentes, o bast\u00e3o zuniu no ar, bateu em cheio no rosto do<br \/>\n<br \/>Ap\u00f3stolo que, nem por isso, se alterou.<br \/> As tr\u00eas pancadas foram r\u00e1pi das; no<br \/>\n<br \/>entanto, um filete de sangue lhe escorria da face dilacerada.<\/p>\n<p>O ex-rabino, a quem haviam tomado o cajado de apoio, mantinha -se de p\u00e9<br \/>\n<br \/>com certa dificuldade, mas sem trair o bom \u00e2nimo que lhe caracterizava a alma<br \/>\n<br \/>en\u00e9rgica.<br \/> Fixou os verdugos com firmeza e sentenciou:<br \/>\n<br \/>\u2014N\u00e3o podeis ferir sen\u00e3o o corpo.<br \/> Podereis amar rar-me de p\u00e9s e m\u00e3os;<br \/>\n<br \/>quebrar-me a cabe\u00e7a, mas as minhas convic\u00e7\u00f5es s\u00e3o intang\u00edveis, inacess\u00edve is<br \/>\n<br \/>aos vossos processos de persegui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Diante de tanta serenidade, Vol\u00famnio quase recuou aterrado.<br \/> N\u00e3o podia<br \/>\n<br \/>compreender aquela energia moral que se lhe deparava aos olhos cheios de<br \/>\n<br \/>espanto.<br \/> Come\u00e7ava a acreditar que os crist\u00e3os, desprotegidos e an\u00f4 nimos,<br \/>\n<br \/>retinham um poder que a sua intelig\u00eancia n\u00e3o lograva atingir.<br \/> Impressionando &#8211;<br \/>\n<br \/>se com semelhante resist\u00eancia, organizou, \u00e0 pressa, as filas dos pobres<br \/>\n<br \/>perseguidos, que, humildes, obedeciam sem vacilar.<br \/> O velho Ap\u00f3stolo tarsense<br \/>\n<br \/>tomou lugar entre os prisioneiros sem trair o m\u00ednimo gesto de enfado ou<br \/>\n<br \/>rebeldia.<\/p>\n<p>Observando atentamente a conduta dos guardas, exclamou, quando se<br \/>\n<br \/>deslocava o bloco de v\u00edtimas e verdugos, ao primeiro contacto com o relento<br \/>\n<br \/>frio da madrugada:<br \/>\n<br \/>\u2014Exigimos o m\u00e1ximo respeito para com as mulheres e crian\u00e7as!.<br \/>.<br \/> &#8211;<br \/>\n<br \/>Ningu\u00e9m ousou responder \u00e0 observa\u00e7\u00e3o, articulada em tom grave de<br \/>\n<br \/>advert\u00eancia.<br \/> O pr\u00f3prio Vol\u00famnio parecia obedecer inconscientemente \u00e0s<br \/>\n<br \/>admoesta\u00e7\u00f5es daquele homem de f\u00e9 poderosa e invenc\u00edvel.<\/p>\n<p>O grupo marchou em sil\u00eancio, atravessa ndo as estradas desertas,<br \/>\n<br \/>chegando \u00e0 Pris\u00e3o Mamertina quando listravam o horizonte os primeiros<br \/>\n<br \/>clar\u00f5es da aurora.<\/p>\n<p>Atirados, previamente, num p\u00e1tio escuro, at\u00e9 serem alojados<br \/>\n<br \/>individualmente nas divis\u00f5es gradeadas e in fectas, os disc\u00edpulos do Senhor<br \/>\n<br \/>aproveitaram esses r\u00e1pidos momentos para conforto m\u00fatuo, para trocarem<br \/>\n<br \/>id\u00e9ias e conselhos edificantes.<\/p>\n<p>Paulo de Tarso, todavia, n\u00e3o descansou.<br \/> Solicitou audi\u00eancia ao<br \/>\n<br \/>administrador da pris\u00e3o, prerrogativa con ferida ao seu titulo de cidadania<br \/>\n<br \/>romana, sendo prestes atendido.<br \/> Exp\u00f4s sua doutrina sem rebu\u00e7os e, impres &#8211;<br \/>\n<br \/>sionando a autoridade com seu verbo fluente e sedutor, encareceu as<br \/>\n<br \/>provid\u00eancias atinentes ao seu caso, pedindo a presen\u00e7a de v\u00e1rios amigos<br \/>\n<br \/>como Ac\u00e1cio Dom\u00edcio e outros, para deporem no concernente \u00e0 sua conduta e<br \/>\n<br \/>327<br \/>\n<br \/>antecedentes honestos.<br \/> O administrador vacilava na reso lu\u00e7\u00e3o a tomar.<br \/> Tinha<br \/>\n<br \/>ordens terminantes de recolher ao c\u00e1rcere todos os componentes de<br \/>\n<br \/>assembl\u00e9ias que se filiassem \u00e0 cren\u00e7a perseguida e execrada.<br \/> No entanto, as<br \/>\n<br \/>determina\u00e7\u00f5es de ordem superior continham certas restri\u00e7\u00f5es, no sentido de<br \/>\n<br \/>preservar, de algum modo, os \u201chumiliores\u201d (1), aos quais a Corte oferecia<br \/>\n<br \/>recursos de liberdade, caso prestassem juramento a J\u00fapiter, abju rando o Cristo<br \/>\n<br \/>Jesus.<\/p>\n<p>Examinando os t\u00edtulos de Paulo e conhecen do, atrav\u00e9s de seus informes<br \/>\n<br \/>verbais, as prestigiosas rela\u00e7\u00f5es de que podia dispor nos c\u00edrculos roma nos, o<br \/>\n<br \/>chefe da Pris\u00e3o Mamertina resolveu consultar Ac\u00e1cio Dom\u00edcio, sobre as<br \/>\n<br \/>provid\u00eancias cab\u00edveis no caso.<\/p>\n<p>Chamado ao estudo da quest\u00e3o, o amigo do Ap\u00f3sto lo compareceu sol\u00edcito,<br \/>\n<br \/>procurando falar com o prisioneiro, depois de longa entrevista com o diretor da<br \/>\n<br \/>pris\u00e3o.<\/p>\n<p>Dom\u00edcio explicou ao benfeitor que a situa\u00e7\u00e3o era muito grave; que o<br \/>\n<br \/>Prefeito dos Pretorianos estava in vestido de plenos poderes para dirigir a<br \/>\n<br \/>campanha como melhor entendesse; que toda a prud\u00eancia era indispen s\u00e1vel e<br \/>\n<br \/>que, como \u00faltimo recurso, s\u00f3 restava um apelo \u00e0 magnanimidade do<br \/>\n<br \/>imperador, perante quem o Ap\u00f3stolo devia comparecer para defender -se<br \/>\n<br \/>pessoalmente, caso fosse deferida a peti\u00e7\u00e3o apr esentada a C\u00e9sar naquele<br \/>\n<br \/>mesmo dia.<\/p>\n<p>(1) Humiliores eram as pessoas de condi\u00e7\u00e3o humilde sem qualquer titulo<br \/>\n<br \/>de dignidade social.<br \/> \u2014 (Nota de Emmanuel.<br \/>)<br \/>\n<br \/>Ouvindo essas pondera\u00e7\u00f5es, o ex -rabino recordou que uma noite, em<br \/>\n<br \/>meio \u00e0 tempestade, entre a Gr\u00e9cia e a Ilha de Malta, ouvira a voz prof\u00e9tica de<br \/>\n<br \/>um mensageiro de Jesus, que lhe anunciava o comparecimento perante C\u00e9sar,<br \/>\n<br \/>sem esclarecer os motivos do evento.<br \/> N\u00e3o seria aquele o momento previsto?<br \/>\n<br \/>Milhares de irm\u00e3os estavam presos ou em extrema desola\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Acusados de incendi\u00e1rios, n\u00e3o haviam encontrado uma voz firme e<br \/>\n<br \/>resoluta que lhes advogasse a causa com o preciso desas sombro.<br \/> Percebia<br \/>\n<br \/>em Ac\u00e1cio a preocupa\u00e7\u00e3o pela sua liberdade; mas, por tr\u00e1s das insinua\u00e7\u00f5es<br \/>\n<br \/>delicadas, havia um convite discreto para que ocult asse a sua f\u00e9 perante o<br \/>\n<br \/>imperador, na hip\u00f3tese de ser admitido \u00e0 real entre vista.