{"id":19352,"date":"2023-03-31T08:12:00","date_gmt":"2023-03-31T08:12:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2023-03-31T08:12:00","modified_gmt":"2023-03-31T08:12:00","slug":"artigo19352","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.centronocaminhodaluz.com.br\/index.php\/artigo19352\/","title":{"rendered":"35 A CRISE &#8211; DI\u00c1LOGO COM AS SOMBRAS HERM\u00cdNIO C. MIRANDA"},"content":{"rendered":"<p>O\tdoutrinador precisa estar atento aos primeiros sinais de que o Esp\u00edrito manifestante come\u00e7a a ceder, para que ele pr\u00f3prio \u2014doutrinador \u2014 possa reformular a sua t\u00e1tica.<br \/> Esp\u00edritos muito agressivos e violentos manifestam-se, de in\u00edcio, irritadissimos, em altos brados, dando murros na mesa, proferindo amea\u00e7as terr\u00edveis.<br \/> N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, nessa condi\u00e7\u00e3o, argumentar com eles.<br \/> \u00c9 preciso esperar que o vagalh\u00e3o impetuoso do rancor se desfa\u00e7a, por si mesmo, na praia mansa.<br \/> Se opomos resist\u00eancia, a explos\u00e3o \u00e9 inevit\u00e1vel e o dano pode ser irrepar\u00e1vel.<br \/> \u00c9 preciso ter paci\u00eancia e esperar.<br \/> N\u00e3o ficar mudo ante a sua c\u00f3lera, mas n\u00e3o opor grito contra grito, murro contra murro.<br \/> A c\u00f3lera passa, pois \u00e9 muito dif\u00edcil sustent\u00e1-la indefinidamente contra quem n\u00e3o nos oferece resist\u00eancia.<br \/> Por este motivo, s\u00e3o t\u00e3o importantes os primeiros di\u00e1logos de cada manifesta\u00e7\u00e3o.<br \/> Mesmo irritado, esbravejando, amea\u00e7ador, o Esp\u00edrito deve ser recebido com respeito e carinho.<br \/> Se a conversa for bem orientada, ele nos respeitar\u00e1 e, aos poucos, ir\u00e1 compreendendo que n\u00e3o precisa gritar seus argumentos.<br \/> Nesses casos, costumo dizer, aos queridos companheiros desatinados, que s\u00f3 grita aquele que n\u00e3o tem raz\u00e3o.<\/p>\n<p>O\tfato, por\u00e9m, de reduzir o volume de seu vozerio, n\u00e3o significa que j\u00e1 esteja resolvido o seu problema; ao contr\u00e1rio, \u00e9 a partir desse ponto que come\u00e7a a fluir o di\u00e1logo que poder\u00e1 levar-nos a um entendimento com ele e ao seu eventual despertamento.<br \/> Antes disso, a argumenta\u00e7\u00e3o \u00e9 in\u00fatil, porque ele s\u00f3 deseja gritar, e, se o tentarmos, falaremos juntos, ou ele n\u00e3o nos ouvir\u00e1, pensando apenas no que nos dir\u00e1 a seguir.<br \/> Mas, pelo menos, com a voz no tom normal, abre-se uma perspectiva de entendimento, mesmo que ele esteja bem longe de entregar-se \u00e0 verdade.<br \/> Encontra-se ainda convicto da justeza de sua posi\u00e7\u00e3o, e a batalha verbal poder\u00e1 ser muito longa; contudo, j\u00e1 \u00e9 poss\u00edvel uma conversa entre dois seres civilizados.<\/p>\n<p>De certo ponto em diante, por\u00e9m, a sensibilidade do doutrinador o advertir\u00e1 de que o manifestante come\u00e7a a ceder: sua c\u00f3lera esvaziou-se, sua palavra n\u00e3o tem mais aquele fator de convic\u00e7\u00e3o, seu Esp\u00edrito parece cansado e disposto a uma acomoda\u00e7\u00e3o.<br \/> N\u00e3o que ele o reconhe\u00e7a nesses termos, pois insistir\u00e1 e poder\u00e1 ter ainda surtos de rea\u00e7\u00e3o, lutando interiormente consigo mesmo, temendo ser \u201cdobrado\u201d pelo doutrinador \u2014 o que \u00e9, para ele, uma humilha\u00e7\u00e3o \u2014 mas, ao mesmo tempo, desejando-o intimamente, ou inconscientemente.