BEM-AVENTURADOS OS QUE TÊM FOME E SEDE DE JUSTIÇA… – Rodolfo Calligaris – O Sermão da Montanha 5/5 (1)

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Contemplando o panorama do mundo, onde os bens e os males

se acham tão desigualmente repartidos, muitos há que não

compreendem a razão de ser dessas anomalias e chegam a descrer

da Justiça de Deus.

Se Ele é soberanamente justo e bom, indagam, por que dá a uns

uma vida repleta de alegrias e satisfações, enquanto a outros

reserva uma sucessão intérmina de agruras e sofrimentos? Por que

uns dormem sob dourados tetos, enquanto outros jazem sobre

palhas, ou tiritam de frio, sem que tenham onde abrigar-se nem

possuam sequer alguns farrapos com que cobrir sua nudez? Por

que uns se banqueteiam regaladamente, todos os dias, enquanto

outros necessitam estender a mão à caridade pública para

conseguir um pedaço de pão com que atendam às exigências do

estômago vazio? Por que algumas damas, ostentando

luxuosíssimos vestidos, adornadas de joias de alto preço, levam

vida despreocupada e risonha, entre acordes de orquestras e

espocar de champanhes, enquanto jovens pálidas e andrajosas

definham ao peso de trabalho rude e estafante? Por que se

concedem, a uns, certos privilégios, que se tornam odiosos ante o

abandono a que outros são relegados?

O que se vê por toda parte não é a mais flagrante iniquidade,

tornando falaciosa a promessa do Cristo de que os famintos e

sedentos de justiça seriam fartos?

De fato, se tivéssemos uma só existência, a doutrinação do

Mestre seria um engodo.
À luz da reencarnação, entretanto, as

diferenças sociais, como de resto todas as desigualdades que tanto

ofendem as almas sensíveis e perquiridoras, não se constituem

expressões do arbítrio divino; são agentes de progresso e

preenchem, transitoriamente, uma necessidade na economia da

evolução individual e coletiva.

Claro que tais diferenças haverão de desaparecer um dia, com

o progresso moral da Humanidade, mas, enquanto isso não venha,

elas subsistirão, malgrado as revoluções, as leis e os discursos que

os homens façam com a finalidade de as abolir.

É que a evolução da espécie humana não é unilateral: deve e

tem de realizar-se sob múltiplos aspectos — queiramos ou não —

passando cada ser por uma infinidade de provas e

experimentações, cujo ensejo lhes é proporcionado pelas diversas

castas e classes em que se dividem as sociedades.

No estado em que os terrícolas nos encontramos, aliás de

grande atraso, sempre que mudamos de posição, mudamos

também de ideias e sentimentos, em conformidade com os novos

interesses e o novo alvo de nossos desejos.
Isso prova bem quão

necessário é ainda que mudemos muitas vezes de posição, através

de sucessivas encarnações, para que, trabalhando, sofrendo,

estudando e adquirindo experiência, pelo melhor conhecimento

das coisas, desenvolva-se em nós o espírito de equidade e de

justiça, indispensável ao nosso progresso individual e à boa

orientação que devemos dar à marcha dos acontecimentos, em

prol do bem coletivo.

Disse Kardec, alhures, que a Terra é um misto de escola,

presídio e hospital, cuja população se constitui, portanto, de

homens incipientes, pouco evolvidos, aspirantes ao aprendizado

das leis naturais; ou inveterados no mal, banidos, para esta colônia

correcional, de outros planetas, onde vigem condições sociais

mais elevadas; ou enfermos da alma, necessitados de expungirem

suas mazelas pelas provações mais ou menos dolorosas e aflitivas.

É natural, pois, que, num meio assim tão heterogêneo, haja

profundas diferenciações na sorte das criaturas, capazes de

provocar clamores e de desnortear, pela sua complexidade,

qualquer sociólogo menos conhecedor do plano divino da

evolução.

Assim, aquelas palavras do Mestre: “Bem-aventurados os que

têm fome e sede de justiça, porque eles serão saciados” (Mateus,

5:6), não se referem, como poderia parecer, aos que,

inconformados com sua condição, protestam, amaldiçoam ou

promovem agitações subversivas, mas sim aos que, qualquer que

seja a classe social em que se encontrem, procuram, de

consciência tranquila, seguir-lhe as pegadas, alimentando a nobre

aspiração de pautar seus próprios atos de conformidade com os

mais altos ideais de justiça e retidão, respeitando

escrupulosamente os direitos de seus semelhantes, procurando

tirar de sua atuação o maior resultado possível para a evolução

própria e o bem alheio.

É com discípulos desse feitio que o Cristo conta como

cooperadores, para a implantação na Terra de um estilo de vida

mais consentâneo com o Direito e a Moral.

Que os verdadeiros cristãos, inspirados no exemplo do Mestre,

que desceu dos cimos da pureza e da perfeição e imergiu neste

mundo corrompido e tenebroso a fim de dar o de que a

Humanidade necessitava para alcançar a redenção, saiam, pois, a

campo, empenhando-se de corpo e alma na construção da

sociedade do porvir.

Há oportunidades para isso em inúmeros setores.
Enquanto

outros derrubam e destroem o que é arcaico e já não convém ao

estágio evolutivo atual, chamem a si a tarefa de desarmar os

espíritos, preparando-os para uma vivência de paz e de concórdia;

lutem para que se reconheça no trabalho o fator supremo do bemestar

coletivo e se assegure aos que o exercem retribuição justa,

suficiente ao atendimento de suas necessidades essenciais;

esforcem-se por infiltrar as luzes do Evangelho em todas as

camadas sociais.
.
.

Quando os homens estiverem suficientemente cristianizados e,

submetendo-se espontaneamente à lei do “amai-vos uns aos

outros”, tenham aprendido a obrar sempre em harmonia com esse

preceito, nenhum conflito de interesse, nenhuma desavença os

dividirá; tratar-se-ão fraternalmente; haverá perfeito

entendimento e concordância entre todos, resolvendo-se todas as

questões sem guerras, sem ditaduras e sem dissídios de espécie

alguma.

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