Revista 1858

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Obsediados e Subjugados

Muito se tem falado dos perigos do Espiritismo.

Entretanto, é de notar-se que aqueles que mais gritaram são

precisamente os que só o conhecem de nome. Já refutamos os

principais argumentos que lhe opuseram, de tal forma que a eles

não mais retornaremos; acrescentaremos somente que, se

quiséssemos proscrever da sociedade tudo quanto possa oferecer

perigo e dar margem a abuso, não saberíamos ao certo o que haveria

de restar, mesmo em relaçãoàs coisas de primeira necessidade, a

começar pelo fogo, causa de tantas desgraças; as estradas de ferro,

em seguida, etc., etc. Se admitirmos que as vantagens compensam

os inconvenientes, o mesmo raciocínio se aplica a tudo o mais: assim

o indica a experiência,à medida que tomamos certas precauções

para nos subtrairmos aos perigos que não podemos evitar.

Realmente, o Espiritismo representa um perigo real; de

modo algum, porém, aquele que se supõe: é preciso que se seja

iniciado nos princípios da ciência para bem compreendê-lo. Não

nos dirigimos absolutamenteàqueles que lhe são estranhos, mas

aos próprios adeptos, aos que o praticam, visto ser para eles que o

perigo existe. Importa que o conheçam, a fim de se porem em guarda:

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perigo previsto, já se sabe, é perigo pela metade. Diremos mais:

para quem quer que esteja instruído na ciência, não há perigo; só

existe para os que julgam saber e nada sabem, isto é, para os que

não possuem a necessária experiência, como sói acontecer em todas

as coisas.

Um desejo muito natural em todos aqueles que

começam a se ocupar do Espiritismo é ser médium, principalmente

médium de psicografia. Sem dívida é o gênero que oferece mais

atração, em virtude da facilidade das comunicações, e por ser o

que melhor se desenvolve pelo exercício. Compreende-se a

satisfação que deve experimentar aquele que, pela primeira vez,

vê a própria mão formar letras, depois palavras, depois frases que

respondem aos seus pensamentos. Essas respostas, que traça

maquinalmente, sem saber o que faz e que, no mais das vezes,

estão fora de toda idéia pessoal, não lhe podem deixar nenhuma

dívida quantoà intervenção de uma inteligência oculta. Assim,

grande é a sua alegria de poder se entreter com os seres de alémtímulo,

com esses seres misteriosos e invisíveis que povoam os

espaços; seus parentes e amigos já não se acham ausentes; se não

os vê com os olhos, nem por isso deixam de ali estar; conversam

com ele, e ele os vê pelo pensamento; pode saber se são felizes, o

que fazem, o que desejam e com eles trocar boas palavras;

compreende que entre eles a separação não é eterna e acelera,

com seus votos, o instante em que poderão reunir-se num mundo

melhor. Isso não é tudo: quanto não vai saber por meio dos

Espíritos que se comunicam com ele! Não irão levantar o véu de

todas as coisas? Desde então, nada mais de mistérios; não tem

senão que interrogar, para tudo ficar sabendo. À sua frente, já vê

a Antiguidade sacudir a poeira dos tempos, revolver as ruínas,

interpretar as escrituras simbólicas e fazer reviver aos seus olhos

os séculos que se foram. Outro, mais prosaico, e menos preocupado

em sondar o infinito onde seu pensamento se perde, simplesmente

sonha em explorar os Espíritos para fazer fortuna. Os Espíritos,

que devem ver tudo e tudo saber, não podem recusar fazer-lhe

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descobrir algum tesouro oculto ou algo secreto e maravilhoso.

Quem quer que se dê ao trabalho de estudar a ciência espírita não

se deixará jamais seduzir por esses belos sonhos; sabe a que se

ater sobre o poder dos Espíritos, sua natureza e o objetivo das

relações que com eles pode o homem estabelecer. Recordemos,

primeiro, em poucas palavras, os pontos principais, que jamais

devem ser perdidos de vista, porque são como que a pedra angular

do edifício.

1o Os Espíritos não são iguais nem em poder, nem em

conhecimento, nem em sabedoria. Nada mais sendo que as almas

dos homens, desembaraçadas de seu invólucro corporal, apresentam

variedade ainda maior do que as encontradas entre os homens na

Terra, visto procederem de todos os mundos e porque entre os

mundos o nosso planeta não é o mais atrasado, nem o mais avançado.