<\/p>\n<p>Aos primeiros sinais de que a rea\u00e7\u00e3o salutar come\u00e7ou, o doutrinador deve abandonar sua t\u00e9cnica de contesta\u00e7\u00e3o e argumenta\u00e7\u00e3o, para entrar na fase de doutrina\u00e7\u00e3o propriamente dita.<br \/> \u00c9 hora de falar-lhe com carinhosa franqueza, tentando mostrar-lhe a inutilidade de seu desesperado esfor\u00e7o de lutar contra Deus e, portanto, contra seus pr\u00f3prios interesses pessoais.<br \/> \u00c9 hora de fazer um apelo para que ele se detenha um pouco, para pensar; adverti-lo de que n\u00e3o precisa \u201cconverter-se\u201d \u00e0 nossa cren\u00e7a, aos nossos princ\u00edpios.<br \/> N\u00e3o iludi-lo com a paz imediata, que ele sabe muito bem ser imposs\u00edvel: a luta continua \u00e0 sua espera, intensa e dolorosa como nunca, s\u00f3 que, uma vez despertado para a realidade, ele poder\u00e1 iniciar o per\u00edodo do sofrimento redentor e n\u00e3o daquele que ainda mais o mergulha nas profundezas do erro.<br \/> O momento \u00e9 oportuno, tamb\u00e9m, para dirigir o seu pensamento para a sabedoria eterna do Evangelho.<br \/> N\u00e3o que s\u00f3 agora seja poss\u00edvel falar-lhe do Cristo: \u00e9que s\u00f3 agora os ensinamentos de Jesus come\u00e7am a ter, para ele, um sentido novo, aceit\u00e1vel.<br \/> Mais do que nunca, ele deve estar certo da nossa absoluta sinceridade e do nosso afeto desinteressado.<br \/> Ele precisa saber que n\u00e3o estamos pelejando naquele momento, por uma causa ou pelos interesses de um obsidiado, mas por ele pr\u00f3prio, obsessor.<\/p>\n<p>Argumentava eu, certa vez, com um desses companheiros desarvorados, que perseguia sem tr\u00e9guas uma pobre criatura, quando ele me perguntou, irritado:<br \/>\n<br \/>\u2014\tVoc\u00ea \u00e9 advogado dela?<br \/>\n<br \/>\u2014\tN\u00e3o \u2014 disse eu \u2014, sou advogado seu!<br \/>\n<br \/>Sabem que esta simples frase o levou a ver-me sob nova luz e a aceitar-me? Da\u00ed por diante, come\u00e7ou a ceder.<\/p>\n<p>Percebemos que a fase da aceita\u00e7\u00e3o chega por pequeninos e quase impercept\u00edveis sinais: come\u00e7am a ouvir-nos com um pouco mais de aten\u00e7\u00e3o, a voz desce de tom, aceitam um ou outro argumento nosso, e chegam at\u00e9 a uma ou outra palavra de velada e timida afei\u00e7\u00e3o ou respeito.<\/p>\n<p>Um di\u00e1logo um tanto dif\u00edcil, com o brilhante e combativo Esp\u00edrito de um ex-inquisidor, foi suspenso, certa vez, a meu pedido, a fim de que eu pudesse fazer uma prece.<br \/> Como sempre, ele a ouviu em sil\u00eancio, pois a prece tem esse cond\u00e3o de fazer calar a imensa maioria dos Esp\u00edritos desajustados, mesmo os mais violentos.<br \/> Terminada a rogativa ao Alto, ele disse, como se pensasse em voz alta:<br \/>\n<br \/>      &#8211; Uma coisa \u00e9 preciso reconhecer: voc\u00ea ora com sinceridade.<br \/>.<br \/>.<br \/> A partir desse ponto, estar\u00e3o mais acess\u00edveis, mas a batalha pode durar ainda muito tempo, alongar-se por outras oportunidades de manifesta\u00e7\u00e3o e, mesmo assim, n\u00e3o sabemos, muitas vezes, se, ao partirem, eles est\u00e3o realmente convencidos e prontos a mudar de rumo, ou se apenas levam uma disposi\u00e7\u00e3o para reexaminar suas convic\u00e7\u00f5es.