<\/p>\n<p>Compreendia os receios do amigo, mas, \u00edntimamente, desejava alcan\u00e7ar<br \/>\n<br \/>a audi\u00eancia de Nero, a fim de esclarec\u00ea -lo quanto aos sublimes princ\u00edpios do<br \/>\n<br \/>Cristianismo.<br \/> Constituir-se-ia advogado dos irm\u00e3os perseguidos e desditosos.<\/p>\n<p>Afrontaria de face a tirania ovante, clama ria pela retifica\u00e7\u00e3o do seu ato injusto.<\/p>\n<p>Se fosse novamente preso, voltaria ao c\u00e1rcere com a consci\u00eancia edifi cada no<br \/>\n<br \/>cumprimento de um sagrado dever.<\/p>\n<p>Depois de r\u00e1pida medita\u00e7\u00e3o sobre a conveni\u00eancia do recurso que lhe<br \/>\n<br \/>parecia providencial, insistiu com Dom\u00edcio para que o patrocinasse com os<br \/>\n<br \/>empenhos ao seu alcance.<\/p>\n<p>O amigo do Ap\u00f3stolo multiplicou atividades pessoais para alcan\u00e7ar os fins<br \/>\n<br \/>em vista.<\/p>\n<p>Valendo-se do prest\u00edgio de todos os que viviam em condi\u00e7\u00f5es de<br \/>\n<br \/>subalternidade junto do imperador, conseguiu a desejada audi\u00eancia para que<br \/>\n<br \/>Paulo de Tarso se defendesse, como convinha, no apelo direto \u00e0 autoridade de<br \/>\n<br \/>Augusto.<\/p>\n<p>328<br \/>\n<br \/>No dia aprazado, foi conduzido entre guardas, \u00e0 presen\u00e7a de Nero, que o<br \/>\n<br \/>recebeu curioso num vasto sal\u00e3o onde costumava reunir os favoritos ociosos<br \/>\n<br \/>da sua Corte criminosa e exc\u00eantrica.<br \/> Interessava -lhe a personalidade do exrabino.<\/p>\n<p>Queria conhecer o homem que mobilizara grande n\u00famero de seus<br \/>\n<br \/>\u00edntimos para apoiar-lhe o recurso.<br \/> A presen\u00e7a do Ap\u00f3stolo dos gentios causou &#8211;<br \/>\n<br \/>lhe enorme decep\u00e7\u00e3o.<br \/> Que valor poderia ter aquele velho insignifi cante e<br \/>\n<br \/>franzino? Ao lado de Tigelino e de outros conselheiros perversos, fixou<br \/>\n<br \/>ironicamente a figura de Paulo.<br \/> Era incr\u00edv el tamanho interesse em torno de<br \/>\n<br \/>uma criatura t\u00e3o vulgar.<br \/> Quando se dispunha a recambi\u00e1 -lo \u00e0 pris\u00e3o sem lhe<br \/>\n<br \/>ouvir o apelo, um dos \u00e1ulicos lembrou que seria conveniente facultar -lhe a<br \/>\n<br \/>palavra, para que se lhe aferisse a indig\u00eancia mental.<br \/> Nero, que jamais perdia<br \/>\n<br \/>ocasi\u00e3o de ostentar suas presun\u00e7\u00f5es art\u00edsticas, considerou o alvitre bem<br \/>\n<br \/>apresentado e ordenou ao prisioneiro que falasse \u00e0 vontade.<\/p>\n<p>Ladeado por dois guardas, o inspirado pregador do Evangelho levantou a<br \/>\n<br \/>fronte cheia de nobreza, fitou C\u00e9sar e os companheiros do seu s\u00e9quito leviano<br \/>\n<br \/>e come\u00e7ou, resoluto:<br \/>\n<br \/>\u2014 Imperador dos romanos, compreendo a grandeza desta hora em que<br \/>\n<br \/>vos falo, apelando para os vossos sentimentos de generosidade e justi\u00e7a.<br \/> N\u00e3o<br \/>\n<br \/>me dirijo, aqui, a um homem fal\u00edvel, a uma personalidade h umana,<br \/>\n<br \/>simplesmente, mas ao administrador que deve ser consciencioso e justo, ao<br \/>\n<br \/>maior dos pr\u00edncipes do mundo e que, antes de tomar o cetro e a coroa de um<br \/>\n<br \/>Imp\u00e9rio imenso, deve considerar -se o pai magn\u00e2nimo de milh\u00f5es de criaturas!.<\/p>\n<p>As palavras do velho Ap\u00f3stolo ecoavam no recinto com o car\u00e1ter de uma<br \/>\n<br \/>profunda revela\u00e7\u00e3o.<br \/> O imperador fixava -o, admirado e enternecido.<br \/> Seu<br \/>\n<br \/>temperamento caprichoso era sens\u00edvel \u00e0s refer\u00eancias pessoais, onde pre &#8211;<br \/>\n<br \/>dominassem as imagens brilhantes.<br \/> Percebendo que se impunha ao redu zido<br \/>\n<br \/>audit\u00f3rio, o convertido de Damasco prosseguiu mais corajoso:<br \/>\n<br \/>\u2014Confiando em vossa longanimidade, pleiteei esta hora inesquec\u00edvel, a<br \/>\n<br \/>fim de apelar para o vosso cora\u00e7\u00e3o, n\u00e3o somente por mim, mas por milhares<br \/>\n<br \/>de homens, mulheres e crian\u00e7as, que padecem nos c\u00e1rceres ou sucumbem<br \/>\n<br \/>nos circos do mart\u00edrio.<br \/> Falo, aqui, em nome dessa multid\u00e3o incont\u00e1vel de<br \/>\n<br \/>sofredores, perseguida com requintes de crueldade por favoritos de vossa<br \/>\n<br \/>Corte, que deveria ser constitu\u00edda de homens \u00edntegros e humanit\u00e1 rios.<\/p>\n<p>Acaso n\u00e3o chegar\u00e3o aos vossos ouvidos os lamentos angustiosos da<br \/>\n<br \/>viuvez, da velhice e da orfandade? Oh! Augusto imperante do trono de Cl\u00e1udio,<br \/>\n<br \/>sabei que uma onda de perversidade e de crimes odiosos varre os bairros da<br \/>\n<br \/>cidade imperial, arrancando solu\u00e7os dolorosos aos vossos tutelados<br \/>\n<br \/>miserandos! Ao lado da vossa atividade governamental, por certo, rastejam<br \/>\n<br \/>v\u00edboras venenosas que \u00e9 necess\u00e1rio extirpar, a bem da tranq\u00fcilidade e do<br \/>\n<br \/>trabalho honesto do vosso povo.<br \/> Esses cooperadores per versos desviam<br \/>\n<br \/>vossos esfor\u00e7os do caminho reto, espalham terror entre as classes<br \/>\n<br \/>desfavorecidas da sorte, amea\u00e7am os mais infelizes! S\u00e3o eles os acusadores<br \/>\n<br \/>dos pros\u00e9litos de uma doutrina de amor e reden\u00e7\u00e3o.<br \/> N\u00e3o acrediteis no embuste<br \/>\n<br \/>dos seus conselhos que ressumam crueldade.<br \/> Ningu\u00e9m trabalho u, talvez,<br \/>\n<br \/>quanto os crist\u00e3os, no socorro \u00e0s v\u00edtimas do inc\u00eandio voraginoso.<br \/> Enquanto os<br \/>\n<br \/>patr\u00edcios ilustres fugiam de Roma desolada, enquanto os mais timidos se<br \/>\n<br \/>recolhiam aos lugares mais abrigados de perigo, os disc\u00edpulos de Jesus<br \/>\n<br \/>percorriam os quarteir\u00f5es em chamas, aliviando as v\u00edtimas infor tunadas.<\/p>\n<p>Alguns imolaram a vida ao altru\u00edsmo dignifi cador.<\/p>\n<p>E por fim, vede, os trabalhadores sinceros do Cristo foram recompensados<br \/>\n<br \/>329<br \/>\n<br \/>com a pecha de autores do crime hediondo, de caluniadores sem entranhas.<\/p>\n<p>Acaso n\u00e3o vos doeu a consci\u00eancia ao endossardes t\u00e3o infames alega\u00e7\u00f5es, \u00e0<br \/>\n<br \/>revelia de uma sindic\u00e2ncia imparcial e rigorosa? No esfervilhar das cal\u00fanias,<br \/>\n<br \/>n\u00e3o vi surgir uma voz que vos esclarecesse.