Há, pois, Espíritos muito superiores, e outros bastante inferiores;

muito bons e muito maus, muito sábios e muito ignorantes; há os

levianos, malévolos, mentirosos, astuciosos, hipócritas, engraçados,

espirituosos, zombeteiros, etc.

2o Estamos incessantemente cercados por uma multidão

de Espíritos que, por serem invisíveis aos nossos olhos materiais,

nem por isso deixam de estar no espaço, ao redor de nós, ao nosso

lado, espiando nossas ações, lendo os nossos pensamentos, uns para

nos fazerem o bem, outros para nos induzirem ao mal, conforme

sejam bons ou maus.

3o Pela inferioridade física e moral de nosso globo na

hierarquia dos mundos, os Espíritos inferiores são aqui mais

numerosos que os superiores.

4o Entre os Espíritos que nos rodeiam, há os que se

vinculam a nós, que agem mais particularmente sobre o nosso

pensamento, aconselham-nos, e cujo impulso seguimos sem o saber.

Felizes se escutarmos somente a voz dos bons.

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5o Os Espíritos inferiores não se ligam senão aos que

os ouvem, junto aos quais têm acesso e aos quais se prendem. Caso

consigam estabelecer domínio sobre alguém, identificam-se com o

seu próprio Espírito, fascinam-no, obsidiam-no, subjugam-no e o

conduzem como se fosse uma verdadeira criança.

6o A obsessão jamais se dá senão pelos Espíritos

inferiores. Os Espíritos bons não causam nenhum constrangimento;

aconselham, combatem a influência dos maus e, se não são ouvidos,

afastam-se.

7o O grau de constrangimento e a natureza dos efeitos

que produz marcam a diferença entre a obsessão, a subjugação e a

fascinação.

A obsessão é a ação quase permanente de um Espírito

estranho, que faz com que a vítima seja induzida, por uma necessidade

incessante, a agir nesse ou naquele sentido, a fazer tal ou qual coisa.

A subjugação é uma opressão moral que paralisa a

vontade daquele que a sofre, impelindo-oàs mais despropositadas

ações e, frequentemente,àquelas que mais contrariam os seus

interesses.

A fascinação é uma espécie de ilusão, ora produzida

pela ação direta de um Espírito estranho, ora por seus raciocínios

capciosos, ilusão que altera o senso moral, falseia o julgamento e

faz tomar o mal pelo bem.

8o Por sua vontade, pode o homem livrar-se sempre do

jugo dos Espíritos imperfeitos, porque, em virtude de seu livrearbítrio,

tem a escolha entre o bem e o mal. Se o constrangimento

chegou a ponto de paralisar a vontade, e se a fascinação é bastante

grande para obliterar a razão, a vontade de uma outra pessoa pode

substituí-la.

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Outrora se dava o nome de possessão ao império exercido

pelos Espíritos maus, quando sua influência ia atéà aberração das

faculdades. Mas a ignorância e os preconceitos muitas vezes fizeram

tomar por possessão o que não resultava senão de um estado

patológico. Para nós, a possessão seria um sinônimo de subjugação.

Se não adotamos esse termo, foi por dois motivos: primeiro, porque

implica a crença em seres criados e votados perpetuamente ao mal,

enquanto apenas existem seres mais ou menos imperfeitos e todos

podem melhorar; segundo, porque pressupõe igualmente a idéia de

tomada de posse do corpo por um Espírito estranho, uma espécie

de coabitação, quando só há constrangimento. A palavra subjugação

traduz perfeitamente esse pensamento. Dessa forma, para nós, não

existem possessos no sentido vulgar do termo, mas tão-somente

obsequiados, subjugados e fascinado

Foi por motivo semelhante que não adotamos a palavra

demônio para designar os Espíritos imperfeitos, embora muitas vezes

esses Espíritos não valham mais que aqueles que chamamos

demônios; foi unicamente por causa da idéia de especialidade e de

perpetuidade que se liga a esse vocábulo. Assim, quando dizemos

que não há demônios, não pretendemos afirmar que só haja Espíritos

bons; longe disso; sabemos perfeitamente que os há maus e muito

maus, que nos impelem para o mal, que nos estendem armadilhas,

nada havendo nisso de espantoso, visto que foram homens. Queremos

dizer que eles não formam uma classeà parte na ordem da Criação, e

que Deus deixa a todas as criaturas o poder de se melhorarem.

Mel

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