<br \/> De qualquer maneira, por\u00e9m, levar\u00e3o no cora\u00e7\u00e3o as sementes de um futuro, que pode ser pr\u00f3ximo ou remoto, mas que vir\u00e3o fatalmente a germinar, um dia, em explos\u00f5es de luz.<\/p>\n<p>      Ao cabo dessa fase de maior receptividade aos pensamentos e \u00e0 afei\u00e7\u00e3o do doutrinador, pode ocorrer, ent\u00e3o, a crise.<br \/> \u00cb o momento mais dram\u00e1tico da manifesta\u00e7\u00e3o: o Esp\u00edrito come\u00e7a a sentir que n\u00e3o ter\u00e1 for\u00e7as para resistir aos apelos da Verdade.<br \/> Est\u00e1, ainda, sobre o fio da navalha, como diz a express\u00e3o inglesa.<br \/> Sente fugir o terreno em que pisa.<br \/> De um lado, a perder-se nas trevas do passado, um terr\u00edvel e doloroso acervo de loucuras e desenganos lastim\u00e1veis, ilus\u00f5es desastrosas e erros clamorosos.<br \/> Do outro, a inc\u00f3gnita do porvir.<br \/> Ele se debate entre os dois abismos: o passado e o futuro.<br \/> Ambos o chamam, ambos o atraem.<br \/> Que decis\u00e3o tomar? Permanecer na faixa do erro que, de certa forma, o abriga da terr\u00edvel realidade, ou lan\u00e7ar-se, de uma vez, aos bra\u00e7os da dor que redime? \u00c9 preciso respeitar sua hesita\u00e7\u00e3o e assisti-lo no seu estado de p\u00e2nico.<br \/> Entre um mundo que rui e outro que ainda n\u00e3o constru\u00edmos, a sensa\u00e7\u00e3o de atordoamento \u00e9 inevit\u00e1vel, mesmo nos mais valorosos Esp\u00edritos.<br \/> Temos que entender, tamb\u00e9m, que quase todos eles est\u00e3o absolutamente convencidos de sua pr\u00f3pria verdade.<br \/> Ou estavam, at\u00e9 o momento.<br \/> O fato de permanecerem envolvidos em erros de julgamento aflitivos, n\u00e3o lhes tira o valor, n\u00e3o lhes reduz o conhecimento, n\u00e3o exclui o fato de que s\u00e3o Esp\u00edritos, \u00e0s vezes altamente qualificados e experientes; apenas \u2014 e isso \u00e9 tudo \u2014 operam desastrosamente, do lado negativo da faixa vibrat\u00f3ria da vida.<br \/> N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil, para aquele que est\u00e1 convicto da legitimidade de seus caminhos, pular por cima da linha invis\u00edvel que separa o bem do mal.<br \/> Afinal, o livre-arb\u00edtrio assegura-nos, a todos, o direito de escolha.<br \/> A decis\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil, mesmo.<br \/> Tenhamos paci\u00eancia e procuremos ajud\u00e1-lo a tom\u00e1-la sem precipita\u00e7\u00e3o, mas com firmeza.<\/p>\n<p>Certa vez, recebemos um companheiro excepcionalmente violento e agressivo.<br \/> Acostumara-se ao poder incontestado, a mandar, a punir, a intimidar, tanto na carne, quanto no espa\u00e7o.<br \/> Amea\u00e7ava, gritava, dava murros.<br \/>.<br \/>.<br \/> Deixei-o falar, interpondo apenas uma ou outra observa\u00e7\u00e3o, a fim de que o \u00edmpeto do vagalh\u00e3o se quebrasse contra a branca areia da paci\u00eancia e do amor.<br \/> Claro que interpreta a minha calma como covardia.<br \/> Desesperan\u00e7ado de arrastar-me para o debate est\u00e9ril, no campo puramente filos\u00f3fico, promete, afinal, pensar no assunto, pois acabou tocado pelo sentimento de afei\u00e7\u00e3o que encontrou entre n\u00f3s.<br \/> Estava amea\u00e7ando ceder, mas era ainda muito cedo para uma decis\u00e3o final, como vimos nas pr\u00f3ximas sess\u00f5es.