<br \/> Admito que participais, certa &#8211;<br \/>\n<br \/>mente, de t\u00e3o tr\u00e1gicas ilus\u00f5es, porque n \u00e3o creio no desvirtuamento da vossa<br \/>\n<br \/>autoridade reservada \u00e0s melhores resolu\u00e7\u00f5es em favor do Imp\u00e9rio.<br \/> \u00cb por isso<br \/>\n<br \/>\u2014 6 imperador dos romanos! \u2014 que, reconhecendo o grandioso poder<br \/>\n<br \/>enfeixado em vossas m\u00e3os, ouso levantar minha voz para esclarecer -vos.<\/p>\n<p>Atentai para a extens\u00e3o gloriosa de vossos deveres.<br \/> N\u00e3o vos entregueis \u00e0<br \/>\n<br \/>sanha de pol\u00edticos inconscientes e cru\u00e9is.<br \/> Lembrai -vos de que, numa vida mais<br \/>\n<br \/>elevada que esta, ser-vos-\u00e3o pedidas contas de vossa conduta nos atos<br \/>\n<br \/>p\u00fablicos.<br \/> N\u00e3o alimenteis a pretens\u00e3o de que vosso cetro seja eterno.<br \/> Sois<br \/>\n<br \/>mandat\u00e1rio de um Senhor poderoso, que reside nos C\u00e9us.<br \/> Para vos<br \/>\n<br \/>convencerdes da singularidade de semelhante situa\u00e7\u00e3o, volvei um olhar,<br \/>\n<br \/>apenas, ao passado brumoso.<br \/> Onde os vossos antecessores? Em vossos<br \/>\n<br \/>pal\u00e1cios faustosos perambularam guerreiros triunfantes, reis improvisados,<br \/>\n<br \/>herdeiros vaidosos de suas tradi\u00e7\u00f5es.<br \/> Onde est\u00e3o eles? A Hist\u00f3ria nos conta<br \/>\n<br \/>que chegaram ao trono com os aplau sos delirantes das multid\u00f5es.<br \/> Vinham<br \/>\n<br \/>soberbos, ostentando magnific\u00eancias nos carros do t riunfo, decretando a morte<br \/>\n<br \/>dos inimigos, adornando-se com os despojos sangrentos das v\u00edtimas.<\/p>\n<p>Entretanto, bastou um sopro para que resvalassem do esplendor do trono para<br \/>\n<br \/>a escurid\u00e3o do sepulcro.<br \/> Uns partiram pelas conseq\u00fc\u00eancias fatais dos pr\u00f3prios<br \/>\n<br \/>excessos destruidores; outros assassinados pelos filhos da revolta e do<br \/>\n<br \/>desespero.<br \/> Recordando semelhante situa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o desejo transformar o culto<br \/>\n<br \/>da vida em culto da morte, mas demonstrar que a fortuna suprema do homem<br \/>\n<br \/>\u00e9 a paz da consci\u00eancia pelo dever cumprido.<\/p>\n<p>Por todas essas raz\u00f5es, apelo para a vossa magnanimi dade, n\u00e3o s\u00f3 por<br \/>\n<br \/>mim como por todos os correligion\u00e1rios que gemem \u00e0 sombra dos c\u00e1rceres,<br \/>\n<br \/>esperando o gl\u00e1dio da morte.<\/p>\n<p>Observando-se longa pausa no verbo eloq\u00fcente do orador, podia ver -se a<br \/>\n<br \/>estranha sensa\u00e7\u00e3o que a sua palavra havia causado.<br \/> Nero estava l\u00edvido.<\/p>\n<p>Tigelino, profundamente irritado, procurava um recurso para insi nuar-se com<br \/>\n<br \/>alguma observa\u00e7\u00e3o menos digna, a respeito do postulante.<br \/> As raras cortes\u00e3s<br \/>\n<br \/>presentes n\u00e3o disfar\u00e7avam a indiz\u00edvel como\u00e7\u00e3o que lhes abalara o sistema<br \/>\n<br \/>nervoso.<br \/> Os amigos do Prefeito dos Pretorianos mostra vam-se indignados,<br \/>\n<br \/>rubros de c\u00f3lera.<br \/> Depois de ouvir um \u00e1ulico, o imperador ordenou que o<br \/>\n<br \/>apelante se conservasse em sil\u00eancio, at\u00e9 que tomasse as primeiras deli &#8211;<br \/>\n<br \/>bera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Estavam todos surpreendidos.<br \/> N\u00e3o se podia esperar de um velho franzino<br \/>\n<br \/>e doente tamanho poder de per suas\u00e3o, um desassombro que raiava pela<br \/>\n<br \/>loucura, segundo as no\u00e7\u00f5es do patriciado.<br \/> Por muito menos, velhos e pro bos<br \/>\n<br \/>conselheiros da Corte haviam alcan\u00e7ado o ex\u00edlio ou a senten\u00e7a de morte.<\/p>\n<p>O filho de Agripina parecia abalado.<br \/> N\u00e3o mais assentava no olho a<br \/>\n<br \/>impertinente esmeralda, \u00e0 guisa de mon\u00f3culo.<br \/> Tinha a impress\u00e3o de haver<br \/>\n<br \/>escutado sinistros vatic\u00ednios.<\/p>\n<p>Entregava-se, automaticamente, aos seus ges tos caracter\u00edsticos, quando<br \/>\n<br \/>impressionado e nervoso.<br \/> As advert\u00eancias do Ap\u00f3stolo penetravam -lhe o<br \/>\n<br \/>cora\u00e7\u00e3o, suas palavras pareciam ecoar -lhe nos ouvidos para sempre.<br \/> Tigelino<br \/>\n<br \/>percebeu a delicadeza da situa\u00e7\u00e3o e aproximou-se.<\/p>\n<p>\u2014Divino \u2014 exclamou o Prefeito dos Pretoria nos em atitude servil, a voz<br \/>\n<br \/>330<br \/>\n<br \/>quase impercept\u00edvel \u2014, se quiserdes, o atrevido poder\u00e1 morrer aqui mesmo,<br \/>\n<br \/>ainda hoje!<br \/>\n<br \/>\u2014N\u00e3o, n\u00e3o \u2014 redarg\u00fciu Nero comovido \u2014, este homem \u00e9 dos mais<br \/>\n<br \/>perigosos que tenho encontrado.<br \/> Ningu\u00e9m, como ele, ousou comentar a<br \/>\n<br \/>presente situa\u00e7\u00e3o nestes termos.<\/p>\n<p>Vejo, por detr\u00e1s da sua palavra, muitos vultos talvez eminentes, que,<br \/>\n<br \/>conjugando valores, poderiam fazer-me grande mal.<\/p>\n<p>\u2014Concordo \u2014 disse o outro hesitante, em voz muito baixa.<\/p>\n<p>\u2014Assim, pois \u2014 continuou o imperador pruden temente \u2014, \u00e9 preciso<br \/>\n<br \/>parecer magn\u00e2nimo e sagaz.<br \/> Dar -lhe-ei o perd\u00e3o, por agora, recomendando<br \/>\n<br \/>que n\u00e3o se afaste da cidade, at\u00e9 que se esclare\u00e7a de todo a situa\u00e7\u00e3o dos<br \/>\n<br \/>seguidores do Cristianismo.<br \/>.<\/p>\n<p>Tigelino escutava com um sorriso ansioso, enquanto o filho de Agripina<br \/>\n<br \/>rematava em voz sumida:<br \/>\n<br \/>\u2014Mas vigiar\u00e1s seus menores passos, mant\u00ea -lo-\u00e1s em cust\u00f3dia oculta, e<br \/>\n<br \/>quando vier a festividade da re constru\u00e7\u00e3o do Grande Circo, aproveitaremos a<br \/>\n<br \/>oportunidade para despach\u00e1-lo a lugar distante, onde dever\u00e1 desaparecer para<br \/>\n<br \/>sempre.<\/p>\n<p>O odioso Prefeito sorriu e acentuou:<br \/>\n<br \/>\u2014Ningu\u00e9m resolveria melhor o intrincado pro blema.