“Não andeis cuidadosos de vossa vida, pelo que haveis de
comer, nem do vosso corpo, pelo que haveis de vestir.
Não é mais
a alma que a comida, e o corpo mais que o vestido?
Olhai para as aves do céu, que não semeiam nem segam, nem
fazem provimento nos celeiros, e contudo vosso Pai celestial as
sustenta.
Porventura não sois muito mais do que elas?
E por que andais solícitos pelo vestido? Considerai como
crescem os lírios do campo.
Eles não trabalham nem fiam;
entretanto, nem Salomão em toda a sua glória se cobriu jamais
como um deles.
Pois se ao feno do campo, que hoje existe e amanhã é lançado
no forno, Deus veste assim, quanto mais a vós, homens de pouca
fé?
Não vos aflijais, pois, dizendo: que comeremos, ou que
beberemos, ou com que nos cobriremos? Porque os gentios é que
se cansam por essas coisas.
Vosso Pai sabe que tendes
necessidade de todas elas.
” (Mateus, 6:25 a 32.
)
O texto que precede estas linhas, longe do que possa parecer à
primeira vista, não é uma exaltação à ociosidade.
Interpretá-lo “ao
pé da letra”, supondo nos seja lícito cruzar os braços, à espera de
que a Providência nos forneça tudo o de que precisamos, sem
qualquer esforço de nossa parte, fora grande estultícia.
O trabalho é o instrumento de nossa auto-realização: suprimilo
equivaleria a sustar o progresso individual e,
consequentemente, a evolução da Humanidade.
Além disso, é ordenação divina que “o homem deve prover ao
seu sustento com o suor do seu rosto, chegando o apóstolo Paulo
a declarar que “quem não trabalha não deve comer”.
Essas palavras de Jesus são, pois, isto sim, um incitamento a
que tenhamos fé em Deus, nosso Pai celestial, confiemos em sua
Bondade Infinita e não invertamos a hierarquia dos valores,
preocupando-nos mais (ou só) com a conquista dos bens materiais,
sem dar a devida atenção à nossa edificação espiritual.
De fato, aquele que nos deu a vida sabe que precisamos de
alimentos para a subsistência de nosso corpo, assim como de
vestimenta para cobri-lo e resguardá-lo das intempéries.
E porque nos tem amor maior do que o amor que temos a nós
próprios, não se limita a prover-nos meramente de quanto nos seja
indispensável à existência, mas esparge a mancheias, por toda
parte, traços de beleza e cânticos de alegria, a fim de que nossa
jornada neste mundo se torne mais suave e mais prazerosa.
As flores gráceis e perfumadas, as árvores frondosas e amigas,
as aves com suas plumagens policrômicas e álacres gorjeios são
bênçãos maravilhosas com que Deus envolve a todos os seus
filhos, para ensinar-nos que assim também devemos proceder uns
com os outros, fazendo cada qual quanto lhe seja possível para a
alegria e a felicidade de todos.
Aprofundando a explicação, Jesus nos esclarece: “Olhai as
aves do céu, que não semeiam nem ceifam, não amontoam nos
celeiros e, no entanto, o Pai celestial as alimenta.
Não valeis
muito mais do que elas?”.
É como se nos dissesse:
Por que tanto vos inquietais com “o vosso futuro”? Por que a
obsessão de acumular mais do que podeis consumir? Não
percebeis que aquilo que retendes, em demasia, vai causar a fome
e a miséria de vossos irmãos? Não notastes ainda que o egoísmo
é a fonte de quase todos os males que perturbam e afligem a
Humanidade?
Vivei como os pássaros: joviais e despreocupados, na certeza
de que, seguindo o preceito evangélico do “buscai e achareis”,
sempre obtereis o de que precisais.
Não vos convencestes ainda da munificência divina?
Contemplai, então, os lírios do campo.
“Eles não trabalham nem
fiam; não obstante, nem Salomão, em toda a sua glória, jamais se
vestiu com tanta graça e formosura”.
Crede: Deus é nosso Pai, e, se demonstra cuidados com as aves
e as flores, que, na escala evolutiva, estão muito abaixo de vós,
quanto mais desvelo, quanto mais carinho, não há de ter para
convosco?
Não vos martirizeis, portanto, pelo que haveis de comer ou
beber, nem pelo que haveis de vestir, porque não fostes colocados
na Terra apenas para isso, mas para que aprendais a viver segundo
as leis da bondade e da justiça.
.
.
Tal — assim nos parece — o vero sentido desta preciosa lição
do Mestre dos mestres.