<\/p>\n<p>Na semana seguinte, voltou novamente agressivo e irritado, alegando que quase havia ca\u00eddo, por causa da nossa afei\u00e7\u00e3o, mas que conseguira reagir.<br \/> N\u00e3o est\u00e1 convencido, mas concordou em n\u00e3o gritar mais e a n\u00e3o nos incomodar, dali em diante, com a sua presen\u00e7a.<br \/> Seguir\u00e1 seu caminho de sempre, e acrescentou:<br \/>\n<br \/>\u2014 Poderia enganar voc\u00ea e dizer que estou convertido, mas n\u00e3o quero fazer isso.<\/p>\n<p>\u00c9 honesto: responde com dignidade \u00e0 nossa tentativa de aproxima\u00e7\u00e3o e entendimento; agrade\u00e7o sua lealdade e ele segue procurando atrair-me para o debate.<br \/> Qualquer argumento que lhe apresente, ele o \u201cvira\u201d \u00e0 sua maneira, para servir aos seus propositos e justificar sua filosofia de vida.<br \/> Faz pouco da minha intelig\u00eancia, que ridiculariz\u00e0 \u00e0 vontade.<br \/> Bem que se esfor\u00e7ou \u2014 diz ele \u2014 em mostrar-me o caminho: somente se deixaria convencer pela argumenta\u00e7\u00e3o; nada mais.<\/p>\n<p>O doutrinador precisa estar preparado para situa\u00e7\u00f5es assim.<br \/> Em primeiro lugar, como j\u00e1 vimos, o clima da discuss\u00e3o \u00e9 o que conv\u00e9m a esses irm\u00e3os atormentados.<br \/> A conversa mansa e a busca de entendimento n\u00e3o interessa aos seus prop\u00f3sitos.<br \/> Em segundo lugar, \u00e9 preciso considerar que nada temos a dizer-lhes que eles n\u00e3o saibam.<br \/> Conhecem perfeitamente a sua condi\u00e7\u00e3o de Esp\u00edritos desencarnados, a responsabilidade que assumiram perante a lei, o conceito da reencarna\u00e7\u00e3o, a imortalidade, a exist\u00eancia de Deus.<br \/> S\u00e3o inteligentes e experimentados.<br \/> N\u00e3o \u00e9.<br \/> pois, pelos caminhos frios da mente que chegaremos a eles e, sim, atrav\u00e9s do roteiro luminoso do amor fraterno.<br \/> E \u00e9 precisamente por isso que, consciente ou inconscientemente, procuram arrastar-nos para o debate:<br \/>\n<br \/>terreno firme, que conhecem e no qual podem esgrimir \u00e0 vontade seus argumentos, de um ponto de vista vantajoso; quanto ao campo sentimental, consideram \u201cperigoso\u201d, porque est\u00e1 minado de imprevistos.<br \/> Quando menos se espera, surge do passado uma lembran\u00e7a esquecida, o vulto espiritual de um ser a quem muito amaram, o apelo de uma voz cariciosa.<\/p>\n<p>A certo ponto, cesso a conversa e oro.<br \/> Ele ainda insiste em falar e prosseguir o debate, mas acaba calando-se.<br \/> Quando tenta reagir \u201cf\u00edsicamente\u201d, est\u00e1 preso pelos pulsos por um la\u00e7o flu\u00eddico, invis\u00edvel a n\u00f3s, mas que o mant\u00e9m fortemente contido, por mais que se esforce.<br \/> Volta a esbravejar, amea\u00e7ar.<br \/> Come\u00e7a a crise maior.<br \/> \u00c9 evidente que tenta, ainda, reagir, e procura acalmar-se, dizendo que estou me esgotando inutilmente na tentativa de domin\u00e1-lo.<br \/> N\u00e3o tenho a menor inten\u00e7\u00e3o de domin\u00e1-lo e, sim, de despertar o seu Esp\u00edrito.<br \/> Dou-lhe prolongados passes, enquanto a crise se adensa e aprofunda.<\/p>\n<p>Subitamente, ele come\u00e7a a gritar que n\u00e3o quer e n\u00e3o pode fazer aquilo, e informa, realmente em p\u00e2nico, que tudo est\u00e1 ruindo em torno dele e dentro dele.<br \/> Por fim, chora, desesperado, e parte.