<\/p>\n<p>Terminada a breve conversa\u00e7\u00e3o, impercept\u00edvel aos demais, Nero declarou,<br \/>\n<br \/>com enorme surpresa dos palacia nos, conceder ao apelante a liberdade que<br \/>\n<br \/>pleiteava em sua primeira defesa, mas reservava o ato de absolvi\u00e7\u00e3o para<br \/>\n<br \/>quando se apurasse definitivamente a responsabi lidade dos crist\u00e3os.<br \/> Dessarte,<br \/>\n<br \/>o defensor do Cristianismo poderia permanecer em Roma, \u00e0 vontade,<br \/>\n<br \/>submetendo-se, contudo, ao compromisso de n\u00e3o se ausentar da sede do<br \/>\n<br \/>Imp\u00e9rio, at\u00e9 que seu caso pessoal fosse bastantemente esclarecido, O Prefeito<br \/>\n<br \/>dos Pretorianos lavrou a senten\u00e7a em pergaminho.<br \/> Paulo de Tarso, por sua<br \/>\n<br \/>vez, estava confortado e radiante.<\/p>\n<p>O caviloso monarca pareceu-lhe menos mau, digno de amizad e e<br \/>\n<br \/>reconhecimento.<br \/> Sentia-se possu\u00eddo de grande alegria, por isso que os<br \/>\n<br \/>resultados da sua primeira defesa eram de molde a pro porcionar nova<br \/>\n<br \/>esperan\u00e7a aos seus irm\u00e3os na f\u00e9.<\/p>\n<p>Paulo retornou ao c\u00e1rcere, ficando o administrador notificado das \u00faltimas<br \/>\n<br \/>disposi\u00e7\u00f5es a seu respeito.<br \/> S\u00f3 ent\u00e3o lhe deram liberdade.<\/p>\n<p>Assaz esperan\u00e7ado, procurou os amigos; mas, por toda parte, s\u00f3<br \/>\n<br \/>encontrava desoladoras not\u00edcias.<br \/> A maio ria dos colaboradores mais \u00edntimos e<br \/>\n<br \/>prestimosos haviam desaparecido, presos ou mortos.<br \/> Muitos haviam debandado,<br \/>\n<br \/>temerosos do extremo sacrif\u00edcio.<br \/> Por fim, sempre teve a satisfa\u00e7\u00e3o de<br \/>\n<br \/>reencontrar Lucas.<br \/> O piedoso m\u00e9dico informou -o dos acontecimentos<br \/>\n<br \/>dolorosos e tr\u00e1gicos que se repetiam, diariamente.<br \/> Ignorando que um guarda o<br \/>\n<br \/>seguia de longe, para lhe situar a nova resid\u00eancia, Paulo, acompanhado do<br \/>\n<br \/>amigo, atingiu uma casa pobre nas proximidades da Porta Capena.<\/p>\n<p>Necessitando repousar e fortalecer o corpo debilitado, o velho pregador pro &#8211;<br \/>\n<br \/>curou dois generosos irm\u00e3os, que o receberam com imensa alegria.<br \/> Trata -se<br \/>\n<br \/>de Lino e Cl\u00e1udia, dedicados servido res de Jesus.<\/p>\n<p>O Ap\u00f3stolo dos gentios instalou -se no lar pobre, com a obriga\u00e7\u00e3o de<br \/>\n<br \/>comparecer \u00e0 Pris\u00e3o Mamertina, de tr\u00eas em tr\u00eas dias, at\u00e9 que se aclarasse a<br \/>\n<br \/>situa\u00e7\u00e3o, de modo definitivo.<\/p>\n<p>N\u00e3o obstante o consolo de que se sentia possu\u00eddo, o vener\u00e1vel amigo do<br \/>\n<br \/>331<br \/>\n<br \/>gentilismo experimentava singulares press\u00e1gios.<br \/> Surpreendia-se a refletir no<br \/>\n<br \/>coroamento da carreira apost\u00f3lica como se nada mais lhe restasse sen\u00e3o<br \/>\n<br \/>morrer por Jesus.<br \/> Combatia tais pensamentos, no prop\u00f3sito de cont inuar<br \/>\n<br \/>propugnando pela difus\u00e3o dos ensinamentos evang\u00e9licos.<br \/> N\u00e3o mais p\u00f4de<br \/>\n<br \/>encaminhar-se \u00e0 prega\u00e7\u00e3o das catacumbas, dada a prostra\u00e7\u00e3o f\u00edsica, mas,<br \/>\n<br \/>valia-se da colabora\u00e7\u00e3o afetuosa e dedicada de Lucas para as ep\u00edstolas que<br \/>\n<br \/>julgava necess\u00e1rias.<br \/> Nessas, inclu i-se a derradeira carta que escreveu a<br \/>\n<br \/>Tim\u00f3teo, aproveitando dois amigos que partiam para a \u00c1sia.<br \/> Paulo escreve<br \/>\n<br \/>esse \u00faltimo documento ao disc\u00edpulo muito amado, tomando -se de singulares<br \/>\n<br \/>emo\u00e7\u00f5es que lhe enchem os olhos de l\u00e1grimas abundantes.<br \/> Sua alma<br \/>\n<br \/>generosa deseja confiar ao filho de Eunice as \u00faltimas disposi\u00e7\u00f5es, mas luta<br \/>\n<br \/>consigo mesmo, de modo a n\u00e3o se dar por vencido.<\/p>\n<p>O ex-rabino, ao tra\u00e7ar conceitos afetuosos, sente -se qual<br \/>\n<br \/>disc\u00edpulo chamado a esferas mais altas, sem poder fur tar-se \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de<br \/>\n<br \/>homem que n\u00e3o deseja capitular na luta.<br \/> Ao mesmo tempo que confia a<br \/>\n<br \/>Tim\u00f3teo a convic\u00e7\u00e3o de haver terminado a carreira, pede -lhe que envie a<br \/>\n<br \/>ampla capa de couro deixada em Tr\u00f4ade, em casa de Carpo, visto necessitar<br \/>\n<br \/>de agasalho para o corpo abatido.<br \/> Enquanto lhe envia as \u00faltimas impress\u00f5es<br \/>\n<br \/>cheias de prud\u00eancia e carinho, roga os seus bons of\u00edcios para que Jo\u00e3o<br \/>\n<br \/>Marcos venha \u00e0 sede do Imp\u00e9rio, a fim de auxili\u00e1 -lo no servi\u00e7o apost\u00f3lico.<\/p>\n<p>Quando a m\u00e3o tr\u00eamula e rugosa escreve melancolicamente:<br \/>\n<br \/>\u2014 \u201cS\u00f3 Lucas est\u00e1 comigo\u201d (1), o convertido de Damasco interrompe -se<br \/>\n<br \/>para chorar sobre os pergaminhos.<br \/> Nesse instante, por\u00e9m, sente afagar -lhe a<br \/>\n<br \/>fronte um como flabelo de asas que adejassem de leve.<br \/> Brando conforto lhe<br \/>\n<br \/>invade o cora\u00e7\u00e3o amoroso e intr\u00e9pido.<br \/> Nesse po nto da carta, recobra novo<br \/>\n<br \/>\u00e2nimo e volta a demonstrar decis\u00e3o de luta, terminando com as<br \/>\n<br \/>recomenda\u00e7\u00f5es atinentes \u00e0s necessidades da vida material e aos seus labores<br \/>\n<br \/>evang\u00e9licos.<\/p>\n<p>Paulo de Tarso, entretanto, entrega a missiva a Lucas para expedi -la, sem<br \/>\n<br \/>conseguir disfar\u00e7ar os seus l\u00fagubres pressentimentos.<br \/> Em v\u00e3o, o carinhoso<br \/>\n<br \/>m\u00e9dico e devotado amigo procura desfazer aquelas apreens\u00f5es.<br \/> Debalde Lino<br \/>\n<br \/>e Cl\u00e1udia tentam distrai-lo.<\/p>\n<p>Embora n\u00e3o abandonasse os trabalhos condizentes com a nova situa\u00e7\u00e3o,<br \/>\n<br \/>o velho Ap\u00f3stolo mergulhou-se em profundas medita\u00e7\u00f5es, das quais apenas se<br \/>\n<br \/>forrava para atender \u00e0s necessidades triviais.<\/p>\n<p>Efetivamente, decorridas algumas semanas ap\u00f3s a carta a Tim\u00f3teo, um<br \/>\n<br \/>grupo armado visitou a resid\u00eancia<br \/>\n<br \/>(1) 2\u00aa Ep\u00edstola a Tim\u00f3teo.<br \/> Cap\u00edtulo 4\u00ba, vers\u00ed culo 11.