<\/p>\n<p>Este irm\u00e3o voltou mais uma vez, na semana seguinte.<br \/> Apresenta-se completamente desarvorado, mas ainda procura iludir-se, tentando convencer-se de que est\u00e1 vivendo um pesadelo, do qual vai acordar a qualquer momento.<br \/> Digo-lhe que, ao contr\u00e1rio, agora \u00e9 que ele acordou de um pesadelo multissecular.<br \/> Ele est\u00e1 arrasado.<br \/> Confessa que, pela primeira vez, tem medo: est\u00e1 vazio e quer dormir, para esquecer.<\/p>\n<p>\u00c9 o grande momento da compreens\u00e3o, da ternura, do amor fraterno.<br \/> Muito respeito pela sua crise, muito carinho com as suas dificuldades, seus temores, seus desesperos.<br \/> Ele sabe, ou pressente, o que o espera, em termos de resgates dolorosos, que se estender\u00e3o pelos s\u00e9culos futuros, at\u00e9 onde e quando, somente Deus saber\u00e1.<br \/> \u00c9 preciso ajud\u00e1-lo, com muita paci\u00eancia, lev\u00e1-lo, terna-mente, a dar o passo final, que o tira de cima do fio da navalha e o coloca no lado positivo da fronteira da nova exist\u00eancia, cujas perspectivas se abrem diante dele, mas que ele ainda n\u00e3o consegue lobrigar com precis\u00e3o.<br \/> \u00c9 necess\u00e1rio assegurar-lhe, nesse momento, a presen\u00e7a infal\u00edvel de Deus em nossas vidas, o amor indubit\u00e1vel do Cristo, que deseja que o pecador se salve, e n\u00e3o que seja condenado a conviver com ang\u00fastias que parecem eternizar-se.<br \/> Al\u00e9m do mais, como temos visto, nunca falta, nessa hora, a presen\u00e7a de antigos e esquecidos amores: m\u00e3es, esposas, irm\u00e3os, amigos, que nos ajudam na fase final da doutrina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Este \u00e9 o momento mais emocionante de todo o trabalho, O Esp\u00edrito, em crise, precisa, mais do que nunca, de uma palavra de sincera afei\u00e7\u00e3o, mesmo que ainda tente uma rea\u00e7\u00e3o desesperada, de \u00faltima hora.<\/p>\n<p>Num caso desses, o irm\u00e3o entrou em crise e come\u00e7ou a monologar, enquanto fico ao seu lado, em sil\u00eancio reverente.<br \/> Depois de algum tempo, ele se volta para mim \u2014 e isto me comove profundamente \u2014 e me prop\u00f5e uma visita minha aos seus dom\u00ednios.<br \/> Diz que determinar\u00e1 aos seus guardas que me deixem passar livremente.<\/p>\n<p>\u2014\tVoc\u00ea sabe \u2014 acrescenta \u2014 que eu n\u00e3o te farei mal algum.<\/p>\n<p>Come\u00e7a, em seguida, a ver cenas do seu passado distante.<br \/> Ainda reage, tentando sugestionar-se de que \u00e9 forte e n\u00e3o vai \u201ccair\u201d, mas sente um arrastamento incoerc\u00edvel,<br \/>\n<br \/>\u2014\tE voc\u00eas \u2014 dirige-se a companheiros invis\u00edveis \u2014 com essas caras luminosas, que est\u00e3o a\u00ed me olhando?<br \/>\n<br \/>E para mim:<br \/>\n<br \/>\u2014\tE voc\u00ea? N\u00e3o diz nada?<br \/>\n<br \/>S\u00f3 sei dizer duas palavras:<br \/>\n<br \/>\u2014\tMeu amigo!<br \/>\n<br \/>Ele a repete, e depois esbraveja:<br \/>\n<br \/>\u2014\tMaldito lago!<br \/>\n<br \/>As vis\u00f5es o atormentam implacavelmente.<br \/> \u00c9 o lago aben\u00e7oado em que pregara o Cristo.<br \/> Est\u00e1 arrasado, e diz que precisa recompor-se, pois seus soldados est\u00e3o l\u00e1 fora e n\u00e3o devem v\u00ea-lo naquele estado.<br \/> Chama-me de traidor, mas n\u00e3o sinto nele nenhum \u00f3dio:<br \/>\n<br \/>\u00e9 apenas desespero.