<br \/> \u2014 (Nota de<br \/>\n<br \/>Emmanuel)<br \/>\n<br \/>de Lino, depois de meia-noite, na v\u00e9spera das grandes festividades com que a<br \/>\n<br \/>administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica desejava assinalar a reconstru\u00e7\u00e3o do Grande Circo, O<br \/>\n<br \/>dono da casa, a esposa e Paulo de Tarso foram presos, escapando Lucas pe lo<br \/>\n<br \/>fato de pernoitar em outra parte.<br \/> As tr\u00eas v\u00edtimas foram conduzidas a um<br \/>\n<br \/>c\u00e1rcere do monte Esquilino, dando provas de poderosa f\u00e9 em face do mart\u00edrio<br \/>\n<br \/>que come\u00e7ava.<\/p>\n<p>O Ap\u00f3stolo foi atirado a uma cela escura e incomu nic\u00e1vel, Os pr\u00f3prios<br \/>\n<br \/>soldados se intimidavam da sua coragem.<br \/> Ao despedir -se de Lino e sua<br \/>\n<br \/>mulher, enquanto esta se desfazia em l\u00e1grimas, o valoroso pregador abra\u00e7ava &#8211;<br \/>\n<br \/>332<br \/>\n<br \/>os dizendo:<br \/>\n<br \/>\u2014 Tenhamos coragem.<br \/> Esta deve ser a \u00faltima vez em que nos saudamos<br \/>\n<br \/>com os olhos materiais; mas havemos de avistar-nos no reino do Cristo.<br \/> O<br \/>\n<br \/>poder tir\u00e2nico de C\u00e9sar n\u00e3o atinge sen\u00e3o o corpo miser\u00e1vel.<br \/>.<br \/>.<\/p>\n<p>Em virtude de ordem expressa de Tigelino, o pri sioneiro ficou insulado de<br \/>\n<br \/>todos os companheiros.<\/p>\n<p>Na escurid\u00e3o do c\u00e1rcere, que mais se assemelhava a uma cova \u00famida, deu<br \/>\n<br \/>um balan\u00e7o retrospectivo em todas as atividades de sua vida, entregando -se a<br \/>\n<br \/>Jesus, inteiramente confiado na sua divina miseric\u00f3rdia.<br \/> Desejou sinceramente<br \/>\n<br \/>permanecer junto dos irm\u00e3os que, por certo, se destinavam aos espet\u00e1culos<br \/>\n<br \/>nefandos do dia imediato, esperando com eles comungar a h\u00f3stia dos<br \/>\n<br \/>mart\u00edrios, quando chegasse a hora extrema.<\/p>\n<p>N\u00e3o p\u00f4de dormir, a considerar as horas transcor ridas desde o momento da<br \/>\n<br \/>pris\u00e3o, e concluiu que o dia do sacrif\u00edcio estaria iminente.<br \/> Nem uma r\u00e9stia de<br \/>\n<br \/>Luz penetrava o cub\u00edculo infecto e acanhado.<br \/> Percebia, somente, vagos<br \/>\n<br \/>rumores long\u00ednquos, que Lhe davam id\u00e9ia da aglomera\u00e7\u00e3o popular nas vias<br \/>\n<br \/>p\u00fablicas.<br \/> As horas passaram em expectativas que pareciam intermin\u00e1veis.<br \/> De &#8211;<br \/>\n<br \/>pois de angustioso cansa\u00e7o, conseguiu algumas horas de sono .<br \/> Acordou, mais<br \/>\n<br \/>tarde, j\u00e1 incapacitado de calcular as horas decorridas.<br \/> Tinha sede e fome, mas<br \/>\n<br \/>orou com fervor, sentindo que flu\u00edam brandas consola\u00e7\u00f5es para sua alma, das<br \/>\n<br \/>fontes da provid\u00eancia invis\u00edvel.<br \/> No fundo, es tava preocupado com a situa\u00e7\u00e3o<br \/>\n<br \/>dos companheiros.<br \/> Um guarda o informara de que enorme contingente de cris &#8211;<br \/>\n<br \/>t\u00e3os seria levado ao circo e ele sofria por n\u00e3o ter sido chamado a perecer com<br \/>\n<br \/>os irm\u00e3os, na arena do mart\u00edrio, por amor a Jesus.<br \/> Mergulhado nessas<br \/>\n<br \/>reflex\u00f5es, n\u00e3o tardou a sentir que algu\u00e9m abria, cautelosamente, a porta da<br \/>\n<br \/>enxovia.<br \/> Conduzido ao exterior, o ex -rabino defrontou seis homens armados<br \/>\n<br \/>que o aguardavam junto de um ve\u00edculo de regulares propor\u00e7\u00f5es.<br \/> Ao longe, no<br \/>\n<br \/>horizonte pontilhado de estrelas, delineavam-se os tons maravilhosos da<br \/>\n<br \/>madrugada pr\u00f3xima.<\/p>\n<p>O Ap\u00f3stolo, silencioso, obedeceu \u00e0 escolta.<br \/> Ataram -lhe as m\u00e3os calejadas,<br \/>\n<br \/>brutalmente, com grosseiras cor das.<br \/> Um vigilante noturno, visivelmente<br \/>\n<br \/>embriagado, aproximou-Se e escarrou-lhe na face.<br \/> O ex-rabino recordou os<br \/>\n<br \/>sofrimentos de Jesus e recebeu o insulto sem revelar o m\u00ednimo gesto de amor &#8211;<br \/>\n<br \/>pr\u00f3prio ofendido.<\/p>\n<p>Mais uma ordem, tomou lugar no ve\u00edculo, junto dos seis homens armados<br \/>\n<br \/>que o observavam, admirados de tanta serenidade e coragem.<\/p>\n<p>Os cavalos trotaram l\u00e9pidos como se quisessem ate nuar a friagem \u00famida<br \/>\n<br \/>da manh\u00e3.<\/p>\n<p>Chegados aos cemit\u00e9rios que se enfileiravam ao longo da Via Apia, as<br \/>\n<br \/>sombras noturnas se desfaziam quase completamente, auspiciando um dia de<br \/>\n<br \/>sol radioso.<\/p>\n<p>O militar que chefiava a escolta mandou parar o carro e, fazendo desce r o<br \/>\n<br \/>prisioneiro, disse-lhe hesitante:<br \/>\n<br \/>\u2014O Prefeito dos Pretorianos, por senten\u00e7a de C\u00e9sar, ordenou que fosseis<br \/>\n<br \/>sacrificado no dia imediato ao da morte dos crist\u00e3os votados \u00e0s comemora\u00e7\u00f5es<br \/>\n<br \/>do circo, realizadas ontem.<br \/> Deveis saber, portanto, que estais viven do os<br \/>\n<br \/>\u00faltimos minutos.<\/p>\n<p>Calmo, olhos brilhantes e m\u00e3os amarradas, Paulo de Tarso, mudo at\u00e9<br \/>\n<br \/>ent\u00e3o, exclamou, surpreendendo os verdugos com a sua majestosa<br \/>\n<br \/>serenidade:<br \/>\n<br \/>333<br \/>\n<br \/>\u2014 Ciente da tarefa criminosa que vos incumbe de sempenhar .<br \/>.<br \/> Os<br \/>\n<br \/>disc\u00edpulos de Jesus n\u00e3o temem os algozes que s\u00f3 lhes podem aniquilar o<br \/>\n<br \/>corpo.<br \/> N\u00e3o julgueis que vossa espada possa eliminar -me a vida, de vez que,<br \/>\n<br \/>vivendo estes fugazes minutos em corpo carnal, isso significa que vou<br \/>\n<br \/>penetrar, sem mais demora, nos tabern\u00e1culos da vida eterna, com o meu<br \/>\n<br \/>Senhor Jesus-Cristo, o mesmo que vos tomar\u00e1 contas, tanto quanto a Nero e<br \/>\n<br \/>Tigelino .<br \/>.<br \/>.<br \/>.<\/p>\n<p>A patrulha sinistra estarrecia de assombro.<br \/> Aquela energia moral, no<br \/>\n<br \/>momento supremo, era de molde a abalar os mais fortes.<br \/> Percebendo a<br \/>\n<br \/>surpresa geral e cioso do seu mandato, o chefe da escolta tomou a iniciativa do<br \/>\n<br \/>sacrif\u00edcio.<br \/> Os demais companheiros pareciam desorientados, nervosos,<br \/>\n<br \/>tr\u00eamulos.<br \/> O inflex\u00edvel preposto de Tigelino, por\u00e9m, ordenou ao prisioneiro que<br \/>\n<br \/>desse vinte passos \u00e0 frente.<br \/> Paulo de Tarso caminhou s erena-mente, embora,<br \/>\n<br \/>no \u00edntimo, se recomendasse a Jesus, compreendendo a necessidade de<br \/>\n<br \/>amparo espiritual para o testemunho supremo.<\/p>\n<p>Ao chegar no local indicado, o sequaz de Tigelino desembainhou a espada,<br \/>\n<br \/>mas, nesse instante, tremeu-lhe a m\u00e3o, fixando a v\u00edtima, e falou-lhe em tom<br \/>\n<br \/>quase impercept\u00edvel:<br \/>\n<br \/>\u2014Lastimo ter sido designado para este feito e \u00edntimamente n\u00e3o posso<br \/>\n<br \/>deixar de lamentar-vos.<br \/>.<br \/>.<\/p>\n<p>Paulo de Tarso, erguendo a fronte quanto lhe era poss\u00edvel, respondeu sem<br \/>\n<br \/>hesitar:<br \/>\n<br \/>\u2014N\u00e3o sou digno de l\u00e1stima.<br \/> Tende antes compaix\u00e3o de v\u00f3s mesmo,<br \/>\n<br \/>porq\u00fcanto morro cumprindo deveres sagrados, em fun\u00e7\u00e3o de vida eterna;<br \/>\n<br \/>enquanto que v\u00f3s ainda n\u00e3o podeis fugir \u00e0s obriga\u00e7\u00f5es grosseiras da vida<br \/>\n<br \/>transit\u00f3ria.<br \/> Chorai por v\u00f3s, sim, porque eu partirei buscando o Senhor da Paz e<br \/>\n<br \/>da Verdade, que d\u00e1 vida ao mundo; ao passo que v\u00f3s, terminada vossa tarefa<br \/>\n<br \/>de sangue, tereis de voltar \u00e0 hedionda conviv\u00eancia dos man dantes de crimes<br \/>\n<br \/>tenebrosos da vossa \u00e9poca!.<br \/>.<br \/>.<\/p>\n<p>O algoz continuava a fit\u00e1-lo com assombro e Paulo, notando a tremura com<br \/>\n<br \/>que ele empunhava a espada, concitou resoluto:<br \/>\n<br \/>\u2014N\u00e3o tremais!.<br \/>.<br \/>.<br \/> Cumpri vosso dever at\u00e9 ao fim! Um golpe violento fendeu &#8211;<br \/>\n<br \/>lhe a garganta, seccionando quase inteiramente a velha cabe\u00e7a que se nevara<br \/>\n<br \/>aos sofrimentos do mundo.<\/p>\n<p>Paulo de Tarso caiu redondamente , sem articular uma palavra.<br \/> O corpo<br \/>\n<br \/>alquebrado embolou-se no solo, como um despojo horrendo e in\u00fatil.<br \/> O sangue<br \/>\n<br \/>jorrava em golf\u00f5es nas \u00faltimas contra\u00e7\u00f5es da agonia r\u00e1pida, enquanto a<br \/>\n<br \/>expedi\u00e7\u00e3o regressava penosamente, muda, dentro da luz matinal e triunfant e.<\/p>\n<p>O valoroso disc\u00edpulo do Evangelho sentia a ang\u00fastia das derradeiras<br \/>\n<br \/>repercuss\u00f5es f\u00edsicas; mas, aos poucos, experimentava uma sensa\u00e7\u00e3o branda<br \/>\n<br \/>de al\u00edvio reparador.<br \/> M\u00e3os carinhosas e solicitas pareciam toc\u00e1 -lo de leve, como<br \/>\n<br \/>se arrancassem, t\u00e3o-s\u00f3 nesse contacto divino, as terr\u00edveis impress\u00f5es dos<br \/>\n<br \/>seus amargurosos padecimentos.<br \/> Tomado de surpresa, verificou que o<br \/>\n<br \/>transportavam a local distante e pensou que amigos generosos desejavam<br \/>\n<br \/>assisti-lo, em lugar mais conveniente, para que lhe n\u00e3o faltasse a doce<br \/>\n<br \/>consola\u00e7\u00e3o da morte tranq\u00fcila.<\/p>\n<p>Depois de alguns minutos as dores haviam desaparecido por completo.<\/p>\n<p>Guardando a impress\u00e3o de permanecer \u00e0 sombra de alguma \u00e1rvore frondosa e<br \/>\n<br \/>amiga, experimentava a car\u00edcia das brisas matinais que passavam em lufadas<br \/>\n<br \/>frescas.<br \/> Tentou levantar-se, abrir os olhos, identificar a paisagem.<br \/> Imposs\u00edvel!<br \/>\n<br \/>334<br \/>\n<br \/>Sentia-se fraco, qual convalescente de mol\u00e9stia prolongada e grav\u00edssima.<\/p>\n<p>Reuniu as energias mentais, como lhe foi possivel, e orou, suplicando a Jesus<br \/>\n<br \/>permitisse o esclarecimento de sua alma, naquela nova situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Sobretudo, a falta de vis\u00e3o deixava -o submerso em angustiosa expectativa.<\/p>\n<p>Recordou os dias de Damasco, quando a cegueira lhe invadira os olhos de<br \/>\n<br \/>pecador, ofuscados pela luz gloriosa do Mestre.<br \/> Lem brou o carinho fraternal de<br \/>\n<br \/>Ananias e chorou ao influxo daquelas singulares reminisc\u00eancias.<br \/> Depois de<br \/>\n<br \/>grande esfor\u00e7o, conseguiu levantar -se e refletiu que o homem precisava servir<br \/>\n<br \/>a Deus, ainda que tateasse em densas trevas.<\/p>\n<p>Foi ai que ouviu passos de algu\u00e9m que se aproxi mava de leve.<br \/> Ocorreu-lhe<br \/>\n<br \/>subitamente o dia inesquec\u00edvel em que fora visitado pelo emiss\u00e1rio do Cristo,<br \/>\n<br \/>na pens\u00e3o de Judas.<\/p>\n<p>\u2014Quem sois? \u2014 perguntou como o fizera outrora, naquele lance<br \/>\n<br \/>inolvid\u00e1vel.<\/p>\n<p>\u2014Irm\u00e3o Paulo.<br \/>.<br \/>.<br \/> \u2014 come\u00e7ou a dizer o rec\u00e9m-chegado.<\/p>\n<p>Mas o Ap\u00f3stolo dos gentios, identificando aquela voz bem-amada,<br \/>\n<br \/>interrompeu-lhe a palavra, bradando com j\u00fabilo inexprim\u00edvel:<br \/>\n<br \/>\u2014Ananias!.<br \/>.<br \/>.<br \/> Ananias!.<br \/>.<br \/>.<\/p>\n<p>E caiu de joelhos, em pranto convulsivo.<\/p>\n<p>\u2014Sim, sou eu \u2014 disse a veneranda entidade pou sando a m\u00e3o luminosa<br \/>\n<br \/>na sua fronte \u2014; um dia Jesus mandou que te restituisse a vis\u00e3o, para que<br \/>\n<br \/>pudesses conhecer o caminho \u00e1spero dos seus disc\u00edpulos e hoje, Paulo,<br \/>\n<br \/>concedeu-me a dita de abrir-te os olhos para a contempla\u00e7\u00e3o da vida eterna.<\/p>\n<p>Levanta-te! J\u00e1 venceste os \u00faltimos inimigos, alca n\u00e7aste a coroa da vida,<br \/>\n<br \/>atingiste novos planos da Reden\u00e7\u00e3o!.<br \/>.<br \/>.<\/p>\n<p>O Ap\u00f3stolo levantou-se afogado em l\u00e1grimas de jubilosa gratid\u00e3o,<br \/>\n<br \/>enquanto Ananias, pousando a destra nos seus olhos apagados, exclamou<br \/>\n<br \/>com carinho:<br \/>\n<br \/>\u2014 V\u00ea, novamente, em nome de Jesus!.<br \/>.<br \/>.<br \/> Desde a revela\u00e7\u00e3o de Damasco,<br \/>\n<br \/>dedicaste os olhos ao servi\u00e7o do Cristo! Contempla, agora, as belezas da vida<br \/>\n<br \/>eterna, para que possamos partir ao encontro do Mestre amado!.<br \/>.<br \/>.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, o devotado trabalhador do Evangelho re conheceu as maravilhas<br \/>\n<br \/>que Deus reserva aos seus cooperadores no mundo cheio de sombras.<\/p>\n<p>Tomado de espanto, identificou a paisagem que o rodeava.