<br \/> Algu\u00e9m, de elevada condi\u00e7\u00e3o espiritual, uma mulher, o espera no limiar da nova exist\u00eancia, mas ele ainda reluta.<br \/> Pensa em pedir uma licen\u00e7a aos seus chefes e afastar-se, por algum tempo, do \u201ctrabalho\u201d.<\/p>\n<p>Estas crises caracterizam-se pela revolta, ante o inevit\u00e1vel.<br \/> H\u00e1, por\u00e9m, as que precipitam no arrependimento e no remorso mais pat\u00e9tico.<\/p>\n<p>A um desses pobres irm\u00e3os desarvorados, que se manifestara com requintes de arrog\u00e2ncia e ironia, vimos obrigar o m\u00e9dium a ajoelhar-se, em pranto.<br \/> Julga-se um abutre sem remiss\u00e3o.<br \/> Tivera o privil\u00e9gio de viver na \u00e9poca do muito amado Francisco de Assis, a quem conhecera pessoalmente, mas cuja mensagem, de amor sem limites, n\u00e3o conseguira ainda assimilar; ao contr\u00e1rio, dedicava-se, com todo o poder de sua intelig\u00eancia e de seus conhecimentos, \u00e0 pavorosa t\u00e9cnica do \u201ccrime religioso\u201d, segundo conceitua\u00e7\u00e3o de um dos nossos companheiros.<\/p>\n<p>Em suma: a crise manifesta-se de muitas maneiras, mas dentro de certas configura\u00e7\u00f5es padronizadas: arrependimento, temor, revolta ou deslumbramento.<br \/> Vem sempre acompanhada de profundas emo\u00e7\u00f5es; n\u00e3o \u00e9 um momento que o Esp\u00edrito consiga viver com indiferen\u00e7a e frieza, sendo, por conseguinte, a oportunidade preciosa, que o doutrinador n\u00e3o pode deixar passar, para alcan\u00e7\u00e1-lo atrav\u00e9s do sentimento, da emotividade, do afeto.<br \/> Trate-o com muito carinho, guie os seus passos vacilantes pelo novo caminho que come\u00e7a a trilhar.<br \/> N\u00e3o o force, mas procure n\u00e3o desperdi\u00e7ar a ocasi\u00e3o de estimul\u00e1-lo a tomar a decis\u00e3o que vai mudar sua vida.<br \/> N\u00e3o tente engan\u00e1-lo, acenando-lhe com um para\u00edso imediato, que ele sabe n\u00e3o estar ao seu alcance.<br \/> N\u00e3o o atemorize com amea\u00e7as, n\u00e3o carregue nas cores do sofrimento que o espera.<br \/> Seja simples, humano, amoroso, realista.<br \/> Ofere\u00e7a-lhe a sua ajuda, mencione a assist\u00eancia espiritual que estar\u00e1 ao seu dispor, n\u00e3o para fazer por ele, mas para fazer com ele, o trabalho de reconstru\u00e7\u00e3o que o aguarda.<br \/> Lembre a necessidade da prece constante, da confian\u00e7a, da coragem otimista.<br \/> Destaque os reencontros espirituais com os seus amados, que h\u00e1 tanto tempo o esperam.<br \/> N\u00e3o se esque\u00e7a de que a dor e o temor o atormentam.<br \/> Coloque em seu cora\u00e7\u00e3o a semente da esperan\u00e7a e mostre-lhe, confiante, as perspectivas da paz.<br \/> A essa altura, ele n\u00e3o pode mais voltar sobre seus passos, para a prote\u00e7\u00e3o feroz da sua antiga organiza\u00e7\u00e3o ou do seu regime de irresponsabilidade pessoal.<br \/> Seus ex-comparsas n\u00e3o mais o receberiam, sen\u00e3o para castig\u00e1-lo pela sua \u201cfraqueza\u201d.<br \/> Ele n\u00e3o pode mais contar com aqueles que pensava serem seus amigos, e aqueles que o esperam, para ajud\u00e1-lo, ele n\u00e3o os conhece muito bem, ou ent\u00e3o, sente diante deles uma vergonha mortal, pela enormidade de seus desvarios.