<br \/> N\u00e3o longe estavam<br \/>\n<br \/>as catacumbas da Via Apia.<br \/> Misteriosas for\u00e7as o haviam afastado do quadro<br \/>\n<br \/>triste em que se decompunham os despojos sangrentos.<br \/> Sentiu -se jovem e<br \/>\n<br \/>feliz.<br \/> Compreendia, agora, a grandeza do corpo espi ritual no ambiente estranho<br \/>\n<br \/>aos organismos da Terra.<br \/> Suas m\u00e3os estavam sem rugas, a epiderme sem<br \/>\n<br \/>cicatrizes.<br \/> Tinha a impress\u00e3o de haver sorvido um misterioso elixir de<br \/>\n<br \/>juventude.<br \/> Uma t\u00fanica de alvura resplandecente envolvia -o em graciosas<br \/>\n<br \/>ondula\u00e7\u00f5es.<br \/> Mal despertava do seu deslumbramento, quando algu\u00e9m lhe bateu<br \/>\n<br \/>levemente no ombro: Era Gamaliel que lhe trazia um \u00f3sculo fraternal.<br \/> Paulo de<br \/>\n<br \/>Tarso sentiu-se o mais ditoso dos seres.<br \/> Abra\u00e7ando -se ao velho mestre e a<br \/>\n<br \/>Ananias, num s\u00f3 gesto de ternura, exclamava entre l\u00e1grimas:<br \/>\n<br \/>\u2014 S\u00f3 Jesus me poderia conceder alegria igual.<\/p>\n<p>Mal n\u00e3o acabara de o dizer, come\u00e7aram a chegar velhos companheiros de<br \/>\n<br \/>lutas terrenas, amigos de outros tempos, irm\u00e3os de svelados que lhe vinham<br \/>\n<br \/>trazer as boas-vindas, ao transpor os umbrais da eternidade.<br \/> Os<br \/>\n<br \/>deslumbramentos do Ap\u00f3stolo sucediam-se ininterruptos.<br \/> Como se ficassem<br \/>\n<br \/>em Roma, \u00e0 sua espera, todos os m\u00e1r tires das festividades da v\u00e9spera<br \/>\n<br \/>335<br \/>\n<br \/>chegaram cantando, nas proximidades das catacumbas.<br \/> Todos queriam abra &#8211;<br \/>\n<br \/>\u00e7ar o generoso disc\u00edpulo, oscular -lhe as m\u00e3os.<br \/> Nesse \u00ednterim, dando a<br \/>\n<br \/>impress\u00e3o de nascer em maravilhosas fontes do mais al\u00e9m, ouviu -se uma<br \/>\n<br \/>cariciosa melodia acompanhada de vozes argentinas, que deviam ser ang\u00e9 &#8211;<br \/>\n<br \/>licas.<br \/> Surpreendido com a beleza da composi\u00e7\u00e3o, intra duz\u00edvel na linguagem<br \/>\n<br \/>humana, Paulo ouvia o venerando amigo de Damasco, que explicava sol\u00edcito:<br \/>\n<br \/>&#8211; Este \u00e9 o hino dos prisioneiros libertados!.<br \/>.<br \/>.<\/p>\n<p>Observando-lhe a intensa como\u00e7\u00e3o, Ananias pergun tou qual o seu primeiro<br \/>\n<br \/>desejo na esfera dos redimidos.<br \/> Paulo de Tarso, \u00edntimamente, recordou Abigail<br \/>\n<br \/>e os anelos sagrados do cora\u00e7\u00e3o, como aconteceria a qualquer ser humano;<br \/>\n<br \/>mas, integrado no minist\u00e9rio divino, que manda esquecer os caprichos mais<br \/>\n<br \/>singelos, e sem trair a gratid\u00e3o \u00e0 miseric\u00f3rdia do Cristo, respondeu<br \/>\n<br \/>comovidamente:<br \/>\n<br \/>\u2014 Meu primeiro desejo seria rever Jerusal\u00e9m, onde pratiquei tantos males<br \/>\n<br \/>e, ali, orar a Jesus, para ofertar -lhe o meu agradecimento.<\/p>\n<p>T\u00e3o depressa o disse e a luminosa assembl\u00e9ia se punha em movimento.<\/p>\n<p>Assombrado com o poder da voli ta\u00e7\u00e3o, Paulo observava que as dist\u00e2ncias<br \/>\n<br \/>nada representavam agora para as suas possibilidades espirituais.<\/p>\n<p>De mais alto continuavam fluindo harmonias de sublimada beleza.<br \/> Eram<br \/>\n<br \/>hinos que exaltavam a ventura dos trabalhadores triunfantes, e a miseric\u00f3rdia<br \/>\n<br \/>das b\u00ean\u00e7\u00e3os do Todo-Poderoso.<\/p>\n<p>Paulo desejava imprimir \u00e0 divina excurs\u00e3o o sabor de suas reminisc\u00eancias.<\/p>\n<p>Para esse fim, o grupo seguiu ao longo da Via Apia at\u00e9 Ar\u00edcia, de onde se<br \/>\n<br \/>desviou em dire\u00e7\u00e3o a Pouzzoles, em cuja igreja se deteve em preces, por<br \/>\n<br \/>alguns minutos de ventura inigual\u00e1vel.<br \/> Da\u00ed a caravana espiritual demandou a<br \/>\n<br \/>Ilha de Malta.<br \/> transportando-se em seguida para o Peloponeso, onde Paulo se<br \/>\n<br \/>extasiou na contempla\u00e7\u00e3o de Corinto, dando curso a re corda\u00e7\u00f5es carinhosas e<br \/>\n<br \/>doces.<br \/> Inflamados de entusiasmo fraternal, os componentes da caravana<br \/>\n<br \/>acompanhavam o valoroso disc\u00edpulo no caminho das sagradas lembran\u00e7as que<br \/>\n<br \/>lhe vibravam no cora\u00e7\u00e3o.<br \/> Atenas, Tessal\u00f4nica, Fili pes, Ne\u00e1polis, Tr\u00f4ade e<br \/>\n<br \/>\u00c9feso foram pontos nos quais o Ap\u00f3stolo estacionara, demoradamente, orando<br \/>\n<br \/>com l\u00e1grimas de gratid\u00e3o ao Alt\u00edssimo.<\/p>\n<p>Atravessadas as zonas da Panfilia e da Cil\u00edcia, entraram na Palestina,<br \/>\n<br \/>tomados de j\u00fabilo e sagrado respeito.<br \/> Em todos os caminhos in corporavam-se<br \/>\n<br \/>emiss\u00e1rios e trabalhadores do Cristo.<br \/> Paulo n\u00e3o conseguia avaliar a alegria da<br \/>\n<br \/>chegada a Jerusal\u00e9m, sob o prodigioso azul do crep\u00fasculo.<\/p>\n<p>Obedecendo ao alvitre de Ananias, reuniram-se no cimo do Calv\u00e1rio e ali<br \/>\n<br \/>cantaram hinos de esperan\u00e7as e de luz.<\/p>\n<p>Lembrando os erros do passado amarguroso, Paulo de Tarso ajoelhou -se e<br \/>\n<br \/>elevou a Jesus fervorosa s\u00faplica.<br \/> Os companheiros remidos recolheram -se em<br \/>\n<br \/>\u00eaxtase, enquanto ele, transfigurado, em pranto, procurava exprimir a<br \/>\n<br \/>mensagem de gratid\u00e3o ao Divino Mestre.<\/p>\n<p>Desenhou-se ent\u00e3o, na tela do Infinito, um quadro de beleza singular.<\/p>\n<p>Como se houvesse rasgado a imensur\u00e1vel umbela azul, surgiu na amplid\u00e3o do<br \/>\n<br \/>espa\u00e7o uma senda luminosa e tr\u00eas vultos que se aproximavam radiantes.<br \/> O<br \/>\n<br \/>Mestre estava no centro, conservando Estev\u00e3o \u00e0 direita e Abi gail ao lado do<br \/>\n<br \/>cora\u00e7\u00e3o.<br \/> Deslumbrado, arrebatado, o Ap\u00f3stolo apenas p\u00f4de estender os<br \/>\n<br \/>bra\u00e7os, porque a voz lhe fugia no auge da como\u00e7\u00e3o.<br \/> L\u00e1grimas abundantes<br \/>\n<br \/>perolavam-lhe o rosto tamb\u00e9m transfigurado.<br \/> Abigail e Estev\u00e3o adiantaram -se.<\/p>\n<p>Ela tomou-lhe delicadamente as m\u00e3os num assomo de ternura, enquanto<br \/>\n<br \/>336<br \/>\n<br \/>Estev\u00e3o o abra\u00e7ava com efus\u00e3o.