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do mais, ele teme vingan\u00e7as cru\u00e9is, pois esse foi o clima em que viveu durante s\u00e9culos, ou mil\u00eanios; ou assusta-se ante a perspectiva de encarna\u00e7\u00f5es extremamente penosas, em corpos deformados, cegos ou mutilados.<\/p>\n<p>Um t\u00edpico exemplo desses, quando o Esp\u00edrito fica sobre a linha, contemplando as duas perspectivas \u2014 passado e presente \u2014 tenho-a num caso de que tratamos.<\/p>\n<p>Era extremamente rebelde, rude, agressivo e violento, fora tamb\u00e9m um inquisidor.<br \/> Ao despertar para a verdade, confessa a afli\u00e7\u00e3o que experimenta, diante da enormidade de suas culpas.<br \/> N\u00e3o se julga digno da afei\u00e7\u00e3o de Esp\u00edritos t\u00e3o elevados, como o de sua m\u00e3e.<br \/> Est\u00e1 perplexo ante a cegueira espiritual que, por tanto tempo, o impeliu a cometer tantos e t\u00e3o graves desatinos, e o impediu de atender ao apelo de seus verdadeiros amigos, dos quais nem percebia a presen\u00e7a junto de si.<br \/> Preocupa-se com aqueles que liderava, no mundo das sombras, que, a seu ver, ficariam agora ao abandono.<br \/> Digo-lhe que Deus vela por todos n\u00f3s e que uma tarefa que poderia desempenhar, mais tarde, seria precisamente a de ajudar a recuperar os irm\u00e3os que ainda ficaram nas sombras.<br \/> Pede que oremos por ele e que o perdoemos pelo tratamento que nos deu, de in\u00edcio, com a sua agressividade.<br \/> Tamb\u00e9m eu lhe pe\u00e7o minhas desculpas, por uma ou outra palavra mais en\u00e9rgica, necess\u00e1ria, \u00e0s vezes, para o despertamento.<br \/> Ele chora, pela primeira vez em muito, muito tempo, segundo nos informa.<br \/> E parte.<\/p>\n<p><\/p>\n<div class=\"pvc_clear\"><\/div>\n<p id=\"pvc_stats_19352\" class=\"pvc_stats all  \" data-element-id=\"19352\" style=\"\"><i class=\"pvc-stats-icon medium\" aria-hidden=\"true\"><svg aria-hidden=\"true\" focusable=\"false\" data-prefix=\"far\" data-icon=\"chart-bar\" role=\"img\" xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" viewBox=\"0 0 512 512\" class=\"svg-inline--fa fa-chart-bar fa-w-16 fa-2x\"><path fill=\"currentColor\" d=\"M396.8 352h22.4c6.4 0 12.8-6.4 12.8-12.8V108.8c0-6.4-6.4-12.8-12.8-12.8h-22.4c-6.4 0-12.8 6.4-12.8 12.8v230.4c0 6.4 6.4 12.8 12.8 12.8zm-192 0h22.4c6.4 0 12.8-6.4 12.8-12.8V140.8c0-6.4-6.4-12.8-12.8-12.8h-22.4c-6.4 0-12.8 6.4-12.8 12.8v198.4c0 6.4 6.4 12.8 12.8 12.8zm96 0h22.4c6.4 0 12.8-6.4 12.8-12.8V204.8c0-6.4-6.4-12.8-12.8-12.8h-22.4c-6.4 0-12.8 6.4-12.8 12.8v134.4c0 6.4 6.4 12.8 12.8 12.8zM496 400H48V80c0-8.84-7.16-16-16-16H16C7.16 64 0 71.16 0 80v336c0 17.67 14.33 32 32 32h464c8.84 0 16-7.16 16-16v-16c0-8.84-7.16-16-16-16zm-387.2-48h22.4c6.4 0 12.8-6.4 12.8-12.8v-70.4c0-6.4-6.4-12.8-12.8-12.8h-22.4c-6.4 0-12.8 6.4-12.8 12.8v70.4c0 6.4 6.4 12.8 12.8 12.8z\" class=\"\"><\/path><\/svg><\/i> <img decoding=\"async\" width=\"16\" height=\"16\" alt=\"Loading\" data-src=\"https:\/\/www.centronocaminhodaluz.com.br\/wp-content\/plugins\/page-views-count\/ajax-loader-2x.gif\" border=0 src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" class=\"lazyload\" style=\"--smush-placeholder-width: 16px; 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Esp\u00edritos muito agressivos e violentos manifestam-se, de in\u00edcio, irritadissimos, em altos brados, dando murros na mesa, proferindo amea\u00e7as terr\u00edveis. 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