<\/p>\n<p>Paulo quis lan\u00e7ar-se nos bra\u00e7os dos dois irm\u00e3os de Corinto, beijar -lhes as<br \/>\n<br \/>m\u00e3os no seu arroubo de ventura, mas, qual a crian\u00e7a d\u00f3cil que tudo devesse<br \/>\n<br \/>ao Mestre dedicado e bom, proc urou o olhar de Jesus, para sen tir-lhe a<br \/>\n<br \/>aprova\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>OMestre sorriu, indulgente e carinhoso, e falou:<br \/>\n<br \/>\u2014Sim, Paulo, s\u00ea feliz! Vem, agora, a meus bra\u00e7os, pois \u00e9 da vontade de<br \/>\n<br \/>meu Pai que os verdugos e os m\u00e1r tires se re\u00fanam, para sempre, no meu<br \/>\n<br \/>reino!.<br \/>.<br \/>.<\/p>\n<p>E assim unidos, ditosos, os fi\u00e9is trabalhadores do Evangelho da reden\u00e7\u00e3o<br \/>\n<br \/>seguiram as pegadas do Cristo, em demanda \u00e0s esferas da Verdade e da<br \/>\n<br \/>Luz.<br \/>.<br \/>.<\/p>\n<p>L\u00e1 em baixo, Jerusal\u00e9m contemplava, embevecida, o dil\u00faculo vespertino,<br \/>\n<br \/>esperando o luar que n\u00e3o tardaria com os primeiros clar\u00f5es.<br \/>.<br \/>.<\/p>\n<p>NOTA DA EDITORA: A esta s\u00e9rie de romances hist\u00f3ricos, pertencem \u201cH\u00e1<br \/>\n<br \/>Dois Mil Anos\u201d, \u201c50 Anos Depois\u201d e \u201cAve, Cristo!\u201d, todos do mesmo<br \/>\n<br \/>Autor.<\/p>\n<p>Fim<\/p>\n<div class=\"pvc_clear\"><\/div>\n<p id=\"pvc_stats_18964\" class=\"pvc_stats all  \" data-element-id=\"18964\" style=\"\"><i class=\"pvc-stats-icon medium\" aria-hidden=\"true\"><svg aria-hidden=\"true\" focusable=\"false\" data-prefix=\"far\" data-icon=\"chart-bar\" role=\"img\" xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" viewBox=\"0 0 512 512\" class=\"svg-inline--fa fa-chart-bar fa-w-16 fa-2x\"><path fill=\"currentColor\" d=\"M396.8 352h22.4c6.4 0 12.8-6.4 12.8-12.8V108.8c0-6.4-6.4-12.8-12.8-12.8h-22.4c-6.4 0-12.8 6.4-12.8 12.8v230.4c0 6.4 6.4 12.8 12.8 12.8zm-192 0h22.4c6.4 0 12.8-6.4 12.8-12.8V140.8c0-6.4-6.4-12.8-12.8-12.8h-22.4c-6.4 0-12.8 6.4-12.8 12.8v198.4c0 6.4 6.4 12.8 12.8 12.8zm96 0h22.4c6.4 0 12.8-6.4 12.8-12.8V204.8c0-6.4-6.4-12.8-12.8-12.8h-22.4c-6.4 0-12.8 6.4-12.8 12.8v134.4c0 6.4 6.4 12.8 12.8 12.8zM496 400H48V80c0-8.84-7.16-16-16-16H16C7.16 64 0 71.16 0 80v336c0 17.67 14.33 32 32 32h464c8.84 0 16-7.16 16-16v-16c0-8.84-7.16-16-16-16zm-387.2-48h22.4c6.4 0 12.8-6.4 12.8-12.8v-70.4c0-6.4-6.4-12.8-12.8-12.8h-22.4c-6.4 0-12.8 6.4-12.8 12.8v70.4c0 6.4 6.4 12.8 12.8 12.8z\" class=\"\"><\/path><\/svg><\/i> <img decoding=\"async\" width=\"16\" height=\"16\" alt=\"Loading\" data-src=\"https:\/\/www.centronocaminhodaluz.com.br\/wp-content\/plugins\/page-views-count\/ajax-loader-2x.gif\" border=0 src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" class=\"lazyload\" style=\"--smush-placeholder-width: 16px; --smush-placeholder-aspect-ratio: 16\/16;\" \/><\/p>\n<div class=\"pvc_clear\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c0s v\u00e9speras da partida em busca da gentilidade es panhola, eis que o Ap\u00f3stolo recebe uma carta comovente de Sim\u00e3o Pedro. O ex -pescador de Cafarnaum escrevia-lhe de Corinto, avisando sua pr\u00f3xima chegada \u00e0 cidade imperial. A missiva era afetuos a e enternecedora, cheia de confid\u00eancias amargas e tristes. Pedro confiava ao amigo suas derradeiras&hellip; <br \/> <a class=\"read-more\" href=\"https:\/\/www.centronocaminhodaluz.com.br\/index.php\/artigo18964\/\">Leia mais<\/a><\/p>\n<div class=\"pvc_clear\"><\/div>\n<p id=\"pvc_stats_18964\" class=\"pvc_stats all  \" data-element-id=\"18964\" style=\"\"><i class=\"pvc-stats-icon medium\" aria-hidden=\"true\"><svg aria-hidden=\"true\" focusable=\"false\" data-prefix=\"far\" data-icon=\"chart-bar\" role=\"img\" xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" viewBox=\"0 0 512 512\" class=\"svg-inline--fa fa-chart-bar fa-w-16 fa-2x\"><path fill=\"currentColor\" d=\"M396.8 352h22.4c6.4 0 12.8-6.4 12.8-12.8V108.8c0-6.4-6.4-12.8-12.8-12.8h-22.4c-6.4 0-12.8 6.4-12.8 12.8v230.4c0 6.4 6.4 12.8 12.8 12.8zm-192 0h22.4c6.4 0 12.8-6.4 12.8-12.8V140.8c0-6.4-6.4-12.8-12.8-12.8h-22.4c-6.4 0-12.8 6.4-12.8 12.8v198.4c0 6.4 6.4 12.8 12.8 12.8zm96 0h22.4c6.4 0 12.8-6.4 12.8-12.8V204.8c0-6.4-6.4-12.8-12.8-12.8h-22.4c-6.4 0-12.8 6.4-12.8 12.8v134.4c0 6.4 6.4 12.8 12.8 12.8zM496 400H48V80c0-8.84-7.16-16-16-16H16C7.16 64 0 71.16 0 80v336c0 17.67 14.33 32 32 32h464c8.84 0 16-7.16 16-16v-16c0-8.84-7.16-16-16-16zm-387.2-48h22.4c6.4 0 12.8-6.4 12.8-12.8v-70.4c0-6.4-6.4-12.8-12.8-12.8h-22.4c-6.4 0-12.8 6.4-12.8 12.8v70.4c0 6.4 6.4 12.8 12.8 12.8z\" class=\"\"><\/path><\/svg><\/i> <img decoding=\"async\" width=\"16\" height=\"16\" alt=\"Loading\" data-src=\"https:\/\/www.centronocaminhodaluz.com.br\/wp-content\/plugins\/page-views-count\/ajax-loader-2x.gif\" border=0 src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" class=\"lazyload\" style=\"--smush-placeholder-width: 16px; --smush-placeholder-aspect-ratio: 16\/16;\" \/><\/p>\n<div class=\"pvc_clear\"><\/div>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"Closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[16],"tags":[],"class_list":["post-18964","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-mensagens-diversas"],"a3_pvc":{"activated":true,"total_views":652,"today_views":0},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.centronocaminhodaluz.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18964","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.centronocaminhodaluz.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.centronocaminhodaluz.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.centronocaminhodaluz.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.centronocaminhodaluz.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18964"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.centronocaminhodaluz.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18964\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.centronocaminhodaluz.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18964"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.centronocaminhodaluz.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18964"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.centronocaminhodaluz.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18964"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}